72
Parados na A1
Director Adjunto da Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
  • Partilhe
Agosto 10, 2016

Domingo, enquanto regressava do Norte do País, vi tudo a arder. Fogos, uns atrás dos outros. Alguns activos, outros em rescaldo. Percebia-se a diferença pela cor do fumo.

A cor do sol também era diferente. Amarelada, quando filtrada pelas nuvens grossas que dominavam o céu.

A cada par de quilómetros, um novo fogo. Muito próximos da auto estrada, de casas, da vida das pessoas. Imagine-se o sofrimento, a angústia, o desespero de quem vê o fogo aproximar-se e consumir tudo o que tem e custou uma vida a reunir.

Absortos nestes pensamentos lá íamos encurtando a distância sem pensar no óbvio: a probabilidade de um dos fogos se aproximar da estrada ao ponto de a cortar era enorme.

E assim foi. A pouca distância de Ovar, a auto estrada A1 estava parada.

O cérebro humano tem formas curiosas de reagir. Se me tivessem dito, no momento em que parei, que haveria de ali estar por quase duas horas, não imagino que reacção teria. Assim, na ignorância e resignação, passado esse tempo foi quase com nostalgia que vi o trânsito voltar a fluir.

Com tudo parado e sendo claro que não retomaria marcha tão cedo, abrem-se portas e saem pessoas. Estão 42 graus em cima do alcatrão.

Pouco depois também se abriram os porta bagagens. De carros, carrinhas e furgões.

De um saía uma geladeira. Enorme. Daquelas que se vêem na praia. Águas e minis frescas saltavam a bom ritmo.

À volta juntou-se um pequeno grupo, que ia engrossando, de rapazes em busca da mini fresca. E logo se transformou num quiosque improvisado. Os que ali acorriam levavam o dinheiro trocado. Recusado pelos generosos proprietários que partilhavam a água e as minis com os colegas de infortúnio.

Estava ali uma mistura curiosa de pessoas. Muitos equipados com camisolas do Braga e do Benfica, a caminho do estádio de Aveiro para assistir às supertaça. Notava-se algum nervosismo e cepticismo sobre a possibilidade de chegar a horas ao jogo. Pela berma passou um carro da Rádio Renascença que depois, veio a saber-se ao sintonizar o rádio, transportava o relator, também ele atrasado para o jogo.

Outros carros com matrícula de França e do Luxemburgo denotavam o regresso à Pátria da diáspora. Um deles – um bólide apetrechado com potente sistema sonoro – exibia, orgulhoso, o selo da Federação Portuguesa de Futebol na matrícula francesa, enquanto debitava em decibéis os últimos êxitos do disco sound.

Logo ali se improvisava um comício. Que este país é sempre a mesma coisa. Que ninguém avisou. Que não cortaram a auto estrada no local da saída. Que para os grandes é sempre tudo e os pequenos que sofram. Que lá fora não se vê nada disto.

Um grupo excursionista, saído do seu autocarro, preparava um piquenique na berma da auto-estrada.

Crianças jogavam à bola por entre os carros.

Visto ao longe, parecia mais um dia de praia. Não fora estarmos todos no meio da estrada que liga as duas principais cidades portuguesas. Num dia em que o país ardia.

Quando a fome apertou, voltaram a abrir-se as bagageiras. Desta vez gritava alguém: "há aqui chouriça e pasteis de bacalhau que chegue para todos!".

Até que, passadas quase duas horas, uma cadeia de avisos percorreu a estrada: Vai andar!

Todos voltaram a correr para os carros, levantando o arraial entretanto montado. E olhavam uns para os outros com misto de alívio e consternação.

Não vi o casal que distribuía garrafas de água. Mas vi tantos outros a distribuir outras coisas. Isso não diminui aquele casal; eleva-os a todos. Porque Portugal não se esgota na crítica e nas dificuldades. Também se sublima nestes pequenos-grandes gestos do seu povo. Avisem-me quando decidirem cortar outra vez a estrada. Pode ser que passe por lá.


________________

Gonçalo Saraiva Matias é Professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
Partilha o artigo
Enviar o artigo: Parados na A1
Comentários

Comentários
Nome *
Email *
Localidade *
Anónimo
O seu comentário *
Está a submeter o seu comentário a esta notícia através do IP . Como não tem o login efectuado, o seu comentário está limitado a 300 caracteres e será alvo de moderação, pelo que não será publicado de imediato. Se comentar depois de efectuar login, beneficia de um conjunto de funcionalidades exclusivas para leitores registados.
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente.

nas redes
Segue Sábado.pt
Revista SÁBADO
Assine a revista SÁBADO
SÁBADO versão Epaper
A minha conta SÁBADO
Edição n.º 641
11 a 17 de Agosto de 2016
Copyright ©
Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução, na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media, uma empresa Grupo Cofina Media SGPS, S.A..
nas redes
amigos
101622 amigos
Dispositivos
Obrigado por ler a SÁBADO
;)
     
     
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login
Caso não esteja registado no site do Record, efectue o seu registo gratuito.