Agora nós, Europa
Director Adjunto da Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
Agora nós, Europa
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Novembro 22, 2016

Passadas as eleições nos Estados Unidos, e enquanto alguns se dedicam a discutir as dificuldades de constituição da equipa de transição ou os nomes da futura Administração, aquecem os motores, na Europa, para um ano eleitoral sem tréguas.

Um primeiro momento de aquecimento foram as eleições primárias, à direita, em França, este fim de semana. O outro será o referendo em Itália, em Dezembro.

Entre Fillon, Sarkozy e Jupé, os eleitores escolheram o primeiro, não por acaso, o mais à direita e pró Putin.

Tem sido dito, desde logo, que este voto, mais do que revelar preferência por Fillon, mostra o descontentamento com Sarkozy. Tratar-se-ia de um voto de protesto. Este fenómeno é bem conhecido: o voto anti-Hillary designa-se por Donald Trump e ocupará a sala oval a partir do próximo ano.

Depois, defende-se que a maior derrotada destas primárias é Marine Le Pen. Isto porque Fillon é o mais conservador dos três candidatos e disputa a direita a Le Pen em temas como a imigração ou a reforma educativa. Sempre na esperança de que Fillon seja capaz de recolher votos à esquerda e capitalize contra Le Pen numa eventual segunda volta. Mas também aqui a democracia tem trazido surpresas: depois da vitória de Trump, do Brexit e do referendo na Colômbia, não é possível fazer cálculos eleitorais ou confiar nas sondagens, isto caso entendêssemos que uma vitória de Fillon seria um mal menor.

Quem parece estar em alta por estes dias é a Rússia de Putin. Depois de um inesperado aliado do outro lado do Atlântico, perfila-se agora um simpatizante em França. Tudo para desespero do Países Bálticos, que têm fronteira com a Rússia, e temem todos os dias pela sua segurança, olhando para o que se passa na Ucrânia. Aliás, há muito que assumem que a sua segurança depende mais dos Estados Unidos do que da União Europeia, que integram. O futuro é, para eles, também incerto.

Para completar o quadro, tivemos o anúncio de que Angela Merkel será candidata às próximas eleições na Alemanha, deixando claro, no seu discurso, que só o faria por recear o resultado para a CDU, caso esta se apresentasse com outro candidato.

Mas, também aqui, a experiência recente não é a melhor.

Por um lado, os candidatos da continuidade, com mais experiência governativa, não têm sido premiados pelos eleitores.
Depois, Merkel beneficiava de enorme popularidade e capital político, até ter assumido uma posição muito corajosa – e meritória – relativamente à política de refugiados, garantindo que a Alemanha poderia acolher um número muito significativo. Ora, uma líder em funções, em queda de popularidade, em especial por ter demonstrado abertura quanto à questão dos refugiados, não augura nada de bom em termos eleitorais.

Finalmente, Merkel chocou com o seu parceiro de coligação, o SPD, em diversas matérias, entre as quais a defesa do comércio livre. Também aqui a vitória de Trump revela que a crítica ao TTIP rende votos. E o líder do SPD foi quem, do lado europeu, declarou o fim das negociações.

Porventura mais significativo que tudo isto é o facto de ter declarado candidatar-se para garantir a viabilidade da vitória da CDU e de uma certa forma de olhar a política. Como os exemplos recentes demonstram, os eleitores não apreciam que se lhes diga como devem votar e, muito menos, que se lhes acene com o determinismo de uma eleição.

Tudo isto aponta para um cenário bastante pessimista, de uma Europa a virar, não à direita, ou à esquerda – o que seria natural –, mas a abandonar os valores da democracia liberal.

Mais do que a censura às eleições nos Estados Unidos, relativamente às quais pouco podemos fazer, importa agora concentrar atenções na Europa e nas eleições que se seguem. Porque afinal parece que Merkel – que tantos gostaram de criticar durante os anos da crise – representa hoje a última esperança de uma Europa unida, solidária e que preserva os seus valores civilizacionais.

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Gonçalo Saraiva Matias é Professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
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