O mundo ao contrário
Director Adjunto da Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
O mundo ao contrário
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Dezembro 21, 2016

Em Julho, disse aqui que o mundo tinha mudado. Isto a propósito dos atentados de Nice e de Munique, e do falhado golpe de Estado na Turquia.
E mudou mesmo.

Os atentados terroristas têm-se sucedido, sem que lhes prestemos já grande atenção – assim contribuindo para a banalidade do mal –, seguindo o método do "lobo solitário". São, aparentemente, perpetrados por indivíduos desligados de grupos ou organizações – o que torna a sua identificação muito mais difícil –, depois prontamente reivindicados pelo chamado "Estado Islâmico".

Acabamos de assistir, no mesmo dia, a dois factos de grande gravidade, relacionados com aqueles países.

Na Turquia, em Ankara, um polícia Turco, impecavelmente vestido, tendo passado por segurança pessoal do Embaixador Russo, abateu em directo para as televisões aquele diplomata. Ao mesmo tempo, declarava tratar-se de um ato de vingança por Aleppo.

Em Berlim, um camião irrompeu pela multidão, em pleno mercado de Natal, matando várias pessoas e ferindo muitas outras.

Turquia e Alemanha, dois países centrais neste xadrez geoestratégico.

Durante todo o dia, as opiniões públicas foram convencidas de que, ao volante do camião, se encontrava um paquistanês requerente de asilo na Alemanha. Já só ao final da tarde o assunto foi esclarecido, com a polícia alemã a declarar ter prendido o homem errado.

Claro que umas horas bastaram para inflamar a opinião pública, já de si muito intoxicada, contra os refugiados, os estrangeiros, os islâmicos.

Como dizia Joseph Weiler numa conferência na Católica na semana passada, vive-se algo de parecido com o que sucedeu I Guerra Mundial. Isto para a distinguir da II em que, segundo ele, já todos sabiam o que ia suceder.

As comparações com a I Grande Guerra reapareceram quando foi conhecido o assassinato do Embaixador Russo, sobretudo a propósito da causa próxima daquela Guerra, o assassinato do Arquiduque Austro-Húngaro.

Estas comparações são, sem dúvida, exageradas. A história não se repete, certamente não da mesma exacta forma. Mas são demasiadas coincidências para lhes sermos indiferentes.

Os grande acontecimentos, as grande tragédias, raramente são produto de um só factor. Normalmente para elas contribuem uma conjugação de elementos que concorrem para um resultado extraordinário. Tudo parece conjugar-se, infelizmente, no momento actual.

O terrorismo já foi, no passado, especialmente atraído por períodos eleitorais e pela tentação de os influenciar. Assim aconteceu com os atentados em Atocha, Madrid, em 2004, tendo estes alterado de forma decisiva o curso das eleições espanholas.

Tenhamos presente que a Alemanha realiza eleições no próximo ano. E que o Eurobarómetro revela que as migrações e o terrorismo são as principais preocupações dos europeus neste momento. E que a Chanceler Merkel perdeu muita popularidade pela forma – corajosa, diga-se – como lidou com o tema dos refugiados. Um dia de equívoco sobre a suposta autoria do terrível atentado de Berlim, atribuindo-o a um refugiado, é devastador do ponto de vista da opinião pública. De resto, a própria Chanceler Merkel, na sua primeira declaração pública sobre o atentado, referiu esse facto.

Depois há a Turquia, as suas relações com a Rússia e com a Europa e o potencial de dano que o corte ou a degradação dessas relações pode ter.
Há ainda a Síria, os milhões de refugiados, a interminável batalha de Aleppo, a complexidade geostratégica multi-partida, os riscos do terreno, os receios de ir para o terreno.

E, finalmente, há Donald Trump.

O optimismo persistente não me permite esperar o pior. Impele-me a enquadrar cada um destes factos isoladamente, desejando que eles não se contaminem reciprocamente.

Mas, lá no fundo, sei bem, sabemos bem, que isso não é verdade. E que é nestes momentos, em que se encontra criado o caldo necessário, que o pior acontece.

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Gonçalo Saraiva Matias é Professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
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