Nº 300 / 17  Ter, 18 Dez 2001


Que é que se passa

Vasco Pulido Valente:

"Tenho dúvidas sobre a genuinidade da demissão do eng. Guterres"

"O cenário [um governo de iniciativa presidencial] é constitucionalmente possível, se o presidente da República conseguir arranjar uma maioria na Assembleia da República, o que nem será muito difícil, porque o PS não quer eleições agora, o CDS também não e desconfio que o PC as queira. Mas, pelo que conheço do dr. Sampaio, não o estou a ver meter-se numa aventura tão arriscada..."

ANTÓNIO TAVARES-TELES


Dois acontecimentos marcaram o domingo e a segunda-feira que acabámos de viver. O primeiro, mais importante sem dúvida, dada as suas grandes implicações do ponto de vista interno: as eleições autárquicas, com os resultados que se conhecem; o segundo, a consagração de Luís Figo como melhor jogador do mundo pela FIFA, facto que terá sem dúvida grande repercussão internacional, com reflexos muito positivos para o próprio Luís Figo mas também para o futebol português e até para Portugal.

Dada porém a exaustiva cobertura que vai ser dada a esta vitória do grande jogador, e dado que ainda não se ouvira a voz de um dos mais lúcidos analistas políticos portugueses - Vasco Pulido Valente - sobre o que politicamente aconteceu no domingo e sobre o que aí vem (coisa ainda muito pouco clara para toda a gente), achei por bem conversar com ele a esse respeito.

- Que é que se passa, Vasco? Você escreveu, sexta-feira última , no "Diário de Notícias" que "não acreditava que os resultados pudessem mudar seriamente a política nacional" e que, "no dia 17, recomeçaria a comédia guterrista, sem alterações de prigrama". Ora, enganou-se redondamente...
- Foi um erro de apreciação que quase toda a gente fez, uma apreciação que de resto parecia confirmada por todas as sondagens.

- O que é que, segundo você, se passou realmente no domingo?
- Passou-se fundamentalmente uma reacção contra o governo do eng. Guterres.

- Guterres admitiu a sua culpa e demitiu-se do cargo de secretário-geral do PS.
- Não percebi ainda muito bem qual foi a intenção do eng. Guterres. Mas como não existe no PS ninguém que o possa substituir e ganhar ao dr. Barroso dentro de dois meses e meio, pode ser que ele - eng. Guterres - se queira relegitimar em congresso a ser ele a concorrer às próximas eleições. A outra hipótese é a sua demissão ser genuína e ele desaparecer de vez da política portuguesa.

- Quem imagina que, se se der esse caso - a demissão de Guterres ser "genuína" - aceitará, assim do pé para a mão, conduzir o PS numas eleições legislativas antecipadas?
- Precisamente porque não vejo ninguém para fazer isso é que tenho dúvidas sobre a genuinidade da demissão do eng. Guterres.

- Não acha pois que Guterres terá de ir a votos, para só então, em caso de derrota, abrir a era da sua sucessão, e também de uma eventualmente longa travessia do deserto para o seu partido?
- Possivelmente. Quanto a abrir a era da sua sucessão, isso acontecerá se ele perder.

- Pensa que ele pode ganhar?
- Tenho as maiores dúvidas, é claro. Mas, mesmo que perca, creio que continuará como secretário-geral do partido.

- Haverá alguma hipótese de um governo de iniciativa presidencial, com eleições legislativas só mais lá para diante?
- O cenário é constitucionalmente possível, se o presidente da República conseguir arranjar uma maioria na Assembleia da República, o que nem será muito difícil, porque o PS não quer eleições agora, o CDS também não e desconfio que o PC as queira. Mas, pelo que conheço do dr. Sampaio, não o estou a ver meter-se numa aventura tão arriscada...

- Durão Barroso será enfim primeiro-ministro?
- Se houver eleições antecipadas, o que ainda não é líquido, e se ele as ganhar.

- A vitória de Santana Lopes não acabou um tanto diluída na onda de vitórias laranja por todo o país?
- Não acho que tenha ficado muito diluída. E demonstrou uma coisa: que o PSD pôde ganhar sozinho, sem o CDS, o que significa que também pode conseguir uma maioria sozinho na Assembleia da República.

- O que fragiliza imenso os argumentos políticos de Manuel Monteiro, que quer uma AD...
- Simplesmente anula-os.

- Paulo Portas morreu politicamente?
- Aparentemente, sim. Mas eu já o dei por morto uma vez e ele ressuscitou, pelo que não me atrevo a dá-lo como morto uma segunda vez.

- E o PC?
- O PC é um partido em vias de desaparecimento. Mas há já muitos anos que isso é evidente, não é só de agora. Estas eleições foram apenas mais um passo nesse sentido.

- E o Bloco de Esquerda, acredita que tem muita vida pela frente?
- Acho que não.

- Outro assunto: que foi importante para Portugal a designação do Luís Figo pela FIFA como melhor jogador do mundo?
- Foi importante para o Luís Figo: ele nem joga cá em Portugal...


18-12-2001
 

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