Nº 300 / 17  Ter, 18 Dez 2001


Editorial

Justiça!

Resta-nos a consoladora certeza de TUDO continuarmos a esperar de Luís Figo com a camisola nacional

JOAQUIM RITA


Sem escolhermos as folhas do calendário, sem obedecermos aos desígnios ou caprichos da história, não raras vezes rasgamos a pequenez envergonhada dos nossos horizontes e surpreendemos o Mundo, projectando o nome de Portugal para os píncaros da fama, dos elogios e da admiração. Como ontem sucedeu, com Luís Figo, eleito como melhor jogador do Mundo de 2001.

Em eleições ditadas pela especificidade dos desempenhos, a natureza da avaliação e graduação das escolhas depende dos subscritores dos votos. É aqui que repousa a granítica justiça do triunfo de Luís Figo - porque foi escolhido pelos mestres da arte, pelos homens que, do ponto de vista técnico, físico, psicológico, disciplinar e táctico, melhor sabem avaliar o peso específico do português. Quando, sem comprometimentos e em único respeito pela liberdade de consciência, são os "professores" de futebol a sentenciar um juízo tão eloquente como aquele que ontem levou Figo à conquista do mais cobiçado troféu individual do futebol, verte a certeza de um talento ímpar, de uma genialidade profissional inigualável. No turbilhão de felicidade que se instalou entre nós, importa enquadrar a vitória entre duas realidades:

 - somos capazes de «produzir» o melhor do Mundo numa actividade tão exigententemente apreciada como é o futebol;

 - temos de assumir, sem complexos ou fantasias, que o triunfo ontem alcançado não teria acontecido se Luis Figo "habitasse" o futebol português.

Para alguns "intelectuais" do pensamento que continuam a olhar o futebol de esguelha - sabe-se lá se por estupidez, ignorância ou ciumeira... - o reconhecimento mundial da competência de Luís Figo, gera a inevitabilidade de uma questão: sem esquecermos Saramago, em que outra actividade profissional temos o número 1 do Mundo? Quem moureja na justiça tem a sagrada convicção de que esta pode tardar, mas sempre chega, como, atempadamente, ontem chegou, com o cunho de uma infinda solidão, portanto, sem recurso a "lobbies", sem mecanismos de pressão, sem magistérios de influência, apenas em religiosa obediência às qualidades profissionais de um insaciável ganhador, de alguém eternamente inquieto pela ânsia de novas conquistas, sempre desassossegado pelo fascínio de novos triunfos.

Entre o desencanto de o futebol português não se poder "lamber", em cada semana, com o futebol deslumbrante do melhor intérprete mundial, resta-nos a consoladora certeza de TUDO continuarmos a esperar de Luís Figo com a camisola nacional. Na bebedeira de encantamento que se entornou sobre o futebol português, uma nota de reflexão: um futebol doméstico, que muitos teimam em manter provinciano na estreiteza dos seus mecanismos, que se consome em guerrilhas de poder e interesses patéticos, mantendo a arbitragem como referência obsessiva, merecia ter Luís Figo na sua intimidade diária? Por mais que nos custe, abençoada a hora em que emigrou...


18-12-2001
 

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