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20 Anos
1946-2006 O GÉNIO QUE SAIU DE CENA
Após a sua morte, a 7 de Julho de 2006, é mais que legítimo regressar ao génio destroçado que fundou os Pink Floyd. Contudo, a questão mantém-se: como celebrar Syd Barrett, o homem que não quis, decididamente, ser estrela?
Quando recentemente lhe pediram um comentário, David Gilmour voltou a afirmar que Syd foi «um dos três ou quatro grandes, ao lado de Dylan». É uma afirmação que Gilmour tem vindo a repetir desde que apareceu pela primeira vez em The Cracked Ballad of Syd Barrett, o retrato escrito por Nick Kent, do New Musical Express, em 1974, e que tem sido reproduzida diversas vezes, tanto por Rick Wright como por Roger Waters. Acontece que é, também, uma afirmação verdadeira. A maior parte dos obituários e memórias escritos logo após a morte de Roger Keith Barrett, a 7 de Julho, referiram o seu papel indispensável no desenvolvimento da música psicadélica inglesa, o seu génio torturado, a sua psicose das drogas e, mais tarde, a sua vida como recluso.
No entanto, poucas procuraram reconhecer quão supremamente dotado era Barrett enquanto escritor de letras e como a sua escrita parecia definir o próprio âmago do seu autor. Ignoremos o sensacionalismo criador de mitos e contemplemos os factos da vida de Barrett para perceber que os seus dons eram muitos.

Nascido em Janeiro de 1946, em Cambridge, num confortável lar da classe média – o seu pai era patologista e um entusiasta da botânica e pintura –, Syd foi abençoado com o carisma de um poeta romântico. Se a sua vida tivesse levado um rumo diferente teria sido um forte candidato ao papel de Rupert Brooke [poeta inglês célebre pelos sonetos escritos durante a I Guerra Mundial] num filme biográfico, ou Titus Groan em Gormenghast [castelo de proporções desmesuradas evocado numa série de livros de fantasia de Mervyn Peake].
Começou a tocar guitarra sensivelmente na mesma altura em que passou o seu exame de admissão e entrou para a Grammar School [tipo de escolaridade tida como elitista, destinada aos mais capacitados academicamente] e, no Verão de 1964, ganhou uma bolsa para estudar pintura no Camberwell Art College. Analisem-se os exemplos em circulação da arte de Syd – a capa do single dos Floyd See Emily Play e os insectos de natureza morta na capa do seu segundo álbum a solo, Barrett, são os mais famosos – e o seu trabalho parece possuir o mesmo charme naïf e neo-impressionista das suas letras, junto com uma sensação mais vasta de presságio que caracteriza a sua música.

Em Março de 1971, Michael Watts, jornalista do Melody Maker, questionou-o acerca dos seus afazeres desde que havia abandonado os Pink Floyd e das suas gravações a solo. Syd respondeu de forma hesitante: «Bom, sou um pintor, tive formação de pintor… Parece que podia ter passado mais tempo a pintar… podia ter sido tremendamente libertador deixar-me absorver pela pintura». Quando lhe perguntaram se preferia ser um músico ou um pintor respondeu: «penso ser um pintor». E não é certamente coincidência que, nos seus derradeiros anos, Barrett tenha regressado ao seu impulso criativo primário, pintando de forma prolífera, de acordo com todos os relatos, no seu lar suburbano em Cambridge.


SYD NO PAÍS DAS MARAVILHAS


Se Syd se via, primeiro e acima de tudo, como pintor, o seu uso da linguagem era igualmente rico em cor. John Lennon, no seu auge surrealista, deve ser referido no mesmo fôlego que Edward Lear, o celebrado autor «nonsense» de The Owl and The Pussycat, e Lewis Carroll, o famoso arquitecto de Alice no País das Maravilhas. Syd Barrett pertence a essa mesma companhia. Veja-se o segundo verso de «See Emily Play»: «Soon after dark Emily cries/Gazing through trees in sorrow/Hardly a sound ’til tomorrow». A economia de estilo e a evocação onírica são dignas do melhor de Lewis Carroll. De facto, os três versos de «See Emily Play» são Carrollescos na sua claridade e precisão. A maior parte dos letristas de rock exageram quando buscam profundidade e soam, frequentemente, pomposos; Syd não. Mesmo mais tarde, nos seus dois álbuns a solo, quando a imagética se torna mais fracturada, as evidências de um escritor abundantemente dotado ainda lá estão.

As letras de Syd exibem uma mestria de rima interna e imperfeita, e uma abordagem altamente flexível à métrica irregular. Tal como Dylan, e poucos outros, as letras de Syd aguentam-se tão bem no papel como quando cantadas. Revelam também uma compreensão instintiva de como tecer padrões de discurso coloquial numa canção pop. Esse dom é evidente nos dísticos que concluem cada verso de «Bike», possivelmente a mais anglicana das contribuições de Barrett para o álbum de estreia dos Pink Floyd em The Piper At The Gates of Dawn, que deve o seu título a um capítulo de Vento Nos Salgueiros, de Kenneth Grahame. A maior parte das análises dessa canção concentram-se na estranheza do jardim infantil; poucas realçam a manifestação de formalidade inglesa que pontuam versos como «Take a couple if you wish/They’re on the dish» ou «If you think it could look good/Then I guess it should». E é esta tendência para engendrar o prosaico num contexto musical de outra forma explosivo que define muita da sua escrita inicial. O exemplo mais tocante emerge na entrega vocal com que canta na sua última contribuição gravada para os Floyd, «Jugband Blues». «It’s awfully considerate of you to think of me here/And I’m much obliged to you for making it clear/That I’m not here» canta, evocando uma sensação de abdicação, desprezo, desespero, colapso mental e desaparecimento em três versos. Todos eles cantados com um sotaque inglês não-reconstruído. «Junto com Antony Newley, Syd foi o primeiro tipo que ouvi cantar pop ou rock com um sotaque britânico», observou David Bowie no elogio do seu herói no velório da sua morte. «O seu impacto na minha forma de pensar foi enorme».

A AURORA SONORA DOS FLOYD
Contrastando com a precisão das suas primeiras letras, a abordagem musical de Syd era livre e irreprimida. Toda a noção da música inglesa de extemporizar os blues e propulsioná-los para as camadas exteriores da estratosfera tonal através de longas improvisações começa com os Pink Floyd de Syd Barrett. «Syd deu o tom àquilo em que as pessoas pensam como som de guitarra psicadélica», afirma Joe Boyd, produtor do primeiro single da banda, «Arnold Layne», gravado no Sound Techniques Studio a 27 de Fevereiro de 1967, altura em que a banda se encontrava ainda sem editora. Menos de um mês depois, a 11 de Março, a EMI tinha assinado com o grupo e lançado o single.


Syd tomou a sua primeira trip em 1965, ingerindo LSD-25 líquido embebido num torrão de açúcar

Os Floyd tinham-se formado dois anos antes mas o seu impacto na cena londrina só se fez sentir realmente no Verão de 66, principalmente com a abertura do UFO Club, em Tottenham Court Road. Como banda da casa, os Floyd estabeleceram-se rapidamente como coqueluches da emergente cena underground britânica, armados com um sentido único de dinâmica e com o inegável magnetismo de Syd. As primeiras improvisações dos Pink Floyd costumavam girar em torno da interacção entre a guitarra de Barrett e o trabalho «extra-terrestre» de Rick Wright nos teclados. Nick Mason era, conforme o próprio admite, um baterista rudimentar. Ele e o baixista Roger Waters forneciam a âncora devida à exploração sónica de Barrett, cujo sentido de aventura foi espicaçado pelo equipamento de efeitos sonoros disponível. Com a proliferação da tecnologia, Syd desafiou as possibilidades sónicas. Registos dos Floyd no seu auge em pleno UFO, presentes em filmagens de Peter Whitehead para o seu filme Tonight Let’s All Make Love in London, de 1967, apontam para uma experiência verdadeiramente cataclísmica.

Fundida com esta experimentação está a prolífica veia compositora de Syd, tendo muito do material inicial dos Floyd sido escrito numa explosão criativa de seis meses entre o Outono de 66 e a Primavera de 67, valendo-se de letras incisivamente observadas e guardadas num bloco de notas sempre presente, e de influências tão diversas como Love, John Coltrane e Handel.

Underground, o documentário da Granada TV emitido em Março de 1967, contém um excerto apetecível de uma versão inicial ao vivo de «Matilda Mother». Gravada ao vivo no UFO em Janeiro de 67, é radicalmente diferente da versão que apareceu em Piper..., o LP de estreia dos Floyd. No seu estado nu e cru soa a Stooges proto-punk dois anos antes do primeiro álbum dos Stooges. De forma semelhante, filmagens de «Interstellar Overdrive», nesse mesmo concerto, fazem a versão gravada soar a demo condensada.
Esta energia indomável confirmou os Pink Floyd como heróis do underground e permitiu-lhes uma herança de 40 anos que atravessa Bowie, Can, Faust, The Jesus and Mary Chain, Spacemen 3, e incontáveis bandas de noise que se recusam a ser seduzidas por Dark Side of the Moon.

ESTADOS ALTERADOS DA MENTE

O successo de «Arnold Layne» foi relativo. Só chegou a número 20 nas tabelas de singles do Reino Unido mas o seu impacto entre outros músicos e fãs foi considerável, tendo a banda chegado ao estrelato pop em Abril de 67. Este conto acid-punk de um ladrão de cuecas de Cambridge anunciava também a chegada da pop literária britânica de Barrett, e os holofotes apontaram-se ao seu carismático, mas sensível, autor.
Musicalmente, a faixa – embalada numa capa que proclamava «This Is It! The Next Projected Sound of 67» – dispensava qualquer derivação blues, destilando jams intergalácticas dos Floyd em 2 minutos e 52 segundos. A BBC baniu o single devido ao seu conteúdo e mais tarde apagou também todas as edições de 1967 do Top of the Pops, aparte um especial de Natal. Assim, as três performances dos Floyd do single que se seguiu, «See Emily Play» (lançado a 16 de Junho de 1967), desapareceram para sempre e não há hipótese de analisar a história segundo a qual Syd recusou trocar de roupa para as suas vestes de pop-star, rosnando «O John Lennon não tem de fazer isto. Por que é que eu havia de o fazer?». O que permanece inequívoco, contudo, são os incontáveis relatos do comportamento cada vez mais errático de Syd, por esta altura.

A relação de Barrett com o LSD é muitas vezes vista como a fonte do seu declínio, embora Roger Waters tenha afirmado repetidamente que Syd «é esquizofrénico desde 1968». Syd havia tomado a sua primeira trip em 1965, no jardim do seu amigo David Gale, ingerindo LSD-25 líquido num torrão de açúcar embebido, na companhia dos amigos Nigel Gordon e Storm Thorgerson, futuro designer de capas dos Floyd, entre outros. De acordo com Gordon, que um ano mais tarde filmaria a chamada Syd’s First Trip [ ver artigo dos 25 Melhores Momentos YouTube ] enquanto Syd vivia a sua primeira experiência com cogumelos, o impacto da trip foi intenso. «Syd era uma pessoa muito simples que estava a atravessar experiências muito profundas, com as quais tinha dificuldade em lidar», disse.

Por alturas do lançamento de The Piper at The Gates of Dawn, em Agosto de 1967, o consumo de alucinogénios por parte de Syd tinha aumentado. Como compositor e responsável pelos arranjos dos Floyd, a pressão sobre Syd aumentara também durante a gravação do álbum, com Norman Smith, produtor da EMI, a entrar em choque com Barrett no estúdio. De acordo com os que eram próximos de Syd, entre eles Nick Mason e Joe Boyd, o seu declínio foi rápido.
A noção de um colapso mental súbito, contudo, é contrariada pelos registos visuais da altura.

A digressão americana dos Floyd em Outubro de 1967 foi supostamente maculada pela deterioração mental de Syd enquanto tocavam o malfadado terceiro single da banda, Apples and Oranges, no Pat Boone Show e no American Bandstand de Dick Clark. Neste programa, diz-se que Syd, com uma expressão vazia, ficou parado, de pé com os braços junto ao corpo, recusando--se a fingir que tocava e a responder a qualquer das perguntas do seu anfitrião.
A história foi contada primeiro por Roger Waters, que afirma ter precisado de fingir que cantava quando se tornou aparente que Syd não queria, ou não podia, actuar. Isto foi regurgitado por muitos escritores ao longo dos anos.
BLITZ 04
Texto completo e mais informação na BLITZ de Outubro, já nas bancas.
Contudo, circula na Internet uma gravação da actuação no programa de Dick Clark que conta uma história diferente. Syd finge que canta a maior parte da canção, incluindo a complicada estrofe inicial, e esforça-se tanto para parecer que está a tocar guitarra quanto Nick Mason para parecer que está a tocar bateria. A câmara só foca os outros membros durante o refrão. Não há uma altura em que Syd pareça devastado e de olhar vazio. Responde educadamente às perguntas de Clark. Não tinha desaparecido. Ainda.

Mojo / Planet Syndication (Tradução de Luís Bento)

. Morreu Syd Barrett


Re: 1946-2006 O GÉNIO QUE SAIU DE CENA
(Youri, Quinta 5, às 19:48, 1 ponto )
Shine on.
Re: 1946-2006 O GÉNIO QUE SAIU DE CENA
(kasabian, Sexta 6, às 23:17, 1 ponto )
Nunca as palavras louco diamante foram tão bem aplicadas.
Para sempre será o génio incompreendido.
Shine on indeed









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