abril 11, 2009

APRESENTAÇÃO DO PROJECTO "MESSALINA" NA REVISTA ZIPO

Na revista ZIPO (da editora Nova Vega) publiquei uma introdução ao Projecto MESSALINA e uma prancha de BD. Eis as 2 páginas:

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TRANSCRIÇÃO DO TEXTO DA 1ª PÁGINA:

Não foi a mulher do imperator Claudius, Valeria Messalina que me tornou num apaixonado pela história de Roma e me levou a estudá-la com alguma profundidade. No entanto torna-se claro, sempre que leio qualquer texto acerca do período que compreende o final do principado de Gaius Caligula Cæsar e sobretudo o de Tiberius Claudius Cæsar, que é ela, Valeria Messalina, que invade a perspectiva das coisas, transformando ideias inicialmente cheias de retórica política e ideológica em pensamentos lúbricos e de inconfessáveis devaneios eróticos.
Daí a tentar engendrar uma trama histórica – como possível biografia de Messalina – destinada a argumento de banda desenhada e onde os factos históricos se aliassem à vida privada com a mesma intensidade e sem qualquer tipo de pudores, foi um passo. Entendamos as coisas: apesar dos discursos e das leis implementadas por Augustus e Tiberius na tentativa de moralizar os costumes e sanear a depravação a que se assistia na sociedade romana desde meados do século I A.C., para os romanos, a vida privada era uma extensão da vida pública, sem quaisquer entraves de censuras morais. Os romanos dessa época não estavam ainda imbuídos da moral judaico-cristã, que levaria as questões ditas “entre lençóis” para o campo do domínio estritamente privado. Era geralmente público quem dormia, ou o que fazia, com quem e quando. E não havia grandes problemas conjugais por causa disso, até porque o casamento se destinava sobretudo à procriação, aos interesses políticos, ou económico-financeiros e não ao prazer e isso era bem claro para toda a gente. E é esta contextualização das actividades sexuais que me interessa abordar na referida banda desenhada. Por isso Messalina é talvez a personagem ideal para essa abordagem.
Digo acima «como possível biografia» de Messalina, porque aquilo que se conhece relativamente bem da sua vida abarca apenas o período que vai do seu casamento com Claudius, seu primo em 2º grau, no ano 41, até à sua execução em 48, por lesa maiestas. Nem a data do seu nascimento se conhece, presumindo muitos dos historiadores que tenha nascido por volta do ano 20 ou 21, visto que este último foi o também presumível ano da morte do seu pai.
Tentar ler a genealogia da casa Julio-Claudia é o mesmo que tentar perceber todos os fios de uma laboriosamente montada teia de aranha. Normalmente perdemo-nos várias vezes.
De Valeria Messalina sabe-se que era filha de Marcus Valerius Messalla Barbatus – Consul no ano 20 – e de Domitia Lepida Minor. Esta Domitia Lepida Minor era filha de Lucius Domitius Ahenobarbus (avô de outro Lucius Domitius Ahenobarbus, que depois adoptou o nome de Nero e foi Imperator) e de Antónia Major, que era filha, por sua vez, de Marcus Antonius (o triúnviro, com Augustus Cæsar e Aemilius Lepido) e de Octavia Thurina Minor (irmã de Augustus Cæsar). Ora a irmã mais nova de Antonia Major, prosaicamente chamada Antonia Minor foi casada com Nero Claudius Drusus (irmão de Tiberius Augustus Cæsar), que foram os pais de Claudius e avós de Caligula. Daí que a trama se passa praticamente em família.
Caligula, que durante o seu principado (37 a 41) usou o seu tio Claudius como uma espécie de bobo da corte, achou como suprema ironia determinar o casamento do velho tio, gago, coxo, com tiques nervosos e que se fazia passar por meio atrasado mental, nessa altura com 51 anos, com a jovem prima de ambos, Valéria Messalina, que teria então cerca de 20 anos… ou talvez menos. Quase todos os historiadores clássicos lhe atribuem cerca de 15 anos à data do casamento, o que não condiz com a suposta data da morte de seu pai. A menos que Messalla Barbatus, e pode ter sido o mais provável, não tenha falecido no ano 21.
No mesmo ano em que Claudius foi aclamado Princeps et Imperator *, logo após o assassínio de Caligula, Messalina deu à luz o primeiro filho de ambos, Tiberius Claudius Germanicus, depois chamado Britanicus, em tributo à conquista da Britania pelo pai. Após a acessão de Claudius, ela viu-se, de um momento para o outro, não só como a mulher do Cæsar, mas também como a mãe do eventual futuro princeps, o que lhe deu segurança suficiente para enveredar pelas mais variadas loucuras políticas e sexuais. Tudo isso também assegurado pelo domínio que tinha sobre o próprio marido.
Alguns autores (senão mesmo todos os que li sobre o assunto) referem que o voraz apetite sexual de Messalina começou cedo, incentivado pela mãe que, no início da puberdade, lhe terá arranjado uma escrava especialista nas artes do amor, para a industriar a preceito e mais tarde a iniciou no culto de Priapus, o deus da fertilidade. O objectivo, segundo consta, era casá-la rapidamente com alguém politicamente influente e com fortuna. Acrescente-se a isto a herança genética (Domitia Lepida não era tida propriamente como um modelo de virtude) e uma infância em quase total liberdade e temos uma adolescente lasciva e ambiciosa, casada com um velho – a diferença de idades era cerca de 35 anos – que era chefe do poderoso estado romano, e mãe do presumível futuro imperator. Podia fazer literalmente o que lhe desse na real gana e fê-lo, segundo consta. Mas acabou por ir longe demais e isso custou-lhe a vida.
A prancha de banda desenhada que se segue, é um excerto da iniciação de Messalina no culto de Priapus e, por enquanto, a única desenhada até agora e que eventualmente não será assim na versão final da história.
Quanto a Priapus, do nome grego original (Πρίαπος - Príapos), era o deus itifálico da fertilidade, protector dos jardins, das hortas e dos rebanhos, originário da Ásia Menor grega. A sua principal característica era o gigantesco pénis sempre erecto. Diga-se que as representações de pénis erectos tinham uma tradição muito antiga nas sociedades grega e romana e estavam sobretudo ligadas ao culto de Dionisos (Baco para os Romanos), o deus padroeiro do teatro, assim como do vinho, e a Hermes, a divindade que guardava as transições – sendo representado por esculturas chamadas hermas, que eram colocadas nos cruzamentos das vias (simples colunas de pedra com uma cabeça barbuda e… um gigantesco pénis erecto a sair da coluna, onde por vezes as aves pousavam). Claro que com o advento do cristianismo, tudo isto foi corrigido, razão por que a maioria das antigas estátuas gregas e romanas têm o pénis decepado **.

(*) Segundo Tácito e Suetónio, Claudius recusou usar o título de imperator (a exemplo de Augustus, que preferia ser tratado por princeps) e só depois da conquista da Bretanha e subsequente aclamação pelas tropas como imperator, é que ele passou a usá-lo oficialmente. Como se sabe o título imperator, era de origem militar e era outorgado pelas tropas a um general vitorioso, por aclamação. Por outro lado o título princeps (o primeiro dos cidadãos e por conseguinte, o primeiro dos senadores) era de natureza política.
(**) Leia-se, a propósito, Amor, Sexo e Tragédia, de Simon Goldhill.

Legenda da imagem final: Fresco nas ruínas de Pompeia, Casa dei Vettii, representando Priapus.

Publicado por jmachado em abril 11, 2009 04:54 PM | TrackBack
Comentários

Messalina sempre foi uma mulher muito aberta. Grande qualidade de todos os tempos.
Fiquei a saber mais sobre ela com as séries inglesas (Os Césares) e os livros "Osmdoze césares" (Suetónio), "Eu, Cláudio" e "Cláudio e Messalina", que li numas férias na messe de Oeiras, em 1981.

O meu sonho erótico desse ano era eu estar a ler o livro no meu quarto da messe, de shorts. Batiam à porta. Seriam as irmãs Saraiva (duas lindíssimas manas, irmãs do mano Saraiva, que era, como eu, um dos retardatários do pequeno-almoço. Entrávamos sempre às 9h55m).

Sem que eu pudesse fazer nada, uma das irmãs Saraiva atirava-me para cima da cama, a outra fechava a porta à chave. Eu, perplexo, era manietado e antes que pudesse dizer alguma coisa já uma das manas Saraiva estaria a praticar sexo oral comigo, o que me impossibiltaria qualquer tipo de reacção.

E depois essa mana despir-se-ia, com o meu sexo já tão hirto como um gládio da guarda pretoriana. E, qual Tigelino, pronto a entrar em acção na defesa do Imperator.

A outra mana Saraiva montar-me-ia qual Messalina e atingiria brevemente o prazer.

Cinco minutos depois, as manas Saraiva vestiam-se e saíam do meu quarto, a rir, satisfeitas com o seu poder sobre um pobre e tímido jovem de 18 anos.

Nada disto aconteceu.

Passei as férias a ler, a andar de baloiço (era o que havia) e a passear.

Volta e meia ainda vejo as manas Saraiva ali para os lados da Avenida de Roma. E tenho uma vontade louca de lhes dizer: "Vocês estão em dívida para comigo".

Mas quem é que se lembra de uma dívida do Verão de 1981, em que comprei o meu álbum favorito dos Moody Blues (Long Distance Voyager)?

Afixado por: Luís Graça em abril 12, 2009 01:54 AM

A prancha de bd está muito boa. Estes Saraivas, pela idade não podem ser o Nuno Saraiva e as suas duas irmãs, que por acaso até são giras, trata-se, com certeza, de mera coincidência. De resto, a cena que contaste trata-se de mero sonho.
Agora o que ainda não percebi é de que tipo de revista se trata. Não será de BD, mas a tua bd é para lá que se destina?
Saudações bedéfilas.
GL

Afixado por: geraldes.lino em abril 13, 2009 06:24 PM

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