setembro 20, 2009

BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #87 - TEXTOS DE PEDRO CLETO (NO JN E NO SUPLEMENTO NS DO JN DE 12 DE SETEMBRO) + CRISTÓVÃO GOMES NO “I” E BD DE AUTORES PORTUGUESES SOBRE O 11 DE SETEMBRO NO “i”.

Recortes de textos e bandas desenhadas: Pedro Cleto sobre 1934 (o ano de todos os quadradinhos) no suplemento do Jornal de Notícias de 12 de Setembro, depois ainda de Pedro Cleto, sobre os 75 anos do Reizinho.

De seguida os dois recortes dos textos de Cristóvão Gomes no jornal “i”, de 11 de Setembro, sobre Lewis Trondheim e de 18 de Setembro, sobre Peter Kupe.

Espaço ainda para a BD que saiu no jornal “i” – DESENHADORES PORTUGUESES DA MARVEL RECORDAM O 11 DE SETEMBRO EM BD PARA O “i”. São pranchas de Jorge Coelho, Patrícia Furtado e Ricardo Venâncio, sob argumento de Nuno Duarte.
Estes recortes do “i” foram enviados por José Manuel Pinto como habitualmente.

Resta dizer em relação à BD sobre o 11 de Setembro que sacámos também a composição (arrumação das pranchas) original do site do Jorge Coelho, que pode ser visto AQUI.

Ao que parece está em vistas a constituição do www.thelisbonstudio.com que ainda está em construção e só ostenta os nomes de 17 autores. Sobre este Estúdio de Lisboa não sabemos ainda grande coisa…

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1934, o ano de todos os quadradinhos

F. Cleto e Pina

1934. Nos Estados Unidos, o presidente Franklin Rosevelt abria o ano informando que a recuperação da economia, devido à Grande Depressão de 1929, teria um custo de 10,5 mil milhões de dólares. Ramsay MacDonald era primeiro-ministro em Inglaterra, as ditaduras consolidavam-se na Alemanha (com Hitler que atribuía a si mesmo o título de fuhrer), Itália (Mussolini), Espanha (Franco), Portugal (Salazar) e União Soviética (Estaline), ou estabeleciam-se, como no Brasil (Getúlio Vargas).

Se Marie Curie e Von Hindenburg chegavam ao fim dos seus dias, o ano via nascer Yuri Gagarine, Francisco Sá Carneiro, Carl Sagan, Shirley MacLaine, Sydney Pollack ou Sophia Loren. Pirandello recebia o Nobel da Literatura, Fred Astaire cantava “Night & Day”, o monumento ao marquês de Pombal era inaugurado em Lisboa, onde tinha lugar a 1ª Exposição Colonial Portuguesa, e eram publicados “Tender is the Night” (de F. Scott Fitzgerald), “Murder in Three Acts” (Agatha Christie) e “A mensagem” (Fernando Pessoa). Portugal realizava o seu primeiro campeonato de futebol, (já então) ganho pelo F. C. Porto e a Itália sagrava-se Campeã Mundial da modalidade. A prisão de Alcatraz era inaugurada em São Francisco, o FBI matava John Dillinger, Bonnie e Clyde, o monstro do Loch Ness era fotografado pela primeira vez e, para deleite de pequenos e grandes, um carpinteiro da Dinamarca criava (em madeira) aqueles que viriam a ser os populares Legos. Aspectos múltiplos de um mundo em constante evolução, que (sem o saber?) caminhava a passos largos para (mais) uma Guerra Mundial.

Acompanhava-o – em muitos casos andando (bem) à sua frente – a banda desenhada, que “oficiosamente”, mais tarde, em 1989, num encontro de especialistas, entre os quais Vasco Granja, em Lucca, veria a sua data de nascimento ser fixada a 18 de Outubro de 1896. Com esta data, celebrava a inclusão de imagens sequenciais e de balões em “The Yellow Kid”, de Richard F. Outcault, e a crescente popularização dos quadradinhos graças à imprensa. E preparava a mediatização do (então) próximo centenário.

Mas em 1934, prosseguindo uma evolução que viria a demonstrar-se imparável, a banda desenhada continuava com uma impressionante pujança, e via surgir novos autores, (também) na sequência de uma espécie de concurso para descoberta de novos talentos e temas para tiras de imprensa, promovido pelo King Features Syndicate, que experimentavam novos caminhos, novas técnicas, novos estilos, novas temáticas. O humor que estivera na origem do termo que ainda hoje define a 9ª arte nos EUA – comics – se não dava lugar, pelo menos compartilhava o espaço disponível com outros géneros: cinco anos antes, a 7 de Janeiro de 1929, “Tarzan”, de Harold Foster, e “Buck Rogers no Século XXV”, de Philip Nowlans e Dick Calkins assinalavam o início da BD em estilo realista e também a introdução nos quadradinhos de mundos fantásticos e exóticos. Duas semanas mais tarde, Popeye fazia a primeira aparição em “The Thimble Theatre”, criado por Elzie Crisler Segar uma década antes, lançando a famosa frase “Eu sou o que sou!”, e introduzindo um tom surpreendentemente surreal nos quadradinhos. Um ano depois, as mudanças em “Blondie”, de Chic Young, forçadas pelo casamento da protagonista, transformavam-na na primeira BD de contornos familiares…

Estavam, assim, criadas as bases para um período fértil em criações fabulosas, do ponto de vista temático, artístico e literário, que contribuíram como nunca para fazer sonhar e fugir do deprimente quotidiano um país profundamente abalado pela crise económica, as enormes perdas na bolsa, altas taxas de desemprego, quedas abruptas da produção e do consumo, falência de bancos e fábricas, aumento galopante da inflação, generalização da pobreza e crescimento da criminalidade organizada. Um cenário norte-americano que o mundo também (já) seguia.

Esta é, aliás, outra das explicações para que tantas criações marcantes tenham aportado aos quadradinhos neste período. Com estes heróis – invencíveis, invulneráveis, corajosos, audazes, musculados e/ou inteligentes, capazes de enfrentar e vencer os piores inimigos e os mais inimagináveis perigos, apenas para conseguir a vitória do bem, restaurar a ordem e conquistar/libertar as suas belas (e quase sempre eternas…) noivas, – os norte-americanos e, na sua peugada, progressivamente, muitos outros, vibravam dia-a-dia com as suas façanhas, sofriam com os seus revezes, descobriam (e sonhavam com) universos exóticos e deslumbrantes, reencontravam, em suma, razões para esquecer a realidade diária, para sonhar, acreditar, ter esperança.

Por isso, na trilha dos já citados, surgiriam “Dick Tracy” (criado por Chester Gould, em 1931), “Pete the Tramp” (Clarence Russell, 1932), “Alley Oop” (Vincent Hamlin, 1933) ou “Brick Bradford” (William Ritt e Clarence Gray, 1933).
Mas, voltemos a 1934, um ano de colheita único no que à BD norte-americana diz respeito. Logo em Janeiro, os jornais estreavam “Flash Gordon”, “Jungle Jim” e “Secret Agent X-9”; depois, ao longo dos meses, suceder-se-iam a magia de “Mandrake”, a sensual “Betty Boop”, “Li’l Abner”, “The Little King”. “Terry e os Piratas”… De comum a (quase) todos eles, encontramos a aventura, quase sempre em estado puro, a sede de liberdade, a defesa do bem, a capacidade de fazer sonhar…

Claro está, se hoje, 75 anos depois, podemos – simbolicamente, apenas – comemorar (um)as Bodas de Diamante (de parte) da BD norte-americana, isso não pode fazer esquecer, injustamente, as muitas outras criações de uma década fantástica e incontornável. 1935, por exemplo, trouxe-nos “King of the Royal Mounted”, de Zane Grey e Allen Dean, e “Little Lulu”, de Marjorie Henderson Bell. No ano seguinte, “Donald Duck” chegava à BD, pela mão de Ted Osborne e Al Taliaferro, e apareciam “Steve Ropper”, de Elmer Woggon, e “The Phantom”, de Lee Falk e Ray Moore. O “Príncipe Valente”, de Hal Foster, é o marco de 1937, enquanto que no ano seguinte, “Superman”, de Jerry Siegel e Joe Shuster marca a génese de um novo género, os super-heróis, que acolheriam “Batman”, de Bob Kane, em 1939. E depois veio a guerra, onde muitos deles lutaram contra as forças do Eixo… Mas isso, bom, isso são (muitas) outras (e maravilhosas) histórias… aos quadradinhos!

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Imagem da responsabilidade do Kuentro.

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JORNAL “i” DE 11/09/2009.

ESPECIALISTA BD

Cristovão Gomes

LEWIS TRONDHEIM APROXIMADAMENTE

LEWIS TRONDHEIM é o pseudónimo de Laurent Chabosy, autor francês, nascido em 1964, cuja obra é marcada por uma originalidade que, afinal, é só um reflexo da sua vida. Aprendeu a fazer BD desenhando as próprias histórias e, antes de ter publicado qualquer delas, já tinha fundado com seis amigos a L'Association, uma editora que havia de ser fundamental na história da nova banda desenhada francesa. Por lá pública "Psychanalyse", mas é quando resolve tirar da gaveta os primeiros desenhos que se lhe descobre a voz. Aparece então Lapinot, um coelho traçado de forma rudimentar, próxima do grotesco, que salta entre géneros para viver situações absurdas. A primeira edição consistia num volume de 500 páginas a preto e branco. Estava visto que Trondheim não seguia o normal curso das coisas. Mais evidente ficou essa tendência quando se juntou a Joann Sfar para dar vida a Donjon, uma paródia do jogo Dungeons and Dragons que acabou por se tomar uma série de culto. Entretanto, enquanto a criatividade lhe brotava dos poros e publicava a um ritmo diabólico, recebe um convite para escrever uma série para o público japonês. Como odeia intermediários - não é por acaso que prefere não dar entrevistas - recorre à linguagem primordial e recusa o verbo. "La Mouche" narra sem palavras a história de uma mosca, bastando-se com o desenho. Em 2004 decidiu abrandar o ritmo, mas não deixou de publicar. Nem de dar os seus autógrafos, em que depois de grafar o nome inscreve uma nota: «Aproximadamente.»

Escreve à sexta-feira
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Esta última imagem é da responsabilidade do Kuentro.

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JORNAL “i” DE 18/09/2009.

ESPECIALISTA DE BD

Cristovão Gomes

PETER KUPER: SE ISTO É ARTE

A BD É ANTES DE MAIS uma ideia. Sendo uma reunião de duas formas de arte, não se reduz à qualidade técnica de quem a produz, é preciso que saiba para onde vai. Peter Kuper trilha o seu caminho com uma obstinada paciência.
Em 1980 criou a”World War 3 IIIustrated", uma revista que mostrava um autor empenhado em passar uma ideia do mundo. A sua qualidade como desenhador foi notada, tendo sido convidado para ilustrar diversas revistas. Mas não era isso que o movia. Kuper queria passar a fronteira que separa o entretenimento da arte. Tentou fazê-lo adaptando autores que admirava: Upton Sinclair em "The Jungle", Kafka em"Give it Up and Other Short Stories" e "A Metamorfose". Mas há ali um problema primeiro neste tipo de soluções: invariavelmente, a obra adaptada é muito maior do que a adaptação. Foi com a tira que publicou no "New York Times" que descobriu por onde ir. Era a primeira vez que o NYT publicava uma tira de BD e Kuper optou por desenhá-la sem palavras para que os editores não lhe alterassem o texto. Obrigado a explorar cada desenho de modo que pudesse ser visto e lido ao mesmo tempo, Kuper excedeu-se e criou um conceito complexo que ia contra a ideia que existia do que era a BD e, ao mesmo tempo, mostrava todas as suas possibilidades narrativas. Em "The System", de 1997, torna a essa ideia e explora-a de forma magnífica. Já "Stop Forgetting to Remember", a sua obra autobiográfica de 2007, está cheia de palavras. Palavras e caminhos, porque é preciso continuar a escolhê-los.

Escreve à sexta-feira

Publicado por jmachado em setembro 20, 2009 05:32 PM | TrackBack
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