dezembro 31, 2008

BOAS ENTRADAS EM 2009 + O NOVO GAMBUZINE + EXPOSIÇÃO DO HUGO TEIXEIRA...

Boas Entradas em 2009, é o que se deseja a todos os amigos, conhecidos, familiares... Aqui ficam dois cartões de Bom Ano Novo dos nossos conhecidos Fritz (Ricardo Olivera) e Álvaro, sacados dos emails que nos enviaram:

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Teresa Câmara Pestana, depois de editar os seus Postais de Viagem, volta à carga com uma excelentíssima edição do também seu recuperado dos mortos (como ela diz) GAMBUZINE, o #1 da 2ª série. São 84 páginas de banda desenhada de proveniências diversas e uma impressão primorosa.

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GAMBUZINE #1 – 2ª Série

Depois de um livro sobre vodu, resolvi ressuscitar um morto que está já a circular! Um gambuzine para uma 2ª vida entre os seus leitores, os de sempre e os outros, são 80 páginas a preto branco (e cinzento) em off-set sedoso
Apesar de existirem alguns locais onde encontrar o suculento zombiezine, é importante que se habituem a encomendar pelo correio a vossa porção de pequena tiragem, e é pelo correio que deverão enviar os vossos trabalhos, sem compromissos, em cd-r, 300 dpi, tiff, jpg ou no velho método da boa cópia, p&b. Dada a homeopaticidade do meio, os trabalhos de Portugal têm de ser inéditos.

Qualquer informação ou encomenda:
Teresa Pestana - aptdo 67 - 3200-909 Lousã - Portugal
gambuzine@hotmail.com

Este número apresenta os autores que se seguem:

Ivana Armanini (www.komikaze.hr)
Johanna Lonka
Ulli Lust (www.electrocomics.com - www.ullilust.com)
Claire lenkova (www.clairekleingeschrieben.de - www.spring-art.info)
Teresa Camara Pestana
Beppi & Mary Knott (www.circleofevil.com)
João Sequeira (jasaqui.blogspot.com)
Axel Blotevogel
Cirq, (Lukas Liederer)
Raul Gardunha
Schmicko
Rautie (www.rautie.de)
Lukas Weidinger
Tiitu
Matjaz Bertoncellj
Diana Waldschreck
Rafa

Preço € 7,00
Ver o site AQUI!

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E o Hugo teixeira, prossegue a colaboração com o conhecido Bar/Restaurante/Galeria almadense Acercadanoite - mesmo em frente da Casa da Cerca.

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Publicado por jmachado em 08:19 PM | Comentários (9) | TrackBack

dezembro 29, 2008

RECOMENDO VIVAMENTE UMA VISITA AO BLOGUE DO RICARDO CABRAL

Para quem ainda não conheça, é obrigatório lá ir!!!

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ENTREM POR AQUI! O Ricardo Cabral (Evarest), foi o autor da ilustração que fez a capa do BDj #24.

e... DELICIEM-SE:

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NOTA: Já agora, alguns dos leitores devem ter reparado que o Kuentro está a ficar com umas mariquices estranhas: em certos monitores de formato maior, não apresenta a continuidade do post mais recente - interrompe e retoma mais à frente. Aconselho a clicarem no título da entrada, do lado direito para poderem ver tudo como deveria estar. Sorry, a weblog é porreira, permite estas imagens todas (coisa que a blogspot não permite), mas às vezes empana.

Publicado por jmachado em 09:15 PM | Comentários (2) | TrackBack

RECORTES 15 - CARLOS PESSOA (IN PÚBLICO - ASTERIX NUMA ENCRUZILHADA) E EXPOSIÇÃO NA BEDETECA DE BEJA

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ASTÉRIX NUMA ENCRUZILHADA

29.12.2008, Carlos Pessoa

O herói da banda desenhada mais famoso do mundo mudou de mãos. Uderzo e a filha de Goscinny venderam direitos editoriais à Hachette, e há quem fale no fim de uma época. O futuro do personagem é a grande incógnita.

Os valores da operação não foram divulgados, mas o negócio está feito: a Hachette, primeiro grupo editorial francês, comprou 60 por cento das Éditions Albert René e passa a controlar a exploração do universo Astérix.
Um comunicado da empresa (grupo Lagardère) confirmou que foram adquiridos os 40 por cento da participação de Albert Uderzo, criador e desenhador de Astérix, e os 20 por cento de Anne Goscinny, filha de René Goscinny, o outro criador da série e argumentista até 1977, ano da sua morte. Ficou ainda a saber-se que foi também negociada a aquisição dos direitos de edição, para todo o mundo, dos 24 álbuns de Astérix publicados enquanto Goscinny era vivo. Uderzo e Anne Goscinny conservam os direitos de autoria da obra (50/50 para as histórias com argumentos de Goscinny, 75/25 para as realizadas apenas por Uderzo).
Na prática, a Hachette passa a controlar a totalidade da vertente editorial de Astérix, assim como os direitos derivados (merchandising) associados ao personagem, incluindo o segmento audiovisual.
Esta transacção é o maior negócio editorial do ano no campo da banda desenhada, abrindo perspectivas inteiramente novas para o futuro do pequeno herói gaulês. De um ponto de vista estritamente económico, o que está em causa é gigantesco. Desde a criação da série em 1959 - fará 50 anos em 2009, estando em preparação um ambicioso programa de comemorações - já foram vendidos mais de 325 milhões de álbuns em todo o mundo. Segundo a revista Livres Hebdo, as Éditions Albert René, criadas em 1979 por Uderzo para gerir as operações ligadas à série, atingiram em 2007 um volume de negócios de 11,3 milhões de euros. A isto há que juntar a exploração do Parque Astérix, em França, que tem dado sempre lucro. Por fim, são de referir as rentáveis longas-metragens realizadas com actores reais, cujos níveis de audiência têm batido recordes em França e gerado receitas consideráveis.

Decisão "sensata"

Didier Pasamonik, crítico e chefe de redacção da Agence BD (agência francesa on-line de informação sobre banda desenhada), não se mostra surpreendido com o negócio. A ligação empresarial entre Uderzo e a Hachette já vem de 1998, recorda. Na sequência de um longo pleito judicial com a Dargaud para recuperar os direitos de edição e distribuição dos 24 títulos realizados conjuntamente com Goscinny, Uderzo ganhou o processo. Surpreendentemente, entregou a distribuição à Hachette em vez de a reservar para as Éditions Albert René. A razão, diz Pasamonik, é que "a filha de Goscinny detinha 20 por cento desta empresa e a entrega dos títulos [às Éditions Albert René] poderia romper os equilíbrios entre os detentores dos direitos e os accionistas".
À luz de recentes conflitos com a sua filha única, Sylvie Uderzo, a quem retirou a gestão da empresa há 18 meses, a decisão de Albert Uderzo é considerada "sensata". Didier Pasamonik lembra os 81 anos do desenhador e sublinha a inteligência de "confiar a sua obra a um operador neutro, mas competente e poderoso, que assegurará uma gestão a longo prazo".
Mesmo desdramatizando a importância do negócio ("uma banal questão de transmissão de direitos entre empresas"), Pasamonik defende que ele representa "o fim de uma época, em que os pioneiros da banda desenhada controlavam a gestão dos seus direitos patrimoniais":
"Desde há vários anos, com o desaparecimento dos seus criadores, a maioria das grandes séries que fizeram a glória da banda desenhada franco-belga - Tintin, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Schtroumpfs, Marsupilami, Boule & Bill, Achille Talon e Cubitus - é animada por outros talentos que não os seus criadores originais e explorada por grandes grupos editoriais."
Negócio banal ou não, a verdade é que as consequências no panorama editorial e no próprio futuro de Astérix podem ser muito profundas.
O crítico Laurent Mélikian (L'Écho des Savanes) não acredita que as coisas mudem muito para a série. Apesar da idade, Uderzo tem uma "saúde apreciável" e "continua a ser o timoneiro a bordo". E admite que possam surgir "novas iniciativas editoriais à imagem do que a Casterman faz com Tintin ou Corto Maltese":
"Talvez os dirigentes nomeados pela Hachette tentem explorar mais depressa uma solução de publicação electrónica com Astérix. Mas caberá a Uderzo a realização de um novo álbum - se puder - e, provavelmente, confirmar que não haverá novas histórias de Astérix após o seu desaparecimento."

Explorar a personagem

Yves Frémion, crítico e divulgador de BD (Fluide Glacial e Papiers Nickelés), acha que o desenhador já não fará um novo álbum de Astérix. Por isso, "a questão axial é saber se Uderzo e Anne Goscinny aceitaram deixar à Hachette a 'continuação' da BD por outros desenhadores". Os casos conhecidos de Blake e Mortimer ou dos Pieds Nickelés, acrescenta Frémion, não provam a justeza da medida: "Esquece-se que uma obra, incluindo as personagens, exprime a alma do seu ou seus autores e que sem eles ela deixa de existir, mesmo se o personagem é sedutor. Hergé compreendeu-o quando estava vivo e proibiu que Tintin lhe sobrevivesse com outro grafismo."
Neste quadro, Yves Frémion vaticina que "a lógica que vai ser adoptada será fazer entrar mais dinheiro com as diversas explorações das personagens e não a de gerir, de modo artístico, a obra de dois artistas importantes". O problema é que a Hachette é "um dos editores menos 'artísticos' do panorama editorial"; a sua força comercial "é enorme", mas só "tem coleccionado fracassos na banda desenhada, nunca tendo compreendido que, para ter êxito, são precisos serviços comerciais especializados e directores de colecção competentes".
Apesar de tudo isto, o êxito futuro do grupo editorial Hachette parece tudo menos incerto. "Gerir direitos de autores que vendem muito depois da sua morte tornou-se um comércio tão sumarento como vender armas aos ditadores", comenta Frémion. "O episódio Hachette-Albert René é o último avatar dessa conquista de mercados pela empresa de Jean-Luc Lagardère."
A leitura de Laurent Mélikian vai no mesmo sentido. "Até há pouco tempo a Hachette quase não estava presente na edição de banda desenhada, se excluirmos o fundo Astérix. Há alguns meses comprou a Pika, uma editora especializada em banda desenhada japonesa. Agora adquiriu as Éditions Albert René. Que outras iniciativas virão a seguir?"

E... PARA QUEM QUISER IR A BEJA PASSAR O FIM-DO-ANO, TEM UMA EXPOSIÇÃO INTERESSANTE NA BEDETECA DE BEJA - CASA DA CULTURA - GALERIA DE EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS:

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A ESFEROGRÁFICA DE VILAS
Exposição de Desenho

De 12 de Dezembro a 30 de Janeiro

Cafetaria da Casa da Cultura e Galeria de Exposições Temporárias da Bedeteca de Beja (1º andar da Casa da Cultura – Ala esquerda)

Vilas nasceu na aldeia de Vila Azedo, em 1962. Viveu parte da infância em Vila Azedo, que só deixou quando o pai foi trabalhar para a Base Aérea de Beja. A família mudou-se então para Beja e Vilas já acabou a 4ª classe na cidade. Começou a desenhar desde que se lembra. Desenhava porque gostava, “era uma inclinação natural”. Todos gostavam dos desenhos, mas ninguém o aconselhou a seguir uma carreira artística. Na altura “não se pensava nisso”.

No 8º ano deixou a escola e foi trabalhar como operário. Andou “aos saltos”, como refere, mas sempre com o desenho a roer-lhe os calcanhares. Era um “desenhador de café”. Fazia desenhos em guardanapos e nos papéis que lhe iam aparecendo pela frente, “para oferecer aos amigos”.

A partir dos 35 anos começou a fazer as coisas com outro método. Comprou várias esferográficas de cores diferentes e desenhou uma série de carteiras de fósforos. Mais de 200… Os temas que o inspiraram na altura, são, em grande parte, os mesmos que o inspiram agora: animais, florestas, o Alentejo, a guerra, a poluição, o suicídio, a solidão… São os temas que o preocupam e que o atormentam…

Em 2004 concorreu à Galeria Aberta e o trabalho acabou por ser exposto na Casa das Artes – Museu Jorge Vieira. Ganhou uma Menção Honrosa e estímulo para continuar (das 3 vezes que concorreu ganhou 2 menções honrosas). O facto de ter sido bem sucedido deu-lhe vontade de fazer ainda mais, “mas se não tivesse sucesso continuava a desenhar na mesma”. Em 2006 fez uma exposição individual na Casa da Cultura. Vendeu alguns trabalhos e recebeu críticas entusiásticas de muita gente, o que o motivou a voltar a esta casa. Apresenta agora vários desenhos, com temas diversos, como já tinha feito, mas com um grande tema específico a coroar o conjunto: o ciclo do javali…

Os desenhos são todos a esferográfica, que é a técnica que prefere, e feitos principalmente a preto. A cor, quando aparece, é apenas à laia de apontamento: uma poça de sangue vermelho, um céu azul-escuro, uma luz amarela… Gosta da tinta preta porque se identifica com o desenho a escuro, mais dramático, quase como uma cicatriz sobre o papel branco.

Desenha invariavelmente à noite, em casa, e sempre a partir das 10. Nunca desenha de dia porque não tem vontade. A noite inspira-o mais. Trabalha numa mesa de vidro, na sala, com um candeeiro normal. Tem as canetas num cinzeiro grande. Não faz esboços, nem se inspira noutras imagens de outros autores. “Quando não sai, deito-os fora”.

Gosta de ver pintura de muitos artistas, de Picasso a Goya, mas não tem nenhuma preferência. Às vezes dá uma volta pela cidade, para ver umas exposições. Mas não tem essa rotina. Costuma mostrar os desenhos aos amigos, que gostam de ver. Continua a trabalhar na construção civil. É um grande artista à espera se ser descoberto…

Publicado por jmachado em 03:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 28, 2008

RECORTES 14 - SUPLEMENTO ÍPSILON (PÚBLICO) SOBRE JOÃO FAZENDA - PEDRO CLETO (JORNAL DE NOTÍCIAS) SOBRE O CREPÚSCULO DO WESTERN - O MENINO TRISTE (JOÃO MIGUEL LAMEIRAS in DIÁRIO AS BEIRAS) E SOL (RICARDO NABAIS)

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JOÃO FAZENDA HERÓI DA “MONOCLE”

19.12.2008 - Joana Gorjão Henriques

A revista escolheu 20 nomes de quem quer ouvir falar em 2009
Aparece ao lado de um arquitecto chileno, de uma economista canadiana e no mesmo "ranking" que o ministro italiano da administração pública, Renato Brunetta. O ilustrador João Fazenda é um dos 20 "novos heróis" da "Monocle", revista sobre temas internacionais, Economia, Cultura e Design, criada por Tyler Brûlé, que lançou a "Wallpaper".
João Fazenda está em 16º lugar na lista de nomes internacionais de quem a "Monocle" "quer ouvir falar mais em 2009", pessoas que, "ultrapassando as adversidades, encontrando espaços livre no mercado e pensando criativamente, ajudaram de facto a tornar o mundo melhor." Em resumo, "pessoas que merecem um palco maior".
"Seriously Comic" é o título do texto, que faz três perguntas ao ilustrador de 29 anos, actualmente a viver em Londres. Apresentam-no assim: "já é uma estrela em Portugal", lembram os prémios que ganhou (Festival da Amadora em 2000, o grande prémio Stuart de Desenho de Imprensa de 2007, as quatro distinções nos Awards for Excellence da americana Society of Newspaper Design...) e descrevem suas ilustrações: "no seu melhor têm a ''naivité'' dos posters das linhas áreas do Médio Oriente [do gráfico/ ilustrador] Jacques Auriac, ao mesmo tempo que, em contraste sombrio, podem também ser doses fúnebres de reportagem."
"O seu humor e olhar afiado, ao lado da sua recente mudança de Lisboa para Londres para chegar ao mercado internacional, vão fazer as editorias de cultura [londrinas] lutar pelas encomendas das suas pranchas em 2009." João Fazenda (http://www. joaofazenda.com/), colaborador regular do Ípsilon, tem vários projectos em cima da mesa, diz-nos. Está em vias de estrear duas curtas metragens de animação, "Café" e "Algo Importante" (a próxima chama-se "Sem Querer"). Tem um projecto de "cartoons" políticos animados com André Carrilho, Cristina Sampaio e João Paulo Cotrim "que vai crescer no próximo ano", chama-se "Spam Cartoon" e vai para o ar dia 5 de Janeiro na SIC Notícias (www.spamcartoon.com).
Regressou também à BD (começou a trabalhar num novo livro e prepara uma "pequeníssima editora, dedicada à imagem desenhada - à ilustração - e ao trabalho que se vai fazendo em Portugal nestas áreas". Depois da colaboração com a revista inglesa "Eye", a possibilidade de fazer ilustrações em jornais ingleses ainda não é certa mas também não é impossível. 2008 já acabou bem para ele.

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Texto da secção Cultura de 27 de Dezembro de 2008

F. Cleto e Pina

CREPÚSCULO DO WESTERN

Histórias de cowboys em declínio na banda desenhada, reflexo da mudança dos tempos

Uma das mais famosas imagens dos westerns aos quadradinhos é a vinheta final dos álbuns de Lucky Luke, na qual canta “Sou um pobre cowboy solitário, muito longe de casa”, cavalgando rumo ao pôr-do-sol...
Esta imagem, de alguma forma, pode ilustrar o crepúsculo que vive o género na banda desenhada - e também nas outras artes…

A perda do fascínio e do mistério que o Oeste selvagem em tempos exerceu e que desapareceu neste tempo globalizado em que toda a informação está ao nosso alcance; a transferência daquele fascínio para mundos siderais, onde as aventuras narradas, em muitos casos são puros westerns… espaciais; a substituição do ser humano – protagonista por excelência dos westerns, enquanto narrativa de superação – pela máquina, em tantas situações; o aparecimento de outras fontes de entretenimento, são algumas das justificações para esse estado.
Às quais Gianfranco Manfredi, em entrevista recente ao site Universo HQ, acrescentou o facto de “os novos desenhadores terem dificuldades em desenhar cavalos e o oeste em geral”, ao anunciar para 2010 o fim de Mágico Vento (um aclamado misto de western e terror, bem condimentado com a exploração dos costumes índios e o paralelismo ficcional à realidade histórica, distribuído mensalmente entre nós em edição brasileira da Mythos).

Por isso, é cada vez mais difícil substituir as imagens que estão na memória de todos aqueles que algum dia cavalgaram juntamente com o insubordinado Blueberry, foram companheiros de Jerry Spring, vibraram com o duelo de Red Dust e Kentucky ou viveram as preocupações humanistas de Buddy Longway ou Ken Parker. Isso, porque são poucos os que vêm renovar o género - Gus, Bouncer ou Preacher, são parcos exemplos - juntando-se aos resistentes: Blueberry, Lucky Luke, Túnicas Azuis, Jonah Hex, Zagor ou Tex.

Tex que é o mais duradouro western da BD, algo que Giovanni Luigi Bonelli, nascido a 22 de Dezembro de 1908, em Milão, estaria longe de imaginar quando o concebeu, em 1948, como um herói duro e determinado, capaz de usar a força das balas para obter justiça. Antes dessa estreia, com o desenhador Aurelio Galleppini, G. Bonelli, consumidor voraz de romances e filmes de aventura, cujo centenário do nascimento, se cumpriu no passado dia 22, tinha já uma assinalável carreira na BD, na literatura para a juventude e como editor.

Tex, inspirado nos grandes êxitos cinematográficos do género, seria a sua grande criação e, depois da chegada do seu filho Sergio à direcção da editora, tornou-se um imenso sucesso e a face mais visível dos fumetti (a BD italiana). Forçado a abandoná-lo, devido à idade e à doença, em 1991, Gian Luigi Bonelli deixou muitas outras criações (e westerns) populares, nas quais sempre exaltou a amizade, o companheirismo, a lealdade e o espírito de aventura.

Os 100 anos do seu nascimento ficam marcados pela atribuição do seu nome a uma rua de Agropoli, pela primeira reedição do único romance de Tex que escreveu – “Il massacro di Goldena” (1951) – e indissociavelmente ligados às comemorações do centenário do nascimento dos fumetti, com a revista “Il Corriere dei Piccoli”, cumprido exactamente hoje.

Quanto a Tex, mantém vendas mensais de cerca de um milhão de exemplares, no conjunto das suas várias colecções, pelo que custa a acreditar nas pessimistas previsões de Sergio Bonelli aqui abaixo, quase apetecendo dizer que, se Tex reflecte o crepúsculo da BD nos quadradinhos, muitos bandidos tombarão ainda perante as suas balas certeiras antes de chegar a noite escura e triste.

Mini-entrevista com Sergio Bonelli, argumentista de Tex

"Mais novos não gostam"

Tex está praticamente inalterado desde a sua criação. Por razões comerciais, artísticas ou sentimentais?
Infelizmente não é verdade. Apesar do esforço de imitar o seu criador, todos os novos argumentistas introduzem diferenças que os leitores mais atentos não deixam de apontar.

Os tempos actuais não pedem um herói mais politicamente correcto?
Pelo contrário, o rigoroso "politicamente correcto" exigido por alguns incomodaria outros. É difícil contentar todos. O mundo dos quadradinhos pode abrigar personagens de todo o tipo: o leitor facilmente encontra heróis "modernos" sem se desnaturar um "herói" tradicional.

Tex continua a conquistar leitores?
As novas gerações não gostam de western. Tex continua a ser a BD mais vendida em Itália, mas todos os meses perde leitores; pode ser que daqui a 5 ou 6 anos já não haja suficientes para o manter. Infelizmente, a BD está destinada a dar rapidamente lugar a outros divertimentos mais fáceis e cativantes.

Copyright: © 2008 Jornal de Notícias; F. Cleto e Pina

(Enviado por José Carlos Tex Francisco - in Blogue do Tex)

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Publicado por jmachado em 12:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 26, 2008

RECORTES 13 - Carlos Pessoa in PÚBLICO - ENTREVISTA COM Johan De Moor

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ENTREVISTA JOHAN DE MOOR

26.12.2008, Carlos Pessoa

Os flamengos são bons desenhadores e grandes pintores, sempre
com um notável sentido de humor. É a opinião de Johan De Moor,
ele próprio a melhor ilustração de tais atributos. Entrevista exclusiva
ao artista numa passagem por Lisboa.

É autor de histórias aos quadradinhos - Gaspard de la Nuit e La Vache Pi são obras-primas lamentavelmente inéditas em Portugal - e, nos últimos anos, também desenhador de imprensa. Nasceu em 1953 no seio de uma família flamenga com grande tradição na banda desenhada (Bob De Moor, o pai, foi colaborador de Hergé e Jacobs e tem obra própria) e faz do humor a sua "arma secreta". Anuncia o regresso com uma autobiografia, a publicar em 2009.

Está fora da banda desenhada há alguns anos. Para quando está previsto o regresso?
Assinei um bom contrato para realizar a autobiografia de um autor, em banda desenhada - desenvolver 50 anos do trabalho de alguém, procurando dar resposta à questão de como é que se torna autor de BD. O livro vai sair em 2009. Poderei falar de tudo, de Bruxelas, do meu pai, da minha vida... A ideia é usar uma mistura de estilos à moda de La Vache e de Gaspard [criações do autor]. No contexto de uma obra de autor posso permitir-me essa solução.

La Vache, a última série realizada, terminou de vez?
Sim. Depois do afundamento da editora Casterman ainda saíram dois álbuns na Lombard. A personagem La Vache Pi era muito complexa, mesmo a verdade é que não falava muito. Não é uma criatura optimista, que se limite a recolher os cacos que os outros animais ou o homem fazem. No último livro da série defendia-se a tese que o homem é estúpido e se autodestrói. Há uma espécie de cave-museu onde estão depositadas todas as provas de que todos os grandes pensadores, filósofos, artistas e sei eu lá que mais eram... bovinos. É uma visão apocalíptica. Ainda comecei, mas a seguir Stephen Desberg iniciou Le Dernier Livre de la Jungle, inspirado na obra de Kypling. É uma série em registo realista, que não me interessa muito, apesar de ainda ter desenhado duas histórias. Aquele género é muito estruturado, com códigos que compreendo, mas que são muito diferentes dos que estou habituado a desenvolver. Ou seja, não há muito espaço de liberdade para uma recriação pessoal do argumento. Não me sentia em simbiose com a minha "loucura gráfica". Foi quando decidi parar. Fiz muita ilustração desde então.

O que é preciso para ser um bom cartoonista?
Trabalho para diários, o que exige um training especial com os textos. Investi nisso e cheguei a ganhar o prémio para o melhor desenho de imprensa da Bélgica. Como o cartoon é feito por uma ou duas imagens, é necessário concentrar, sintetizar um acontecimento. É um pouco como o trabalho do jornalista, que tem de sintetizar a informação disponível. Mas é fascinante!

E na banda desenhada?
É diferente. Pode trabalhar-se num quadradinho durante um dia e no seguinte durante uma hora... E depois vem alguém que, perante o quadradinho que levou uma hora a fazer, diz que é uma obra-prima, porque é mais gráfico ou outra coisa qualquer! É normal. Quando já se anda nisto há muitos anos, é necessário manter sempre a calma e estar descontraído, sem cair na tentação de forçar as coisas. Cada autor tem o seu próprio código de leitura e de desenho e é necessário não o violentar.

No começo de tudo esteve a continuação das peripécias de Quick e Flupke.
Sim. Deu-me a possibilidade de entrar pela porta grande na banda desenhada e constituiu também uma grande escola prosseguir a obra de Hergé, mesmo sendo uma série de segunda linha.

Depois surgiu Gaspard de la Nuit. O ambiente é dos contos dos irmãos Grimm e as histórias parecem contadas por artistas flamengos...
É verdade. O que sempre disseram aos flamengos foi que estivessem calados. A Bélgica, e em particular a Flandres, foi invadida por toda a gente desde a Idade Média - foram os espanhóis, os austro-húngaros, os alemães, os franceses, os holandeses, os austríacos, em suma, sempre ocupantes, que mandavam calar os locais. Por isso, como não podiam comunicar, só havia uma solução: fechar a janela, puxar por uma folha de papel e desenhar. Isso ninguém podia proibir. É um pequeno povo com uma cultura pictórica e gráfica que não vale nada, historicamente sem prestígio. Mas os flamengos são bons desenhadores, grandes pintores, sempre com um notável sentido de humor - o cartoon flamengo é muito forte e pesado, nada tendo a ver com a natureza soft do humor do Reino Unido. Ora, Gaspard é um pouco a continuação desse desenhador flamengo a quem mandaram estar calado - eu próprio e Desberg estivemos num colégio de jesuítas e passei por isso, convivendo com gente antipática, severa e repressora dos jovens que pode ser encontrada nas pranchas da série. Não tínhamos forçosamente de falar de nós mas, como dizia Hemingway, das coisas que conhecíamos. É o caso.

Além disso, há a atmosfera mágica e misteriosa da narrativa.
Como desenhador de banda desenhada, aspiro a contar coisas que vi ou que creio ter visto. No que diz respeito ao universo onírico, se há mundos mágicos e fantásticos, esta é a minha visão desses mundos - mas que é flamenga -, tirados dos ambientes das telas de Brueghel ou da inquietude de Bosch, que é a referência absoluta. As personagens da história são retiradas de gravuras de Brueghel, embora transformadas em banda desenhada.

Porque decidiu fazer de uma vaca um herói de banda desenhada?
Ora, é maternal!... Por causa do leite. A ideia veio de Gaspard. Tínhamos feito uns desenhos que estavam vivos e Stephen reparou que eu tinha desenhado no último álbum uma pequena vaca que corria. Jean-Paul Mougin, chefe de redacção de (À Suivre) e Didier Platteau, director literário da Casterman, tinham-me convidado para fazer alguma coisa para a revista. Stephen Desberg avançou com a ideia de uma vaca que era agente secreto. Nessa noite passava um filme de Humphrey Bogart na televisão e decidi vesti-la com uma gabardina e um chapéu. A seguir veio a ideia de África, continente que eu não conhecia.

Como é que as colagens se encaixam nisso tudo?
Bem, era preciso desenhar a savana, as árvores, a cor da terra, e dar ambiente africano à personagem. Ao desfolhar uma revista dei por mim a constatar que não valia a pena cansar-me a desenhar tudo isso quando podia cortar imagens e colá-las na história, quase como se fosse um teatro de marionetas. Nada mal, como resultado... E foi assim que as colagens se transformaram numa espécie de novo código e as pessoas começaram a inundar-me com livros antigos, dos anos 40 e 50, com quantidades inimagináveis de imagens retro. Não sou coleccionador, mas tenho uma biblioteca com centenas de livros antigos, que retalhei a torto e a direito.

Tendo como pai um nome grande da BD, e sendo um autor consagrado, imagina-se a fazer outra coisa?
Eu gostaria de ter sido pintor, gravador, um grande artista, para estar acima do pai, que fazia BD, uma coisa para crianças, que é popular, má e tudo isso (mas que eu adorava!)... É normal. Acabei por constatar que aquilo que sobretudo gostava de fazer era contar histórias, embora não seja argumentista - contando a desenhar ou desenhando a contar, pouco importa. Mesmo quando fazia gravura ou linografia, desenhava quadradinhos...

Porque é o humor tão importante na sua vida?
A base do riso é o sentido de humor. Isso permite-me não ficar preso no tempo e no espaço. Com o código do humor podemos passar rapidamente para outra realidade, solucionar no argumento coisas que devem ser fluidas num registo realista. Dou-lhe um exemplo que não é meu - no filme A Vida de Brian, dos Monty Phyton, há um momento em que os personagens são escravos e vão ser vendidos. Como não conseguem sair da situação que criaram, fazem aparecer um disco voador com marcianos para resolver o problema... Toda a gente aceita isso, acha um piadão e o enredo continua. Comigo também é assim. Sem perda de respeito pelo leitor, o registo de humor permite-me fazer coisas que de outra forma não seriam possíveis.
O meu privilégio é ter editores que acham interessante o que faço.

Como vê o seu próprio trabalho no quadro da banda desenhada franco-belga?
Eu gosto de muitas coisas que se fazem hoje. Esta profissão está muito associada ao comércio e é necessário estar vigilante quanto a isso. Faço o que quero, é uma opção e é a minha vida, mas sei muito bem que, mesmo fazendo o melhor, vou agradar a uns e desagradar a outros, que preferirão uma boa história de Largo Winch. Não tem problema. Depois do 11 de Setembro, alguém decretou que a banda desenhada dos anos 2000 devia ser séria e toda a gente estava obrigada a fazer histórias sérias e tradicionais para dar segurança às pessoas. Comecei a pensar nisso, talvez demasiado, mas não recuperei a minha liberdade.

Mas ganhou-a com o desenho de imprensa...
Sim, mas o que eu queria dizer é que as pessoas reagem de forma cada vez mais conformista e os cartoonistas europeus têm que andar com muito cuidado - e não estou a falar dos desenhos sobre Maomé, mas de uma forma geral. Por exemplo, no pico da crise financeira internacional, fiz uma piada anunciando que as pessoas iam retirar as suas economias dos bancos de esperma. As reacções na Net não se fizeram esperar - que não se deve brincar com as pessoas que trabalham no sector bancário!... Não é que eu me autocensure, mas há dez anos podia fazer o que queria. Hoje, assistimos a debates de hora e meia na televisão para saber se podemos rir de tudo - excepto dos deficientes, claro. Por mim, eu digo que sim, podemos rir de tudo excepto de mim... Posso estar enganado, mas tenho a impressão que as pessoas já não têm vontade de rir.

E assim voltamos, uma vez, mais ao humor como opção pessoal.
Deixei de trabalhar com Desberg porque ele se virou para a banda desenhada realista, desenvolvendo assuntos como o dinheiro, os Estados Unidos, as seitas, etc. São temas que o apaixonam desde que o conheço e que já tinha há mais de 15 anos na cabeça. Aliás, alguns pontos estavam presentes nas últimas histórias de La Vache - os mistérios da humanidade, o dinheiro, etc. Para mim, o humor é uma maneira extraordinária de poder filtrar a realidade, mesmo no caso do humor para crianças. É o caso de Zep [criador da série Titeuf], por exemplo, que desdramatiza completamente as relações com os amigos, os colegas de escola, os pais, na rua... Creio que isso esteve sempre presente na história da humanidade.

Imagens Arquivo Pedranocharco:
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dezembro 25, 2008

FALECEU ZÉ PAULO (AUTOR PORTUGUÊS DE bd) E... GRADIVA REEDITA ETERNUS 9, DE VICTOR MESQUITA, 30 ANOS DEPOIS.

Geraldes Lino, no seu blogue divulgandobd.blogspot.com, noticiava ontem, dia 24 o falecimento de Zé Paulo, em texto que reproduzimos abaixo. Hoje mesmo, chega-nos também a notícia (já prevista, mas a aguardar confirmação) da reedição de ETERNUS 9, de Victor Mesquita, trinta anos depois da 1ª edição. Acrescentemos que Victor Mesquita foi o mentor e fundador da revista Visão (1975/76) e Zé Paulo colaborador dessa publicação mítica da BD portuguesa…

Aqui ficam os respectivos textos:

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Zé Paulo (1937-2008)

Faleceu ontem, 23 de Dezembro, pela 19h00, vítima de cancro, Zé Paulo (ou ZEPAULO, como ele costumava assinar), de seu nome completo José Paulo Abrantes Simões. Chegou o fim da aventura para um notável artista da BD, ilustrador, caricaturista, pintor.
Adeus, amigo Zé Paulo.

Tive a honra de receber de Zé Paulo as suas últimas colaborações na BD, a derradeira das quais está visionável na obra colectiva "Super-Homem no Século XXI".
Ainda neste blogue (divulgandobd.blogspot.com – no "post" de Junho 30, 2006) está a entrevista que lhe fiz, acompanhada de fotografia (já nessa altura o Zé Paulo andava em tratamento de quimioterapia).
Quem estiver interessado em ler essa derradeira entrevista, reprodução de pranchas suas, basta ir à coluna da esquerda, e procurar na rubrica "Categorias" o item "Visão - revista portuguesa de banda desenhada (1975-76)".

Ler mais AQUI

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Prancha de Zé Paulo publicada no fanzine Efeméride - Super Homem no Séc. XXI (edição de Geraldes Lino).

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BD: Gradiva reedita "Eternus 9 - Um filho do Cosmos", de Victor Mesquita
24 de Dezembro de 2008, 10:00

Lisboa, 24 Dez (Lusa) - Trinta anos depois da primeira edição, o autor de banda desenhada Victor Mesquita acaba de reeditar pela Gradiva a obra "Eternus 9 - Um filho do Cosmos", uma narrativa de ficção científica sobre a condição humana.

A primeira prancha de "Eternus 9" foi publicada em Abril de 1975 na revista Visão, que Victor Mesquita fundou e dirigiu, mas o álbum só seria publicado na íntegra pela editora Meribérica-Liber em 1979.
A história centra-se na viagem cósmica de Eternus 9, um homem que "é ponto de partida e de chegada de todas as coisas", escolhido pelo telepata do templo de Kairos para procurar uma verdade universal.
"Eu na altura pensei em conceber um herói que representasse a Europa, porque na América já existiam super-heróis. Mas eu queria que fosse humano apesar de ter faculdades paranormais", disse o autor à agência Lusa.
Victor Mesquita desenhou uma Lisboa futurista, com um centro de biologia experimental suspenso por cima do Castelo de São Jorge, onde cientistas investigam o comportamento humano e procuram vida inteligente no universo por causa das alterações ao equilíbro ecológico.
Visualmente, o álbum apresenta-se profusamente ilustrado, com um grafismo minucioso e uma estrutura experimental para os parâmetros da banda desenhada convencional, à semelhança do que aconteceu com a BD "Wanya - Escala em Orongo", de Nelson Dias e Augusto Mota, editada em 1972.
Na nota introdutória à reedição da Gradiva, o jornalista e especialista em BD Carlos Pessoa descreve Victor Mesquita como "um criador visionário", autor de "uma aventura barroca" que se apresentou como um "grito desafiador" num "pacato pequeno mundo burguês do terceiro quartel do século XX".
Nesta reedição, Victor Mesquita, 69 anos, incluiu algumas imagens inéditas do que vai ser o próximo volume de "Eternus 9", que sairá em 2009 também pela Gradiva com o título "A cidade dos espelhos".
Victor Mesquita idealizou este segundo álbum há cerca de quinze anos, mas depois de lançado o desafio pelo editor Guilherme Valente, da Gradiva, o ilustrador decidiu reactualizá-lo.
Sem adiantar mais pormenores sobre a história, Victor Mesquita referiu que ele próprio será parte interveniente no livro, que se passará temporalmente trinta anos depois de "Um filho do Cosmos", numa Lisboa que sofreu estruturalmente um abalo por causa de uma guerra nuclear no Médio Oriente.
"Eu costumo dizer que não sou um autor de ficção científica, mas um antecipador científico", disse Victor Mesquita, que tem também em mãos um mangá (banda desenhada japonesa) para editar no mercado nipónico.
Actualmente dedicado à pintura e ilustração, Victor Mesquita nasceu em Lisboa em 1939.
Fundou uma empresa de publicidade na África do Sul e publicou originais em várias revistas, entre as quais a Jacto, Cinéfilo, Visão e Selecções BD e mais recentemente, nos anos 1990, no Expresso.
Além de "Eternus 9", Victor Mesquita editou o álbum "Trilogia com Tejo ao fundo", "Os navegadores do infinito", "O homem que não se chamava Hemingway" e "O síndroma de Babel".
Victor Mesquita colaborou ainda no levantamento da banda desenhada portuguesa para a Histoire Mondiale de la Bande Dessinée e em 1998 integrou a exposição colectiva portuguesa "Perdidos no Oceano", no festival de Angoulême, França.
Em Novembro passado, Victor Mesquita foi distinguido com o troféu de honra do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, este ano dedicado à Ficção Científica e Tecnologia.
SS.

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Victor Mesquita e José Ruy, no 19º FIBDA 2008.

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Capas de ETERNUS 9, edição da Meribérica e a actual edição da Gradiva.

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NOTA ao P.S. do comentário do Geraldes Lino ao post da Tertúlia de Natal:

P.S. - Li os comentários afixados, e intrigou-me o do Luís Graça, não consegui atingir o humor.
Oh Graça, parece que te incomoda a figura do gajo de cabelos grisalhos, ou brancos, nas fotografias, tanto, que até dizes que queres esquecer os planos gerais onde eu apareço.
Poderias perfeitamente ter desviado os olhos para figuras mais simpáticas, algumas até bastante charmosas, que eu convidei, tal como te convidei a ti.
A menos que apenas tenhas querido fazer humor (algo infeliz, acho eu) à minha custa.

Caríssimo Lino, não és o único grisalho nas Tertúlias e o Luís Graça fez humor, não com as fotos em que apareces, mas com aquelas em que ele próprio aparece. O grisalho em questão é ele próprio. OK?

Portanto, não sejamos tão susceptíveis a ponto de nos vermos sempre como alvo do gozo dos outros.

E Boas Festas a tout le monde!!!

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dezembro 20, 2008

FURACÃO MITRA E MIKE DIANA EM LISBOA + RECORTES 13, José Marmeleira in IPSILON-PÚBLICO (EXPO FURACÃO MITRA)

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Cartaz, de Filipe Abranches

A exposição Furacão Mitra realizou-se de 10 a 20 de Dezembro (terminou ontem, integrando a XII Feira Laica) e só não o noticiámos em tempo útil aqui porque as informações foram chegando parcelarmente até... dia 16 ou 17. Mas parece que Mike Diana chegou no dia 17 e a exposição vai prolongar-se por mais uma semana... parece... (não consegui confirmar isto).

Aqui ficam algumas pistas, que podem ser lidas também em janelasgrandes.blogspot.com e na www.chilicomcarne.com.

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FOTOGRAFIA DE DIOGO TAVARES

O Mike Diana chegava a Lisboa na Terça-Feira às 8h10. Às 8h, o monitor avisava que o avião já tinha chegado - «espero que ele não tenha já saído!»... qual quê, duas horas e meia depois aparece o Diana com uma mala pequena numa mão e um papel A4 noutra - «they lost my other bag». E com isso a exposição SUGARFANG a inaugurar no Furacão Mitra na Quarta-Feira.
Então e o que aconteceu no dia da inauguração? A organização fez impressões de algumas bd's suas, pediram originais de privados, Diana pegou na tinta branca e pintou em cartões pretos que havia para lá. Ninguém reparou no problema... porque deixou de haver problema! Apesar de improvisada era uma exposição!
Entretanto a bagagem já chegou...
Quem pensava que o Furacão seria só para visitar uma vez, engana-se... vale a pena regressar ao Mitra!

Texto enviado por Marcos Farrajota (ChiliComCarne)

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Entretanto, a Ípsilon (do Público) de 5 de Dezembro, publicava um texto de José Marmeleira sobre esta exposição:

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EXPOSIÇÃO
Nas fronteiras do desenho, BD e ilustração

05.12.2008 - José Marmeleira

A exposição "Furacão Mitra" reúne artistas portugueses que trabalham em BD, desenho e ilustração.

Desenho, banda desenhada e ilustração. Figuração, sequência, narrativa, manchas de tinta. Contágios e promiscuidades entre linguagens visuais diferentes. Eis o que vai mostrar "Furacão Mitra", que se inaugura a 10 de Dezembro no edifício da Interpress, no Bairro Alto, em Lisboa. Ao todo, são quatro exposições: uma colectiva e uma individual com artistas portugueses, e duas individuais de autores internacionais de banda desenhada (Mike Diana e Fabio Zimbres).
Não se trata, lembra-nos o organizador, José Feitor, de um evento isolado, destituído de rede ou história. Surge no seguimento de várias iniciativas como a exposição "Zurzir o Gigante", realizada no mesmo local, em 2005.
Mas é a mostra colectiva que nos interessa aqui. Nela confluem artistas plásticos que fizeram ou fazem ilustração, autores de banda desenhada que no passado esboçaram o início de uma carreira artística e exemplos de autores dificilmente classificáveis: André Lemos, Bruno Borges, Filipe Abranches, Gonçalo Pena, José Feitor, Luís Henriques, Marco Mendes, Miguel Carneiro, Pedro Lourenço e Rosa Baptista.
É uma lista que não se reduz a uma tendência, mas sinaliza a presença de estilos e universos distintos, num território aberto aos movimentos do desenho, da banda desenhada e da ilustração. Mais: assinala as experiências de uma série de artistas que interrogam (quando não põem em crise) as fronteiras dessas formas de expressão. E com isso revelam histórias comuns e aproximações possíveis em terrenos, quiçá, partilháveis.

Narrativa e sequência

O comissário e artista Paulo Mendes é um conhecedor e apreciador de banda desenhada que classifica como "uma das artes de comunicação visual mais importantes do último século". Em 1996 colocou lado a lado, na exposição colectiva "Zapping Ecstasy", obras de artistas e de autores de banda desenhada ("Furacão Mitra" não é, nesse sentido, uma iniciativa inédita), e já levou ao seu programa de exposições IN.TRANSIT, no Porto, intervenções "site-specific" de André Lemos ou Marco Mendes (que fizeram ou fazem banda desenhada). Sobre uma eventual realidade dominada por novos contágios e migrações estéticas tem, porém, uma opinião cautelosa, se não mesmo céptica: "Não me parece que exista em Portugal, neste momento, um grupo numeroso de artistas que reivindique como influência determinante na sua obra a banda desenhada ou a ilustração." "Formalmente essa relação é sobretudo casuística e pontual no desenvolvimento de determinadas obras", defende. Por outro lado, lembra ainda, "a banda desenhada não necessita da legitimação da arte contemporânea".
Pedro Moura, pedagogo e autor do blogue Ler BD (lerbd.blogspot.com), tem uma perspectiva porventura mais arriscada. Num dos seus artigos propõe a banda desenhada "como uma forma particular, se não mesmo privilegiada, de pensar o mundo através do desenho". O seu olhar dirige-se, por isso, como o próprio nos esclarece, a uma área que inclui "a banda desenhada, a ilustração, os livros de desenhos em sequência ou série, histórias com imagens, sistemas icónico-narrativos".
Quando falamos aqui de banda desenhada, referirmo-nos, claro está, àquela mais "vanguardista" e reflexiva, embora a experimentação não constitua um facto novo na sua história. Tornou-se apenas mais visível. Ora é esta alteração que permanece indiferente ao mundo da arte, apesar de "O Peregrino Blindado" de Eduardo Batarda (livro com uma narrativa, para ser lido? Ou um livro de artista?) ou de certas obras de David Wojnarowicz e de Öyvind Fahlström.
Podemos identificar duas razões para tal atitude: o entendimento da banda desenhada como uma forma de entretenimento juvenil e infantil e o peso da narrativa e da intenção de contar histórias. Mas esses são argumentos questionáveis e facilmente desmontáveis. Afinal, a sequência e a narrativa não estão ausentes da arte - inclusive da contemporânea - e muitos dos preconceitos devem-se não só à ignorância do campo arte, bem como à incapacidade da banda desenhada e da ilustração em se lhe dirigir. Como pôr, então, as duas frente a frente? Pedro Moura sugere "equilíbrio discursivo, alguma aceitação em encontrar especificidades inesperadas, e argumentar num diálogo contínuo sobre uma aproximação entre os dois campos". Domingos Isabelinho, crítico do blogue thecribsheet-isabelinho.blogspot.com, vai mais longe, qualificando de banda desenhada obras de Picasso, Phillip Guston e Ana Hatherly. E deixa a pergunta: "Se o modernismo permitiu, a outras artes, experimentações que fizeram explodir moldes muito rígidos, por que razão se há-de espartilhar a banda desenhada em autênticos leitos de Procusta?"

Fanzines, livros de artista e grandes trabalhos

Na colectiva de "Furacão Mitra" encontramos artistas que habitam essa "área em expansão" referida por Pedro Moura, indiferentes aos perigos de certos leitos e outros mitos. André Lemos é um deles. Autodidacta assumido, começou pela banda desenhada, da qual se tem afastado, para se dedicar ao desenho, quase sempre a preto e branco e num trabalho directo sobre o papel. Algumas das suas obras têm saído pela mão da Opuntia Books, uma editora criada pelo próprio e especializada em objectos artesanais e híbridos, algures entre o fanzine e o livro de artista (Alexandre Estrela, conhecido, sobretudo, por trabalhar com o vídeo e a instalação vai ser o próximo nome da colecção).
Esta dificuldade em distinguir os dois tipos de publicação assinala, aliás, uma característica da actividade de alguns destes criadores: a constante experimentação com a edição, a publicação e os diferentes formatos do desenho ou técnicas como a gravura. Veja-se, por exemplo, José Feitor e a sua Imprensa Canalha, pequena editora independente onde se publicam livros (ou fanzines) que põem de pernas para o ar os conceitos de ilustração e artes gráficas.
Já Filipe Abranches não tem a actividade de editor e, como Lemos, nunca estudou artes plásticas. Começou pelo cinema antes de construir uma carreira como ilustrador e autor de banda desenhada. O seu traço não respeita as convenções dos dois géneros: é feito de linhas e gestos, expressivo e expressionista, enquanto as suas narrativas visuais lidam com o tempo e a justaposição de imagens. Trabalha entre a ilustração e a banda desenhada e sempre disposto a empurrar os limites de ambas.
Miguel Carneiro e Marco Mendes também fazem banda desenhada, mas os seus percursos cruzam-se com o mundo da arte e são indissociáveis de um certo contexto artístico portuense. O primeiro chegou a ser nomeado em 2003 para a quarta edição do Prémio EDP Jovens Artistas e foi um dos membros do projecto Pêssego Prà Semana, antes de conhecer a obras de Isabel Carvalho e Pedro Nora no fanzine "A Língua". O seu trabalho, baseado num desenho minimal e agressivo, tem um registo humorístico e revela a presença repetida de figuras e personagens.
Quanto a Marco Mendes, diz ser tanto um artista plástico como um autor de banda desenhada e encontra no desenho uma forma de contar histórias de cariz autobiográfico. Marco e Miguel formam o projecto A Mula e realizam iniciativas onde os conceitos de publicação e exposição são contextualizados por pinturas murais num universo gráfico partilhado.
Na arte portuguesa, o uso do fanzine ou da banda desenhada - como espaços e meios de expressão, experimentação ou comunicação - conta entretanto com uma pequena história. Fernando Brito, um dos Homeostéticos, publicou bandas desenhadas, tal como Rui Chafes ou Rigo, cujo vocabulário gráfico ainda apresenta memórias dessa arte.
Juntam-se a estes outros "episódios" mais relevantes como os de Alice Geirinhas e João Fonte Santa (com "Facada Morta" e "Vaca Veio do Espaço") e já nos anos 90 a citada Isabel Carvalho. Finalmente, da cena ligada à Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, destacam-se o iconoclasta e "trash" "Cona da Mão Comics" de Gonçalo Pena, hoje um pintor de galeria, e "Bactéria", de Francisco Vidal.
Outro caso singular, não de produção, mas de publicação foi a revista de desenho "Manual" que Alexandre Estrela co-editou em 2003 com Scott Harrison e no campo da ilustração são incontornáveis as experiências desenvolvidas, nos anos 90, no semanário "O Independente". Durante a direcção de arte de Jorge Silva, trabalharam nesse jornal Pedro Amaral, Alice Geirinhas, João Fonte Santa e Gonçalo Pena. E, por vezes, sem a orientação do texto, acabaram por fazer artes plásticas, pequenas pinturas ou ligações inesperadas, como aquela que vai atravessando a pintura figurativa de Gonçalo Pena.
Nem por acaso, alguns destes nomes marcaram a produção visual de Rosa Baptista, membro do colectivo artístico feminino Pizz Buin e também ela participante em "Furacão Mitra". Pedimos que se apresente nessa condição. Ilustradora? Autora de banda desenhada? Artista plástica? "Sou uma pessoa e vou desenvolvendo vários trabalhos em vários suportes. Não tenho uma categorização específica, porque para mim todos os trabalhos fazem parte de Um grande trabalho."

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E fica também aqui o link do blogue brasileiro Rizoma, com uma entrevista com Mike Diana acerca do caso de 1995, quando ele foi julgado e condenado a prisão por ter publicado e distribuido material obsceno a partir de sua pequena cidade natal, Largo, na Flórida, no seu fanzine Boiled Angel (Anjo Cozido).

Publicado por jmachado em 07:40 PM | Comentários (6) | TrackBack

BOAS FESTAS E BOAS ENTRADAS EM 2009...

... PORQUE QUANTO ÀS SAÍDAS, OUTRO GALO CANTARÁ.

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(*) Referências Culturais

Em várias culturas ancestrais à volta do globo, o solstício de inverno (21/22 de Dezembro) era festejado com comemorações que deram origem a vários costumes hoje relacionados com o Natal da religião cristã. O solstício de inverno, o menor dia do ano, a partir de quando a duração do dia começa a crescer, simbolizava o início da vitória da luz sobre a escuridão. Festas pagãs das mitologias persa e hindu referenciavam as divindidades de Mitra como um símbolo do "Sol Vencedor", marcada pelo solstício de inverno. A cultura do império romano incorporou a comemoração dessa divindade através do Sol Invictus. Com o fortalecimento da religião cristã, a data em que se comemoravam as festas pagãs do "Sol Vencedor" passaram referenciar o Natal com a comemoração do nascimento de Jesus Cristo (que, segundo parece, nem nasceu nessa data), com alguns vínculos directos com as antigas festas pagãs e muita coisa copiada delas.

Publicado por jmachado em 06:11 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 17, 2008

RECORTES 12 - CARLOS PESSOA, no PÚBLICO E PEDRO CLETO, no JN (AMBOS SOBRE A MORTE DE LAUZIER) + A NOVA KINGPIN e... um comentário a um comentário sobre albatrozes...

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CRIADOR DE BANDAS DESENHADAS E UM PROVOCADOR SUBLIME

13.12.2008, Carlos Pessoa

Autor atípico e inclassificável, deixou uma obra polémica que lhe valeu críticas duras à esquerda e à direita. É uma pena ser quase desconhecido em Portugal.

Ainda a ressaca dos acontecimentos de Maio de 68 não tinha acabado e já uma voz se erguia contra o conformismo e as incongruências dos órfãos da revolução. Chamava-se Gérard Lauzier, um criador de bandas desenhadas que se dedicava a dissecar, com acidez e ironia, tudo e todos - os intelectuais egocêntricos, os publicitários envergonhados, os defensores nostálgicos do regresso à terra, os artistas falhados, os chefes de família da nova ordem reinante. Em suma, os sinais identificadores do refluxo ético, social e cultural que atravessou a sociedade francesa nos anos 70 e 80 do século passado.
Autor de banda desenhada atípico e, de certa forma, inclassificável, Lauzier teve a sua época de ouro no período entre 1975 e 1985, anos em que colaborou na revista Pilote, da qual foi um dos esteios. Se existe uma obra culminante no percurso deste homem nascido em Marselha a 30 de Novembro de 1932, ela chama-se Tranches de Vie (cinco álbuns). Durante esse período, fez da "esquerda caviar" o seu alvo preferencial, desnudando sem pudor a má consciência de um certo tipo de pessoas, bafejadas pelo êxito social, que não tinham pejo em desenvolver um discurso autojustificativo dos seus comportamentos acomodados.
As suas críticas congregaram um coro de acusações. Criador polémico por excelência, o desenhador foi acusado de ser reaccionário, racista - e mesmo fascista - à esquerda, mas também anarquista e esquerdista à direita. Lauzier, um autor ambíguo? "O que posso dizer em minha defesa é que me limito a contar histórias que acontecem à minha volta, e que relato à minha maneira", respondia em Janeiro de 1993 numa entrevista ao PÚBLICO, imediatamente a seguir à sua consagração no Festival Internacional de BD de Angoulême, onde lhe foi atribuído o Grande Prémio Alph-Art. Controverso? "O pequeno meio intelectual em torno da BD era sobretudo de esquerda e eu sou um homem de direita. Mas a verdade é que nunca quis ser premeditadamente mau, nem sou fascista!..."
Na mesma entrevista, Lauzier admitia que todas aquelas acusações o "divertiam imenso", para logo a seguir explicar o que o fazia correr: "Há uma geração de autores franceses que têm no quotidiano a sua matéria-prima - é o caso de Veyron, Bretécher ou Margerin - e então basta olhar à volta para 'apanhar' os fragmentos do quotidiano".

BD, cinema e teatro

Silencioso desde 1992, ano em que publicou o último álbum, Gérard Lauzier morreu no passado dia 6 de Dezembro na sua casa em Paris. "Na sequência de doença prolongada", disseram as agências noticiosas.
A biografia oficial do artista fala de uma passagem pela École des Beaux Arts de Paris, partindo depois para o Brasil em 1956. Trabalha em publicidade e faz caricaturas no Jornal da Baía. Dá-se muito bem com os ares tropicais, mas nem por isso com a ditadura militar, regressando a França em 1965. Torna-se desenhador de humor, actividade que desenvolve até 1974. Nesse ano, começa a dedicar-se à BD, sobretudo na revista Pilote. A sua bibliografia regista uma mão-cheia de álbuns, mas pára em 1983, se exceptuarmos um regresso efémero em 1992 (Portrait d'Artiste).
Mas Lauzier era incapaz de se manter inactivo. O cinema foi outra área onde deixou marca, com filmes que realizou (Tranches de Vie, 1985, ou Mon Père, Ce Héros, 1991, etc.) ou assinou o respectivo argumento (Je Vais Craquer, 1979, Psy, 1980, ou À Gauche en Sortant de l'Ascenseur, 1988). São também dele os diálogos de Astérix et Obélix versus César (1999). Da passagem de Lauzier pelo teatro destaca-se sobretudo a encenação de peças construídas a partir de alguns dos álbuns de BD.
Contundente na sua produção artística, Lauzier era um homem "caloroso" e "reservado", realçou Philippe Ostermann, o seu editor na Dargaud. Martin Veyron, autor de banda desenhada, conviveu com ele de perto: "Quando o conheci, esperava encontrar um macho grosseiro, mas ele era de uma enorme delicadeza", declarou ao jornal Le Monde. "Não era uma criatura mundana, nem um elemento desse show-bizz que descreve nas suas bandas desenhadas, era um sonhador, um distraído." Régis Franc, outro camarada de profissão, conhecia-o desde 1977 e destaca sobretudo a sua "inteligência" e "desapego", rejeitando a ideia que fosse um reaccionário ou um homem
de direita.

Criticar ou comover

O olhar mortífero com que outrora viu a realidade dera lugar, em tempos mais recentes, a uma visão mais amena das coisas. Numa entrevista ao Journal de Dimanche, em 1998, Lauzier falava dos que o criticavam por "ter-se perdido o lado provocador das minhas bandas desenhadas". Respondia a isso que, agora, tinha vontade de "comover, fazer rir e dar esperança no momento em que o discurso ambiente é totalmente negativo e em parte falso". Talvez por isso, a ministra francesa da Cultura, Christine Albanel, evocou o "artista original", acrescentando que os seus álbuns, "tintados de ironia e de humor vivo e corrosivo, marcaram uma época".
Para o crítico e livreiro João Miguel Lameiras, Lauzier era "o típico autor francês" - de facto, apenas um álbum da série Coisas da Vida e A Corrida do Rato, foram publicados em Portugal -, caracterizado por "um humor de crítica social e de costumes": "Foi alguém importante nos anos 70 e 80 do século passado, mas com pouco significado para os leitores de hoje".
O investigador Leonardo de Sá tem outra visão. "A crítica latente e presente nas histórias de Lauzier continua a ser muito válida hoje", diz. "No período pós-Maio 68, parecia haver coisas e acontecimentos do dia-a-dia da sociedade francesa que deviam ser ditos; mas como tinham um carácter relativamente universal, eram válidos em outros países com um esquema de vida mais ou menos semelhante. O mundo não mudou assim tanto desde então e, por isso, as suas histórias são perfeitamente entendíveis por jovens de hoje que não viveram aquela realidade. A crítica é que mudou, pois deixou de existir - pelo menos naqueles termos."
Integrado numa geração de criadores surgidos nas revistas nas últimas décadas do século passado, Lauzier é responsável, com Gotlib, Alexis, Solé, Mandryka e muitos outros artistas, pela viragem da BD para uma dimensão mais adulta.

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Jornal de Notícias, 9 de Dezembro de 2008

GÉRARD LAUZIER, HOMEM DA BD, DO TEATRO E DO CINEMA

Pedro Cleto

Gérard Lauzier, autor de BD, dramaturgo e cineasta faleceu aos 77 anos.

Nascido em 1932, licenciou-se em Filosofia, derivou depois para arquitectura e acabou a fazer desenho de imprensa e publicidade. Em 1974, chegou à BD, na "Pilote", com "Lili Fatale" e, depois, "Tranches de Vie", crónicas do quotidiano e das relações humanas, feitas em traço rápido e nervoso, simples suporte da sua veia mordaz e irónica. Em português tem traduzidos "Coisas da Vida" e "A corrida do rato".

Nos anos 80 afastou-se da 9ª arte, adaptando algumas das suas criações para teatro e cinema, tendo escrito igualmente os diálogos de "Astérix e Obélix contra César". Em 1992 teve um fugaz regresso à BD com "Portrait de L'artiste", recebendo no ano seguinte o Grande Prémio de Angoulême pelo conjunto da sua obra.

Copyright: © 2008 Jornal de Notícias; Pedro Cleto

E o nosso tributo a Gérard Lauzier
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KINGPIN OF COMICS PASSA A KINGPIN BOOKS E INAUGURA NOVA LOJA.

Pois é, Mário Freitas já o tinha anunciado no FBDA 2008 e assim foi. No dia 22 de Novembro a Kingpin inaugurou a nova loja na Rua Quirino da Fonseca, nº 16 B, quase ao lado do antigo Cinema Império. Aqui ficam as fotos da inauguração, sacadas do blog do Mário Kingpin Freitas Books, porque quando eu lá fui fazer fotos antes da inauguração, nada estava ainda pronto (fui demasiado cedo), então arquivei as minhas fotos e resolvi esperar pelas imagens no referido blogue que pode ser visitado AQUI.

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E ATENÇÃO: O Mário tem lá TODOS os números do BDjornal e TODOS os livros da Pedranocharco. Portanto, quem anda às aranhas em Lisboa à procura do BDj, vá à Kingpin Books, que o encontra lá e pode ser que leve mais alguma coisa que lhe interesse!!!

(Isto pode parecer um comercial, mas não é, OK? É pura solidariedade!!)

Já agora, Teresa Gambuzina C. Pestana (comento o teu comentário ao post anterior), os albatrozes precisam de ser salvos, os pandas precisam de ser salvos, as baleias precisam de ser salvas, os tigres precisam de ser salvos, os orangotangos idem, idem, aspas, aspas, etc... por aí fora e nós não podemos fazer mais nada senão alertar as "pessoas". Aquilo que penso é simples: enquanto a esmagadora maioria dos ditos "seres humanos", ou "pessoas" não pensar - nem que seja uma vez por dia - que é um simples animal da espécie homo sapiens, nada poderá ser salvo neste planeta, nem o próprio planeta sequer!!! Leiam, por favor, esses livros que foram uma espécie de bíblias para a minha geração e que se intitulam O Macaco Nú e O Zoo Humano, do biólogo Desmond Morris, para começarem, ao menos, a catar os sovacos à laia dos nossos primos chimpanzés! E depois falamos...

Publicado por jmachado em 08:55 PM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 16, 2008

UM FANZINE PELO ALBATROZ

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A QualAlbatroz, editora que participou na co-edição do BDjornal #23 e editou O Menino Triste - A Essência, de João Mascarenhas, tem este nome justamente para alertar o público para as ameaças a que está sujeita essa ave fantástica que é o albatroz (uma entre muitas das espécies ameaçadas pelo homo sapiens) e lembrou-se agora de fomentar esse alerta através da edição de um fanzine, para que abriu portas à participação dos autores de banda desenhada deste país.

O regulamento pode encontrar-se AQUI.

E, já agora fiquem com este pequeno trecho de informação sobre albatrozes e algumas imagens.

O ALBATROZ-ERRANTE

Existem 21 espécies de albatroz, divididas em quatro géneros, Diomedea exulans, Thalassarche (pronuncia-se Talassarque), Phoebastria (pronuncia-se Febástria) e Phoebetria (pronuncia-se Febétria).

Por exemplo, o albatroz-errante ou albatroz-gigante (do género Diomedea exulans) é uma ave da família Diomedeidae que vive na maior parte do oceano austral, das margens do gelo que circunda a Antártica (68°S) até o Trópico de Capricórnio (23°S) e, ocasionalmente, até mais ao norte, com alguns registos fora da Califórnia e no Atlântico Norte. Durante o inverno, a maior parte das aves concentra-se a norte da Convergência Antártica.

As crias de albatroz-errante são quase totalmente de cor castanha ao deixarem o ninho mas com a idade adquirem a plumagem branca e cinzenta, sendo os machos mais brancos que as fêmeas. Os machos das ilhas Geórgia do Sul pesam entre 8,2 e 11,9 kg, enquanto que as fêmeas, mais leves, pesam entre 6,4 e 8,7 kg. A envergadura é maior nos machos e pode ser entre 2,7 até 3,7 m. O albatroz-errante nidifica em colónias dispersas com posturas que ocorrem entre Dezembro e Fevereiro e que resultam num único ovo. A incubação, partilhada por ambos os pais, dura cerca de 11 semanas e o filhote resultante leva 40 semanas para deixar o ninho (entre Novembro e Fevereiro). O período reprodutivo é longo (55 semanas) e bi-anual. Os albatrozes-errantes têm uma esperança de vida elevada e é provável que alguns indivíduos ultrapassem os 50 anos de idade.

Consequentemente, os machos e fêmeas começam a reproduzir-se relativamente tarde, com cerca de 11 anos.

Esta ave forrageia no talude ou fora da plataforma continental, daí o seu nome de errante, onde captura presas principalmente na superfície, dada a limitada capacidade de submergir. Alimentam-se principalmente de lulas (35% da massa consumida pelos filhotes) e peixes (45%) mas também podem consumir carniça (como mamíferos marinhos mortos), tunicados, águas-vivas e crustáceos. A maior parte do alimento é obtida durante o dia, embora ocorra algum forrageamento durante a noite.

A população mundial actual é estimada em cerca de 8.500 casais, o que corresponde a um total aproximado de 28.000 indivíduos maduros, sendo então a espécie considerada como Globalmente Vulnerável (VU, critérios A1b,d; A2b,d) pela IUCN e listada no Apêndice II da Convenção de Espécies Migratórias (CMS).

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E esgalhem essas histórias rapidamente, que a edição fecha mais ou menos no final do ano!!!

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dezembro 14, 2008

TERTÚLIA BD DE LISBOA - DE NATAL

O 292º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, no seu 23º ano, decorreu no passado dia 9 de Dezembro. Até há dois anos havia em Dezembro dois encontros da Tertúlia – o normal, na 1ª terça-feira e o de Natal, na 3ª terça-feira. No ano passado Geraldes Lino decidiu alterar e concentrar as coisas, apenas se realizando a Tertúlia de Natal, que passou a ser na 2ª terça-feira de Dezembro. E sempre em Restaurantes diferentes do habitual mensal, tal como a Tertúlia de Aniversário, em Junho, e que por isso se chamam Tertúlias Vadias. Isto para já não falarmos da Tertúlia BD de Lisboa em Beja, que é anual e se iniciou naquela cidade com o II Festival Internacional de BD de Beja, em 2006.

Assim esta Tertúlia de Natal, em que estiveram presentes 47 tertulianos bedéfilos, realizou-se no Jardim dos Leitões (que só abre para grupos com marcação), perto da Praça do Chile e cuja especialidade é o leitão assado à Bairrada. Tem uma sala ampla, que ocupa aquilo que foi em tempos o quintal do edifício, agora coberto e com as paredes originais completadas até à cobertura com um encaniçado. Dois aquecedores de jardim amenizavam a tempertura fria que se fazia sentir e, sumo dos sumos (para os fumadores, pois), dado que a sala é quase uma esplanada, podia-se fumar!!! Lá estava o dístico azul…

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Dado que o meu scanner se lembrou de pifar uns dias antes da Tertúlia, não apresento as tradicionais digitalizações do Programa, Folhas Volantes e Tertúlia BDzine, mas sim fotos com o dito material circulante em primeiros planos – não se consegue ler, mas foi o que se arranjou!

Aqui ficam as fotos:

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Geraldes Lino, atento à questão da reabilitação do Parque Mayer (ou não fosse aí que se realizam os encontros mensais da Tertúlia BD de Lisboa), distribuiu um folheto em papel cinza intitulado Parque Mayer (1) – Notícias para os resistentes, cujo texto e uma planta do projecto, que não a mesma do folheto, aqui fica para os interessados.

MANUEL AIRES MATEUS, AUTOR DE PROJECTO PARA O RATO, VENCE CONCURSO DO PARQUE MAYER

Público, 27.11.2008 - 21h44 Luís Filipe Sebastião, Ana Henriques

O arquitecto Manuel Aires Mateus é o vencedor final do concurso de ideias para a reabilitação do Parque Mayer, em Lisboa, com a sua proposta de estender o Jardim Botânico até ao antigo recinto da revista à portuguesa.

Um hotel, serviços de vária ordem, restaurantes e duas salas de espectáculos – uma das quais o teatro Capitólio, devidamente recuperado – fazem parte dos edifícios previstos por Aires Mateus, que só tinha previsto 25 mil metros quadrados de construção, mas que, tal como os restantes concorrentes, teve de subir esse valor para 32 mil para se adaptar ao programa de concurso estabelecido pela câmara.

O arquitecto, que já tinha vencido a primeira fase do concurso, quer criar no antigo Parque Mayer mais um pedaço de cidade, com uma praça à volta do Capitólio e várias ruas. “Toda a zona será pedonal”, explicou hoje, dia em que soube que o projecto que irá por diante será o seu. Como o quarteirão está num declive, foram pensados alguns meios mecânicos, embora restringidos ao mínimo para ajudar os peões a vencer os desníveis que separam a Rua da Alegria da Rua da Escola Politécnica: escadas rolantes e elevadores. Ainda não é certo que no local fiquem bibliotecas e livrarias especializadas em artes plásticas e artes de palco e residências para artistas, como previu Aires Mateus inicialmente; a autarquia pediu aos concorrentes um programa de ocupação versátil do espaço para poder encaixar as valências que mais tarde entender.

Autor, com Frederico Valsassina, do projecto de um polémico edifício para o Largo do Rato que a Câmara de Lisboa não quer deixar construir, o arquitecto irá agora ajudar a autarquia a desenvolver um plano de pormenor para o quarteirão do Parque Mayer, uma área mais vasta que o antigo recinto do teatro de revista. O seu plano prevê ainda a recuperação do museu da Faculdade de Ciências.

O gabinete AXR Portugal Arquitectos, de Nuno e José Mateus, manteve o segundo lugar que conquistou na primeira fase do concurso. A sua proposta assentou em três eixos que caracterizam a zona: Ciência (museus), Natureza (Jardim Botânico) e Arte (Parque Mayer). As intervenções davam novos usos às construções existentes, embora também se admitisse um novo edifício de ligação à Praça da Alegria. Outras apostas: escolas de arquitectura paisagística e de jardinagem, hotel com 60 quartos e casa de chá suspensa (sobre o Parque).

Gonçalo Byrne, que ficara em 5.º lugar, subiu no alinhamento final à 3.ª posição. A sua proposta, com novos acessos à Praça da Alegria e Rua do Salitre, prevê uma capacidade construtiva de 60 mil m2 de habitação, hotelaria, comércio e serviços. O Capitólio, inserido num “denso tecido urbano multiusos”, beneficiaria de uma ligação por meio mecânicos ao Jardim Botânico.

Arquitecto premiado

Com vários prémios internacionais, Manuel Aires Mateus, de 45 anos, foi distinguido com o Valmor graças à reitoria da Universidade Nova, em Campolide. Já este ano ganhou, em parceria, um concurso para a nova sede da EDP na Boavista.

Como se poderá ver pelo projecto (é melhor visitarem o site indicado abaixo) a área de Restaurantes engloba o espaço actualmente ocupado pelo Restaurante Gina – talvez a Tertúlia tenha que fazer Encontros Vadios durante uns tempos, para depois voltar à casa mater….

Planta do Projecto (circulo vermelho - onde fica o Restaurante habitual, será a zona de Restaurantes):
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E agora, falemos de Leitões Assados à Bairrada:

A Bairrada é a Denominação de Origem de uma região entre Coimbra e Aveiro (Concelhos de Oliveira do Bairro, Águeda, Anadia, Mealhada e Cantanhede), que se notabilizou pelos seus secularmente famosos vinhos e que provavelmente deve a sua designação a Oliveira do Bairro – daí Bairrada. À fama dos seus vinhos, juntou-se em finais do século XIX, a do leitão assado.

Existe uma teoria que atribui o início do negócio do leitão assado dito “da Bairrada” a um tal Ti Marcelino que, vindo do Brasil, no início do séc. XX, se dedicou à confecção e venda (feita porta a porta e em feiras) do leitão assado. Terá tido como sucessor um seu aprendiz, António de Almeida, o Morcego, que viria a expandir o negócio no concelho de Águeda. No entanto, outros há que garantem ter sido graças à actividade de Carlos Mega e, mais tarde, Álvaro Pedro, que divulgaram a comercialização do leitão no concelho da Mealhada. Mas Pedro da Costa chama a atenção para um manuscrito conventual do séc. XVIII (1743) intitulado Caderno Refeitório, onde se faz a referência a uma receita de leitão assado que em quase nada difere da actual receita de leitão bairradino.

Refira-se, já agora, que entre a preparação do leitão assado à Bairrada e a do seu concorrente mais directo, o leitão assado de Negrais (na região saloia, a norte de Lisboa e a sul de Mafra e da Malveira), vai um mundo de pequenas diferenças, entre temperos e modos de preparo, sendo o mais notório o que diz respeito ao modo de assar: enquanto o da Bairrada é assado fechado no espeto, o de Negrais é assado aberto e espalmado.

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PREPARAÇÃO

INGREDIENTES
Para 1 leitão de 7 a 9 Kg:

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4 cabeças de alho
1 punhado de sal
1 colher sopa bem cheia de pimenta
50 a 100 g de banha de porco
2 colheres sopa de azeite

Pisam-se, num almofariz, os ingredientes pela ordem indicada até formar uma massa homogénea.
Em seguida, o interior do leitão, já esvaziado de tripas e miudezas é barrado com esta massa. Fazem-se alguns furos com a agulha no seu interior para que o molho penetre nas partes mais carnudas.
É então colocado no espeto de loureiro e, depois de cosida a barriga com agulha e fio carrete, vai para o forno.

COZEDURA

A qualidade do “Leitão da Bairrada” varia com o saber e arte do assador, não deixando também, de ser importante o tradicional forno de barro - que deve ser aquecido com lenha (casca de eucalipto ou feixes de vides) até ficar muito quente.
O leitão deve assar muito lentamente e, para que a cozedura seja uniforme, deve ser girado manualmente, sendo este um dos segredos da habilidade do assador. De meia em meia hora, retira-se o leitão e borrifa-se com água ou vinho branco maduro da Bairrada com sal, processo que se designa por “constipar o leitão” e que tem a finalidade de tornar a pele dura e estaladiça.

APRESENTAÇÃO

O “Leitão da Bairrada” é tradicionalmente servido em travessa de porcelana, cortado em pequenos bocados, colocados com a pele virada para cima e sem sobreposições para que a gordura não altere a textura estaladiça da pele.
Os acompanhamentos são batata cozida com a pele (há também quem o faça acompanhar de batata frita) e salada de alface, com tempero simples, para não alterar o paladar característico do leitão. Há também quem use rodelas de laranja para acompanhar, o que, apesar de alterar o sabor da iguaria, combina bem, já que tem um efeito adstringente.

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DERIVADOS

Cabidela de Leitão
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Prato típico da região da Bairrada que é confeccionado com sangue e miúdos (coração, pulmões e fígado) do leitão cortados aos bocadinhos e temperados com o molho do leitão, banha, sal, azeite, cebola, vinho tinto e água. Tradicionalmente, este prato é assado no forno, por baixo do leitão, aparando o molho que escorre deste.

Feijoada de Leitão
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Um refogado bem puxado a que se juntam os bocados de leitão assado e feijão branco cozido na hora. Não esquecer 1 colher de molho do leitão para temperar. Este prato tradicional faz-se para aproveitamento das sobras do Leitão da Bairrada.

Íscas de Leitão
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Fígado do leitão, cortado finamente, que, depois de temperado, é frito e usado tanto como petisco de entrada, como em cebolada para uma refeição mais completa.

Sandes de Leitão
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Pão da Mealhada com pedaços do Leitão da Bairrada que é característico das zonas de passagem e que tem a vantagem de o acompanhamento não alterar o paladar da iguaria.

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dezembro 13, 2008

RECORTES 11 - Recortes atrasados (Pedro Cleto no JN) E... O DAVIDÃO, DE MIGUEL ANGELO

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Jornal de Notícias, 7 de Dezembro de 2008

Novo Lucky Luke chega(ou) dia 9

Pedro Cleto

Chama-se "O Homem de Washington", é o novo álbum de Lucky Luke, terceiro do período pós-Morris, e chega às livrarias portuguesas no dia 9, praticamente em simultâneo com a edição francófona, à venda desde sexta-feira passada.

Os responsáveis pela nova aventura são mais uma vez o desenhador Achdé (aliás Hervé Darmenton) e o humorista Laurent Gerra, que optaram por uma abertura em grande, reeditando um duelo entre Lucky Luke e o mítico Billy the Kid, continuando a apostar numa das imagens de marca dos seus álbuns: as constantes evocações do passado da série, que conta já mais de sete dezenas de títulos, desde a sua criação a solo por Morris, em 1946.

Entre 1955 e até à sua morte, em 1977, Goscinny assinou os argumentos e introduziu personagens carismáticas como os terríveis irmãos Dalton ou o idiota cão Rantanplan, seguindo-se um período em que Morris recorreu a diversos argumentistas, até falecer em 2001. Dois anos depois, a actual dupla fazia a sua estreia no "cowboy que dispara mais rápido do que a sua própria sombra" com "Lucky Luke no Quebeque", primeiro tomo da nova série denominada "As aventuras de Lucky Luke segundo Morris".

Agora, em "O Homem de Washington", o fleumático cowboy enfrenta mais uma missão de alto risco: acompanhar e proteger o candidato republicano à Casa Branca, Rutherford Birchard Hayes (que na realidade viria a ser o 19º presidente norte-americano, entre 1877 e 1881), durante a sua campanha eleitoral pelo oeste selvagem, devido às ameaças de Pierre Camby, um rico explorador de petróleo apostado em ocupar o seu lugar, "um menino do papá", que, por coincidência ou não, tem a cara de um certo George W. Bush.

Partindo de um tema actual, pretexto para um olhar crítico ao mundo da política, os autores narram uma implacável perseguição pela vastidão da América que, revelou Achdé ao JN, conta com "emboscadas, índios, uma locomotiva, um cozinheiro falhado, loucos do revólver, uma diligência, senadores, o muro de Berlim, agentes muito especiais, um pregador no deserto, uma louca por limonada e um ou dois coiotes!" e o encontro com celebridades actuais, como uma certa Britney Schpires, "cantora de cancan" em saloons. Tudo condimentado com bom humor, ritmo vivo e um traço solto, dinâmico e agradável.

A edição francesa, disponível desde a passada sexta-feira, é o best-seller aos quadradinhos para a época natalícia no mercado francófono, esperando-se que as vendas ultrapassem o meio milhão de exemplares, já que o álbum anterior de Achdé e Gerra, "O Nó ou a forca", vendeu 650 mil cópias. A versão portuguesa chegará às livrarias na próxima terça-feira com uma tiragem (bem) mais modesta de 4 000 exemplares.

(ENTREVISTA – Em Caixa)

Achdé: "Sou o primo da província de Lucky Luke"

JN - Após três álbuns de Lucky Luke, qual é a sensação?
Achdé - Continuo nas nuvens e a ter enorme prazer neste mito da BD. Estes sete anos passaram como um sonho! Com muito trabalho, incertezas e angústias, mas também com prazer e satisfação.

JN - O que mudou na sua relação com ele?
Achdé - Lucky Luke entrou na minha família. É um amigo que vive no meu atelier. Morris era o seu pai, eu acho que posso dizer que sou o seu primo da província.

JN - Qual o seu melhor álbum de Lucky Luke?
Achdé - O próximo! Porque terá que ser ainda melhor que os precedentes.

JN - Há quatro Lucky Luke diferentes, o original de Morris, o mais popular de Goscinny e Morris, o pós-Goscinny e o actual de Achdé e Gerra?
Achdé - Pergunta difícil. Lucky Luke evoluiu ao longo dos anos. Os mais mágicos são os de Morris e Goscinny, mas alguns de Fauche e Leturgie são geniais. É impossível compará-los!

JN - Como apresenta o seu Lucky Luke?
Achdé - Uma mistura entre James Stewart e John Wayne; grande, calmo, pragmático, mas também leal, franco e cavalheiresco; um verdadeiro herói.

JN - Ainda tem dificuldades em desenhá-lo?
Achdé - Digamos que tenho medo de errar. Por isso volto muitas vezes aos meus desenhos, para tentar melhorá-los. Baixar a qualidade de uma personagem como Lucky Luke não é aceitável.

JN - Reencontrar Billy the Kid foi um prazer ou um problema?
Achdé - Um prazer, claro! Animar outra personagem pequena e nervosa como o Joe Dalton foi uma verdadeira maravilha!

JN - Como vê o seu futuro com Lucky Luke?
Achdé - Se Deus permitir, longo e bom!

JN - E um Lucky Luke escrito por Achdé?
Achdé - Todo o desenhador tem a veleidade de perguntar se será capaz de fazer texto e desenho. Para já, o papel de co-argumentista satisfaz-me plenamente, mas quem sabe o que trará o futuro?

JN - O próximo Lucky Luke vai ser.

Achdé - Lindo!

Copyright: © 2008 Jornal de Notícias; Pedro Cleto

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Jornal de Notícias, 8 de Dezembro de 2008

À abordagem!

Pedro Cleto

Após 40 anos de carreira, Hermann estreia-se numa história de piratas

Aos 70 anos, "O diabo dos sete mares", é (mais) uma confirmação de Hermann como um dos melhores desenhadores realistas da BD franco-belga.

E revela a sua mestria na planificação contida mas variada e dinâmica e, principalmente, no desenho traçado com soberbas cores directas, das múltiplas gamas de cinzentos das cenas nocturnas aos tons luxuriantes dos pântanos da Carolina do Sul. Isto, depois de incursões por quase todos os géneros: aventura em estado puro (em "Bernard Prince"), western ("Comanche"), Idade Média (revisitada n'"As Torres de Bois-Maury"), futuro pós-apocalíptico ("Jeremiah"), ficção histórica ("Jugurtha") ou humor e fantasia ("Nic, o sonhador").

Agora, tudo se inicia com o casamento em segredo da filha de um rico fazendeiro com um aventureiro de passado duvidoso. Só que o seu acto despoleta um sem número de consequências, do deserdar da jovem ao incêndio da plantação do seu pai, da fuga do casal às sucessivas alianças, lutas e traições pela posse do tesouro do mítico e terrível pirata conhecido como "Diabo dos Sete Mares", em torno de quem tudo gira apesar de uma aparição pouco mais do que fugaz.

Tudo narrado em cadência acelerada, com os acontecimentos e as revelações a sucederem-se, obrigando o leitor a parar por vezes para considerar as diversas pistas que o argumentista Yves H., como é habitual nele, vai fornecendo, fazendo de uma intriga aparentemente simples e directa, uma trama elíptica e elaborada.

O Diabo dos Sete Mares - Parte 1

Yves H. (argumento) e Hermann (desenho)

Vitamina BD

Nascido a 17 de Julho de 1938, Hermann Huppen, em parceria com Greg, foi um dos pilares da revista "Tintin", nas décadas de 60 e 70.

A partir dos anos 80, primeiro a solo, desde 1995 com argumentos do seu filho Yves H., aliou a um elevado ritmo produtivo um apuro gráfico da sua notável técnica de cor directa.

Copyright: © 2008 Jornal de Notícias; Pedro Cleto

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Não consegui a capa da edição portuguesa, sorry.

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DEPOIS DE UMA VIAGEM AOS EUA PARA SER VISTO NUMA EXPOSIÇÃO, O DAVID DE MIGUEL ANGELO, VOLTOU ASSIM A FLORENÇA....

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Publicado por jmachado em 03:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

EXPOSIÇÕES (notas de Marcos Farrajota) e o Fanzine da A.Rechena

Esta já foi (5 e 6 de Dezembro), mas está prevista a itinerância até 2010!!!Fica aqui a nota.

Åbroïderij! HA! – EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARTES GRÁFICAS

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Cartaz de Miguel Carneiro

Com André Lemos , João Rubim , José Feitor, Jucifer, Ilan Manouach (gr), Guillaume Soulatges (fr), Fabio Zimbres (br), Bruno Borges , Joanna Latka, Nuno Neves , Richard Câmara , Miguel Carne iro , Cátia Serrão , Luís Henriques, Rosa Baptista , Daniel Lima , Zé Cardoso, Rui Vitorino Santos , Júlio Dolbeth , Joana Rosa Bragança , Lucas Almeida , Pedro Zamith , João Maio Pinto , Teresa Amaral , Pedro Lourenço , Bráulio Amado, Christina Casnellie , Lucas Barbosa, Sérgio Vieira , Artur Varela, Ana Menezes, João Fazenda , Rafael Gouveia, Stevz (br), Christopher Webster (uk), Filipe Abranches , Marco Mendes , dice industries (ale), Kolbeinn Karlsson (sue), Gianluca Costantini (it), Daniel Lopes , Pau liina Mäkelä (fi), Maria Pia Cinque (it), Andrea Bruno (it), Igor Hofbauer (cro), Kai Pfeiffer (ale) e Ulli Lust (ale).

A exposição foi organizada no âmbito da 10ª FEIRA LAICA, e depois de ter estado patente na sala de exposições da Bedeteca de Lisboa entre Junho e Setembro de 2008, iniciou um périplo de itinerância que durará até 2010. Os Gajos da Mula responsabilizaram-se pela primeira paragem, no Maus Hábitos durante o mês de Dezembro de 2008.

A MULA : www.osgajosdamula.blogspot.com

ESTA ESTÁ A DECORRER:

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Pior que o Diabo, melhor que Deus
Mike Diana, o primeiro autor de bd a ser proibido de desenhar em Lisboa!

Entre 10 e 20 de Dezembro, no Furacão Mitra (Interpress, Bairro Alto)

Ver furacaomitra.blogspot.com

Foi numa carta (privada) à minha pessoa, enquanto editor do livro Sourball Prodigy, que o autor de bd Janus (O Macaco Tozé) comentou que Mike Diana só é um autor polémico porque «habita num país de imbecis». Provavelmente se habitasse na velha Europa não teria nem a metade das chatices. Mas não, no estado da Florida viver-se a "tolerância zero" - ou seja, nem uma sex-shop pode se instalar por aquelas bandas. E por isso mesmo que Diana nos anos 90, puto na altura, editor do zine Boiled Angel, teve dois azares terríveis com a Justiça norte americana, azares esses que o tornaram mundialmente famoso.
Diana nasceu em 1969 em Geneva, Nova Iorque, mas a sua família mudou-se para a Florida em 1979. Diana desde criança gostava de desenhar, na juventude teve acesso às reedições de bd’s de horror EC Comics e às ultra-violentas e escatológicas de S. Clay Wilson . Inspirações directas para Diana que começou a fazer zines de bd e sobre cultura “serial killer” em 1988. O primeiro chamava-se Angelfuck (inspirado pelos Misfits?), recebeu boas críticas no importante meta-zine Fact Sheet 5. Um ano mais tarde começa Boiled Angel e no número seis deste título começam os seus problemas. Tudo começou quando foi considerado suspeito de ser o "serial-killer" de Gainesville por causa da capa desse número - e à americana, era um dos 10 000 suspeitos que submeteram-se a testes de sangue,... mas mesmo "à americana", foi o que lhe aconteceu a seguir, entre 1993 e 1994, é acusado de produzir e distribuir “material” obsceno por causa dos números 7 e 8 (de 1991) do zine. As consequências foram várias: foi preso durante 48h numa cela de segurança máxima (no fim-de-semana para o segundo julgamento), teve uma sentença de 3 anos em liberdade condicional, não se podia aproximar de menores, teve de pagar multas, trabalhar em serviços comunitários, tirar uma carteira profissional em jornalismo, ser avaliado psicologicamente (às suas próprias custas!), não podia ter em c asa material "obsceno" nem... poder desenhar mais!
A notícia espalhou-se pelo mundo fora, tendo chocado a comunidade internacional. Foi assim que conheci o caso, já em 1995, e escrevi a dar apoio ao autor. Comecei a publicar os seus trabalhos em Portugal, primeiro no zine Mesinha de Cabeceira (nos gloriosos anos da fotocópia), depois na antologia internacional de bd e ilustração Mutate & Survive (Associação Chili Com Carne ; 2001) e publiquei um dos seus poucos livros a solo, Sourball Prodigy (MMMNNNRRRG; 2002). De resto, o autor tem continuado a ter trabalho publicado por cá: nos três números da “CriCa Ilustrada” (Chili Com Carne 2003-05), Cospe Aqui (Os Gajos da Mula; 2006) e outros zines que a memória não permite lembrar sem prejuízo para os leitores.(...) texto de Marcos Farrajota in Umbigo

Marcos Farrajota / MMMNNNRRRG: www.gentebruta.pt.vu / Chili Com Carne : www.chilicomcarne.com

E A A.RECHENA MANDA CÁ PRA FORA OUTRO RejecZine

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Dois e Meio, sim senhora!!
Depois RejecZine#2 dedicado aos ACIDENTES fiz um fanzine-extensão ( uma extensãozine! )...
Ao contrário do #2 ( n.º inteiro), o Reject#2/ e Meio é mais simples e directo, e não vem dentro do envelope, não tem nenhum dos extras
mas tem direito a meio-video de lançamento ..!!!

Disponível já no http://www.zarzanga.blogspot.com/

è também mais económicozinho custanto apenas 1,5 € ,bom para adquirir se desconfiares-de-fanzines-dentro-de-envelopes....
A partir deste momento disponível contactando directamente a moi, por este email e nas Escadinhas do Duque a partir de amanhã ....

Abraços e Beijos da
Senhora Dona Zarzanga

E AMANHÃ É O POST DA TERTÚLIA BD DE LISBOA DE NATAL!!!!!!!

Publicado por jmachado em 02:10 PM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 01, 2008

RECORTES 10 - João Miguel Lameiras in Diário "As Beiras" (BDjornal #23 e #24)

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29 Novembro 2008

BDjornal REGRESSA EM DOSE DUPLA

João Miguel Lameiras

Confirmando a importância do Festival da Amadora para as pequenas editoras, a Pedranocharco quebrou um silêncio de meses, com o lançamento de quatro novidades durante o último Festival da Amadora.
Foram eles o segundo volume da série “Bang Bang” de Hugo Teixeira, o primeiro número da nova revista de humor “Modafoca”, dirigida por Álvaro e, o que motiva este texto, os n.ºs 23 e 24 do “BDJornal”.

Desde Abril de 2005 até agora, o “BDJornal” mudou três vezes de formato e tem tido crescentes dificuldades em cumprir a periodicidade anunciada, mas conseguiu ainda assim uma longevidade invejável (e até inesperada) para um projecto com estas características num mercado como o português.

Mas a verdade é que, muito por via da persistência do seu editor, o “BDjornal” mantém–se vivo e vai evoluíndo, tanto em termos gráficos, como de conteúdo, mesmo se as melhorias sejam mais constantes em termos gráficos.

Passemos então à analise dos dois números lançados durante o último Festival da Amadora, com o apoio da nova editora Qual Albatroz. O nº 23, correspondente ao Verão de 2008, revela a abertura da revista (apesar do título, o “BDJornal” é claramente uma revista) à Galiza e ao Brasil, patente no extenso e interessante dossier sobre a Banda Desenhada galega e na presença de colaboradores brasileiros, tanto a nível dos textos, como nas BDs, destacando–se neste campo a dupla Wilson Vieira e Fred Macedo, que demonstra estar uns bons furos acima dos seus colegas portugueses que colaboram neste número, até porque estes optam por projectos mais longos, mas que acabam por não levar até ao fim, como parece ter sido o caso da série “Dominion” de Miguel Santos, que começa no nº 23, mas que não volta a aparecer no n.º 24, ou de “Wonderland”, um divertimento inconsequente com zombies, que também não volta a aparecer no nº 24.

Mas, para dizer a verdade, senti bastante mais a falta da série “BRK”, de Filipe Andrade e Filipe Pina, claramente o mais interessante projecto português de BD que já passou pelas páginas do “BDJornal” e que, nestes dois nºs não está presente. Esperemos que voltem brevemente, no BDJornal, ou em álbum.

Já o BD Jornal n.º 24 tem um nível bastante mais alto em termos de BD, com os brasileiros Wilson Vieira e Fred Macedo, que reincidem neste número com um Western de terror e duas entrevistas, a terem a companhia de peso do português Ricardo Cabral (de quem escolhi um pormenor da magnífica página dupla de abertura da sua história, para ilustrar este texto) e do italiano Giovanni Ticci, que ilustra uma história curta do cowboy Tex, escrita pelo próprio Sergio Bonelli, com o pseudónimo Guido Nolitta. E o Western em geral e o cowboy da Bonelli em particular, estão em grande destaque neste número, que além da história “Uma Tarde Quente” e de um dossier sobre o western na BD, traz uma série de artigos que comemoram condignamente os 60 anos do ranger da Editora Bonelli.

Se juntarmos ainda um texto de Machado–Dias sobre Hector Oesterheld, e uma série de recensões de tamanho e interesse variáveis, temos um número com muito interesse que vale a pena ler, tal como vale a pena apoiar este meritório projecto de manter viva uma revista, de e sobre BD, em Portugal.

(“BDJornal” nº 23, Vários autores, Pedranocharco/
Qual Albatroz, 94 págs., € 6,00,
“BDJornal” nº 24, Vários autores, Pedranocharco, 88 págs., € 6,00 - à venda em Coimbra
na Livraria Dr. Kartoon
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Nota do editor: Tomei a liberdade de fazer uma pequena alteração na ficha final, em que JML dava como co-editado pela Pedranocharco e Qual Albatroz o BDjornal #24, o que não corresponde à verdade: só o BDj #23 foi co-editado. E posso acrescentar, desde já, que Wonderland e Dominion vão regressar no BDjornal #25, que espero consiga estar à venda em Fevereiro de 2009. Quanto a BRK, em breve tomarei uma posição quando à continuidade da sua publicação - no BDjornal, em álbum... ou não.

Publicado por jmachado em 07:10 PM | Comentários (2) | TrackBack