julho 30, 2007

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Publicado por jmachado em 03:22 PM | Comentários (225) | TrackBack

julho 28, 2007

PROGRAMA VERBD - BD PORTUGUESA NA RTP 2, AMANHÃ, DOMINGO, ÀS 13:30h

O Pedro Vieira Moura mantém há muito tempo um dos blogs mais interessantes da blogosfera portuguesa dedicada à Banda Desenhada, o lerbd.blogspot.com.

Agora inventou também uma série de TV sobre a BD portuguesa: o programa VERBD, que se estreia amanhã, domingo, dia 29, pelas 13:30h na RTP 2.

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A NÃO PERDER!!!

Informações sobre o programa em programaverbd.blogspot.com/

A não perder também SEMANA NEGRA DE GUIJÓN – O DIÁRIO I e II, no Beco das Imagens. A Sara Figueiredo Costa foi a Guijón para participar numa conversa sobre Banda Desenhada Portuguesa contemporânea e deixou no Beco as suas notas sobre o evento. Para quem não sabe o que é a Semana Negra de Guijón, a Sara explica: becodasimagens.blogspot.com

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Publicado por jmachado em 02:57 AM | Comentários (91) | TrackBack

O TEXTO DE DAVID SOARES QUE FICOU CORTADO NO BDj #19

Como ficou dito no press-release do BDj #19, o texto de David Soares ficou cortado, devido a uma falha tácnica. O mesmo texto é aqui republicado na integra. As linhas em falta estão sublinhadas.

Entretanto veja-se também o site do David Soares: sonhodenewton.blogspot.com

A ILUSÓRIA INVISIBILIDADE

No programa televisivo Câmara Clara, transmitido no dia vinte de Maio e apresentado por Paula Moura Pinheiro, os convidados João Paulo Cotrim e Miguel Portas falaram sobre banda desenhada, tendo como divisa os cem anos passados desde o nascimento de Hergê. A conversa pautou-se por uma visão generalista das possibilidades que essa linguagem literária admite e, perto do final da emissão, quando a conversa se desviou para a produção nacional, Miguel Portas enunciou um conspícuo calcanhar de Aquiles da BD portuguesa: a dicotomia “Boa Arte vs Mau Argumento”.

Mesmo que não tenha sabido pronunciar as causas (este desequilíbrio nem sempre é fácil de entender por leitores exteriores ao círculo bedéfilo), Portas apercebeu-se do problema. Vale a pena analisá-lo.

A publicação e distribuição de banda desenhada portuguesa integra-se no panorama da publicação e distribuição de literatura portuguesa; por conseguinte, ela sofre dos problemas que afectam todo o mercado livreiro. Falar no mercado para descobrir se a desconfiança manifestada por Portas diante da hipotética má qualidade dos argumentos portugueses de BD tem algum substrato não é um exercício obscuro, em particular por uma razão muito importante: enquanto o mercado não avultar, ninguém que deseje iniciar-se como argumentista o fará a pensar na banda desenhada. Observem: se a maioria dos leitores, e potenciais autores, desconhecem como se escreve uma banda desenhada, e considerando que o Desenho é o rosto desta arte, não será delirante constatar que ela apela, em primeiro lugar, e com muito mais força, aos candidatos a desenhadores. E um desenhador, que precisa de dedicar muito tempo ao aperfeiçoamento da cultura gráfica, dificilmente terá disponibilidade para se apurar enquanto contador de histórias.

Um aspirante a argumentista tem à disposição outras áreas nas quais pode desenvolver inclinações literárias. O mercado da BD portuguesa não tem massa crítica para conservar principiantes no núcleo: os criadores que passam por ele não são retidos – desanimam-se, estagnam e, infelizmente, as consequências são a perda de qualidade dos seus Mundos Imaginais ou o abandono. Os autores que subsistem – que insistem – acabam por ser os desenhadores, graças ao tal apelo operado pelo Desenho que já mencionei. É a recusa em trabalharem com um argumentista, insistindo na criação a solo, que continua a ferir os álbuns portugueses. Essa negação alimenta-se da noção errónea, mas muito abundante, que qualquer indivíduo se pode tornar escritor, mesmo que não demonstre, ou tenha demonstrado, as mínimas capacidades para o efeito.

A retórica da invisibilidade

Acredito que a difusão desse conceito está relacionada com uma avaliação distorcida de valores vincada logo na infância: de facto, na escola, toda a gente aprende, melhor ou pior, a escrever, mas poucos provam saber desenhar. Mesmo assim, do mesmo modo que “saber desenhar” não faz do agente-desenhador um bom artista, também “saber escrever” não faz desse agente um bom escritor. Na verdade, é confuso: ninguém acredita, por exemplo, poder vir a exercer medicina sem ter estudado a disciplina – sem ter trabalhado para adquirir competências – mas, certamente, muitos acreditam que podem tornar-se escritores sem possuírem o mais pequeno instinto narrativo. Existe todo um florilégio de cursos de desenho e de representação plástica que os pretendentes a artistas podem seleccionar, de acordo com as suas preferências pessoais (numa verdadeira lógica de multiplicação comercial): escolas com diferentes níveis de reconhecimento e credibilidade, estatutos de correspondência com áreas limítrofes ao próprio desenho, como o design de comunicação ou equipamento, a animação e a publicidade; enfim, uma panóplia estonteante de escolhas à la carte que consistem num poderoso, e vasto, universo de artes visuais. Então, quais são as escolas de escrita? Que caminhos institucionais, públicos ou privados, deverão seguir os candidatos a contadores de histórias? A minha opinião é que não há nenhuns porque aprender a ser escritor é uma tarefa que exige isolamento, exige algum ascetismo, e uma sala de aula (ou qualquer outra actividade de grupo) não é conveniente ao isolamento – à reflexão.

As escolas dos escritores são os livros. Aprender a ser escritor, a construir uma voz autoral bem definida, é uma meta que só pode ser atingida através da leitura e eu aponto três razões imperativas para que assim seja: 1) sem investir tempo no exercício da leitura, o aspirante nunca ficará ginasticado o suficiente para empreender uma tarefa tão laboriosa como é a da escrita; 2) sem o referencial da leitura, ele nunca poderá reconhecer a originalidade na sua voz autoral; 3) sem uma dieta regular de leituras diversificadas, nunca poderá sintonizar o seu interior com o exterior. É aqui que reside a desvalorização da aprendizagem da escrita: na, enganadora, invisibilidade!
Dezenas de produtos de entretenimento (filmes, peças de teatro e, porque não?, bandas desenhadas) serviram para engastar nas nossas imaginações a ideia do escritor boémio, inspirado no último momento da madrugada para produzir – mais uma – obra-prima no final da manhã. Estamos habituados a ver imagens dos pintores nos ateliers, debruçados sobre as telas amaldiçoando as musas, destruindo quadros nos joelhos e esgatanhando pincéis, mas nunca nos foi dado a ver o processo criativo do escritor. Porquê? Porque sendo um processo criativo sedentário, apoiado na leitura e na reflexão, não é um processo criativo que seja interessante de ser mostrado. Não tem… o dramatismo necessário… Mas é dramático: principalmente num tempo em que um manancial de estímulos concorre para desagregar os momentos dedicados à leitura e à prática do pensamento. Vivemos num momento particularmente alérgico ao carácter utilitário dos objectos e dos veículos e isso está bem patente na transferência da “História” pela “Situação” em todas as artes narrativas: hoje, não temos tanto histórias como séries de sketches, ou gags, indirectamente ligadas, que são resolvidas num micro-período de tempo para que outras ocupem o seu lugar. Por conseguinte, a desvalorização do argumento na banda desenhada assenta nestas condições: a ideia da ilusória invisibilidade do papel do argumentista, que nasce da ideia da ilusória invisibilidade do ofício da escrita, e que acaba por facilitar a noção que qualquer um pode escrever. Incluindo um desenhador que terá, em última análise, tanto talento para escrever como um escritor terá talento para desenhar: ou seja, nenhum.

O desenhador está, em primeiro lugar, concentrado em mostrar mundos gráficos; até mesmo em desenhar apenas aquilo que mais o seduz sem quaisquer preocupações – ou mesmo intenções – narrativas que sirvam de estrutura – de base – ao seu trabalho.

Persiste o mito do “autor completo”, classificação abominável que não é diferente da nomenclatura “autor de cinema”; como se um realizador que se dedique, em exclusivo, à realização seja menos genuíno que outro que tenha recursos para também escrever e produzir os filmes. A fantasia romântica do “autor completo” é um verdadeiro vírus mental que afecta o modo como se olha para a banda desenhada. (Lembro-me que até às estreias sistematizadas das adaptações cinematográficas dos seus trabalhos, o “autor completo” Frank Miller era vilipendiado pelos leitores como sendo um “bom argumentista” mas um “mau desenhador”. Até o “autor completo”, seja lá isso o que for, não é intocável.) Assim, a banda desenhada portuguesa transforma-se numa esfera onde se encerram tabus, mitos e vícios que concorrem para o desinteresse dos leitores, para o desinteresse dos autores e, até, para a fossilização de uma estranha segmentação:

Na banda desenhada portuguesa não há assim tantos Mundos que sejam explorados (com variações) de uma obra para a seguinte. Melhor, Mundos que valha a pena discutir. (…) Apenas para constatar que, de facto, se podem distinguir três tipos de mundos/autores, consoante a primeira memória que assoma quando os evocamos, qualquer que seja a afinidade com o resultado final. O fulgor gráfico (…), o dom da palavra (...) e a estranha mescla de ambos. Por outras palavras, há autores que fixamos como desenhadores e em quem, à partida, procuramos a delícia do traço. Há autores que nos prendem, primeiro, com ideias e palavras. E há os que não concebemos fora da banda desenhada; que lemos como um todo (…) (1)

Às vezes até fico com a impressão que os autores vêem a banda desenhada como se olhassem para uma religião: uns aceitam a especialização de tarefas com uma mente progressista; outros, mais supersticiosos, insistem na criação a solo. Quem são os católicos e quem são os protestantes ou os de esquerda e os de direita? Os amantes de cães e os amantes de gatos ou aqueles que preferem o McDonald’s e os que gostam mais do Burguer King? Estas serão, certamente, causas que levaram Portas a afirmar no programa que a maioria dos álbuns de BD portuguesa tem uma boa arte e um mau argumento. Eu acredito que as más histórias não são um defeito absoluto da banda desenhada, mas, mesmo assim, não me sinto chocado em concordar com ele, observando que a BD portuguesa é feita por desenhadores e não por desenhadores e argumentistas.

É por isto que os desenhadores precisam, para serem completos, de um argumentista. Essa espécie de contadores de histórias, se os houver, não serão mais que uns ajeitadores de frases, uma espécie de torneira do grande texto narrativo. Abre-se e o herói corre mais. Fecha-se e os cenários brilham. Eis porque é o desenhador o grande autor, o dono da obra, o senhor de todas as exposições: porque na BD o mais importante é o desenho!(2)

Este excerto de um artigo escrito com sentido de humor por João Paulo Cotrim ironiza o vício antigo da desvalorização do papel do argumentista, diante do parceiro desenhador. Como já vimos nos parágrafos anteriores, estamos muito atrasados em reconhecer a importância do argumentista. Talvez em relação aquilo que sucede noutros países? Em alguns casos, sim, porém não quero transmitir a ideia que em todos os mercados estrangeiros se verifica uma situação oposta.

O mercado como ama-seca

Com efeito, a literatura padece de um preconceito enorme dirigido aos títulos que, desavergonhadamente, contam uma história e não se cingem aos relatos de ideias, expressões ou sentimentos. Acredito que o equivalente bedéfilo desta forma de ler os livros passa muito pela importância desmesurada que é atribuída ao desenho em prejuízo do argumento. Compreendam que uma crítica especializada de cinema publicada na revista Chaiers du Cinema não é muito diferente de uma resenha sobre banda desenhada impressa na revista Pavillon Rouge: o aviltamento do argumento – do conteúdo – mais a ênfase devotada à imagem – à superfície –, que se encontram em ambas, são da mesma ordem.

A visão que eu tenho da banda desenhada (uma visão partilhada por outras pessoas do nosso meio) é que se trata de uma linguagem que usa texto e desenhos para contar uma história, seja de que género for. E é porque conta uma história que se torna uma linguagem narrativa, logo literária. Esta concepção costuma encontrar bastantes adversários porque é contra-intutiva (Se tem desenhos como pode ser literatura?), mas depois de pensarmos um pouco entendemos que é claríssima.

Sendo assim, não há nenhuma contradição em dizer que cada indivíduo normal pode falar gramaticalmente ou não-gramaticalmente, assim como não há contradição nenhuma em dizer que um táxi obedece às leis da Física mas desobedece ao Código da Estrada.(3)

O mundo do cinema português é outro exemplo no qual a obsessão pela imagem se agiganta à narração e isso correlaciona-se com aquilo que também afecta a banda desenhada portuguesa: um mercado fraco, pouquíssimo competitivo, que sobrevive com a distribuição de títulos estrangeiros. (Os autores portugueses mais atentos publicam directamente no mercado estrangeiro e só depois são editados em Portugal. Quando as editoras se lembram que eles existem.)

Um mercado que, em última análise, nunca se interessou pela BD feita em português, excepto a título de curiosidade ou pedagogia. Não quero ser injusto, mas, concentrando-me nas editoras portuguesas de BD, só consigo lembrar-me de uma que optou por mostrar trabalhos de autores portugueses com regularidade: a Polvo. Se beneficiou de um estado de graça que a conjectura actual cerceia, isso só enobrece o espírito de iniciativa que a moveu. No mínimo, criou oportunidades – criou autores – e acho que seria desonesto ignorá-lo ou afirmar o oposto.

Desde a produção, passando pela dificuldade em formar novos leitores, até às complicações em encontrar pontos de venda receptivos, o mercado é perturbado por imensas oposições: é ingénuo achar que é publicando mais álbuns que se vão resolver todos os problemas que lesam a banda desenhada portuguesa, como aquele que interessa a este texto. É publicando álbuns melhores.

A profissão do pessimismo I

Outra lenda pertencente ao panteão de mitos que se podem encontrar na banda desenhada portuguesa é a do “autor profissional”. Um observador alheio que a colocasse em paralelo com a do “autor completo” seria influenciado a pensar que existe uma preocupação enorme de transcendência nesta área criativa: “completo” e “profissional” são palavras que emitem o mesmo sentido de amplitude, de vitória individualista. Nada de surpreendente quando uma simples consulta à estante revela as pouquíssimas parcerias entre argumentistas e desenhadores na banda desenhada portuguesa.

Não apoio a ideia de “autor profissional”, nem na BD nem noutras artes, se o significado de “profissional” aceite pela maioria for o de alguém que retira da actividade criativa os rendimentos necessários à sobrevivência. Esta fantasia da valorização do estatuto do indivíduo pela profissão que desempenha não faz sentido num período em que, cada vez mais, é no exterior da esfera profissional que os indivíduos encontram formas de expressão que os realizam. Vivemos num tempo em que possuir apenas uma fonte de rendimentos é uma herança obsoleta; não tanto porque o custo de vida se elevou (que é verdade), mas porque as hipóteses formativas ao nosso dispor são tão numerosas que é impossível ficarmos indiferentes. Hoje um autor português de banda desenhada é também ilustrador, web-designer, artista plástico ou professor de desenho. Mas será que é menos autor de BD porque partilha essa actividade com outras? Será menos autor porque “não vive da BD”? Eu acho que não.

Esta insistência na dimensão do “autor profissional” nunca deixa de me provocar estupefacção e considero que até é reveladora de alguma ingenuidade: por essa ordem de ideias, quase não haveria autores, fosse do que fosse, pois só os mais bem sucedidos comercialmente alcançam um desafogo financeiro capaz de os suportar em exclusivo. Existem indivíduos que trabalham nas mais diversas profissões e que se assumem em primeiro lugar como escritores, músicos, actores. Até os políticos são economistas, professores e gestores das mais incríveis organizações. Como definir os artistas da Renascença que instituíram o protótipo do autor multifacetado ao concentrarem esforços em dúzias de actividades diferentes? Em suma: existem muitos modelos de criação, de edição, de mostrar trabalho. A ideia do “autor profissional” só serve, no plural, para encobrir o pessimismo sentido face às dificuldades que as actividades criativas costumam enfrentar.

A fraca tolerância à adversidade da qual padece a sociedade actual, que premeia e valoriza o instantâneo e o fácil em prejuízo da disciplina e do esforço, cria a ilusão que para sermos artistas ou escritores basta existirmos. No século passado quando a arte abstracta se tornou mediática os críticos não lhe pouparam vitupérios: chamaram-lhe, consensualmente, “O Triunfo do Vazio”. Mas é agora, ao passear pelas livrarias, ao sair das sessões das salas de cinema, que penso estar rodeado de obras animadas pela vacuidade dos autores terem querido fazer “uma coisa qualquer”.

A profissão do pessimismo II

É precisamente da minha actividade de autor de banda desenhada, nas qualidades de argumentista e desenhador, que recolhi a autoridade para tecer estas apreciações, pois seria ignóbil teorizar sobre o que não se sabe ou sobre o que se desconhece.

A treta é inevitável sempre que as circunstâncias permitam que alguém fale sem saber do que está a falar. (…) Exemplos semelhantes surgem como efeito da convicção generalizada que uma das responsabilidades dos cidadãos é terem opiniões sobre tudo.(4)

A questão do Saber ou Não-Saber é importante, porque quem deseja encetar uma carreira como autor, em especial como escritor ou como argumentista, não pode olhar com desdém para a problemática do Saber: ele precisará aprender o máximo que conseguir. Na minha opinião, a diferença entre os ofícios do desenhador e do escritor é a diferença que existe entre um músico e um compositor: o intérprete precisa de ganhar a perícia máxima no domínio do instrumento que escolhe tocar, mas o compositor precisa de saber, em igual grau de exigência, como soam todos os instrumentos e como reagem dispostos numa orquestra. Ou seja: o compositor não pode dar-se ao luxo de preferir os instrumentos de sopro e não querer aprender como trabalham os de percussão, sob o risco do trabalho se desvirtuar. Eu acredito que o escritor precisa de se interessar sobre todos os assuntos. Como se adquire esse património intelectual? Através da leitura: da leitura intensa, omnívora, bulímica.

Este juízo pode ser desencorajador para quem acha que o glamour é mais importante que o empenho, mas entendam que só quem lê muito pode vir a tornar-se um bom escritor: nem cursos de escrita criativa, nem escolas do pensamento, nem a experiência boémia podem fazer tanto por um escritor quanto a leitura. Se não encontrarem tempo para ler e, sobretudo, para pensar sobre aquilo que leram, se não sacrificarem o lazer e o entretenimento barato, os fóruns da Internet, os bares e as saídas à noite, os concertos e os fins-de-semana alucinantes, vocês nunca conseguirão escrever tão bem como desejariam.

Este é um comportamento válido para muitas outras áreas, não apenas para a escrita. Nem todos os candidatos a autores, ou autores já estabelecidos, estarão dispostos a enveredar por este caminho, mas a escolha, enfim, cabe a cada um: tudo se resume aquilo que cada qual, realmente, pretendia atingir ao ter escolhido dedicar-se a uma actividade artística. Ser-se artista não é uma condição essencial para se ser feliz, mas aqueles que escolhem sê-lo através da arte devem levar a sério essa opção: devem reflectir sobre o que desejam criar e perguntar se vale a pena fazê-lo. Se acham que sim, então que o façam, mas, in the long run, não podem exigir aos leitores que esperem encontrar grandes histórias na banda desenhada portuguesa; no mínimo, enquanto não começarem a ser editados trabalhos nos quais um bom argumentista se associe a um bom desenhador.

O artista (no sentido alargado) tem a responsabilidade de se ultrapassar, de ser melhor que aquilo que mostrou ser. Deve dar à estampa trabalhos que, mesmo que não ambicionem ser lidos fora de portas, consigam elevar-se ao nível do melhor que o mercado estrangeiro oferece.

David Soares, Julho 2007

1) João Ramalho Santos, As Sequências Rebeldes; LER, nº59, Fundação Círculo de Leitores, 2003
2) João Paulo Cotrim, A Hidra das Muitas Cabeças; Hoje, a BD – 1996 e 1999, Bedeteca de Lisboa, 1999
3) Steven Pinker, The Language Instinct; Penguin Books, 1994
4) Harry G. Frankfurt, Da Treta; Livros de Areia, 2006

Publicado por jmachado em 02:15 AM | Comentários (60) | TrackBack

julho 27, 2007

O BDjornal #19 (junho/julho) JÁ ESTÁ À VENDA

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O BDjornal surge em novo formato (275 x 205 mm) e com mais páginas (76) e em impressão digital – capa em cartolina de 200 grs. plastificada brilhante e com papel do miolo de 115 grs. - agora com tiragem limitada e distribuição centrada nas lojas da especialidade, apostando decididamente em reforçar o número dos assinantes. O preço de capa é de € 6,00 e a assinatura por 1 ano (6 números) é de € 30,00.

Com ilustração da capa de Álvaro e depois de uma análise ao 3º Festival Internacional de BD de Beja, tocando ao de leve no 16º Salão Internacional Moura BD, onde não nos foi possível estar presente e que será objecto de maior atenção na próxima edição do BDj, com uma desenvolvida entrevista a Carlos Rico, o director do Salão, segue-se uma ENTREVISTA COM DAVID B. realizada em Beja por Nuno Franco, aquando do Festival. Chamamos a atenção para o interesse que começa a despertar por essa Europa fora o trabalho de David B., interesse esse reforçado recentemente, a propósito do seu último livro PAR LES CHEMINS NOIRS T1 : LES PROLOGUES, editado pela Futuropolis em França, já depois desta entrevista ter sido realizada.

À habitual crónica de José Carlos Fernandes, QUATRO APARIÇÕES SOBRENATURAIS, desta vez ilustrada por ele próprio, juntamos nesta edição um texto de David Soares, A ILUSÓRIA INVISIBILIDADE*, sobre a importância do argumentista na banda desenhada e que deverá ser matéria de reflexão obrigatória para autores ou candidatos a autores.

Não querendo deixar passar em branco o facto de este ano ser o do Centenário de Hergé, num pequeno dossier reunimos matéria um pouco diferente daquilo que tem sido publicado ultimamente nos media a propósito das celebrações centenárias do criador de Tintin.

Destaca-se à partida a entrevista, por Pedro Cleto, com Ana Bravo, a autora do livro/tese A INVISIBILIDADE DO GÉNERO FEMININO EM TINTIN – A CONSPIRAÇÃO DO SILIÊNCIO, que promete vir a dar muito que escrever nestas páginas (ver o que sobre este livro dizem José Carlos Fernandes e Pedro Vieira de Moura). Juntámos ainda algumas notas de Geraldes Lino sobre Hergé e as apreciações de Pedro Vieira de Moura a duas edições sobre Tintin e o seu criador.

Prosseguindo o seu DICIONÁRIO UNIVERSAL DE BANDA DESENHADA – PEQUENO LÉXICO DISLÉXICO, Leonardo De Sá apresenta neste número a continuação das letras E e F, que ainda continuarão no próximo BDj. De Leonardo De Sá apresenta-se ainda um texto sobre o CENTENÁRIO DE ANTÓNIO CARDOSO LOPES (TioTónio). Por outro lado Sara Figueiredo Costa escreve sobre DOIS LIVROS DE ANDRÉ LEMOS e João Miguel Lameiras apresenta um texto sobre um curioso livro da série DAMPYR, da casa Bonelli, passado em Portugal, com o título Lo Sposo della Vampira.

E para além das críticas de Pedro Cleto e das notícias variadas de Clara Botelho, três BDs curtas merecem destaque: O TIGRE E O RATO, de Ruben Lopez, O REGRESSO DO AMOK VERDE, de Álvaro e a prancha O MENINO REMI, de Pedré... ou seja, de Pedro Alves, no início do Dossier Hergé.

Das bandas desenhadas em continuação, saliente-se que chega ao fim o 2º Capítulo de BRK e chamamos a atenção para o facto de SEXO, MENTIRAS E FOTOCÓPIAS, a BD de Álvaro, que tinha vindo a ser publicada de modo a poder ser destacada e coleccionada, ter perdido essa característica. Com a alteração do formato, não fazia sentido continuar a publicá-la da mesma forma.

SUMÁRIO

4. A BANDA DESENHADA NA PLANÍCIE ALENTEJANA, J.Machado-Dias
6. ENTREVISTA COM DAVID B., Nuno Franco
8. ENCONTROS DE STO. TIRSO COM POUCA BD, Clara Botelho + UM FESTIVAL ASSUMIDAMENTE MICRO, Mário Freitas
9. QUATRO APARIÇÕES SOBRENATURAIS, José Carlos Fernandes
10. A ILUSÓRIA INVISIBILIDADE, David Soares
13. DICIONÁRIO UNIVERSAL DE BANDA DESENHADA, Leonardo De Sá
15. VALORES SELADOS – RONALD SEARL – 2, Nuno Franco
16. OS 20 MELHORES FRANCO-BELGAS DE 2007 (1º SEMESTRE), Clara Botelho
17. BD – O TIGRE e O RATO, Ruben Lopez
23. BD – BRK, Filipe Pina (arg.) e Filipe Andrade (des.)
30. BD – O MENINO REMI, Pedro Alves
31. HERGÉ 1907/2007 – ECOS DO CENTENÁRIO, Clara Botelho
32. TINTIN É UMA OBRA PERFEITA, entrevista de Pedro Cleto com Ana Bravo
34. NOTAS SOBRE HERGÉ, Geraldes Lino
35. TINTIN NO TERTÚLIA BDZINE, J.Machado-Dias
36. HERGÉ, Pedro Vieira de Moura
37. TINTIN AND THE SECRET OF LITERATURE, Pedro Vieira de Moura
43. BD – O REGRESSO DO AMOK VERDE, Álvaro
47. BD – OS MONÓLOGOS MONÓTONOS DE UM VAGABUNDO, Hugo Teixeira
53. NOTAS SOBRE DOIS LIVROS DE ANDRÉ LEMOS, Sara Figueiredo Costa
54. DAMPYR EM PORTUGAL, João Miguel Lameiras
56. CRÍTICAS, Pedro Cleto
60. COLECCIONISMO & BD, Pedro Cleto
61. FANZINE – EFEMÉRIDE #2, Geraldes Lino
62. LANÇAMENTOS INTERNACIONAIS, Clara Botelho
64. MANGÁ EM CRISE NO JAPÃO? Clara Botelho
66. ECOS DO FESTIVAL DE CANNES, Clara Botelho
70. A PROPÓSITO DO CENTENÁRIO DE CARDOSO LOPES (TIOTÓNIO), Leonardo De Sá

COLABORAÇÕES – Clara Botelho, Dâmaso Afonso, David Soares, Geraldes Lino, João Miguel Lameiras, José Carlos Fernandes, Mário Freitas, Nuno Franco, Paulo Monteiro, Pedro Cleto, Pedro Vieira de Moura e Sara Figueiredo Costa.
AUTORES DE BANDAS DESENHADAS E ILUSTRAÇÕES – Álvaro, José Carlos Fernandes, Filipe Andrade (des.), Filipe Pina (arg.), Hugo Teixeira, Pedro Alves e Ruben Lopez.

(*) O texto de David Soares surgiu cortado (faltam 5 linhas na página 11, 3ª coluna, 4º parágrafo) por um acidente de montagem. Publicaremos este parágrafo corrigido no próximo BDj e para já, o texto integral aqui no Kuentro já a partir de amanhã.

Publicado por jmachado em 02:51 AM | Comentários (56) | TrackBack

julho 13, 2007

UM ANO DE ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA NA BEDETECA DE LISBOA

Não havendo Salão, a Bedeteca de Lisboa tem em exposição UM ANO DE ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA, até 25 de Agosto, com o título genérico TROPA MACACA.

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Publicado por jmachado em 10:42 AM | Comentários (43) | TrackBack

julho 12, 2007

POSTAIS DE VIAGEM, DA TERESA CÂMARA "gambuzina" PESTANA ESTÁ QUASE A SAIR DA GRÁFICA

Uma Gambuzinadela em força da TCP (Teresa Câmara Pestana) está a ser parida numa gráfica algures perto de Coimbra. Chama-se POSTAIS DE VIAGEM e aqui fica um texto da autora e algumas imagens.

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Este livro, inicialmente intitulado "Pogo in Togo" teve a sua raíz num ensaio excessivamente longo sobre o vodu, resultante da minha estadia na costa oeste africana; como não lhe queria acentuar o lado descritivo, ilustrei-o, reduzi o texto ao mínimo, embuti-lhe uma narração e assim surge "postais de viagem".

O ensaio era de 92, em 2002 passou a ter postais, e depois esperou 5 anos pelo seu momento, um pouco tarde, mas não tarde demais. Espero que gostem tanto de lê -lo como eu gostei de fazê -lo.

Para terem uma ideia do que aí vem ficam aqui a capa e algumas paginas escolhidas ao acaso.

Até breve ... Teresa C. Pestana

A partir de 21 de julho façam as vossas encomendas;
A4, 58 paginas, off-set 500 exemplares.
10 gri-gris (ou €uros, como queiram).

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TAMBÉM PODEM ESPREITAR EM
http://www.gambuzine.com/

Entretanto foram também colocadas fotos do Salão Erótico de Lisboa 2007 no blogue da BDVoyeur, que quiser visualizar (atenção que é para adultos only) pode clicar no logotipo na coluna da direita.

Publicado por jmachado em 02:35 AM | Comentários (211) | TrackBack

julho 10, 2007

XI SALÃO LUSO-GALAICO DE CARICATURA EM VILA REAL

EXPOSIÇÃO ATÉ 31 DE JULHO

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Inaugurou no passado dia 23 de Junho mais uma edição
deste Salão de humor aberto à participação de artistas
residentes em Portugal e Galiza. O tema deste ano foi
Miguel Torga ou a Poética da Vida. No concurso o Júri
outorgou os seguintes Prémios: 1º Prémio (Prémio
Câmara Municipal de Vila Real ) – Torga por António
Santos (Santiago); 2º Prémio (Prémio Governo Civil de
Vila Real) – Torga por Paulo Santos; 3º Prémio (Prémio
Região de Turismo da Serra do Marão) – Torga por
David Pintor e Menções Honrosas para Torga por
Henrique Monteiro e António Amado Lorenzo.

A exposição pode ser visitada até 31 de Julho na
Galeria de arte do Teatro Municipal de Vila Real, e
durante o mês de Agosto na Casa da Xuventude em
Ourense (Galiza).

Osvaldo Macedo de Sousa

VER TAMBÉM:
http://humorgrafe.blogspot.com
http://regulamentoscartoon.blogspot.com

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1º PRÉMIO: António Santos

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2º PRÉMIO: Paulo Santos

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3º PRÉMIO: David Pintor

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MENÇÃO HONROSA: Henrique


VISITE O BLOGUE: bdjornal.blogspot.com

Publicado por jmachado em 04:29 PM | Comentários (12) | TrackBack

julho 09, 2007

INICIÁMOS UM NOVO BLOG do BDjornal

Foi iniciado um novo blog - bdjornal.blogspot.com - para questões especificamente ligadas ao BDjornal, enquanto não temos o site, que está a ser montado.

Queiram fazer o favor de espreitar.

Publicado por jmachado em 10:56 PM | Comentários (4) | TrackBack

julho 07, 2007

07 - 07 - 007 - ORDEM PARA HUMORAR

Inaugura-se hoje a exposição da Humorgrafe no Centro Nacional de BD e Imagem, na Amadora a exposição 07/07/2007 - ORDEM PARA HUMORAR, aproveitando a numerologia cabalística da data de hoje (em que, já agora, este vosso escriba é também aniversariante).

E, segundo o convite de Osvaldo Macedo de Sousa, presidente da Humorgrafe:

Para quem não vá à praia e se queira cruzar com Sean
Connery, entre outros, pode ir a partir de hoje à
Amadora ver a exposição que organizamos para comemorar
este acontecimento astral, ou seja a conjugação de 7s.
Por outras palavras quem quiser encontrar o 007 a
7/07/007... Não está muito bem dito, portanto quem
quiser tomar um copo, uma tapa em franca cavaqueira
com o pessoal da BD e do cartoon apareça
pelas 17 horas no Centro Nacional Banda Desenhada e
Imagem.

Se preferir ir para a praia, cuidado com o sol.

CARTAZ 007.jpg

Publicado por jmachado em 03:15 PM | Comentários (108) | TrackBack