agosto 31, 2009

BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #82 - A COMPRA DA MARVEL PELA DISNEY + CARLOS PESSOA SOBRE “OS PASSAGEIROS DO VENTO”, A NOVA APOSTA PÚBLICO-ASA.

Se a novidade do dia é a compra da Marvel pela Disney, destacamos sobretudo a nova aposta do Público em parceria com a ASA: a reedição de “Os Passageiros do Vento”, de François Burgeon, com a novidade de um novo volume em que o autor prossegue a saga, conhecida decerto de muita gente em Portugal. Leiam a entrevista que Bourgeon dá ao Público para perceber como surge este 1º volume de A Menina de Bois-Caïman, o sexto nesta nova edição.
Recordemos que “Os Passageiros do vento”, cuja edição original saiu em França entre 1980-1983 foi editado em Portugal pela Meribérica (não podemos esquecer-nos do papel que esta extinta editora teve na divulgação da BD franco-belga em Portugal, numa última fase dirigida por Maria José Pereira, agora responsável pela edição de BD na ASA) entre 1987 e 1990, com direito a segunda edição, o que é algo raro neste país. Já agora, não sei por que é que Geraldes Lino ainda não homenageou Maria José Pereira na tertúlia BD de Lisboa… porque se há alguém neste pais responsável pela divulgação da BD franco-belga, o nome da filha de Jorge Magalhães deveria estar na primeira fila.
Bom… mas vejamos os recortes escolhidos para hoje:

Walt Disney compra Marvel em operação de US$ 4 bilhões

31 Agosto 2009

Do Valor OnLine

SÃO PAULO - A Walt Disney vai adquirir a Marvel Entertainment em uma transação em ações e dinheiro avaliada em cerca de US$ 4 bilhões. Com base no preço de fechamento da ação da Disney na sexta-feira passada, o valor da operação é de US$ 50 por papel da Marvel.
Os acionistas da empresa que tem em seu catálogo personagens como Homem-Aranha, X-Men e Incrível Hulk, entre outros, receberão US$ 30 por ação em dinheiro, além de 0,745 ação da Disney por um papel da Marvel.
"Nós acreditamos que adicionar a Marvel ao portfólio único de marcas da Disney oferece oportunidades significativas para o crescimento de longo prazo e criação de valor", afirmou o diretor executivo da Disney, Robert Iger.
O acordo, que já possui o aval dos Conselhos de Diretores da Disney e da Marvel, ainda está sujeito à aprovação dos acionistas da Marvel e de autoridades reguladoras dos Estados Unidos.
Em julho, a Walt Disney anunciou que encerrou o segundo trimestre com lucro líquido de US$ 954 milhões (US$ 0,51 por ação), o que representou uma queda de 26% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o ganho somou US$ 1,29 bilhão (US$ 0,66 por ação).
(Vanessa Dezem | Valor Online, com agências internacionais)

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Os Passageiros do Vento, um fresco histórico

Na melhor tradição da banda desenhada clássica de aventuras, a série acompanha Isa até ao coração de África, na senda aberta pelo choque de culturas e o tráfico de escravos. É uma viagem até ao século XVIII, reconstituído com mestria por um criador único no panorama da BD franco-belga contemporânea.

Carlos Pessoa

"O que importa é que uma certa veracidade contribua para a criação do clima pretendido pelo autor". A afirmação é de François Bourgeon e ajuda a compreender a obsessão do detalhe que ressalta da série Os Passageiros do Vento, por ele criada em 1979. E bastaria a leitura do primeiro episódio, A Rapariga do Tombadilho, para o confirmar.
É a bordo de uma fragata da marinha real francesa que decorre praticamente toda a acção. Para recriar o ambiente de bordo em todos os seus detalhes e, assim, construir uma atmosfera tão peculiar, o autor inspirou-se nos planos de uma embarcação de maior envergadura - um navio de duas pontes e 74 peças.

Bourgeon não se limita a tirar partido dos documentos de época. De facto, há uma mais-valia evidente no labor criativo do autor, a quem ficamos a dever uma reconstituição muito realista da câmara de oficiais ou dos porões onde os marinheiros se amontoam em condições degradantes, por exemplo.
Graças a estes recursos, a obra prolonga no tempo a tradição da BD de aventuras que tem nas séries clássicas - como Alix, Blake e Mortimer e outras - os seus momentos culminantes. Há heróis, intriga e peripécias movimentadas numa narrativa linear que raramente é abandonada. No entanto, ao contrário dos exemplos citados, esta saga dirige-se a um público eminentemente adulto, que não é poupado à violência e brutalidade de um mundo construído sobre os cadáveres de milhões de escravos e os despojos de uma cultura pilhada até ao limite do impensável.

A rigorosa reconstituição dos ambientes de época é uma das marcas de água desta série histórica. O talento do desenhador exprime-se na habilidade com que jaz a justaposição das imagens em cada prancha para dar a ver um espaço, mostrar o confinamento das personagens ou traduzir a sensação de vertigem no interior dos navios.

Choque de culturas.

Em “O Pontão” quase metade da aventura decorre num navio-prisão encalhado no litoral britânico. É, em tudo, um navio idêntico ao apresentado no primeiro episódio; a grande diferença é que a embarcação, abatida ao activo, está seriamente degradada, tendo sido adaptada para receber a bordo um grande número de homens que vivem em condições miseráveis.
François Bourgeon inspirou-se numa gravura de 1829 que apresenta o York, um navio de 74 canhões construído em 1807 e colocado ao serviço em 1819. Para a recriação dos espaços interiores, o autor baseou-se num manuscrito do comandante Pillet, que descreve os arranjos efectuados a bordo para acolher presos de guerra franceses.

Com a partida do porto francês de Nantes, inicia-se o ciclo africano das aventuras de Isa, Hoel e demais companheiros de viagem (A Feitoria de Judá). O destino é a baia de Judá, onde os heróis vão ter o primeiro contacto directo com a problemática colonial. Praticamente lado a lado, encontram-se os fortes de Saint-Louis de Grégory e William. Franceses e ingleses, que se digladiam no palco europeu, são obrigados a coexistir num território onde a complexidade do real acaba por se reduzir a uma equação simples: "Aqui antes de mais nada ou se é branco ou negro... rico ou pobre... livre ou escravo!", diz um dos tripulantes à vista da costa africana.

Em Agosto de 1781, Isa viaja para Abomey, capital do reino africano de Kpengla. Formalmente, a embaixada ocidental irá assistir ao julgamento de duas das mulheres do rei. Na prática, a corte é o palco de um braço-de-ferro diplomático em que está em jogo a vida da heroína e de Hoel, o seu companheiro de aventura. O que se depara aos europeus quando chegam ao seu destino é uma cidade grande, à época com cerca de 24 mil habitantes, um ordenamento caótico do espaço residencial e, sobressaindo do todo, a residência do rei.

25 anos depois

A Hora da Serpente, quarto volume do ciclo Os Passageiros do Vento, proporciona um novo confronto das personagens da narrativa com a História. Animada por um espírito de equidade e independência, Isa tenta amenizar o seu funesto destino
com a recolha sistemática de informação sobre o tráfico de escravos. A compilação desses dados ao longo da viagem permitirá denunciar no futuro uma actividade condenável, mas que tanto proveito trouxe às potências europeias. Mas é sobretudo a luta pela sobrevivência individual dos protagonistas, na espuma do choque de culturas em pleno palco tropical, que confere à saga de Bourgeon toda a sua grandeza dramática.

Cap Français, no Haiti, é mais uma encruzilhada na vida das personagens. Em Ébano, quinto episódio da série, encerra-se o ciclo que inclui Isa, Hoel e Mary .- os seus destinos separam-se irremediavelmente. Antes de chegar aqui, a narrativa acompanha o percurso do navio negreiro Marie Caroline desde a costa de África, com a sua carga de escravos a bordo.
Esse capítulo da história proporciona a François Bourgeon a possibilidade de regressar a uma das matrizes do projecto inicial - os comportamentos humanos num espaço fechado e a trama das relações estabelecidas pelos respectivos actores. Os escravos têm uma oportunidade única para se revoltarem quando se desencadeia uma grande tempestade que ameaça afundar o navio. Ficam assim conjugados os ingredientes adequados à obtenção de um efeito narrativo culminante.

Tema incontornável na economia da obra, a escravatura merece um tratamento por parte do autor que nada tem a ver com o habitual discurso didáctico sobre o assunto - nem juízo moral, nem panfletarismo, nem maniqueísmo.

O autor recorre, mais uma vez, a uma sólida informação de época, combinando habilmente dois registos - o documental e o ficcional - sem comprometer o equilíbrio da narrativa.

O quinto episódio foi publicado em 1984. Passaram-se 25 anos, durante os quais nunca mais houve notícias da heroína. O autor esteve ocupado com outros projectos. Um dia, porém, Bourgeon decidiu regressar à sua personagem:

"Senti o desejo de voltar de novo a Isa. Fiquei com o sentimento, no quinto episódio da série, que fora demasiado sucinto no tratamento da vida dos colonos em S. Domingo e da escravatura. A elasticidade do tempo fascina-me. O que eu conto parece muito antigo, mas à escala da História é muito recente."

O resultado desta nova incursão é A Menina de Bois-Caïman, uma longa história de 142 pranchas em dois volumes, cuja conclusão está prevista para o próximo ano. Combinando dois momentos temporalmente distintos, a narrativa de Bourgeon revela o percurso de Isa desde as Antilhas à Luisiana, passando pelo mar das Caraíbas.

O tempo que passou não degradou nenhuma das qualidades que impuseram a série como um clássico contemporâneo. O grafismo do autor revela mais maturidade do que nunca, a história exprime uma pujança e uma solidez facilmente reconhecíveis. Agora, só falta mesmo ficarmos a conhecer o desenlace da aventura...

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FRANÇOIS BOURGEON FALA DE “OS PASSAGEIROS DO VENTO” EM ENTREVISTA AO PÚBLICO.

"Mais do que um desenhador, considero-me um contador de histórias"

Falar do presente não está nos propósitos do autor francês de banda desenhada François Bourgeon. O passado ou o futuro prestam-se melhor para falar do que lhe interessa: a vida das pessoas, com as suas relações, conflitos e estratégias de poder e de influência. Afinal, preocupações de todos os tempos.

Carlos Pessoa

François Bourgeon veio a Portugal em 1994 para participar no Festival Internacional de BD da Amadora. Falou na altura ao PÚBLICO sobre a sua obra, com destaque para Os Passageiros do Vento, a primeira criação que o autor considera "realmente pessoal". Agora que se anuncia a saída de um novo álbum dessa série, 25 anos depois do aparecimento da primeira aventura, explica porque tomou a decisão de regressar ao mundo de Isa. Síntese das duas entrevistas.

PÚBLICO - Decidiu regressar à série Os Passageiros do Vento 25 anos depois de a ter abandonado. Porquê?

FRANÇOIS BOURGEON - É tudo menos um gesto comercial. Passei seis anos da minha vida a construir esta narrativa. Quis pôr um ponto final da história de Isa, mas fazendo-o de uma forma inesperada para o leitor -levando-o com uma nova personagem que descobre num local e numa época que o interessa e o cativa, mas onde já não reconhece nada, onde se sente completamente perdido e onde pode, por um momento, ter a impressão que se enganou na história... E, de repente, o passado ressurge quase sem que o leitor se aperceba dele, reencontrando Isa onde atinha deixado e começando a compreender que vai acompanhar uma aventura mais profunda e complexa do que a simples continuação da história anterior.

Neste episódio há uma nova direcção para a série? Os Passageiros do Vento não mudam de temática. Fala-se de viagens. Fala-se de água, agitada ou em repouso. Fala-se de homens, sejam maus ou bons. Fala-se de guerras e depois de escravatura. Mas fala-se também de um segredo de família e do desejo profundo que as pessoas idosas têm, por vezes, de transmitirem a alguém duas ou três pequenas coisas que lhes parecem essenciais.

Há também, no conjunto destes dois novos episódios, um espaço inabitual para as paisagens e a natureza.

Sem interesse pelo presente

A nova história apresenta um traço mais maduro, quase fazendo "esquecer" o anterior...

Os cinco primeiros álbuns de Os Passageiros do Vento começaram há 30 anos e foram terminados há 25 anos. Se, depois deste tempo todo, eu não tivesse feito qualquer progresso seria porque, possivelmente, me tinha enganado na profissão, ou seja, para pôr as coisas de forma mais simples, eu ter-me-ia esquecido de viver!

É um autor que os leitores se habituaram a ver, em boa parte, "virado" para o passado. Porquê esse fascínio pelo que já passou?

Bem, tenho de reconhecer que, pelo menos de momento, não tenho o menor desejo de falar da vida contemporânea. Talvez um dia...

O presente intimida-o?

Não, não é por isso... Como indivíduo, acho que não tenho um conhecimento da nossa época suficientemente original para poder fazer algo susceptível de interessar as pessoas. Contar uma história em função do que posso observar nos jornais? Ou na televisão? Ou nos livros que leio? Definitivamente, não tenho a menor vontade de falar do presente.

A sua recusa do presente tem a ver, por exemplo, com o facto de não ser capaz de ter uma distanciação suficiente relativamente ao que se passa hoje?

Não. De facto, é possível essa distanciação de que fala. Mas o passado torna-a ainda mais fácil. E, levando o raciocínio até ao limite, eu diria que ele permite abordar assuntos ainda mais escaldantes e actuais e de forma mais livre.
Porquê? Ao falarmos do presente, podemos ser facilmente acusados de ter uma atitude moralizadora, quando o passado implica uma referência histórica, ou seja, as pessoas sabem que se está a falar de coisas que já aconteceram, mesmo se existe uma componente ficcional.
E se alguém quiser fazer um paralelo com a nossa época, ela é feita de forma... digamos, mais suave.

O que faz de si mais do que um mero desenhador...

Exactamente. Mais do que um desenhador, considero-me um contador de histórias. A minha primeira ambição é proporcionar um pouco de distracção às pessoas, e não mergulhá-las no que as preocupa todos os dias.

E essa opção foi deliberadamente assumida desde o princípio da sua carreira?

Não. As coisas aconteceram um pouco por acaso. Eu comecei por trabalhar para a imprensa infantil.
Na série Brunelle e Colin eu tinha um argumentista, cujos textos seguia mais ou menos fielmente. E talvez eu nunca desse o passo que me fez redigir os argumentos, se não tivesse existido a série Os Passageiros do Vento, que me levou a efectuar pesquisas nos museus e bibliotecas. Acerta altura apercebi-me que não valia a pena procurar um argumentista, pois eu sabia mais sobre o tema do que as pessoas com quem falava!...

Historiadores são imaginativos

Em que "pele" se sente melhor?

Há dois pólos que me interessam: o desenho e a narrativa. Quanto ao primeiro, é a sua concretização como banda desenhada que tem a minha preferência, pois existe – ao contrário da pintura, por exemplo - a possibilidade permanente de comunicação com um máximo de pessoas.

E ao olhar para o seu percurso pessoal, não parece que tenha sido negativo fazê-lo sozinho...

Oh, não, pelo contrário! É mesmo muito confortável, pois não há sequer hipótese de conflito. E permite-me estabelecer o meu próprio ritmo de trabalho.

Costuma fazer maquetas dos ambientes em que decorrem as suas histórias. O que procura retirar dessa reconstituição?

Fiz isso em Os Passageiros do Vento, reconstituindo o navio onde se passa uma parte da acção, e também o forte da feitoria de Judá. Isso serve, antes do mais, para me distrair um pouco do meu trabalho. Por outro lado, permite-me acompanhar o percurso dos meus personagens, e também jogar mais facilmente com os efeitos de luz, assim como escolher os ângulos e enquadramentos. É claro que isso se traduz em pormenores de que o leitor quase nem se dá conta, mas que introduzem na história uma certa dimensão de veracidade. Dou-lhe um exemplo: se eu colocasse o sol sempre no mesmo lugar, ninguém daria conta disso, mas são pormenores que me dão muito prazer, motivam-me para o meu trabalho e, no limite, fazem-me "acreditar" na época em que as histórias se desenvolvem...

A torná-las mais credíveis...

... aos meus próprios olhos. É exactamente isso!

Isso percebe-se bem em relação ao passado. Mas até que ponto é possível fazê-lo face a um "futuro" - o que retrata em O Ciclo de Cyann, por exemplo - que não existe antes de pensar nele?

Admito que é mais complicado. Todavia, na pesquisa sobre o passado apercebemo-nos muito depressa que, para além dos documentos - por vezes raros -, a imaginação dos historiadores é enorme. Eles são também contadores de histórias que, em muitos casos, relatam o que se passou em função dos problemas da sua própria época. Bem, a questão que coloco a mim próprio é esta: o que é que me interessa numa dada época? E a resposta é: a vida das pessoas e das suas relações, com os seus conflitos de poder e de influência. Ora, isso é algo que existe no passado, no presente... e no futuro! Os temas são sempre os mesmos. Os problemas de uma cidade na Idade Média são os mesmos de uma cidade contemporânea: anti-semitismo, insegurança nas ruas, por exemplo. E isso está para além do facto de admitirmos que existe, apesar de tudo, uma evolução.

Chegado a este ponto da carreira, que lugar ocupa a série Os Passageiros do Vento no conjunto da sua obra?

Os Passageiros do Vento é o meu primeiro trabalho realmente pessoal. Continuo a sentir-me muito ligado à série na medida em que me sinto muito próximo de Isa. Confesso que tenho um fraco por O Último Canto das Ma/aterre, sem dúvida o meu livro que exige mais do leitor. Mas os dois volumes de Menina de Bois-Caïman são, até hoje, os únicos em que não modificaria uma linha.

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Publicado por jmachado em agosto 31, 2009 09:01 PM | TrackBack
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