Julho 13, 2005

Ah, Groucho!

Quando escrevi isto, não sabia que iam postar isto e seguintes. Ah, Casmurro.

Julho 12, 2005

Revista de blogs. Vícios.

«Vício é que nem bunda: todo mundo tem, mas acha melhor esconder – e não é bonito ficar falando do formato alheio.» [No Garotas que Dizem Ni.]

Melhor do que a encomenda.

Tarso Genro, o novo presidente do PT na Folha: «O PT perdeu a bandeira da ética? Ainda não. A bandeira é recuperável. O risco existe [Que o PT perca a credibilidade e a viabilidade como partido eleitoral].»

Ah, diz-me toda a verdade.

«O relatório do Banco de Portugal salienta a interrupção do processo de ajustamento da economia em 2004, devido em especial à subida do consumo no primeiro semestre.» «O Banco de Portugal baixou em mais de um terço, para 0,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), a previsão de crescimento da economia portuguesa para este ano.» Tudo antes do Verão.

Dicionário do Diabo.

A ler os posts de Osvaldo Silvestre sob o título Dicionário de Soundbytes, no Casmurro, um blog a não perder, nunca.

O Aviz em serviço público. Links aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Livros do Brasil.













Já não há desculpa para não ler alguns dos clássicos brasileiros. A Cotovia começou a publicar a colecção Curso Breve de Literatura Brasileira, dirigida por Abel Barros Baptista. Algumas das melhores coisas da língua portuguesa estão aí.

Divinos sinais.

Não sei bem se é isso. Mas a vantagem da rede sem fios, wifi, para me ligar à net, é o milagre deste Verão.

Julho 10, 2005

Internacionalização da economia de ponta.

Depois de rumores sobre a vaguíssima entrada do banco BES no rol de nomes do escândalo do mensalão lulista, perdão, petista, no Brasil, outra notícia sobre a internacionalização da nossa economia, agora com a Volkswagen. Infelizmente, é apenas uma vaguíssima participação, nada de escandaloso ou muito saboroso. Mas sempre é uma pequena glória luso-brasileira.

De volta à sociedade civil.

O meu amigo Rui. Espero que regresse ao Companhia de Moçambique.

Revista de blogs. Ninguém te manda.

«-Bom dia! Tem o Jornal de Letras?
[…] Trejeito pensativo.
menino, de letras são eles todos.» [No Daedalus.]

Revista de blogs. A festa do colete verde.

«Placa de platina na cabeça, ii. O banco de um veículo vestido com colete fluorescente, daqueles com o número autorizado e tal, não é uma questão de desgosto. É uma questão de preço. Há um ano aconteceu o mesmo com a bandeira da pátria com pagodes.» [Segismundo, no Albergue dos Danados.]

Revista de blogs. Londres.

«Londres. É a guerra total mas não vemos o inimigo. Morrer sem combater, foi-nos reservada a pior das indignidades.» [No A Natureza do Mal.]

Revista de blogs. Questões de política geral.

«Uma das premissas para um sujeito não querer nunca ser "reacionário" e "de direita" é acreditar que pessoas ricas e desmioladas e egoístas não têm simpatias esquerdistas. Ou que apenas as pessoas que não têm simpatias esquerdistas são ricas, desmioladas e egoístas. Mais ou menos assim: as patricinhas loiras de calça colada e cabelo superliso não votam no Lula. [...] O curioso é que todas as fulanas que conheço que se encaixam exatamente na tal descrição (bonitinha, patricinha, ansiosa para parecer sofisticada, com bastante dinheiro para supérfluos todos os meses - ou seja, a definição da mulher desmiolada e burra, para os que têm simpatias esquerdistas) votam no Lula, são "contra o monopólio econômico dos EUA", "contra a religião organizada" e "a favor do aborto" (o que, para 90% da população mundial, faz delas mulheres inteligentes). Então eu me pergunto: onde estão as tais blonde bimbos de verdade, as burras & loiras & ricas que não têm simpatias esquerdistas? A única explicação é que elas automaticamente passam a ser do lado do "bem" quando pensam feito eles e votam no Lula e todo o resto ("ah, gente, tudo bem que ela seja patricinha, né, mas é inteligente").» [No Miss Veen]

Revista de blogs. Como vencer a blogosfera.

«Como vencer uma discussão fazendo uma dancinha de vitória.» Ler o post do Alexandre.

Revista de blogs. Coisas que acontecem em São Paulo.

«Carla atravessou a rua usando apenas saia. Do outro lado encontrou seu inimigo, nu, excitado, de camisinha já posta. Ele veio no seu rumo, mergulhou nela e os dois fizeram amor rolando e rodopiando pela calçada, até que o solo tremeu de paixão. A lua, as estrelas, os postes, os faróis, tudo vibrava, tudo era amor.» [No Santaputa]

Revista de blogs. Castigos divinos.

«Deus não vai agüentar a multidão de puxa-sacos e demais. Em vez disso, seguirá Seu plano de punir os pecados de cada geração com o castigo correspondente, como tem feito desde há algum tempo. Por exemplo: à liberação sexual dos anos 60, Deus respondeu com Delfim Netto. À new wave da década de 80, respondeu com a AIDS.
"E a década de 70?" – perguntareis. Na verdade, Deus nada teve a ver com aquilo, pois o castigo da disco é a própria disco.» [no Radamanto.]

Tecnocratas.

Não sei se alguém no governo ficará preocupado com estas declarações de Jorge Coelho.

A Casa Quieta.













Surpresa: o romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, A Casa Quieta (Dom Quixote).

«...pássaros organizados a cercarem-nos, cegos por moedas migalhas notas, nem sequer a pretinha ou a tua mãe, as mulheres que quis eram mulheres que me queriam, que me desejavam, não necessariamente para investir, cinco seis sete vezes, mas quem sabe, deitarem-se ao meu lado a rir, de vestido molhado pelos salpicos do poço, debaixo das árvores da primavera, morango baunilha buganvília rosas água fresca malmequeres...»

Revista de Blogs. Minimalismo.

«E para os devotos dos blogs minimalistas, e pelo mesmo preço, vos digo, hoje faria um post praticamente melancólico, dizendo que: em terra de passarinhos que tem olho é coruja, e em terra de marinheiros quem tem mamas é maruja.» [No Opiniondesmaker]

Imprensa.

De dois debates que ouvi, com a presença de jornalistas, elogiou-se muito a contenção da imprensa britânica depois dos atentados terroristas de Londres; elogiou-se a sua sobriedade, o respeito pelas vítimas, até a natureza das perguntas dos repórteres aos londrinos que saíam da cena do crime. Elogiou-se o código de conduta da BBC e o respeito por ele, em qualquer circunstância. Eu não acreditava que estava em Portugal, o país em que as televisões anunciam arrastões e fazem directos da Cova da Moura.

Carcavelos.










Não resisto a republicar a foto (do Pedro) tirada nos areais de Carcavelos. Este é o verdadeiro arrastão.

Amiguinhos.

A esquerda já vê em visitas ao Estádio do Dragão uma jantarada conspiratória de direita, em busca de amigos.

Notícia extraordinária. Mais maldade.

Petista preso com dólares na cueca é exonerado. «O assessor parlamentar José Adalberto Vieira da Silva foi demitido neste sábado, após ter sido preso ontem no aeroporto de Congonhas, carregando R$ 200 mil numa valise e mais US$ 100 mil presos em sua cueca. Vieira é assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do presidente nacional do PT, José Genoino, que renunciou nesta manhã ao cargo. (Aqui

Maldade.

A notícia de que Tarso Genro, o ministro da Educação que Lula tirou a Porto Alegre para substituir Cristóvam Buarque, é o novo presidente do PT. Ou seja, segundo se murmura, vai trabalhar de ouvido (e quem sopra é Dirceu). Mas tem uma vantagem: Tarso deixou o Ministério da Educação.

(Genoíno deixa a direcção do partido e diz que tem pensar «como sobreviver na vida».)

Mensalão português.

Tinha de acontecer. Pode haver, parece, uma ligação entre o banco BES e o «mensalão» PT/Jefferson. Papel instrumental, claro, e ligeiro. Mas tem essa sombra: negócios com o poder, qualquer que seja o poder.

Arrastão de Carcavelos. Portugal desmentido.

A manchete do Expresso é assim mesmo: a polícia, afinal, declara que não houve nenhum «arrastão» em Carcavelos. Mas também declara que foi pressionada para dizer que houve. Desde quando é que a polícia é pressionada para dizer que houve um «arrastão»?

Outro eu, definitivamente.

A ideia não é nova, mas tem aparecido aqui e ali. Ninguém é exactamente uma mesma e única coisa, mas convém que um governo seja animado por um princípio de coerência. Por exemplo: dizer «eu defendo o Estado social» e iniciar uma campanha acelerada de privatizações. Ou dizer «eu quero controlar decididamente o défice e emagrecer a Administração pública» e negar que se vão fazer despedimentos na Administração pública ou prometer grandes obras públicas determinadas pelo Estado. Mas a verdade é esta: acontece.

Eu e as touradas.

Eu e as touradas não temos relação nenhuma. Mas, numa passagem pelo café da vila, vi pela televisão duas coisas que me deixaram orgulhoso, nem sei bem de quê: um forcado preto ovacionado de pé depois de uma pega extraordinária, e uma cavaleira loira que parece que se portou bem. Nenhum deles tinha patilhas.

Julho 8, 2005

Vidas miseráveis.

No Alfa Porto-Lisboa, um cavalheiro telefona para vários amigos, perguntando se o tinham visto na televisão, de tarde. Muitos tinham visto.
«A merda das bombas tirou-me meia-hora de conversa», explicou ele, um cavalheiro da indústria da comunicação. «Aquele Blair meteu-se com eles, levou.» Há pessoas com vidas miseráveis.

Julho 7, 2005

Londres, 2.

Composed upon Westminster Bridge (3 September, 1802)

Earth has not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres, and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendour, valley, rock, or hill;
Ne‘er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! the very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!

William Wordsworth (1770-1850)

Londres.

London I wander thro' each charter'd street,
Near where the charter'd Thames does flow.
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.

In every cry of every Man,
In every Infants cry of fear.
In every voice, in every ban,
The mind-forg'd manacles I hear.

How the chimney-sweeper's cry
Every blackning Church appalls;
And the hapless Soldiers sigh
Runs in blood down Palace walls.

But most thro' midnight streets I hear
How the youthful harlot's curse
Blasts the new-born infant's tear
And blights with plagues the marriage hearse.

William Blake (1757-1827)

Leis de Murphy.

Há uma grande discussão sobre se o governo aumentará, ou não, os impostos, ou se criará mais. Temo bastante que as pessoas se tenham esquecido das «leis de Murphy». Claro que os impostos vão aumentar.

Transportes. O mundo já não é o que era, 2.

Gare de Oriente, na fila para comprar o bilhete para o Porto. Um casal holandês, jovem, faz um questionário completo ao funcionário da blheteira. Este, depois de ouvir, recomenda determinado comboio, sugere um bilhete ida-e-volta porque é mais barato. Num inglês irrepreensível. Eles decidem e fazem mais algumas perguntas. O funcionário sorri, diz que sim, e entretanto aproveita para lhes corrigir o inglês. Havia um tempo verbal incorrecto e um complemento directo fora do sítio. Chega a minha vez:
«Belo inglês, hein? Parabéns.»
«Eh, eh, eh. O mundo já não é o que era.»

Transportes. O mundo já não é o que era,1.

Aeroporto de Lisboa, às 7:30 da manhã. Turistas a embarcar para o Brasil, executivos apressados para as linhas europeias, etc. Encontro-o, de t-shirt, preparado para o check-in para S. Paulo.
«Para onde vais?» [pergunta desnecessária, mas com algum efeito]
«Para S. Paulo.»
«Vais de férias?»
«Não. Vou a uma prova de vinhos.»
«Eh, eh, eh...»
«O mundo já não é o que era.»

Julho 6, 2005

Jogo de cifras. Em benefício do hooligan.

Charlotte, vamos tratar de aspectos estratégicos, portanto. Os bilhetes do inaugural da Liga ficam por minha conta, mas o jantar tardio corre por vos.

Levarei a bandeira do imortal, embora sejam admitidos pendões do River (por Lucho e pelo Carlos) e do Grêmio (por Anderson e por mim). Os outros estão em fase de observação .

Cifra entre hooligans.

Charlotte, diz-lhe que era bom que preparássemos a ida ao jogo inaugural. O Carlos pode levar-te, não? Quanto ao Lisandro, tenho esperanças.

Arrastão de Carcavelos. Portugal em cores.

Já muita gente percebeu o que se passou em Carcavelos a esta hora. Mas as melhores fotos vêm no Céu sobre Lisboa. Sobretudo esta, a do meu país em várias cores.

Lucho. Uma cifra de hooligan.

Charlotte, diz-lhe que o Lucho já chegou e que não tenho pena que o River tivesse ficado sem ele. Aliás, o Lucho vai ajudar-nos a massacrar o Boca, em Amesterdão, tão certinho como isto.

Adufes.

Parabéns atrasados ao Rui, do Adufe, verdadeiro apontador da blogosfera portuguesa. Graças a ele não podemos desculpar-nos com falta de atenção. Basta lê-lo. São dois anos, claro.

Dois anos também comemorados pelo Pantalassa, outra ponte entre continentes a que vale a pena estar atento.

E dois anos para o Opiniondesmaker, um grande nome de blog. Escreve ele: «Este blog possuirá uma coisa boa: não tem leitores; terá quanto muito olhos que pestanejam intermitentemente por aqui. É como um hotel feito para não ter hóspedes mas apenas passantes.» Mas um homem que escreve isto sabe que não é verdade: «Evitaria os temas difíceis, especializava-me no sermão da Montanha, relativizava a moral sexual, valorizaria o sfumato, inventava outra vez as amêijoas à bulhão pato, compararia Canaletto com Poussin e chamava a Borges menino da mamã, mas Deus estaria sempre presente; e haviam de ver.»

Outro eu.

O Carlos regressou. Fez bem.

País de Lula.

O velho PT, instrumental, cubano, araguaísta -- é disso que Lula se livra, com a tralha que tem de sambar (Genoíno, Dirceu, Delúbio, Valério, professor Luizinho, etc.)? Tralha de dois anos de poder assente em informalidade (o Banco do Brasil tornou-se accionista do PT, na verdade) e em optimismo, os dois males do populismo misericordioso.
A ideia de o grupo de Marta Suplicy pode chegar à direcção do PT também é curiosa: transporta, nos bolsos, o rasto de uma administração curiosa em São Paulo.
Entretanto, ao mesmo tempo que Lula chora, no planalto, atribuindo mais ministérios ao PMDB (incluindo o das Cidades, que era de Olívio Dutra) de Renan Calheiros e Sarney, o PMDB confirma que entrava no bolo do mensalão, o que é mais fogo a arder nas barbas do presidente.
Felizmente, neva.

PS - Sugestão do J.C.B., veja-se este blog.

México, regresso.

Em 1994 passei uma larga temporada no México e assisti, digamos, ao desmoronar do velho PRI; o seu último rosto era Carlos Salinas, que cumpria a via-sacra de revelações sem fim sobre as ligações entre política e droga, com homícídios pelo meio (incluindo o do candidato presidencial do próprio PRI), e as sequelas da «revolução zapatista». Ernesto Zedillo, o novo presidente, era um homem sensato com uma tarefa impossível: acabar com setenta anos de corrupção, arbitrariedades, violência, burlas eleitorais, perseguições. Assisti, com jornalistas do La Reforma, a assaltos a vendedores do jornal, praticados por funcionários do PRI. E vi televisão, um enorme monstro de propaganda do partido. Havia um claro sentido do irrespirável. Carlos Monsiváis, à esquerda, Jorge Fuentes e o grupo San Angel Inn, no sector liberal, e muitos assessores de Zedillo, comungavam dessa ideia simples: as coisas tinham acabado e o «zapatismo» de Chiapas era apenas um sinal. Depois, viria Cárdenas (que não veio; pelo contrário, foi a direita do PAN, e depois Vicente Fox). O PRI ganhou de novo as eleições em Mexico DF, com 47%.

FARC, Colômbia.

Raul Reyes, um dos homens fortes das FARC, numa reportagem da France Presse. Que não negoceia, a menos que o presidente Alvaro Uribe perca as eleições na Colômbia. Ninguém acha estranho que Reyes mencione países amigos nas suas declarações.

Verão, também.

As crianças deviam ser geneticamente impedidas de saltar para a piscina a menos de oitenta centímetros de tudo o que fossem esquinas, vértices, cantos, seja o que for. Problema de respiração, a meio do Verão.

Blog, book.

Dear blog: today I worked on my book, um texto a ler, no NYT.

Julho 5, 2005

Retratos do Verão.

Praia da Comporta. Azul, branco, última luz do crepúsculo. Ruído do mar. Praias fluviais no Norte. Castanheiros verdes, carvalhos renascidos no castelo de S. António de Monforte, pinhais de Boticas.

Incêndios de Mafra, terra queimada, bombeiros.

Edimburgo. Fogo de artifício.

Aquelas imagens são banais e banalizadas. Não têm qualquer relevância nem, actualmente, qualquer significado.

PS - Estranho que a França e a Alemanha se associem para perdoar a dívida africana e para ajudas humanitárias ao grande continente, e não entendam que as vacas francesas e alemãs recebem mais subsídios num mês do que jamais receberão agricultores africanos ou latino-americanos durante uma vida inteira.


Pacheco Pereira escreveu sobre o assunto, a propósito de Edimburgo e de uma reportagem sobre Angola, potência militar regional.

Chineses na Madeira e a Cova da Moura. Coisas arrastadas pelo vento.

Na janela de comentários, «Anonymous» escreveu que aí «não moram só os "imigrantes africanos"; muitos do que lá moram, africanos ou não, são mesmo é portugueses, com passaporte e BI Portugueses, assim como a maioria dos jovens do "arrastão" do 10 de Junho». Parece-me inteiramente correcto. Para todos os efeitos, é preciso ver que, quando se fala em pretos & brancos, ou seja, pretos na Cova da Moura ou na Quinta do Mocho, estamos também a falar de muitos cidadãos portugueses. Distinguir pretos & brancos pode ser um julgamento misericordioso mas é também ignorância. O meu país é de várias cores.

O arrastão de Carcavelos surpreendeu muita gente e eu acho que há razões para isso. Não vale a pena sermos cínicos ao ponto de dizer que “estava escrito” – isso tanto serve para ser usado pela extrema-direita racista, que culpa “os pretos e os estrangeiros” pelos desacatos na velha pátria (como se fôssemos todos branquinhos e enjoados), como pela esquerda fatal que aprecia o retrato de vitimização “dos marginalizados e dos excluídos” (como se em Portugal houvesse apartheid). Esse caldeirão é redutor e nele cabe tudo o que não vale a pena discutir com seriedade. Na verdade, não estava escrito. Poderia acontecer, mas a dimensão do estrago tomou proporções alarmantes, com as televisões a anunciar mais “arrastões” onde se tratava apenas de assaltos e a tremer de comoção com um roubo por esticão cometido por um “cidadão de raça negra”.

Há uns anos, era Fernando Gomes ministro da Administração Interna, e uma actriz foi assaltada. A actriz murmurou ainda que Lisboa era pior do que o Rio de Janeiro. Só umas semanas depois toda a gente se deu conta do exagero e do ridículo. Imediatamente, explodiram comentários, na imprensa e na rádio, sobre o mal que os pretos estavam a fazer à pátria, ainda que o caso não tivesse registado as proporções trágicas do Meia Culpa, em Amarante (em que só brancos estavam envolvidos, portanto). A paranóia foi gritante. As televisões adoram.

Esta questão do racismo volta de vez em quando à tona. Uns energúmenos organizaram uma manifestação “patriótica” para pedir que os pretos sejam expulsos e a pátria salva da invasão dos estrangeiros. A praia de Carcavelos, entretanto, voltou à calma com menos gente, que prefere outras paragens. O problema de Carcavelos, aliás, não é de integração racial nem de segregação racial: era de policiamento. Pretos ou brancos, adolescentes “excluídos” ou imberbes “integrados”, os criminosos devem ser tratados como criminosos pela polícia. Não há volta a dar-lhe. O resto é cair na vitimização rota, muito sociológica e sacana, ou no racismo de pretos e de brancos, demasiado imbecil.

Há aqui uma questão central: a da nacionalidade. Eu quero que o meu país seja feito de pretos e de brancos, de católicos e de muçulmanos, de ucranianos e de beirões. É uma ideia pessoal e admito que seja lamentável – mas não vejo outra solução. Estamos todos cá. Já vai longe o tempo em que tivemos um treinador da selecção nacional de futebol que defendia a existência de “portugueses legítimos” e de “portugueses de segunda”. Para mim, Deco é como se tivesse nascido no Minho e um miúdo nascido de pais bielorrussos que trabalham em Lisboa é como se fosse ribatejano.

O presidente Sampaio foi à Cova da Moura. Devia ir mais vezes porque vivem lá portugueses e não pretos. E o presidente da Câmara da Amadora também. Se aquelas pessoas são portuguesas, são portuguesas – devem obedecer às nossas leis, ser tratados como cidadãos, presos se cometem crimes, hospitalizados se estão doentes, perseguidos se praticam excisão feminina, e os seus filhos educados nas escolas públicas. Essa é a lei que eu defendo. Se não são portugueses, devem comportar-se como estrangeiros e respeitar o país onde vivem até que decidam, de acordo com uma lei justa e generosa, optar pela nossa nacionalidade. E aos estrangeiros devemos também um pouco de atenção. Nós fomos estrangeiros em qualquer outro lugar da nossa vida.

Isto não evita os arrastões, mas ajudará bastante. O pior racismo é o da iniquidade com que se permite a miséria. A pretos ou a brancos. (no JN)

Enquanto a Microsoft vigia a net chinesa às ordens do governo.

Bispo católico raptado na China. Ainda não vi reacções oficiais a isto.

Blog de política. Política impura.

O Paulo Gorjão assinala dois anos do Bloguítica. Acompanhei os dois blogs que o Paulo manteve desde o início (o internacional e, depois, o nacional). Confesso que sinto alguma falta dos seus comentários sobre política internacional, onde se revelavam mais as sombras da política impura e os seus conhecimentos sérios quando se fala da Ásia-Pacífico, por exemplo. No caso da política nacional, a sua atenção é superlativa e, muitas vezes, desarmante, mesmo quando não concordo. Parabéns, Paulo -- outra cerveja nos espera no Bonaparte.

Chineses na Madeira.

As declarações de Jardim são impróprias e imbecis. Não há outro comentário que se possa fazer. Eu quero chineses, brasileiros, ucranianos, bielorrussos, japoneses (por falar nisso, há um excelente restaurante japonês no Funchal, com um sashimi muito bom), espanhóis -- tudo. Definam-se as regras e o assunto fica arrumado. Já o escrevi várias vezes, e sou insuspeito. E sobre Jardim sou ainda mais insuspeito (tenho um honroso processo judicial nesta matéria).
Quanto ao presidente da República, acho que reagiu de maneira sofrível. Por um lado, condenou as declarações. Por outro lado, estragou tudo no final, ao dizer que é preciso «ter muito cuidado em Portugal» para que atitudes como estas «não possam ser vistas por terceiros como declarações que tenham a ver com racismo ou xenofobia». Ridículo. Por terceiros? Porque temos de causar boa impressão lá fora? Porque temos de esconder o dr. Jardim debaixo do tapete? Porque o presidente foi à Cova da Moura?

A existência de um homem que diz «está-me a fazer sinal aí porquê? Que estão chineses aí? É mesmo bom que eles vejam porque não os quero aqui» é preocupante.

O país de Lula. Continua o abanão.

Caindo a direcção do PT, com Genoíno (talvez Raul Pont suba a presidente, quem sabe), o encantador Delúbio e quem mais Lula puser na lista de perdidos e amigos que têm de sambar, há um dilema a resolver: «Na direcção do PT só vai ficar o Lula e gente que não é do PT.»

Claro que ficam os gaúchos. É o que se chama a síndrome Getúlio de regresso...

O país sem fim. Coisas boas.

Mart'nália no Porto, brilhante, cheia de riso. O pai Martinho da Vila em Lisboa e no Porto. Neva na serra, de Gramado a Cambará. O Ulisses está na lista dos mais vendidos, na nova tradução de Bernardina Pinheiro (e Paulo Coelho desceu no top -- é a minha vingança depois de ter ocupado parte dos últimos dez dias a ler o homem). Peço-lhes o favor de descobrirem, na música, os nomes de Vítor Ramil, de Adriana Maciel, de Nei Lisboa e de Claudio Levitan.

Malvinas.

Eu, por exemplo, que sou pela devolução das Malvinas à Argentina.

O país de Lula. Continua o «mensalão».

Continua o mesmo episódio da mesma novela. Com esta novidade, há mais partidos aliados do PT a receber por fora, mantendo o PMDB a velha tradição de conhecer todo o mundo. Ou de como há estranhas coincidências: os pagamentos do PT aos partidos aliados aumentavam na véspera de votações importantes no Congresso. Teoria um: o PT, coitado, e Lula, coitado, vítimas do sistema (apud companheiros vários, enternecidos). Teoria dois: trata-se de uma conspiração evidente contra o país (Frei Betto, Dirceu, Genoíno, etc.). Não vejo outras explicações. Mas os companheiros pedem delicadeza no tratamento dos companheiros investigados. Lula diz que o combate à corrupção será mortífero, mas a verdade é que a história já vem de longe e chamuscou as barbas do presidente.
Entretanto, o velho Malvadeza diz que os ministros de Lula são maus, mas, como bom coronel, não deixa de apoiar Lula. Amizades.

Julho 3, 2005

A Praia.

O Ivan foi uma das pessoas que gostei de conhecer nos últimos dois anos de blogosfera. Muitas vezes, a rir, e só por isso, eu dizia «aqui está o Ivan, que é de direita, embora ele não saiba, e diga que é de esquerda». Na verdade isso nunca foi importante, nem costuma ser importante entre gente bem-educada. A Praia é um blog delicado, bem escrito e o Ivan é um cavalheiro. A delicadeza faz parte dos elementos de um bom carácter. Por mim, tenho pena que ele não escreva mais; mas compreendo que estas coisas têm a justa medida. Tenho com o Ivan um interesse comum, o Brasil (futebol, livros, praias, música), que ele conhece bem e onde nos encontrámos para beber e até fumar um bom charuto. Tudo isto para dizer que A Praia faz hoje dois anos.

IVA. O combate pela pátria.

Aviz fica a quarenta e cinco minutos de Espanha. O supermercado Corte Inglés de Badajoz, na passada sexta-feira, estava cheio de portugueses. O combate do IVA está a ter bons efeitos. A pátria regressa aos velhos e bons hábitos.

PS - Aliás, há supermercados espanhóis que fazem «entrega em casa», do lado de cá da fronteira.

Julho 2, 2005

Pink Floyd.

Aquele tema do Live Aid. Eu tinha 14 anos em Chaves e o mundo era tão incógnita como hoje. A mesmíssima canção, trinta anos depois.

Outro Poema de Bernardo Pinto de Almeida. As palavras são coisas

Falamos das coisas e elas acontecem

por isso ciciamos o que nos pede o corpo

não são as coisas só aquilo que dizemos

nossas pobres palavras não as dizem inteiras?

As palavras são coisas, extremas, luminosas,

quando tu dizes porta, há uma porta que se abre

quando tu dizes sexo, há um amor que se cumpre

não sabemos sequer o poder das palavras

nem o poder das coisas nem o poder dos rostos.

As coisas são palavras feridas pela morte

são agulhas finíssimas que trespassam a noite

os teus lábios dizem coisas os teus lábios cintilam

por eles fala o mundo, por eles se faz o oiro

pois o mundo acontece sempre que o pronuncias.

Vingança.

Juntamente com os livros do cavalheiro, li os quatro primeiros capítulos do segundo volume do opus magnum de João Alberto Pereira Azevedo Neves, um vetusto catedrático de Medicina Legal de Lisboa nos anos vinte do século passado: Guia de Autópsias. É a segunda edição, de 1930 (Imprensa Nacional). A parte sobre «ferimento occasional da morte» é superlativo: «A affirmação de que um ferimento foi apenas causa occasional demanda que se prove que elle não era sufficiente para, só por si, produzir a morte e, por outro lado, que havia circumstancias particulares no offendido e victima que fizeram com que a offensa, que n'outros seria benigna, para elle se tornasse mortal.» Como em tudo.

Gosto: uma palavra armadilhada.

Provavelmente, juntamente com Bernardo Pinto de Almeida, o autor de quem mais gosto de ler textos sobre arte e sobre artistas. José Gil acaba de publicar Sem Título. Escritos sobre Arte e Artistas (Relógio d'Água).

Misericórdia no meio do calor.


De entre os livros dispersos, e até para repousar das coisas temíveis a que a profissão obriga, leio Morte no Paraíso. A Tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines (Rocco). Que livro. Excelente biografia, mesmo com olhar enternecido de Dines. O problema das biografias é a paixão pelo biografado. Mas não há outro remédio: «Subir não é apenas o ato de acompanhar a elevação da topografia, pode ser a maneira de escapar da depressão. Subiu o morro em Salzburgo, a colina de Bath, agora vai escalar a serra de Petrópolis, três refúgios acima da mêlée. Tudo diferente em matéria de geografia, tudo igual em matéria de significado. A varanda que tanto o fascina é a metáfora da fresta por onde pensa espreitar os tumultos lá embaixo. Chalé mobilado -- não quer acumular coisas -- assim não terá que cortá-las logo de seguida.» [pág. 403] E este fragmento da carta de Albert Speer: «Não posso contar muito sobre a reacção do governo nazi ao suicídio de Stefan Zweig. Tudo o que posso lembrar foi que sua morte foi saudada com grande alegria e que o partido considerou um bem merecido para aquele inimigo do nacional-socialismo.»
E o funeral de Zweig (autorizado por Getúlio Vargas em Petrópolis, e ao qual não compareceu nenhum escritor brasileiro): «No exato momento em que Hitler acende os fornos do Holocausto, na aprazível Petrópolis discute-se a maneira mais honrosa de sepultar uma vítima do nazismo[...]» «Badalam os sinos das igrejas, o comércio fecha as portas, nos mastros a bandeira do Brasil a meio-pau. Cinco mil pessoas acompanham o féretro a pé enquanto, nas calçadas e sacadas, outros dão adeus ao inventor do país do futuro. No cemitério da cidade, obedecendo ao ritual judaico, os caixões são colocados sobre pranchões de madeira, de modo que os corpos fiquem perto do chão, enquanto o rabino Lemle lê um trecho do Jeremias, do próprio Zweig [...].»

Lupicínio Rodrigues, aliás.



















Se Acaso Você Chegasse

Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher
Que você gostou,
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou.
Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E de um bosque em flor
De dia, me lava a roupa,
De noite, me beija a boca
E assim,
Nós vamos vivendo de amor

Jefferson, o Átila brasileiro, 3.

Para quem quer ler o essencial sobre o assunto, ir aqui. Tem especial importância a nota de humor de Lula: «Amigos que erraram vão sambar.» Eles não têm feito outra coisa, note-se, companheiro.

Jefferson, o Átila brasileiro, 2.

Mas reparem bem neste pormenor: Jefferson, o homem que está a deixar o Brasil no meio do turbilhão, denunciando o «mensalão» e outras corruptelas maiores, «teria se desequilibrado ao subir numa escada quando procurava uma caixa de CDs do cantor Lupicínio Rodrigues». Lupicínio, génio e herói porto-alegrense (e autor do hino do Grêmio, já agora.) Bom, espíritos perversos propõem que a canção que Jefferson (o homem a quem o PT pagava para manter o PTB na órbita do lulismo) procurava era, imagine-se, «Vingança». E o que diz a canção? Isto (em itálico, para bom entendedor):

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
Que lhe encontraram chorando e bebendo
Na mesa de um bar e que quando
Os
amigos do peito, por mim, perguntaram
Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar
Mas, eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
Que tive, mesmo, que fazer esforço .
Pra ninguém notar
O remorso, talvez, seja a causa do seu desespero
Você deve estar bem consciente do que praticou
Me fazer passar essa vergonha
com um companheiro
E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada
Sem ter, nunca, um cantinho de seu pra poder descansar.

Jefferson, o Átila brasileiro.










Aí está como Roberto Jefferson apareceu para mais um depoimento na CPI brasileira que também se encarrega do «mensalão». A legenda podia ser: «Vejam o que acontece a quem denuncia o aparelho do PT.» Mas não. A imprensa ecslarece: «O deputado exibiu ao chegar à CPI o rosto inchado, com 12 pontos, segundo sua assessoria de imprensa, causado por um acidente doméstico ocorrido na segunda-feira passada. O deputado teria se desequilibrado ao subir numa escada quando procurava uma caixa de CDs do cantor Lupicínio Rodrigues e o armário no qual se apoiou caiu sobre a cabeça dele. Por causa disso, Jefferson teria pensado em desistir». Mas não desistiu. Tudo baralhado na pátria de José Dirceu.

Julho 1, 2005

A natureza do mal.

Ontem, ao passar em Coimbra, não quis esquecer-me de dar os parabéns ao Natureza do Mal. Por dois anos de vida.

Virada.

Vitória de virada do Grêmio, meu tricolor brasileiro. Depois de estar a perder por 1-3, deu a volta e terminou a ganhar 4-3. Sim, o Grêmio subiu ao quarto lugar, claro que da segundona. Mas enfim, é um ano sabático, logo estaremos de volta.

Gostos.

Bom, sentimentos nada reprováveis.

Junho 30, 2005

Como tudo se explica.

«A minha geração achou que era dona do país», diz Saldanha Sanches na Visão; é uma frase a reter. Saldanha Sanches poderia ter dito «a minha geração acha que é dona do país» para assim se explicar parte do falhanço da «classe política»; visto de longe, lá dos altares do espírito, o país é moldável, maleável, transformável, e as soluções adequam-se. Mas quando a proximidade é inevitável, ah, tudo é desilusão. A teoria da choldra (que vem do século XVIII, sobretudo) nasce desse olhar. Mas nem todos eram miseráveis ou cretinos; muitos eram geniais (Cavaleiro de Oliveira, Luís da Cunha, Verney, Sanches). Tornaram-se miseráveis quando (como todos os que carregam utopias infalsificáveis), para além de se julgarem donos do país, se julgaram donos da verdade. Sócrates, que é da geração seguinte à de Saldanha, está na encruzilhada.

Homem à moda antiga.











Vidas extraordinárias.

Liberal.

Eu também acho neo-liberal um insulto. Sou liberal à moda antiga.

Causas.

O Causa Liberal fez dois anos.

Esfolar o Coelho.

Prossigo a tarefa. Prevejo que daqui a quinze dias Paulo Coelho esteja devidamente esquartejado. Ler este homem é uma tortura, admito. Hoje de noite reli páginas de Monte Cinco para testar algumas qualidades (minhas) como conhecedor do Livro. Apesar da citação «mariana» e católica que abre os seus livros, estou convencido de que Coelho usa uma Bíblia de quarto de hotel.

Referendo.

Sim aos referendos. Mas esta «febre referendária» em relação ao aborto parece apenas uma tentativa de o PS sacudir a água do capote e servir-se dele como arma que o PSD também pode usar, se se portar bem. O PS ainda não descobriu para que servem as maiorias.

Junho 29, 2005

Um poema de Bernardo Pinto de Almeida. Bilhete postal (H.S. 3B)

Aos que fizeram da luta de classes um negócio
se deitaram das pontes mas com pára-quedas
se despediram do mundo e fundaram outra empresa,
fizeram da dor um carnaval
montaram takeaways de sentimentos
não poderemos senão desejar
os melhores votos de
uma feliz,
rápida,
morte.

Junho 28, 2005

Os problemas florestais.

Retratos a meio da floresta: colesterol mau acima do nível, colesterol bom à medida mais do que justa; próstata em bom estado; hemograma sem drama; os outros elementos andam regulares, do fígado ao que for preciso saber que existe e que se manifesta, além de que a tensão arterial não é para preocupar. Fica o relatório feito por uns tempos. Há cerejeiras à beira do caminho. Metade da vida já lá vai; agora, uma dieta com certos rigores, passeios pelos bosques, mais sono durante o Verão. Estou pronto para Setembro. Retratos a meio da floresta.

Árvores, sem adjectivos.

Um dia destes, no Livro Aberto, dei com este livro. Tinha andado desatento, mas felizmente a sorte favoreceu-me. O livro é de Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho e Manuela Delgado Leão Ramos e leva o título À Sombra de Árvores com História (publicado pela Campo Aberto ainda no ano passado, 2004). Eu não sei o que é necessário para que o Porto (a cidade, a Câmara, os portuenses, nunca se sabe) inclua o livro na sua bibliografia fundamental. Mas a verdade é que um livro destes, assim, faz parte da história da cidade. O inventário das árvores históricas do Porto (para quem não sabe, há um inventário de árvores centenárias portuguesas realizado e publicado pelos serviços do Ministério da Agricultura) é um acontecimento e um marco que devia ser assinalado. Eu faço-o com atraso, mas o defeito é meu. Distraído com romances, não tinha dado por estas fotografias de jacarandás, magnólias, metrosíderos, ciprestes, plátanos, araucárias, cedros do Líbano e do Atlas, tílias, carvalhos e ginkgos, tudo espalhado pela cidade, em praças, ruas, jardins, colinas, passeios junto à água do Douro ou do mar. Parabéns ao Dias com Árvores. Oxalá pudessemos merecer essa homenagem, de cada vez que passeamos pela cidade e de cada vez que gostamos de as ver, às árvores.

Dois anos de Abba.

O Aba de Heisenberg comemora dois anos também, de excelente incerteza. Andamos quase todos pela mesma idade, é o que nos vale.

Portugal.

Fátima Lopes, Luís Buchinho, Nuno Gama (eu não percebo nada do assunto), ou alguém mais, não sei. Mas a moda do colete reflector está a transformar a pouco e pouco a paisagem visual das estradas. Garanto que vi um cavalheiro vestir o colete para sair do carro e dirigir-se ao tronco de um pinheiro, na berma.

Mais coisas temíveis, 2.

Regresso a Veronika para verificar que há uma série de repetições involuntárias em Brida, ou ao contrário (no caso de Paulo Coelho, não interessa a ordem de publicação). Problemas semelhantes dão origem a soluções completamente inversas. Pobre Siddhartha que se transforma em Taróloga Maya. Em Brida há uma passagem comovente que me esqueci de assinalar ontem, e que recomendo à atenção do Rui CS: o namorado de Brida (que é secretária numa empresa de Dublin) ganha menos do que ela; ele é professor no departamento de Física numa universidade pública irlandesa. Assim vai o mundo. Há sempre temas para debate.

Solidariedade, 2.

Manifestações de solidariedade para com este blog, sempre bem vindas.

Avatar.

Ó Bruno, já me esquecia: parabéns! Dois anos, hã?

Memória.

Ler este post do Bicho Carpinteiro.

Revista de Blogs. Canalha fundamental.

«Carrilho é o canalha fundamental. Isso está antes do seu programa político, antes do partido a que pertence, antes de uma vitória «da esquerda». E é inquietante que algumas pessoas decentes publicamente associadas a esta candidatura não tenham ainda feito a sua ruptura, manifestado abertamente isso. Ah, sim – eu votarei no Sá Fernandes. Eu votaria em quase todos os outros, para não votar em Carrilho.» [Ivan Nunes, no A Praia]

Neverland.

Ó João, homem!, venham de lá esses ossos por mais dois anos.

Exames, 2.

Sobre os exames e a «quase unanimidade» à volta dos exames, o Ademar F. Santos escreve por email: «Não tomes a nuvem por Juno. A crença nas virtudes redentoras dos exames não passa disso mesmo... uma crença. Se, de vez em quando, passares os olhos pelo Abnoxio constatarás que, não sendo eu "pedagogo" nem "pedabobo", não mudei de opinião a respeito da serventia dos exames (há 20 anos, pelo menos, que não mudo de opinião). Como diria o Almada, se não houver outra maneira de a gente se salvar... estamos fodidos. O problema é que, pelos vistos, andamos quase todos à procura de fórmulas muito simples e expeditas para garantir a qualidade da educação, como se a educação fosse uma equação a duas ou três incógnitas e se pudesse resolver assim, de uma penada, mais exame, menos exame... Há muito que deixei de dar para o peditório das "reformas", as tais "reformas" iluminadas que, de uma forma instantânea e igualizadora, resolveriam todos os problemas do nosso ensino. Já se viu que não resolvem. A reforma dos "exames" seria apenas mais uma. Podes crer que nada de essencial se alteraria.»

Solidariedade.

A bondosa Tati, solidária por email: «Venho, por este modo, apresentar-lhe a mais sentida solidariedade pela vil tarefa a que foi obrigado. Entendo o sofrimento causado por tão penosa cruz que arrasta - ler, de «cabo a rabo», o Paulo Coelho não é tortura admissível. Não fosse ser Socrático o governo, e juraria a pés juntos que Inquisição nunca mais. Assim, não sei, não... Presumo pelo que escreveu que os seus sinais vitais se conservam e a lucidez não foi afectada. Afinal, riu com o Verónika! Eu também, mas por pouco tempo, que não devem as gentes rir das desgraças alheias.»

(Actualizado com o link correcto para o blog da Tati.)

Frescura.

Na mesma edição do Público, Eduardo Prado Coelho recorda uma afirmação de Sócrates depois da demissão de Guterres. O actual primeiro-ministro dizia, então, que os «eleitores querem é uma hipótese mais fresca».

Junho 27, 2005

Erros meus, boa fortuna.

A melhor secção da imprensa de ontem é «O Público Errou», do Público: por um lado, o Público trocou a fotografia de Malam Bacai Sanhá com a de Artur Sanhá. Até aqui, tudo normal. Depois, o Público pede desculpa pelo facto de, no texto de Mário Mesquita de domingo, António Guterres ter sido identificado como Alto Refugiado em vez de Alto-Comissário para os Refugiados.

PS – Meu caro Mário Mesquita: o erro foi involuntário?

Mais coisas temíveis.

Continua a odisseia à volta de Paulo Coelho. Hoje foi Brida, que só pode ler-se (é uma maneira de dizer) depois de O Alquimista ou o Diário de Um Mago, para «perceber» o que são a Magia do Sol e a Magia da Lua. Não percebi, realmente, mas não terá muita importância. Mas várias vezes me apeteceu esbofetear (também é uma maneira de dizer) a personagem principal, Brida. É preciso dizer que o cenário irlandês é absurdo, que Dublin está cheia de livrarias ocultistas e que o livro é de Paulo Coelho. A vida não é fácil. Isto vai sair-me caro.

Coisas temíveis.

Por razões de trabalho, estou a ler Paulo Coelho. Eu tinha apenas lido O Alquimista, há uns anos, para escrever um artigo que ficou com o título «Eu li Paulo Coelho e sobrevivi». O exercício, agora, está a ser penoso, mesmo ao ritmo um livro por dia. A vingança será terrível, sobretudo depois de ler Monte Cinco e Veronika Quer Morrer. O primeiro deu-me vontade de queimá-lo; o segundo, de rir. O Alquimista não volto a ler, recordo bem as consequências funestas. Mesmo com todo o espírito de tolerância de que sou capaz (e ele é bem vasto, posso comprová-lo), Paulo Coelho será sempre o pior de Raul Seixas. Nem sequer um flibusteiro. A um homem assim a França, Chirac e o Ministère de la Culture atribuíram comendas e ordens de cavalaria. Tenho dúvidas sobre o resultado desta semana e meia de dedicação a Coelho, mas a vida não é fácil.

Catalunya, Nuno.

Este gajo, é uma maneira de dizer, está claro, vive entre o Porto e Barcelona, passa ali pela Indonésia e pára dois dias em Bali, ainda vê a ilha de Flores, tudo isto antes de murmurar que está na Noruega ou na Irlanda, ou em Gandem, na Terra Nova, ou num hotel de australianos em Anchorage. A descrição podia continuar. O Nuno é um dos portugueses mais atentos que eu conheço. Andava há um ano para escrever isto, mas agora que ele mencionou o Las Nubes, de Juan José Saer, achei que era demais e que estava a pedi-las.

Revista de Blogs. Continuo a discordar que as pessoas saiam de casa.

«Continuo a discordar que as pessoas saiam de casa, acho negativo. Devia-se promover o repouso caseiro, a ver a Sport TV, a ler um jornal estrangeiro, a queimar livros de jovens escritores portugueses, sei lá. Quer-me parecer que se sai demais. Há pessoal a dar com um pau (que é o que mereciam) espalhado pelas esplanadas com as chaves do carro em cima do telemovel e estes em cima da carteira, estritamente por esta ordem, num equilibrio que revela filosofia. Não raras vezes estão de chinelos. Não concordo. As pessoas só deviam sair dos seus aposentos para engordar ou emagrecer. Agora assim, cachos de gajos a olharem uns para os outros a comentar o último rabo.... pá, não sei, parece-me desapropriado. É que ninguém sabe nada de história de Portugal, por exemplo. Não os vejo preocupados com isso, ou, se estão, disfarçam muito bem.»
[maradona no A Causa Foi Modificada]

Exames.

Verifico agora, lentamente, que governo, pedagogos, muitos professores, muitos bloggers, muita gente, afinal defende os exames do 9.º ano. Se daqui a uns anos se verificar a quase unanimidade na sua defesa, eu pedirei indemnização pelos insultos que tive de escutar, ler e aturar de cada vez que defendi a sua existência e necessidade. E mais: imagino, um dia destes, a Dra. Ana Benavente a concordar com a existência destes exames. É o descalabro.

Danças Ocultas.














Obrigado ao Mário, do Retorta, por esta imagem.

A ler.

A entrevista de António Campos à Pública. É curioso como os europeístas merdosos saem trucidados desta entrevista, que arrasa a PAC, esse elefante que consome o orçamento e cria as maiores injustiças. Não só em relação aos europeus, mas também em relação ao resto do mundo.

Junho 26, 2005

Mais sinais.

Castanheiros, praias fluviais, colinas ainda verdes, banhos na água do rio, risos, uma cerveja no meio do Verão, os meus três filhos correndo em redor de um castelo, o céu azul, um calor assim, mesmo as coisas que faltam estão presentes.

«Rescaldo.»

Reparo que não é apenas a imensa legião de comentadores desportivos que pratica o «rescaldo da jornada». O termo é mau, muito mau. Mas ouvi-o hoje na rádio para «fazer o rescaldo da jornada parlamentar». A ideia era ver quem ganhou «o embate»; se o governo, se a oposição. Parece que foi o governo. O campeonato prossegue.

Junho 25, 2005

A ler, 2.

Questão de legitimidade: se Carrilho mostra a família, exibe a criança e tudo isso, ele abre, ou não, as portas da sua intimidade? Se o faz, é ou não legítimo recordar outros episódios pouco ou nada edificantes da sua intimidade (embora praticados em público, como os descritos por Vieira, e conhecidos do meio)? Isso faz um presidente da Câmara de Lisboa?

A ler.

É apenas uma pequena coluna, mas vale a pena ler o texto de Joaquim Vieira na Grande Reportagem deste sábado sobre Carrilho e a intimidade.

Maus sinais.

Não compreendo como é possível saber-se que o famoso arrastão de Carcavelos foi, afinal, apenas o que foi, e não haver um mínimo de decoro nas televisões.

O cantinho do hooligan nas Confederações.

Bom, mas que seja claro: o Brasil, que seria a minha selecção na Taça das Confederações, está a jogar mesmo mal. Não admira, com o comando de Parreira, um dos mais chatos brasileiros da história da humanidade. Como hooligan, o comentário é simples: futebol-arte (aquela coisa que levou o Brasil à derrota contra a Itália no fatídico mundial) é coisa de veado, daí chamar-se futebol-bailarino; futebol de equipa só consegue fazer-se com gaúcho ao comando (já que Telé Santana está ocupado); com Parreira não há soluções: nem violência patriótica nem malabarismos de bola. Vale-lhe o facto de ter Robinho, Adriano (eh, eh), Ronaldinho, Cicinho e uma parte de Deus que, como se sabe, é brasileiro e canta canções de Lupicínio.

Bons sinais.

Depois de Gabriel Alves fazer um discurso de três minutos e meio, em televisão, sobre a ineficácia do ataque brasileiro, sobre o quão mal estavam a jogar à bola, sobre a falta de soluções atacantes e a ausência de soluções defensivas, sobre a merda que estava a ser o jogo do Brasil, respirei de alívio. Sabia que o momento estava a chegar; de facto, um minuto depois, Adriano marca o terceiro contra a Alemanha. Há coisas que são assim mesmo.

Junho 23, 2005

Livro Aberto.

Rititi no Livro Aberto deste sábado, às 23:00, na RTPN. Desta vez não repete às 13:00 de domingo (imagine porquê). Mas volta à 01:30 de quinta-feira na :2.
E na próxima semana, mas já repetindo às 13:00 de domingo, eles os quatro.

Junho 21, 2005

Solstício de Verão

Na minha terra são capazes de tudo.

Como se esperava.

Aumento de produtividade com a vitória do Benfica no campeonato.

Junho 20, 2005

Europeus, nós?

A peça da RTP sobre o falhanço da reunião de anteontem era notável: um primeiro-ministro luxemburguês condoído, coitado & tão indignado, um Chiraque condoído, coitado & tão generoso, um Blair sorridente passeando de chávena (de chá?) na mão, muito sacaninha. Eis como se explica o mundo. No final, Durão Barroso apareceu a dizer não sei o quê.

Abatanado.

Joel Neto prossegue, na Grande Reportagem uma campanha pela defesa do abatanado e do café cheio. Eu sei, Joel, eu sei: isso é um disfarce por causa da cerveja ruiva, aquela Murphy's Irish Red bebida à mesa, durante o fim da tarde.

Parreira, bom amigo.

Retrancão, eles dizem de Parreira, o técnico que não consegue ganhar mais do que 4 jogos seguidos. O México não perde há dezanove jogos. Vida é assim.

Milton Friedman, 92 anos

Na Folha de São Paulo de ontem, recomendo a leitura da entrevista com Milton Friedman: legalização imediata da marijuana e de quase todas as drogas.

Junho 17, 2005

Nós, Europeus.

Nós, europeus, devíamos sentir vergonha disto. Um resto de pudor. Um resto de paisagem. Nós, europeus, devíamos imaginar como se sai de Antuérpia e se abandona aquela paisagem. Provavelmente ainda não encontrei cidade mais europeia do que Antuérpia, o cruzamento de todas as liberalidades, de todos os muros, de muitas religiões, das universidades. Quem conhece Antuérpia sabe do que falo: daquela luz, daquela diferença de uma rua para a outra. E devíamos ter vergonha desta gente que assaltou Bruxelas e que assalta a Europa, mas vinda de dentro.

Microsoft, obrigado pela filha da putice.

A Microsoft em prol da liberdade e dos direitos humanos. Mas quem, no seu perfeito juízo, poderá censurar-te Microsoft?

Defeso e preliminar. Uma teoria freudiana.

Mais ou menos na mesma altura em que José Pacheco Pereira prova que também não é um homem do mundo (ao ter admitido que pensava que o Norton de Matos que ia para o Vitória de Setúbal era o velho general e não aquele cavalheiro que passa por ser treinador de futebol), o Bombyx-Mori fala sobre o defeso antes da época propriamente dita:
"Esta é a única altura do ano em que acho legíveis (suportáveis) os jornais desportivos. No defeso, são obrigados a fazer um considerável esforço de imaginação arquetípica para tornar verosímeis as ficções que constroem à roda das contratações dos grandes. Ficções quase inofensivas. Há um acordo tácito: os leitores não levam à letra as miríades. Como se fossem fantasias sexuais que se interrompem muito antes dos preliminares. Ou inclusive transferências, a via regia porém difícil e polémica para aceder ao inconsciente e perscrutar, no passado, a causa de neuroses e outras psicopatias. Já dizia Freud: a transferência é uma forma especial de recordar."

Parabéns, parabéns.

Sim. Agradeço a todos os que, nos seus blogs e no "correio do Aviz", assinalaram o 2° aniversário deste blog. Já vos trato da saúde.

P.S. - E a ti também, Besugo, que não perdes pela demora.

Ter a dizer, não ter a dizer.

Sobre os posts. Quando se escreve sem ser para postar, coisa que acontece bastantes vezes a quem vive disto (disto, imagine-se), há muitas coisas que já não se postam porque, simplesmente, se perdeu a oportunidade ou porque já não apetece postar. Ou porque se ficou preguiçoso. Ou porque (ah, esta é a melhor parte) há sempre alguém a fazê-lo melhor do que nós. Razão porque descobri blogs muito bons ultimamente.

Vantagens de não ter caixa de comentários.

Vantagens de não ter caixa de comentários é o título de uma série de pequenos posts do Tulius Detritus, no A Memória Inventada. Muito bons.
Os dois últimos:

* As fantasias sexuais do homem de esquerda envolvem mulheres sem consciência política (it goes without saying). Porém, quando elabora a composição da partenaire, este homem prefere as mulheres de direita (aqui haveria algo mais a dizer).

* Existe uma deontologia do homem famoso? Existe. Não se deitar com a jornalista antes da entrevista, por exemplo.