ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

Sexta-feira, Maio 20, 2005

 

António Costa Pinto, o Incessante

Espectáculo horrível! É inacreditável a forma como o jornal Expresso tem explorado a imagem e a produção académica do Professor António Costa Pinto. A última edição do suplemento Actual (14 de Maio de 2005) não me deixa mentir: o Expresso anda colado às calças do Professor Costa Pinto. Pior: é um parasita do Professor. Na verdade, o Expresso e os seus jornalistas querem sobressair, fazer-se notados à custa dos escritos de Costa Pinto. Chega a notícia de que vai sair nova obra do Professor e os jornalistas começam a salivar. Frenéticos, enquanto esfregam as mãos, dizem: “vamos a ele!”. E põem-se todos em acção. Ou seja, fazem do Professor uma catapulta para a fama.
“Quem é António Costa Pinto?”, perguntam alguns, os mais desatentos. A esses respondo: pois não reconheceis o Heródoto da nossa democracia? O estudioso do autoritarismo e do fascismo? A autoridade em transições democráticas e elites políticas? O laborioso autor de dezenas de livros e de mais de 50 artigos em revistas académicas portuguesas e internacionais? Costa Pinto há muito que tem o Portugal Contemporâneo debaixo de olho. Se não inventou o Portugal Contemporâneo, pelo menos popularizou-o. Costa Pinto é um degredado da vida que embarcou na galé do Portugal Contemporâneo. A minha geração aprendeu História nas obras de Costa Pinto. Eu próprio sou uma obra de Costa Pinto. Apenas nasci e logo respirei os escritos de Costa Pinto. Já o tempo da lactação tinha passado e leram-me, à lareira, Os Camisas Azuis. Ideologia, Elites e Movimentos Fascistas em Portugal (1914-1945), tese que conduziu a um ponto de perfeição pouco conhecido da historiografia portuguesa. Depois, no meu recolhimento de adolescente universitário, bebi de livros como O Fim do Império Português ou O Salazarismo e o Fascismo Europeu.
Ora, o Expresso tem usado e abusado da reputação do Professor para obscurecer a mediocridade do caderno Actual e respectivos jornalistas. Nunca se viu coisa assim. Costa Pinto devia boicotar o Expresso, reivindicar o direito à imagem. Reclamar um pagamento, uma indemnização. A justiça intima e exige: levantem-se os réus! SIMON KUIN, JOSÉ GABRIEL VIEGAS, FRANCISCO BÉLARD. Todos três incorrigíveis. Esta rapaziada há muito que se vem encostando ao Professor Costa Pinto. O primeiro, Simon Kuin, a 10 de Fevereiro de 2001, escreve sobre o antigo colega de doutoramento, dos saudosos tempos do Instituto Universitário Europeu, em Florença; decorridos alguns meses (7 de Julho), cabe a José Gabriel Viegas escrever sobre; a 2 de Fevereiro de 2002, o mesmo Viegas; Simon Kuin, pois claro!, volta à carga a 18 de Janeiro de 2003; três meses e 29 dias depois, Viegas novamente (a 17 de Maio desse mesmo ano). E reparem, isto são apenas alguns exemplos retirados ao calhas e de forma não sistemática.
A situação agravou-se nos últimos tempos. A 9 de Outubro de 2004, na página 52, Simon Kuin aproveita, escandalosamente, para fazer figura à custa da reedição inglesa de mais uma obra do Professor: Contemporary Portugal – Politics, Society and Culture. Mais tarde, ainda o texto de Kuin não tinha desbotado, o suplemento publica novo texto sobre o mesmo livro, só que agora sobre a tradução portuguesa. Texto de uma página, com fotografia, assinado por Francisco Bélard, o responsável pela secção de livros. Repare-se nesta fotografia, publicada na página 75 do Actual:



 
Bem engomado, bem penteado, as mãos muito místicas, o olhar firme e contemplativo, a testa como o frontão de um templo.
Imediatamente antes, na página 74 José Gabriel Viegas comenta o romance de José Manuel Saraiva, Rosa Brava, baseado na vida de Leonor Teles. Quem é que surge, novamente em destaque, na fotografia, deixando o próprio autor do livro em plano secundário? O professor Costa Pinto, o apresentador da obra. Na biblioteca do aristocrático Palácio das Galveias, povoada de fatos endomingados, Costa Pinto discursa, sonoroso, a propósito da última rainha da primeira dinastia, mostrando assim como são tantas e tão diversas as suas competências.

O que é que nos mostra esta fotografia? A eflorescência do cérebro, a explosão do génio, o exuberante conversador, o eloquente tribuno de sobrancelhas arqueadas. Assim quisesse e seria o mais brilhante orador parlamentar do seu tempo. Mas não, Costa Pinto nutre uma devoção desinteressada pelo conhecimento que não se compadece com a vassalagem ao poder político. Vejam-se depois as caretas dos figurantes – José Manuel Saraiva e Lobato Faria, o editor da Oficina do Livro – ambos penetrados de admiração.
E repare-se como a revista Única desse mesmo sábado, na página 12, também parasita o trabalho do Professor:

 


Dirão os mais cépticos que os jornalistas se limitam a atender o Professor, a abrir-lhe as portas do jornal, onde vai mendigar divulgação. Esta é boa! Mas alguém consegue imaginar o Professor Costa Pinto, investigador de primeira ordem, culminante historiador português, produtor de verdades históricas, autor de programas de rádio e de televisão, cronista de imprensa – colaborador do Expresso (já me estava a esquecer que o Professor também escreve no suplemento Actual) – especialista no impacto da União Europeia em Portugal, director dos Cursos da Arrábida, conferencista frenético, consultor da Presidência da República, coordenador das comemorações dos 30 anos do 25 de Abril, subdirector do Contemporary Portuguese History Resource Centre, repito, alguém consegue imaginar o Professor António Costa Pinto a borboletear pelas mesas da redacção do Expresso solicitando a difusão dos seus livros? Qual quê! António Costa Pinto é um pensador apalpado pelo génio. Por onde passa, deixa tudo fanatizado. Com 52 anos, exala ainda o perfume da mocidade. Mito? Não tenho isto como certo; o que sei é que o Professor António Costa Pinto se recomenda à admiração e à veneração da posteridade.

Sexta-feira, Maio 13, 2005

 

Ivo Ferreira, o Precedente

Sobre o caso Ivo Ferreira, a ler no Semiramis . O texto chama-se "O Desespero do Artista". Uma maravilha!

Quinta-feira, Maio 12, 2005

 

Alguém sabe quem é este miúdo?


 

O.K., vou dar-vos uma pista.


 

É ele mesmo, Eduardo Prado Coelho inteiramente pelado




Ainda não estou em mim. No início até fiquei pálido de embaraço. Há coisas que, piedoso Deus!, jamais pensei assistir na vida. Esta é, sem dúvida, uma delas: o Eduardo Prado Coelho inteiramente pelado. E aquela pré-histórica figura de óculos e barba hirsuta, com aquele olhar magnético de quem está prestes a hipnotizar um peru?

Vem na última página do Jornal de Letras, Artes e Ideias, na secção «Autobiografia», em que uma personalidade é convidada a escrever sobre si próprio. Pois bem, esta semana saiu-nos a sorte grande: EPC par lui-même. Depois de ler o texto com toda a atenção, de caneta em punho para sublinhar as frases mais expressivas, tive a confirmação do que há muito já desconfiava: Eduardo Prado Coelho é um cronista razoável, um crítico literário sofrível e um escritor pavoroso. Como é que é possível reunir tudo isto numa só pessoa? Bom, para isto não tenho resposta, limito-me a constatar uma realidade. Explicá-la, talvez a psicanálise ou a teoria literária saibam como. Mas daí lavo eu as minhas mãos.
O texto, intitulado “Nascer sem fim”, mostra-nos um Professor Doutor no auge da caducidade literária. Para narrar uma vida com 61 anos, Prado Coelho recorre a flashbacks e flashforwards, a vaivéns no tempo e no espaço. Um exemplo: “Trata-se de nascer todos os dias, de adiar a morte, de a não ver. Nasci muitas vezes. Um dia fui nascendo ao chegar a Paris, em Outubro de 1987. Um dia levantei-me e olhei-me no espelho, passei a água pela cara amarfanhada pelo sono: estávamos em Abril de 1974, era a revolução dos cravos, viemos para a rua ver o que se passava, tínhamos começado a nascer para a democracia. Para a liberdade, uns para os outros, livres”. A partir daqui, o ensaísta entranha-se em prosa poética de partir o coração. Transcrevo, sem comentários: “nasce-se quando a vida de repente é mais clara porque vemos o sorriso encantado daqueles a quem chamamos amigos”; “e o pôr-do-sol tornava estas palavras mais verdadeiras”. Subitamente, a linguagem torna-se pitoresca. Prado Coelho mistura-se, confunde-se com a natureza: “olhava as árvores, procurava definir aquele castanho e aquele verde a que de repente pertencia como se eu próprio fosse paisagem. Aprendi a ler a vegetação como quem lê um livro. Deixava que as árvores se colocassem diante de mim até eu começar a sentir uma espécie de loucura. Havia algo que me fascinava: as vozes que vinham de longe e atravessavam a noite: soavam como se estivessem encostadas ao meu coração”. A frase seguinte entrou-me numa parte desconhecida do cérebro: “As palavras caminhavam sobre os ramos das árvores como um telégrafo aéreo. Não havia ainda telemóvel.”
Cómica, incuravelmente cómica, é a referência a Manuel Maria Carrilho: “que é o que a gente sabe que é”. Mais à frente, revela-nos: “havia uma outra livraria que pertencia a uma ex-funcionária do Ministério da Cultura. Vinham amigas vê-la. Uma delas disse-me: «Gosto imenso do seu perfume». Fui a casa buscar um frasco de perfume idêntico que tinha a mais [consigo imaginar a cena: o donzel Prado Coelho em desalinho, vivo como uma flecha, a correr pelas ruas do Marais]. Semanas depois, ela quis fazer uma «retrato humano» (os jornalistas adoram a expressão) do nosso ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, para a página Rebonds de Le Monde. A repercussão europeia foi imensa”. Volto a citar, para os incréus: “a repercussão europeia foi imensa”. Perante tudo isto não há quem resista. Estou passado.

Quarta-feira, Maio 11, 2005

 

Javier Marías




A figura é a do escritor, do típico escritor. Mãozinha no queixo, para suster o peso da cabeça grávida de ideias, das obras-primas ainda por escrever. E, claro, a indispensável estante com livros para dar profundidade aos pensamentos.

A entrevista saiu no último domingo, 8 de Maio, na revista Pública. A certa altura, Maria José Oliveira pergunta a Javier Marías: “Já pensou como é que gostaria de ficar conhecido para a posteridade?”

Resposta: “Hoje é mais ridículo do que nunca pensar na possibilidade da posteridade. (...) Os livros, tal como os filmes ou a música, duram muito pouco. É incrível pensar que um livro desta temporada parecerá já antigo no próximo ano”.

Até aqui concordo. O problema vem depois, na conclusão: “Há tanta desmemória e tanto esquecimento”.

A interpelação seguinte impunha-se, o que só mostra que a Maria José Oliveira é boa entrevistadora. Qualquer coisa como: “Mas Coração tão Branco continua a vender e a ser traduzido mais de uma década depois da sua publicação”.

Javier Marías: “Não me posso queixar e tenho tido sorte. Hoje, quando um autor morre, depois dos obituários e artigos e blá blá blá, segue-se um período longo durante o qual é como se o autor tivesse desaparecido por completo. Actualmente, os autores têm de estar detrás dos seus livros, dando a cara, como se tivéssemos de os defender. (...) muito mais do que em qualquer outra época”.

Isto realmente... Sempre que leio ou ouço alguém lamentar-se que antigamente é que era bom fico avariado. Ainda por cima quando se trata de gente instruída, letrada, que tinha obrigação de não se limitar a reproduzir banalidades e lugares comuns. A entrevista do Marías, estimável escritor que conheço mal (li Vidas Escritas e um livrinho do pai dele, Julián Marías, Literatura y Generaciones), é uma acumulação de ideias feitas. Dizer que vivemos numa época desmemoriada, que não respeita a memória, é um desses casos. Faz-me lembrar aquela malta que diz que antigamente se comia melhor, que a alimentação era melhor; ou aqueles que se lamentam da actual dissolução do espírito familiar, que antigamente as pessoas valorizavam muito mais a família. Tudo balelas. Conversa fiada. Desde logo, não é verdade que no passado as pessoas comiam melhor, quanto muito as classes altas comiam melhor, porque o grosso da população nem um bife tinha para comer. A família do passado? Casamentos mantidos artificialmente, homens ausentes, mais do que hoje, no que tocava à educação dos filhos, limitando-se a uma imposição distante e fria de regras de conduta social.
Hoje as sociedades não têm respeito pela memória. Era o que se dizia, por exemplo, no século XIX. Românticos como Alexandre Herculano e Almeida Garrett já chamavam atenção para o desrespeito pelos monumentos históricos, literários, etc. Além disso, esta perspectiva segundo a qual os escritores, coitadinhos, devem ser protegidos da indiferença da sociedade, da crise gravíssima nos hábitos de leitura (como se antigamente as pessoas passassem a vida agarradas aos livros; como se houvesse muito mais traduções; como se o mercado editorial fosse muito mais diversificado e dinâmico que hoje; como se os mecanismos de distribuição e difusão dos livros fossem muito mais eficazes), não passa de retórica fácil e areia lançada para os olhos dos leitores. “Como se tivéssemos de os defender”, diz Marías. Mas quem é que deveria defender os livros que o Marías escreve? Alguém me pode explicar? E para quê?, para vender mais? Por que é que o Marías não oferece os livros dele? Distribua-os gratuitamente pelos leitores, talvez assim os leitores não se esqueçam dele. Ele há cada um... E as pessoas ouvem e lêem estas coisas como verdades adquiridas...

Ainda sobre esta história do esquecimento e da desmemória, lembro um estudo realizado pelo Centre de Sociologie des Faits Littéraires de Bourdéus, realizado pela equipa do Robert Escarpit na década de 1960. Conclusões: se contarmos os nomes de todos os escritores retidos pela memória histórica de uma determinada nação, ou seja, os escritores referidos nas histórias da literatura, nas enciclopédias, nos textos escolares ou universitários, nas teses académicas, nos artigos de erudição publicados em revistas especializadas, nas comunicações lidas em simpósios e congresso, reparamos que esses nomes representam qualquer coisa como um milésimo do total dos que escreveram e publicaram obras literárias. Aplicado ao caso francês, os números foram estes: entre o ano de 1500 e de 1900 recordaram-se cerca de 1000 escritores de um total de 100 mil escritores que publicaram nesse período de tempo. Segundo Escarpit, estudos similares para outros países apontam para proporções semelhantes. Aplicado a períodos temporais muito mais reduzidos: 90 em 100 livros são eliminados/esquecidos ao fim de um ano e 99 em 100 ao fim de 20 anos. Vejamos o século XIX português. Quais é que são os escritores verdadeiramente lembrados pela maioria das pessoas? Eça de Queiroz e, muito menos, o Camilo Castelo Branco. Quem é que se lembra dos outros? Talvez um Herculano e um Garrett, não mais. Ora em 100 anos a nossa sociedade actual, na melhor das hipóteses, lembra-se de 4 escritores, QUATRO! Quantos escritores terão produzido nesses 100 anos que hoje ninguém sabe quem foram?
Por tudo isto, e para não dizerem que eu só vejo defeitos nos outros, não podia estar mais de acordo com o Marías: “Hoje é mais ridículo do que nunca pensar na possibilidade da posteridade”.

Terça-feira, Maio 10, 2005

 

À NORA





Duas notícias recentes trouxeram-me a Austrália ao pensamento. E pelas melhores razões. Para quem, como eu, só consegue ler deitado (na cama, na praia, na banheira; sim, sou um bárbaro, não tenho respeito nenhum pelos livros, risco-os – com lápis, caneta, feltro, tinta permanente, da China, o que tiver à mão – e borrifo-os com pingos grossos cheios de espuma), um estudo da Universidade de Camberra concluiu que os seres humanos pensam melhor deitados do que em pé. Depois de realizados alguns testes, o Prof. Don Byrne provou os efeitos nefastos da NORADRENALINA, uma hormona natural do cérebro que baralha a atenção e o raciocínio: quando estamos em pé e em stress a NORADRENALINA aumenta. Conclusão: o Aristóteles não percebia nada de filosofia.
A outra notícia, depois de ter visto os Sete Palmos de Terra (o que me ri hoje com o tupperware que o George recebeu pelo correio), vem mesmo a calhar: uma empresa australiana, a Palacom, vai começar a enterrar os mortos na vertical para economizar espaço e poupar o ambiente (?). A ideia é sepultar, na vertical e a três metros de profundidade, os cadáveres dentro de um saco mortuário. Conclusão: tudo indica que os responsáveis da empresa leram o Philip K. Dick do Relatório Minoritário.
Mas o mais importante destas notícias é que finalmente percebi por que é que o Nuno Júdice escreveu Felicidade na Austrália e a Luísa Costa Gomes A Minha Austrália. E eu que pensava, quando os li, que tinha enfiado o barrete...

Quarta-feira, Maio 04, 2005

 

Luiz Pacheco: entrevista

A entrevista que se segue é fruto de várias gravações realizadas em dias diferentes. Como a conversa fala por si, julgo que não vale muito a pena estar aqui com grandes introduções. O mais que tiver a dizer sobre a vida e a obra literária do Luiz Pacheco guardo para um futuro que espero não muito distante, quando publicar a Biografia do Pacheco, que estou a escrever e a preparar. Espero que gostem. Eu gosto.

 

LUIZ PACHECO



(fotografia de João Francisco Vilhena, publicada na revista Ler nº 31, Verão de 1995, p. 71)

O Luiz Pacheco é muito requisitado para entrevistas...
Opá, isso começou com a entrevista do Expresso, feita por aquela maluca, a Clara Ferreira Alves, e pelo outro mangas, o Torcato Sepúlveda, que assinou com outro nome... porque esses gajos é assim: quando um gajo lhes dá uma entrevista cai-nos tudo em cima. Eles não vão pedir entrevistas ao Cesariny porque sabem que ele nem liga... Agora, eu já tenho um balanço, um pé muito bem calçado de entrevistas... sabes como é que eles fazem? Vêm com o que leram das outras entrevistas e as perguntas são sempre as mesmas... eles têm lá no ficheiro... antes de virem falar comigo eles não vão ler as minhas obras completas... nem as encontravam... De entrevista em entrevista é a mesma chapa, vêm com perguntas de chapa. É como o outra: “o que é que você pensa da juventude de hoje?” Eu não penso nada, eu nem conheço os meus filhos... uma vez apareceu-me aqui um gajo da Focus... como é que era o nome dele? É como os pastéis... de Tentúgal... Rui Tentúgal... disse-me que era casado com a Cláudia Galhoz... depois é que eu percebi, então o gajo vinha com perguntas que ela já me tinha feito há 10 anos para o Blitz.

Como é que se tem dado aqui neste lar?
Há uns tempos andei com a ideia de fazer um trabalho sobre lares. A má fama dos lares é justificada... e não sabes tu da metade do que se passa aqui... há aqui casos humanos dramáticos, por exemplo, a senhora do quarto aqui ao lado... à noite têm de lhe mudar a fralda... passa horas a berrar “srª empregada, srª empregada...” Ninguém aparece... eu ainda lá fui uma vez... aqui não há campainha de alarme, não há telefone. Também, o que é que isso interessa, no lar de Palmela havia telefone mas tocava-se e não estava lá ninguém... Esse lar de Palmela era o lar nº 1, o melhor do país, segundo a Deco. Era um modelo. O projecto do lar deve ter sido gamado do estrangeiro. Era um lar invulgar, com todas as condições. Mas o ambiente era muito desumano, era uma espécie de aldeia turística. Falo disso no último texto do Isto de Estar Vivo, o “Memorial do Recolhimento”. Era um lar no meio de uma serra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta... Era muito bonito... Fui para lá logo quando aquilo começou... no início, a fase de promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açúcar... depois, um dia, começou a aparecer só um pacote... vieram as economias... as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina... Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo, as giletes que eles dão aqui algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadaveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o sr. Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o sr. Vergílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... Há uma que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz “ai, ai, ai”, depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não têm mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguintes... Isto agora aqui são os últimos dia do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro… “Já foi”, é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer.

 



Como é que ocupa aqui o tempo?
Eu estou quase cego. Quase não consigo ler, só com muita dificuldade... O facto de não ler é um grande prejuízo... também já li muito... Passeio pelo quarto de bengala, nos corredores do lar, para mexer as pernas. Não me atrevo a ir lá fora. Praticamente já não saio do quarto. Nem vou ao telefone. Há uns tempos, ali no jardim, senti-me mal disposto. Mandei vir uma sandes de fiambre e uma água das pedras. Avariei. Vomitei. O criado veio buscar duas raparigas aqui ao lar. Foram com uma cadeira de rodas. Custou-me um bocadinho de massa. Levava 20 euros. Paguei, fiquei com uns trocos, dei um montão de moedas ao criado para telefonar para o lar. Para que é que me interessavam as moedas se morresse? A minha ligação com mundo, agora, é isto [aponta para um rádio Philips]. Oiço a Antena 1, o programa “O Prazer de Ler”, que passa às 13h 55m, repete às 21h 05m, é um programa da Isabel da Nóbrega. No Natal de 2002 leu a Comunidade. Está agora a ler A Cidade e as Serras. Às vezes também oiço a TSF, o fórum... Agora andam a chatear o Barroso por ir passear no iate. Por que é que não havia de ir? Já estão a inventar negócios malucos. Isso é inveja, é inveja, também queriam ir com o cu no barco... quando ele foi lá ao Brasil no fim-do-ano também ficaram invejosos... é preciso ter lata... o Santana Lopes era porque ia às discotecas... opá, não é fácil...

Já pensou em ser operado aos olhos?
Operado? Nem penses nisso. O que é que eu quero ver com 80 anos? Eu quando vou ali à sala, onde estão os velhos todos, tiro os óculos para ver tudo nublado, para não me ver ao espelho... Aquilo é um pavor! A Isabel da Nóbrega, o Artur Ramos e a Fernanda, cunhada do Manuel Alegre, queriam levar-me a Coimbra para ser operado as cataratas. Não quero. Eu é que sei. Isso é suicidário. Quando eu quiser morrer vou a Coimbra. Depois levaram-me a um oftalmologista na Av. da Liberdade. Diagnosticaram-me as cataratas. Tive que largar 1000 paus para umas gotas. Não servem de nada. Caem-me para o nariz. Já tenho o quarto todo o cor... e o quarto está reduzido ao essencial... É uma experiência nova, não ver é uma experiência nova.

 



O Luiz, com todas as suas doenças, parece que está sempre às portas da morte e, no entanto, vai-se aguentando...
Opá, eu tenho asma desde os 3 meses de idade... Ainda me levavam a comida à boca é já ia para as Caldas da Rainha, com o meu pai, por causa da asma dele e minha. Íamos para uma casa particular e depois tínhamos senhas para ir ao hospital das Termas. A piscina ficava num subterrâneo, tinha cadeiras à volta, ficavam todos sentados de nariz espetado para apanhar os vapores... Num aspecto este quarto é óptimo: tem um pé direito muito alto, isto já não se faz, o que é muito bom para mim... durante a tarde, quando está muito calor, desço as persianas e abro os vidros para entrar ar. Quando estou mais aflito durmo aqui na cadeira... ou sentado na cama... para um asmático é a posição melhor para dormir... a gente habitua-se... há muitos anos que adormeço sempre sentado, há muitos anos que faço isso... adormeço sentado e depois a pouco e pouco vou descaindo... se quando descaio fico aflito torno a sentar-me... Agora tenho aqui uma bomba nova, Serevent, tomo 4 vezes ao dia. Evita-me o Ventilan, que me faz taquicardia. Esta nova tem-me feito bem... Tenho sempre duas, uma de reserva, porque se de repente fico sem bomba... E tomo, todos os dias, 2 comprimidos de Filotempo... opá, a asma não mata mas mói muito...

 


Cresceu numa família de militares...
O meu avô materno era capitão-de-mar-e-guerra, era engenheiro maquinista, e o meu avô paterno era coronel de artilharia, foi director do Arquivo Histórico-Militar, que é em Santa Apolónia. Como era director e foi da Comissão ao Monumento dos mortos da grande guerra tinha uma grande biblioteca sobre a Grande Guerra, havia uma prateleira que era a História da Guerra Peninsular, do Luz Soriano... eram 9 volumes encadernados... esse meu avô fez uma espécie de testamento em que doava ao arquivo os livros que eles quisessem... eu já não conheci essa biblioteca... contava o meu pai que apareceu lá o funcionário do arquivo, este escolheu uma obra, dois volumes que deviam faltar lá na biblioteca do arquivo, ou seja, fodeu aquela merda toda...

Dessa biblioteca o que é que restou?
Livros de poesia, romances... ainda eram umas centenas de livros... e ia às bibliotecas públicas, havia uma biblioteca municipal que ficava ao cimo da Av. Duque de Loulé, ia ao Palácio das Galveias... Galveias era o fim de Lisboa... Depois é que comecei a comprar... Tinha uma coisa que era o meu livro do mês: só comprava um livro por mês... na altura custavam à volta de 20$00, 25$00...

 



E o seu pai?
O meu pai era funcionário público, trabalhava no Instituto Nacional de Estatística, era repórter mundano do Comércio do Porto, tenor na Sociedade Coral Duarte Lobo. E ainda tocava piano nas horas vagas. Não acabou o curso, estava a tirar o curso da Faculdade de Letras para diplomata, era um curso que metia um meste de espanhol, um mestre de italiano... Queria ser diplomata, simplesmente passou a grande guerra de 1914 e o movimento diplomático parou... ficámos sem os postos dos alemães, dos austríacos... resultado, não acabou o curso, nem ele nem eu...

O Luiz nasceu e cresceu na Estefânea...
Quando vim para aqui comprei o passe, então metia-me no autocarro sem saber para onde é que eles vão... não vejo nada, nem sequer os números e o caneco... metia-me no primeiro autocarro e ia até ao fim da linha... um dia apareci no Fonte Nova, julgava que era o Arco Íris... bom, mas numa dessas viagens fui parar ao Arco do Cego, Alameda, Praça do Chile... o Chile está na mesma… não está exactamente na mesma porque havia um lago no meio… o lago que depois estava no largo D. Estefânia…nos meus 14, no tempo do liceu, havia a rua de grande movimento e muito populosa que era a Moraes Soares, havia a Carvalho Araújo, que ia até à Alameda, e depois acabava... não havia a Alameda, não havia o Técnico, depois era o Areeiro e até à Av. do Brasil, ao aeroporto, eram terrenos, quintas aqui ou ali, pequenas quintas, depois eram zonas de despejo, onde as camionetas despejavam ali nos terrenos… Ao cimo da Rua D. Estefânia, onde eu nasci, no nº 91, 1º andar, havia a rua do Arco do Cego que tinha uma coisa que era o sobe e desce, depois puseram-se a fazer a Casa da Moeda, a Estatística, o Técnico… o Duarte Pacheco, que era presidente da Câmara de Lisboa e Ministro das Obras Públicas foi censuradíssimo por causa do Técnico, porque havia aulas onde só estavam seis estudantes… hoje o Técnico tem milhares de estudantes… O Duarte Pacheco era diabético e um trabalhador incansável… estava lá no ministério até às tantas, a beber leite, era um gajo de facto com uma visão do futuro… depois tinha o apoio do velho Salazar, que também não era tão mal como isso… não era tão mal como isso… era péssimo.. mas enfim… era péssimo, mas também não era como estes merdas que há agora… Disseram-me que o prédio da D. Estefânia tinha ido abaixo, parece que a casa do Jaime Salazar Sampaio, na rua Casal Ribeiro, também foi abaixo… quer dizer aquela zona da Estefânia mantém-se muito mais parecida com o que estava aqui há 70 anos do que a Casal Ribeiro ou o Saldanha… aí foi tudo abaixo, o Monumental, um dia passei lá e vi a imagem, a estátua do Saldanha com o dedo apontado, parecia um paliteiro... aquilo foi feito para um cerco de prédios muito mais baixo e hoje estão coisas brutais…de maneira que eu de repente estava em sítios que conheço de gingeira... Era a zona onde brincávamos, o Pires, o Salazar Sampaio, a malta da minha turma do Camões, andávamos por ali aos saltos a brincar, de repente aparecia um lago...

E o Liceu Camões?
Eu ficava sempre na carteira da frente, junto ao quadro, porque via mal. As janelas da sala davam para o jardim do Matadouro, onde é o Fórum Picoas... Sabes quem é foi meu professor? O A. do Prado Coelho, pai do Jacinto e avô deste Eduardinho, o almôndega peluda... era a alcunha dele... que culpa tenho eu que lhe chamem assim...?

O Eduardo Prado Coelho deu-lhe uma porrada muito grande no Diário de Lisboa, num texto que escreveu sobre Crítica de Circunstância, o primeiro livro do Luiz Pacheco...
O gajo disse que o livro tinha graça mas que não continha uma única ideia, ou seja, o Luiz Pacheco não tem ideias... Ora se isso é verdade então o problema, a culpa é da família dele... É que eu já aturei 3 gerações de Prados Coelho. O avô no Liceu Camões, por sinal fui o melhor aluno dele, mas pelos vistos não assimilei nenhuma ideia dele. Do que li do Jacinto encontrei algumas ideias mas não me devem ter entrado na pinha. Este, o novinho, tem ideias mas são francesas. O avô dele foi meu professor no 6º ano e à entrada da aula dizia: “recomenda-se o máximo de silêncio”. Não era o gajo, era o indefinido, o Jeová! A turma estava-se cagando para o gajo. Durante um ano, para não se chatear, e para nós não nos chatearmos também, pôs-nos a recitar “A Balada da Neve” do Augusto Gil: “bate leve levemente como quem chama por mim…” Esse rapazola (EPC), esse merdas, era um gajo terrível do partido. Não foi por acaso que o gajo veio de Paris para cá quando o Carrilho se tornou ministro. Está a mexer nos cordelinhos do Carrilho e da Bárbara...

Como foi a sua passagem pela Faculdade de Letras?
Quando acabei o liceu, em 1943, o meu pai disse que não tinha dinheiro para me por na Faculdade. Fui então falar com o João de Brito, o professor de latim, que me deixou ficar como aluno fantasma. A professora de português, Celeste Pereira Rodrigues (o Câmara Reys, que era o meu professor, reformou-se no meu último ano do liceu), deu-me explicações no último período, de Latim avançado (Cícero, Tito Lívio) e francês. Tinha 2 aulas por dia, às vezes menos. Nos intervalos ia para a Biblioteca. Li o Gil Vicente todo, em português e castelhano, o Fernão Lopes, o Garcia de Resende e outros. Nesse ano fantasma também dei explicações. Aprendia e ensinava. Foi um ano magnífico. Não me faziam perguntas, o que era óptimo, porque eu era um aluno muito nervoso, gaguejava quando me perguntavam alguma coisa. Nesse ano só registava e ouvia. Depois, como fiquei muito bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa (Curso de Filologia Românica), não tive de pagar propinas, fiquei isento. A Faculdade foi um grande choque. Havia 10 alunos rapazes para 200 alunas. No liceu era só rapazes. Os professores faltavam muito, eram uns chatos, excepto do Vitorino Nemésio e o Delfim Santos. O Nemésio deu-me 18 valores. Nunca dei graxa ao Nemésio, como o David e o Urbano. Eram uma espécie de pagens dele. Montaram-se nele.

 


Quando é que começou a colaborar em jornais?
Comecei n’O Globo, em 1945, com uma coisa sobre os Jogos Florais e o centenário do nascimento do Eça. Fui à redacção falar com o Vasco Vidal e fiquei a trabalhar à borla. Depois levei o Cardoso Pires, que publicou lá um conto, e o Jaime Salazar Sampaio. Eu e o Pires dirigimos um suplemento universitário, Novos Horizontes. Fui aí que publiquei as minhas primeiras coisas. Saiu lá uma entrevista minha ao Mário Dionísio... ora aquela entrevista quem a escreveu foi o Mário Dionísio, a não ser a última pergunta. Telefonei-lhe a dizer que o queria entrevistar. Quando cheguei a casa dele a entrevista já estava toda feita. O que foi uma grande vantagem. Eu não sabia o que ia perguntar ao gajo... Depois, como o Vidal também tinha a Afinidades, levou-me para lá e eu depois levei também o Cardoso Pires, o Mário Dionísio, o Jorge Pelayo, o Joly Braga Santos, o Salazar Sampaio. Aí já comecei a receber, o primeiro pagamento foi 40$00. Também fiz duas traduções, uma delas sobre a Ocupação alemã em França. Tanto O Globo como a Afinidades eram publicações feitas pela resistência francesa, para manter o espírito francês. A Afinidades era uma revista de cultura luso-francesa e tinha como chefe de redacção o Lionel de Roulet, que era cunhado da Simone de Beauvoir, estava casado com a irmã as Simone, a Helene Beauvoir. Uma vez critiquei a Maria Figueiredo, chamei-lhe bas bleu, pretensiosa. Uns dias depois recebo um telefonema do António Maria Pereira pai a chamar-me à ordem. Disse-lhe: “esta conversa não me agrada” e desliguei o telefone. Mais tarde vim a saber que a Maria Figueiredo era amante do António Maria Pereira. A crítica ofendeu-lhe o caralho. Foi a primeira reacção que tive ao artigo...
Logo a seguir, juntamente com o Jaime Salazar Sampaio, aparece O Bloco, volume antológico de teatro, poesia e conto...
A literatura em Portugal não existia porque não existia liberdade. Então pensámos fazer uma pequena publicação para dizermos o que quiséssemos... O modelo foi copiado de uma publicação de direita, a Rumos, do Couto Viana, do Bigotte Chorão, etc. N' O Bloco colaboraram o Mário Ruivo, com poemas anti-colonialistas, o Ferro Rodrigues pai, a Rosa Araújo, o Cardoso Pires, o Salazar Sampaio, a Maria Natália, o Daniel de Moraes, que era do PCP e fez a capa, o Francisco Castro Rodrigues, arquitecto, também do PCP, fez um desenho. Meu saiu a História Antiga e Conhecida, que depois o Cesariny adaptou para o teatro (Um Auto para Jerusalém). Os exemplares foram quase todos apreendidos, nem chegaram a sair da tipografia.
E a Contraponto?
A Contraponto: Cadernos de Crítica e Arte saiu precisamente em Setembro de 1950. Era uma pequena intervenção, um caderninho no modelo de uns cadernos da Pathê Baby, que tinha um formato muito pequenino, era uma espécie de revistinha publicitária sobre cinema e fotografia. Eu vi que aquilo era feito na editora gráfica portuguesa, na Rua Nova do Loureiro, ali ao pé do Conservatório Nacional de Música, e fui lá. A tipografia era do Carlos Carvalho e dos irmãos, três ou dois, já não sei, um era meio patareco... fui lá e pedi um orçamento para dois mil exemplares e depois convidei quem?, convidei o Abelaira, o Jaime Salazar Sampaio, o Vasco Vidal, a Arlinda Franco Oliveira, uma engenheira agrónoma, e um tipo que tinha sido meu colega na Faculdade de Letras, o Eugénio Morais Cardigues, fumava cachimbo, era muito machista... foi director da Escola Comercial do Montijo, depois apagou-se por completo como figura intelectual que durante algum tempo chegou a ser... era uma revistinha de crítica assanhada, anti-salazarista... foi muito mal distribuída aqui em Lisboa e aquilo veio tudo devolvido porque a revista acho que foi acoimada de coisa reaccionária e fascista e não sei que mais... bem, o que é certo é que eu aí fiquei com uma grande desilusão, foi um bom choque que eu tive... O número 2 saiu em 1952 e o 3, só metade porque não havia dinheiro, só saíram as páginas 1, 2, 7 e 8. Quase ninguém soube que aquele número saiu, foi feito na Sertã, em 1962, dez anos depois do segundo número. A revista acabou ali, porque eu convenci-me que fazer uma revisteca a pagar aos colaboradores 200 escudos, o que na época era um dinheirão, era muito mais que 20 contos hoje, e publicar coisas que não me interessavam muito, porque a gente convidava um fulano para fazer um trabalho ou prestar colaboração e depois o tipo escrevia coisas que não nos agradava nada... então resolvi começar a fazer edições pessoais...

... e cria a editora Contraponto...
Não, a editora começou a funcionar em 1951, logo a seguir ao primeiro número da revista. A primeira edição Contraponto foi o Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, do Mário Cesariny de Vasconcelos. A editora tem origem na tentativa de uma terceira via, não neo-realismo, não surrealismo, mas uma terceira via. A Contraponto vivia um bocadinho da minha amizade com o Jaime Salazar Sampaio... o autor da Contraponto era o Jaime, dramaturgo, poeta, contista. Depois, quando apareceu o Cesariny, ele ficou muito lixado porque eu fiquei um bocado deslumbrado com o Mário… e estes gajos, que só querem um gajo para si, o que é uma estupidez, um gajo com uma ligação amorosa, carnal, com uma mulher ou com um homem, que tenha ciúmes é uma coisa, agora dois amigos, um amigo tem um 3º, um 4º, um 5º amigo, pois ainda bem, é bom sinal, é sinal que é estimado, não sou só eu que o aprecio, mas não, era uma inveja, uma ciumeira, a mesma coisa aconteceu depois com o Cesariny e o Herberto Helder, ora o Cesariny não tinha que ter ciúmes do Herberto… ficou fodido, de repente o Cesariny supunha que o Contraponto era só para ele... O Gaspar Simões chamava-me «o Sacristão do Surrealismo», por ter a editora, por publicar aqueles gajos...
E o António Maria Lisboa?
O Lisboa era um espírito insubmisso. Eu dei-me mais com o Lisboa foi em Benfica, na Villa Anna, no Verão de 1950, antes dele ir para Paris a primeira vez. Ele foi dormir lá a Benfica uma ou duas vezes. Lembro-me que íamos a pé às tantas da amanhã, quando perdíamos o último carro do Arco do Cego para Benfica, que era à uma e meia... então íamos a pé por aí fora. A minha mulher, a Maria Helena, e os miúdos estavam em casa dos meus pais, em Bucelas, ao pé do Moinho, e eu ia dormir a Lisboa, em Benfica, por causa do clima húmido de Bucelas, que me provocava grandes ataques de asma. Em Benfica era assim: de um lado a Villa Ventura e, do outro, a Villa Anna, o nº 674, que era a casa dos meus avós, onde depois também foi viver, para o andar de cima, o meu tio e padrinho, o coronel Fernando António Gomes. Ainda lá estão as casas, eu julgava que não estavam mas ainda lá estão. Ali mesmo ao lado havia a família Lobo Antunes, viviam numa vivenda formidável, tapada por um muro muito alto... porque os Lobo Antunes de repente tiveram... foi um gajo que me contou... eles não falam nisso... o pai destes Antunes todos, o médico, morava numa travessa muito pequenina, num prédio antigo... comprou um bilhete no Natal e saiu-lhe a sorte grande... na altura era uma coisa enorme... e depois ele comprou a vivenda... eu soube isto por um tipo que também morava lá... a vivenda deles foi abaixo, abriram uma avenida... Bom, mas voltando ao Lisboa. Eu depois perdi com o contacto com o Lisboa, que só venho a retomar em Cabeço de Montachique estava ele internado numa casa de saúde. É aí que ele me entrega o Ossóptico e Erro Próprio, edições dele, feitas em Coimbra, quando ele esteve internado no Sanatório dos Covões. Distribuí aquilo em Lisboa, ofereci, vendi, vendi muito pouco, lembro-me que havia uma gralha no Erro Próprio, que eu emendei até com tinta verde, que era uma tinta que eu usava na altura. Depois editei-lhe Isso Ontem Único, três livros-plaquetes. Quando ele morreu tive muita pena… ninguém sabe o que é que daria o Lisboa 50 anos depois… a vantagem de morrer cedo e com uma obra que foi para o lixo... o que se aproveitou não é nada…

E que história era essa da “equipa do terror”?
Opá, isso não interessa para nada. A equipa do terror eram três gajos que viviam perto uns dos outros, eu, o Manuel de Lima e o Cesariny, a magicarmos projectos de cartas, de panfletos, de coisas assim... O Cesariny morava na Rua Basílio Teles, entre a Estada de Benfica e a Columbano, o Lima morava na Rua Dr. António Martins, que era também para ali, muito próximo de nós, eu estava na Palhavã, na Estrada de Benfica, com a mulher e os miúdos. Depois nunca se fazia nada... nunca houve terror... a gente não tinha dinheiro, não havia dinheiro... lembro-me que as nossas refeições era puré de feijão... o Cesariny em casa era um ovo para três, ele, a mãe e a irmã... Foi aí nesse quarto da Estada de Benfica que eu fiz o Contraponto 2, que se editou o Malaquias ou a história de um homem barbaramente agredido, do Lima, julgo que se publicou também o Carlos Wallenstein. O Isso Ontem Único também já estava publicado, esse ainda foi publicado no Bairro Tacha, na Buraca... Opá, não é fácil de repente reconstituir a vida de uma pessoa que tem andado numa vida de saltimbanco... eu já morei em quase toda a Lisboa...

Como é que o Luiz e o Cesariny aparecem a escrever num jornal de automobilismo como O Volante?
O Volante era um jornal maluco, era a publicação mais antiga de automobilismo em Portugal. Era dirigido pelo Campos Júnior, que também tinha o Átomo, com o Gaspas [Gaspar Simões] como crítico literário, e o Pedro da Silveira a mexer lá por trás. A minha vantagem em relação ao Cesariny era que eu sabia andar de bicicleta. Num artigo sobre turismo, o Cesariny disse: “da Serra de Sintra vêem-se os montes do Alentejo”. Era a Arrábida... Fizemos, por exemplo, a cobertura do circuito de Monsanto, com o Fangio... depois traduzíamos artigos do L’Equipe. Depois o Pedro da Silveira arranjou-me um emprego no Mundo Motor ou Mundo Motorizado, que ficava na rua do Alecrim, era uma imitação d’O Volante. Só lá estive um mês, nunca me pagaram. Aí também fazia traduções do L’Equipe, punha-se a riscar o jornal e o editor dizia: “não faça isso que o jornal é do homem do quiosque, que nos empresta”. O Volante ainda assinava o L’Equipe, esses nem isso...

 



Também colaborou na Seara Nova...
Com dois textos, um deles chamava-se “A Lição”, quando foi da candidatura do Humberto Delgado. Mandei o artigo ao Câmara Reys, que disse: “é escusado mandar compor o texto porque a censura corta tudo”. Mas houve alguém, já não me lembro quem, que disse: “mande! Pode ser que passe”. Resultado: foi todo cortado. Nessa altura o ministro da Presidência era o Marcello Caetano e eu trabalhava na Inspecção dos Espectáculos. Só para chatear fui para casa, preparar um texto a reclamar do corte. Tinha que se fazer um requerimento em papel selado, o máximo eram 4 páginas. Citava textos do Marcello, do Torcato de Sousa Soares (professor de Direito em Coimbra), do Herculano e do Oliveira Martins. Na minha exposição defendia que, como autor do artigo, o meu ponto de vista era igual ao dos citados. Demorei semanas a fazer a exposição, fui à Biblioteca... Entreguei ou enviei para a Presidência do Conselho, já não sei. E aguardei. Daí a tempos escreveram para a Seara Nova a permitir a publicação. Veio a aceitação mas ainda demorou. Já era um artigo cauteloso. Mas saindo na Seara Nova (que ficava na rua da Rosa, nº 23, onde nasceu o Camilo Castelo Branco), já depois das eleições, tinha menos força, era mais inócuo, menos agressivo. O que o Marcello gostou foi que o tivesse citado a ele. A intenção do artigo era mostrar que a censura não era tão cega quanto isso. O Câmara Reys é que ficou com uma grande cachola. O Câmara Reys foi meu professor no liceu Camões. Era um gajo espantoso... e um grande mineteiro. Dava aulas de literatura espantosas.

O seu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?
Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

[Batem à porta do quarto, entra um homem]

Visita: “Boa tarde”
Pacheco: “Quem é?”
Visita: “Pacheco?”
Pacheco: “Quem fala?”
Visita: “Aqui é o Armindo”
Pacheco: “É o…?”
Visita: “O Armindo”
Pacheco: “Quem é o Armindo?”
Armindo: “Já não te lembras de mim, pá?”
Pacheco: “O Armindo?”
Armindo: “Estivémos preso no Limoeiro”
Pacheco: “Eu sei lá quem é o Armindo, pá…”
Armindo: “Como é que não sabes…? já não te lembras…?”
Pacheco: “Não, filho, não estive preso contigo, nem com a tua avó...”
Armindo: “Também, com esta escuridão… [no quarto do Pacheco]… eu era um miúdo”
Pacheco: “Olha, vai dar uma volta…”
Armindo: “Vou…?”
Pacheco: “Vai dar uma volta e vem cá amanhã… que estamos a gravar… tu está a ficar aqui gravado, podes ser preso outra vez…”
Armindo: “Está bem pronto, O.K. Agora que estive a dizer que estive preso e tudo… isso é uma reportagem?”
Pacheco: “É, é… é uma reportagem… mas não é da televisão…”
Armindo: “É da TSF?”
Pacheco: “Vem cá amanhã filho e não sejas preso hoje,
Armindo: “Não, eu aliás já me deixei disso”
Pacheco: “Aguenta-te cá fora, vem cá amanhã, mais cedo, que a esta hora já estou a dormir, se não fosse este maluco já estava a dormir…
Armindo: “Como me disseram-me que andavas aqui nas tascas, aqui de roda, de vez em quando…”
Pacheco: “Vai dar uma volta…”
Armindo: “Tchau, adeus… isso fica para a reportagem?
Pacheco: “Fica…”

Pacheco para o entrevistador: “Não sei quem é, nem tenho óculos… Sei lá quem é esse gajo… Quem será este cabrão, nem vi a cara dele… Armindo? Puta que o pariu. Se ele esteve no Limoeiro deve ser um grande fodido, ainda me rouba… Eu estive no Limoeiro com milhares de gajos, porra, olha o que faltava agora era aparecer-me aqui a tropa toda, milhares de gajos... eu estive lá 3 vezes, imagina o que não era… o director do Limoeiro, um gajo chamado Castelo Branco, quando eu estive lá da terceira vez ele era o director, era muito novo, muito inexperiente, depois ficou pior... este jornal, o 24h, anda a publicar umas coisas sobre o terrorismo de direita, de esquerda, agora é sobre os FP’s 25 de Abril... ora este gajo morava na Lapa, mesmo ao pé de onde eu morava, mesmo ao fim da Rua Buenos Aires… e acho que já tinha prendido muita gente das FP e ele deu ordem para haver um rigor especial nas prisões… os presos condenaram-no à morte… o gajo tinha dois seguranças mas um dia estava em casa, mandou os seguranças embora, estava à espera de uns amigos para jantar, como os amigos gostavam de um determinado queijo, o estúpido foi à rua comprar o queijo para os amigos, estavam dois gajos na rua a vigiar, deram-lhe um tiro na cabeça e despacharam-no… ficou como o queijo, todo furado de chumbo...”

Como é que era no Limoeiro?
O Limoeiro era uma prisão de passagem, para quem estava à espera de julgamento, não era para os que estavam a cumprir pena. Isso era em Monsanto e assim... Lá dentro havia estratos sociais, a Sala dos Menores, a Sala dos Bacanos, os que tinham conhecimentos fora da prisão... como eu... da segunda vez que lá estive o Artur Ramos telefonou ao pai, que era Director-Geral da Penitenciária... e depois havia a Sala Comum, para onde iam todos... ah, e a Sala dos Primários, para aqueles que lá estavam pela primeira vez... De repente havia confusão... jogos a dinheiro... havia um fiscal, que era um preso nomeado... dava prestígio mas também era perigoso... tinha de ser um tipo forte. Dava prestígio e dinheiro, porque tinha um negócio de laranjadas, sandes, etc. Depois havia a oficina, alguns presos trabalhavam lá, uma enfermaria... tinha lá um enfermeiro perigosíssimo, vendia penicilina misturada com água, em frascos de vidro... deve ter morto alguns... o refeitório, com mesas corridas, aí umas 10, havia o chefe de mesa, que eram quem distribuía a comida, conforme as amizades e os acordos... Havia muita discussão por causa da comida...

 



Esteve preso com o Edmundo Pedro...
O Edmundo Pedro é um tipo muito giro... foi preso por causa de contrabando, mas também por resistência, para foder a economia do Salazar... Um vez o gajo ia num camião com uma carga valiosa, estava cheio de whisky e de tabaco... Um GNR manda-o parar, os gajos não podiam perder a carga... então o Edmundo Pedro apontou-lhe um pistolão... o GNR abre a camisa e diz: “dispare, dispare que mata um homem”. O Edmundo Pedro ficou aflito, disse ao GNR para fugir, para desaparecer, que não queria matá-lo nem ser preso. O GNR desapareceu. Depois foi saber quem era o GNR e foi a casa dele dizer-lhe que ele se tinha portado muito bem e levou-lhe um envelope cheio de dinheiro. É um gajo muito giro... Quando foi aquela cegada do Quartel de Beja, o Edmundo Pedro ia ser julgado no Tribunal Militar de Santa Clara, então pediu à mulher para lhe levar pimenta... quando estava no tribunal mandou pimenta para os olhos do PIDE... à saída tinha um carro à espera dele... fugiu e tentou abrir a porta do carro mas era a errada, estava fechada, fodeu-se... Opá, o gajo andava a ler no Limoeiro o Charles Dickens, um grande tijolo, o Grandes Esperanças. Nunca acabou de ler o livro, porque era ora lhe adiantava 100 páginas, depois recuava outra vez, e ele nunca deu por nada... A mulher levava-lhe comida todos os dias. Dessa vez comi muito bem...

O Luiz ficou associado ao Limoeiro...
Opá isso é o Bocage... fiquei ligado ao Limoeiro... já nem há Limoeiro, calha bem... Tu tens de perceber uma coisa, eu quando falo no Limoeiro é para chatear o burguês instalado...

Há uns anos, lembro-me que o Luiz andava a ler vários livros do Céline. Gosta?
Eu escrevi um texto sobre o gajo, “Lendo e Relendo Céline”, que foi publicado em Portas do Sol, a página literária do Correio do Ribatejo, e depois foi incluído na Crítica de Circunstância. O Céline era cortado, sabotado, como o Giono... mas eu escrevi aquele texto, sobre a Viagem, porque só tinha esse livro em casa. Era o único, de bolso, no original, em francês. Já tinha lido partes da tradução e fiquei muito chateado. Viagem ao Fim da Noite? O fim da noite é o dia... Devia ser: Viagem ao Fundo da Noite. Mas nesse dia, como era o único livro que tinha à mão li-o do princípio ao fim. Fiquei espantadíssimo. É um livro de arromba. O título do meu texto devia ser: “Lendo, espantado, Céline”. Recebi 20$00 pelo artigo, em selos fiscais que rebatia na papelaria. Escrevi o texto em Setúbal. O Cesariny disse-me: “Já li o teu elogio da traição”. Bardamerda!

Também ganhava dinheiro a fazer traduções...
Relativamente... muito poucochinho... Por exemplo, o José Gomes Ferreira fazia as legendas para os filmes… era com isso que ele ganhava dinheiro, não era com os livros… Álvaro Gomes era o pseudónimo… isso são coisas muito bem pagas… não é a traduzir uma merda de um romance ou de um livro… A certa altura o Ernesto Sampaio aparecia no Café Gelo, rasgava um livro em partes, em blocos de 100 páginas, e distribuía por uns tantos, para vários o traduzirem. Eram os negros. Eu fui negro do Cesariny, num livro de um escritor romano... o Gaspar Simões tem montes de traduções que não são dele, nem da avó dele... muitas são da Isabel da Nóbrega, ela traduziu Os Sonâmbulos e eu é que estive a rever as provas da Arcádia em Setúbal… tiveram que lá ir buscar que se foderam… eram à máquina, com emendas à mão…Em Massamá fiz umas 4 ou 5 traduções para o Fernando Passos, da Verbo. O Tia Vânia, do Tchekov, foi traduzido por mim e pelo Chico Bretz. O Chico traduzia até às 3 da manhã, depois quando se fartava ia-me acordar para passar aquilo à máquina.

Refere-se muitas vezes ao Café Gelo. Lembra-se de alguma história engraçada que tenha vivido no Gelo?
Lembro-me do dia 1 de Maio. Havia uma manifestação muito grande em Lisboa… havia greve, talvez… opá houve mortos e tudo, houve polícias que foram parar dentro do lago do Rossio... aquilo foi a sério... foi a primeira manifestação a sério que houve em Lisboa... depois no dia 8 houve segunda… foi a primeira vez que apareceram carros de água com metilene para marcar as pessoas, tinta que não saía… ele aí apanharam muita porrada, na rua da Madalena, no Largo da Anunciada… então a malta do Gelo, estava lá o Virgílio Martinho, que disse: “o que é que a gente veio cá fazer?” Respondi-lhe: “então a gente veio cá mostrar o casaco… dar porrada? o que é se pode vir fazer…” E de facto estivemos no dia 1 de Maio muito sossegados. Eu sentei-me num cantinho, tinha ao meu lado o pai da Fernanda Alves, que era funcionário do DN, por isso é que o genro aparece no DN, ele estava ao meu lado, também muito choné, e mostra-me a arma que era um canivete com uma coisa deste tamanho… também devia estar o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues… ao lado do Gelo havia uma pensão residencial e acho que uma estrangeira qualquer, americana ou inglesa, saiu da pensão para a rua, sabia lá o que se passava, e os gajos vieram atrás da mulher, pareciam verdadeiras feras, ela vinha assarapantada, vieram a sacudir a mulher… disseram: “ninguém se levanta daqui, ninguém sai!” O João Rodrigues tinha ido mijar ao 1º andar, vinha a descer a escada, disseram, “ei você…” E a malta disse: “é daqui! é daqui! é daqui deste grupo que está aqui sentado…” Quando os gajos iam a sair, já de costas voltadas, não sei porque carga de água começámos “uhuhuhuhuhuh”. Quando a malta faz o “uhuhuhuhuhu” os gajos regressam e começam a dar porrada à maluca… eu estou no canto, vem um gajo a distribuir cacetadas… eu aponto para os óculos e fizemos um passo assim de dança, ele para um lado eu para outro, depois começou a dar porrada num gajo que estava sentado e eu pirei-me, pirei-me para outro canto... nós não podíamos sair... Havia uns açucareiros de metal, que eram assim uma meia esfera de metal, cheios de açúcar, aquilo era chato, os açucareiros voaram, estava um gajo com a pinha toda partida, cheia de sangue e de açúcar… havia lá um gajo que era careca, diziam que era bufo, levou porrada dos polícias. O gerente, que era um gajo chamado Sequeira, um gajo muito simpático, foi chamado à esquadra nacional e perguntaram-lhe: “quem são esses gajos?”. “Ah, aquilo é malta, estudantes, artistas, pintores, poetas…” “Não quero lá esses gajos”. De maneira que quando voltámos, 3 ou 4 de Maio, o gerente disse: “vocês não podem estar aqui”. Fomos expulsos do Gelo. Foi quando a malta se passou para o café Nacional, um café enorme, que agora já não há, que era lá ao fundo, na rua 1º de Dezembro, do lado direito...

 



[Batem à porta, entra uma empregada do lar, brasileira]

Pacheco: “Ó minha senhora, desculpe que lhe diga, é uma lindíssima mulher…
Empregada: “ahhh?”
Pacheco: “ahhh? O que é que ela diz?”
Empregada: “Isso é a minha filha”.
Pacheco (pega nas mãos da empregada): “Olha, tem as mãos quentes. Tu não fazes ideia, esta senhora e as outras acordam a velhinha ali do lado todas as manhãs, sabes como? Dando beliscões na velhinha…o barulho que elas fazem a rir… Olha, ontem vi uma… não estava nua… estava a vestir-se…”
Empregada: E o senhor gosta de ver, né, e o senhor gosta…
Pacheco: Eu não vejo quase nada, ó minha senhora… eu não vejo quase nada… chegue-se aqui... olha para este espanto... é uma mulher linda... anda é muito vestida... quero vê-la na praia...”
Empregada: “Ele é fogo, o sôr Luiz é fogo…”
Pacheco: O quê? pego fogo…? Queres levar um livro? Não te faz mal nenhum…

O libertino passeia-se no lar? Como é que foi a publicação de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor?
Quem pagou a edição foi o Vítor Silva Tavares. Um dia estava numa tipografia e encontrou uns exemplares, primeiras edições, de Sodoma Divinizada, do Leal. Comprou esses exemplares ao tipógrafo. Com o dinheiro que fez da venda desses exemplares do Raul Leal produziu a 1ª edição do Libertino. O que eu sei é que o Libertino foi a fazer ao Porto, tenho a impressão que fui lá rever provas, saiu e em Janeiro de 1970 aparece-me no Hospital de Santa Marta, onde eu estava internado desde o 25 de Dezembro de 1969. Na véspera de Natal acordei com uma ressaca doida, depois de ter andado nos copos, e não me conseguia levantar da cama… fui para o banco de S. José, fiquei lá a noite e no dia seguinte fui para Santa Marta… com uma ressaca maluca... o diagnóstico dizia que era angina de peito… estive lá um mês…bom, entra-me por ali adentro, em Santa Marta uma embaixada, à frente a Lia Gama com o marido, atrás o Lauro António e o Vítor Silva Tavares. Vinham de almoçar todos juntos e traziam-me a edição do Libertino para eu assinar e numerar…eram 500 exemplares...

A edição foi apreendida pela PIDE...
O Libertino não foi apreendido porque nunca chegou a ir às livrarias, a 1ª edição nunca chegou a ir às livrarias. Não foi apreendido, foi proibido. Depois o Vítor guardou os livros, acho que parte em casa parte no Diário de Lisboa, e era aí que depois ele vendia os livros, a 500 paus cada.. desapareceu tudo... era bem bonita, a 1ª edição...

 



O que é, para si, um libertino?
As pessoas não percebem nada do que é o libertino. O termo ficou, na linguagem vulgar, associado a coisas disparatadas, como sinónimo de devassidão. Ora libertino não é apenas um devasso. Não é apenas aquele tipo que gosta de ir para a cama com homens, com mulheres, com todos ao mesmo tempo... O libertino é um tipo livre, que está contra todas as tiranias. O Sade, por exemplo... aquilo que o Sade conta está quase tudo dentro da imaginação dele... Repara: o gajo esteve quarenta e tal anos prisioneiro em masmorras e hospícios, e à ordem de quatro regimes: a realeza absoluta, a realeza constitucional, a Revolução e o Império, o que mostra bem como o libertino é o maior inimigo de todos os sistemas e como estes o odeiam, o temem. Porque os sistemas são a ordem e o conforto, ao passo que o libertino é a aventura, é o descontrolo. O Sade está aí. O Sade está entre nós. Mais: o Sade está em todos, dentro de nós. Mas o libertino também é o ateu radical. É aquele que faz da sua vida amorosa um espectáculo, um espectáculo através das palavras, do discurso. Conheci muita gente devassa, mas libertinos muito poucos. Agora, aquela coisa da crueldade como fonte de prazer sexual aí já tenho as minhas resistências, já tenho as minhas repugnâncias. Pessoalmente, do ponto de vista do comportamento sexual, prefiro o Valmont, das Ligações Perigosas, do Laclos. Ou seja, o Sade é exemplar mas não é um bom exemplo.

A casa em Massamá, para onde foi viver em Setembro de 1970, era conhecida na vizinhança como uma casa de má fama...
A casa em Massamá era um disparate... às vezes era uma balbúrdia do caneco... a tal política de porta aberta em Portugal não dá… em Portugal não dá… quer dizer, não dá, os negros, por exemplo, têm isso, em casa moram 4, de repente vêm mais 5, ficam, ajeitam-se, vêm mais 10, ajeitam-se... são muito solidários e não se importam de ficar a dormir no meio do chão… em Massamá era assim, dormiam no meio do chão, de qualquer maneira... A gente não tem a vida na mão, de repente, depois de mortos, não precisamos de nada. Nem dinheiro, nem vestes, nem nada... Agora, às vezes o Chico Bretz avisava: “olhem que o Pacheco é mau de assoar”. Porque de repente eu não lhes abria a porta ou punha-os na rua… Se me chateavam era limpinho, bom, adiante…

Foi quando morava em Massamá que saíram os Exercícios de Estilo, um dos seus livros mais importantes...
Saiu agora, há uns anos [1998], a 3ª edição dos Exercícios. A capa é horrorosa, o gajo arranjou um postal com o lago das Caldas... esta capa é uma capa para os supermercados... as outras não tinham o mesmo impacto desta. Esta edição nem revi. É uma edição póstuma. Mas tem uma vantagem em relação à 1ª edição, que é ter separado estes textos... [aponta para o índice]. O primeiro texto era “O Homem que Calculava”, que era um gajo que não quer empregos e não sei que mais... ora se é um gajo que não quer empregos acaba a pedir esmola e, por isso, a primeira parte acaba com “peço uma esmola”, de “O que é o Neo-Abjeccionismo”. Isto é que eram os exercícios de estilos. Eles acharam pouco e eu então arranjei 4 fragmentos mesmo assim, como estavam, que são textos que não estão acabados... Esta 3ª edição leva depois aqui para o fim com a tralha toda que eu consegui juntar, “Um conto por um conto”, “O Veado”… esses vinham nos Textos de Guerrilha

[Bate à porta um velho para informar que o almoço é empadão]

Pacheco: “Este gajo irrita-me. Quando estou a dormir na cadeira ele grita: BOM DIA. Ele não diz bom dia, ele atira o bom dia como quem atira uma pedra.

 



O Luiz foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero. Como é isso se passou?
Eu estava em Massamá e tive a informação de que a Bertrand me queria editar a Obra Completa. Um dia fui à Bertrand, na Venda Nova, e encontrei o Dinis Machado, que foi gentilíssimo comigo e com o Paulo... encheu-o de álbuns, papel, livros... e deu-me as provas do Molero – portanto a minha crítica saiu no Diário Popular antes do livro estar à venda. No dia seguinte comecei a ler aquela merda, aquilo são dois gajos a discutir, e eu disse ao gajo onde estava o meu filho Paulo, o Henrique Garcia Pereira: “opá, eu estou fodido com este gajo, este gajo foi tão simpático comigo e com o meu filho, deu-me tanta merda, e agora isto é uma porcaria, não se percebe nada”. Até que de repente entrei na cegada da cena de porrada com os camones no Bairro Alto... aquilo tinha uma coisa, é que era um livro que já não era escrito com medo da censura, via-se que havia ali... o gajo não era nenhum novato, já tinha escrito 3 romances policiais... havia ali de repente uma força, porque estes gajos se tivessem um bocadinho de vergonha não publicavam os livros que publicaram durante o fascismo… bom, então escrevi o artigo “Descobri um Autor”. Só na semana seguinte é que o Molero saiu à venda. Estava na feira do livro e apareceu-me o Afonso Praça: “olha, comprei aquela coisa do Molero por causa da tua crítica, opá julguei que estavas a gozar, mas tinhas razão, aquilo é muito giro…” Depois disse muito mal do Reduto quase final, numa entrevista ao B.B. Um gajo também não escreve só obras-primas, há altos e baixos... Se um gajo vai a facilitar, a não pensar, se o gajo não é o leitor mais exigente de si mesmo, está fodido, tem a classificação que merece. Eu de facto não descobri autor nenhum, descobri um livro giro…

E aquela história do Fernando Namora, O Caso do Sonâmbulo Chupista?
Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… e eu estou em Agosto na cervejaria Trindade com o Serafim Ferreira e com o Herberto Helder, que se está a queixar que aquela gaja, a Maria Estela Guedes, tinha feito um livro com textos que tinha roubado, e de repente o Serafim diz: “opá, isso plágios é o que para aí há mais, eu tenho lá em casa a edição especial da Aparição que me deu o Vergílio Ferreira com coisas anotadas que o Namora lhe roubou...” E eu estou a ouvir aquilo e estou calado. No dia seguinte telefono para a Amadora, onde mora o Serafim, e pergunto: “ouve lá, aquela tua conversa de ontem, aquilo era blague de café ou era a sério?” “Não, tenho cá o exemplar da Aparição. Combinámos então o terrível crime nas escadinhas do duque, em que ao cimo das escadinhas eu digo: “ouve lá, tu vais fazer um panfleto e eu edito-te e vamos ganhar um bocado de massa os dois, estamos em Agosto, agora não se vende nada mas vende-se em Setembro”. E ele disse: “eu não posso fazer” – não perguntei porquê, devia favores ao Vergílio Ferreira ou ao Namora, porque o Serafim é um bocado marçano. E eu disse: “então passa-me para cá isso e faço eu”. Estive semanas ou talvez mais, um mês ou dois, a confrontar na Biblioteca Nacional, foi tudo verificado... eu mostrava às pessoas e as pessoas concordavam, aquilo era tudo roubado, o Namora, no Domingo à Tarde, tinha copiado partes do Aparição, do Vergílio Ferreira. Fui então ao O Jornal ter com o Rodrigues da Silva: “ouve lá, achas que isto aqui é publicável? Reposta dele: “opá, o José Carlos Vasconcelos é muito amigo do Namora, nem pensar...” Ninguém queria publicar aquilo. Estavam com medo do Namora. Tive eu de publicar, melhor, tive de arranjar um gajo, o Vítor Belém, ele é que fez a edição. O Belém foi comigo à Tipografia Mirandela, na Travessa Condessa do Rio, perto da Calçada do Combro... era a gráfica desses gajos da extrema-esquerda… aquilo foi composto, eu revi provas, num papel muito ordinário... saiu num folheto de 8 páginas, fiz 5 ou 6 mil exemplares. Despachei tudo, vendeu-se à maluca, alguns iam parar as caixas do correio.

 



E as reacções?
O Dinis Machado foi com a mulher ao Hospital do Rego interceder para eu não publicar o folheto. A célula do PCP na Trindade, o B.B., o Virgílio Martinho, o Dácio e outros juntaram-se e condenaram-me... diziam que eu me tinha vendido ao Vergílio Ferreira, que tinha sido pago pela direita para dizer mal de um escritor da esquerda. Ora o Namora era tão de esquerda como o Vergílio Ferreira. Dizia-se que o Vergílio Ferreira me tinha dado um fato novo e 50 contos. A reacção do Vergílio Ferreira vê-se na Conta Corrente, o gajo lamenta-se e tal… O Namora disse que me processava e não sei que mais... O meio literário não é fácil, não é melhor nem pior que os outros... agora avançar neste meio é facílimo...

O que é que é preciso fazer?
Eu não te vou ensinar, eu ensino-te é a combater o meio... opá, um tipo que quer fazer carreira, se não for parvo de todo e for um bocadinho filho da puta... é facílimo... O meio literário é de cortar à faca, é muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc., andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides. Agora combater o meio, isso é que é difícil, é o mais difícil... a questão é esta, estúpidos, conformistas, cobardes, é a maioria da malta...

Isso é um bocado pessimista...
Não, é ser realista...

Todos os pessimistas respondem dessa maneira. Diz mal de toda a gente...
Eu não sou muito de me deixar influenciar... estou assim um bocadinho sempre do contra...

 



Considera-se um marginal?
Eu não me considero coisíssima nenhuma. Eu considero-me um gajo que está aqui sentado. O burguês tem perante o chamado marginal, o gajo que está na cadeia, ou que está no hospital, ou aqui no lar, uma atitude natural de superioridade e supremacia. Isso manifesta-se. O que estou a dizer é que estou-me cagando para o burguês, para os burgueses todos, incluindo a minha costela burguesa. Esses gajos são uns exploradores. Querem apanhar o meu lado pitoresco, ou folclórico, para fazerem negócio com isso. Se fazem negócio com isso, é bom, eu acho bom.

Recebe uma bolsa do Ministério da Cultura, por mérito cultural...
O Alçada Baptista encontrou-me um dia na Av. da República e perguntou-me: “não lhe dava jeito uns 7 ou 8 contos por mês?”. “Ó dr., não me diga isso”. Se fosse um conto ainda acreditava…” Depois vi o decreto e concorri. Tive logo um subsídio de 10 contos. Depois, a Maria João Rolo Duarte, a mãe deste Pedro, é que conseguiu que o Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, me aumentasse o subsídio, que na altura ia nos 60 contos... a Maria João Rolo Duarte sabia que o Cesariny recebia mais que eu e, numa festa em que encontrou o Santana Lopes, fê-lo prometer que me aumentava o subsídio. Como ela escrevia na Capital, publicou um texto que comprometeu o Santana. Recebi mais 30 contos por mês, passou para 90 contos. Mais trinta contos por mês, um conto por dia... de repente apareceu-me lá em Setúbal uma carta com retroactivos, 6 meses, foi um balúrdio... 30 contos é uma grande diferença... Gosto do Santana por causa disso. E também porque é um playboy, um gajo dos copos, das discotecas…

Opinião sobre José Saramago?
É muito meu amigo. Foi muito porreiro comigo na altura do Diário de Lisboa. E noutras ocasiões. Um dia apareceu-me no sanatório do Barro, em Torres Vedras, com a Isabel da Nóbrega... quando se foram embora puseram uma nota de cinco contos, disfarçadamente, na gaveta da mesa de cabeceira... Quando ele recebeu o Nobel foi lá a Palmela uma filha minha, com o marido e com os dois filhos, e diz-me assim: “ah, tu tens é inveja do Saramago”. Tenho agora inveja do Saramago… nunca quis prémio nenhum quanto mais agora o Nobel… quem tem inveja do Saramago é o Lobo Antunes e muita… porque o Lobo Antunes deve ter-se convencido que com o seu mérito próprio ganhava o prémio... ora o prémio não é um prémio para mérito próprio, o prémio é um prémio político, o prémio é dado com pontaria, com muita pontaria...

Nos últimos anos tem publicado livros a um ritmo espantoso. Uma Admirável Droga...
Isso é aquilo que eu chamo um livro póstumo, eu não tive intervenção quase nenhuma naquilo... a Isabel Segorbe, de Coimbra, telefonou-me a perguntar se podia editar um texto meu que tinha lá em casa... mudou de casa e achou lá aquela laracha... eu não sabia o que era aquilo... De repente sou confrontado com situações de que não lembro de nada... eu andei debaixo de álcool, álcool misturado com drogas, não é o haxixe e essas coisas que vocês tomam agora, era o Lorenine, era o Valium, era essas merdas. Eu tinha dias em que não me lembrava, no dia seguinte, absolutamente de nada... podem contar-me tudo o que quiserem que eu não vou negar, mas vou negar para quê? Já não consegues desfazer em muita gente a opinião que fazem de ti, é muito difícil de desfazer... por exemplo, o B.B., foi ele que apresentou esse livro de Coimbra, o lançamento foi ali na livraria Ler Devagar... eu não fui lá, ficou muito ofendido... eu se fosse lá era para lhe dar com uma bengalada... o gajo começa: “Luiz Pacheco, bebedeiras, prisões, sexo bilateral... até parece que ninguém viu o B.B. bêbedo... eu por acaso vi... às vezes aparecem-me aqui gajos que dizem que me conhecem... sei lá quem são os gajos, não faço ideia nenhuma... um dia destes apareceu aqui um gajo: “eu sou o António Carranca”, como quem diz “eu sou o Napoleão”... eu não fixo caras... quando você chegou aqui, se dissesse “eu sou o Kadafi”, eu acreditava... mesmo com os óculos eu levo uns segundos... se fores às Caldas da Rainha há montes de gajos que me conhecem ou se lembram de mim e eu não faço ideia quem são...

 



E a Admirável Droga?
A carta que tu me escreveste, quando aquilo saiu, foi a 1ª opinião que me chega sobre a Admirável Droga. Gostava que tivesses sido mais agreste. Não por masoquismo mas porque entendo que o teu adjectivo despudorado é bastante pudico... discreto... delicado... Não estamos em tempos de PIDE, Censura, Clero da Inquisição. Dá-me vontade de rir estas coisas. Eu nem sei o que escrevi. Li agora aquilo como o livro de um outro. Quando revi, em Janeiro de 2001, as provas (ampliadas) escrevi no fundo da página três desabafos, que saíram colados ao texto. Que fazer? Nada. Autorizei a Senhora a fazer o que quisesse… e ela fez bastante, caramba! As pessoas, o que eu tenho visto, prendem-se ao escandaloso, ao insólito, falando vulgarmente, ao ESPECTACULAR. É com elas. Tá bem, é assim. Não havia, creio que ainda não há, em português, originalmente, relatos com homossexualidade, pedofilia e por aí. Não vai tardar muito, creio! Nem eu me arrogo o Vasco da Gama, o Colombo, o Cabral desses “descobrimentos”. Nem está aí o meu objectivo. O Libertino é uma reportagem, escrita de jacto, no dia seguinte aos eventos relatados. Estes casos, dos marujos e da Emília, chegam-me de longe e já têm meio século.

É parecido com o que escreve?
Eu não tenho, creio, grandes dotes de imaginação. A minha fantasia é pobre. Sendo assim, os textos que considero mais conseguidos são autobiográficos. Reportagens de mim. Com um mínimo arranjo estético. Nalguns casos, como o do Libertino, são textos directos, rápidos, sem mastigação. Noutros são uma construção sobre os factos, aquilo a que chamo textos orquestrados, como a Comunidade, por exemplo.

E o livro Mano Forte, a correspondência para o António José Forte?
Quem conheça um pouco da minha vida sabe que eu tive uma vida um bocado atribulada, com fugas de casas, de terras, de mulheres, de ambientes… eu sempre tive o cuidado, quer em Setúbal, quer nas Caldas da Rainha, quer na Macieira, quando aparecia ameaça de ser preso ou ter que mudar rapidamente de casa, de não andar carregado com dossiers cheios de tralha… ficou-me muita tralha perdida para aí… ainda bem que ficou…

Mas gostou, gosta do resultado final?
Dali não vem mal ao mundo. Podia vir se isto fosse uma edição que não tivesse venda. Isto é muito cuidado. Se teve venda alguém ganhou, ganhou a tipografia, ganhou a fábrica de papel, ganhou também o editor… Eu tenho uma certa cagança nisto. Repara, eu estou aqui no quarto, não saio à rua há mais de um ano e de repente estou na montra da FNAC… é uma maneira de sair daqui.

Lembra-se de ter escrito aquelas cartas e aqueles portais?
Não me lembrava de nada. Publiquei cartas minhas para o Forte e do Forte para mim no Pacheco versus Cesariny. Isto é nem mais nem menos o resultado de um gajo que teve uma vida um bocado atribulada, ou variada, salta de Lisboa para Setúbal, de Setúbal salta para as Caldas da Rainha, salta para Almoinha, Sesimbra, salta para Vieira do Minho. As cartas também são para vários sítios porque como o Forte era funcionário das bibliotecas itinerantes andava de Vieira do Minho, Portalegre, Santarém, Tomar…

Qual a memória que guarda do António José Forte?
O que não está aqui feito e também agora não interessa fazer era valorizar, dar o seu justo valor à figura do Forte. Eu tentei convencer o Bernardo Sá Nogueira... não quis, achou que não… O Forte nunca foi um gajo de se evidenciar muito, de se por em bicos de pé… é claro que este livro era uma boa oportunidade de chamar a atenção para o Forte… Olha, não quero falar de mortos. Aqui no lar já há muitos mortos. Aqui está tudo morto. O gajo da cadeira de rodas… Quando passa aqui o cortejo, à hora de almoço, à hora de jantar…

Como é que esta correspondência aparece passados tantos anos?
Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais, guardou, morreu, foi parar às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra… repara, é uma edição de 1000 exemplares a um preço, mais 100 a outro preço, numerados, com mais 30 a outro preço, numerados também, uns em romanos e outros em árabe. É o intuito do alfarrabista a valorizar as cartas que lá tem. Seja como for, livro está cheio de disparates…

Como por exemplo?
O título, desde logo o título. Eu não conheço as cartas nem os postais, mas duas dezenas de cartas e três postais nunca podem ser “cartas fortes”, que era como o Bernardo, no início, lhe queria chamar… há uma carta maior, mas o resto são tudo cartas pequeninas… O Bernardo Sá Nogueira diz sobre estes postais que era “escrita premeditada no pressuposto de publicação”. Isto é um disparate, é a armar em esperto. Quem vê os postais que vêm ali, em fax-simile… então um gajo escreve um postal destes a pensar que vai ser publicado? Eu agora quase não escrevo postais com o objectivo de não serem publicados. Escrevo muito poucos postais e cartas, então, é um caso sério. Aqui já não é o interesse amigo de guardar um papel de um gajo que lhe mandou, aqui é já o interesse meramente mercenário de fazer dinheiro com o papel. No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo. Ainda mais nessa altura, no tempo do antigamente, do fascismo, a carta era uma expressão livre, claro que os gajos muitos cautelosos nem cartas nem postais escreviam. Agora eu escrevia imenso… Este livro é uma golpada. É evidente. Por exemplo, a fotografia na capa… é uma maluqueira como outra qualquer… Dá ideia que eu é que sou um exibicionista, que gosta de vir nas capas… é para chamar, para vender mais… Isto faz vender. A fotografia e o nome fazem vender…

Mas os seus outros livros também têm o Luiz na capa…
Mas olha que nunca foi por minha vontade… As edições Contraponto, que são as minhas, não têm fotografia na capa. Vem na Estampa, invenção do senhor Vítor Silva Tavares… depois vem com atributos como as calças curtas, o saco de plástico… opá isso são os chamados bonecos, é a imagem de marca. É um bocadinho por desprezo. Porque eles usam bons casacos. É uma atitude normal do burguês, que goza o marginal, ou que quer gozar…

 



Vai sair na D. Quixote, em breve, um diário inédito, o Diário Remendado...
Aquele diário é uma conversa comigo mesmo, um desabafo... e é um fragmento de um fragmento do meu diário... é uma amostra, um fragmento daquele período, entre 1971 e 1975... deitei muita coisa fora... tirei mais de metade...

Inclusive o relato do 25 de Abril...
Esse corte foi deliberado... eu não gosto daquele texto... era uma resposta aos gajos que faziam artigalhadas mais ou menos inventadas com o título “O meu 25 de Abril”... aquilo era tão presunçoso... não foi só um gajo, ainda foram uns quantos... se tu fores consultar os jornais na altura verificas isso... era uma paródia a esses gajos... Como é que foi o seu 25 de Abril? Opá, os colhões do Padre Inácio... já ninguém liga ao 25 de Abril...

Foi de pijama para o Largo do Carmo...
Mas não foi de propósito... eu estava em casa, sozinho, o Paulo tinha ido para o liceu, estava a rever provas do Pacheco versus Cesariny... de repente chateei-me, não tinha telefonia, não tinha televisão, não tinha nada, chateei-me de rever provas e disse vou ali beber uma cerveja e quando venho de beber a cerveja há o barbeiro que me diz “ó senhor Pacheco, olhe que há revolução em Lisboa”. Então enfiei o sobretudo que me deu o marido da Natália Correia e fui para Lisboa... não foi de propósito que eu fui para o Carmo de sobretudo e pijama... Agora não respondo mais nada... estou cansado... são 80 anos, caramba!... vá, pira-te que eu tenho de mijar e tenho de ir comer qualquer coisa...


Terça-feira, Maio 03, 2005

 

Luiz Pacheco, Grande Entrevista de Vida




A qualquer momento, durante o dia de amanhã. Um grande entrevista onde o escritor Luiz Pacheco fala da sua vida literária e não só. Um entrevista diferente, com pés e cabeça, na semana em que o escritor faz 80 anos de idade (no próximo sábado, dia 7 de Maio). A não perder!

 

Conhece-te a ti mesmo




Para Baltasar Gracian todos somos idólatras, ou da reputação ou do interesse ou do prazer. E tu? Idolatras o quê?

Sábado, Abril 30, 2005

 

Rogério Samora + Paulo Coelho = Paul Auster




Paul Auster, que anda por cá a fazer as delícias dos adolescentes, é um escritor único: fisicamente parece o Rogério Samora e literariamente o Paulo Coelho. Livra!

Quinta-feira, Abril 28, 2005

 

Gonçalo M. Tavares






Acabei agora mesmo de ler “O Senhor Gonçalo M. Tavares”, entrevista de Maria Leonor Nunes e Ricardo Duarte no último JL (pp. 9-11). Da escrita do Gonçalo li ainda pouco, não o suficiente para ter uma opinião fundamentada. Também não é fácil. Ele já escreveu 15 livros, seis deles nos últimos meses, e ainda só vai nos 34 anos. Li dois livros: um de poesia, 1, e outro intitulado A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil. Não gostei particularmente. Para dizer a verdade, não me convenceram. Bem sei que estes dois títulos não são provavelmente os mais representativos, os que mais têm cativado a crítica e os leitores. Concedo, sem qualquer hesitação. De qualquer forma, será esse um dos perigos, um dos riscos que corre quem já publicou tanto e em tão pouco tempo. Na entrevista que comecei por referir, o Gonçalo diz a certa altura, e não podia ter mais razão, ser mais certeiro: “em termos de linguagem, acho que uma pessoa deve dizer o que tem a dizer e calar-se o mais rapidamente possível. Há uma responsabilidade no acto de abrir uma frase. Ou seja, antes de o fazer deve-se perguntar se tem alguma coisa para dizer. E devemos ser o mais sintéticos possível”. Eu não diria melhor. Reparem, estas frases e esta ideia aplicam-se a muitos livros de supostos escritores portugueses, novos e velhos, gente sem sentido auto-crítico, gente que acha que tudo o que larga no papel deve ser publicado. E como hoje é muito fácil publicar um livro vivemos em plena crise de sobre-produção literária, como diria o Marx. Ora, isso também se aplica ao Gonçalo. Um tipo que publica mais depressa que a própria sombra é um tipo que nunca está calado, que não se pergunta muitas vezes se tem alguma coisa para dizer, que sintético é que não é.
O que é que eu encontrei nos livros que li dele? Encontrei alguns paradoxos bem esgalhados, alguns pensamentos de lógica perversa, retorcida, mas também muita palha, muita frase despropositada, uma acumulação de frases enigmáticas, epigramáticas, e raciocínios circulares. Exemplos, retirados da Perna Esquerda: “toda a fechadura é um sinal de fracasso da humanidade”; “a mosca é um material como a madeira”; “não tires fotografias à História de um país porque tal não é possível”; “toda a cor é também uma outra forma de voz. A cor vermelha de uma mesa é a voz vermelha dessa mesa”. Há muitas, deste género, sem aparente relação lógica umas com as outras. Há um excesso, uma sofreguidão, um abuso de frases querendo ser espirituosas, querendo funcionar como máximas, o que é, para o leitor, pelo menos para mim como leitor, muito cansativo e fútil, e, além disso, torna o conteúdo e as ideias coisas supérfluas. Humor fácil e banal: “Pois não seria então mais fácil que o Governo dissolvesse o Povo e elegesse outro?”. Imagens já muito gastas, como “todo o ser vivo é uma escultura” ou “a intimidade individual não tem mapas” (o recurso insuportável à geografia das emoções, a geografia da imaginação, já não há pachorra).
Depois, há a obsessão com a linguagem, em particular o confronto entre a linguagem literária e a científica, esta última quase sempre em perda. Morte, tristeza, letras, leitura misturando-se com fórmulas químicas, volume, matéria, corpos sólidos e corpos líquidos, etc. No livro de poesia, 1, o poema “o mapa” começa com “sempre senti a matemática como uma presença Física”. Ora julgo que a escrita do Gonçalo Tavares, do pouco que li, se pode resumir nessa frase, substituindo-se no entanto matemática por literatura. Por outras palavras, parece-me que o Gonçalo tenta obsessivamente fazer com que o leitor sinta a escrita e as palavras como uma presença física e material. Parece-me ser esse um dos grandes projectos da escrita dele. Aliás, o recurso insistente ao paradoxo prova-o: o paradoxo é o lado sólido e mecânico da linguagem.
Falando agora da entrevista, já que foi ela que me trouxe aqui. A entrevista é de se ler, vale a pena. Desde logo, revelou-me uma pessoa com rotinas, com uma disciplina férrea da escrita. Gosto da rotina nas pessoas, ainda mais nos escritores. O Gonçalo, durante 12 anos, levantou-se todos os dias às 5 da manhã. É de homem, sim senhor. Mostra persistência, tenacidade, obsessão, as grandes qualidades de qualquer escritor que se preze. Nestas coisas sou absolutamente anti-romântico ou, se quiserem, anti-platónico. Não tenho nada a ideia da escrita como uma tarefa espiritual e misteriosa. Não olho para o escritor como um ser excepcional pelos seus dons de criação, não vejo a inspiração como uma espécie de “furor” (Platão), de “fogo interior” (Boileau), de entusiasmo, de possessão por uma potência divina, como se o escritor não fosse dono de si nem daquilo que escreve, como se fosse levado por um transporte, como se o escritor fosse um ser escolhido pelos deuses para receber e transmitir uma qualquer mensagem divina, em suma, como se fosse um “mago” (Victor Hugo). A minha perspectiva da criação é mais a de Aristóteles. A criação é uma arte, tudo bem, mas que possui as suas regras. No que uns vêem “transporte” eu vejo trabalho de reflexão, trabalho sobre a linguagem, força de vontade. Revejo-me muito mais nas teses de um Flaubert, que olha para o escritor como um “artesão de palavras”. E isto não poderia ser mais visível do que na resposta à Bachelard do Gonçalo: “vejo a escrita como um exercício para treinar muscularmente a nossa lucidez. E o principal ginásio é claramente a leitura”.
O melhor mesmo é lerem a entrevista porque há ali um escritor, no sentido nobre e autêntico da palavra, a conversar. Mesmo com as reticências atrás enunciadas, considero o Gonçalo como um dos escritores mais consistentes e promissores da minha geração. E não me venham falar da poesia de centro comercial que se faz para aí.
P.S. E já que falamos de entrevistas, sinto-me na obrigação de pedir desculpa aos meus leitores. É que a entrevista ao Luiz Pacheco provavelmente já não sairá esta semana. Na melhor das hipóteses sai durante o fim-de-semana. Na pior, julgo que na próxima semana. A entrevista é grande e, quanto a mim, vale o atraso.

Quarta-feira, Abril 27, 2005

 

Pequeno esclarecimento



Só para dizer que a expressão «Vá de Metro, Satanás» é do Alexandre O'Neill, não fossem os leitores do Barnabé pensar que a autoria da frase é do Daniel Oliveira . Para quem não sabia, e não são assim tão poucos, o O'Neill, além de poeta, foi publicitário e inventou frases publicitárias como "Com colchões Lusoespuma não se dá só uma".

Terça-feira, Abril 26, 2005

 

Conhece-te a ti mesmo



David Hockney, "Portrait of an Artist (Pool With Two Figures)", 1971

Colton diz: se queres inimigos, distingue-te sobre os outros; se queres amigos, deixa que os outros se distingam. E tu? O que é que queres?

Segunda-feira, Abril 25, 2005

 

LUIZ PACHECO, "O MEU 25 DE ABRIL"

A LER, NO NÃO SEI BRINCAR, TEXTO INÉDITO DE LUIZ PACHECO.

A NÃO PERDER TAMBÉM, DURANTE A SEMANA, ENTREVISTA INÉDITA A LUIZ PACHECO. AQUI, NO ESPLANAR.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

 

Reportagem da Feira da Ladra





Romper da manhã, Feira da Ladra. Na última terça-feira fui à feira vender tralha, coisas do arco da velha que tinha para aqui a ocupar espaço e que não interessam nem ao menino Jesus, livralhada, presentes para esquecer que me foram oferecidos no Natal, enfim, bugigangas. Montei escritório junto ao gradeamento do jardim de Santa Clara, mesmo em frente à esplanada do café Panteão e ao Tribunal Militar. Instalei-me ao lado do João Vinagre, um dos vendedores mais batidos da Feira e, simultaneamente, empreiteiro da construção civil. Tratei de puxar conversa, o que não foi muito difícil. Ainda não tinha acabado a primeira frase e já ele tinha desatado a falar. Levantou-se pouco depois da cadeira, branca e de plástico como as das esplanadas, dirigiu-se à carrinha estacionada em frente, enfiou a mão no bolso de dentro do casaco e deu-me um cartão. Quando não está na feira remodela apartamentos, repara telhados, afaga soalhos, aplica flutuantes, faz envernizamentos, tectos falsos, estuques, pinturas, vidros duplos, divisórias, resguardos para banheiras e polibans, conserta estores, marquises, etc. Faz orçamentos grátis e pode-se pagar em prestações. É possível que já tenham ouvido falar dele: o Vinagre é um daqueles jeitosos que invade as nossas caixas de correio com papéis de publicidade. E é também uma das pessoas mais conhecidas da Feira da Ladra. Aliás, o Vinagre é a própria Feira da Ladra. Se eu fosse o José Gil ou o Eduardo Lourenço, diria que a Feira da Ladra é o nosso país em ponto pequeno, é um Portugal em miniatura. Está lá a Igreja, o exército, o tribunal, o hospital, a Casa Pia e, claro, a quinquilharia típica das casas portuguesas.
Se forem à Feira perguntem pelo Vinagre ou, então, pelo “otário da Feira da Ladra”. Assim mesmo, palavra de honra. O próprio Vinagre já não liga ao insulto, já não se importa, já tanto lhe faz. A história tem muito anos, remonta aos primórdios da década de 80. Ouçamo-lo, de cigarro entalado entre dois dedos: “nas obras, às vezes, apanham-se coisas que uma pessoa nem sabe o que é que tem nas mãos. Por exemplo, o lixo deixado para trás pelos antigos donos das casas que estou a remodelar. É aí que vou buscar muita coisa que depois vendo na feira: papéis velhos, brinquedos partidos, bibelôs, ferramentas e objectos de cozinha enferrujados, etc. Numa dessas casas encontrei, entre outras coisas, não sei bem se era o canhoto de um cheque, se uma cédula, uma apólice, sei lá, não quero saber e, se querem saber, tenho raiva de quem sabe, bom, era uma espécie de papel moeda que circulava na Índia. Sei é que vendi o papel por cem paus, julgando eu que estava a fazer um dinheirão. Mais tarde, num leilão, o gajo vendeu aquilo por 17 mil contos. A história até veio no jornal, na primeira página, em letras grandes: «Otário da Feira da Ladra». A partir daí nunca mais tive sossego. No princípio ainda respondia, chateava-me, chegava a vias de facto, agora não. Já tenho feito bons negócios, nada que se pareça, lá está, com os 17 mil contos do outro, mas têm compensado um pouco, como o disco de vinil dos Beatles, aquele disco todo branco [o White Album], tinha era um número de prensagem baixo, vendi-o aqui vai para dois anos. Sabem por quanto? Quinze mil euros... três mil contos, na moeda antiga. E singles? Dos Queen, por exemplo, já tenho vendido por 400 e 500 contos. Há vinis a render muito dinheiro, muitos milhares de contos. O vinil é do que se procura mais na Feira. De resto, na Feira, agora só se encontra é lixo, só se vende é lixo, não há nada que preste [teve um estremecimento de cólera, beliscou a asa do nariz e alargou o olhar pelo Largo do Mercado de Santa Clara]. Sabes onde é que ainda encontras coisas boas, coisas de valor?, em Algés, aos domingos. Hoje em dia o que é bom vende-se em Algés. Em Algés encontras as mesmas pessoas que na Feira da Ladra só que mais bem vestidas. Isto aqui é só fachada. Estão lá os mesmos gajos mas com outra personalidade. Eu só queria era que a Câmara Municipal voltasse outra vez a subsidiar obras, recuperações de prédios antigos, com o RECRIA. Há aí muito velhote a morrer e os herdeiros, quando não são conhecedores do que é bom, deixam muita coisa de valor pelo caminho. Eu às vezes deito os bancos do carro e ando aos contentores das obras, nas madrugadas de terça e de sábado. O problema é que a Câmara agora parou com o RECRIA. Sabes quem é que também tem a culpa? As lojas dos 300 e as lojas dos chineses...”
Enquanto o Vinagre continuava o monólogo, entrecortado pelo som do rádio, sintonizado na Seixal FM, eu ia olhando e inspeccionando o que ele tinha para vender. Livros vários, uns mais conhecidos, outros de que nunca ouvi falar, obras com títulos exóticos e anacrónicos, com as páginas amareladas, casca de ovo, cheirando a um pó muito velho: O Astro, de Janet Clair, o romance que serviu de base à telenovela com o mesmo nome; Ela quis viver os seus sonhos, de Luciana Peverelli; Os filhos da droga, da Christiane F. (13 anos, drogada, prostituta...); Bastardos ao Sol, do Urbano Tavares Rodrigues. Coisas tão bizarras como os Acórdãos do Tribunal da Relação de Luanda ou o Projecto de Convenção destinada a evitar as duplas tributações (edição dos cadernos de ciência e técnica fiscal). Isto para não falar do boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, do dicionário de Inglês Comercial ou dos imprescindíveis Aspectos da Produtividade na Videira e Botânica Criptogâmica. Na verdade, se quisermos perceber os hábitos de leitura dos portugueses na década de 70 e de 80, se quisermos conhecer os livros que formaram gerações de portugueses, portugueses que viveram a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a Guerra Fria, conhecer profundamente os portugueses que hoje mandam no país, basta percorrer a Feira da Ladra. Académicos, especialistas em Antropologia, em História, em Sociologia, investigadores das Ciências Sociais, das Ciências Humanas, abandonem os gabinetes, renunciem ao conforto dos centros de investigação, larguem os livros, desamparem as bibliotecas, vão à Feira da Ladra. Está lá tudo. Os livros do Pitigrilli, do Eric Ambler, do Evan Hunter, do Edgar Wallace, os livros de guerra do Sven Hassel, os romances de Stefan Zweig e do Alexandre Dumas, os policiais de Jack Higgins e, de uma forma geral, as mais variadas edições do Círculo de Leitores ou das Selecções do Reader’s Digest. Há os clássicos do marxismo, que inundaram a década de 70, logo a seguir ao 25 de Abril: Que são as Classes e a Luta de Classes?, de A. Ermakova e V. Rátnikov, das edições Progresso, ou O Materialismo Histórico, de A. Spirkine e O. Yakhot, edição da Estúdios Cor (colecção Breviários de Cultura), isto para não referir as inesgotáveis e infatigáveis edições da Seara Nova (Porque se Revoltam os Estudantes é apenas um exemplo), as obras completas do Lénine ou a História da U. R.S. S., do camarada Louis Aragon.
Agora, como antes, os leitores portugueses sentem um grande fascínio pelos “Grandes Livros”, como O Grande Livro do Gato ou As Grandes Evasões do Passado; pelas enciclopédias, como a Enciclopédia da Vida Sexual ou O Mundo em que Vivemos; pelos fenómenos do desconhecido, como os Grandes Mistérios, A Maldição dos Faraós, O Mistério das Bermudas ainda de Pé ou Mistérios OVNI: O Que Lhe Andam a Esconder. Os leitores portugueses do que gostam mesmo é de livros com os Recordes da Natureza, livros que ensinem Como Interpretar Os Seus Sonhos ou A Linguagem do Corpo: gestos e posturas que revelam a sua personalidade. Mas como não é só de literatura que vive um homem, o João Vinagre não vende apenas livros, vende também exemplares da revista Xis, aquela distribuída aos sábados com o Público, vende postais de cinema, daqueles que qualquer bípede pode adquirir, de borla, nos cinemas do Dr. Paulo Branco, como o Monumental ou o King, vende teclados de computador, vende o word perfect para DOS, vende calculadoras, borrachas usadas, afias, bombas para encher os pneus das bicicletas, bonecos dos ovos de chocolate kinder surpresa e da PEZ, roupa em segunda mão, discos vinil, como Tonight I’m Yours, de Rod Stewart, o Hotel California, dos Eagles, ou singles dos Salada de Frutas, maçanetas, molhos de cabides a 50 cêntimos cada, carregadores e capas de telemóvel, cassetes de vídeo caseiras, com filmes gravados da TV (reparei em Cocktail, com Tom Cruise), maços de meias (sem defeito, 100% algodão), uma TV antiga, mais defunta que o Camões. “Mas trabalha com uma granda pinta e o resto é música”, disse-me o João Vinagre. Depois, limpou os lábios com as costas da mão esquerda e começou a atacar uma sandes de carne assada.

Quinta-feira, Abril 21, 2005

 

LUIZ PACHECO




EM BREVE, E A QUALQUER MOMENTO, GRANDE ENTREVISTA, INÉDITA, AO ESCRITOR LUIZ PACHECO.

Quarta-feira, Abril 20, 2005

 

Conhece-te a ti mesmo



Pierre Louys sobre a infelicidade: há duas maneiras de ser infeliz, desejar o que se não tem ou possuir o que se desejava. E tu? Qual é a tua infelicidade?
 

Marxismos Imaginários

O António Vergara está-se a passar.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

 

Edmundo Pedro: entrevista




Edmundo Pedro é um homem de acção, daqueles que andam aos tiros. Com 15 anos de idade viu-se dentro de uma prisão, acusado de actividades conspirativas no 18 de Janeiro de 1934. Passado um ano, já em liberdade, foi eleito para a direcção das juventudes comunistas e organizou movimentos de agitação e propaganda nas Escolas Industriais.
Subversivo reincidente. Perigoso! Em 1936, Edmundo Pedro foi preso pela segunda vez, mas agora para inaugurar o Tarrafal, juntamente com o pai e outros dirigentes do PCP. Tinha 17 anos quando desembarcou em Cabo Verde. Tentou fugir várias vezes. Numa delas, quase conseguia, foi por pouco. Ainda conseguiu roubar um barco de pescadores, mas apanharam-no. Por causa disso, esteve 70 dias seguidos na terrível “frigideira”. Como se não bastasse, o PCP castigou-o com dois anos de suspensão: a fuga não tinha sido autorizada, ninguém podia fugir sem antes informar ao Partido. Bateu com a porta. Não estava para isso. Nunca mais quis voltar. “Fui educado lá dentro, sei como é”.
Na família eram quase todos revolucionários, a mãe, o pai, os irmãos. Edmundo Pedro nasceu a 8 de Novembro de 1918, no Samouco (Alcochete), fruto do amor entre um varino e uma jovem camponesa. Mas Margarida e Gabriel Pedro moviam-se nos meios altamente perigosos do anarco-sindicalismo, andavam de agitação em agitação. O melhor a fazer era deixar o pequeno Edmundo aos cuidados da tia paterna, a única que era conservadora na família. A tia queria que ele fosse engenheiro naval, mas Edmundo escolheu ser como os pais, um revolucionário. Fugiu de casa da tia aos 13 anos, idade com que aderiu ao PCP e iniciou a sua actividade anti-fascista.
Edmundo Pedro só saiu do Tarrafal com o fim da II Grande Guerra, na amnistia de 1945. Regressou com 27 anos, alguns cabelos brancos e uma tuberculose. Tornou-se correspondente comercial, tinha estudado línguas na prisão, inglês, francês, alemão… Mas a luta anti-fascista estava-lhe no sangue. Em 1959 alinhou no 12 de Março e na noite de passagem de ano de 31 de Dezembro de 1961 andou aos tiros no quartel de Beja. O golpe não resultou e fugiu para o Algarve. Foi apanhado em Tavira e condenado a três anos e oito meses de prisão. Antes do 25 de Abril ainda voltou à prisão, acusado de contrabando. Nada ficou provado.
Aderiu ao PS em 1974 e durante o chamado “Verão Quente” envolveu-se, com Manuel Alegre, nos contactos com os operacionais do 25 de Novembro. Foi a ele, em nome do PS, que o general Ramalho Eanes mandou entregar um lote de armas para defender as sedes do partido que estavam a ser alvo dos ataques da esquerda radical. A história não terminaria aí. Em Janeiro de 1978, então presidente da RTP, Edmundo Pedro voltou a ser preso. Durante semanas, a sua fotografia fez manchete nos jornais. Porquê? Um ano antes, o Exército tinha pedido ao PS para devolver as armas distribuídas no Verão de 75. Edmundo Pedro tentou reunir as armas, dispersas por algumas sedes nacionais do partido. Guardou-as no armazém de uma antiga firma onde trabalhara. Alguém contou à polícia. “Fui apanhado numa ratoeira”. Tinha muito que explicar à Judiciária. Mas não disse nada. Não falou em nomes. Ficou seis meses preso, até ser absolvido. Desse episódio guarda muitas mágoas, “o mal que me fizeram não tem remédio”.
Com 86 anos, Edmundo Pedro vai publicar as suas memórias. “Estou a sentir o meu horizonte temporal a encurtar-se”.

 
JPG – A primeira vez que entrou numa prisão tinha 15 anos. O que é que se passou?
Edmundo Pedro – Fui preso por estar envolvido na tentativa de greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934. É um acontecimento conhecido na crónica da luta anti-fascista, nomeadamente no movimento operário e anarco-sindicalista. Pretendia ser uma greve contra a fascização dos sindicatos, levada a cabo pela antiga CGT de influência anarquista, pela intersindical de influência comunista e pelos sindicatos autónomos que representavam alguns sindicatos de influência ainda socialista. Eles juntaram-se todos e tentaram desencadear uma greve geral.

JPG – Qual é que era o seu papel no movimento?
EP – A direcção do PCP encarregou-me de ser o elemento de ligação com o quartel instalado dentro do Castelo de S. Jorge, Caçadores 7. Tinha que fazer uma série de contactos e na tarde de 17 de Janeiro fui a Caçadores 7 com a intenção de dizer que o movimento revolucionário começaria naquela noite. Eu devia actuar na zona do Poço do Bispo, estava encarregado de cortar as linhas férreas e derrubar os cabos de alta tensão. Mas alguém denunciou o militar a quem era suposto passar a palavra, o Sargento Alfredo. Quando pedi para falar com ele fiquei logo preso. Mantive a versão que tinha combinado com os militares caso fôssemos descobertos, era o chamado “minuto conspirativo”. Libertaram-me, mas passados alguns dias. Torturados, alguns militares envolvidos revelaram tudo. Foram-me buscar outra vez.

JPG – Ficou preso quanto tempo?
EP – Fui condenado num tribunal militar especial a um ano de prisão e perda dos direitos políticos. Tinha 15 anos, o que face à Constituição que o Salazar elaborou em 1933 era ilegal. Isto chega para medir como é que aqueles coronéis de merda julgavam os presos políticos. Eu nunca podia ser julgado antes dos 16 anos no mínimo. Fui julgado aos 15 anos e mesmo que fosse julgado aos 16 não me podiam condenar à perda de direitos políticos. Face à Constituição do Salazar, só aos 21 anos é que se tinha direitos políticos, ainda que fosse apenas em termos formais. Agora é aos 18. Eles tiraram-me aquilo que ainda não me tinham dado. Um absurdo.

JPG – Quando saiu continuou as actividades conspirativas?
EP – Sim, fui eleito para a direcção da Juventude Comunista com o Álvaro Cunhal. Repare que eu pertencia a uma família de comunistas. O meu pai, Gabriel Pedro, e a minha mãe, eram comunistas, eram funcionários do PCP. A praça principal de Almada, a praça do tribunal, tem o nome dele. Morreu comunista, emigrado em Paris. Foi um dos fundadores da ARA, Acção Revolucionária Armada, o braço militar do PCP. Durou muito pouco tempo. Antes de morrer ainda veio por uma bomba no Cunene, o primeiro barco que foi sabotado contra a guerra colonial… Veio sozinho de Paris até Lisboa e voltou a Paris atravessando os Pirinéus… E tinha mais de setenta anos nessa altura! A minha mãe também pertencia ao partido… Chegámos a encontrar-nos, eu, o meu pai e a minha mãe no Governo Civil, os três presos. A minha mãe foi presa na fronteira. Tinha ido a Espanha ao serviço do PCP. No regresso foi detida por posse de documentação subversiva. Quando foi do 18 de Janeiro, ela já estava presa, nas Mónicas, há uns meses. Mas foi chamada à polícia, ao edifício ao lado do S. Carlos (era aí a Polícia de Informações, anterior à PIDE), para uma acareação qualquer. Como andavam cheios de trabalho, meteram-na no Governo Civil. Ora eu sou preso no dia 17 de Janeiro… apanhei uma cacetadas e puseram-me ali porque as esquadras estavam cheias. Fui lá encontrar a minha mãe. Ao fim de 17 dias libertaram-me. Estive apenas 8 dias em liberdade. Quando voltei ela ainda lá estava. Os tipos disseram-me: “qualquer dia está cá o teu pai”. Passado um mês e tal estava lá o meu pai. Foi lá parar também. Mas estávamos detidos por processos diferentes.

À esquerda, Margarida, a mãe de Edmundo Pedro
 

Na fila de cima, no meio, Gabriel Pedro.

JPG – E os seus irmãos?
EP – Era tudo comunista. A minha irmã morreu em Paris na emigração. Participou no Maio de 68. O meu irmão, João Tavares Pedro, era jovem comunista e foi assassinado numa manifestação organizada por mim, num daqueles comícios relâmpago que a JC fazia nos anos de 1930. Foi durante uma semana de agitação e propaganda, a tal agit-prop, organizada pelo partido e, nesse quadro, deram-nos instruções para fazer também uma série de manifestações. Eu organizei várias nas escolas industriais e comerciais. O meu irmão era aluno da Escola Fonseca Benevides, onde fizemos um comício. Como ele era aluno, disse-lhe para não se misturar, para não dar vivas, manter-se à parte. Aquilo metia sempre tiros… eu tinha um guarda-costas que puxou da pistola quando o contínuo que estava de serviço ao átrio da escola tentou tocar a sineta para não se ouvir o que eu dizia. Havia um certo aventureirismo… O meu irmão manteve-se à parte. Aquilo era feito muito rapidamente: desfraldava-se a bandeira vermelha e distribuíam-se uns panfletos. O esquema era sempre o mesmo, para dizer que existíamos, que estávamos vivos, que tínhamos uma missão a cumprir. Acabámos aquilo, saímos a correr. O meu irmão ficou à porta. Logo depois veio a Polícia de Informações, os tipos do 28 de Maio, que começaram a agredir alguns rapazes. O meu irmão quis ajudar um amigo e disse qualquer coisa desagradável para os tipos. Rebentáram-no aos pontapés. Foi dali para o hospital S. José e morreu 15 dias depois.

 


Aos 13 anos, com os aprendizes do Arsenal de Marinha. Na fila de cima, o segundo a contar da direita.

JPG – Conheceu então o PCP no início da sua implantação na sociedade portuguesa…
EP – Eu fui educado dentro da JC, fui criado dentro do PCP, convivi com os principais dirigentes, eram todos meus amigos. O Bento Gonçalves, o primeiro Secretário-Geral, foi meu companheiro de trabalho no Arsenal da Marinha, quando ainda era em Lisboa, naquele espaço que vai do Terreiro do Paço ao Cais-do-Sodré. Eu era aprendiz no Arsenal e estava a estudar na Escola Industrial Machado de Castro. Estava no 5º ano, o último, quando fui preso. Não terminei o curso. A oficina de máquinas, a que eu pertenci, ocupava todo aquele espaço que é hoje um parque de estacionamento, ao longo da Rua do Arsenal. Sou capaz de localizar o sítio onde estava o torno do Bento Gonçalves… era perto da actual empena que está no topo do parque, que é do Ministério da Marinha. Até sugeri ao António Abreu do PCP a ideia de porem lá um memorial, um pequeno memorial a dizer “aqui trabalhou Bento Gonçalves”. Era um tipo extraordinário, não tem nada que ver com os comunistas actuais. Continua a ser uma grande referência da minha vida.

 


Francisco Paula de Oliveira (Pável)

JPG – Também conheceu o Francisco Paula de Oliveira, mais conhecido por Pável?
EP – Foi operário comigo nas oficinas do Arsenal de Marinha, que era uma oficina de elite. Todos os operários eram obrigados a frequentar a Escola Industrial. Em nenhum outro estabelecimento fabril era assim. Havia todo um conjunto de pessoas de grande craveira intelectual. Lembro-me do Alfredo “Pasteleiro”, conheci-o quando era aprendiz numa oficina metalúrgica situada na rua do Salitre. Foi ele quem me deu a ler os primeiros manifestos comunistas. O Francisco Paula de Oliveira, que foi Secretário-Geral do PCP e Secretário-Geral da Juventude Comunista, tomou o pseudónimo de Pável, o nome de uma personagem de um romance do Máximo Gorki, A Mãe. Era conhecido pelos amigos como o “Viagens à Lua”. Era a alcunha que lhe davam no Arsenal, porque era um tipo que se interessava por ficção científica, viagens à lua, etc. Esteve preso no Aljube mas fugiu. Foi para Paris e fugiu depois para o México, onde se radicou com o passaporte de um combatente da Guerra Civil que tinha morrido, António Rodriguez. Tornou-se escritor e um grande crítico de arte. Foi uma grande figura da cultura mexicana. O México fez-lhe uma homenagem nacional pela contribuição que ele deu à cultura mexicana. Não é qualquer um. É um caso que dava um romance fabuloso. Depois do 25 de Abril, o Mário Soares convidou-o a vir cá. Tenho fotografias dessa visita.

 


Edmundo Pedro com 16 anos, à esquerda, com Carlos de Sevela, jovem comunista de Silves (1934).

JPG – Passados dois anos sobre o 18 de Janeiro foi novamente preso, foi inaugurar o Tarrafal…
EP – Quando saí da prisão, tinha 16 anos, fui eleito para a direcção da JC juntamente com o Cunhal, que tinha na altura 21. Fui o dirigente mais novo desde sempre. Voltei a ser preso por essa razão. Era um reincidente.

 


Na Fortaleza de Peniche, antes de ir para o Tarrafal

JPG – E o Tarrafal?
EP – Fui enviado para o Tarrafal sem qualquer julgamento. Entrei para lá com 17 anos, em Outubro de 1936, e saí com 27 anos, em 1945, com a amnistia do fim da guerra. Era o preso mais novo do Tarrafal. Deixei a minha juventude toda no Tarrafal. Fui com o meu pai no mesmo barco. Ele estava em Angra do Heroísmo, eu em Peniche. Foi uma leva daqui juntamente com aqueles marinheiros da Revolta da Armada de 8 de Setembro de 1936. Passámos nos Açores e depois seguimos para Cabo Verde.

 


JPG – Como passava o tempo na prisão?
EP – Para além de partir pedra, como em qualquer regime prisional, continuei a estudar. Estudei cálculo integral, electrónica, radiotécnia. Aprendi sozinho e ajudado principalmente pelo Bento Gonçalves. Costumava sentar-me junto à cama do Bento Gonçalves, a aprender marxismo e álgebra. O Bento Gonçalves morreu no Tarrafal, com uma biliosa anúrica. Também estava lá o Alberto Araújo, filólogo, deu-me aulas de português. Saiu de lá tuberculoso. E depois aprendi também línguas, francês, inglês, alemão… aprendi toda a gramática alemã na prisão. Mas não era fácil. Custou-me muito sacrifício, porque era tudo feito fora das horas de trabalho.

JPG – Tentou fugir?
EP – Tomei parte em duas fugas, uma colectiva, organizada pelo PCP, outra à margem do Partido. O PCP reservava-se o direito de escolher quem é que devia fugir. Como membro do partido, submetia-a à sua disciplina. Eu estava de acordo com esse princípio, porque achava que quem devia tentar fugir eram aqueles que faziam mais falta cá fora, os quadros mais importantes, mais experientes. A certa altura convenci-me que eles não fugiam nem deixavam fugir. Que a disciplina do partido era mais impeditiva da fuga que os guardas, o arame farpado, a vala, o talude, os sentinelas. Porque é que haveria de aceitar uma disciplina que era totalmente inoperante? Então pensei que a única maneira era calar-me, organizar uma fuga sem dizer nada. Juntámo-nos cinco, eu, o meu pai e mais três companheiros. Foi em 1943.

JPG – E dessa vez conseguiu finalmente escapar?
EP – Não. Não conseguímos fugir por um azar do caneco. Em pleno dia, sem ninguém dar por isso, 5 pessoas saíram do Tarrafal. Lá dentro, eu trabalhava numa oficina de electricidade e nesse dia estava encarregue de levar uma bateria à central de electricidade. O meu pai não tinha pretexto para sair, mas escondeu-se atrás de uns bidons grandes de água que estavam a ser descarregados. Os outros três estavam destacados para ir buscar lenha. Tínhamos à nossa frente 4 horas para chegar a um barco de cabotagem que passava de 15 em 15 dias. Tomávamos conta do barco e fugíamos. E só não aconteceu porque dois dos nossos fizeram tudo ao contrário. Passaram junto dos “rachados”, dos bufos do campo, porque havia lá a situação dos presos que se mantinham com dignidade, que não abdicavam de nada, e os chamados rachados, que tinham liberdade de sair, iam para as hortas, encontravam-se com as cabo-verdianas… E um desses gajos viu-os passar e denunciou-os. Nós já estávamos longe, eu, o meu pai e outro, estávamos numa serra à espera deles. Se eles tivessem feito como nós, que era dar a volta ao campo e tirar a farda, não eram vistos. Quiseram facilitar, passar junto das hortas, onde estavam os bufos. Estragaram tudo.

JPG – E vocês os três?
EP – Fomos apanhados nesse dia à tarde. Percebemos que havia um problema com os outros e fugimos. Apanhámos um barco pequeno para ver se chegávamos ao outro barco de cabotagem. Os pescadores a quem nós roubámos o barco correram a denunciar-nos e deram com os guardas que iam a correr atrás dos outros. Pensaram: “aqueles que vão no barco são mais perigosos”. Correram a direito até à praia, deixaram os outros. Isso permitiu que eles se internassem na ilha. Quando os guardas chegaram à praia, nós já íamos com uma certa distância. Apanharam outro barco, foram atrás de nós, viram onde é que tínhamos saído e, ao fim da tarde, quando já estávamos convencidos que nos tínhamos conseguido safar, foram descobrir-nos numa gruta.


Edmundo Pedro de visita ao Tarrafal, onde encontrou alguns angolanos que também lá tinham estado presos mas em alturas diferentes. Aqui, à porta da Frigideira.
JPG – O que é que vos fizeram?
EP – Fomos levados ao director do campo, um tipo terrível. Era conhecido como o “Abóbora”. Um dos que foi visto pelos bufos, o Nascimento Gomes, do Porto, morreu em consequência dos espancamentos. Rebentaram-lhe com os rins… Foi a coisa mais brutal que se fez no Tarrafal. Eu, o meu pai e os outros dois fomos parar à tal frigideira, a cela punitiva. Fecharam-nos ali durante 70 dias seguidos. Batemos o recorde. O castigo era de 60 dias, mas só nos começaram a contar o tempo a partir do momento da prisão do último fugitivo, que era o Rato. Como só foi apanhado ao fim de dez dias, nós cumprimos 70 dias de frigideira.

JPG – Como era a frigideira?
EP – Era uma cela em cimento armado, um cubo com uma porta em ferro, uma frestazinha em cima, o tecto em cimento e não tinha telhado. Era um forno autêntico, num clima tropical… era sufocante… havia dias em que a temperatura se devia aproximar dos 45 graus… passávamos os dias a suar, tínhamos de andar todos nús. À noite aquilo condensava e caía em cima de nós, parecia um chuveiro… Estivemos 3 dias sem beber água. Foi por intervenção do Cândido de Oliveira que nos levaram água. O Cândido também lá estava, mas tinha uma situação especial. Tinha sido preso no processo dos ingleses, ele e vários oficiais… Primeiro estiveram connosco, mas veio um telegrama do Salazar, ou da polícia, não queriam arranjar problemas com os ingleses, e puseram-nos numas barracas fora do campo. Mas arranjávamos maneira de nos correspondermos. O Cândido acompanhou esta tragédia toda… No livro dele sobre o Tarrafal dedicou um capítulo à nossa fuga, mas como ele morreu antes do 25 de Abril, o sobrinho, que era do PCP, cortou esse capítulo… Esse capítulo foi-nos lido, a mim e ao meu pai… até chegámos a fazer rectificações. O Cândido de Oliveira era muito meu amigo, gostava muito dele, foi meu sócio num viveiro em Corroios, eu, ele e o meu pai. O meu pai saiu do Tarrafal com a saúde arruinada, foi um dos mais perseguidos, no total esteve perto de 150 dias no forno. Tentou matar-se lá, abriu as veias…

 

Visita ao Tarrafal com os antigos Primeiro-Ministros de Portugal (António Guterres) e de Cabo Verde (Carlos Veiga). À direita de Guterres, Sérgio de Matos Vilarigues

JPG – Já voltou a Cabo Verde, ao Tarrafal?
EP – Umas 4 ou 5 vezes. Gosto de visitar aquilo, lembrar-me.
 


Depois de sair do Tarrafal.

JPG – E o PCP, como é que reagiu à vossa fuga não autorizada?
EP – Quando saí do Tarrafal não voltei ao PCP. Fui castigado a 2 anos de suspensão e não quis voltar. Fui elogiado pela coragem demonstrada frente ao inimigo e castigado por desobedecer às directrizes partidárias. O meu pai saiu do PCP quando ainda estava no Tarrafal, por causa do Pacto Germano-Soviético. Por isso não foi castigado. Mas quando saiu do Tarrafal, o Cunhal meteu-o logo no partido. Foi um trauma do caneco sair do PCP, porque a minha vida estava ligada ao partido. Um tipo que é educado dentro do partido e sai é como perder uma perna ou um braço. Fiquei com um grande desgosto por me terem tratado como trataram. Eu tinha-me dado completamente, desde miúdo, desde os 13 anos, tinha 24 quando isto aconteceu, estava no partido há 11 anos. Depois passou-me. A minha saída permitiu-me ver coisas que se calhar não tinha visto se não saísse. O PCP distorce sempre as histórias, todas as situações, sistematicamente, como é sabido… Passaram na RTP um documentário sobre o Tarrafal feito por dois militantes do PCP. Dizem uma série de mentiras, uma abordagem meramente política, do herói, que eles é que faziam e aconteciam, que eram os mais eficazes… Tenho muito a dizer sobre o PCP, até em relação ao Cunhal, à sua ascensão ao cargo de Secretário-Geral. Como é que um intelectual ascendeu tão rapidamente num partido operário. Porque naquele tempo havia um grande preconceito em relação aos intelectuais. O Bento Gonçalves era operário, o Pável era operário. Havia aquela ideia de que o comunismo era essencialmente um movimento operário, da classe operária. Até havia uma directriz, que ainda hoje se mantém, mas que não é cumprida, segundo a qual a maioria da direcção do partido tem de ser operária… Hoje é tudo uma aldrabice. Os que se dizem operários, como por exemplo o Sérgio de Matos Vilarigues, que foi o nº 2 do PCP durante muitos anos. Eu conheci-o como marçano de uma mercearia, depois foi empregado num talho. Agora aparece como operário da indústria de carnes verdes… Dá vontade de rir… Eles fabricam operários de qualquer maneira.

JPG – E como é que se dá a ascensão fulgurante do Cunhal?
EP – Não conto. Não contei ao Pacheco Pereira, para a biografia do Cunhal… ele conta a ascensão do Cunhal à maneira dele, mas há coisas que só eu sei…

JPG – Não contou porquê?
EP – Não quis entrar em certos pormenores, não quis fazer chicana. Nas minhas memórias, em que estou finalmente a trabalhar, vão aparecer coisas que nunca foram contadas. Porque eu acompanhei, a partir do Tarrafal, todo esse processo. Ele não esteve lá, mas tudo começou no Tarrafal…

JPG – Qual é a sua opinião sobre este processo dos renovadores no PCP?
EP – Era inevitável. Há um desfasamento muito grande entre a realidade e os actuais dirigentes… Foram expulsos mas isso não vai adiantar nada. Isto é a história do Leste Europeu. Eles também colaboraram na expulsão de outros, como o Barros Moura ou o Vital Moreira, estiveram todos de acordo… é muito complicado… No Leste Europeu também foi assim: mataram-se uns aos outros sucessivamente, acusados de crimes imaginários. Aqui não se mataram porque não se podiam matar. Se assim não fosse tinham-se assassinado mutuamente. A lógica é a mesma. Eu fui educado lá dentro, sei como é. Tenho 16 anos de cadeia, não tenho complexos, a mim não me podem acusar de nada, larguei sempre tudo, os meus interesses mais elementares, dei tudo à luta contra o antigo regime. Alinhei em quase tudo, o Delgado, o Golpe de Beja, estive presente em quase todas. E não precisei de estar no PCP.

JPG – Quando saiu do Tarrafal, ao fim de cerca de 10 anos, como foi?
EP – Ainda fiquei dois dias na Cidade da Praia, à espera do barco. Numa das noites, era sábado, fui a um baile na Achada de Santo António. Conheci uma cabo-verdiana, dancei com ela, contei-lhe a minha situação… foi muito simpática… saímos dali para a praia… Quando cheguei a Portugal meteram-me no Aljube. Cheguei um homem totalmente diferente. Vinha com cabelos brancos. Os meus melhores anos ficaram no Tarrafal. Só no regresso é que me levaram a julgamento. Fui condenado a 22 meses de prisão. O tribunal não encontrou matéria no processo para me dar mais de 22 meses. Tinha estado 10 anos preso à espera de julgamento. É incrível, não é? Depois de lida a sentença ainda me fizeram ficar 2 ou 3 dias na prisão antes de me libertarem. E vinha de lá tuberculoso. O Ludgero Pinto Basto, que é médico, era da direcção do PCP na altura, ele é que me salvou. Ainda está vivo, é um grande amigo meu.

 


Com a equipa nacional de futebol, em 1948. Edmundo Pedro é o segundo a contar da esquerda, em pé, com uma mala na mão. No grupo estão, entre outros, Travassos, Jesus Correia, Peyroteu, guarda-redes Azevedo e Francisco Ferreira

JPG – E o recomeço da vida em Portugal?
EP – Comecei a ganhar a vida como tradutor correspondente. Quando saí do Tarrafal já sabia bem o inglês, o francês e algum alemão. Foi a minha profissão. A minha verdadeira profissão é tradutor correspondente. Fui correspondente de grandes casas comerciais. Comecei na Federação de Futebol… o facto de o Cândido de Oliveira também ter estado no Tarrafal ajudou… A primeira vez que fui a Paris foi para acompanhar a selecção, tenho fotografias com o Jesus Correia, um dos avançados daquele grupo dos violinos do Sporting. Fui a Paris como tradutor correspondente. E à noite trabalhava como revisor de provas no jornal A Bola. Depois saí da Federação quando entendi que podia ganhar mais numa empresa comercial. Estive na Sociedade Oceânica do Sul e nos laboratórios Lusofarmaco, que nessa altura ainda eram uma farmácia.

JPG – E os seus amigos, quem eram nessa altura?
EP – As minhas companhias eram todas da oposição. Frequentava um círculo de amigos na Costa de Caparica, em casa do Manuel Rodrigues de Oliveira, o fundador das edições Cosmos, e mulher, a Ana Isabel, a Bé. Costumavam estar lá o Tito de Moraes, a mulher dele, a Maria Emília, o Bento de Jesus Caraça, que lançou a Cosmos com o Oliveira. Éramos marxistas. Eu ainda me dizia comunista, apesar de não estar no PCP. Tinha deixado de ser leninista mas continuava marxista. A literatura que se discutia era a literatura francesa, o l’Humanité, o André Gide, o Malraux, o Roger Vailland, toda essa gente, o Henri Barbusse, o Romain Rolland, que eram compagnons de route. Rompi definitivamente com o comunismo quando se deu a invasão da Checoslováquia, em Agosto de 1968.

 


Quando foi preso devido à participação no Golpe do Quartel de Beja.


JPG – Mas as suas actividades conspirativas não se ficavam por aí?
EP – Antes já tinha tomado parte da campanha do Norton de Matos. Alinhei no 12 de Março de 1959 e participei no assalto ao Quartel de Beja na noite de 31 de Dezembro de 1961. Eu entrei fardado de capitão, deram-me a farda, estava combinado que eu entrava como oficial. Ainda há dias fui ao funeral de um amigo meu, o Jaime Carvalho da Silva, um dos oficiais do Golpe, foi condenado a 4 anos de prisão. Foi o que acompanhou o Varela Gomes quando iam prender o Calapez. O Varela foi ferido e o Carvalho da Silva, coitado, quis socorrer o Varela, achou mais importante salvar a vida do Varela que prender o Calapez. A coisa deu para o torto, mas alguns de nós conseguimos fugir para o Algarve. Fomos apanhados em Tavira, eu, o Manuel Serra, o então capitão Eugénio de Oliveira e mais três. O Manuel Serra era um dos homens que o Humberto Delgado mandou do Brasil para contactar com alguns oficiais superiores. Ele era o chefe civil, digamos assim. O chefe militar era o próprio Delgado. Chegou nessa noite e levaram-no para Beja. Eu nem sabia que ele lá estava. Em vez de o meterem no quartel pensaram que era melhor aguardar que tudo corresse bem. Depois o Delgado aparecia à frente daquilo. Se ele tivesse entrado no quartel connosco, talvez as coisas tivessem corrido bem.

JPG – Esteve preso quanto tempo?
EP – Fui condenado a 3 anos e 8 meses. Saí com 47 anos. Tinha 43. Foram os melhores anos da idade madura.

JPG – Também fez contrabando com o seu pai, não foi?
EP – Sim. Fiz contrabando mas não era contrabandista. Contrabandista é aquele que vive do contrabando. Eu nunca vivi, tive sempre o meu emprego. Fui desafiado para essas coisas pelo meu pai, porque o meu pai fazia contrabando para o PC. Foi influenciado por aquela história da Sierra Maestra do Che Guevara e do Fidel Castro. Todos nos apaixonámos. É nessa altura que o meu pai vem com a ideia da guerrilha urbana e de arranjar dinheiro para ela. Organizámos então um sistema de contrabando. Durante anos, o PCP viveu, em parte, do contrabando do meu pai. O Avante dirigiu-me algumas piadas a esse respeito. Ora eles deviam era estar calados com essa história do contrabando, porque os maiores beneficiados foram eles…

JPG – Contrabando de quê?
EP – Aquelas coisas que são normais… as que pagam mais direitos... Quando fui à televisão por causa do processo das armas, o Joaquim Letria levou dois mariolas com ele para me enterrarem. Um deles disse que os processos que eu tinha em tribunal militar eram de contrabando de droga. Eu devia ter dado um murro no gajo, devia ter-me levantado…

JPG – Mas já vamos a esse caso do processo das armas e à sua passagem pela RTP. Teve um processo de contrabando e foi preso?
EP – Não. Eu deixei essa história quando vi que o projecto do meu pai não tinha pés para andar. Mas por causa disso ainda levei com um processo alfandegário. Uns tempos depois, chamaram-me à polícia. Porque eu tinha um barco de recreio que julgavam que tinha sido utilizado numa operação de contrabando. Era mentira, por acaso não foi. Eu tinha estado em Paris com a minha mulher, o meu passaporte tinha o carimbo. Foi fácil de provar. De maneira que estive preso uns dias e mandaram-me embora. Foi nessa ocasião que conheci o escritor Luiz Pacheco no Limoeiro.

JPG – Já o conhecia, sabia quem era?
EP – Conhecia de nome. Como escritor. Quando o conheci pessoalmente já tinha lido algumas coisas dele. Eu achava-lhe piada. Tem uma maneira de ser muito própria. É um tipo giríssimo. Quando soube que eu era da oposição tornámo-nos amigos.

JPG – Como é que passavam o tempo no Limoeiro?
EP – Lembro-me que jogávamos muito ao xadrez. O Pacheco ganhava quase sempre, nunca fui grande jogador de xadrez. E conversávamos. Eu contei-lhe a minha história, ele contava-me a vida dele. Não fazia segredo de nada. As histórias dele na cama com a mulher e os filhos nas gavetas dos armários. O Pacheco faz gala da miséria dele, é um bocado assim. É um tipo completamente descontraído, é um tipo que não guarda nada nem se resguarda de nada. Ele ostenta a sua miséria, no fundo especializou-se em ostentar o que há de pior na vida dele. Porque ele tem lados muito bons, muito bonitos. E é um companheiro. Eu pessoalmente gosto muito dele. De maneira que ficámos amigos. De vez em quando escrevia-me uns postais dos CTT a dizer que ia mandar um livro, que custa tanto, para lhe mandar umas massas. Mandava-lhe sempre mais, e foi assim, tem sido assim ao longo do tempo. Agora quero ir visitá-lo ao Príncipe Real…

 


Com Manuel Alegre, no aeroporto de Lisboa, em 1976.

JPG – Entretanto entrou para o PS…
EP – Aderi a seguir ao 25 de Abril, em Outubro de 1974. Em termos informais aderi em Setembro de 1973, numa conversa que tive com o Mário Soares no aeroporto de Madrid. Em termos formais foi depois. Entrei com o Manuel Alegre, no mesmo dia. Fomos os dois ter com o Mário Soares ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Assumi o controlo da parte operacional do PS, particularmente ao nível da região de Lisboa.

 
JPG – Qual é que foi a sua participação no chamado PREC?
EP – Tive uma participação activa no 25 de Novembro. Essa é uma história que me trouxe muitos dissabores. Eu fui responsável, no PS, pela recepção e subsequente distribuição de um lote de 150 armas. As armas foram entregues por representantes do exército. Muito antes do 25 de Novembro estava prevista, caso a crise no país se agravasse, a entrega dessas armas ao sector de segurança do PS. O país vivia ameaçado pelos ataques da esquerda radical, do MFA. Foi o 11 de Março, o caso do jornal República, as sucessivas manipulações das assembleias do MFA, o V Governo Provisório, o documento definindo o “poder popular” escrito pelo Otelo Saraiva de Carvalho, o cerco da Assembleia Constituinte… Foi nesse contexto que me encontrei com alguns oficiais, entre eles o então tenente-coronel Ramalho Eanes. O Eanes identificava-se com o PS. Recebi em minha casa, na companhia do Manuel Alegre, o Eanes e outro oficial que não se identificou. Contámos ao Eanes as dificuldades que tínhamos em defender as sedes do partido. Todos os partidos e grupos de extrema-esquerda estavam armados. E alguns grupos de civis ligados à “vanguarda revolucionária” recebiam treino militar. Ora o PS estava à mercê desses ataques. Pedimos ao Eanes que nos fornecesse algumas armas para garantir uma protecção mínima.

JPG – O que é que o general Eanes fez?
EP – Elaborou o plano destinado à resistência caso houvesse um golpe, aquelas coisas, sabotar emissores, cortar as comunicações… e, na noite do 25 de Novembro, mandou distribuir as armas. Fomos buscá-las perto de Bicesse, numa carrinha. Deixámos umas quantas em Cascais, outras na sede nacional do partido, na rua da Emenda. No meu livro conto tudo (O Processo das Armas, Editorial Inquérito, 1987), reproduzo nomeadamente o esquema operacional escrito pela mão do general Eanes, onde descreve as acções que teríamos de desenvolver em colaboração com alguns militares no caso da extrema-esquerda tentar assumir o poder, como tentou, no 25 de Novembro.


Edmundo Pedro, em casa, sentado na mesa em que ficou combinada, com o General Ramalho Eanes e com Manuel Alegre, a entrega das armas. Fotografia tirada recentemente.

JPG – Por causa disso voltou a ser preso mais tarde, em 1978?
EP – Esse é um assunto melindroso. Porque se especulou muito comigo. Sabe o que é a política… As armas foram mandadas distribuir para defender a democracia. Não a mim, mas ao PS. Mais de um ano depois do 25 de Novembro o Exército pediu ao PS para devolver as armas. As armas seriam devolvidas ao exército pela “porta do cavalo”, de acordo com o seu pedido. Eu achava muito bem. As armas não deviam estar nas mãos de civis. Tinham sido distribuídas numa conjuntura muito especial, mas deviam ser devolvidas. Envolvi-me naquela tarefa com grande empenho. Devolvi a maior parte, mas aquilo não era fácil, as armas estavam espalhadas, algumas, por exemplo, foram parar aos Açores, a pedido do Jaime Gama. Isto é um facto histórico. Quem as veio buscar, em mãos, foi o líder do PS nesse tempo nos Açores, o Goulard. Aquilo nos Açores esteve muito assanhado a seguir ao 25 de Novembro, com a extrema-direita a assaltar e queimar sedes do PS. As armas que o Jaime Gama me pediu não as podia recolher. Ora eu estava no desempenho da operação de as devolver quando fui apanhado.

JPG – E por que é que foi preso?
EP – Repare que eu era Presidente da RTP quando o processo das armas se dá. Fui presidente da RTP durante um ano. Entre o início de 1977 e o início de 1978. O escândalo à minha volta seria necessariamente um facto político de enorme repercussão. Eu era membro do Secretariado Nacional do PS com o Zenha, o Manuel Alegre, o Soares, o Guterres e outros. Era deputado com mandato suspenso. Não era brincadeira nenhuma. Tinha muitas responsabilidades institucionais. Foi um escândalo enorme. Durante dias a fio fui a primeira páginas dos jornais. Foi uma conspiração para atingir o PS. Toda a especulação em torno do pretenso contrabando teve origem no conhecimento do antigo processo alfandegário. As insinuações a esse respeito partiram, como refiro no meu livro, de uma fonte da Polícia Judiciária. Tudo começou com um artigo no Expresso, que foi buscar esse processo antigo. Repare que a apreensão das armas coincidiu com a crise do I Governo Constitucional, quando estava iminente a queda do governo PS. As armas saíram da sede do PS quinze dias antes de ser preso. Fui detido no dia 11 de Janeiro de 1978 sob a acusação de armazenamento e transporte de material de guerra. Eram 36 espigandas G3, do lote das 150. Toda a gente no PS estava aterrorizada. Então resolvi levar as armas para um armazém que era da firma de electrónica a que pertencera, mas da qual já me tinha desvinculado há muito tempo. Não tinha nada que ver com aquilo. Quando fui eleito para a direcção do PS cortei com tudo. Entendi que um dirigente socialista não deveria estar ligado a negócio nenhum. Fui eleito pela Comissão Nacional do PS, no seu 1º Congresso. Mas resolvi guardar nesse armazém, situado na Via Rápida, as armas que tinha conseguido reunir para depois as devolver. A devolução deveria ser efectuada dias depois da minha apreensão. Pensaram que eu queria as armas para uso pessoal, assaltar bancos, etc. Senti-me maltratado. Humilhado. Porque foram buscar a tal história do contrabando, os processos. Eu fiquei maluco. Estava desesperado.

JPG – Ficou preso quanto tempo?
EP – Ainda foram seis meses. Pouco depois da minha detenção, o Estado-Maior do Exército veio confirmar que me tinha entregue as armas. Mas lá veio mais uma aldrabice. Disseram que eu já devia ter devolvido as armas há muito tempo, quando eu, assim que me pediram comecei logo a trabalhar para as devolver. O único homem que se portou bem como militar foi o General Galvão de Figueiredo. Foi minha testemunha através de uma carta percatória. Não quis ir ao tribunal, mas o testemunho dele foi fundamental. O juiz do meu processo era do MDP/CDE, um indivíduo sem personalidade nenhuma. Deixou-se condicionar pela campanha da imprensa e não teve coragem de tomar decisões. O parecer da Relação era que eu não podia ficar preso, visto que não havia nenhuma sintoma de dolo. Devia ter sido logo posto em liberdade, mas o juiz não quis saber disso para nada. Quando o processo mudou de mãos, o novo juiz mandou-me logo libertar. Os meus advogados eram o Francisco Sousa Tavares e o Proença de Carvalho, indicados pelo PS.

JPG – E o PS no meio de tudo isso?
EP – Toda a gente ficou calada. Eu assumi a responsabilidade toda. Calei-me. Em vez de dizer que aquilo era um assunto do PS, disse que era meu. Bastava eu ter falado no papel do Eanes naquela operação para ser imediatamente libertado. Ou dizer que aquilo tinha sido feito dentro do PS. Mas não quis falar em ninguém. O escândalo foi também provocado em parte por mim, porque me calei, por uma questão de dignidade. Nunca tinha falado na polícia. Mas também lhe digo, fiz isso convencido que cada um ia falar. Fui apanhado numa ratoeira.

JPG – Se soubesse que ninguém ia falar, contava tudo?
EP – Ah, se calhar tinha falado, mas eu não quis ser denunciante, pensei que cada um devia assumir as suas responsabilidades no caso. Mas ninguém se assumiu. Quem devia assumir as responsabilidades era o General Eanes e o PS. O PS ficou com uma certa má consciência. Teve sempre dificuldade em abordar o assunto de frente. Se o Mário Soares soubesse de tudo o que se tinha passado naquele contexto, eu não ficava preso, mas o mal que me fizeram não tem remédio.

JPG – E o general Eanes?
EP – Nunca falei no nome do general Eanes nem em quaisquer outros nomes. Só oito anos depois é que resolvi falar, no meu livro. E explico porquê: esperei que o Eanes saísse da Presidência para se poder defender, porque eu no livro faço uma grande crítica à sua conduta naquele processo. Já concordámos marcar um encontro para esclarecer alguns aspectos.

JPG – Para quê?
EP – Não quero discutir com ele. Isso agora já passou. Quero conversar numa atmosfera de amizade e descontracção. Mas gostava, por exemplo, que o general Eanes me dissesse por que é que não me concedeu a Ordem da Liberdade. Fui posto à cabeça numa lista elaborada pelo PS e ele recusou. Ora ele sabe que o protegi com o meu silêncio. Se eu não merecia a Ordem da Liberdade quem é que a merecia? Fui preso aos 15 anos, estive no Tarrafal dos 17 aos 27, passei a minha juventude toda na cadeia, participei no Golpe do Quartel de Beja, fui dos 4 ou 5 que andaram aos tiros lá dentro, não morri por uma sorte do caneco, podia ter ficado logo ali, combati a minha vida inteira, estive disposto a morrer depois do 25 de Abril em defesa da liberdade. Então quem é que merecia a Ordem da Liberdade? Só recebi a Ordem da Liberdade quando o Mário Soares foi Presidente da República.

JPG – Pode falar da RTP, quando foi presidente?
EP – Creio que não houve, nem haverá, nenhum tipo sem licenciatura que tenha sido presidente da RTP. Quando entrei fiz reunir toda a redacção no Lumiar. Disse-lhes que não queria saber o que é que cada um era, o que é que cada um pensava. Não queria saber se eram comunistas, socialistas ou social-democratas. Queria apenas que me ajudassem a fazer uma televisão isenta, ao serviço do povo português. Tenho muito orgulho desse tempo que passei na RTP. Quando aquela coisa das armas aconteceu fiquei com um desgosto enorme.

JPG – E a oposição, como é que avaliou a sua gestão?
EP – No meu tempo não havia nenhum órgão independente capaz de tutelar a televisão e de assegurar o pluralismo. Nós, para assegurarmos o pluralismo, quisemos que todos os partidos, menos o PCP (tínhamos acabado de sair daquele período do PREC), participassem no Conselho de Gestão, para se controlarem mutuamente. Ora não havendo um organismo separado capaz de controlar o conteúdo da informação, só o pluralismo interno, a presença de todos os partidos, é que podia garantir esse pluralismo. Eu partidarizei, pois, no melhor sentido. Democratizei. Na administração entraram pessoas do CDS, um representante do Presidente da República, o capitão Águas. O PSD não quis entrar, mas o Adriano Cerqueira, que foi director de informação, era assumidamente do PSD. Dos cinco da administração, éramos apenas dois do PS: eu e o Raul Junqueiro. Ficámos em minoria de propósito. Penso que isto é uma prova de democracia, ou não é? Quando me despedi do Parlamento, caí na asneira de evocar a minha passagem pela RTP.

JPG – Porquê?
EP – Porque o José Eduardo Moniz, no comentário do noticiário da noite, disse: “Afinal de contas, o Edmundo Pedro confessou que tinha partidarizado a televisão”. Ora eu partidarizei-a no melhor sentido, para garantir a democracia. O Moniz quis meter veneno. Fui eu quem o levou para a RTP. Apareceu-me com um livrinho sobre comunicação social debaixo do braço. O Guterres bem me tinha dito, “não fales na televisão”. Achava que eu, no discurso de despedida da Assembleia, não deveria referir a RTP. Mas eu tinha a minha consciência tranquila, não fui nenhum comissário do PS. Actuei lá com independência. Tenho a confirmação disso, de muita gente. O meu período foi um período pluralista. O edifício da 5 de Outubro foi comprado no meu tempo. Fui eu quem assinou o cheque de compra daquele edifício…

 


Entrega da Ordem da Liberdade a Edmundo Pedro. Mário Soares, Aníbal Cavaco Silva e, de costas, o escritor António Alçada Baptista.

JPG – Tem uma história de vida invulgar.
EP – A minha vida está ligada ao Conde de Monte Cristo. Para começar, o meu nome vem daí. A minha tia-madrinha, irmã do meu pai, apaixonou-se pela figura do Edmund Dantes e queria à força que eu fosse Edmundo. Foi como se a minha tia, ao atribuir-me aquele nome, estivesse a atribuir-me o destino daquela personagem. Ele esteve preso 10 anos numa ilha, eu também estive. Ele tentou fugir para o mar, eu também (embora ele se tenha safado e eu não). Ele foi denunciado por um tipo que gostava da namorada dele, a Mercedes, com quem veio a casar, eu fui denunciado por um tipo que veio a casar com uma namorada minha. Há coisas do caneco, não é?

JPG – Quando é que saem as suas memórias?
EP – Já tenho centenas de páginas escritas… Vão ser dois volumes. O primeiro vai até à minha saída do Tarrafal, o segundo será desde a minha saída do Tarrafal até ao presente. Espero entregar o primeiro manuscrito até ao final do ano. Estou na fase de revisão. Vou por no livro toda a minha sinceridade, toda a minha emoção… Há coisas que eu tenho que contar com emoção… Quando às vezes me lembro delas vêm-me as lágrimas aos olhos. Sou um bocado sentimental. Às vezes estou a escrever e estou a chorar ao mesmo tempo. Vou por no livro muito da minha maneira de ser e de sentir…

Sábado, Abril 16, 2005

 

Conhece-te a ti mesmo



Pascal disse que só há duas classes de pessoas: os justos que se crêem pecadores e os pecadores que se crêem justos. E tu? A que classe pertences?

Quarta-feira, Abril 13, 2005

 

Fernando Savater: Entrevista




Uma entrevista em movimento. Às 8h e 27m, o Sud-Express sacudia a estação de Coimbra-B. Fernando Savater estava na carruagem 141, vindo de San Sebastián. Não queria dar nas vistas. Afinal, a ETA já o tentou matar por duas vezes! Para este professor de filosofia nascido em 1947, passear na rua ou sentar-se num bar é oferecer-se como refém dos separatistas bascos. Fui à procura do escritor e encontrei-o sentado no bar do comboio, a tomar o pequeno-almoço. A conversa durou perto de duas horas, numa atmosfera de atentado terrorista.
Entre romances, peças de teatro e ensaios filosóficos, literários e políticos, são mais de quarenta e cinco os títulos onde Savater nos faz reencontrar as emoções fortes da filosofia. Contrário às pátrias e ao endeusamento das identidades nacionais, tem-se distinguido na luta contra a violência e contra a lógica militar dos Estados. Como Demócrito, acredita que a “pátria do sábio é o mundo inteiro”. Sinal de que a inteligência humana não envelheceu.


JPG – Já alguma vez deu uma entrevista num comboio?
Fernando Savater – Não, é a primeira vez (risos). Em todos os dias da vida faz-se algo de novo…

JPG – Em Espanha sabem que veio?
FS – Bom, há uma série de pessoas que sabem, a minha editora, a minha família. Suponho que as pessoas do El País. Eu não disse nada a ninguém. Além disso, por razões ligadas à política no país Basco… Não tenho muito interesse que saibam onde estou.

JPG – Qual a sua opinião sobre o reacender do conflito no País Basco?
FS – Estou numa plataforma de cidadãos que se chama “Basta ya”. Durante quase todo o Verão estivemos a preparar uma grande manifestação em San Sebastián que juntou cerca de cem mil pessoas. Estamos contra o estatuto da ETA na Constituição. O importante não é reprovar moralmente a ETA mas sim combatê-la politicamente. Por isso, a principal novidade que introduzimos foi propor um combate político e não simplesmente dizer que moralmente é mau matar um vizinho.

JPG – É anti-nacionalista?
FS – Decididamente. Sou absolutamente anti-nacionalista, contra todos os nacionalismos, começando no espanhol e terminando no chinês. Há um escritor basco, Pio Arroja, que diz que o nacionalismo é uma doença que se cura viajando. O que eu quis dizer com essa frase é um pouco o mesmo. Quando viajas, quando tens que cruzar as tuas fronteiras, deixar o teu lugar, o teu país, e se tens uma certa sensibilidade, dás-te conta que na maioria dos casos a ideia de nacionalismo é absurda. Os seres humanos foram feitos para se misturarem uns com os outros. As pessoas que viajam muito dão-se conta do parecido que são os seres humanos e os seus problemas em toda a parte do mundo. Creio que isso sim é que é a verdadeira lição para uma pessoa nacionalista. Um ser humano pode viver em qualquer sítio, sempre que esteja rodeado de outros seres humanos capazes de o compreender e de o ajudar.

JPG – Essa ideia lembra-me Montesquieu e as Cartas Persas…
FS – Todas as Cartas Persas são uma parábola acerca da universalidade humana e das referências culturais. Foi a primeira vez que alguém decide olhar para a sua civilização com os olhos de uma pessoa de outra cultura… Os persas que chegam a Paris surpreendem-se muito com as coisas pequenas mas reconhecem-se nas coisas importantes. O grande avanço dos ilustrados foi ter mostrado que, no acessório, os seres humanos são imensamente diversos, nas línguas, nas culturas, nas gastronomias, nas religiões, mas que nos pontos essenciais são muitos parecidos, porque os pontos essenciais estão determinados pela necessidade, não pela liberdade. Naquilo em que a liberdade intervém, os seres humanos são muito distintos, porque nós não sabemos o queremos com a nossa liberdade. Mas onde a necessidade intervém, somos muito parecidos, porque nós não escolhemos as nossas necessidades.

JPG – E, no entanto, disse numa entrevista anterior que não gosta de viajar…
FS – Eu não gosto de viajar mas passo a vida a viajar. A sensação de desenraizamento não tem que ser física. Uma pessoa, como eu, que tem um pai andaluz, uma mãe de Madrid, avós da Argentina e da Catalunha, não precisa de mover-se fisicamente. Eu já provenho de uma viagem, de uma viagem genética…

JPG – Num dos seus livros afirma que “as nações falam de si mesmas como qualquer indivíduo conta as suas peripécias eróticas…”
FS – Todos os nacionalismos são masturbatórios. São sempre uma espécie de massagem permanente ao ego colectivo. O problema é que todos os nacionalismos são contra outros, as nacionalidades formam-se contra outras. E, claro, num mundo de mestiçagens, de misturas, isso é muito perigoso.

JPG – O seu livro Contra las Patrias é um tanto polémico. Qual é que foi a reacção em Espanha?
FS – Foi um livro bastante escandaloso na sua época, quando foi publicado nos anos 80. Creio que foi a primeira vez que alguém considerado de esquerda em Espanha escreveu um livro contra os nacionalismos, contra a obsessão nacional. Porque até então, os nacionalismos era sempre vistos como algo de progressista. Franco lutou contra as nacionalidades, por isso as nacionalidades tinham prestígio… quando havia um acto público e alguém cantava em catalão ou basco… Nos anos 70, e mesmo no começo dos 80, o nacionalismo estava conotado com a resistência anti-franquista. Durante muito tempo confundiu-se em Espanha a esquerda com o anti-franquismo, ou mesmo a democracia com o anti-franquismo. Mas havia anti-franquistas que não eram democratas.

JPG - “Não nasci para a contemplação, não me interesso por nada em que eu não possa intervir imediatamente”. A função do filósofo compromete-o perante os outros seres humanos?
FS – A mim sim, aos outros não sei (risos). Penso que a filosofia é uma forma de acompanhar os outros…

JPG – É portanto um homem comprometido com a sua época?
FS – Com a minha época porque não posso estar comprometido com outra (risos).

JPG – Defende a despenalização das drogas. Porquê?
FS – Desde há muitos anos que defendo a despenalização das drogas. Os seres humanos sempre conviveram com a droga, e isso desde o começo da Humanidade. Todas as culturas conheceram as drogas, excepto talvez os esquimós que não têm vegetação, por isso é difícil terem acesso a substâncias aditivas (risos). É absurdo pensar que agora, na grande época da química, em que qualquer pessoa com um pequeno laboratório caseiro pode fazer substâncias sintéticas, as drogas vão desaparecer. Temos é que aprender a conviver com as drogas, como aprendemos a conviver com os outros problemas da Humanidade. Há que ensinar a temperança. A temperança significa utilizar os prazeres sem ser destruído por eles. Creio que a proibição é a fonte de todos os males, do tráfico das drogas, dos delitos, da adulteração das substâncias…

JPG – Já consumiu drogas?
FS – Eu…? Muitas… todas… acho que todas… pelo menos as da minha época… agora devem ter aparecido umas novas (risos).

JPG – Uma pessoa deve ter direito a drogar-se?
FS – O que me chateia é quando coisas como a droga se convertem numa forma de vida. São coisas que ocorrem na vida de um indivíduo, são etapas, formas de ir conhecendo coisas, formas de ir apalpando, de ir explorando. Agora, é bom tomar drogas? Não, não é bom nem mau. É uma coisa que podes fazer e da qual podes tirar proveito ou que pode levar-te à destruição. Com a política é o mesmo, com o amor é o mesmo… Irritam-me os missionários, seja da droga seja da abstinência das drogas.

JPG – Quando é que é necessário obedecer? Quando é que é preciso criticar?
FS – Temos que estudar cada caso. Há duas atitudes que dependem sempre do estabelecido: a que obedece sempre e a que se opõe sistematicamente a tudo o que se diz. A crítica, em sentido etimológico, vem de discernimento, de distinguir. Criticar é ser capaz de distinguir entre umas coisas e outras. Portanto, quem obedece sempre e quem se opõe sempre ao estabelecido não distingue. Vivem dependentes do que existe. Há que viver um pouco autonomamente.

JPG – Quem define o que é preciso para viver em sociedade?
FS – A paciência. A companhia dos outros é sempre difícil de suportar. O homem moderno vive um pouco o complexo da criança mimada, que pensa ser o centro do universo, a criança que quer tudo, quer tudo agora, e todas as sociedades querem tudo imediatamente, não admitem as contrariedades. O sonho infantil por excelência é essa omnipotência. Quando crescemos continuamos a sonhar um pouco com isso. Mas a sociedade é o contrário, é admitir que cada um é importante por si mesmo e que nós somos apenas mais um dentro de um mundo de pessoas que têm os seus próprios fins… ora isso é difícil de suportar. Temos que ter uma certa paciência e uma certa humildade. A sociedade é imprescindível, não há que pedir que sejamos permanentemente felizes, que seja um êxtase permanente… um orgasmo perpétuo por viver em sociedade. A dor, por exemplo… o mundo moderno toma 50 pastilhas por dia para que lhe deixe de doer. É importante aprender a conviver com a dor, porque muitas vezes quer lembrar-te as coisas importantes. Há que aprender a viver com o insuficiente. O filósofo é alguém que aprende a viver com o insuficiente, sabe que vamos conviver sempre com o insuficiente.

JPG – O que é a ética?
FS – A ética, em primeiro lugar, não é um código. É uma perspectiva, uma forma de olhar para as coisas. É uma tentativa de dar sentido à liberdade. Somos livres, somos capazes de optar mas o importante é saber que sentido dar a essa opção, se um sentido meramente instrumental se um sentido mais social… Por isso a ética significa também acção. Desconfio muito de uma ética meramente teórica. A ética tem que aplicar-se a cada situação e cada situação é diferente…

JPG – A estética triunfou sobre a ética?
FS – Um dos problemas da modernidade foi precisamente tentar substituir a ética pela estética. A estética está ligada à novidade e o nosso século está ávido de novidades. A ética é o contrário, é a memória do que não muda, a ideia de que o ser humano deve ser o mais importante para outro ser humano, o direito de o ser humano não poder ser utilizado como uma ferramenta, um instrumento. Todas essas coisas não variam, não mudam. Por isso o discurso ético é muito aborrecido, é sempre sobre o mesmo. Não há novidades no mundo da ética. Às vezes perguntam-me qual é a ética do século XXI. E eu respondo: é a mesma do século XX.

JPG – Mas cada época coloca problemas novos. Quais são as tarefas da ética nos dias de hoje?
FS – Sim, claro, a globalização, a ecologia, a desflorestação do mundo, a poluição dos mares, a fome das massas que não se poderá nunca resolver a não ser à escala mundial, a educação dos jovens, os problemas das mulheres… São tarefas concretas, mas os valores que estão por trás dessas tarefas são os mesmos de sempre. Se me sinto preocupado com a fome das crianças é pelos mesmos princípios que valiam no século XVI e XVII. Os problemas da solidariedade humana não mudaram, os princípios básicos são os mesmos. O professor de ética não pode fazer mais do que recordar os problemas de sempre, enquanto que a estética pode mudar completamente os seus conteúdos.

JPG – Disse que o nascimento da filosofia marca a verdadeira origem da era a que pertencemos. Porquê?
FS – Na nossa civilização, a filosofia está ligada ao fenómeno básico, politica e socialmente, que é a democracia. Sem democracia a filosofia morre. Não poderia existir filosofia sem existir algo parecido com a democracia. Por isso acho um absurdo quando se fala da filosofia na China ou da filosofia hindu. Na China, na Índia, houve sabedorias... Muito importantes, claro, mas não filosofia, porque a filosofia exige o mecanismo democrático. Não pode haver filosofia sem democracia.

JPG – Há dilemas insolúveis?
FS – Sim, muitos, encontro pelo menos um ou dois todos os dias.

JPG – O que é que pensa da morte?
FS – Uma das poucas originalidades do meu trabalho é ter falado muito da morte. Procuro reflectir muito sobre o tema da morte. Quando percebi, em criança, que mais tarde ou mais cedo iria morrer, foi quando pela primeira vez me pus a pensar por mim próprio. Nos diálogos do Fédon, de Platão, Sócrates diz que filosofar “é preparar-se para morrer”.

JPG – Deus faz falta?
FS – Um amigo meu, um escritor catalão de origem indiana, Salvador Pániker, escreveu recentemente um livro, Cuaderno Amarillo, onde me dedica um capítulo em que diz que eu sou a pessoa mais incapaz de concepções transcendentes, metafísicas. Diz que eu nunca tive problemas teológicos, nem vivi a agonia da ruptura da fé. Eu não tenho, digamos, o terceiro sentido para a transcendência, para a metafísica… Apesar de ter sido educado numa família muito católica, em colégios marianistas, nunca tive essa necessidade, nem uma agressividade especial, salvo contra os clérigos porque me parece que em países como Espanha tiveram consequências muito negativas… sou contra as acção política da clericanalha.

JPG – A religião pode ajudar à vida boa?
FS – A religião é um pouco como o vinho. Há pessoas a quem cai bem, outras a quem cai mal. Há pessoas que bebem e ficam muito simpáticas, muito generosas, que repartem o seu dinheiro com os outros, como naquele filme do Charlot, não sei se era As Luzes da Cidade se O Miúdo, em que aquele milionário quando estava bêbedo e se encontrava com Charlot lhe dava dinheiro e quando estava sóbrio batia-lhe. Com a religião passa-se o mesmo. Há pessoas que por causa da religião vão ao fim de África cuidar do próximo, fazer coisas que ninguém faria por outros motivos. Essa gente pode sentir-se bem, muito feliz pensando noutro mundo.

JPG – O que é que lhe agrada realmente na vida?
FS – O que mais gosto no mundo são as corridas de cavalos. Estou a escrever agora um livro que é o ano 2000 visto através das grandes corridas de cavalos do mundo, por isso tenho viajado muito. As pessoas também foram sempre muito importantes para mim. Não gosto dos objectos. Gosto da materialidade dos outros seres humanos, de tocar numa mulher. Agora fazer colecção de objectos… Gosto das coisas muito simples, a comida, o vestir e, no entanto, gosto da sofisticação intelectual. O meu sonho é converter-me em alguém de gostos muito simples e mente muito complexa.

JPG – Acha que o ser humano é hoje mais feliz que no passado?
FS – Não estive no passado para poder dize-lo. Gostava de ter vivido no século XVII ou XVIII para agora o poder dizer.

JPG – No seu dicionário de filosofia aparecem entradas para Casanova, Robert Louis Stevenson, Peter Cushing…
FS – São gosto pessoais. O filósofo não tem que coincidir com as ideias que se atribuem ao filósofo, uma pessoa séria, grave… o importante é que o filósofo, ou um aficcionado da filosofia como eu, possa mostrar a sua vida. Ora da minha vida fazem parte Cushing, os monstros dos filmes americanos dos anos cinquenta. E tudo o que faz parte da minha vida eu tento converter em reflexão. O importante não é que haja temas filosóficos e temas não filosóficos. Não existem temas filosóficos. A filosofia reflecte filosoficamente sobre tudo. Portanto, podemos fazer filosofia a partir de qualquer coisa, e cada um deve fazê-lo a partir da sua vida. Eu procurei fazê-lo a partir da minha.

JPG – O que é que aprecia num escritor?
FS – Gosto da falta de ênfase. Não gosto de escritores enfáticos, parece que cada frase que escrevem foi pensada para ser uma máxima.

JPG – O paradoxo é uma das figuras literárias de que mais gosta. Qual é o maior paradoxo da nossa época?
FS – Bom, eu efectivamente gosto do paradoxo porque os escritores que mais gosto, que são Chesterton e Unamuno, são dois criadores de paradoxos. O paradoxo é algo, digamos, óbvio e que, ao mesmo tempo, sacode as nossas certezas. Hoje em dia assistimos ao contraste que é uma sociedade humana cada vez mais universal, mais global, e indivíduos a defenderem como nunca a sua individualidade. A tribo pequena admite muito menos individualidade que a sociedade global. Quando todos estivermos num mundo homogéneo, pelo menos em termos políticos, é quando seremos mais individuais. Esse é o momento precisamente em que a individualidade não vem do grupo mas em que terás que a buscar tu próprio. Esse é um dos paradoxos da modernidade. Curiosamente, todos os que lutam contra a globalização o que querem é tribos mais pequenas onde possam sentir-se acolhidos.

JPG – Já encontrou o que procura?
FS – Seria mau sinal se eu já tivesse encontrado. E depois, o que é que fazia?

JPG – Se tivesse que escrever um epitáfio para si, o que punha lá?
FS – Gosto do epitáfio de Groucho Marx: “Senhora, perdoe que não me levante”.


Terça-feira, Abril 12, 2005

 

Conhece-te a ti mesmo

Byron dizia que a sociedade é composta de dois grupos: os enfadados e os enfadonhos. E tu? A que grupo pertences?

 

A Mafia Senta-se À Mesa IV





No ano de 1963, Frank Sinatra pediu audiência a Genco Russo. Sinatra viajou até à Sícilia na condição de embaixador da Cosa Nostra, a mafia americana. Em causa estava a sucessão de Lucky Luciano, envenenado com cianeto no ano anterior. O encontro estava marcado para as 11 horas no átrio do Hotel Sole, em Palermo. Às 13 horas, Sinatra continuava à espera, movimentando-se de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. O nervosismo do cantor de My Way divertiu o magote de jornalistas e fotógrafos presentes. Don Genco Russo, quase analfabeto, queria mostrar à estrela de Hollywood que era ele quem ditava a lei dos chefes das famílias da Cosa Nostra. A demora prolongou-se mais meia hora. Às 13h e 35m, Don Genco começou a subir a escadaria do hotel. Levava o casaco debaixo do braço, um chapéu de coco estilo anos 30 e suspensórios a prender umas calças excessivamente subidas nas costas. Sinatra ajoelhou-se aos pés do soberano e agarrou-lhe a mão direita, que beijou em sinal de vassalagem: “Baccio i mani, Don Genco”.
Giuseppe Genco Russo era um dos homens mais ricos da ilha. Tinha uma fortuna pessoal avaliada em mais de cento e dez mil milhões de liras, aos quais devem ser acrescentados cento e quarenta e sete mil hectares de vinhas, citrineiras e searas, rebanhos e o rendimento de quatrocentos imóveis ou propriedades. Anos antes, em 1954, fora coroado sucessor de Don Calogero Vizzini, um dos chefes históricos da organização. A cerimónia decorreu no funeral deste último e foi testemunhada por todos os chefes das famílias: Navarra, Celeste, Albano, Di Peri, entre outros. Parecia um “soberano bárbaro no coração da sua tribo”.
Don Genco ordenou a Sinatra: “Alzate! Non sei rifardu!”, levanta-te, não és um estranho. E quando o cantor fez tenção de lhe falar, despediu-o com um gesto imperioso da mão. Publicamente humilhado, Sinatra teve de esperar mais dois dias até ser recebido pela Mafia siciliana, por ocasião do almoço oferecido por Genco Russo na sua residência de Agrigento. O ídolo da América entrou no pátio da casa, onde algumas mulheres de preto, sentadas em cadeira de palha, depenavam galináceos. Foi-lhe dito que Don Genco estava a cuidar das vinhas e que não demorava. Pela segunda vez em três dias, a vedeta era deixada à espera.
Uma hora mais tarde, Sinatra foi conduzido à sala de jantar onde já se encontravam à mesa uma dezena de chefes mafiosos, todos eles de camisa, suspensórios e bigode. Durante o almoço, ninguém ligou ao cantor. As atenções estavam todas voltadas para o anfitrião, que se mostrou jovial e espirituoso. De entrada, os convidados comeram dois petiscos da cozinha mafiosa: pasta-cicci, uma sopa siciliana feita com carne cozida, macarrão e grão-de-bico misturados no suco da carne e no azeite; e bollito-misto, carnes acompanhadas de legumes cozidos, como cebolas, alhos franceses, espargos, cenouras e nabos. As criadas serviram depois cordeiro assado à moda de Agrigento com fundos de alcachofras e espinafres gratinados.

Jarrete de Cordeiro à Moda de Agrigento

Segundo Martine Bartolomei, o segredo desta receita reside no molho de anchovas. Enquanto o cordeiro está a cozinhar na assadeira, escorra dois filetes de anchovas, descasque um dente de alho e desfolhe um ramo de rosmaninho. Pise tudo num almofariz e adicione cinco colheres de azeite e outras tantas de vinagre de vinho. Quando a carne estiver pronta, regue-a com o molho e leve a reduzir a fogo lento. Retire o excesso para uma molheira.

Fundos de Alcachofras com Espinafres (6 pessoas)

1 kg de espinafres 4 filetes de anchovas
8 alcachofras pequenas 1 dente de alho
muito tenras 1 cebola
50 g de parmesão ralado azeite
50 g de pão ralado sal e pimenta
25 g de farinha

“Refogue no azeite o alho esmagado, a cebola picada e as anchovas demolhadas e cortadas finamente. Junte os espinafres abundantemente lavados, bem escorridos e cortados finamente. Deixe reduzir a fogo lento durante dois minutos, depois salpique de farinha, tempere de sal e pimenta, cubra e deixe estufar por mais cinco minutos.
Tire das alcachofras as folhas e a barba e disponha os fundos num prato de ir ao forno untado de azeite. Tempere de sal e pimenta e cubra com os espinafres, o azeite, o pão ralado, o parmesão.
Leve a forno forte durante vinte minutos. Sirva muito quente”.

Durante a refeição não se pronunciou palavra, ouvindo-se apenas os ruídos dos talheres e da mastigação. A conversa foi recuperada à sobremesa, com os marmelos no forno e o flan de castanhas.

Flan de Castanhas (8 pessoas)

150 g de farinha peneirada 60 de açúcar
10 cl de leite 2 gemas de ovo
75 g de manteiga

Guarnição:
350 g de castanhas grandes 3 claras de ovo
40 cl de leite um pouco de manteiga
vagem de baunilha um pouco de açúcar baunilhado
2 colheres de açúcar
4 colheres de nata líquida
muito untuosa

Faça um buraco na farinha para aí introduzir o açúcar, a manteiga, as gemas, uma pitada de sal e o leite. Misture sem bater e faça uma bola. Deixe a repousar durante duas horas em local fresco. Faça uma incisão na casca das castanhas e deite-as num tacho com água a ferver durante cinco minutos. Já sem pele, junte-as num tacho com o leite, a baunilha, o açúcar e uma pitada de sal. Deixe a cozer em lume brando durante quarenta e cinco minutos. Tire do fogo e junte a vagem de baunilha e as natas. Misture tudo muito bem e inclua as claras em castelo.
Estenda com um rolo a massa, cuja espessura não deve ultrapassar meio centrímento. Introduza-a numa forma de pudim bem untada de manteiga, retire a massa que extravasa e dobre os rebordos para dentro. Pique o fundo com um garfo. Despeje o preparado de castanhas e espalhe-o uniformemente. Coza em calor moderado durante quarenta minutos. Deixe o flan arrefecer e polvilhe com açúcar baunilhado.

Sinatra viu-se sempre excluído da conversa, limitando-se a sorrir e a ouvir as infindáveis histórias de assassinatos e de compras de terrenos que marcavam o final das refeições sicilianas. A seguir aos cafés e à grappa, Genco Russo fez sinal ao cantor para que o seguisse. No seu gabinete, “o anfitrião jovial que momentos antes dava os seus ditos de espírito em bandeja a um auditório servil tinha dado lugar ao impiedoso tubarão de quem há quarenta anos falavam os relatórios de polícia”. Quando regressou à sala de jantar, Don Giuseppe disse para que todos o ouvissem: “Os States nunca passaram de uma terra que nós, Sicilianos, colonizámos e não vão ser os emigrantes que só existem graças a nós que hão-de vir mandar na nossa pátria.”
Quando se lê A Mafia Senta-se à Mesa é impossível não sentir um apetite voraz. As histórias e as receitas que aqui resumi são apenas alguns exemplos do que pode encontrar no livro. A si compete-lhe reconstituir a cozinha siciliana “com reverente exactidão histórica”, como dizia Eça a propósito da gastronomia greco-romana: “Eis aí um incomparável serviço feito ao estudo do passado. Já vastamente explorámos a Antiguidade nas suas letras: é tempo de a esquadrinharmos nos seus petiscos. Que os estudiosos, pois, fechem os livros — e preparem as caçarolas.”

Domingo, Abril 10, 2005

 

Bullet Proof Soul



Sade, Love deluxe
 

Conhece-te a ti mesmo

Louis-Ferdinand Céline costumava dizer que só há dois tipos de pessoas: os exibicionistas e os voyeurs. E tu? De que tipo és?

João Pedro
 

EU FICO




João Pedro


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