15 Julho 2005

Bahia, 1860

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A fotografia, de autor anónimo, chegou-me num e-mail do Luiz Antônio Assis Brasil: “Reparem nas figuras. A moça, em sua "cadeirinha de arruar", moça belíssima – mesmo para os esquálidos padrões de hoje –, ostenta o desdém de rapariga rica, mas que leva no olhar uma intensa e dolorosa solidão. Quanto aos escravos: o da esquerda, subserviente, não vai para além de sua miséria, de seu baixar a cabeça. Já o outro é o tipo que tem, na atitude, muito do que viria a ser o clássico malandro brasileiro, em sua pacholice de servo de gente de qualidade, o que o colocava numa posição superior. Observem: ambos estão de cartola e pés-no-chão”.

14 Julho 2005

Mau negócio

Não fosse esta coisa aborrecida da redução do orçamento comunitário, Carlos, e eu até estava capaz de te propor sociedade para uma joint-venture à maneira: enquanto tu contavas aí em baixo, eu ficava cá por cima – uma, duas, três, quatro – a contar as estrelas todas do céu. Mas é preciso não desonrar a pátria. Isso nunca. Não devemos fazer nada que não tenha subsídio.

13 Julho 2005

Três notas

A fazer fé nas sondagens, a minha cidade ainda hoje era dirigida por um senhor que agora é administrador da Petrogal.
A fazer fé nas sondagens, a minha cidade merece o presidente que tem.
Perante as sondagens, devemos fazer como S. Tomé: ver para crer. O Porto há-de ser melhor do que isto.

Desenjoar

Lá na vila, quando era Verão, os rapazes chegavam a gostar que viessem os fogos. Já estavam fartos de estar na esplanada do café central a ver passar as pernas das francesas.

E depois?

Estive no meio das brasas, conduzindo entre espectros chamuscados. Senti medo enquanto atravessava o fumo que corria para a estrada, sob o voo rasante do par de aviões. Talvez nem fosse isso. Apenas um princípio de incerteza, ignorante do que estava para lá da cortina tóxica do fumo negro.

08 Julho 2005

Pessimismo cor-de-rosa

Ah! Como é dura a vida e injusto o mundo. Ah! Carestia. Inflação. Desemprego. Baixos salários. Ah! E exploração. Terrorismo. Seca. Guerras. Fome. Morte. Incompetência. Usura. Filhadadaputice... Ah!
Mas eu ainda hei-de ir lamber picolés à beira-mar.

Silêncio

Afinal, o céu desta cidade está coberto de fumo; sente-se o cheiro dos longínquos eucaliptos queimados, mas não o crepitar das chamas, nem o rechinar da resina nas brasas. Também não se escutam os ferros retorcidos pela deflagração, nem os choros, nem os gritos aflitos, nem os gemidos das vítimas ou a pele descolando-se da carne.
Talvez fosse possível dizer e escrever coisas sobre a barbárie e a catástrofe. Mas o silêncio ouve-se melhor.

04 Julho 2005

Vento

Mesmo com um vendaval, as rajadas que agora te despenteassem e te descompusessem o vestido demorariam horas a chegar ao pé de mim, ao meu rosto. Mas, sendo suave a brisa que te acaricia a face, o mais provável é que ela se canse no caminho e não me traga jamais o teu perfume.

01 Julho 2005

Façam o favor de ter um bom fim-de-semana

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Morro de Miragaia, Porto, by myself

Cacofonia (ou demonstração dos malefícios da jornada laboral)

Já sinto o cheiro da jaca, a luz do jacarandá. O Cacá veio à janela, diz que o jacaré vem já.

Como se fosse música

“- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo córrego. Por meu acerto. Todo dia isso eu faço, gosto; desde mal em minha mocidade.”

Primeiras linhas de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

30 Junho 2005

O prevenido

Como as páginas de classificados do jornal diário fechavam cedo, a agência funerária dele passou a reservar espaços na secção de necrologia assim que os potenciais clientes adquirem o estatuto de feridos graves.

Contranatura

Naquela cidade, sem que já ninguém se lembre porquê, as filas nas paragens dos autocarros formam-se da direita para a esquerda. É um hábito arreigado, entranhado: o primeiro a chegar encosta-se ao lado direito dos abrigos transformados em suportes publicitários e quem vem depois toma a esquerda das pessoas que já lá estão. Naturalmente e sem que exista nenhuma norma escrita, nem, crê-se, por qualquer tipo de crença oculta. Também não se ouviu falar jamais de alguma intenção perniciosa neste tipo de organização. O regente da cidade e a empresa de transportes públicos, porém, decretaram que as filas devem passar a formar-se no sentido contrário, da esquerda para a direita, alegando que é isto o que “faz sentido”. Para tanto, está a ser paga uma campanha publicitária para convencer os cidadãos da bondade da medida. A seguir, se bem se percebe o longo alcance da iniciativa, será decretado que os comboios passem a andar pela direita, que os carros circulem pela esquerda (faz sentido para os ingleses), que a chuva caia de baixo para cima, que os dias sejam noite e que as noites sejam dia.
A cidade chama-se Porto e este post não foi escrito por nenhum autor surrealista.

29 Junho 2005

Mau demais para ser mentira

Não sei o que é pior: se quando a vida se assemelha ao mais horrível dos meus sonhos, ou se, ao acordar de um pesadelo, fico alguns minutos convencido de que aquilo era real.

Às vezes, as artes confundem-se com a vida

Num conto célebre do Luis Fernando Verissimo, um turista brasileiro, Oscar, desaparece no interior do Museu do Prado, em Madrid, junto às pinturas de El Greco, e começa a ser visto em vários quadros, inclusivamente espreitando atrás do divã da célebre Maja Desnuda, migrando depois para Amesterdão e Paris, onde aparece, sorridente, posando com o braço por cima dos ombros da Mona Lisa. Creio, por isso, que era Oscar o homem que os funcionários da Fortaleza de Pedro e Paulo, um dos maiores museus de São Petersburgo, encontraram recentemente numa das salas do edifício. Quando lhe perguntaram o que ali estava a fazer, ele respondeu: “Eu vivo aqui”. As notícias eram omissas, mas creio que Oscar ficou muito tempo contando sobre a sua vida dentro dos quadros e que ninguém pôde entender o que dizia, pois falava recorrendo a sons de várias línguas, incluindo algumas que não exitem em país nenhum. Sabe-se apenas que Oscar foi confundido com um sem-abrigo e, provavelmente, remetido a uma instituição psiquiátrica. Deve estar convencido, aliás, de que foi aprisionado num qualquer quadro do Francis Bacon.

Sabedoria popular

Os chamados adágios populares são um fenómeno que sempre me intrigou. Nunca percebi, por exemplo, a quem pertence a autoridade de transformar uma frase de gosto tantas vezes duvidoso numa sentença universal sobre este assunto ou aquele, eventualmente passível de múltiplas aplicações. Se existe, porém, algum instituto responsável pela validação dos provérbios enquanto “sabedoria popular”, atrevo-me a deixar aqui uma proposta à consideração de tal organismo, retirada de um anúncio íntimo publicado num jornal de referência sob o título “sensações momentanêas” (sic): “Mais vale um bom arrependimento do que um mau casamento”. Dá que pensar, não é?...

27 Junho 2005

Aguaceiro

Talvez a felicidade não seja mais, afinal, do que um aguaceiro rápido numa noite de Verão. Convém apenas que se esteja na rua, com o rosto voltado à água e sem guarda-chuva que nos proteja das prodigiosas intempéries da vida.

Incapacidade natural

Durante vários minutos, o clarinete e o acordeão da dupla de imigrantes do Leste tornaram mais agradável o almoço numa das esplanadas do Parque das Nações, onde cá o rapaz afiava os dentes num naipe de belos nacos de porco preto. Depois, os músicos ambulantes vieram colher moedas. Eu contribuí, alguns outros amesendados contribuíram. O ministro que é reformado milionário do Banco de Portugal, porém, mandou os imigrantes à fava. Se outros motivos não existissem, ali estavam, escancaradas, duas razões pelas quais jamais chegarei a ser rico ou ao governo da nação: gasto demasiado dinheiro com os prazeres da boca e não sou insensível ao esforço que os mais desafortunados do que eu fazem para sobreviver.

23 Junho 2005

Pouco lírico

Qualquer poeta jovem deve saber isto, mas o homem velho não o tinha ainda aprendido: não se deve fazer versos sobre animais cujos hábitos não se conhecem suficientemente. Foi, por isso, rasgar tudo o que tinha escrito sobre gaivotas quando viu uma dessas marítimas aves comendo as entranhas de um pombo morto e indefeso.

Plenilúnio 3

Ele unicamente sabe que lhe deu a lua numa noite em que esta se achava cheia. “Toma-a, é tua”, disse. E ela saiu à rua para agarrar o presente com os olhos.

22 Junho 2005

Plenilúnio 2

Há-de ter havido festa rija na montra, orgia na loja de pronto-a-vestir. Quando, ao amanhecer, os transeuntes chegaram à Rua de Santa Catarina, os manequins ainda estavam nus, indecentes, sem pudor nenhum. E tinham, nos lábios, dúplices sorrisos de monalisa.

Plenilúnio 1

Com os coletes amarelos fluorescendo, os varredores andaram toda a noite, rec-rec, limpando as ruas varridas pela lua cheia. Toda a noite. Rec-rec. Toda a noite namorando, eles e a lua branca sobre a minha cidade.

21 Junho 2005

E viva!

Viva o nosso presidente! Viva! Para que me não acusem mais de fazer parte da vil conspiração que continuamente ataca Rui Rio, aproveito a ocasião para defender aqui, e publicamente, o Grande Prémio Cidade do Porto. Viva ele! Aliás, os portuenses desejam ardentemente que mil corridas de carros antigos floresçam e que, com elas, venham mais e mais linhas do metropolitano para pagar as respectivas obras. Se assim não for, corremos o risco de não ter obras em lado nenhum pelo menos até à próxima década.

A conspiração

É evidente que o leitor avisado perceberá imediatamente que a simples escrita do post anterior faz parte de uma tenebrosa conspiração que tem por alvo o nosso irrepreensível autarca. O ódio desta tasca por Rui Rio não é, porém, infindável. Reconheço, por exemplo, o seu empenhamento sincero na promoção dos transportes públicos, o que, aliás, pode ser constatado na Avenida da Boavista. A Metro do Porto, para prová-lo, até já está a pagar as obras que ali decorrem. E porquê? Porque o nosso valoroso edil, atento ao interesse público, assim decidiu.

O farol

Apenas um pouco tarde, como manda a tradição deste endereço, não gostaria, ainda assim, de deixar passar em brancas nuvens um estudo da Universidade Fernando Pessoa divulgado no passado fim-de-semana, o qual, com o intuito de reduzir em 10% a poluição atmosférica portuense, faz a apologia da instalação de portagens à entrada da cidade. Valentes avantesmas! Não saberão que a nossa mui amada autarquia, sempre na vanguarda, tem espalhado pela cidade uns aquários de vidro assim a estardalhar de jeitosos e que são, lá está escrito, “Meios Urbanos de Promoção Automóvel”, vulgo MUPA. Mais: pelo conteúdo dos ditos MUPA, a edilidade está empenhada não apenas na promoção do mero e corriqueiro automóvel, mas, isso sim, do automóvel já com vários anos de provectidade e capazes, portanto, de envenenar as atmosferas vários quilómetros em redor com a simples queima das gasolinas com metais pesados resultantes de uma singela aceleração. Depois do maior desfile de pais natal e da maior concentração de carros de bombeiros, o Porto há-de ser também uma referência mundial na poluição do ar. Um farol para a humanidade toda!

Solstício

Começa o Verão, está lua cheia e, segundo o Nuno, a lua, para além de cheia, atingirá amanhã o ponto mais baixo no horizonte dos últimos dezoito anos. Vai estar enorme, portanto. Com uma cerveja gelada, alguma disponibilidade e a disposição adequada, um homem tem quase tudo aquilo de que necessita para se sentir feliz. E, sendo assim, a pergunta impõe-se: porque é que alguns homens não ficam? Isso. Felizes.

Caligrafia

O meu avô afiava os lápis com uma faca. E tudo o que sabia escrever era o próprio nome, muito devagarinho, para não se enganar no desenho de cada uma das letras.

Frente nacional

Só em 2004, 19,2 milhões de pessoas tiveram que abandonar as suas casas, transformando-se em refugiados, asilados, etc.
Destes 19,2 milhões, 40% vivem (ou viviam) em países africanos.
E há ainda uma multidão muito maior de desgraçados que, não sendo refugiados oficiais, fogem para onde podem, vão atrás de uma vida melhor do que aquela que podem ter num dos inúmeros países depauperados e aviltados por séculos de colonialismo europeu.
Quando afastados dos seus países de origem, este deslocados fazem os trabalhos mais duros e vivem nas zonas mais degradadas, sendo as principais vítimas da violência que ali regularmente eclode, fruto, pelo menos em parte, dos fenómenos de exclusão.
Como se podia ver em qualquer imagem, uma boa parte dos frequentadores da praia de Carcavelos aquando do recente arrastão tinha a pele escura – como Machado de Assis, Pelé, Luther King, Michael Jordan ou Kofi Annan. Do mesmo modo, uma boa parte dos passageiros da linha que Queluz onde ontem sucedeu um assalto violento era de origem africana. Alguns seriam ucranianos, romenos, bielorussos, etc. Iam de casa para o trabalho, cansados, como qualquer emigrante português em Paris, em Hamburgo, no Ulster.
Foi contra estes perigosos estrangeiros e a sua respectiva invasão que os fascistas portugueses se manifestaram no passado sábado.
Se ser português é aquilo, se ser patriota é desbocar estupidamente pregões contra os estrangeiros, então eu quero ser guineense.

17 Junho 2005

E agora para algo ainda não muito diferente

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Como dizia há dias o Filipe Moura, era apenas um homem que, como os outros, cometeu os seus erros. Mas a quem, decerto, devemos alguma coisa. Choca um bocadinho que aqueles que encheram as nossas cidades de ruas, praças, estátuas e outros mamarrachos com o nome de Sá Carneiro, se abespinhem agora tanto na hora de homenagear um homem grande.

Agora, mudemos de assunto. Os mortos têm o direito de descansar em paz.

É claro que o comunismo fracassou#4

É, pelo menos, o que garantem os mesmo que criticam o facto de o comunismo ter um objectivo finalista. Ou seja: ao mesmo tempo que asseguram que o fim da História não é concebível, são capazes de assegurar que a história do comunismo já acabou ou está em vias disso. Creio, porém, que nem o professor Zandinga consegue fazer previsões a tão longo prazo. Ainda temos muita História pela frente.

É claro que o comunismo fracassou#3

Ou, pelo menos, fracassaram os regimes alegadamente comunistas que o mundo conheceu. Não tenho a certeza, porém, de que seja exactamente a mesma coisa.

É claro que o comunismo fracassou#2

Se não fosse assim, os humilhados, ofendidos e deserdados não andavam por aí a assaltar praias de arrasto, nem a vender droga nas esquinas esconsas dos bairros sociais; tinham ido ao funeral do Álvaro Cunhal com uma bandeira vermelha ao ombro.

É claro que o comunismo fracassou#1

Muito mais difícil do que acabar com os amos da terra, é eliminar os filhos da puta que nos estão próximos.

15 Junho 2005

Cavalo branco


Quando eu era pequeno e a Democracia ainda uma criança, pessoas das minhas relações (familiares) chamavam-lhe “cavalo branco”. E um cavalo branco, convenhamos, é um ser de conto de fadas; é um animal que cavalga sozinho em verdes prados. Os cavalos castanhos, e os negros, podem ser a maioria. Mas o cavalo branco, ao menos, mesmo que apenas pareça vaguear, mesmo que, na aparência, ande perdido, sabe muito bem para onde vai; que não é preciso estar junto do rebanho.

Romeu e Julieta?

Implacáveis e competitivos, os distribuidores dos jornais “Metro” e “Destak” disputam, como numa guerra, as esquinas da cidade, as bocas do metropolitano, o transeunte ainda desprovido de publicações. No ângulo da Rotunda da Boavista com a Rua de Júlio Dinis, porém, o rapaz do “Destak” sorri amenamente para a entregadora loira do “Metro”. Quantas desgraças não nasceram já de sorrisos destes?

Rio I, uma fábula

Rio I, o justo, o rigoroso, que digo?, o maior autarca do mundo conhecido e arredores, mandou que no reino se fizesse uma obra vistosa onde pudessem ser postas a correr as quadrigas antigas da sua mais estimada predilecção. E fez saber que a edilidade pagaria a empreitada, esperando, porém, que, posteriormente, a empresa das carruagens amarelas assumisse a despesa, assim que ali quisesse pôr a circular as viaturas de transportes colectivos. Rio I, o administrador da empresa das carruagens amarelas, decidiu, porém, que a empresa das carruagens amarelas pagava já a factura, sem mais delongas.

Auto-ajuda

«Bom dia», cumprimentou-o um indivíduo num tom formal e sério, ainda que amigável: «Quando irá sair, por fim, o teu novo livro?»
«Há que ter paciência», respondeu o visado, e ajuntou que sentir-se um ser humano e dar passeios lhe parecia tão bonito como estar sentado a uma secretária e ter sucesso a vender livro.


In “A Rosa”, de Robert Walser, 1925, edição portuguesa da Relógio D’Água

O fogo e os frutos


Gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol”.

12 Junho 2005

Leonor S., colega de Walser

A artista até é, muito provavelmente, uma grande artista, com licenciatura e mestrado, participação em programa televisivo de grande audiência e livro publicado pela prestigiada D. Quixote. Mas ali, na Feira do Livro, abandonada atrás da mesinha apertada e sem a almejada fila de fãs diante do stand, Leonor S. é só mais um desses chatos que escrevem livros, esses Walser, esses Saramago, esses Antunes, esses Tavares e esses carvalhos todos, inúteis que não têm mais que fazer. Quando muito, algum respeitável chefe de família aproveita para catrapiscar o generoso decote da moça, para espreitar as pernas cruzadas debaixo da mesa, mas não se aproxima, que a patroa não deixa. Ou alguma criança reconhece Leonor da televisão e dela se acerca, curiosa, enquanto os pais tentam afastar a menina, não vá ela fazer uma birra se não lhe comprarem o livro. É difícil a vida de uma stripper portuguesa...

Palavras em vias de extinção

Coturno.
Houve um tempo em que apenas queria dizer peúga e ainda não servia para se dizer que fulano assim-assim é um gatuno de elevado gabarito.

11 Junho 2005

Morreu o companheiro Vasco. Força!


É da mais elementar justiça dizer-se que ao Movimento das Forças armadas fica o povo português a dever um espaço limpo onde erguer os rosto
Eugénio de Andrade

08 Junho 2005

Dança da chuva

A verdade é uma só: fala-se demais e faz-se, neste país, muito menos do que aquilo que podia ser feito. Veja-se o exemplo da seca. Andámos há meses a atirar a culpa das nossas proverbiais preguiça e falta de planeamento para a escassez de chuva. E o que fizemos para merecer a simpatia de S. Pedro (ou lá de quem tem a pasta divina do ministérios das pluviosiodades)? Nada. Quando muito, umas procissões bisonhas. No Nepal, porém, não se brinca em serviço e, já esta semana, antes que se confirme o atraso das monções, um grupo de cem mulheres dançou em homenagem a Mahadev, o deus das pequenas gotas. Juntaram-se numa escola de Darbang, a 280 quilómetros da capital, Kathmandu, e, após cobrirem a cara com pó preto, cumpriram o ritual de dançarem nuas. Com espírito empreendedor e um casting adequado, creio que também por cá era possível executar alguns milagres.

Apre!

Mais informo que a minha funerária preferida, malgrado os pergaminhos da Saramago, é, pelos motivos óbvios, a portalegrense A Funerária Marmelo, Lda., da qual, porém, espero não ser cliente nos tempos mais próximos.

Saramago

Num anúncio oportunamente publicado na página de Necrologia do Jornal de Notícias de hoje, a Funerária Saramago, Lda. faz saber que é “a única e legítima sucessora” da Casa de Saramago, da Antiga Casa Saramago e da Secular Casa Saramago, apresentando-se, assim, como herdeira de um a linhagem com “mais de 150 anos” de “serviço completo” com “honestidade e civismo”. Talvez por isso, não refiram em parte nenhuma o serviço fúnebre do senhor Ricardo Reis.

07 Junho 2005

Relato galego

No dia em que Rosa morreu, os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para a goela e olhavam as gaivotas com a persistente angústia dos pescadores quando estão em terra firme, recordaram que Rosa, enquanto viva, era a moça mais bonita jamais vista. Dois ou três sublinharam o momento suspirando profundamente. Algumas portas adiante, as mulheres também se juntaram para comentar o óbito. Recordavam-se perfeitamente do ódio que tinham a Rosa, da inveja que sentiam quando os homens a miravam ao chegarem do mar. Mas, estando Rosa morta, as mulheres já não lhe chamam puta, nem escarram para o chão quando escutam o nome dela.

06 Junho 2005

Bons exemplos

No Porto, começa hoje um congresso que reúne 300 participantes e que se destina a discutir as cidades históricas e a melhor forma de as preservar e defender. Como o congresso decorre na Biblioteca Almeida Garrett, supõe-se que os ilustres visitantes sejam convidados a ir contemplar, ali a dois passos, os dois montes de terra que a Câmara do Porto plantou diante de um monumento nacional, o Museu Nacional Soares dos Reis, junto do qual a autarquia construiu um túnel sem pedir autorização ao organismo responsável pela preservação do património.

Talvez Angelina, Jolie é que não

É fácil amar eterna e arrebatadamente nas revistas cor-de-rosa. O difícil, aquilo que realmente custa, é ser uma mulher gordita do Porto e ter que atravessar a Avenida dos Aliados com o nome do Júlio tatuado no braço esquerdo. Se, um dia, o Júlio se cansar dos refegos dela, dificilmente terá como pagar a cirurgia a laser que lhe apague o passado.

02 Junho 2005

Cafetaria Golden Ice

Melhor do que um café em Campanhã é um café em Campanhã que se chame Golden Ice e seja, na verdade, uma cafetaria. Que tenha garrafinhas de Magos enfileiradas nos expositores e “tabaco só ao balcão e pago no acto”. Em cujos cinzeiros haja, ao acaso, uma cabeça de gamba cujos olhos parecem mirar-nos num derradeiro grito de socorro. Onde, enfim, se anuncie, em circunspecto cartaz, a venda, por euro e meio, de “café + whisky da casa”.