Julho 18, 2005
tão alto o voo, tão grande a queda
certo dia um apogeu
tropeçou
sem dar por isso
num borboto
uma raiz
mesmo ao rés de um precipício
minúsculo
mero resquício
tão imenso o apogeu
... e era aquele o seu início.
- Jorge Castro
Julho 16, 2005
economistas do bloco central...
Mas não se pode exterminá-los?
Devo confessar que estou um pouco cansado de transmitir, ultimamente, apenas desgraceiras sobre o estado da nação, mas que fazer?...
Ainda ontem, sentado na sala de espera do estomatologista, tentei enganar essa espera, lendo uma daquelas revistas antigas que sempre nestes locais existem. Nem era muito antiga, a Visão, de Maio de 2005. E nela apurei os seguintes comentários sobre o tal estado da nação e as soluções preconizadas por brilhantes bestuntos:
- Ludgero Marques – É preciso trabalhar mais e, na Função Pública, despedir pessoal;
- Augusto Mateus – É preciso diminuir o pessoal na administração pública, em particular, e nas restantes empresas, em geral;
- Medina Carreira – É preciso reduzir as prestações sociais e aumentar o IVA;
- Miguel Cadilhe – É preciso acabar com o emprego vitalício
- António Carrapatoso – É preciso aumentar a idade da reforma e diminuir os benefícios;
- Miguel Beleza – É preciso congelar vencimentos;
- Daniel Bessa – É preciso agravar a taxa do IVA...
Nem uma única medida revitalizante e energética. Apenas "afundamentos"! Amealhar mais para maior sangramento.
E é assim é que os ciosos guardadores do templo, profetas da desgraça e vestais veladas dos novos tempos, estudando as vísceras da economia mundial e outras horrendas alimárias da modernidade, se deitam a adivinhar o negro futuro dos outros, ao mesmo tempo que admitem para si próprios as mais celestiais prebendas e inevitáveis (leia-se intocáveis) benesses.
Nenhum deles cura de avaliar competências, eficácias e eficiências de tantos pseudo-gestores, seus pares ou primos mas, sobretudo, pagadores, que, politiquice após politiquice, negociata após negociata, apadrinhamento após apadrinhamento, conduziram e conduzem o “país real” à triste realidade em que vegetamos.
E a culpa é, segundo estes entendidos e bem pagos, sempre do mesmo: o remador da anedota. Ocorre-me, aqui, o Brecht para recomendar a esta gentalha que mude de povo, elegendo outro…
Um exemplo (para dar cunho científico à análise): numa situação a que assisti recentemente - e detenho prova documental para os mais cépticos e para eu próprio me certificar de que não se trata apenas de um produto de pesadelo alucinado - apenas para apurar a quem competiria a responsabilidade da liquidação de uma factura de 12 euros e uns cêntimos, devida por imperativo municipal por utilização de espaço público, assisti aos pareceres lavrados e respectivo encaminhamento de 18 (DEZOITO!!!) quadros superiores de uma empresa, entre os quais se contavam vários directores e, até, pelo menos dois administradores.
O resultado? Pois, três meses passados e a facturinha dos 12 EUROS lá continua por pagar, pois entre tantos crânios bem pensantes não se estabeleceu um consenso, nem se assumiu uma responsabilidade. Agora, a factura já leva coimas e muita vergonha…
Ridículo? Claro.
Dispendioso até ao irracional? Seguramente. Basta tentar imaginar o preço/hora de cada um daqueles quadros “dirigentes”, lavrando piramidais asneiras.
E não se fala de um caso isolado, pois este é o estado diário e permanente da nação. Quantos de vós conheceis casos idênticos?
Este é o real problema da competitividade e o resto são lérias dos bonzos que se enchem com o trabalho que tanto atacam, com nuvens de fumo com que tentam esconder as suas próprias cupidez, ganância e incompetência.
Julho 13, 2005
Alberto João Jardim visto por Baptista-Bastos
Com vénia devida, até com algum orgulho por haver,ainda, em Portugal, gente com tomates - isso mesmo, tomates!... - aqui fica uma opinião de relevo:
Alberto João Jardim não é inimputável, não é um jumento que zurra desabrido, não é um matóide inculpável, um oligofrénico, uma asneira em forma de humanóide, um erro hilariante da natureza.
Alberto João Jardim é um infame sem remissão, e o poder absoluto de que dispõe faz com que proceda como um canalha, a merecer adequado correctivo.
Em tempos, já assim alguém o fez. Recordemos. Nos finais da década de 70, invectivando contra o Conselho da Revolução, Jardim proclamou: «Os militares já não são o que eram. Os militares efeminaram-se». O comandante do Regimento deInfantaria da Madeira, coronel Lacerda, envergou a farda número um, e pediu audiência ao presidente da Região Autónoma da Madeira. Logo-assim, Lacerda aproximou-se dele e pespegou-lhe um par de estalos na cara.
Lamuriou-se, o homenzinho, ao Conselho da Revolução. Vasco Lourenço mandou arrecadar a queixa com um seco: «Arquive-se na casa de banho».
A objurgatória contra chineses e indianos corresponde aos parâmetros ideológicos dos fascistas. E um fascista acondiciona o estofo de um canalha. Não há que sair das definições. Perante os factos, as tímidas rebatidas ao que ele disse pertencem aos domínios das amenidades.
Jardim tem insultado Presidentes da República, primeiros-ministros, representantes da República na ilha, ministros e outros altos dignitários da nação. Ninguém lhe aplica o CódigoPenal e os processos decorrentes de, amiúde, ele tripudiar sobre a Constituição.
Os barões do PSD babam-se, os do PS balbuciam frivolidades, os do CDS estremecem, o PCP não utiliza os meios legais, disponentes em assuntos deste jaez e estilo. Desculpam-no com a frioleira de que não está sóbrio. Nunca estásóbrio?
O espantoso de isto tudo é que muitos daqueles pelo Jardim periodicamente insultados, injuriados e caluniados apertam-lhe a mão, por exemplo, nas reuniões do Conselho de Estado. Temem-no, esta é a verdade. De contrário, o que ele tem dito, feito e cometido não ficaria sem a punição que a natureza sórdida dos factos exige. Velada ou declaradamente, costuma ameaçar com a secessão da ilha.
Vicente Jorge Silva já o escreveu: que se faça um referendo, ver-se-á quem perde.
A vergonha que nos atinge não o envolve porque o homenzinho é o que é: um despudorado, um sem-vergonha da pior espécie. A cobardia do silêncio cúmplice atingiu níveis inimagináveis. Não pertenço a esse grupo.
Julho 11, 2005
Rui Ramos (?) compara Guevara a Hitler (?!)...
Eu lamento muito mas, na sociedade em que vivemos, tenho tendência a desconfiar daquilo que estranhos me oferecem. Creio que isto terá algo a ver com receios atávicos, que as nossas mãezinhas ajudam a agravar nas nossas tenras idades...
Vem isto a propósito de um artigo de opinião, colhido num desses jornais "oferecidos" que pululam por Lisboa, no caso o "Metro", de segunda-feira, dia 11 de Julho de 2005, cujo autor, pela foto em que se apresenta, se trata de um garboso jovem, de seu nome Rui Ramos e, conforme tudo me leva a crer pelo que posso ver no rodapé do artigo, historiador. E cito: "Rui Ramos é historiador". Na minha magnificente ignorância, devo reconhecer que não o conheço, pelo que apresento desde já as minhas desculpas.
Na crónica, este plumitivo - falando de dois recentes filmes, quase como quem não quer a coisa - produz um arrazoado que poderá sintetizar-se, e cito de novo, no seguinte deslumbramento: "Guevara era um revolucionário, tal como Hitler. Ambos odiavam a 'civilização liberal e capitalista'. Julgando ter as certezas da ciência do seu lado, propuseram-se atingir uma sociedade perfeita, eliminando o que um deles chamava 'classes exploradoras', e o outro 'raças inferiores'." (as aspas 'interiores' são do RR).
E compara, justiceiro, o genocídio levado a cabo por Hitler com "as centenas de pessoas" que Guevara terá "mandado matar" em Cuba.
Apeteceu-me desancar o miúdo. Num ensaio, entenda-se! E literário, apesar da porrada vir a calhar! Mas está tanto calor que se me desvaneceu a intenção... E ainda teria o funesto efeito de que viessem a mimosear de caceteiro.
Poderia - sei lá - lembrar a este amigo que Hitler, acuado no seu bunker, após ter incendiado o mundo, desfechou um tiro na cabeça, louco e cobarde, enquanto Guevara, farto das "mordomias cubanas" (e as aspas aqui são minhas), voltou à luta na Bolívia, onde morreu em combate (o que, por acaso e en passant, não me recordo que o Hitler tivesse feito nalgum momento do seu "Kampf")... Daquela morte em combate não terá estado alheada a mãozinha americana, a bem da ordem mundial liberal american way, mas isto são meandros por esclarecer dos muitos e profundos mistérios em que os nossos tempos são pródigos e que, também en passant, o nosso ilustre historiador não terá tempo ou oportunidade para ajudar a desvendar.
Poderia - se a ousadia da análise apressada me fosse desculpada pelo ilustre analista - lembrar a este amigo que Guevara pretendia alegadamente lutar pelo bem da imensa maioria da Humanidade contra uma ínfima minoria exploradora, enquanto Hitler não tencionava deixar de matar gente enquanto não fosse ele o único sobrevivo e "puro", ainda por cima.
Poderia lembrar a este amigo, auto-intitulado historiador (pelo que deve sê-lo, seguramente...) que a circunstância é determinante na análise do processo histórico, pelo que comparações deste calibre são grosseiras, erróneas e, geralmente - não resisto ao galicismo - engajadas.
Poderia lembrar a este amigo que comparar Gengis Khan a Jesus Cristo, Marilyn Monroe à Madre Teresa, ou o guarda-nocturno da minha rua (que até dá porrada na mulher) ao Stalin (ou Estaline, como queiram...) poderá ter uma laracha do caraças e até dar alguma pica, mas não trará nada de novo ao mundo...
Mas, de súbito, eis que ao ouvir num telejornal de hoje uma entrevista ao nosso bem-amado Durão Barroso, se fez luz neste meu pobre espírito obscurecido pela poluição urbana: a propósito das bombas terroristas e da insegurança que hoje se vive, Durão tranquiliza o povo comparando as vítimas dos atentados às vítimas dos acidentes de viação, em Portugal. Afinal, tudo são mortes, não são? Lá teremos que nos habituar à ideia... É o progresso!
E como a estupidez é como as cerejas, lembrei-me logo daquele postulado do Bush, segundo o qual, se derrubarmos todas as árvores, deixaremos de ter problemas com incêndios...
Pois é... Isto tem tudo a ver com os conceitos e a arte de bem (mal) se reescrever a História, quiçá a troco de um prato de lentilhas. Vai a ver-se e o RR é historiador porque nos anda a contar historinhas.
Por estas "análises" e por outras é que quando morrem quarenta civis no Iraque, com uma bomba... lá foram mais quarenta. Enquanto que quarenta ingleses mortos no metro, com outra bomba, é um escândalo do caraças! É a este tipo de anestesias imbecilóides (liberais?...) que nos conduzem estas análises de historiadores sem pinta de sangue.
Agora, que ninguém me tira da cabeça que estes gajos andam todos engajados, isso é que não tira... E hei-de finar-me assim, velho e quezilento.
Também sinto já pena até dos filhos ou outros educandos deste nosso RR o qual, num sumário teclar, com arte e graça, tal fada-madrinha dos novos tempos, e a bem (podemos imaginar...) da desobstrução das mentes, equipara um ícone da luta inconformada pela liberdade a um demente megalómano a quem os poderes económicos então vigentes (e que supostamente Guevara combateu) guindaram ao poder.
"Personalizar" assim a História é, por si só, uma manobra tosca em que um historiador digno desse nome não deveria incorrer com tanto despudor. Esvaziá-la da envolvência é estultícia que nem a mente mais ingénua poderá apadrinhar. Mas é, também, uma fatalidade nacional aparecerem tantos expertos destes, tão iluminados, em tantas áreas deste país enegrecido por tanta fumaça.
(Agora, brincadeiras à parte, alguém sabe dizer-me quem é o Rui Ramos? É que já pedi informações lá para a Sierra Maestra e dizem-me que também não o conhecem...)
Nota de 12 de Julho - Já sei quem é o RR, mas não digo. Se quiserem, procurem, como eu fiz, que tudo se encontra. Não sei se terá algo a ver com mexilhões, pois a verdade é que a sua crónica mexeu comigo.
Julho 8, 2005
enquadrados relativismos
nem sempre uma quadra é quadro
nem sempre o redondo é cheio
nem sempre sendo eu cão ladro
nem sempre a ponta tem meio
nem sempre o começo acaba
nem sempre o fim se inicia
nem sempre o vulcão tem lava
nem sempre anoitece o dia
nem sempre por ir eu vou
nem sempre por estar eu fico
nem sempre por ser eu sou
nem sempre por dar sou rico
nem sempre o que arde cura
nem sempre a verdade mente
nem sempre a prisão segura
nem sempre o voo é urgente
nem sempre um quadro se enquadra
nem sempre a paz nos sossegue
nem sempre se acabe a quadra
sem ter por onde se pegue
- Jorge Castro
versos de circunstância
Não, não chega a ser perplexidade.
Nem é, sequer, temor.
É apenas uma profunda estranheza por esta natureza humana que nos enforma...
Deixo aqui o poema "versos de circunstância"que, do outro lado do Atlântico,
e que enche de palavras as palavras que me faltam:
Lindsey Parnaby©
nem azul nem cinza
nem tarde nem noite ainda
tudo é meio-termo
é indeciso
mesmo o medo
que renovado ora germina
tão pouco aqui
tanto do outro lado do mar
- Márcia Maia
Julho 6, 2005
Deste país, que alguns tendem a tornar imbecil...
Dizer mal? Quem?... Eu?!... Nem pensem!
1. As Escolas na Finlândia - prosa peripatética:
Haverá interesse por parte de alguém, em Portugal, saber das escolas na Finlândia?
Haverá algum resquício de curiosidade em apurar da veracidade contida na afirmação de Jorge Sampaio quanto à prestação semanalmente laboriosa dos professores finlandeses, cuja atingirá presuntivamente as 50 horas?
Haverá Jorge Sampaio?...
Creio que sobre todas estas questões as opiniões possam divergir.
Na verdade, não apenas a embaixada da Finlândia não corrobora a existência daqueles horários de 50 horas, nem nada que se lhes aproxime, como, nas tais escolas a que o nosso preclaro Presidente alude, os professores têm, entre variadas outras coisas que fariam corar de vergonha (ou de raiva) qualquer Conselho Executivo cá do burgo, gabinetes individuais de trabalho, com equipamento informático também individualizado, como qualquer investigação sumária poderá comprovar.
Esta realidade, desde logo, elimina qualquer veleidade de comparação entre circunstâncias tão diversas. Ninguém de bom senso compararia as condições de trabalho dos nossos professores com as do Burkina Faso - e isto, como dizia o outro, é um “supônhamos”, este sim não confirmado, já que não tive oportunidade recente de ir ao dito país, nem consegui saber onde fica a respectiva embaixada...
Quanto aos desígnios profundos do presidencial desabafo, ficarão para que os ventos da História os apaguem, na sua marcha inexorável pelo tempo, sem que se apure o objectivo, para além deste imenso e insensato “falatar” em que os nossos presidentes são pródigos e rivalizam.
2. O dístico (leia-se selo) da viatura e a competitividade nacional:
Fui hoje adquirir o selo para o meu modesto carrinho, adquirido em ALD, segundo as boas normas da pelintrice institucionalizada (estou aqui a referir-me ao ALD, claro; mas também vale a adjectivação para o selo, claro, também...).
Depois de cerca de meia-hora de espera numa das nossas tão estimáveis filas de povo pagador, fui informado por uma senhora simpática de que apenas poderia adquirir o selito desde que pudesse exibir documento comprovativo do número de identificação fiscal da entidade bancária (já devidamente averbada em livrete) que me adiantou os carcanhóis.
Exibi o livrete actualizado, o MEU número de identificação fiscal, o meu BI, o cartão de eleitor, do SNS, as notas dos euros com que queria pagar e... nada! Parece que a lei é clara neste aspecto e a senhora foi irredutível.
A culpa é do meu pai, coitado, que me ensinou fazer parte da boa ética comercial nunca recusar um pagamento e eu acreditei nele, porque pai é pai.
Se calhar, o Estado até nem tem pressa do meu dinheiro. Assim-c’umàssim, também ainda não devolveu o IRS do ano passado... Vai tudo a perdas e danos!
Olha, olha! Vês ali aquele gajo a correr à brava e a perder-se no horizonte? Era um espanhol!... Gaita, que os gajos correm que se fartam!...
Julho 3, 2005
III Encontro d'A FUNDA SÃO
Praia de Carcavelos, séc. XXI, p.a. (pós-arrasto),
02 de Julho de 2005...
... os primeiros a chegar, bimba na areia, muitos abraços e outras miudezas, quando o Sol já acenava despedidas...
... mais foram chegando e, no Estrela do Mar, a sala foi-se compondo, com uma vintena de convivas sexualmente equilibrado - o grupo, claro.. - acompanhada a caracóis (púbicos, segundo alguns) e cheirinho a gambas, umas deitadas e outras penduradas - as gambas, claro...
... como o prometido é de vidro, houve karalhoke, com recurso às mais recentes e inovadoras tecnologias e intensa participação das largas massas - o que não se desvenda em imagem, para não cortar encantos futuros...
... Inspirados no Salão Erótico (dito a Expo-Foda) e com a bagagem enriquecida e perturbada, houve manifestações tântricas e outras danças de ventre com jogos de cintura...
... bem como, ao vivo e a cores, oficinas de iniciação a técnicas inovadoramente estimulantes, donde sobressaiu o anel peniano e as suas múltiplas e desvairadas aplicações...
... Não faltou a poesia, tendo-nos odido uns aos outros com garbo e destemor solidários...
As Odes no Brejo lá tiveram o seu lugar prometido na animação cultural...

... Por fim, alta a noite, baixamos todos (ou quase) à praia, fazendo honras aos docinhos regados a belíssimo espumante... Outras manifestações esotéricas tiveram lugar, mas não se mostram, que quem quiser saber, para a próxima, apareça...
Por fim, já saudosos da partida iminente, lá pelas quatro da manhã foi venerada a santa padroeira do Encontro, a São Rosas, num altar sumariamente instalado no areal onde os devotos, em círculo apertado (que estava a ficar um grizo do caraças...) entoaram loas à Vida...
Nota final: danos colaterais não houve, tudo tendo chegado a casa agasalhadinho.
Nota refinal: Minto!... Um casalinho que se espojava na praia àquela hora tardia, assarapantou-se com o chavasco do colectivo - talvez presumindo algum arrasto tardio - e desvaneceu-se na escuridão do mar, onde a humidade é mais intensa.
E fiquem-se com esta: como dizia o poeta,
"melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
mas julgue-o quem não pode experimentá-lo"
E mainada!
Junho 30, 2005
III Encontro d'A Funda São:
diversão - diversidade - divertimento
No próximo sábado, dia 02 de Julho, ocorrerá o III Encontro d’A Funda São.
Desta vez, o cenário será Carcavelos, terra airosa e prazenteira que, cheia de bonomia, já viu arrastões do Tenreiro e arrastões da Cova da Moura, ambos dedicados à faina da pesca. Nada especioso, pois, que vá para lá um bando de erotizados exercer o seu direito (adquirido, claro, que não há almoços grátis) de arrasto também pelo magnífico areal…
Este III Encontro terá lugar no restaurante Estrela do Mar e dos convivas se esperará o habitual: boa disposição, camaradagem, linguagem desbragada e heterodoxia de conceitos.
Haverá espumantes de origens desvairadas e chamuças para enlevo de horas tardias junto ao mar.
Em singela homenagem integrada em tão sublime evento, será apresentado por este humilde servidor das coisas públicas e de uma ou outra coisa privada o livrinho de cordel, “Odes No Brejo E Alguns Pecados” (ed. Apenas Livros, Lda.), opúsculo poético, constituído por 30 odes que, na sua maioria, viram pela primeira vez a luz em alegre colaboração com aquele depravado blog.
E, assim, acontece…
Junho 28, 2005
Ismael Serrano, conhecem?...
Certo dia, há vários anos atrás, apercebi num canal qualquer de tv dedicado à música uma canção em castelhano, com uma rara simbiose de música e letra, que me caiu, de imediato, no goto. Consegui anotar o nome do intérprete... e foi tudo quanto apurei dela, que nunca mais a ouvi.
Percorri mil e um estabelecimentos à procura daquele nome. E nada!
Vários anos depois, numa passagem por Andorra, recordei o nome e resolvi procurá-la. E encontrei-a. Não tem importância nenhuma... É apenas uma daquelas coisas de que a vida é feita.
Para os meus amigos, para as amáveis visitas, aquela que ficou sendo uma das canções da minha vida:

de Ismael Serrano, Papá, Cuéntame otra vez - álbum Atrapados en Azul
Papá cuéntame otra vez
ese cuento tan bonito
de gendarmes y fascistas
y estudiantes con flequillo
Y dulce guerrilla urbana
en pantalones de campana
y canciones de los Rolling
y niñas en minifalda
Papá cuéntame otra vez
todo lo que os divertísteis
estropeando la vejez
a oxidados dictadores
Y como cantaste al vent
y ocupasteis la Sorbona
en aquel mayo francés
en los días de vino y rosas
Papá cuéntame otra vez
esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco
que mataron en Bolivia
Y cuyo fusil ya nadie
se atrevió a tomar de nuevo
y como desde aquel día
todo parece más feo
Papá cuéntame otra vez
que tras tanta barricada
y tras tanto puño en alto
y tanta sangre derramada
Al final de la partida
no pudísteis hacer nada
y bajo los adoquines
no había arena de playa
Fue muy dura la derrota
todo lo que se soñaba
se pudrió en los rincones
se cubrió de telarañas
Y ya nadie canta al vent
ya no hay locos ya no hay parias
pero tiene que llover
aún sigue sucia la plaza
Queda lejos aquel mayo
queda lejos Saint Denis
que lejos queda Jean Paul Sartre
muy lejos aquel París
Sin embargo a veces pienso
que al final todo dio igual
las ostias siguen cayendo
sobre quien habla de más
Y siguen los mismos muertos
podridos de crueldad
Ahora mueren en Bosnia
los que morían en Vietnam
ahora mueren en Bosnia
los que morían en Vietnam
ahora mueren en Bosnia
los que morían en Vietnam
Nota 1 - se trocarmos a Bósnia pelo Iraque, nem se dá pelo passar do tempo...
Nota 2 - O álbum Atrapados en Azul é, na minha modesta opinião, todo ele excelente. Procurem-no e digam-me, de vossa justiça.
Nota 3 - Melancólica, a canção? Nem por isso. "Pero tiene que llover, aún sigue sucia la plaza..."
Junho 26, 2005
Urbanismos II
nada mais que notas soltas num sorriso me perturbe
voos cruzados nas voltas de alguém perdido na urbe
na cidade que não sabe da sede por trás da sebe
que sobe p’la rua acima – tanta a fome quanta a sede
tantos nomes quantos homens nos quadrados da calçada
triangulam na alvorada
sequiosos de outras fomes
temerosos de outros medos
ciosos de enredos de anto
a disfarçar tons de pranto criando novos degredos
dá-me luz
dá-me essa aurora
de ser vivo nesta hora que demora a cá chegar
dá-me alento que rebento
nesta espera-desespero
de querer ir
e só chegar.
- Jorge Castro
Junho 24, 2005
de Luís Viveiros, "Fagulhas" (ed. Instituto Piaget)
Hoje (ontem, portanto, pois foi a 23 de Junho), por Oeiras, outro poeta,
este madeirense, recordou-nos ser Portugal um país de tantos poetas.
No Espaço dos Sentidos,
o amigo Luís Viveiros lançou-nos as suas "Fagulhas",
aonde eu fui buscar o seu
MAR
Dizias que não mas é ainda o
mesmo mar que te recebe pelo
Natal quando regressas à ilha
A mesma vertigem a mesma
carne de azul escuro ainda o
mesmo abraço que pode matar
E já passaram muitos anos
Junho 22, 2005
Legado
tenho apenas estas mãos
vês?
tenho apenas destes passos
os caminhos
que já nem me sobram no tempo
nem são ninhos
tenho apenas esta dor apaziguada
tenho o nada
quase tudo construído
ao rés da água
calosidades de mágoa
que me sobram do regato
em que me vês
e deslaço
o pretérito embaraço de ser tudo e quase nada
e assim sou
por onde vou
por onde passo
de nada sou
mas sou tudo quanto faço
sou o espaço
onde se cria este tempo
este passo que define a vida toda
porque eu sou
‘inda que morra
e deixo de mim o espaço
que tu virás
e trarás no regaço a vida toda
e eu ta darei
‘inda viva
‘inda que doa
com estas mãos que apenas tenho
vês?
onde trago de meus pais a vida toda.
- Jorge Castro
Junho 20, 2005
A lei do menor esforço e a liderança
Há uma lei na Biologia, que aprendi com o Félix Rodriguez de la Fuente - há tanto tempo que já nem me lembro… - chamada a lei do menor esforço, a qual, sendo coisa muito séria e científica, quando chamada à colação, em Portugal, tende a ser levada à guisa de chalaça… Mas não é!
Não sendo eu, nem de perto, biólogo ou sequer mero aprendiz de feiticeiro na disciplina, julgo no entanto não proferir dislate bárbaro se enunciar essa lei, altamente respeitável, da seguinte forma: na Natureza tudo procura ou tende a alcançar um fim determinado (e determinante) com o menor dispêndio de energia possível.
No fundo, algo que nos é muito caro e de onde resulta tudo ficar, afinal, muito mais barato.
Entretanto, não passa dia sem que vejamos, na terra lusa, os nossos (des)governantes ou, até, meros pseudo-fabricantes de opinião a tornarem complexo até ao limite do absurdo os mais claros e elementares problemas de governação, criando então cornucópias de problemas irreversíveis e irremediáveis com a sua falta de destreza ou incapacidade de justo equilíbrio. Em resumo, passamos a vida a reinventar a roda e a discutir a quadratura do círculo, em redor do sexo dos anjos…
Veja-se esta recente bacorada com a greve dos professores, sem entrar em grandes minudências. Conseguiu-se, de uma assentada:
1. Revoltar ainda mais os já legitimamente revoltados professores, aumentando a adesão à greve;
2. Privar a imensa maioria dos alunos de uma semana inteira de aulas, apesar dos atrasos já verificados no início do ano lectivo com a célebre trapalhada das colocações, ainda por cima invocando o "superior interesse dos alunos"... (A propósito, então e as colocações de professores para o próximo ano, estarão esquecidas?);
3. Provar à saciedade que, no imbróglio da esgrima argumentativa, das duas, três: ou mente a senhora ministra, ou mentem os sindicatos, ou mentem ambos, sendo que nenhuma das opções tranquilizará o comum dos cidadãos;
4. Ouvir de um eminente representante dos pais – seja lá isso o que for… - dizer que os exames serão, para alunos e professores, “o culminar” de um ano lectivo inteiro, quando todos sabemos que os exames em questão só pesam 25% na nota final e que é suposto que o culminar de qualquer ano lectivo seja a apreensão de conhecimentos e a preparação para a vida… Pelos vistos, os representantes dos pais a que temos direito, não pensam assim, o que é uma pena.
…
Quando iniciei este “post” predispus-me a desenvolver um verdadeiro ensaio sobre a matéria. Mas, pensando bem, é melhor não, pois tudo isto é muito cansativo.
Porque é que a malta não faz uma excursão até à Suiça – este foi um exemplo que me ocorreu, assim de repente - estuda o(s) modelo(s) lá existente(s), paga os direitos inerentes e importa os processos? Já viram o trabalho e as canseiras que pouparíamos?
Perda de identidade? Nem pensem nisso! A malta vai até ali acima à Galiza e importa os conteúdos, submete-os à apreciação correctiva da Opus Dei, da Maçonaria, do Belmiro de Azevedo e da comunidade da Cova da Moura, que são as forças vivas da nação… e, depois, é só avançar no sentido de um Portugal europeu cumò caraças!...
Fiquem bem e não se fatiguem muito.
Junho 17, 2005
A porra toda...
... é que por mais que a mulher de César se emboneque, cada vez mais faz questão de parecer uma grande puta, para além daquilo que a sua virtude muito bem lhe recomende e guie, portas adentro.
E, no fundo, é só por estas coisas todas que eu, aquela espécie degenerada de "trabalhador por conta de outrém", não encaixo no bestunto tudo aquilo que vou pasmando de ouvir, à nossa volta. Vejam só:
- Vem o referendo sobre a Constituição Europeia e arrepelam os cabelos, em alta grita por que se não se vota o SIM, já não há Europa. Mas o que a malta devia votar não erá SÓ sobre esta Constituição que, agora, os tais que antes gritavam, já se preparam, afinal, para mudar a correr?... E a Europa ainda aí está... pelo menos, hoje de manhã estava, que eu vi.
- Vem o Vítor Constâncio e diz que a previsão do déficit, para 2005, é de 6,83%. Nem 84, nem 82! 83 e mainada, com grande certeza no contar!... O Sócrates, acolitado pelo Coelho e pelo Campos e Cunha, arregaça as mangas e vá de aumentar os impostos, numa medida altamente inovadora e original, apoiado na muleta do desgraçado déficit "herdado".
- Vem a Manela, personagem acima de qualquer suspeita, e diz-nos que o Constâncio é fixe, mas divulgar assim o déficit é que foi uma aldrabice, porque uma previsão não é uma certeza e os impostos lixam-nos relativamente aos espanhóis e o poder de compra diminui e a economia afunda-se mais e... enfim, não se sai desta porra...
- Vem o João Talone arremelgar-se todo com o Mercado Ibérico da energia, com tudo que é parvo e ministro a passar a vida a dizer-nos que o nosso mal é a energia estar na mão de um monopólio... quando esse monopólio sempre esteve e ainda está, mesmo com as cosméticas das privatizações da tanga, na mão do Estado. Ora, se é o Estado o dono, o jogador e o árbitro, a porra do preço da energia não é definida por causas e efeitos de mercado mas por razões políticas que a razão desconhece, tal como acontece com a gasolina, o gás, etc.... Ou não?
Estou confuso, porque ainda hoje ouvi um representante dos empresários portugueses a dizer que o Mercado Europeu é que tem de ser e o Mercado Ibérico não faz sentido... Então, o que é que aquela malta anda para lá a fazer há uma data de anos?
- Vem o Sócrates, mais o Cunha e Silva, mais uma catrefa deles e diz que as reformas auferidas por altos cargadores (que são os que desempenham altos cargos) são legítimas, porque eles, coitados, trabalharam seis dias (ou seis meses, ou seis anos...) num poleiro qualquer... Mesmo que estivéssemos todos de acordo, o que não se entende é porque é que o tal reformado, coitado, não vai bugiar para as Seychelles e continua por cá a entupir o orçamento de Estado, ao activinho da Silva - na vedadeira acepção do nome - acumulando, também legitimamente, claro, uma pipa de massa das diversas funções, passadas, actuais, putativas, presuntivas e outras mais...
- Vem o Constâncio (outra vez, que ele aparece que se farta...) e, já esclarecido pela Manela o susto do déficit previsível - que o transforma assim a modos de um bruxo de novo tipo - e com as medidas do Sócrates já de velas desfraldadas, leia-se, portanto, "crise controlada", vai de adquirir uma frota nova com cerca de 60 belos e caros carritos para o Banco de Portugal, que esta vida é uma pressa.
- Vem o "arrasto" em Carcavelos e o ameaço na Quarteira e o roubo descarado nos comboios da linha de Sintra e andam para aí uns xenófobos da treta a dizer que tem que se acabar com isto, que é uma pouca vergonha... e os operadores turísticos ficam preocupados porque estas notícias são divulgadas pela BBC, em Inglaterra.
Também não percebo... Então os rapazes não estão a copiar, à pequena escala da Cova da Moura e, porventura, com maior justificação, o que vêem fazer aos sucessivos governantes dos sucessivos governos e respectivas clientelas e com a mesma impunidade?
- Vêm os trabalhadores da administração pública chateados, entre outras coisas, com o aumento do tempo de idade para a reforma, quando o Sócrates, o Constâncio, o Belmiro e uma data de inteligentes e opinativos tinham acabado de dizer que é preciso diminuir o peso dos excedentários na função pública... Afinal, se estão excedentários, porque é que têm de ficar assim durante mais uns anos? Será para os castigar de uma vida de calaceirice? Estou confuso...
- Por fim - que isto vai longo, não se chega a conclusão nenhuma e a malta não tem pachorra para estas merdas - vêm os taxistas, queixosos porque a bandeirada aumentou... E ELES ATÉ NEM QUERIAM, pois assim o governo está a estragar-lhes ainda mais o negócio, que já anda pelas ruas da amargura!!!... Então, se eles que mexem na bandeira não querem, a bandeirada aumenta porquê?
Mas, afinal, que porra é esta em que andamos todos atascados?
Junho 16, 2005
de Mia Couto, in "Pensatempos" (ed. Caminho)
"A maior desgraça de uma nação pobre é que,
em vez de produzir riqueza,
produz ricos."
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