Sexta-feira, Março 05, 2004
Sobre paradoxos...
Aconselho seriamente o caro leitor a dar uma vista de olhos nos comentários do meu post anterior. Já há alguns dias que tem vindo a decorrer uma discussão primorosa!! Sem dúvida a melhor que tive através da net. E, pelos vistos, ainda tem pano para mangas! Mesmo depois de eu ter chegado às minhas frutuosas conclusões (e mais uma vez agradeço ao Perplexo e ao Pedro N pelos inteligentes esclarecimentos e pela sintonia plena e constante ao longo da afronta), mesmo depois disso, parece que as dúvidas se mantêm e proliferam como uma epidemia. Até aquilo que para mim era certo desde o início – o curioso fenómeno estatístico conhecido por problema de Monty Hall –, e que serviu aliás como catapulta para o patamar realmente intrigante da discussão, até isso já começa a ser posto em causa por terceiros. O que é bom! Desse modo conjuga-se o lado intelectual do problema com o lado hilariante do mesmo.
Ora, mas o que acaba por dar azo a todas estas confusões é sempre o pressentimento de que algo não bate certo. E o pior é quando, imersos na confusão, os pobres rendidos ao dilema se convencem de que as contradições internas não têm solução lógica! Não me parece o caso nesta discussão particular, mas a história da humanidade está repleta deles. São o que vulgarmente chamamos de paradoxos!
Eu, pessoalmente, adoro paradoxos. Alguns são terríveis. Godel, por exemplo, atirou um ao ar que deu cabo da “consistência da aritmética” e quase provocou enfartes colectivos na horda dos matemáticos e filósofos. Russell e Hilbert nunca chegaram a recuperar dessa machadada... e o próprio Godel parece ter enlouquecido, visto que, pelo que se conta, morreu à fome com medo de ser envenenado...
Mas há paradoxos mais inócuos, alguns até estéticos, como no caso dos desenhos do Mauris Escher. Adoro esse fulano, só não era capaz de viver numa casa pensada por ele: dificilmente se dá com a saída...
Já os gregos adoravam paradoxos. Era de ver o pensador cretense Epiménides a bradar aos céus: “Todos os cretenses são mentirosos”, e a deixar atónitas as populações confundidas daquela cidade.
Um paradoxo que gosto particularmente de exibir por aí é este que trago na minha T-Shirt. Na parte da frente diz: “A frase na parte de trás é falsa” e na parte de trás diz: “a frase na parte da frente é verdadeira”. Ho, a quantidade de mulheres que já impressionei às custas desta t-shirt. Ficam a modos que numa espécie de limbo semi-hipnótico, completamente à mercê....
Mas o maior paradoxo de todos os tempos ouvi-o hoje, confidenciado por uma amiga minha (note-se como se trata, de facto, de um paradoxo): Contou-me ela que saiu com um tipo de tal modo perfeito que a levou a pensar o seguinte: “Para um gajo destes sair comigo, é porque há-de haver qualquer coisa de errado com ele.” E, sem mais explicações, deixou-o pendurado e foi-se embora sem remorsos...
Mastiguem lá este paradoxo!...
Ora, mas o que acaba por dar azo a todas estas confusões é sempre o pressentimento de que algo não bate certo. E o pior é quando, imersos na confusão, os pobres rendidos ao dilema se convencem de que as contradições internas não têm solução lógica! Não me parece o caso nesta discussão particular, mas a história da humanidade está repleta deles. São o que vulgarmente chamamos de paradoxos!
Eu, pessoalmente, adoro paradoxos. Alguns são terríveis. Godel, por exemplo, atirou um ao ar que deu cabo da “consistência da aritmética” e quase provocou enfartes colectivos na horda dos matemáticos e filósofos. Russell e Hilbert nunca chegaram a recuperar dessa machadada... e o próprio Godel parece ter enlouquecido, visto que, pelo que se conta, morreu à fome com medo de ser envenenado...
Mas há paradoxos mais inócuos, alguns até estéticos, como no caso dos desenhos do Mauris Escher. Adoro esse fulano, só não era capaz de viver numa casa pensada por ele: dificilmente se dá com a saída...
Já os gregos adoravam paradoxos. Era de ver o pensador cretense Epiménides a bradar aos céus: “Todos os cretenses são mentirosos”, e a deixar atónitas as populações confundidas daquela cidade.
Um paradoxo que gosto particularmente de exibir por aí é este que trago na minha T-Shirt. Na parte da frente diz: “A frase na parte de trás é falsa” e na parte de trás diz: “a frase na parte da frente é verdadeira”. Ho, a quantidade de mulheres que já impressionei às custas desta t-shirt. Ficam a modos que numa espécie de limbo semi-hipnótico, completamente à mercê....
Mas o maior paradoxo de todos os tempos ouvi-o hoje, confidenciado por uma amiga minha (note-se como se trata, de facto, de um paradoxo): Contou-me ela que saiu com um tipo de tal modo perfeito que a levou a pensar o seguinte: “Para um gajo destes sair comigo, é porque há-de haver qualquer coisa de errado com ele.” E, sem mais explicações, deixou-o pendurado e foi-se embora sem remorsos...
Mastiguem lá este paradoxo!...
Domingo, Fevereiro 29, 2004
Explicação do post anterior (atenção: este é um post sério!)
A propósito do meu post anterior, o Perplexo, num tom compreensivelmente perplexo, escreveu: “Está a brincar meu caro Solipsista!? Nem vale a pena falar no poker, o jogo dos lugares e a superstição típica dos jogadores. Num 101º lançamento de uma moeda que nos 100 lançamentos anteriores deu coroa, a probabilidade de sair cara continua a ser de 50%. A moeda não tem memória dos lançamentos anteriores. Se a diferença nunca baixar dos 100, quando tiverem saído 10100 coroas e 10000 caras, a relação coroas-caras está em 50,2% - 49,8%. Não foi preciso obrigar a moeda a sair mais vezes cara, para equilibrar a média. Brincava?”.
Em resposta, confesso que sim, estava a brincar, e não, não estava! Passo a explicar:
É evidente que o Perplexo tem toda a razão! Aliás, o argumento dele não poderia ser mais elucidativo. Não é preciso evocar “memórias universais” para explicar a lógica inerente às leis da probabilidade. Considerando cada lance de moeda por si só, verifica-se que não é necessário considerar o “passado” da moeda para constatar que a soma de todos os lances tende para os 50%-50% no infinito, independentemente de qual tenha sido a excentricidade do seu comportamento nos lances anteriores. Nesse sentido, os argumentos que utilizei no meu post sobre o “jogo de Poker” são, de facto, absurdos. Aliás, chegam a roçar o misticismo, o que, quanto a mim, seria gravíssimo se este blog tivesse maiores pretensões de seriedade! Basta, por exemplo, evocarmos a navalha de Occam para desfazermos todas as dúvidas: Qual é a explicação mais simples? Que a moeda pura e simplesmente se reja, em cada lance, pelo princípio dos 50/50 – acabando desse modo por obedecer, perfeitamente, às constatações empíricas –, ou que o universo tenha em conta todo o passado da dita cuja, fazendo as contas de todos os seus resultados sempre que alguém se lembrou de atirá-la ao ar, desde que foi cunhada na casa da moeda? A resposta parece por demais evidente. Portanto, neste sentido, eu estava de facto a brincar!...
Por outro lado, confesso que não estava a brincar. Chamem-lhe ingenuidade, mas a verdade é que, sempre que penso em leis estatísticas, há sempre qualquer coisa de genuinamente misterioso que me parece vaguear nas entrelinhas, como uma pedra no sapato! Há muito que penso nisso (apesar do meu amadorismo no que à matemática diz respeito), e ainda não consegui perceber realmente onde está o meu erro de raciocínio! Também me parece, arrisco-me a dizê-lo, que a resposta não estará na própria matemática – enquanto instrumento puramente formal – mas assume contornos, se não místicos, pelo menos metafísicos!... Esta minha pedra no sapato é um tanto ou quanto subtil, mas não consigo deixar de pensar que é legítima. E, ironias e brincadeiras à parte, tem muito a ver com as confusões que expus no meu post anterior. Talvez a melhor forma de expô-la seja com um novo exemplo (por sinal bem conhecido):
O leitor vai a um concurso de televisão. O apresentador coloca-o perante três portas ocultas, dizendo-lhe que há um carro por trás de uma delas, e pede-lhe que escolha uma, A, B ou C. O leitor opta, por exemplo, pela porta B. Seguidamente, o apresentador, por sinal de uma infinita benevolência, dá-lhe uma dica preciosa: Diz-lhe que o carro não está por trás da porta C e dá-lhe oportunidade de mudar a sua primeira opção. Que fará, então, o leitor? Mantém a escolha da porta B ou muda para a A? Que acha que é melhor fazer? Talvez, por uma questão de carácter, seja melhor manter! Ou será indiferente?... A primeira intuição diz-nos que sim, que há 50% de hipóteses de estar em A ou B, correcto?...
Pois, mas é aqui que a porca torce o rabo! E se eu lhe disser que, na verdade, há o dobro de probabilidades de acertar se mudar a sua escolha? Não acredita? Também eu não quis acreditar quando me contaram! Eis a explicação, muito resumidamente:
Quando o leitor faz a primeira escolha (B), tem 1/3 de probabilidades de acertar no carro, visto haver três portas disponíveis. Ou seja, há 2/3 de hipóteses de não estar em B. Seguidamente, C é descartada pelo apresentador, restando apenas A e B. Então, se há 1/3 de probabilidades de o carro estar em B, logicamente haverá 2/3 de probabilidades de estar em A, ou seja, o dobro das probabilidades!!....
Se o leitor continua incrédulo, aconselho-o a fazer a experiência aí em casa, com três chávenas e uma moeda, por exemplo. Ou pode fazer a sua investigação através da internet: trata-se do “problema de Monty Hall”.
Quanto a mim, extraio deste exemplo o cerne do problema que parodiei no post anterior. A essência da questão é a mesma: Porque é que o “universo” leva em conta o facto de haverem três opções iniciais, mesmo depois de uma delas já ter sido descartada? Não estaremos perante uma qualquer forma de “memória universal”? Agradeço a quem consiga tirar-me esta pedra do sapato... é que dói que se farta!
Em resposta, confesso que sim, estava a brincar, e não, não estava! Passo a explicar:
É evidente que o Perplexo tem toda a razão! Aliás, o argumento dele não poderia ser mais elucidativo. Não é preciso evocar “memórias universais” para explicar a lógica inerente às leis da probabilidade. Considerando cada lance de moeda por si só, verifica-se que não é necessário considerar o “passado” da moeda para constatar que a soma de todos os lances tende para os 50%-50% no infinito, independentemente de qual tenha sido a excentricidade do seu comportamento nos lances anteriores. Nesse sentido, os argumentos que utilizei no meu post sobre o “jogo de Poker” são, de facto, absurdos. Aliás, chegam a roçar o misticismo, o que, quanto a mim, seria gravíssimo se este blog tivesse maiores pretensões de seriedade! Basta, por exemplo, evocarmos a navalha de Occam para desfazermos todas as dúvidas: Qual é a explicação mais simples? Que a moeda pura e simplesmente se reja, em cada lance, pelo princípio dos 50/50 – acabando desse modo por obedecer, perfeitamente, às constatações empíricas –, ou que o universo tenha em conta todo o passado da dita cuja, fazendo as contas de todos os seus resultados sempre que alguém se lembrou de atirá-la ao ar, desde que foi cunhada na casa da moeda? A resposta parece por demais evidente. Portanto, neste sentido, eu estava de facto a brincar!...
Por outro lado, confesso que não estava a brincar. Chamem-lhe ingenuidade, mas a verdade é que, sempre que penso em leis estatísticas, há sempre qualquer coisa de genuinamente misterioso que me parece vaguear nas entrelinhas, como uma pedra no sapato! Há muito que penso nisso (apesar do meu amadorismo no que à matemática diz respeito), e ainda não consegui perceber realmente onde está o meu erro de raciocínio! Também me parece, arrisco-me a dizê-lo, que a resposta não estará na própria matemática – enquanto instrumento puramente formal – mas assume contornos, se não místicos, pelo menos metafísicos!... Esta minha pedra no sapato é um tanto ou quanto subtil, mas não consigo deixar de pensar que é legítima. E, ironias e brincadeiras à parte, tem muito a ver com as confusões que expus no meu post anterior. Talvez a melhor forma de expô-la seja com um novo exemplo (por sinal bem conhecido):
O leitor vai a um concurso de televisão. O apresentador coloca-o perante três portas ocultas, dizendo-lhe que há um carro por trás de uma delas, e pede-lhe que escolha uma, A, B ou C. O leitor opta, por exemplo, pela porta B. Seguidamente, o apresentador, por sinal de uma infinita benevolência, dá-lhe uma dica preciosa: Diz-lhe que o carro não está por trás da porta C e dá-lhe oportunidade de mudar a sua primeira opção. Que fará, então, o leitor? Mantém a escolha da porta B ou muda para a A? Que acha que é melhor fazer? Talvez, por uma questão de carácter, seja melhor manter! Ou será indiferente?... A primeira intuição diz-nos que sim, que há 50% de hipóteses de estar em A ou B, correcto?...
Pois, mas é aqui que a porca torce o rabo! E se eu lhe disser que, na verdade, há o dobro de probabilidades de acertar se mudar a sua escolha? Não acredita? Também eu não quis acreditar quando me contaram! Eis a explicação, muito resumidamente:
Quando o leitor faz a primeira escolha (B), tem 1/3 de probabilidades de acertar no carro, visto haver três portas disponíveis. Ou seja, há 2/3 de hipóteses de não estar em B. Seguidamente, C é descartada pelo apresentador, restando apenas A e B. Então, se há 1/3 de probabilidades de o carro estar em B, logicamente haverá 2/3 de probabilidades de estar em A, ou seja, o dobro das probabilidades!!....
Se o leitor continua incrédulo, aconselho-o a fazer a experiência aí em casa, com três chávenas e uma moeda, por exemplo. Ou pode fazer a sua investigação através da internet: trata-se do “problema de Monty Hall”.
Quanto a mim, extraio deste exemplo o cerne do problema que parodiei no post anterior. A essência da questão é a mesma: Porque é que o “universo” leva em conta o facto de haverem três opções iniciais, mesmo depois de uma delas já ter sido descartada? Não estaremos perante uma qualquer forma de “memória universal”? Agradeço a quem consiga tirar-me esta pedra do sapato... é que dói que se farta!
Sábado, Fevereiro 28, 2004
Jogar Poker com o universo...
Ontem, enquanto jogava poker numa tasca aqui perto, fui presenciado com uma revelação divina! Só não gritei "Eureca" por não ser casado, por não estar enfiado numa banheira e por receio que pensassem que estava a fazer bluff.
A minha constatação foi simples: se todos os jogadores forem igualmente bons, todos terão a mesma probabilidade de ganhar quantia idêntica no final da noite. Portanto, se em dado momento algum deles estiver com demasiado azar, espera-se que venha a recuperar a sorte nos minutos seguintes, fazendo as pazes com a média estatística. Assim me ocorreu que, partindo desse princípio, talvez desse para ludibriar os meandros secretos do cosmos!
Ora vejamos: Se o jogador sentado na cadeira A está a ter mais azar que os restantes, troco de lugar com ele na altura certa e deverei, à partida, receber a sorte que a cadeira dele tem em défice, visto que, no final, tudo tende para o equilíbrio!! Conclusão: em teoria torna-se realmente possível correr atrás da sorte!
Na verdade trata-se de uma intuição básica: O caro leitor tem uma moeda na mão e quer adivinhar se vai sair cara ou coroa. Dizem-lhe que nas cem vezes anteriores saiu coroa. Então, certamente irá confiar que sairá cara na vez seguinte, tendo em conta a enorme improbabilidade de que saia coroa 101 vezes seguidas! Pode dizer-se que o universo está, naquele preciso momento, potencialmente inclinado para a cara! Uma espécie de "atractor estranho"!... Ora, no Poker, pensei eu, deveria ser a mesma coisa!
Já passava das duas da manhã e o Frederico estava, desde o início da noite, a ter um azar de meter dó! Eu, em contrapartida, estava com um lucro simetricamente oposto! Tudo indicava que, a qualquer momento, ele deveria começar a recuperar e eu a levar no lombo! Portanto, nada mais simples! Bastava trocarmos de lugares e tudo se manteria intacto: Eu roubava-lhe a sorte a que ele tinha direito e ele roubava-me o azar que me era devido!
Foi fácil convencê-lo! Disse-lhe:
- Ó Frederico, esse teu lugar está amaldiçoado! Troca lá comigo que eu hoje estou mãos largas!
O tipo deu um salto da cadeira:
- És um bacano!!!
Dez segundos depois estávamos onde eu queria que estivéssemos, ambos de sorriso nos lábios, a manusear o mecanismo universal das probabilidades. Porém, qual não foi o meu espanto ao dar conta, a pouco e pouco, que a coisa afinal não estava a resultar: misteriosamente, eu comecei a ter azar e o Frederico a ter sorte.
Disse eu:
- Foda-se!
Disse ele:
- Obrigadão, pá!
Pus-me a pensar no que teria corrido mal! Não sou nenhum especialista em cálculo de probabilidades mas dei rapidamente conta de duas implicações importantes: em primeiro lugar tinha de haver um ponto de referência espacial a partir do qual se pudesse fazer a gestão da sorte! Quer dizer, eu tive em consideração os lugares onde estávamos sentados mas não me lembrei de ter em conta os próprios jogadores! Afinal o que é mais importante? O lugar do jogador ou o próprio jogador? Qual deles é que o universo tem em apreço ao fazer as contas? Será que leva ambos em igual conta? Terá o universo ficado confuso no momento em que trocámos de lugar? Terá ele equacionado alguma coisa deste género: "Bem, o Frederico merece ter sorte a partir de agora mas, em contrapartida, veio sentar-se num lugar que merece ter azar? Que se lixe, jogo aos dados e pronto!"...
Em segundo lugar, pensei que também deverá haver um ponto de referência temporal, uma espécie de memória do universo acerca do passado de cada objecto, capaz de condicionar o que lhe vai acontecer a seguir! Por exemplo, no caso da moeda, eu poderei esperar que saia cara por saber que saiu coroa nas 100 vezes anteriores, mas o universo pode querer que saia coroa por saber que, na história global daquela moeda particular, já saíram 100 vezes coroa mas 1000 vezes cara! Até onde vai a memória do universo? Será amnésico ou será que tem tudo apontado na caderneta? Terá ele levado em conta todos os jogos de poker em que eu e o Frederico já participámos conjuntamente, de forma a melhor sentenciar a sorte do jogo de ontem?
E o mais estranho é que tudo isto de que tenho vindo a falar - as moedas, os jogos de Poker, as cadeiras, os próprios jogadores - tudo isto não é mais que mera construção mental, só é ponto de referência na minha cabeça! O universo certamente não faz uso de conceitos específicos como "lugar do Frederico" enquanto calcula a média estatística! Mais um nó no cérebro!...
Enfim, depois de alguns minutos de devaneio, acabei por me render a esses desígnios inomináveis do cosmos e limitei-me ao poker. No final da noite perdi 20 euros...
A minha constatação foi simples: se todos os jogadores forem igualmente bons, todos terão a mesma probabilidade de ganhar quantia idêntica no final da noite. Portanto, se em dado momento algum deles estiver com demasiado azar, espera-se que venha a recuperar a sorte nos minutos seguintes, fazendo as pazes com a média estatística. Assim me ocorreu que, partindo desse princípio, talvez desse para ludibriar os meandros secretos do cosmos!
Ora vejamos: Se o jogador sentado na cadeira A está a ter mais azar que os restantes, troco de lugar com ele na altura certa e deverei, à partida, receber a sorte que a cadeira dele tem em défice, visto que, no final, tudo tende para o equilíbrio!! Conclusão: em teoria torna-se realmente possível correr atrás da sorte!
Na verdade trata-se de uma intuição básica: O caro leitor tem uma moeda na mão e quer adivinhar se vai sair cara ou coroa. Dizem-lhe que nas cem vezes anteriores saiu coroa. Então, certamente irá confiar que sairá cara na vez seguinte, tendo em conta a enorme improbabilidade de que saia coroa 101 vezes seguidas! Pode dizer-se que o universo está, naquele preciso momento, potencialmente inclinado para a cara! Uma espécie de "atractor estranho"!... Ora, no Poker, pensei eu, deveria ser a mesma coisa!
Já passava das duas da manhã e o Frederico estava, desde o início da noite, a ter um azar de meter dó! Eu, em contrapartida, estava com um lucro simetricamente oposto! Tudo indicava que, a qualquer momento, ele deveria começar a recuperar e eu a levar no lombo! Portanto, nada mais simples! Bastava trocarmos de lugares e tudo se manteria intacto: Eu roubava-lhe a sorte a que ele tinha direito e ele roubava-me o azar que me era devido!
Foi fácil convencê-lo! Disse-lhe:
- Ó Frederico, esse teu lugar está amaldiçoado! Troca lá comigo que eu hoje estou mãos largas!
O tipo deu um salto da cadeira:
- És um bacano!!!
Dez segundos depois estávamos onde eu queria que estivéssemos, ambos de sorriso nos lábios, a manusear o mecanismo universal das probabilidades. Porém, qual não foi o meu espanto ao dar conta, a pouco e pouco, que a coisa afinal não estava a resultar: misteriosamente, eu comecei a ter azar e o Frederico a ter sorte.
Disse eu:
- Foda-se!
Disse ele:
- Obrigadão, pá!
Pus-me a pensar no que teria corrido mal! Não sou nenhum especialista em cálculo de probabilidades mas dei rapidamente conta de duas implicações importantes: em primeiro lugar tinha de haver um ponto de referência espacial a partir do qual se pudesse fazer a gestão da sorte! Quer dizer, eu tive em consideração os lugares onde estávamos sentados mas não me lembrei de ter em conta os próprios jogadores! Afinal o que é mais importante? O lugar do jogador ou o próprio jogador? Qual deles é que o universo tem em apreço ao fazer as contas? Será que leva ambos em igual conta? Terá o universo ficado confuso no momento em que trocámos de lugar? Terá ele equacionado alguma coisa deste género: "Bem, o Frederico merece ter sorte a partir de agora mas, em contrapartida, veio sentar-se num lugar que merece ter azar? Que se lixe, jogo aos dados e pronto!"...
Em segundo lugar, pensei que também deverá haver um ponto de referência temporal, uma espécie de memória do universo acerca do passado de cada objecto, capaz de condicionar o que lhe vai acontecer a seguir! Por exemplo, no caso da moeda, eu poderei esperar que saia cara por saber que saiu coroa nas 100 vezes anteriores, mas o universo pode querer que saia coroa por saber que, na história global daquela moeda particular, já saíram 100 vezes coroa mas 1000 vezes cara! Até onde vai a memória do universo? Será amnésico ou será que tem tudo apontado na caderneta? Terá ele levado em conta todos os jogos de poker em que eu e o Frederico já participámos conjuntamente, de forma a melhor sentenciar a sorte do jogo de ontem?
E o mais estranho é que tudo isto de que tenho vindo a falar - as moedas, os jogos de Poker, as cadeiras, os próprios jogadores - tudo isto não é mais que mera construção mental, só é ponto de referência na minha cabeça! O universo certamente não faz uso de conceitos específicos como "lugar do Frederico" enquanto calcula a média estatística! Mais um nó no cérebro!...
Enfim, depois de alguns minutos de devaneio, acabei por me render a esses desígnios inomináveis do cosmos e limitei-me ao poker. No final da noite perdi 20 euros...
Coisas da Net
Aconteceu uma desgraça!!! Os comentários deste blog foram todos à vida, não me perguntem porquê! Vozes tão preciosas extraviadas para sempre!... Uma verdadeira comunidade virtual completamente dizimada! E o pior é que nem sei quem é que devo processar...
Hoje é um dia de luto, não haja dúvida. Descansem em paz os tão tragicamente silenciados... amen.
Hoje é um dia de luto, não haja dúvida. Descansem em paz os tão tragicamente silenciados... amen.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
CAOS
Já faz mais de um mês que estou neste quarto de hospital, enclausurado numa cama individual, as pernas engessadas, alguns aparelhos de rotina à minha direita, uma televisão no tecto sempre desligada (ou avariada, nem sei), na mesa de cabeceira uma pilha de cartas de remorso que o filho de Rousseau me enviou, preocupado com a demora da minha recuperação, ao lado das cartas a resma dos livros com que tenho passado a maior parte do tempo, quatro ou cinco do Henry Miller, dois do Sade, o “Equador” do Miguel Sousa Tavares só para dizer que o tenho, alguns do Saramago para o mesmo efeito, ainda um outro do Paulo Coelho para impressionar as enfermeiras, e um último – que estou a ler neste momento – sobre teoria do Caos.
Esta nova ciência tem-me dado a volta ao miolo!... Não tomava conhecimento de entrelinhas do mundo tão desconcertantes desde a adolescência, quando descobri coisas como a derrota do programa de Hilbert, a omnipresença mágica do número Pi, os teoremas de Godel ou a masturbação!
E dirá agora o meu amigo relativista: “Com que então, solipsista, andas a ler um livro sobre Caos!... Um tipo ortodoxo como tu a transgredir o lema reduccionista! Quem diria!...
Pois bem, confesso que levei um tabefe profundo na minha concepção prévia da realidade, isso é um facto... mas calma lá com as extrapolações. Ainda não foi desta que mudei de equipa. Evidentemente não vou explicar aqui a forma como concilio o Caos e a ciência normal numa epistemologia comum, mas alerto desde já aqueles que adoram terminologias dúbias e sugestivas – como “caos” – para que não caiam no erro de levar a palavra à letra. Einstein cometeu um erro parecido ao dar à sua teoria o nome de relatividade – em vez de invariância – e foi o que se viu: legiões de novos profetas a proclamar em nome do mestre que tudo será, doravante, relativo. Desta vez, os teóricos ainda foram a tempo de trocar o termo caos pela bem mais inócua definição de “Estudos da complexidade”, não fossem elevar-se das trevas legiões de vozes a proclamar que tudo será, doravante, caótico! Mesmo assim, continuo a preferir o termo caos, portanto será esse que, doravante, irei usar!
Aliás, a teoria do caos, ao invés de proclamar a anarquia universal, limita-se a procurar a ordem subjacente à desordem, a investigar a estrutura daquilo que é aparentemente caótico, sondando padrões e regularidades nos sistemas até recentemente considerados insondáveis, dada a sua complexidade. A novidade está na abordagem holística desta nova ciência. Em vez de decompor o problema nas suas partes, toma o sistema na sua totalidade, com “ruído” incluído, e interpreta os seus timbres implícitos e a sua natureza global. Em suma, pela primeira vez em ciência, eis uma ferramenta potencial para compreender as mulheres...
Ainda muito terei a dizer sobre este método peculiar de busca da verdade. Mas agora não posso, que é hora de colocá-lo em prática: Vem aí outra vez a enfermeira...
Esta nova ciência tem-me dado a volta ao miolo!... Não tomava conhecimento de entrelinhas do mundo tão desconcertantes desde a adolescência, quando descobri coisas como a derrota do programa de Hilbert, a omnipresença mágica do número Pi, os teoremas de Godel ou a masturbação!
E dirá agora o meu amigo relativista: “Com que então, solipsista, andas a ler um livro sobre Caos!... Um tipo ortodoxo como tu a transgredir o lema reduccionista! Quem diria!...
Pois bem, confesso que levei um tabefe profundo na minha concepção prévia da realidade, isso é um facto... mas calma lá com as extrapolações. Ainda não foi desta que mudei de equipa. Evidentemente não vou explicar aqui a forma como concilio o Caos e a ciência normal numa epistemologia comum, mas alerto desde já aqueles que adoram terminologias dúbias e sugestivas – como “caos” – para que não caiam no erro de levar a palavra à letra. Einstein cometeu um erro parecido ao dar à sua teoria o nome de relatividade – em vez de invariância – e foi o que se viu: legiões de novos profetas a proclamar em nome do mestre que tudo será, doravante, relativo. Desta vez, os teóricos ainda foram a tempo de trocar o termo caos pela bem mais inócua definição de “Estudos da complexidade”, não fossem elevar-se das trevas legiões de vozes a proclamar que tudo será, doravante, caótico! Mesmo assim, continuo a preferir o termo caos, portanto será esse que, doravante, irei usar!
Aliás, a teoria do caos, ao invés de proclamar a anarquia universal, limita-se a procurar a ordem subjacente à desordem, a investigar a estrutura daquilo que é aparentemente caótico, sondando padrões e regularidades nos sistemas até recentemente considerados insondáveis, dada a sua complexidade. A novidade está na abordagem holística desta nova ciência. Em vez de decompor o problema nas suas partes, toma o sistema na sua totalidade, com “ruído” incluído, e interpreta os seus timbres implícitos e a sua natureza global. Em suma, pela primeira vez em ciência, eis uma ferramenta potencial para compreender as mulheres...
Ainda muito terei a dizer sobre este método peculiar de busca da verdade. Mas agora não posso, que é hora de colocá-lo em prática: Vem aí outra vez a enfermeira...
Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
Entrevista ao Solipsista
Passei os últimos dias enfiado num quarto de hospital, ligado à máquina, com duas fracturas expostas e muito mau humor... a razão é simples: O "filho de Rousseau" convidou-me para ir à tasca dele dar uma entrevista e eu, ingenuamente, aceitei. Agora, quando olho para trás e me apercebo do erro, uma única coisa me levanta a moral: o gajo ainda ficou em pior estado que eu!...
Enfim, aqui fica a parte legível da entrevista, antes da conversa dar para o torto:
Bom Selvagem: Boa noite caros blogo-espectadores e sejam então bem vindos ao Encostado ao Balcão da Tasca com...(pausa para verificar o nome)...O Sol..ipsis..ta.. Solipsista.
E o Solipsista que aqui está encostado ao balcão da MINHA Tasca escreve coisas com piada sobre filosofia. Pelo menos diz que sim. Na minha opinião, e é só a minha humilde opinião de toneladas de sapiência laboriosamente sedimentadas, não se deve brincar com coisas sérias como a filosofia, a literatura ou a astro-quântica. As regras editoriais da Tasca primam pela qualidade e elitismo.
Mas hoje abrimos uma excepção, por isso, seja bem vindo caro Solipsista!
Solipsista: Ora muito boa noite, meu caro “filho de Rousseau”, caros blogo-espectadores, caras blogo-espectadoras, caríssimos tecnocratas e amantes do Cyber-zapping.
Por delicadeza, sinto-me obrigado a agradecer por esta entrevista, muito embora, no que diz respeito a estas coisas, a minha opinião seja um pouco como a do António Lobo Antunes: “Aceder a entrevistas é um exercício de vaidade e, como tal, só as faço se me pagarem!”. Curiosamente, estou a atravessar uma fase de invulgar altruísmo, portanto, neste caso particular, decidi render-me à vanglória.
Notei a dificuldade que o caro “filho de Rousseau” teve em soletrar a minha insígnia profissional e ideológica. É compreensível, pese embora a afronta implícita que uma tal gaguez sugere!
Bom Selvagem: Gaguez? Desculpe mas eu não quis sugerir que...
Solipsista: Já em puto, quando me perguntavam “Que queres ser quando fores grande?” e eu respondia “Quero ser solipsista...”, brindavam-me sempre com o mesmo desdém e renúncia. Durante anos, por exemplo, a minha mãe viveu com receio que esse termo estivesse, de algum modo, relacionado com a homossexualidade. Dizia ela, entre dois tabefes: “Antes trolha que essa merda!!”. Por consequência, vivi uma infância misantropa e revoltada. Mas que culpa tenho eu por o solipsismo ser tão difícil de soletrar?
Bom Selvagem: Eu soletrar euh... não mas hmm...
Solipsista: Notei também, amigo “filho de Rousseau”, que parece ter caído num gravíssimo mal entendido: Então eu escrevo coisas com piada sobre filosofia?!? Nada disso!! A filosofia, penso eu, já é cómica por natureza. Quanto a mim, limito-me a explicar – com cuidada seriedade – o teor dessa comédia. E nunca conheci nenhum comediante que tivesse piada ao explicar porque é que as piadas têm piada! Portanto, volto a sublinhar: O meu trabalho é sério e honrado!
Uma última coisa: Astro-quântica??!!! Mas que merda é essa? Daqui a pouco estamos a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul...
Bom Selvagem: AH! Não sabe o que é Astro-quântica!? Viram? Viram? Pff... a astro-quântica, fique sabendo, foi o trabalho de uma vida do astrónomo Hubble que teve de quantificar os astros e... bom eu explico-lhe depois. E podíamos estar aqui a noite toda a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul! Mas vamos antes a outros assuntos caro Solipsista, tenho de lhe dar uma oportunidade de brilhar não é? Então diga-me lá... qual é...hmm... a sua cor preferida... sim isso! Qual é? E...se fosse um animal, qual é que seria?
Solipsista: Ho... o meu querido Hubble, pobre homem! Dou-lhe mais crédito pela pachorra que teve para contar tanta estrela que propriamente por ter descoberto que o universo está em expansão. É precisa muita coragem (e muita queda para o celibato) para se enfiar num observatório durante anos a fio a olhar para chapas fotográficas! Enfim... aprendi com ele duas grandes lições na vida:
1) Se queres ver um telescópio baptizado com o teu nome, põe-te a contar estrelas de forma obsessiva! Se possível galáxias!
2) O efeito doppler diz-nos que o universo é maioritariamente benfiquista!...
Ora, mas qual era mesmo a pergunta?
Bom Selvagem: Qual é a sua cor preferida? E se fosse um animal, qual é que seria?
Solipsista: Ha, sim, as cores e os animais! Bem, que hei-de eu dizer perante uma pergunta deste tipo?... como é que se responde a isto? Sinto-me como se estivesse numa consulta de psiquiatra a interpretar borrões de tinta... não tarda, estás-me a perguntar a data de nascimento e o número de letras do nome completo para me fazeres uma análise numerológica. Mas calma, deixa-me pensar um bocado... cá vai: o animal favorito é o pato e a cor é o bege. Assunto arrumado!
Bom Selvagem: O pato? Pffff ih ih ih porque raio é que alguém havia de escolher o pato!? Ainda se fosse aquele animal meio pato meio marmota... aquele, o ornitorringolaringotorrinco. Quanto ao beige... isso é freudiano, lembra-lhe o leite materno ou o conteúdo de um preservativo usado que alguém lhe meteu no bolso, na escola para gozar consigo e depois a Inês estava lá e riu-se e corei corei e fiz chichi nas calças...
Mudando de assunto, sabe, o meu grande amigo Boaventura Sousa Santos, no outro dia quando estavamos a jogar dominó ali na Estrela, sabendo que eu o ia entrevistar, mandou-me ler-lhe esta missiva que anotei na folhinha de pontuações: “Solipsista, junta-te ao Lado Relativista, tu e eu podemos fazer grandes coisas juntos, a Força é forte em ti.” Quer responder-lhe... aqui em directo ?
Solipsista: Minha nossa!! Agora tocou-me na ferida!! Se eu soubesse que andou a jogar dominó com esse gajo nem sequer tinha aceite o convite desta entrevista! Cá para mim, o meu amigo “filho de Rousseau” anda com muito más companhias! Mas, por favor, tenha cuidado! Eu sei que o lado relativista da força é tentador e poderosíssimo, permite imunidade plena contra as rédeas da razão (pelo menos da razão razoável)... inspira a bem amada liberdade poética em todas as áreas, até na topologia diferencial... ilumina o lado humano das questões universais... resgata o tão almejado antropocentrismo perdido... coloca-nos de novo no centro do mundo (como qualquer outra religião que se preze)... é mais corajosa do ponto de vista pós-moderno e, portanto, mais honrada...
Bom Selvagem: Zzzzz hmm, hã?! Sim claro... honrada...
Solipsista: ...é mais desconfiada da ideia de verdade e, portanto, menos ingénua... trás consigo a aliança a todo um género de ceitas populosas da Nova Era (os raelianos, por exemplo)... já para não falar de que, embora se oponha aos ideais do capitalismo neo-liberal, acaba, paradoxalmente, por vender melhor! Aliás, sempre gostava eu de saber a quem andou esse tal BSS a dar o traseiro para conseguir que o seu livrinho “Um Discurso sobre as Ciências” fosse empregue nos programas de uns certos cursos do ensino superior que eu cá conheço. Faz-me uma confusão tremenda! Abomino gente que se aproveita da ingenuidade intelectual deste país para impingir manifestos epistemológico-dadaístas!! Pois então diga lá a esse gajo que eu, se o apanho na rua, encho-o de porrada! E ele verá até que ponto a força está comigo...
Bom Selvagem: Aii.... Eu posso ser velhote mas ainda tenho forças! Sei artes marcianas como o Judo-Jitsu e o Kick-Power! Não fale assim dos meus amigos! Essa foi a última gota! E o que encheu o copo foi isso do senhor Solipsista se a meter com a MINHA Cath d'a Base do Optimismo, eu vi-a primeiro, ela só soube do seu blogue graças ao linke na minha tasca! É MINHA! OUVIU?!? MINHA! Eu sou mais culto e mais bonito e mais forte que você!
*Bom selvagem arregaça as mangas*
Solipsista: Mas tu fazes ideia de com quem te estás a meter, pá? Fazes porventura ideia daquilo que um solipsista é capaz? Nunca viste o Matrix? Venho eu aqui à tasca com a melhor das intenções, espírito aberto e cavalheiresco, disposto a revelar a minha intimidade, e este gajo responde-me com instintos nietzscheanos??! Mas se é luta de galos que queres, luta de galos terás! *Solipsista arregaça as mangas* Aliás, pela Cath , tudo vale a pena!! Aprendi com ela que é possível o concílio entre a poesia, o sexo feminino, a demanda da unificação da física e o Nick Cave!! Ela é um anjo caído da net! É o meu estímulo para ligar o PC todas as manhãs!! É a força anímica da minha intelectualidade! É o bálsamo que me faz redescobrir a objectividade do real! Anda cá ó manso! Qual selvagem qual quê? Ponho-te já numa jaula!!!....
Enfim, aqui fica a parte legível da entrevista, antes da conversa dar para o torto:
Bom Selvagem: Boa noite caros blogo-espectadores e sejam então bem vindos ao Encostado ao Balcão da Tasca com...(pausa para verificar o nome)...O Sol..ipsis..ta.. Solipsista.
E o Solipsista que aqui está encostado ao balcão da MINHA Tasca escreve coisas com piada sobre filosofia. Pelo menos diz que sim. Na minha opinião, e é só a minha humilde opinião de toneladas de sapiência laboriosamente sedimentadas, não se deve brincar com coisas sérias como a filosofia, a literatura ou a astro-quântica. As regras editoriais da Tasca primam pela qualidade e elitismo.
Mas hoje abrimos uma excepção, por isso, seja bem vindo caro Solipsista!
Solipsista: Ora muito boa noite, meu caro “filho de Rousseau”, caros blogo-espectadores, caras blogo-espectadoras, caríssimos tecnocratas e amantes do Cyber-zapping.
Por delicadeza, sinto-me obrigado a agradecer por esta entrevista, muito embora, no que diz respeito a estas coisas, a minha opinião seja um pouco como a do António Lobo Antunes: “Aceder a entrevistas é um exercício de vaidade e, como tal, só as faço se me pagarem!”. Curiosamente, estou a atravessar uma fase de invulgar altruísmo, portanto, neste caso particular, decidi render-me à vanglória.
Notei a dificuldade que o caro “filho de Rousseau” teve em soletrar a minha insígnia profissional e ideológica. É compreensível, pese embora a afronta implícita que uma tal gaguez sugere!
Bom Selvagem: Gaguez? Desculpe mas eu não quis sugerir que...
Solipsista: Já em puto, quando me perguntavam “Que queres ser quando fores grande?” e eu respondia “Quero ser solipsista...”, brindavam-me sempre com o mesmo desdém e renúncia. Durante anos, por exemplo, a minha mãe viveu com receio que esse termo estivesse, de algum modo, relacionado com a homossexualidade. Dizia ela, entre dois tabefes: “Antes trolha que essa merda!!”. Por consequência, vivi uma infância misantropa e revoltada. Mas que culpa tenho eu por o solipsismo ser tão difícil de soletrar?
Bom Selvagem: Eu soletrar euh... não mas hmm...
Solipsista: Notei também, amigo “filho de Rousseau”, que parece ter caído num gravíssimo mal entendido: Então eu escrevo coisas com piada sobre filosofia?!? Nada disso!! A filosofia, penso eu, já é cómica por natureza. Quanto a mim, limito-me a explicar – com cuidada seriedade – o teor dessa comédia. E nunca conheci nenhum comediante que tivesse piada ao explicar porque é que as piadas têm piada! Portanto, volto a sublinhar: O meu trabalho é sério e honrado!
Uma última coisa: Astro-quântica??!!! Mas que merda é essa? Daqui a pouco estamos a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul...
Bom Selvagem: AH! Não sabe o que é Astro-quântica!? Viram? Viram? Pff... a astro-quântica, fique sabendo, foi o trabalho de uma vida do astrónomo Hubble que teve de quantificar os astros e... bom eu explico-lhe depois. E podíamos estar aqui a noite toda a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul! Mas vamos antes a outros assuntos caro Solipsista, tenho de lhe dar uma oportunidade de brilhar não é? Então diga-me lá... qual é...hmm... a sua cor preferida... sim isso! Qual é? E...se fosse um animal, qual é que seria?
Solipsista: Ho... o meu querido Hubble, pobre homem! Dou-lhe mais crédito pela pachorra que teve para contar tanta estrela que propriamente por ter descoberto que o universo está em expansão. É precisa muita coragem (e muita queda para o celibato) para se enfiar num observatório durante anos a fio a olhar para chapas fotográficas! Enfim... aprendi com ele duas grandes lições na vida:
1) Se queres ver um telescópio baptizado com o teu nome, põe-te a contar estrelas de forma obsessiva! Se possível galáxias!
2) O efeito doppler diz-nos que o universo é maioritariamente benfiquista!...
Ora, mas qual era mesmo a pergunta?
Bom Selvagem: Qual é a sua cor preferida? E se fosse um animal, qual é que seria?
Solipsista: Ha, sim, as cores e os animais! Bem, que hei-de eu dizer perante uma pergunta deste tipo?... como é que se responde a isto? Sinto-me como se estivesse numa consulta de psiquiatra a interpretar borrões de tinta... não tarda, estás-me a perguntar a data de nascimento e o número de letras do nome completo para me fazeres uma análise numerológica. Mas calma, deixa-me pensar um bocado... cá vai: o animal favorito é o pato e a cor é o bege. Assunto arrumado!
Bom Selvagem: O pato? Pffff ih ih ih porque raio é que alguém havia de escolher o pato!? Ainda se fosse aquele animal meio pato meio marmota... aquele, o ornitorringolaringotorrinco. Quanto ao beige... isso é freudiano, lembra-lhe o leite materno ou o conteúdo de um preservativo usado que alguém lhe meteu no bolso, na escola para gozar consigo e depois a Inês estava lá e riu-se e corei corei e fiz chichi nas calças...
Mudando de assunto, sabe, o meu grande amigo Boaventura Sousa Santos, no outro dia quando estavamos a jogar dominó ali na Estrela, sabendo que eu o ia entrevistar, mandou-me ler-lhe esta missiva que anotei na folhinha de pontuações: “Solipsista, junta-te ao Lado Relativista, tu e eu podemos fazer grandes coisas juntos, a Força é forte em ti.” Quer responder-lhe... aqui em directo ?
Solipsista: Minha nossa!! Agora tocou-me na ferida!! Se eu soubesse que andou a jogar dominó com esse gajo nem sequer tinha aceite o convite desta entrevista! Cá para mim, o meu amigo “filho de Rousseau” anda com muito más companhias! Mas, por favor, tenha cuidado! Eu sei que o lado relativista da força é tentador e poderosíssimo, permite imunidade plena contra as rédeas da razão (pelo menos da razão razoável)... inspira a bem amada liberdade poética em todas as áreas, até na topologia diferencial... ilumina o lado humano das questões universais... resgata o tão almejado antropocentrismo perdido... coloca-nos de novo no centro do mundo (como qualquer outra religião que se preze)... é mais corajosa do ponto de vista pós-moderno e, portanto, mais honrada...
Bom Selvagem: Zzzzz hmm, hã?! Sim claro... honrada...
Solipsista: ...é mais desconfiada da ideia de verdade e, portanto, menos ingénua... trás consigo a aliança a todo um género de ceitas populosas da Nova Era (os raelianos, por exemplo)... já para não falar de que, embora se oponha aos ideais do capitalismo neo-liberal, acaba, paradoxalmente, por vender melhor! Aliás, sempre gostava eu de saber a quem andou esse tal BSS a dar o traseiro para conseguir que o seu livrinho “Um Discurso sobre as Ciências” fosse empregue nos programas de uns certos cursos do ensino superior que eu cá conheço. Faz-me uma confusão tremenda! Abomino gente que se aproveita da ingenuidade intelectual deste país para impingir manifestos epistemológico-dadaístas!! Pois então diga lá a esse gajo que eu, se o apanho na rua, encho-o de porrada! E ele verá até que ponto a força está comigo...
Bom Selvagem: Aii.... Eu posso ser velhote mas ainda tenho forças! Sei artes marcianas como o Judo-Jitsu e o Kick-Power! Não fale assim dos meus amigos! Essa foi a última gota! E o que encheu o copo foi isso do senhor Solipsista se a meter com a MINHA Cath d'a Base do Optimismo, eu vi-a primeiro, ela só soube do seu blogue graças ao linke na minha tasca! É MINHA! OUVIU?!? MINHA! Eu sou mais culto e mais bonito e mais forte que você!
*Bom selvagem arregaça as mangas*
Solipsista: Mas tu fazes ideia de com quem te estás a meter, pá? Fazes porventura ideia daquilo que um solipsista é capaz? Nunca viste o Matrix? Venho eu aqui à tasca com a melhor das intenções, espírito aberto e cavalheiresco, disposto a revelar a minha intimidade, e este gajo responde-me com instintos nietzscheanos??! Mas se é luta de galos que queres, luta de galos terás! *Solipsista arregaça as mangas* Aliás, pela Cath , tudo vale a pena!! Aprendi com ela que é possível o concílio entre a poesia, o sexo feminino, a demanda da unificação da física e o Nick Cave!! Ela é um anjo caído da net! É o meu estímulo para ligar o PC todas as manhãs!! É a força anímica da minha intelectualidade! É o bálsamo que me faz redescobrir a objectividade do real! Anda cá ó manso! Qual selvagem qual quê? Ponho-te já numa jaula!!!....
Sábado, Dezembro 27, 2003
"História de Moral", By Solipsista
O Xavier adorava fumar, fumava três a quatro maços de tabaco por dia. Afiançava ele que o seu vício não era vício mas antes uma devoção, a rendição assumida a um prazer irresistível. Elogiava o acto de sorver o fumo, o crepitar da ponta incandescente, a postura dos dedos, a pose do fumador inteiro, a consistência do cigarro, a estética do maço, este homem vivia numa apoteose aditiva sem igual.
A primeira vez que ouvi alguém dar-lhe uma achega sobre esta sua compulsividade doentia, advertência suave e despercebida que o Xavier nem teria notado se, de certo modo, já não se sentisse penitente à partida, nessa primeira vez ouviu-o dizer “Que se foda!...”.
Ao longo destes últimos anos, e à medida que a sofreguidão do cigarro vai aumentando, não poucos lhe têm feito notar o erro e a irresponsabilidade, alguns chegaram mesmo a propor-lhe um eventual abrandamento, quem sabe até uma pausa, mas a tudo isso ele respondeu sempre com uma chama de isqueiro e um redondo “Que se foda!”.
Quando o médico lhe lançou o alerta, o ultimato, a obrigação das medidas drásticas, o Xavier consentiu dentro do consultório em silêncio, até fez uma vénia compassiva, mas, logo à saída, a prioridade foi pedir lume e dizer “Que se foda”....
Ontem, quando o mesmo médico lhe diagnosticou o cancro em tom de sentença, frisando com justo sadismo a brevidade com que virá o suplício e a deploração, ontem que o Xavier soube que vai morrer, ele chegou-se junto de nós, acendeu um cigarro e disse “Que se foda!”.
A primeira vez que ouvi alguém dar-lhe uma achega sobre esta sua compulsividade doentia, advertência suave e despercebida que o Xavier nem teria notado se, de certo modo, já não se sentisse penitente à partida, nessa primeira vez ouviu-o dizer “Que se foda!...”.
Ao longo destes últimos anos, e à medida que a sofreguidão do cigarro vai aumentando, não poucos lhe têm feito notar o erro e a irresponsabilidade, alguns chegaram mesmo a propor-lhe um eventual abrandamento, quem sabe até uma pausa, mas a tudo isso ele respondeu sempre com uma chama de isqueiro e um redondo “Que se foda!”.
Quando o médico lhe lançou o alerta, o ultimato, a obrigação das medidas drásticas, o Xavier consentiu dentro do consultório em silêncio, até fez uma vénia compassiva, mas, logo à saída, a prioridade foi pedir lume e dizer “Que se foda”....
Ontem, quando o mesmo médico lhe diagnosticou o cancro em tom de sentença, frisando com justo sadismo a brevidade com que virá o suplício e a deploração, ontem que o Xavier soube que vai morrer, ele chegou-se junto de nós, acendeu um cigarro e disse “Que se foda!”.
Segunda-feira, Dezembro 22, 2003
Conversa com o meu sobrinho acerca do Pai Natal...
O meu sobrinho Titinho ainda acredita no Pai natal. No entanto, ultimamente, talvez por já ter nove anos, começou a fazer perguntas estranhas. Desconfio que esteja a entrar numa crise de fé sem precedentes, o que me deixa extremamente preocupado, até porque já só faltam dois dias para a hora da verdade.
Hoje, à mesa do almoço, encontrei o puto particularmente pensativo, a mastigar o peixe com a mesma alienação de quem come carne, a meter o arroz de feijão à boca com uma tranquilidade soturna, a não olhar para a televisão apesar dos anúncios, o puto calado e a portar-se bem, eu a perguntar “Titinho, que se passa contigo, pá?”, e ele a deitar-me um olhar de renúncia fúnebre, a mãe a inquirir “Tens a certeza que o feijão tá bom, filho?”, e ele a engolir a garfada com uma determinação nunca vista, todos à mesa a perderem o apetite, fixos no rapaz, incrédulos, e ele para mim:
"Tio solipsista, acreditas mesmo no pai natal?"
"Claro que sim!", disse eu.
"Mas há miúdos lá na escola que não acreditam."
"São uns ignorantes", afiancei, piscando-lhe um olho, "os teus colegas devem estar a referir-se aos Pais natal que aparecem na televisão! Esses são falsos, claro! O verdadeiro não se deixa corromper por contratos publicitários!"
"Mas, Tio Solipsista, não é verdade que o Pai natal se veste de vermelho por influência da Coca-cola? Isso faz-me pensar que ele não passa de um símbolo mercantilista ao serviço dos interesses consumistas da sociedade ocidental contemporânea..."
"Agora fodeste-me, Titinho! Mas esse pormenor não invalida que o Pai natal exista como entidade autónoma. Também se vendem muitas t-shirts do Che Guevera e, todavia, ele existiu de facto!"
"Esse argumento não me chega, tio. Também o Bertrand Russell provou, por A mais B, que o Papa e ele eram a mesma pessoa, e, porém, todos sabemos que o Bertrand Russell era ateu! A mim não me basta essa tua retórica sofisticada, eu preciso de provas empíricas!"
"Em primeiro lugar, Titinho, nada te garante que o Papa não é ateu! Em segundo lugar, se é de provas que precisas, não te chegam os presentes que recebeste no ano passado?"
"São evidências demasiado indirectas. Como notaram Duhen e Quine, é sempre possível jogar com as provas e os dados de observação de modo a adequá-las à hipótese que se tenta provar! Portanto, nada me garante que não foste tu, fantasiado de Pai Natal, que trouxeste os presentes! Ou o avô, que é mais gordo!"
"Caralho, Titinho, diz-me lá uma coisa, tu acreditas no Bill Clinton?"
"Acredito."
"Porquê?"
"Já o vi na televisão."
"Na televisão?! Mas já olhaste bem para dentro de uma televisão? São só electrões num tubo de raios catódicos, meu amigo."
"Sei onde queres chegar, tio, mas isso também não me chega! Preciso de verificação experimental."
"Qual verificação qual quê?", explodi eu, "Não me venhas com essas merdices do Círculo de Viena! Puta que pariu este puto! Um solipsista como eu aqui a tentar provar que o Pai Natal existe, onde é que já se viu?!! A verificação que vá pró caralho!!!"
"Boa, tio, com essa fizeste-me lembrar da importante lição de Karl Popper: Não posso verificar a existência do Pai natal mas, por outro lado, também não posso falsificar essa afirmação, uma vez que não é tratável cientificamente! Ora ai está: não é possível provar a existência do pai natal mas também não é possível provar a negação da sua existência! O Pai Natal não é cientificamente falsificável!! Obrigado, tio solipsista! Espera lá... que merda é esta no meu prato?..."
Suspirámos todos de alívio e ternura: O titinho tinha voltado ao normal...
Hoje, à mesa do almoço, encontrei o puto particularmente pensativo, a mastigar o peixe com a mesma alienação de quem come carne, a meter o arroz de feijão à boca com uma tranquilidade soturna, a não olhar para a televisão apesar dos anúncios, o puto calado e a portar-se bem, eu a perguntar “Titinho, que se passa contigo, pá?”, e ele a deitar-me um olhar de renúncia fúnebre, a mãe a inquirir “Tens a certeza que o feijão tá bom, filho?”, e ele a engolir a garfada com uma determinação nunca vista, todos à mesa a perderem o apetite, fixos no rapaz, incrédulos, e ele para mim:
"Tio solipsista, acreditas mesmo no pai natal?"
"Claro que sim!", disse eu.
"Mas há miúdos lá na escola que não acreditam."
"São uns ignorantes", afiancei, piscando-lhe um olho, "os teus colegas devem estar a referir-se aos Pais natal que aparecem na televisão! Esses são falsos, claro! O verdadeiro não se deixa corromper por contratos publicitários!"
"Mas, Tio Solipsista, não é verdade que o Pai natal se veste de vermelho por influência da Coca-cola? Isso faz-me pensar que ele não passa de um símbolo mercantilista ao serviço dos interesses consumistas da sociedade ocidental contemporânea..."
"Agora fodeste-me, Titinho! Mas esse pormenor não invalida que o Pai natal exista como entidade autónoma. Também se vendem muitas t-shirts do Che Guevera e, todavia, ele existiu de facto!"
"Esse argumento não me chega, tio. Também o Bertrand Russell provou, por A mais B, que o Papa e ele eram a mesma pessoa, e, porém, todos sabemos que o Bertrand Russell era ateu! A mim não me basta essa tua retórica sofisticada, eu preciso de provas empíricas!"
"Em primeiro lugar, Titinho, nada te garante que o Papa não é ateu! Em segundo lugar, se é de provas que precisas, não te chegam os presentes que recebeste no ano passado?"
"São evidências demasiado indirectas. Como notaram Duhen e Quine, é sempre possível jogar com as provas e os dados de observação de modo a adequá-las à hipótese que se tenta provar! Portanto, nada me garante que não foste tu, fantasiado de Pai Natal, que trouxeste os presentes! Ou o avô, que é mais gordo!"
"Caralho, Titinho, diz-me lá uma coisa, tu acreditas no Bill Clinton?"
"Acredito."
"Porquê?"
"Já o vi na televisão."
"Na televisão?! Mas já olhaste bem para dentro de uma televisão? São só electrões num tubo de raios catódicos, meu amigo."
"Sei onde queres chegar, tio, mas isso também não me chega! Preciso de verificação experimental."
"Qual verificação qual quê?", explodi eu, "Não me venhas com essas merdices do Círculo de Viena! Puta que pariu este puto! Um solipsista como eu aqui a tentar provar que o Pai Natal existe, onde é que já se viu?!! A verificação que vá pró caralho!!!"
"Boa, tio, com essa fizeste-me lembrar da importante lição de Karl Popper: Não posso verificar a existência do Pai natal mas, por outro lado, também não posso falsificar essa afirmação, uma vez que não é tratável cientificamente! Ora ai está: não é possível provar a existência do pai natal mas também não é possível provar a negação da sua existência! O Pai Natal não é cientificamente falsificável!! Obrigado, tio solipsista! Espera lá... que merda é esta no meu prato?..."
Suspirámos todos de alívio e ternura: O titinho tinha voltado ao normal...
Sábado, Dezembro 20, 2003
Elogio às velocidades taquiónicas...
Acabei recentemente a leitura do livro do João Magueijo, “Mais rápido que a Luz”. E porra, o tipo é mesmo bom! Para quem não sabe, ele conseguiu o aparentemente impossível. Não me refiro, evidentemente, às manchetes de jornal que por aí andaram a felicitá-lo por cometer a heresia de pôr em causa a teoria da relatividade – toda a gente sabe que tal afirmação é um completo disparate (os editores dos jornais nunca foram lá muito inteligentes, pese embora a sua astúcia sensacionalista... um dia destes, por este rumo, aparece-me um título de jornal da pinta: “Escândalo: Em pleno século XXI ainda se usa a mecânica newtoniana para calcular o movimento de projécteis!”... ou “Casal de físicos transmontanos ainda usa termos como protão e neutrão!”)...
O que o compadre Magueijo conseguiu foi conciliar o aparentemente inconciliável, mormente a física teórica de ponta com a (até agora tida como fatal) nacionalidade portuguesa... é certo que ele fez alguma batota durante o processo: por exemplo, fugiu de Portugal. Mas quem poderá censurá-lo?
Outro aspecto em que é preciso aplaudi-lo é o seu estilo literário revolucionário. Nem Stephen Hawking – que tanto se gaba por ter vendido mais livros sobre física que a Madona vendeu sobre sexo – lhe chega aos calcanhares neste ponto. Propondo-se descrever a odisseia de investigação que o trouxe à sua teoria VSL, o Magueijo utiliza, em “Mais rápido que a Luz”, pausas frequentes para descrever as suas férias em Goa, as suas aventuras nos bares de Londres, o seu natal em Portugal... anexa fotos aqui e ali, algumas de colegas de profissão, uma outra da namorada; entre descrições lúcidas sobre problemas cosmológicos como o do horizonte ou da homogeneidade, vai confessando o seu desejo momentâneo de ir a um bar apanhar uma piela... enfim, uma delícia de livro!
Esforçando-se por seguir a máxima de Feynman: “vão-se todos lixar, eu faço o que me der na pinha e estou-me a cagar para o que vocês pensam!” (pág.183), Magueijo arrisca ainda títulos de capítulo como “Quando Deus estava speedado...”, fazendo lembrar, em ousadia e arrojo, os capítulos com que Nietzsche temperou o seu derradeiro “Ecce Homo”, intitulados “Porque sou tão sábio” ou “Porque escrevo tão bons livros”...
Deixo-vos então com alguns trechos deste livro fascinante que promete revolucionar não só as orientações da física como também as dos próprios físicos:
“Era com este humor sombrio que ia beber um copo ao fim do dia com a minha namorada, Kim, algures em Notting Hill. A essa hora sentia-me mal a ponto de querer desesperadamente tirar da cabeça todo esse esterco, fosse de que maneira fosse. De facto, à segunda cerveja, todos aqueles impressos sórdidos se escoavam pelo ânus do meu cérebro. Não é de estranhar que haja tanto alcoolismo na Grã-Bretanha (pág.157 - acerca das burocracias da instituição científica).
“Dito com toda a brutalidade, os chefes do Imperial gostam de se ver como chulos científicos, num contexto em que os cientistas fazem o papel de putas. (...) e no instante em que escrevo estão a cometer o mesmo erro com outro cientista, um teórico de cordas de renome mundial. As pessoas que querem ficar com todo o crédito por uma instituição de primeira só são, no meu entender, primeiras na merda (pág.218 - acerca da competição científica em geral)...
Uma vez mais: parabéns Magueijo...
O que o compadre Magueijo conseguiu foi conciliar o aparentemente inconciliável, mormente a física teórica de ponta com a (até agora tida como fatal) nacionalidade portuguesa... é certo que ele fez alguma batota durante o processo: por exemplo, fugiu de Portugal. Mas quem poderá censurá-lo?
Outro aspecto em que é preciso aplaudi-lo é o seu estilo literário revolucionário. Nem Stephen Hawking – que tanto se gaba por ter vendido mais livros sobre física que a Madona vendeu sobre sexo – lhe chega aos calcanhares neste ponto. Propondo-se descrever a odisseia de investigação que o trouxe à sua teoria VSL, o Magueijo utiliza, em “Mais rápido que a Luz”, pausas frequentes para descrever as suas férias em Goa, as suas aventuras nos bares de Londres, o seu natal em Portugal... anexa fotos aqui e ali, algumas de colegas de profissão, uma outra da namorada; entre descrições lúcidas sobre problemas cosmológicos como o do horizonte ou da homogeneidade, vai confessando o seu desejo momentâneo de ir a um bar apanhar uma piela... enfim, uma delícia de livro!
Esforçando-se por seguir a máxima de Feynman: “vão-se todos lixar, eu faço o que me der na pinha e estou-me a cagar para o que vocês pensam!” (pág.183), Magueijo arrisca ainda títulos de capítulo como “Quando Deus estava speedado...”, fazendo lembrar, em ousadia e arrojo, os capítulos com que Nietzsche temperou o seu derradeiro “Ecce Homo”, intitulados “Porque sou tão sábio” ou “Porque escrevo tão bons livros”...
Deixo-vos então com alguns trechos deste livro fascinante que promete revolucionar não só as orientações da física como também as dos próprios físicos:
“Era com este humor sombrio que ia beber um copo ao fim do dia com a minha namorada, Kim, algures em Notting Hill. A essa hora sentia-me mal a ponto de querer desesperadamente tirar da cabeça todo esse esterco, fosse de que maneira fosse. De facto, à segunda cerveja, todos aqueles impressos sórdidos se escoavam pelo ânus do meu cérebro. Não é de estranhar que haja tanto alcoolismo na Grã-Bretanha (pág.157 - acerca das burocracias da instituição científica).
“Dito com toda a brutalidade, os chefes do Imperial gostam de se ver como chulos científicos, num contexto em que os cientistas fazem o papel de putas. (...) e no instante em que escrevo estão a cometer o mesmo erro com outro cientista, um teórico de cordas de renome mundial. As pessoas que querem ficar com todo o crédito por uma instituição de primeira só são, no meu entender, primeiras na merda (pág.218 - acerca da competição científica em geral)...
Uma vez mais: parabéns Magueijo...
Anedota
O episódio que o “filho de Rousseau” me enviou merece o estatuto de post. São pequenos trechos como este que, tal como os provérbios milenares, escondem as verdades mais profundas. Ora aqui vai:
Um contínuo de limpeza interrompe um físico que fazia experiências no acelerador de partículas do CERN:
- Olhe, desculpe lá interromper, mas porque é que vocês precisam de equipamento tão caro para estudarem? É máquinas, lasers, coisas esquisitas... e não se vê nada! E há gente aí a morrer de fome! Porque é que não fazem como os matemáticos? Passo por lá e os tipos só precisam de papel, caneta e um caixotinho do lixo. Ou ainda melhor, façam como os filósofos, esses só precisam de papel e caneta!"...
Um contínuo de limpeza interrompe um físico que fazia experiências no acelerador de partículas do CERN:
- Olhe, desculpe lá interromper, mas porque é que vocês precisam de equipamento tão caro para estudarem? É máquinas, lasers, coisas esquisitas... e não se vê nada! E há gente aí a morrer de fome! Porque é que não fazem como os matemáticos? Passo por lá e os tipos só precisam de papel, caneta e um caixotinho do lixo. Ou ainda melhor, façam como os filósofos, esses só precisam de papel e caneta!"...
Segunda-feira, Dezembro 08, 2003
Dois em um: As parideiras cósmicas e a dignidade humana...
Cap. I
A estratégia trans-disciplinar.
Uma das fantasias ou devaneios mais publicitados pelos relativistas epistémicos a propósito do método científico moderno centra-se na chamada trans-disciplinaridade. Pretendendo reformular o paradigma clássico que tão ingenuamente temos vindo a usar desde Newton e Descartes, os relativistas defendem uma nova nuance espistemológica que, basicamente, seja mais democrática. Indignados pelo positivismo, o reduccionismo, o cientismo, o determinismo, o mecanicismo, o fisicalismo... e outras tantas centenas de “ismos”, estes ilustres pensadores propõem, assim, através de uma retórica extremamente refinada – e apoiada em milhares de ismos alternativos que não os atrás referidos –, o verdadeiro e aclamado caminho da verdade, até agora impedido pelo dogmatismo (mais um “ismo”) dos cientistas ortodoxos (ou ortodoxistas, como queiram...).
Para uma ciência mais democrática, adopte-se então a trans-disciplinaridade! Muito resumidamente, trata-se de dar igual peso epistemológico e axiológico a todas as formas de conhecimento. Um cientista “trans-disciplinarista” deverá pensar da seguinte maneira:
“Os resultados das novas equações são extremamente pertinentes, mas contêm algumas dízimas de teor visivelmente comunista. Farei uma nova análise filológica do texto axiomático a fim de confirmar a inter-subjectividade deste tipo de partidarismo politico-geométrico, assumindo como sujeitos sociais e historicamente situados os próprios cálculos (instrumentos) e eu mesmo, e assumindo como objectos “exteriores” os resultados equacionais propriamente ditos. No final serei não só capaz de precisar as implicações lógico-matemáticas dos resultados como também os seus substratos emocionais e a relação “sujeito-objecto” que estabelecem comigo enquanto investigador de signo capricórnio com ascendente escorpião...”.
Cap. II
Contra a ciência ortodoxa – em busca da dignidade humana...
Infelizmente, a própria ciência tem dado um empurrão para que os adeptos da trans-disciplinaridade se convençam de que o seu paradigma está eminente: os maiores louros advêm-lhes dos chamados estudos da complexidade, que eles, por não compreenderem devidamente, fazem questão de extrapolar para todas as esferas do conhecimento, desde a botânica ao aconselhamento matrimonial. Este tipo de extrapolação é quase como um tipo perder o telemóvel pouco depois de se familiarizar com a incerteza de Heinsenberg e passar o resto do dia a procurar o dito cujo na mesma gaveta, abrindo-a e fechando-a interminavelmente à espera que as probabilidades fiquem a seu favor... uma mente ortodoxa, provavelmente, procuraria uma só vez em cada lugar (no meu caso, como sou muito despistado, não sou lá muito bom ortodoxo!).
O maior objectivo indirecto deste tipo de abordagem metodológica é o de restabelecer dignidade e dimensão humana ao homem. Aliás é compreensível o desespero dos relativistas epistémicos: em primeiro lugar a ciência convencional, com a sua hegemonia tirânica, canibaliza todas as outras formas de cultura e de racionalidade. E, de facto, se há coisa que passo a vida a ler no jornal é que biólogo tal fuzilou poeta tal ou que geólogo tal estrangulou impiedosamente cineasta tal, já para não falar da intimamente relacionada desconfiança de que Leonardo da Vinci era uma aberração hermafrodita!
Em segundo lugar, as verdades científicas são frias, cruas e desqualificam o homem, arrancam-no do pedestal e destituem-no de toda e qualquer dignidade. Nesse contexto, a inter e a trans-disciplinaridade mais não fazem que condimentar com carga espiritual e humana as verdades científicas. Um nadinha de antropocentrismo, multiculturalismo, esteticismo e misticismo não fará certamente mal a tais verdades, bem pelo contrário, até lhes confere cor e torna-as menos enfadonhas...
Cap. III
Um exemplo trans-disciplinar para a dignificação humana...
Um bom exemplo de trans-disciplinaridade é-nos oferecido por uma consequência possível do princípio antrópico, de que já falei num post recente a propósito da revista Maria. Ainda não tomei conhecimento de nenhum relativista pós-moderno que já se tenha apropriado deste caso particular para fortalecer os seus argumentos, mas, se ainda não os há, então não hão-de tardar!
Trata-se de uma (interessante) teoria cosmológica proposta por Lee Smolin para responder a algumas das implicações metafísicas do princípio antrópico forte. Segundo ele, pode ser que os buracos negros sejam “maternidades” de universos germinais com diferentes leis físicas. Assim, este universo pode ser visto como uma parideira assexuada que, por cada buraco negro que contém, dá origem a um universo descendente. Dos universos descendentes, por sua vez, só os que também contiverem buracos negros deverão deixar legado “cosmo-genético” e assim sucessivamente. Os universos mais aptos serão então aqueles cujas leis internas favoreçam maior descendência (ou maior número de buracos negros... quais vaginas celestiais, ainda por cima sorvedouras...).
A trans-disciplinaridade, neste caso, encontra-se na arrojada admissão, pela cosmologia, de preceitos darwinianos (tipicamente biológicos, portanto) para a sua lógica e refinamento próprios. Sem dúvida um cruzamento quase herético entre diferentes paradigmas... um autêntico santo graal para os pós-modernos.
A questão que coloco é a seguinte: de que forma a revolucionária e aplaudida teoria trans-disciplinar de Smolin contribui para restabelecer dignidade ao ser humano? Bem, arrisco-me a adiantar uma resposta: Desde Copérnico que a nossa cotação no panorama do cosmos tem vindo a baixar de forma dramática. De actores principais, colocados privilegiadamente no centro do universo, fomos sendo progressivamente relegados para os bastidores, e, agora, mais não somos que pó de estrelas à base de carbono, a que alguns já chamaram de agregados com forma de “macacos nús”. Uma condição indecorosa, sem dúvida! Por outro lado, esta nova teoria de Smolin argumenta que o carbono (de que somos feitos) é um ingrediente essencial para favorecer a existência de buracos negros, ao promover a transferência térmica dentro das protoestrelas (o que também justifica o princípio antrópico)...
Sendo assim, eis que já não somos mero pó de estrelas! Na verdade constituímos um precioso fertilizante cósmico, somos a modos que espermatozóides sidéreos! Digam lá que tal não é um pretexto monumental para a dignificação humana!...
A estratégia trans-disciplinar.
Uma das fantasias ou devaneios mais publicitados pelos relativistas epistémicos a propósito do método científico moderno centra-se na chamada trans-disciplinaridade. Pretendendo reformular o paradigma clássico que tão ingenuamente temos vindo a usar desde Newton e Descartes, os relativistas defendem uma nova nuance espistemológica que, basicamente, seja mais democrática. Indignados pelo positivismo, o reduccionismo, o cientismo, o determinismo, o mecanicismo, o fisicalismo... e outras tantas centenas de “ismos”, estes ilustres pensadores propõem, assim, através de uma retórica extremamente refinada – e apoiada em milhares de ismos alternativos que não os atrás referidos –, o verdadeiro e aclamado caminho da verdade, até agora impedido pelo dogmatismo (mais um “ismo”) dos cientistas ortodoxos (ou ortodoxistas, como queiram...).
Para uma ciência mais democrática, adopte-se então a trans-disciplinaridade! Muito resumidamente, trata-se de dar igual peso epistemológico e axiológico a todas as formas de conhecimento. Um cientista “trans-disciplinarista” deverá pensar da seguinte maneira:
“Os resultados das novas equações são extremamente pertinentes, mas contêm algumas dízimas de teor visivelmente comunista. Farei uma nova análise filológica do texto axiomático a fim de confirmar a inter-subjectividade deste tipo de partidarismo politico-geométrico, assumindo como sujeitos sociais e historicamente situados os próprios cálculos (instrumentos) e eu mesmo, e assumindo como objectos “exteriores” os resultados equacionais propriamente ditos. No final serei não só capaz de precisar as implicações lógico-matemáticas dos resultados como também os seus substratos emocionais e a relação “sujeito-objecto” que estabelecem comigo enquanto investigador de signo capricórnio com ascendente escorpião...”.
Cap. II
Contra a ciência ortodoxa – em busca da dignidade humana...
Infelizmente, a própria ciência tem dado um empurrão para que os adeptos da trans-disciplinaridade se convençam de que o seu paradigma está eminente: os maiores louros advêm-lhes dos chamados estudos da complexidade, que eles, por não compreenderem devidamente, fazem questão de extrapolar para todas as esferas do conhecimento, desde a botânica ao aconselhamento matrimonial. Este tipo de extrapolação é quase como um tipo perder o telemóvel pouco depois de se familiarizar com a incerteza de Heinsenberg e passar o resto do dia a procurar o dito cujo na mesma gaveta, abrindo-a e fechando-a interminavelmente à espera que as probabilidades fiquem a seu favor... uma mente ortodoxa, provavelmente, procuraria uma só vez em cada lugar (no meu caso, como sou muito despistado, não sou lá muito bom ortodoxo!).
O maior objectivo indirecto deste tipo de abordagem metodológica é o de restabelecer dignidade e dimensão humana ao homem. Aliás é compreensível o desespero dos relativistas epistémicos: em primeiro lugar a ciência convencional, com a sua hegemonia tirânica, canibaliza todas as outras formas de cultura e de racionalidade. E, de facto, se há coisa que passo a vida a ler no jornal é que biólogo tal fuzilou poeta tal ou que geólogo tal estrangulou impiedosamente cineasta tal, já para não falar da intimamente relacionada desconfiança de que Leonardo da Vinci era uma aberração hermafrodita!
Em segundo lugar, as verdades científicas são frias, cruas e desqualificam o homem, arrancam-no do pedestal e destituem-no de toda e qualquer dignidade. Nesse contexto, a inter e a trans-disciplinaridade mais não fazem que condimentar com carga espiritual e humana as verdades científicas. Um nadinha de antropocentrismo, multiculturalismo, esteticismo e misticismo não fará certamente mal a tais verdades, bem pelo contrário, até lhes confere cor e torna-as menos enfadonhas...
Cap. III
Um exemplo trans-disciplinar para a dignificação humana...
Um bom exemplo de trans-disciplinaridade é-nos oferecido por uma consequência possível do princípio antrópico, de que já falei num post recente a propósito da revista Maria. Ainda não tomei conhecimento de nenhum relativista pós-moderno que já se tenha apropriado deste caso particular para fortalecer os seus argumentos, mas, se ainda não os há, então não hão-de tardar!
Trata-se de uma (interessante) teoria cosmológica proposta por Lee Smolin para responder a algumas das implicações metafísicas do princípio antrópico forte. Segundo ele, pode ser que os buracos negros sejam “maternidades” de universos germinais com diferentes leis físicas. Assim, este universo pode ser visto como uma parideira assexuada que, por cada buraco negro que contém, dá origem a um universo descendente. Dos universos descendentes, por sua vez, só os que também contiverem buracos negros deverão deixar legado “cosmo-genético” e assim sucessivamente. Os universos mais aptos serão então aqueles cujas leis internas favoreçam maior descendência (ou maior número de buracos negros... quais vaginas celestiais, ainda por cima sorvedouras...).
A trans-disciplinaridade, neste caso, encontra-se na arrojada admissão, pela cosmologia, de preceitos darwinianos (tipicamente biológicos, portanto) para a sua lógica e refinamento próprios. Sem dúvida um cruzamento quase herético entre diferentes paradigmas... um autêntico santo graal para os pós-modernos.
A questão que coloco é a seguinte: de que forma a revolucionária e aplaudida teoria trans-disciplinar de Smolin contribui para restabelecer dignidade ao ser humano? Bem, arrisco-me a adiantar uma resposta: Desde Copérnico que a nossa cotação no panorama do cosmos tem vindo a baixar de forma dramática. De actores principais, colocados privilegiadamente no centro do universo, fomos sendo progressivamente relegados para os bastidores, e, agora, mais não somos que pó de estrelas à base de carbono, a que alguns já chamaram de agregados com forma de “macacos nús”. Uma condição indecorosa, sem dúvida! Por outro lado, esta nova teoria de Smolin argumenta que o carbono (de que somos feitos) é um ingrediente essencial para favorecer a existência de buracos negros, ao promover a transferência térmica dentro das protoestrelas (o que também justifica o princípio antrópico)...
Sendo assim, eis que já não somos mero pó de estrelas! Na verdade constituímos um precioso fertilizante cósmico, somos a modos que espermatozóides sidéreos! Digam lá que tal não é um pretexto monumental para a dignificação humana!...
Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
Aquilo que já me chamam...
Às vezes encontram-se inusitados rasgos de genialidade nos meandros da blogosfera portuguesa. Muito recentemente, por exemplo, dei conta de que já há quem me chame “heliopsista” em vez de “solipsista”! Ora, um tal eufemismo pôs-me a meditar: se por um lado dei conta de quão brejeira é a minha denominação original de solipsista – tendo em conta que qualquer filósofo respeitável deveria abandonar o prefixo “sol” a favor de “hélio” para se manter fiel a boas etiquetas etimológicas – por outro lado, dei-me conta que a adopção de um termo tão inovador como o de “heliopsista” correrá o risco de desencadear um rol de mal entendidos e de graves imprecisões cosmológicas. Porque se queremos ser realmente minuciosos no aprofundamento deste contexto particular, então, se calhar, convirá ter em conta que não é o elemento hélio – mas sim o hidrogénio – que ocupa o pedestal na composição da nossa estrela. Portanto, caros leitores e amigos que me chamaram tal coisa, talvez devessem antes tratar-me por hidropsista. Aliás, garanto-vos, eu sou um excelente nadador...
O princípio antrópico
Não há princípio que me fascine tanto como o antrópico (a não confundir com entrópico – não é para aqui chamada a segunda lei da termodinâmica!). Ainda me recordo perfeitamente do dia em que tomei conhecimento deste princípio. Estava sentado num balcão de café a ler a secção de perguntas da revista Maria quando, inesperadamente, me saltou à vista a seguinte questão, colocada por um tal Elias H:
“Sou gay e sinto-me mal com isso, mas prezo muito a minha existência. Cara Maria, tento em conta o princípio antrópico, será que, se eu não fosse gay, ainda assim existiria?...”
A sexóloga respondeu à altura:
“Caro Elias, a sua pergunta pode ser lida de duas maneiras. Por um lado encerra em si mesma um grave paradoxo: repare que poderíamos reformulá-la do seguinte modo: “Será que, se eu fosse heterossexual, ainda assim teria nascido?”. Uma tal questão não passa de uma tautologia, e inviabiliza qualquer resposta que já não esteja contida na própria pergunta. Por outro lado, e tendo primordialmente em conta os desígnios do princípio antrópico, aquilo que lhe posso dizer é que o universo e todas as suas leis (que deverão reger, igualmente, a sua homossexualidade) são como são porque nós existimos. Teria bastado uma qualquer nuance mínima – por exemplo, uma diferente carga para o electrão, um omega diferente no momento da criação, uma ligeira discrepância em qualquer constante universal, até a própria eventualidade de o Elias ter nascido hetero – e eu já não estaria aqui a escrever esta carta ou você a lê-la. O princípio antrópico diz-nos que o mundo é como é porque nós existimos. Portanto, se preza a sua existência, sugiro-lhe que assuma a sua sexualidade de uma vez por todas. Cumprimentos da Maria.”
“Sou gay e sinto-me mal com isso, mas prezo muito a minha existência. Cara Maria, tento em conta o princípio antrópico, será que, se eu não fosse gay, ainda assim existiria?...”
A sexóloga respondeu à altura:
“Caro Elias, a sua pergunta pode ser lida de duas maneiras. Por um lado encerra em si mesma um grave paradoxo: repare que poderíamos reformulá-la do seguinte modo: “Será que, se eu fosse heterossexual, ainda assim teria nascido?”. Uma tal questão não passa de uma tautologia, e inviabiliza qualquer resposta que já não esteja contida na própria pergunta. Por outro lado, e tendo primordialmente em conta os desígnios do princípio antrópico, aquilo que lhe posso dizer é que o universo e todas as suas leis (que deverão reger, igualmente, a sua homossexualidade) são como são porque nós existimos. Teria bastado uma qualquer nuance mínima – por exemplo, uma diferente carga para o electrão, um omega diferente no momento da criação, uma ligeira discrepância em qualquer constante universal, até a própria eventualidade de o Elias ter nascido hetero – e eu já não estaria aqui a escrever esta carta ou você a lê-la. O princípio antrópico diz-nos que o mundo é como é porque nós existimos. Portanto, se preza a sua existência, sugiro-lhe que assuma a sua sexualidade de uma vez por todas. Cumprimentos da Maria.”
Terça-feira, Novembro 25, 2003
A impotência sexual e a filosofia
Com um título destes, arrisco-me a dar uma punhalada nas minhas próprias costas. Portanto, antes de mais nada, seja-me permitido salvaguardar a minha reputação: tal afinidade entre impotência e filosofia não se aplica à minha pessoa, ponto final! É certo que o habitat da blogosfera, por si só, não permite resolver este assunto com provas concretas; as empiristas mais acérrimas terão, pois, de confiar em mim com base na boa fé...
Não quer isto dizer que o princípio não se aplique à generalidade dos grandes pensadores modernos – e digo modernos porque convém, claro, excluir os clássicos (e talvez Foucault, convenhamos).
Não restam dúvidas de que pensar demais nunca foi muito útil na hora da verdade! Qualquer sexólogo subscreverá estas palavras... Da mesma maneira que o preservativo corta sensibilidade no membro de baixo, também o cérebro humano já vem revestido com essa inconveniente película protectora chamada cortéx cerebral. Para aqueles que nunca ouviram falar nela, é a responsável por não sermos tão directos e frontais (ou rectais) como os cães e outras bicharadas! Posto isto, compreende-se a nostalgia de alguns intelectuais enquanto sonham com sistemas límbicos nus e purificados!!
De facto, são polémicas as vantagens evolutivas de um tal capacete de tripas encefálicas, mas são, por outro lado, bem conhecidas as suas desvantagens na altura da festa. Aqui ficam meia dúzia de pensamentos que se adivinham da biografia íntima de grandes filósofos ao longo dos séculos:
Santo Agostinho: “Deus grandioso, perdoai-me pelos meus actos. Mas que faço eu em cima desta inocente mulher? Infame heresia a deste prazer que sinto e que dou! Como é indecorosa a tentação que estes gemidos inspiram!! Cala-te, putéfia! Não abras a boca, não confesses esse teu prazer vergonhoso! Ai de mim, sou o mais vil escravo das paixões ímpias! Meu Deus, salvai-me da imundície da libidinosidade, o rio negro da luxúria do inferno!! Deixai que me converta ao cristianismo apesar destes meus actos lascivos e asquerosos! Cala-te, putéfia! Fecha essa boca carnosa e ofegante! Não blasfemes! Ai de ti que engulas!"
Descartes:“Primeiro passo da dúvida metódica: Penso, logo existo.”
“Segundo passo: Deus existe porque é perfeito e a perfeição implica a existência.”
“Terceiro passo: Devo despir-me porque as roupagens são obstáculos duvidosos.”
“Quarto passo: Devo ficar erecto para que o coito seja viável.”
“Quinto passo: Depois de estabelecida a nudez e a erecção, devo sair para a rua em busca de uma mulher fértil.”...
Hume:"Os teus seios parecem duas deliciosas melancias, a tua vagina um cálice de vinho do melhor e o teu rabo assemelha-se a um bom naco de lombo assado ainda a fumegar. Os teus lábios são salsichas suculentas e... espera, não te vás?"
Kant: "Chego por via da razão pura à conclusão que o orgasmo é uma categoria tão universal como o tempo e o espaço. Enganem-se aqueles que não o consideravam uma entidade à priori! Aliás, como podes ver, já me vim e tu ainda nem te despiste!..."
Hegel:“Agora, para chegarmos ao espírito absoluto, basta fazermos uma síntese em condições. Deixa-me lá confrontar a minha tese com a tua antítese!”
Nietzsche:“Não te deixes enganar pelas mentes fracas, mulher! Sê a águia que reconhece a voz interior e que edifica a sua própria verdade! Vai ser criança, transpõe as mais altas montanhas, descobre-te a ti mesma, espalha a tua palavra! Vai, vai-te embora! Vai que eu tenho sífilis!...”
Marx:“Vocês são umas putas, é o que são!! Mercadorias!! Deviam era empacotá-las a todas e vendê-las na farmácia!”.
Darwin: “Cara Dulce: Recuso-me copular consigo, não é suficientemente opulenta e rosada para garantir uma boa descendência. Ao longe parecia um anjo, ao perto é um desarranjo. As minhas desculpas. Respeitosamente, Charles.”
Freud: “Face à constatação da tua virgindade, opto por colocar o super-ego à frente da líbido e não destruirei o teu futuro. Vai lá à tua vida, sobrinha!... Espera, só uma última coisa, vem cá: Sabes o que é um fellacio?..."
Sartre:"Sou, existo, penso, fornico logo existo... porque é que fornico? Não quero fornicar mais, eu existo porque penso que fornico, fornico porque penso que não quero existir, fornico porque penso que... existo porque... safa!!!"
Não quer isto dizer que o princípio não se aplique à generalidade dos grandes pensadores modernos – e digo modernos porque convém, claro, excluir os clássicos (e talvez Foucault, convenhamos).
Não restam dúvidas de que pensar demais nunca foi muito útil na hora da verdade! Qualquer sexólogo subscreverá estas palavras... Da mesma maneira que o preservativo corta sensibilidade no membro de baixo, também o cérebro humano já vem revestido com essa inconveniente película protectora chamada cortéx cerebral. Para aqueles que nunca ouviram falar nela, é a responsável por não sermos tão directos e frontais (ou rectais) como os cães e outras bicharadas! Posto isto, compreende-se a nostalgia de alguns intelectuais enquanto sonham com sistemas límbicos nus e purificados!!
De facto, são polémicas as vantagens evolutivas de um tal capacete de tripas encefálicas, mas são, por outro lado, bem conhecidas as suas desvantagens na altura da festa. Aqui ficam meia dúzia de pensamentos que se adivinham da biografia íntima de grandes filósofos ao longo dos séculos:
Santo Agostinho: “Deus grandioso, perdoai-me pelos meus actos. Mas que faço eu em cima desta inocente mulher? Infame heresia a deste prazer que sinto e que dou! Como é indecorosa a tentação que estes gemidos inspiram!! Cala-te, putéfia! Não abras a boca, não confesses esse teu prazer vergonhoso! Ai de mim, sou o mais vil escravo das paixões ímpias! Meu Deus, salvai-me da imundície da libidinosidade, o rio negro da luxúria do inferno!! Deixai que me converta ao cristianismo apesar destes meus actos lascivos e asquerosos! Cala-te, putéfia! Fecha essa boca carnosa e ofegante! Não blasfemes! Ai de ti que engulas!"
Descartes:“Primeiro passo da dúvida metódica: Penso, logo existo.”
“Segundo passo: Deus existe porque é perfeito e a perfeição implica a existência.”
“Terceiro passo: Devo despir-me porque as roupagens são obstáculos duvidosos.”
“Quarto passo: Devo ficar erecto para que o coito seja viável.”
“Quinto passo: Depois de estabelecida a nudez e a erecção, devo sair para a rua em busca de uma mulher fértil.”...
Hume:"Os teus seios parecem duas deliciosas melancias, a tua vagina um cálice de vinho do melhor e o teu rabo assemelha-se a um bom naco de lombo assado ainda a fumegar. Os teus lábios são salsichas suculentas e... espera, não te vás?"
Kant: "Chego por via da razão pura à conclusão que o orgasmo é uma categoria tão universal como o tempo e o espaço. Enganem-se aqueles que não o consideravam uma entidade à priori! Aliás, como podes ver, já me vim e tu ainda nem te despiste!..."
Hegel:“Agora, para chegarmos ao espírito absoluto, basta fazermos uma síntese em condições. Deixa-me lá confrontar a minha tese com a tua antítese!”
Nietzsche:“Não te deixes enganar pelas mentes fracas, mulher! Sê a águia que reconhece a voz interior e que edifica a sua própria verdade! Vai ser criança, transpõe as mais altas montanhas, descobre-te a ti mesma, espalha a tua palavra! Vai, vai-te embora! Vai que eu tenho sífilis!...”
Marx:“Vocês são umas putas, é o que são!! Mercadorias!! Deviam era empacotá-las a todas e vendê-las na farmácia!”.
Darwin: “Cara Dulce: Recuso-me copular consigo, não é suficientemente opulenta e rosada para garantir uma boa descendência. Ao longe parecia um anjo, ao perto é um desarranjo. As minhas desculpas. Respeitosamente, Charles.”
Freud: “Face à constatação da tua virgindade, opto por colocar o super-ego à frente da líbido e não destruirei o teu futuro. Vai lá à tua vida, sobrinha!... Espera, só uma última coisa, vem cá: Sabes o que é um fellacio?..."
Sartre:"Sou, existo, penso, fornico logo existo... porque é que fornico? Não quero fornicar mais, eu existo porque penso que fornico, fornico porque penso que não quero existir, fornico porque penso que... existo porque... safa!!!"
Terça-feira, Novembro 18, 2003
Sobre as Guerras da Ciência. Boaventura vs Baptista...
Para aqueles que não sabem, o nosso conceituado sociólogo Boaventura de Sousa Santos escreveu em 1987 um livro intitulado “Um Discurso Sobre as Ciências” que, nos últimos anos, tem servido para alimentar a versão portuguesa das célebres “Guerras da Ciência”. À custa destas guerras hilariantes já me tenho divertido mais a ler filosofia que o cidadão comum a ver as notícias sobre o Iraque à hora do jantar. De facto, numa era em que as guerras se tornaram um objecto lúdico para as famílias ocidentais desanuviarem no entremeio das telenovelas, nada melhor que deliciarmo-nos com as mais inventivas guerrilhas retóricas por parte dos intelectuais de ambos os lados das trincheiras.
De um lado, portanto, os proclamados “Guerreiros da Ciência”, defensores da objectividade dos seus métodos e da superioridade das estratégias científicas na demanda da verdade... do outro lado, no qual podemos encontrar o nosso Boaventura (não leves a mal, pá!), temos os valentes relativistas, apostados na desconstrução da ciência que acusam de totalitarismo, realismo ingénuo, e até de genocídio! Aqui em Portugal, eis os respectivos chefes de tribo:
Na equipa dos relativistas, Boaventura com o seu frémito de guerra:
“A ciência newtoniana-cartesiana é um desencanto desqualificador e indecente!!!! Somos escravos (Foucault, p.1244) da técnica e da ciência (Heidegger, p.456546)! Acorde-se desta ditadura intelectual! Fundam-se todas as culturas (Snow, p.324342). Venha a revolução paradigmática (Kuhn, p.456546)! Abaixo qualquer ciência que não seja pós-moderna e emancipada dos dogmas iluministas! Sejamos prudentes (Santos, p.34234) para uma vida mais decente (Santos, p.3425435)! Não rejeitemos toda a irracionalidade só porque ainda não foi racionalizada! O método científico não descobre o mundo, cria-o (Santos, p. 99999)! Postulem-se novas luas para que elas possam finalmente erguer-se no firmamento! Deêm-se cores mais alegres aos quarks, cores que não os desqualifiquem!!! Venha daí a alquimia para alegrar esse beco sem saída que é a química! A astrologia é tão válida como a astronomia! Viva a inter e trans-disciplinaridade (Prigogine, p.234543)! Não nos precipitemos a desvalorizar a quirologia e o tarôt, aprendamos a conciliar esses preciosos conhecimentos transversais ao decadente método positivista e sirvamo-nos deles para responder às inconsistências das teorias das supercordas e aos hiatos das VSL! Resgate-se o espiritismo (Kardek, p.4325235) para animar os nossos espíritos decepcionados (Benjamim, p.345436). Voltemos a ter olhos de criança (Nietzsche, p.43534) perante esse mundo fértil e fascinante que desde Sócrates temos vindo a desacreditar!!... Bem hajam os novos sofistas!”
Na equipa dos “Guerreiros da Ciência”, temos como líder nacional o físico António Manuel Baptista, que vai resistindo heroicamente, ainda que já com berrante desespero. Brada ele:
“Cuidado! Eles andam aí! O rei vai nú, o rei vai nú!!! Não acreditem no que eles afirmam, são meros profetas da Nova Era disfarçados de jargão retórico! Tudo o que dizem é merda sofisticada! Deitemos a baixo esses filhos da puta! Ladrões de fundos e investimentos! Já nos roubaram o super-acelerador de partículas americano, o que virá a seguir? Temos lá culpa que as ciências sociais sejam truncadas e deficientes, temos lá culpa que a filosofia esteja morta, temos lá culpa que as ciências naturais (particularmente a física) gozem deste sucesso indiscutível que se vê? É inveja, não passa disso! Dizem esses alarves que as leis científicas são meras convenções sociais!! Deixem-me rir! Se as leis da aerodinâmica estão erradas porque é que os aviões não caem? Se as leis de Newton são pura convenção porque não se atiram esses gajos do vigésimo quinto andar (Sokal, p.546456)? Digam-me lá! Desafio-vos a atirarem-se todos da minha varanda! Ponham-se em fila! Venha o primeiro que diga que a gravidade só existe na minha cabeça!!! Cabrões...
De um lado, portanto, os proclamados “Guerreiros da Ciência”, defensores da objectividade dos seus métodos e da superioridade das estratégias científicas na demanda da verdade... do outro lado, no qual podemos encontrar o nosso Boaventura (não leves a mal, pá!), temos os valentes relativistas, apostados na desconstrução da ciência que acusam de totalitarismo, realismo ingénuo, e até de genocídio! Aqui em Portugal, eis os respectivos chefes de tribo:
Na equipa dos relativistas, Boaventura com o seu frémito de guerra:
“A ciência newtoniana-cartesiana é um desencanto desqualificador e indecente!!!! Somos escravos (Foucault, p.1244) da técnica e da ciência (Heidegger, p.456546)! Acorde-se desta ditadura intelectual! Fundam-se todas as culturas (Snow, p.324342). Venha a revolução paradigmática (Kuhn, p.456546)! Abaixo qualquer ciência que não seja pós-moderna e emancipada dos dogmas iluministas! Sejamos prudentes (Santos, p.34234) para uma vida mais decente (Santos, p.3425435)! Não rejeitemos toda a irracionalidade só porque ainda não foi racionalizada! O método científico não descobre o mundo, cria-o (Santos, p. 99999)! Postulem-se novas luas para que elas possam finalmente erguer-se no firmamento! Deêm-se cores mais alegres aos quarks, cores que não os desqualifiquem!!! Venha daí a alquimia para alegrar esse beco sem saída que é a química! A astrologia é tão válida como a astronomia! Viva a inter e trans-disciplinaridade (Prigogine, p.234543)! Não nos precipitemos a desvalorizar a quirologia e o tarôt, aprendamos a conciliar esses preciosos conhecimentos transversais ao decadente método positivista e sirvamo-nos deles para responder às inconsistências das teorias das supercordas e aos hiatos das VSL! Resgate-se o espiritismo (Kardek, p.4325235) para animar os nossos espíritos decepcionados (Benjamim, p.345436). Voltemos a ter olhos de criança (Nietzsche, p.43534) perante esse mundo fértil e fascinante que desde Sócrates temos vindo a desacreditar!!... Bem hajam os novos sofistas!”
Na equipa dos “Guerreiros da Ciência”, temos como líder nacional o físico António Manuel Baptista, que vai resistindo heroicamente, ainda que já com berrante desespero. Brada ele:
“Cuidado! Eles andam aí! O rei vai nú, o rei vai nú!!! Não acreditem no que eles afirmam, são meros profetas da Nova Era disfarçados de jargão retórico! Tudo o que dizem é merda sofisticada! Deitemos a baixo esses filhos da puta! Ladrões de fundos e investimentos! Já nos roubaram o super-acelerador de partículas americano, o que virá a seguir? Temos lá culpa que as ciências sociais sejam truncadas e deficientes, temos lá culpa que a filosofia esteja morta, temos lá culpa que as ciências naturais (particularmente a física) gozem deste sucesso indiscutível que se vê? É inveja, não passa disso! Dizem esses alarves que as leis científicas são meras convenções sociais!! Deixem-me rir! Se as leis da aerodinâmica estão erradas porque é que os aviões não caem? Se as leis de Newton são pura convenção porque não se atiram esses gajos do vigésimo quinto andar (Sokal, p.546456)? Digam-me lá! Desafio-vos a atirarem-se todos da minha varanda! Ponham-se em fila! Venha o primeiro que diga que a gravidade só existe na minha cabeça!!! Cabrões...
Quinta-feira, Novembro 06, 2003
O livro do Boaventura é maior que o do Baptista.
Perguntaram-me:
“Ó solipsista, mas afinal tu és mesmo solipsista – essa gigantesca alegoria da idiotice – ou és como as freiras, que apregoam mas não praticam?”
Respondo:
“Caros amigos, o solipsismo é uma doutrina filosófica muito complexa! Se for mal compreendida, parecerá estar sempre a contradizer-se a ela própria. Mas é justamente aí que estão os loiros (e as loiras) da filosofia em geral: Se nos acusam de estarmos errados, podemos sempre declarar que não fomos bem interpretados e explicar a coisa de outra maneira. Pegue-se, por exemplo, no recente livro do Boaventura de Sousa Santos em resposta às acusações de falácia intelectual que o António Manuel Baptista, tão oportunamente, lhe dirigira há quase dois anos. O livro tem quase 800 páginas e só assim consegue dar resposta a perguntas tão simples como “Ó BSS, meu grande anormal, que queres tu realmente dizer com ‘todo o conhecimento (sic!) é auto-conhecimento (sic!)’?”.
Na verdade, não é no conteúdo do livro megalómano que estão as respostas mas na grossura do mesmo. Uma questão de dimensões e outros traços de virilidade, em nítida concordância, aliás, com pareceres pipianos que aqui, indirectamente, subscrevo. Genial a forma como Boaventura e os seus aliados internacionais conseguem tecer páginas e páginas e páginas e páginas de deambulações e erudições de tal modo extensas que fazem esquecer as questões iniciais. Ora é exactamente essa aptidão que dita os grandes filósofos da actualidade: a capacidade de muito dizer sem dizer nada. Arte complicada por excelência, mais ainda que a literatura, já que nesta última, pelo menos, assumem-se as ficções...
Portanto, em resposta à pergunta que me foi feita.... mas qual era mesmo a pergunta?...
“Ó solipsista, mas afinal tu és mesmo solipsista – essa gigantesca alegoria da idiotice – ou és como as freiras, que apregoam mas não praticam?”
Respondo:
“Caros amigos, o solipsismo é uma doutrina filosófica muito complexa! Se for mal compreendida, parecerá estar sempre a contradizer-se a ela própria. Mas é justamente aí que estão os loiros (e as loiras) da filosofia em geral: Se nos acusam de estarmos errados, podemos sempre declarar que não fomos bem interpretados e explicar a coisa de outra maneira. Pegue-se, por exemplo, no recente livro do Boaventura de Sousa Santos em resposta às acusações de falácia intelectual que o António Manuel Baptista, tão oportunamente, lhe dirigira há quase dois anos. O livro tem quase 800 páginas e só assim consegue dar resposta a perguntas tão simples como “Ó BSS, meu grande anormal, que queres tu realmente dizer com ‘todo o conhecimento (sic!) é auto-conhecimento (sic!)’?”.
Na verdade, não é no conteúdo do livro megalómano que estão as respostas mas na grossura do mesmo. Uma questão de dimensões e outros traços de virilidade, em nítida concordância, aliás, com pareceres pipianos que aqui, indirectamente, subscrevo. Genial a forma como Boaventura e os seus aliados internacionais conseguem tecer páginas e páginas e páginas e páginas de deambulações e erudições de tal modo extensas que fazem esquecer as questões iniciais. Ora é exactamente essa aptidão que dita os grandes filósofos da actualidade: a capacidade de muito dizer sem dizer nada. Arte complicada por excelência, mais ainda que a literatura, já que nesta última, pelo menos, assumem-se as ficções...
Portanto, em resposta à pergunta que me foi feita.... mas qual era mesmo a pergunta?...
Terça-feira, Novembro 04, 2003
Se o papa morre tá tudo fodido!...
Na luta secular entre os criaccionistas e os evolucionistas, os segundos parecem estar a ganhar pontos: em primeiro lugar porque o papa está a dar as últimas e duvida-se que qualquer outro consiga aguentar tanto atentado ou coça divina. Procuram-se por aí, desesperadamente, cardeais capazes de darem abraços a quem lhes deu tiros ou que falem línguas mortas como o português! Candidatos ao título papal que saibam, como este soube, fundir o princípio da incerteza de Heisenberg com o livre arbítrio teológico; que saibam acolher tão convenientemente o big bang por requisitar manejo divino (ainda que só no momento da criação, porque milagres, nem vê-los); que consigam segurar tão heroicamente uma religião monoteísta – e como tal enfadonha e pedante – sem Bacos ou deusas do amor ou teodiceias decentes; e, sobretudo, que saibam sobreviver ao ocidentalismo e à poligamia neo-hippie...
Não haja dúvida que vai ser complicado arranjar um substituto à altura. Problemas semelhantes enfrenta a Lucas Arts com o futuro do Indiana Jones por causa das rugas do Harrison Ford, sujeita a denegrir mais uma doutrina, como aliás se fez com o James Bond...
Em suma, quando o papa morrer, vai ser como obrigarem a coca-cola a mudar a cor do emblema de encarnado para cor de rosa, o que não é lá muito boa política num ambiente de capitalismo neo-liberal como este que se vive. Uma solução seria submeterem o papa aos modernos métodos de criogenia, mantendo-o emoldurado à frente das multidões enquanto os porta-voz sucessivos se encarregariam de passar a sua palavra (que, felizmente, não requer actualizações frequentes); aliás, de certa forma, é já isso que se passa, ainda que de um modo mais subtil; todavia, fazê-lo literalmente poderia dar azo a questões éticas acerca da vida eterna claramente antagónicas da moral católica...
Em segundo lugar o criaccionismo tem vindo a murchar por razões tão místicas como o próprio catolicismo. São os novos rebentos new-age (eles não gostam que lhes chamem isso, chamemo-lhes então espiritualistas), despertos pela chegada da Era do aquário e, claro, pela massificação da ganza! Proclamam que os espíritos estão no limiar de um novo patamar, que a verdade sagrada ainda há-de vir, em fascículos, pelas mãos psico-grafistas de médiuns incorporados, que Jesus era um extraterrestre e que o sexo tântrico é a salvação. Já não se davam rombos destes na instituição católica desde que a bíblia foi traduzida do Latim!
Perguntarão alguns: Então e o evolucionismo? Não terá ele mérito próprio? Estará ele em vantagem só porque o adversário entrou em crise? Não é realmente verdade que Darwin descende dos macacos? Meus caros, não sejamos dogmáticos, foda-se!! Façam como o Bush, dêem às crianças a possibilidade de escolherem a via educativa que mais desejarem. Se elas quiserem, seja-lhes ensinado que somos pó de estrelas e que a vida não faz sentido; ou, se preferirem, seja-lhes incutido que o mundo foi feito em sete dias e os dinossauros já nasceram fósseis... vai dar ao mesmo! Para um bom pós-moderno, não passam de nuances epistemológicas igualmente válidas... uma questão de gosto meta-estético.
Não haja dúvida que vai ser complicado arranjar um substituto à altura. Problemas semelhantes enfrenta a Lucas Arts com o futuro do Indiana Jones por causa das rugas do Harrison Ford, sujeita a denegrir mais uma doutrina, como aliás se fez com o James Bond...
Em suma, quando o papa morrer, vai ser como obrigarem a coca-cola a mudar a cor do emblema de encarnado para cor de rosa, o que não é lá muito boa política num ambiente de capitalismo neo-liberal como este que se vive. Uma solução seria submeterem o papa aos modernos métodos de criogenia, mantendo-o emoldurado à frente das multidões enquanto os porta-voz sucessivos se encarregariam de passar a sua palavra (que, felizmente, não requer actualizações frequentes); aliás, de certa forma, é já isso que se passa, ainda que de um modo mais subtil; todavia, fazê-lo literalmente poderia dar azo a questões éticas acerca da vida eterna claramente antagónicas da moral católica...
Em segundo lugar o criaccionismo tem vindo a murchar por razões tão místicas como o próprio catolicismo. São os novos rebentos new-age (eles não gostam que lhes chamem isso, chamemo-lhes então espiritualistas), despertos pela chegada da Era do aquário e, claro, pela massificação da ganza! Proclamam que os espíritos estão no limiar de um novo patamar, que a verdade sagrada ainda há-de vir, em fascículos, pelas mãos psico-grafistas de médiuns incorporados, que Jesus era um extraterrestre e que o sexo tântrico é a salvação. Já não se davam rombos destes na instituição católica desde que a bíblia foi traduzida do Latim!
Perguntarão alguns: Então e o evolucionismo? Não terá ele mérito próprio? Estará ele em vantagem só porque o adversário entrou em crise? Não é realmente verdade que Darwin descende dos macacos? Meus caros, não sejamos dogmáticos, foda-se!! Façam como o Bush, dêem às crianças a possibilidade de escolherem a via educativa que mais desejarem. Se elas quiserem, seja-lhes ensinado que somos pó de estrelas e que a vida não faz sentido; ou, se preferirem, seja-lhes incutido que o mundo foi feito em sete dias e os dinossauros já nasceram fósseis... vai dar ao mesmo! Para um bom pós-moderno, não passam de nuances epistemológicas igualmente válidas... uma questão de gosto meta-estético.
Questão para colocar aos teístas...
Passei os últimos quinze dias vidrado na seguinte questão: “Será Deus capaz de criar uma rocha tão pesada que ele próprio não possa erguê-la?” Depois de meditar bastante nesta frase chego à conclusão de que é mais herética que usar preservativo no vaticano!... Porque vejamos, qualquer que seja a resposta, há sempre alguma coisa que Deus não consegue fazer: Ou não é capaz de criar a pedra, ou não consegue levantá-la! Machadada fodida no princípio da omnipotência....
Desde que contei isto à minha mãe ela deixou de ir à missa! Menos um...
Desde que contei isto à minha mãe ela deixou de ir à missa! Menos um...
Segunda-feira, Outubro 13, 2003
O FIM DO MUNDO (ainda faltam dez anos, calma!) - 1ª parte
Um outro meu compadre de longa data, especializado em “teleologia new-age”, apareceu recentemente com uma teoria preocupante: Diz o Elias H. (H de Hegel, como ele tanto gosta de sublinhar) que, no ano 2014, um NEO – near earth object – do tamanho do Texas vai colidir com a península Ibérica num choque de tal ordem que, no mesmo instante, o pessoal nos antípodas, só com o coice inicial, há-de ser projectado para fora da atmosfera. Os portugas e os espanhóis, ou arranjam uma forma de se esquivar ao estilo da Jangada de Pedra do Saramago, ou então serão os primeiros a levar com o asteróide nas testas. Jangada essa que, aliás, não lhes serviria de grande coisa! Este cataclismo será ainda pior que o da extinção do Câmbrico!! Sobreviventes, só mesmo as baratas, alguns microorganismos extremófilos e, claro, a administração Bush, escondida num bunker subterrâneo à moda de Zion!
Afirma o Elias que, tal como Kekulé descobriu a estrutura atómica do benzeno num sonho, também ele recebeu a informação por via onírica, vislumbrando um cometa gigante a morder a sua própria cauda em redor deste frágil planeta...
Todavia, o que realmente apoquenta o Elias não é o fim mas o recomeço! Como bom neo-darwinista (para não dizer neo-nazi), ele acredita que a catástrofe é já esperada e desejada pela elite americana, que dela fará uso como forma natural para conseguir o que com Hitler ficara pendente. Para Bush, porém, a “solução final” será, justamente, não fazer nada. O Elias está plenamente de acordo, mas tem receio que não lhe arranjem lugar no bunker...
Afirma o Elias que, tal como Kekulé descobriu a estrutura atómica do benzeno num sonho, também ele recebeu a informação por via onírica, vislumbrando um cometa gigante a morder a sua própria cauda em redor deste frágil planeta...
Todavia, o que realmente apoquenta o Elias não é o fim mas o recomeço! Como bom neo-darwinista (para não dizer neo-nazi), ele acredita que a catástrofe é já esperada e desejada pela elite americana, que dela fará uso como forma natural para conseguir o que com Hitler ficara pendente. Para Bush, porém, a “solução final” será, justamente, não fazer nada. O Elias está plenamente de acordo, mas tem receio que não lhe arranjem lugar no bunker...
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Fraude!!!
No meu pacote de chicletes trident vem escrito que contém sorbitol, manitol, xilitol, antioxidante E321, aromatizantes, estabilizador E422, emulsionante E322, acesulfame K, aspártamo e uma fonte de fenilalanina. Em contrapartida, o meu maço de tabaco veio hoje a dizer em letras gordas que “contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio”. Ainda tentei mastigar um cigarro mas não me soube a nada...
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
Prato do dia: Machismo, constructivismo social, cosmologia e vaginas celestiais...
Apesar da emancipação exponencial da mulher desde a invenção da pílula, a desigualdade entre os sexos mantém-se em vários sectores, inclusive no próprio uso da linguagem. Por exemplo, a palavra touro pode significar “homem forte” enquanto a palavra vaca significa “puta”; um menino de rua significa menino pobre, sem abrigo, enquanto uma menina de rua significa puta; um vagabundo é um homem sem trabalho, uma vagabunda é uma puta; um puto é um miúdo, uma puta é... uma puta!! Podia continuar indefinidamente com outros exemplos, mas deixo isso para pensadores na esteira de Moore e Wittgenstein....
Ao longo do século XX, tem emergido uma nova vaga de intelectuais apostados (ou apostadas) em delatar os sintomas machistas mais subtis que ainda resistem em diversas esferas da sociedade, inclusivamente na própria instituição científica. São elas as chamadas feminalistas, ou feministas. Estas jóias (que raramente são fisicamente atraentes, já se esperava!) têm feito poderosas alianças com a revolucionária frente relativista pós-moderna, em defesa de ideias como: a evidência empírica é desnecessária, a verdade objectiva é inexistente e a ciência é um instrumento totalitarista nas mãos dos capitalistas e dos dominadores masculinos!! Sandra Harding, por exemplo, declara de pés juntos e pernas trancadas que a ciência moderna (e especialmente a física) “é não só sexista mas também racista, “classista” e culturalmente coerciva!”. Esta autora encara os “Principia” de Newton – provavelmente o mais importante livro científico de todos os tempos – como um “manual de violações”, tais são as perversões machistas que lá se encontram! Juntamente com amigas como Carolyn Marchant e Evelyn Fox Keller, a encantadora Harding proclama ainda que “as metáforas sexistas desempenham um papel importante no desenvolvimento da ciência moderna.” Trata-se, segundo ela, de uma espécie de “estupro marital, o marido como cientista forçando a natureza a satisfazer os seus desejos.”
Ou seja, as ciências naturais não só são meras construções sociais (como defendem os pós-modernos) como são trabalhadas com partidarismo machista.
Luce Irigaray, outra da mesma laia, vai ainda mais longe e faz notar a estranha fixação que os matemáticos têm por espaços curvos... e que dizer de termos como “buraco negro”, pergunta ela? Minha cara Irigaray, já agora porque não chamar-lhes protuberâncias do espaço-tempo alongadas ao infinito? E porque não alcunhar as singularidades de orgasmos cósmicos? Porque razão só em Vénus (o único planeta com nome de deus feminino) é que chove ácido sulfúrico? E que dizer das conotações pedófilas de fenómenos como “supernovas”?... Será o big-bang uma viril ejaculação divina?...
Ao longo do século XX, tem emergido uma nova vaga de intelectuais apostados (ou apostadas) em delatar os sintomas machistas mais subtis que ainda resistem em diversas esferas da sociedade, inclusivamente na própria instituição científica. São elas as chamadas feminalistas, ou feministas. Estas jóias (que raramente são fisicamente atraentes, já se esperava!) têm feito poderosas alianças com a revolucionária frente relativista pós-moderna, em defesa de ideias como: a evidência empírica é desnecessária, a verdade objectiva é inexistente e a ciência é um instrumento totalitarista nas mãos dos capitalistas e dos dominadores masculinos!! Sandra Harding, por exemplo, declara de pés juntos e pernas trancadas que a ciência moderna (e especialmente a física) “é não só sexista mas também racista, “classista” e culturalmente coerciva!”. Esta autora encara os “Principia” de Newton – provavelmente o mais importante livro científico de todos os tempos – como um “manual de violações”, tais são as perversões machistas que lá se encontram! Juntamente com amigas como Carolyn Marchant e Evelyn Fox Keller, a encantadora Harding proclama ainda que “as metáforas sexistas desempenham um papel importante no desenvolvimento da ciência moderna.” Trata-se, segundo ela, de uma espécie de “estupro marital, o marido como cientista forçando a natureza a satisfazer os seus desejos.”
Ou seja, as ciências naturais não só são meras construções sociais (como defendem os pós-modernos) como são trabalhadas com partidarismo machista.
Luce Irigaray, outra da mesma laia, vai ainda mais longe e faz notar a estranha fixação que os matemáticos têm por espaços curvos... e que dizer de termos como “buraco negro”, pergunta ela? Minha cara Irigaray, já agora porque não chamar-lhes protuberâncias do espaço-tempo alongadas ao infinito? E porque não alcunhar as singularidades de orgasmos cósmicos? Porque razão só em Vénus (o único planeta com nome de deus feminino) é que chove ácido sulfúrico? E que dizer das conotações pedófilas de fenómenos como “supernovas”?... Será o big-bang uma viril ejaculação divina?...
Sábado, Outubro 04, 2003
Do meu diário nos tempos de estudante de física (a pior fase)
10/10/96
Caro Ptolomeu:
O problema da física quântica é que pura e simplesmente não faz sentido. Quer dizer, tudo indica que esteja correcta (pelo menos o meu computador funciona às vezes); o problema é que ainda ninguém conseguiu realmente enfiá-la na cabeça. É um pouco como um burro a olhar para o palácio. Talvez nos reste seguir o conselho do Richard Feynman (um gajo porreiro) e engolir a natureza como ela realmente é: absurda...
11/10/96
Caro Ptolomeu:
Ultimamente tenho andado a entreter-me com estas questões e, por mais burro que me sinta, não me rendo ao palácio! Há muito por onde pegar na abordagem a estes conceitos demasiado pesados para o cérebro humano. Vai-me valendo a matemática; pelo menos nos números, mesmo não compreendendo intuitivamente o significado dos resultados, posso ainda assim partir do princípio que estão certos, desde que use calculadora e respeite os limites lógicos deduzidos por Godel, esse grande desmancha prazeres. Bem feito o que lhe aconteceu: morreu à fome com medo de ser envenenado! Nem o John Nash conseguiu chegar-lhe aos calcanhares!!.
12/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dias têm sido dolorosos: páginas e páginas de equações: Hoje, pela primeira vez, larguei a álgebra por alguns momentos e aventurei-me na topologia mas ainda não consegui provar que o universo tem a forma de um donut. O problema está nas dimensões adicionais: em 10 dimensões os donuts são incomestíveis....
13/10/96
Caro Ptolomeu:
Acho que consegui provar que a física quântica e a teoria da relatividade são comutáveis: Uma é demasiado relativa e a outra demasiado incerta... ou vice-versa. Vou desenvolver este raciocínio para conciliar a força da gravidade com a força electro-fraca. O Weinberg vai ficar contente...
14/10/96
Caro Ptolomeu:
A teoria M é um beco sem saída. As VSL é que estão a dar. Parabéns Magueijo!! C é variável mas, evidentemente, a inflação mantém-se, pelo menos no que respeita ao preço do tabaco. Últimos dados do COBE são decisivos para novas conclusões. Já pressinto a TOE nas minhas mãos. OVER.
15/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dados deram para o torto. Não pesco nada. De supercordas só mesmo a do meu companheiro de quarto que apareceu enforcado esta manhã. Sei que andou a ler os meus apontamentos mas não me sinto responsabilizado...
16/10/96
Caro Ptolomeu:
Hoje comecei a meditar sobre a experiência da dupla fenda de Young. Consegui arranjar uma pressão de ar e o meu quarto tem, de facto, duas janelas, mas não consigo fazer com que as balas se comportem como ondas. Por consequência, não saem nem por uma janela nem pela outra. A vantagem deste resultado é que não parti nenhum vidro. A parede arranja-se com um bocado de estuque.
17/10/96
Caro Ptolomeu:
Tem-me fascinado particularmente o problema do gato de Schrodinger. A minha questão prende-se com a possibilidade de criar estados de sobreposição quântica no ser humano. Estou a trabalhar numa experiência em que eu próprio servirei de cobaia. Já arranjei um caixote suficientemente grande; agora só me falta a ganza e um cúmplice para pôr a experiência em prática.
18/10/96
Caro Ptolomeu:
O meu amigo Frederico ofereceu-se como ajudante. E ofereceu-me um cú de sabonete bem generoso. Portanto, eis a minha ideia: esta noite vou fumar ganza suficiente para que haja exactamente cinquenta por cento de hipóteses de sobreviver. A seguir fecho-me no caixote e logo se vê o que acontece... se os meus cálculos estiverem correctos, o meu cogito transformar-se-á numa função de onda e espalhar-se-á por todas as histórias possíveis do cosmos. Enquanto ninguém abrir a caixa, estarei vivo em alguns universos, morto noutros tantos, e há-de haver alguns em que serei milionário. Até sempre...
25/10/96
Caro Copérnico:
A experiência não correu como eu esperava: Enfiei-me lá dentro e acendi o charuto como previsto, mas a dada altura, misteriosamente, perdi a consciência e não me lembro de mais nada. Acordei hoje, sobressaltado, quando o Frederico abriu o caixote. A questão que se coloca é: terei eu deixado de existir enquanto a caixa estava fechada? O enigma mantém-se.
26/10/96
Caro Ptolomeu:
Por favor, perdoa-me aquilo que te chamei ontem! Deve ter sido da ressaca. É lógico que o modelo heliocêntrico está errado...
Caro Ptolomeu:
O problema da física quântica é que pura e simplesmente não faz sentido. Quer dizer, tudo indica que esteja correcta (pelo menos o meu computador funciona às vezes); o problema é que ainda ninguém conseguiu realmente enfiá-la na cabeça. É um pouco como um burro a olhar para o palácio. Talvez nos reste seguir o conselho do Richard Feynman (um gajo porreiro) e engolir a natureza como ela realmente é: absurda...
11/10/96
Caro Ptolomeu:
Ultimamente tenho andado a entreter-me com estas questões e, por mais burro que me sinta, não me rendo ao palácio! Há muito por onde pegar na abordagem a estes conceitos demasiado pesados para o cérebro humano. Vai-me valendo a matemática; pelo menos nos números, mesmo não compreendendo intuitivamente o significado dos resultados, posso ainda assim partir do princípio que estão certos, desde que use calculadora e respeite os limites lógicos deduzidos por Godel, esse grande desmancha prazeres. Bem feito o que lhe aconteceu: morreu à fome com medo de ser envenenado! Nem o John Nash conseguiu chegar-lhe aos calcanhares!!.
12/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dias têm sido dolorosos: páginas e páginas de equações: Hoje, pela primeira vez, larguei a álgebra por alguns momentos e aventurei-me na topologia mas ainda não consegui provar que o universo tem a forma de um donut. O problema está nas dimensões adicionais: em 10 dimensões os donuts são incomestíveis....
13/10/96
Caro Ptolomeu:
Acho que consegui provar que a física quântica e a teoria da relatividade são comutáveis: Uma é demasiado relativa e a outra demasiado incerta... ou vice-versa. Vou desenvolver este raciocínio para conciliar a força da gravidade com a força electro-fraca. O Weinberg vai ficar contente...
14/10/96
Caro Ptolomeu:
A teoria M é um beco sem saída. As VSL é que estão a dar. Parabéns Magueijo!! C é variável mas, evidentemente, a inflação mantém-se, pelo menos no que respeita ao preço do tabaco. Últimos dados do COBE são decisivos para novas conclusões. Já pressinto a TOE nas minhas mãos. OVER.
15/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dados deram para o torto. Não pesco nada. De supercordas só mesmo a do meu companheiro de quarto que apareceu enforcado esta manhã. Sei que andou a ler os meus apontamentos mas não me sinto responsabilizado...
16/10/96
Caro Ptolomeu:
Hoje comecei a meditar sobre a experiência da dupla fenda de Young. Consegui arranjar uma pressão de ar e o meu quarto tem, de facto, duas janelas, mas não consigo fazer com que as balas se comportem como ondas. Por consequência, não saem nem por uma janela nem pela outra. A vantagem deste resultado é que não parti nenhum vidro. A parede arranja-se com um bocado de estuque.
17/10/96
Caro Ptolomeu:
Tem-me fascinado particularmente o problema do gato de Schrodinger. A minha questão prende-se com a possibilidade de criar estados de sobreposição quântica no ser humano. Estou a trabalhar numa experiência em que eu próprio servirei de cobaia. Já arranjei um caixote suficientemente grande; agora só me falta a ganza e um cúmplice para pôr a experiência em prática.
18/10/96
Caro Ptolomeu:
O meu amigo Frederico ofereceu-se como ajudante. E ofereceu-me um cú de sabonete bem generoso. Portanto, eis a minha ideia: esta noite vou fumar ganza suficiente para que haja exactamente cinquenta por cento de hipóteses de sobreviver. A seguir fecho-me no caixote e logo se vê o que acontece... se os meus cálculos estiverem correctos, o meu cogito transformar-se-á numa função de onda e espalhar-se-á por todas as histórias possíveis do cosmos. Enquanto ninguém abrir a caixa, estarei vivo em alguns universos, morto noutros tantos, e há-de haver alguns em que serei milionário. Até sempre...
25/10/96
Caro Copérnico:
A experiência não correu como eu esperava: Enfiei-me lá dentro e acendi o charuto como previsto, mas a dada altura, misteriosamente, perdi a consciência e não me lembro de mais nada. Acordei hoje, sobressaltado, quando o Frederico abriu o caixote. A questão que se coloca é: terei eu deixado de existir enquanto a caixa estava fechada? O enigma mantém-se.
26/10/96
Caro Ptolomeu:
Por favor, perdoa-me aquilo que te chamei ontem! Deve ter sido da ressaca. É lógico que o modelo heliocêntrico está errado...
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
Conversa entre David Hume e o seu secreto amante, Jean Jacques Rousseau:
Rousseau: “Tens a certeza que queres levar com ele, meu caro?”
Hume: “Que interessa? Como solipsista que sou, levar com o teu sublime membro ou bater uma pívea vai dar ao mesmo!...
Rousseau: “Mas... e os teus princípios de moral? Até escreveste um ensaio...
Hume: “Que se foda o ensaio! De qualquer modo a ética nunca encaixou muito com os meus ideais empiristas... e lembra-te, Jack, eu sou ateu!
Rousseau: “Detesto quando falas assim... com essa crueza...
Hume: Aqueles filhos da puta do Índice Católico-Romano... qualquer dia proíbem o alfabetismo e a culinária! Cabrões...
Rousseau: Não sejas assim... o ser humano é intrinsecamente bom!
Hume: Fala por ti que és tão bem artilhado... Ho... isso... dá-me com força!! Meu “bom selvagem”... corrompe-me...
Rousseau: “Não te mexas agora, David, não te mexas que estamos dessincronizados...
Hume: Só espero que a Condessa de Boufflers não desconfie...
Rousseau: Não me fales em gajas! Passam a vida a ficar prenhas, as vacas! Já entreguei cinco putos no orfanato!
Hume: E quem te garante que eu não ficarei prenho de igual forma?
Rousseau: Isso é absurdo! Ias agora parir pelo cú?
Hume: Quem sabe? Nunca leste o meu Tratado sobre a Natureza Humana? O meu estudo prova que o princípio da causalidade é inconsistente. Por mais tipos que tenhas enrrabado sem consequências de maior, nada te garante que o próximo não vá inchar. Só provarás que os homens não engravidam se ficares a enrrabá-los até à eternidade....
Rousseau: Isso querias tu!...
Hume: “Que interessa? Como solipsista que sou, levar com o teu sublime membro ou bater uma pívea vai dar ao mesmo!...
Rousseau: “Mas... e os teus princípios de moral? Até escreveste um ensaio...
Hume: “Que se foda o ensaio! De qualquer modo a ética nunca encaixou muito com os meus ideais empiristas... e lembra-te, Jack, eu sou ateu!
Rousseau: “Detesto quando falas assim... com essa crueza...
Hume: Aqueles filhos da puta do Índice Católico-Romano... qualquer dia proíbem o alfabetismo e a culinária! Cabrões...
Rousseau: Não sejas assim... o ser humano é intrinsecamente bom!
Hume: Fala por ti que és tão bem artilhado... Ho... isso... dá-me com força!! Meu “bom selvagem”... corrompe-me...
Rousseau: “Não te mexas agora, David, não te mexas que estamos dessincronizados...
Hume: Só espero que a Condessa de Boufflers não desconfie...
Rousseau: Não me fales em gajas! Passam a vida a ficar prenhas, as vacas! Já entreguei cinco putos no orfanato!
Hume: E quem te garante que eu não ficarei prenho de igual forma?
Rousseau: Isso é absurdo! Ias agora parir pelo cú?
Hume: Quem sabe? Nunca leste o meu Tratado sobre a Natureza Humana? O meu estudo prova que o princípio da causalidade é inconsistente. Por mais tipos que tenhas enrrabado sem consequências de maior, nada te garante que o próximo não vá inchar. Só provarás que os homens não engravidam se ficares a enrrabá-los até à eternidade....
Rousseau: Isso querias tu!...
Excerto de diálogo com fulano que não me queria dar razão:
Momento de inspiração
Segunda-feira, Setembro 29, 2003
Alerta urgente: Proibido blogar sobre o desemprego!!!
Antes de prosseguir a minha epopeia pseudo-intelectual, permitam-me que lance aqui um alerta mais sério: Caros bloguistas, cuidado com aquilo que dizem sobre o desemprego!!! Correm o risco de sofrerem um atentado terrorista ao porem o pé fora de casa... e falo por experiência própria (refiro-me a danos colaterais do meu post de 22 deste mês)!!
No meu recente estudo antropológico sobre o tema, tive oportunidade de averiguar em profundidade alguns casos mais delicados e fiquei petrificado: sem querer generalizar, existe porém uma certa percentagem que incorre naquilo a que Nietzsche (o verdadeiro Nietzsche, não o meu amigo Frederico) chamou de “niilismo reactivo”. Pondo a coisa por miúdos, quer isto dizer que alguns tipos – compreensivelmente amarfanhados pelas adversidades do sistema politico-social português – começam a desenvolver uma carapaça de recusa mental cujos sintomas mais característicos são, em primeiro lugar, o dogmatismo (aquilo que em linguagem informática se chama erro de redundância cíclica), e, em segundo lugar, um défice preocupante do sentido de humor! Por consequência, estas auto-intituladas “vítimas da crise” comportam-se um pouco como a igreja católica no tempo da inquisição. Para esses, evidentemente, qualquer um que se atreva a tagarelar sobre o assunto correrá o risco de ser rotulado de anticristo...
Portanto, caros amigos bloguistas, bico calado sobre o desemprego, antes que os aviões comecem a despenhar-se por cima das nossas casas... bem hajam e boa sorte...
No meu recente estudo antropológico sobre o tema, tive oportunidade de averiguar em profundidade alguns casos mais delicados e fiquei petrificado: sem querer generalizar, existe porém uma certa percentagem que incorre naquilo a que Nietzsche (o verdadeiro Nietzsche, não o meu amigo Frederico) chamou de “niilismo reactivo”. Pondo a coisa por miúdos, quer isto dizer que alguns tipos – compreensivelmente amarfanhados pelas adversidades do sistema politico-social português – começam a desenvolver uma carapaça de recusa mental cujos sintomas mais característicos são, em primeiro lugar, o dogmatismo (aquilo que em linguagem informática se chama erro de redundância cíclica), e, em segundo lugar, um défice preocupante do sentido de humor! Por consequência, estas auto-intituladas “vítimas da crise” comportam-se um pouco como a igreja católica no tempo da inquisição. Para esses, evidentemente, qualquer um que se atreva a tagarelar sobre o assunto correrá o risco de ser rotulado de anticristo...
Portanto, caros amigos bloguistas, bico calado sobre o desemprego, antes que os aviões comecem a despenhar-se por cima das nossas casas... bem hajam e boa sorte...
Domingo, Setembro 28, 2003
O eterno retorno
Esta manhã recebi um telefonema do meu velho colega e amigo Frederico Nietzsche a explicar-me o que quer afinal dizer o Eterno Retorno. Ele não estava lá muito bem disposto por causa da sífilis... em boa verdade não estava sequer suficientemente lúcido para dizer coisa com coisa, mas enfim, fiz um esforço por ouvir o homem (ou super-homem, como ele queria que o chamasse) e lá fui reconstruindo a verborreia que me chegava aos ouvidos...
Queixava-se ele que o seu “Eterno retorno” tem sido uma das maiores vítimas da hermenêutica contemporânea. Cada vez que alguém tenta arranjar uma nova interpretação só enterra ainda mais o conceito! Qual “carpe diem” qual quê? O que aquilo realmente quer dizer, segundo palavras do próprio Frederico, é que a humanidade anda continuamente em círculos, repetindo-se as mesmas ideias e as mesmas charadas de dois em dois mil anos! Apesar das implicações desta revelação, o Frederico afiançou que eu podia ficar descansado, ainda falta mais de um milénio para a próxima idade das trevas...
Mais pertinente foi o exemplo que ele me deu para ilustrar a sua tese: num arremesso de perspicácia intelectual, chamou a atenção para os recentes acontecimentos da Casa Pia e não hesitou em relacioná-los com o clássico julgamento de Sócrates. Ao fim de dois mil anos, eis de novo a pedofilia na boca do mundo (ou “corrupção da juventude”, como lhe chamavam nos tempos helénicos). Mais uma vez, também, a rebelião do povo indignado, exigindo castração em desfiles que, a julgar pelo branco, mais parecem revivalismos do Ku Klux Klan (ainda que sem os capuzes e os cavalos)...
Enfim, embora eu tenha recebido a teoria do meu amigo com cepticismo, confesso que fiquei apreensivo... agora, só espero que não obriguem o Carlos Cruz a beber um shot de cicuta...
Quanto ao Frederico, os psiquiatras dizem que parece estar a revelar algumas melhorias. Pelo menos já não acredita que é o Nostradamus!...
Queixava-se ele que o seu “Eterno retorno” tem sido uma das maiores vítimas da hermenêutica contemporânea. Cada vez que alguém tenta arranjar uma nova interpretação só enterra ainda mais o conceito! Qual “carpe diem” qual quê? O que aquilo realmente quer dizer, segundo palavras do próprio Frederico, é que a humanidade anda continuamente em círculos, repetindo-se as mesmas ideias e as mesmas charadas de dois em dois mil anos! Apesar das implicações desta revelação, o Frederico afiançou que eu podia ficar descansado, ainda falta mais de um milénio para a próxima idade das trevas...
Mais pertinente foi o exemplo que ele me deu para ilustrar a sua tese: num arremesso de perspicácia intelectual, chamou a atenção para os recentes acontecimentos da Casa Pia e não hesitou em relacioná-los com o clássico julgamento de Sócrates. Ao fim de dois mil anos, eis de novo a pedofilia na boca do mundo (ou “corrupção da juventude”, como lhe chamavam nos tempos helénicos). Mais uma vez, também, a rebelião do povo indignado, exigindo castração em desfiles que, a julgar pelo branco, mais parecem revivalismos do Ku Klux Klan (ainda que sem os capuzes e os cavalos)...
Enfim, embora eu tenha recebido a teoria do meu amigo com cepticismo, confesso que fiquei apreensivo... agora, só espero que não obriguem o Carlos Cruz a beber um shot de cicuta...
Quanto ao Frederico, os psiquiatras dizem que parece estar a revelar algumas melhorias. Pelo menos já não acredita que é o Nostradamus!...
Sábado, Setembro 27, 2003
Ad Libitum
Sartre era um amigo da liberdade. A sua maior mensagem é justamente essa: “o homem está condenado a ser livre!”. Somos livres para todo o tipo de coisas: para passarmos no semáforo vermelho, para cometermos suicídio (para teoria ver Albert Camus, para prática ver Kurt Cobain) ou até mesmo para recusarmos prémios nóbeis, como o próprio Sartre tão gloriosamente soube exemplificar – gosto de fazer a analogia entre este seu acto e a crucificação de Cristo; ambos souberam sacrificar-se até ao extremo pelos seus ideais (ainda que cristo tenha feito batota, uma vez que depois ressuscitou... o patife!).
A liberdade sempre apaixonou os filósofos ao longo da história, e alguns chegaram mesmo a aplicar as conclusões sobre a temática às suas próprias vidas: Veja-se Kant, amante do apriorismo e dos conceitos inaptos e intransponíveis: por consequência, levava uma rotina tão inflexível que os vizinhos acertavam os relógios pela sua saída para o passeio diário. Ou veja-se Foucault, tão receoso do panoptismo que acabou por ser uma das primeiras vítimas de sida...
Sartre, por seu turno, dava-se a sacrifícios maiores, em prole da sua filosofia existencialista. Como amante inusitado do liberalismo, acabou por juntar-se a uma das mais perigosas mulheres do pós-guerra: a Simone de Bevoir (mãe suprema do feminismo, para os leigos). Basta ler a Náusea e percebe-se os estragos que esta mulher lhe fez (e nos fez, indirectamente). Foi o início histórico da inversão dos sexos! Consigo imaginar o pobre Sartre a dizer, no leito da morte, mesmo antes do último suspiro: “Somos livres... mas são elas que decidem o que é a liberdade...”
A liberdade sempre apaixonou os filósofos ao longo da história, e alguns chegaram mesmo a aplicar as conclusões sobre a temática às suas próprias vidas: Veja-se Kant, amante do apriorismo e dos conceitos inaptos e intransponíveis: por consequência, levava uma rotina tão inflexível que os vizinhos acertavam os relógios pela sua saída para o passeio diário. Ou veja-se Foucault, tão receoso do panoptismo que acabou por ser uma das primeiras vítimas de sida...
Sartre, por seu turno, dava-se a sacrifícios maiores, em prole da sua filosofia existencialista. Como amante inusitado do liberalismo, acabou por juntar-se a uma das mais perigosas mulheres do pós-guerra: a Simone de Bevoir (mãe suprema do feminismo, para os leigos). Basta ler a Náusea e percebe-se os estragos que esta mulher lhe fez (e nos fez, indirectamente). Foi o início histórico da inversão dos sexos! Consigo imaginar o pobre Sartre a dizer, no leito da morte, mesmo antes do último suspiro: “Somos livres... mas são elas que decidem o que é a liberdade...”
Sexta-feira, Setembro 26, 2003
Em honra de Dioniso
Esta noite sonhei que corria o ano 400 a.C. e festejava-se o feriado nacional de São Baco. Estávamos dentro de um templo jónico com opulentas imagens femininas esculpidas nas colunas, todos nus, eu, o Fedro, o Agatão, o Erixímaco, o Aristodemo, o Aristófanes, o Sócrates, o Pausânias, o Alcibíades e mais de uma dúzia de putas contratadas. Alguém tinha sugerido no início da noite que se fizesse uma bacante (vulga orgia) e todos concordaram. “Viva Dioniso!”, berrava-se em coro pelo átrio, “Viva!!”.
Já ia alta a noite e as putas, encostadas a um canto, começaram a estranhar a indiferença do pessoal: o Agatão e o Aristodemo, inclinados para os respectivos vomitórios talhados em granito, expulsavam o vinho em golfadas abundantes, competindo para ver quem os enchia primeiro; depois, já besuntados, beijavam-se por momentos, empanturravam-se novamente de néctar dos deuses e recomeçavam o campeonato. O Aristófanes, às tantas, aproximou-se respeitosamente das senhoras, fez-lhes uma vénia, apanhou uma pedra lascada do chão e começou a auto-mutilar-se violentamente defronte delas, tentando dividir-se literalmente em dois para provar-lhes a sua sangrenta teoria sobre a misogenia. O Fedro e o Erixímaco puxavam para si o pau do Pausânias, ansiosos por comprovarem a sua bela reputação de sodomista. O Sócrates e o Alcibíades, entretanto, repousavam ébrios, longe dos restantes... notava-se-lhes uma intimidade mais séria. Não consegui apurar o que diziam, mas reconheci Platão a espiá-los por trás de uma moita, portanto presumo que terão tido a mesma conversa que vem relatada no Banquete:
Alcibíades: “Sócrates, estás a dormir?”
Sócrates: “De maneira nenhuma...”
Alcibíades: “Sabes em que estou a pensar?”
Sócrates: “Em quê?”
Alcibíades: “Que só tu és digno de estar enamorado de mim e, contudo, parece que tens medo que eu me aperceba disso. Mas vê bem como eu sou: consideraria completamente idiota não te dar prazer neste domínio, como em todos os outros...”
Quanto a mim, só não fiquei com as putas porque, entretanto, o despertador...
Já ia alta a noite e as putas, encostadas a um canto, começaram a estranhar a indiferença do pessoal: o Agatão e o Aristodemo, inclinados para os respectivos vomitórios talhados em granito, expulsavam o vinho em golfadas abundantes, competindo para ver quem os enchia primeiro; depois, já besuntados, beijavam-se por momentos, empanturravam-se novamente de néctar dos deuses e recomeçavam o campeonato. O Aristófanes, às tantas, aproximou-se respeitosamente das senhoras, fez-lhes uma vénia, apanhou uma pedra lascada do chão e começou a auto-mutilar-se violentamente defronte delas, tentando dividir-se literalmente em dois para provar-lhes a sua sangrenta teoria sobre a misogenia. O Fedro e o Erixímaco puxavam para si o pau do Pausânias, ansiosos por comprovarem a sua bela reputação de sodomista. O Sócrates e o Alcibíades, entretanto, repousavam ébrios, longe dos restantes... notava-se-lhes uma intimidade mais séria. Não consegui apurar o que diziam, mas reconheci Platão a espiá-los por trás de uma moita, portanto presumo que terão tido a mesma conversa que vem relatada no Banquete:
Alcibíades: “Sócrates, estás a dormir?”
Sócrates: “De maneira nenhuma...”
Alcibíades: “Sabes em que estou a pensar?”
Sócrates: “Em quê?”
Alcibíades: “Que só tu és digno de estar enamorado de mim e, contudo, parece que tens medo que eu me aperceba disso. Mas vê bem como eu sou: consideraria completamente idiota não te dar prazer neste domínio, como em todos os outros...”
Quanto a mim, só não fiquei com as putas porque, entretanto, o despertador...
Terça-feira, Setembro 23, 2003
O propósito da filosofia desde que Nietzsche deu em louco
Porventura já terá o leitor notado como este blog se debruça com heroísmo nos inóspitos meandros da filosofia da treta. É uma empresa difícil, claro está, na medida em que o ramo já não é o que era... Dirão alguns que a culpa deste défice se deve à hegemonia da ciência... e eu próprio sinto isso na pele constantemente: por exemplo, esta manhã, enquanto cagava, senti um impulso irresistível para filosofar acerca do meu dentífrico, mas logo desisti perante a tão minuciosa e impenetrável discriminação da composição química do produto. A mim, como ao comum dos mortais, só me resta lavar os dentes...
Muito sumariamente, pode dizer-se que é exactamente esse sintoma que transparece nos escritos dos grandes contemporâneos. Tanta retórica, tanto jargão, tanta baboseira, para dissimular a mais temível das constatações: o rei vai nu.
Assim, para escrever um livro de filosofia na contemporaneidade, basta seguir os seguintes passos:
1 – Não ter presente uma ideia precisa e clara! Isso seria fatal, pois ficaria a descoberto a superfluidade da mensagem. Jacques Derrida, por exemplo, tem-se safado por partir exactamente desse pressuposto: Para quê haver um sentido objectivo numa tese se ela esta condenada à “desconstrução” por parte do leitor? Mais vale mantê-la obscura à priori, para que outros lhe possam, natural e livremente, restituir o almejado sentido profundo que ela não tem...
2 – Misturar argumentos de outros filósofos. Fazendo uso de uma caldeirada de citações, está-se, por um lado, a afirmar o estatuto erudito, e por outro lado a engrossar de palha a nossa própria argumentação. Assim, obtém-se um calhamaço de respeito que constituirá prova humilde e merecida da nossa divina sapiência. E tudo isso, evidentemente, sem que seja necessário fazer uso das nossas próprias ideias!!
3 – Não aderir a nenhum método particular de trabalho! O ideal seria argumentar da forma mais ecléctica e anárquica possível – ainda que não sem a justa subtileza a que assistem os dois passos anteriores. Um pouco como nos aconselha o nosso querido Feyerabend: “Vale tudo!”.
4 – No início de cada capítulo, há que colocar uma citação de um qualquer marmanjo bem conhecido e creditado. Desse modo, crédito imediato será também dado à diarreia que se seguir. Por exemplo, se se quiser filosofar sobre o clima, basta referir o seguinte dito de Stephen Hawking: “O tempo tem a forma de uma pêra” (sem esquecer, claro, a devida referência bibliográfica).
5 – No final, pedir a um grande nome que prepare o prefácio! Que teria sido de Walter Benjamim sem as introduções de Adorno?!
6 – A última grande medida tem a ver com a capa. Qual a melhor ilustração num livro de filosofia? Das duas uma: ou não se põe nenhuma, e aí são bem merecidos os aplausos pela falta de presunção e pela fidelidade ao conteúdo; ou então coloca-se uma foto de uma obra de arte que seja popular nos circuitos mais eruditos. Deixo aqui uma sugestão: E que tal o urinol do Duchamp? Decerto corresponderá na perfeição a quaisquer conteúdos literários do âmbito filosófico, seja por ser um “ready made” ou seja na sua acepção literal, tanto faz...
Muito sumariamente, pode dizer-se que é exactamente esse sintoma que transparece nos escritos dos grandes contemporâneos. Tanta retórica, tanto jargão, tanta baboseira, para dissimular a mais temível das constatações: o rei vai nu.
Assim, para escrever um livro de filosofia na contemporaneidade, basta seguir os seguintes passos:
1 – Não ter presente uma ideia precisa e clara! Isso seria fatal, pois ficaria a descoberto a superfluidade da mensagem. Jacques Derrida, por exemplo, tem-se safado por partir exactamente desse pressuposto: Para quê haver um sentido objectivo numa tese se ela esta condenada à “desconstrução” por parte do leitor? Mais vale mantê-la obscura à priori, para que outros lhe possam, natural e livremente, restituir o almejado sentido profundo que ela não tem...
2 – Misturar argumentos de outros filósofos. Fazendo uso de uma caldeirada de citações, está-se, por um lado, a afirmar o estatuto erudito, e por outro lado a engrossar de palha a nossa própria argumentação. Assim, obtém-se um calhamaço de respeito que constituirá prova humilde e merecida da nossa divina sapiência. E tudo isso, evidentemente, sem que seja necessário fazer uso das nossas próprias ideias!!
3 – Não aderir a nenhum método particular de trabalho! O ideal seria argumentar da forma mais ecléctica e anárquica possível – ainda que não sem a justa subtileza a que assistem os dois passos anteriores. Um pouco como nos aconselha o nosso querido Feyerabend: “Vale tudo!”.
4 – No início de cada capítulo, há que colocar uma citação de um qualquer marmanjo bem conhecido e creditado. Desse modo, crédito imediato será também dado à diarreia que se seguir. Por exemplo, se se quiser filosofar sobre o clima, basta referir o seguinte dito de Stephen Hawking: “O tempo tem a forma de uma pêra” (sem esquecer, claro, a devida referência bibliográfica).
5 – No final, pedir a um grande nome que prepare o prefácio! Que teria sido de Walter Benjamim sem as introduções de Adorno?!
6 – A última grande medida tem a ver com a capa. Qual a melhor ilustração num livro de filosofia? Das duas uma: ou não se põe nenhuma, e aí são bem merecidos os aplausos pela falta de presunção e pela fidelidade ao conteúdo; ou então coloca-se uma foto de uma obra de arte que seja popular nos circuitos mais eruditos. Deixo aqui uma sugestão: E que tal o urinol do Duchamp? Decerto corresponderá na perfeição a quaisquer conteúdos literários do âmbito filosófico, seja por ser um “ready made” ou seja na sua acepção literal, tanto faz...
Segunda-feira, Setembro 22, 2003
Homenagem a meia dúzia de amigos meus...
Nos últimos tempos o monopólio das conversas de café tem sido assaltado por uma palavra com força própria: O desemprego. Eis um dos termos mais temidos e badalados da actualidade. Muitas lágrimas tenho visto às custas deste flagelo!... Aliás, pior que lágrimas: olhos apáticos, focados no infinito, ausentes mesmo quando se lhes estala os dedos à frente do nariz... os traços de decadência confundem-se facilmente com os da toxicodependência, mas num grau mais alarmante visto que no toxicómano, apesar de tudo, encontramos empenho e ambição na procura de cada novo chuto, para não falar na solução rápida e acessível que o chuto em si já oferece. Infelizmente, não há chutos desses para os meros desempregados; parecem drogados esquecidos da droga que consomem... uma tristeza!
Para esses, ofereço-lhes aqui duas soluções: A primeira, em que decerto muitos já terão pensado, consiste justamente em meterem-se no pó (sem descurar, claro, de tantas outras drogas igualmente alienantes; podia, por exemplo, sugerir uma sessão solitária com ácidos na varanda de um vigésimo quinto andar).
A segunda solução requer uma maior mobilização por parte do caro desonerado e um maior esforço pedagógico da minha parte: Ocorreu-me que, da mesma forma que os grandes pensadores sempre necessitarem de tempo e espaço para pensar, também os desempregados podiam aproveitar e unir forças para meditarem sobre questões universais. Com tanto desemprego em Portugal, estou em crer que rapidamente floresceria aqui um novo período helénico, com avenidas cheias de gente em pose de estatueta de Rodin, ruminando sobre questões fundamentais da existência. Seria um novo Renascimento, o despertar de um neo-iluminismo cheio de promessas... em vez da choradeira materialista, a epopeia idealista... em vez do receio da desnutrição, a desnutrição gloriosa... em vez da lamentação do desemprego, o heroísmo da empresa mental... e talvez, quem sabe, no final se chegasse a alguma conclusão...
Para esses, ofereço-lhes aqui duas soluções: A primeira, em que decerto muitos já terão pensado, consiste justamente em meterem-se no pó (sem descurar, claro, de tantas outras drogas igualmente alienantes; podia, por exemplo, sugerir uma sessão solitária com ácidos na varanda de um vigésimo quinto andar).
A segunda solução requer uma maior mobilização por parte do caro desonerado e um maior esforço pedagógico da minha parte: Ocorreu-me que, da mesma forma que os grandes pensadores sempre necessitarem de tempo e espaço para pensar, também os desempregados podiam aproveitar e unir forças para meditarem sobre questões universais. Com tanto desemprego em Portugal, estou em crer que rapidamente floresceria aqui um novo período helénico, com avenidas cheias de gente em pose de estatueta de Rodin, ruminando sobre questões fundamentais da existência. Seria um novo Renascimento, o despertar de um neo-iluminismo cheio de promessas... em vez da choradeira materialista, a epopeia idealista... em vez do receio da desnutrição, a desnutrição gloriosa... em vez da lamentação do desemprego, o heroísmo da empresa mental... e talvez, quem sabe, no final se chegasse a alguma conclusão...
Quinta-feira, Agosto 14, 2003
Introdução ao amor...
Outro dos grandes mistérios da vida é o amor. Esta afirmação está mais batida que o assento de um carro de aluguer, reconheço-lhe o cliché (ou se calhar o preconceito), mas nem assim me abstenho de mencionar a palavra, essa coisa que alguém disse ser fodida, e que faz de todos nós uns pobres masoquistas sem fetiche. Se o amor se vendesse em comprimidos, acho que as sex-shops iam à falência num ápice. Porque se é verdade que uma boa chicoteada nas nádegas com as algemas postas provoca delícia mental a muita boa gente, isso, porém, mais não é que um pseudo-masoquismo. Pleno, pleno, só mesmo o amor... Até o Sade prefere falar de badalhoquices em vez de enfrentar o conceito pelos cornos! E é mesmo de cornaduras que se trata!!! É sempre mais fácil andar solteiro por entre bacanais e rituais dionisíacos em vez de passar o dia todo deitado na cama, vegetativo, remoendo fantasias, à espera que o par de vigas que aflora na testa comece a murchar...
Mas não pense o meu amigo leitor que se vê livre desta sentença! Não há heróis...
Mas não pense o meu amigo leitor que se vê livre desta sentença! Não há heróis...
Quarta-feira, Agosto 13, 2003
para rematar o solipsismo...
Conta o meu amigo Bertrand Russell que um dia uma senhora lhe disse que era solipsista e que achava estranho não haver mais gente a pensar como ela!...
Sobre o solipsismo
No dicionário que tenho em casa, a definição de solipsismo é francamente optimista: diz lá que se trata de uma doutrina filosófica “em rigor sem partidários”. Pois eu receio que não seja bem assim. Anda por aí muito solipsista convicto, posso garantir!...
Segundo essa corrente de pensamento, a única realidade existente é aquela que habita dentro de mim. O mundo é uma fachada construída pela minha mente. Penso, logo existo, mas a única coisa que existe é o meu próprio pensamento... Nesta óptica, posso muito bem assumir que as frases que acabo de expor não foram realmente escritas, nem o caro leitor se encontra neste momento a lê-las, uma vez que só eu existo. Por outras palavras, estou a discursar para as paredes (se é que estou realmente a discursar)...
A verdade é que, embora este argumento pareça excessivamente bizarro, está cada vez mais em moda - ou não fosse o Matrix um sucesso tão esmagador!! Qualquer tipo que defenda não haver verdades absolutas acaba por padecer, em maior ou menor grau, da psicose que acabo de descrever. E o que não falta por aí são cépticos de mesa de café a proclamarem em tom de snobismo intelectual que ninguém pode garantir o que quer que seja. Mais uma vez, portanto, não posso garantir que o leitor tenha alguma vez visto a luz do dia. Gostava de conseguir confortá-lo, dizer-lhe que pode ficar descansado, o seu dinheiro está realmente dentro da carteira, as gajas têm realmente uma periquita no meio das pernas... mas receio não ter argumentos incontestáveis para sustentar estas teses do ponto de vista filosófico! Lamento, mas o mais certo é que o caro leitor não seja senão o fruto da minha imaginação. Assim, resta-lhe esperar que eu ainda viva muitos anos porque, no dia em que eu bater as botas, tudo indica que você deverá, pura e simplesmente, desvanecer-se...
Segundo essa corrente de pensamento, a única realidade existente é aquela que habita dentro de mim. O mundo é uma fachada construída pela minha mente. Penso, logo existo, mas a única coisa que existe é o meu próprio pensamento... Nesta óptica, posso muito bem assumir que as frases que acabo de expor não foram realmente escritas, nem o caro leitor se encontra neste momento a lê-las, uma vez que só eu existo. Por outras palavras, estou a discursar para as paredes (se é que estou realmente a discursar)...
A verdade é que, embora este argumento pareça excessivamente bizarro, está cada vez mais em moda - ou não fosse o Matrix um sucesso tão esmagador!! Qualquer tipo que defenda não haver verdades absolutas acaba por padecer, em maior ou menor grau, da psicose que acabo de descrever. E o que não falta por aí são cépticos de mesa de café a proclamarem em tom de snobismo intelectual que ninguém pode garantir o que quer que seja. Mais uma vez, portanto, não posso garantir que o leitor tenha alguma vez visto a luz do dia. Gostava de conseguir confortá-lo, dizer-lhe que pode ficar descansado, o seu dinheiro está realmente dentro da carteira, as gajas têm realmente uma periquita no meio das pernas... mas receio não ter argumentos incontestáveis para sustentar estas teses do ponto de vista filosófico! Lamento, mas o mais certo é que o caro leitor não seja senão o fruto da minha imaginação. Assim, resta-lhe esperar que eu ainda viva muitos anos porque, no dia em que eu bater as botas, tudo indica que você deverá, pura e simplesmente, desvanecer-se...
Sábado, Agosto 09, 2003
O elixir do bronze (parte 2)
O meu último post foi duramente criticado. Dizem os mais cépticos que terei sido demasiado vago na minha exposição sobre os solários uterinos de longa dura das pretas. Argumentam que é inadmissível divulgar uma tese desta envergadura sem submetê-la primeiro ao típico peer revew, em que é levado a cabo o devido escrutínio do enunciado pelos pares cientistas antes de se atirar a papelada toda ao caixote do lixo em jeito de delicadeza basquetebolista.
Bem, em primeiro lugar não sou propriamente profissional da ciência, portanto não tenho de passar por esse tipo de ordinarices burocráticas. Em segundo lugar é preciso rever em que ponto está o paradigma científico nestes belos tempos de emancipação pós-moderna! Passo a explicar: já ninguém acredita na treta positivista. Por outras palavras, tudo é válido! Que se fodam os dados empíricos, o que realmente interessa é o jargão e a sofisticação retórica. Escreva-se um poema. Se estiver suficientemente aprazível, serve tão bem para calcular o regresso do cometa Halley como a física newtoniana. Ou seja, a minha teoria sobre o elixir do bronze está correcta à priori.
Mesmo assim, perante uma tal ortodoxia (provavelmente oriunda dos meios académicos), vejo-me obrigado a limar algumas arestas. Trata-se então de adiantar uma prova factual para calar os mais cépticos. Aqui vai: Pegue-se numa ecografia; o embrião em desenvolvimento está completamente exposto, excepto em duas zonas: as palmas das mãos. Por alguma razão, insiste em mantê-las cerradas (pelo que tenho visto)! Agora repare-se nas palmas de um preto adulto. Brancas como cal... Eureca!!!
É claro que uma tal resposta dará sempre azo a novas questões. Por exemplo, será que o rego do cú dos pretos é pigmentado?... Há coisas que não me atrevo a investigar....
Bem, em primeiro lugar não sou propriamente profissional da ciência, portanto não tenho de passar por esse tipo de ordinarices burocráticas. Em segundo lugar é preciso rever em que ponto está o paradigma científico nestes belos tempos de emancipação pós-moderna! Passo a explicar: já ninguém acredita na treta positivista. Por outras palavras, tudo é válido! Que se fodam os dados empíricos, o que realmente interessa é o jargão e a sofisticação retórica. Escreva-se um poema. Se estiver suficientemente aprazível, serve tão bem para calcular o regresso do cometa Halley como a física newtoniana. Ou seja, a minha teoria sobre o elixir do bronze está correcta à priori.
Mesmo assim, perante uma tal ortodoxia (provavelmente oriunda dos meios académicos), vejo-me obrigado a limar algumas arestas. Trata-se então de adiantar uma prova factual para calar os mais cépticos. Aqui vai: Pegue-se numa ecografia; o embrião em desenvolvimento está completamente exposto, excepto em duas zonas: as palmas das mãos. Por alguma razão, insiste em mantê-las cerradas (pelo que tenho visto)! Agora repare-se nas palmas de um preto adulto. Brancas como cal... Eureca!!!
É claro que uma tal resposta dará sempre azo a novas questões. Por exemplo, será que o rego do cú dos pretos é pigmentado?... Há coisas que não me atrevo a investigar....
O elixir do bronze
Hoje faço questão de dar um pequeno contributo à ciência. Andava eu nas minhas deambulações pelo litoral português quando dei conta do óbvio: quase não se vê pretos nas praias (e diga-se de passagem que os poucos que lá se vêem soam-me a anomalias, parecem a modos que erros na matriz).
Ora esta constatação tão trivial pôs-me a meditar. E assim como Einstein deduziu a teoria da relatividade a partir da constância da velocidade da luz, também eu me acometi de uma ideia luminosa. Em traços gerais, e passando à frente os aspectos mais técnicos, o meu raciocínio é o seguinte: se os pretos já chegam ao mundo com os atributos que tão desesperadamente agoiramos nestas épocas balneares, então a solução está em compreender o mecanismo que activa nos úteros das pretas a função de solários!!... E não me venham com essas tretas da genética. Aposto que é uma questão de estudar com maior profundidade a composição química do líquido amniótico das negrinhas e rapidamente se encontrará uma cura para os albinos!... Caros compatriotas, toca a investigar antes que os americanos nos roubem a patente!! Mãos à obra.
Ora esta constatação tão trivial pôs-me a meditar. E assim como Einstein deduziu a teoria da relatividade a partir da constância da velocidade da luz, também eu me acometi de uma ideia luminosa. Em traços gerais, e passando à frente os aspectos mais técnicos, o meu raciocínio é o seguinte: se os pretos já chegam ao mundo com os atributos que tão desesperadamente agoiramos nestas épocas balneares, então a solução está em compreender o mecanismo que activa nos úteros das pretas a função de solários!!... E não me venham com essas tretas da genética. Aposto que é uma questão de estudar com maior profundidade a composição química do líquido amniótico das negrinhas e rapidamente se encontrará uma cura para os albinos!... Caros compatriotas, toca a investigar antes que os americanos nos roubem a patente!! Mãos à obra.
Resposta
Vieram vozes dizer-me que ando, com este blog, a cair nos mesmos erros que eu próprio já critiquei. Podia alegar que o propósito é mesmo esse mas, de facto, não sinto que seja: não pretendo que esta merda se torne uma paródia a morder o próprio rabo. Também podia argumentar que a propensão a ser ordinário é demasiado forte, está-me nas vísceras, mas admitir isso seria suicídio profissional. Estou, portanto, numa encruzilhada; não só perante os outros mas perante mim mesmo...
Sem querer dar parte de fraco, o certo é que, de repente, não consigo deixar de pensar naqueles desgraçados obssessivo-compulsivos obcecados pela limpeza da casa e que reservam secretamente um compartimento para as fantasias mais abjectas... e o certo é que se passam coisas parecidas comigo: por exemplo, já desde muito cedo que tenho o hábito de amealhar as minhas catotas nas arestas da cama, dispostas com minúcia e dedicação em recantos discretos... perdoem-me mas é verdade. Daqui a alguns anos, a este ritmo, a cama ficará consideravelmente mais pesada! Os psicólogos referem-se a estes estranhos comportamentos como “pensamentos mágicos”. Mágicos desde que se mantenham nesse vacilante limiar entre a contenção disfarçada e a degeneração definitiva. Trata-se, pois, de gerir esse limiar, foda-se!... E viva a magia.
Sem querer dar parte de fraco, o certo é que, de repente, não consigo deixar de pensar naqueles desgraçados obssessivo-compulsivos obcecados pela limpeza da casa e que reservam secretamente um compartimento para as fantasias mais abjectas... e o certo é que se passam coisas parecidas comigo: por exemplo, já desde muito cedo que tenho o hábito de amealhar as minhas catotas nas arestas da cama, dispostas com minúcia e dedicação em recantos discretos... perdoem-me mas é verdade. Daqui a alguns anos, a este ritmo, a cama ficará consideravelmente mais pesada! Os psicólogos referem-se a estes estranhos comportamentos como “pensamentos mágicos”. Mágicos desde que se mantenham nesse vacilante limiar entre a contenção disfarçada e a degeneração definitiva. Trata-se, pois, de gerir esse limiar, foda-se!... E viva a magia.
O sentido da vida animal (que também é o nosso) - na linha de estudiosos como Freud e "Pipi".
Mas aquilo que realmente me interessa é o sentido da vida. A questão massacra-me de tal forma que só consigo esquecer-me dela quando estou aconchegado em entranhas femininas. Digo-vos uma coisa, caros amigos: O sexo é o elixir da alienação!!
Vem Marx dizer que a religião é o ópio do povo, passa-se por Salazar a asseverar que o povo quer-se burro, faz-se uma passagem pelo Admirável Mundo Novo do Huxley (onde fornicação é coisa que não falta), soma-se tudo e eis que nos é revelada a mais profunda das constatações filosóficas: é para chocalhar que cá andamos e o resto é excedente.
Se tivesse sido permitido dizer isto mais cedo, aposto que se tinha poupado muita tinta. Ou não fosse a arte de esgalhar muito anterior à invenção da escrita...
Vem Marx dizer que a religião é o ópio do povo, passa-se por Salazar a asseverar que o povo quer-se burro, faz-se uma passagem pelo Admirável Mundo Novo do Huxley (onde fornicação é coisa que não falta), soma-se tudo e eis que nos é revelada a mais profunda das constatações filosóficas: é para chocalhar que cá andamos e o resto é excedente.
Se tivesse sido permitido dizer isto mais cedo, aposto que se tinha poupado muita tinta. Ou não fosse a arte de esgalhar muito anterior à invenção da escrita...
O blog e o intelectual
Por outro lado a ideia de não ter de passar por burocracias editoriais alicia-me! Nunca usei a palavra merda em nenhum artigo formal. É preciso compreender que há um estatuto a manter, um culto inabalável pelo politicamente correcto, a obrigação do sumo literário... para não falar na fotografia delatora com o meu sorriso militar. Não quer dizer que me sinta contrariado naquilo que escrevo, até gosto do rótulo que me colam, e às vezes apetece mesmo falar de coisas sérias. Pode dizer-se que é possível gerir um bom estatuto intelectual se se estiver disposto a abdicar de caralhadas. Quanto ao que nos motiva a este tipo de abstinência, impedindo de dizer foda-se a torto e a direito, as razões serão talvez demasiado complexas para tratar delas agora. Freud adiantaria que, das duas uma: ou o senhor intelectual se frustou de forma irreversível e recalcou definitivamente o desejo de pito através de eloquências e palestras solenes, ou então consegue manter a líbido em boa forma e usa, muito subtilmente, as eloquências e palestras como estratégias de engodo sexual. Estou mesmo a ver o Marcelo a levantar-se no final da sessão de Domingo para ir foder a assistente nos bastidores enquanto ela lhe elogia as tendências políticas...
É por isso que este cantinho virtual tem o seu quê de redentor: por um lado acabam-se as contingências e passo a dizer caralho as vezes que for preciso; por outro lado sai-me um peso da consciência porque, pelo menos aqui, ninguém me pode acusar de assédios e quejandos...
É por isso que este cantinho virtual tem o seu quê de redentor: por um lado acabam-se as contingências e passo a dizer caralho as vezes que for preciso; por outro lado sai-me um peso da consciência porque, pelo menos aqui, ninguém me pode acusar de assédios e quejandos...
Autocrítica
Sejamos francos: os blogs estão a ficar tão em moda que correm risco de cair no esquecimento!... Não há contradições neste dito: É que tem vindo a acumular-se demasiada merda, tanta que acaba por se lhe perder o cheiro. Sempre gostei de uma boa calinada aqui e ali, confesso que cheguei a adicionar crónicas de uns tantos melros virtuais aos favoritos do explorer.... mas agora começo a ficar preocupado. Sinto-me como quando tentei ler a bíblia... há um alento inicial, o génesis ainda se aguenta, mas depois começa-se a reparar na largura do colosso... não quer dizer que não haja lá boa palraria, mas tanta fartura deixa-me no mínimo desconfiado!
Depois há o problema da redundância: alguns desses ciber-melros até me parecem inteligentes, sabem caluniar com classe, com arte até, mas depois esmorecem com a mesma gana com que chegaram, largam uns derradeiros arremessos de auto-plágio e efemerizam-se...
Feitos estes comentários, não deixará o leitor de juntá-los à mesma merda que acabei de criticar. Nesse caso, terei sido suficientemente claro...
Depois há o problema da redundância: alguns desses ciber-melros até me parecem inteligentes, sabem caluniar com classe, com arte até, mas depois esmorecem com a mesma gana com que chegaram, largam uns derradeiros arremessos de auto-plágio e efemerizam-se...
Feitos estes comentários, não deixará o leitor de juntá-los à mesma merda que acabei de criticar. Nesse caso, terei sido suficientemente claro...
