Quarta-feira, Julho 20, 2005

Odisseia

Sei que eu sou ponte
entre o tudo e o nada,
paladino e berbere.
Sátira de muita fonte,
sábio de boca calada,
desafio que não fere.

E o manto, que visto
nos claustros ou deserto
e me cobre a nudez,
é de seda, eu insisto,
e não veio de perto,
foi um anjo que o fez.

Cicatrizes cobertas.
Coração enjaulado.
Mistério escondido.
Boca e mãos abertas
num corpo molhado,
sexo entumescido.

Retirando a distância,
a ti me juntando
no meu pensamento,
acumulo mais ânsia,
que vou aguentado
a todo o momento.

A crescer este desejo,
que me tolda a razão,
cega de sensualidade...
E num orgástico beijo,
arrebatado de emoção,
entrego minha vontade.

Segunda-feira, Julho 18, 2005

Menino perdido

Como um menino perdido
de olhar triste e meigo
sem mão para agarrar…
Sem amor, fora escolhido,
para nele ser um leigo,
tolamente se apaixonar…

Escreve estórias sem fim,
junta almas no paraíso
e chora sem ninguém ver…
Porque ele sabe que assim,
evita perder de vez o siso,
tendo aquilo que merecer…

No meio de lutas incessantes,
despe-se aqui sem pudor,
mostrando as chagas vividas…
E nos seus passos errantes,
purifica no verbo o amor,
e sofre pelas vidas perdidas…

Sábado, Julho 16, 2005

Sem corpo...

Sem corpo…
Olhos baixos nas pedras do caminho
Transportando um vazio imenso
Numa perene desmotivação
Nenhum ardor.

Sem corpo…
Memórias apagadas na escuridão
Algemado à tristeza
Qual peçonha que não despega
E me exaure de dor.

Sem corpo…
Seria feliz por um momento
Junto à tua solidão
Ondas de abismo profundo
Onde não há calor.

Sem corpo…
Lágrima caída
Mortalha no coração
Desejos que vão morrendo
Já só sinto torpor.

Sem corpo…
Que importa a melancolia
Que me dizem trazer na face
Se o meu espírito se apaga
Sem amor.

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Histórias da Madrugada 55

(5ª parte - Fim)

- Deves pensar que sou louca, não? Para estar assim contigo, quando nem te conheço. Obrigado por me consolares. Tenho que esquecer aquele idiota.
- Sim, talvez seja melhor, não me pareceu homem para ti. Não tens que agradecer, não estou obrigado. E… gostei muito…
Não a deixando continuar, João beijou-a de novo, desta vez com mais intenção ainda, como se lhe sugasse a alma, deixando-a sem respiração.
Esqueceram o jantar e o assunto que os levara ali. Foram caminhando em silêncio. A casa dele ficava perto. Ele nada disse, mas levou-a directamente para lá. Ela pensava em tudo aquilo e no que sentia pelo ex-namorado. Entrou sem comentários em casa de João. O seu sexto sentido avisou-a para a possibilidade de os outros cinco estarem cada vez mais envolvidos com aquele homem. Sentia as suas mãos a percorrê-la suavemente, alternando a intensidade do toque… o seu cheiro masculino enebriava-a… as línguas procuravam-se e provavam a pele e o sexo… a respiração mais acelerada… os olhos brilhantes… o sorriso… o calor na face… a penetração… o orgasmo que sai por cada poro, que lhe arrepia a coluna num espasmo jamais sentido…
Afinal quem amava? A culpa invadiu-a, ao mesmo tempo que rejubilava com o gozo que lhe deu vingar-se assim. Mas seria isso que queria? Teria utilizado aquele homem?
Ele estava cansado e alegre. Nunca imaginaria o que se passava na mente dela. Não queria sequer pensar que aquele amor que sentia fosse efémero.
Despontava a manhã… luz radiosa, que lhes iluminou os corpos nus, abraçados.
Tomaram banho juntos, brincaram, riram…
Resolveram tomar o pequeno almoço no café. Saíram de casa dele enterrando o passado, vivendo o presente com saudades do futuro. Sim, isso era só o que mais importava. O tempo seria deles, assim quisessem viver para construir os momentos de felicidade que todos buscam.
Consta que não desistiram e ainda vivem juntos…

Agradeço as sugestões e o carinho da Ana Raquel, Blue Shell, Adrika, Betty Branco Martins, Breeze, Carla, Elsa, Isa Xana, M., Paula, Rosa, Min, Cátia, Ana, Eu33, Lady Askani, Delírio, Viúva Negra, Lúcia, Liliane, Lina, Fata Morgana, Eliane, Karin, Miriam, Dora, Fernanda G., Art of Love, Elise, Helena, Viver em Segredo, Pedro e Malae.

Histórias da Madrugada 54

(4ª parte)

Isabel pediu à secretária, dois dias depois, para que ligasse a João.
- Está, João… olá, bom-dia, fala Isabel…
- Viva, Isabel, já tem novidades para mim?
- Sim, gostava de falar consigo… gostei do livro, onde nos poderíamos encontrar?
- Onde quiser, Isabel… - João estranhou esta questão. O mais natural seria ela convidá-lo para ir à Editora.
- Bem, então podíamos encontrar-nos por volta das 18h no Bar X?
- Tudo bem, lá estarei – ele estava admirado com a situação. Ela seria daquelas profissionais que lhe levaria um contrato, tomaria um café e iria para casa fazer o jantar? Muito estranho.
Isabel marcou aquele encontro quase de forma inconsciente. Ela sabia que àquela hora o seu amado estaria naquele bar, como de costume. E assim aconteceu.
João reparou que enquanto falava com Isabel, esta olhava, insistentemente, para outra mesa. Colocando-se a jeito, acabou por vislumbrar o destino dos olhares dela. Um homem bem parecido, acompanhado por uma mulher vistosa, que de mãos dadas segredavam e sorriam, parecendo muito apaixonados. João sentiu-se utilizado e reagiu:
- É o teu ex-namorado? – perguntou, tuteando-a, investindo numa aproximação radical.
- Quem? – Isabel ficou ruborizada e sentiu-se muito desconfortável.
- Aquele ali para quem olhas de soslaio. Por que viemos aqui? Podíamos ter tratado do livro no teu escritório.
- Meu caro João, acho que está a ser desagradável e não temos intimidade para este tipo de interrogatório. Portanto, passe bem – ela levantou-se e saíu do bar.
Ele correu atrás dela, desculpando-se e assumindo que tinha sido uma crise de ciúmes sem explicação. Ela sentiu-se lisonjeada… ciúmes logo ao segundo encontro, teria assim tanto impacto? Era bom para a sua auto-estima.
Resolveu então contar-lhe a verdade. Como o namorado tinha rompido com ela no dia em que João a viu com dois casais de amigos, que a tentavam consolar. Que se identificou como Sofia e que tinha ido para casa duma irmã, que morava naquele prédio, onde João a procurara. Chorou. Aceitou o abraço de João e, sem resistir, beijaram-se ternamente, ficando em silêncio, ouvindo só os corações a bater.
Ela pensava: como fui fazer isto? Que pensará ele? Deve estar com pena de mim? Vai aproveitar-se da situação? Será que eu quero que ele o faça? Afinal, eu amava o T… ou foi só o meu orgulho ferido?
Ele pensava: que boca! Será que ela gosta mesmo do outro? Nunca me tinha sentido assim? Será que devo avançar? Ela achará que me estou a aproveitar da sua fragilidade? Estará ela só a consolar-se comigo? Como pode já gostar de mim? Beija-me a pensar nele?

Que pensam vocês? Agradeço os vossos comentários e sugestões.

Quinta-feira, Julho 14, 2005

Histórias da Madrugada 53

(3ª parte)

Ele tinha a imagem dela gravada na memória, mas o passar do tempo foi-a modificando, tornando-lhe os contornos esbatidos… pensou que já a veria em todo o lado… não, obviamente aquela não era Sofia. Mas a voz era igual, juraria que ouvia a mesma voz. Contudo, os contextos era diferentes, logo a sua mente desejosa deveria estar a confundi-lo.
Ele estava ali para lhe apresentar um livro que tinha escrito de poesia, um dos seus hobbies desde muito novo. Não acreditava muito que pudesse ter sucesso, mas tinha resolvido arriscar. Ela foi muito simpática e comprometeu-se a dar-lhe uma opinião com grande brevidade.
Quando saía, algo lhe chamou a atenção. Os pés de Isabel… seria mais uma daquelas coincidências? As sandálias era iguais às que Sofia levava naquele dia, mas o desenho dos pés eram uma marca que ele reconheceu de imediato… seria possível?
- Adeus, Sofia – ele tinha-se chegado a ela para se despedir com os dois beijinhos que hoje em dia juntam desconhecidos… colocando-lhe a mão num braço para sentir a sua reacção. Olhou-a fixamente… poucos décimos de segundo que parecem uma eternidade, mas ela não se desmanchou, aguentando a situação:
- Isabel, enganou-se… o meu nome é Isabel.
- Desculpe, onde tenho a cabeça…
- Pelos vistos, a sonhar com a namorada – ela tornara-se audaz. Era como se sentisse ciúmes por ele só pensar na outra e não tentar vê-la como Isabel. Por que razão os homens de deixavam enredar assim por mulheres misteriosas? Bem, seria um sinal de que estava perante alguém capaz de fazer da vida um romance.
- Não, não é namorada, mas a Drª faz-me lembrar muito a Sofia – disse ele sorrindo abertamente para tentar descontrair a situação.
- Isabel, por favor trate-me por Isabel… quem sabe tenha aí um tema interessante para um novo livro – ela sorria também, e o sorriso dela deixou-o um pouco mais dependente.
- Ok, Isabel, eu sou João, claro… e é uma ideia interessante essa, mas faltam-me pormenores, e só a vi uma vez…
- Não me diga, paixão à primeira vista? – o seu coração agitou-se com a possibilidade de ter inspirado amor numa primeira impressão.
- Talvez… pelo menos, fiquei com muita vontade de a conhecer, mas nunca mais a encontrei, nem deixou vestígios por onde andou… um bom mistério.
- Talvez ela não tenha querido que a conhecesse…
- Pois, não sei… nem sei se alguma vez saberei, não tenho qualquer pista, ou antes tinha várias pistas, mas eram todas falsas.
Despediram-se, ficando ela de lhe telefonar para lhe dar a sua opinião profissional. Depois de ele sair, Isabel pegou no livro e iniciou a sua leitura com alguma curiosidade. Não conseguiu parar de ler. Uma hora depois tinha os olhos velados, o coração apertado e um sorriso indefinido no rosto.

Agradeço as vossas propostas de continuação. Quando será o momento certo para ela dizer a verdade? Deverá alguma vez fazê-lo? Será possível alguém apaixonar-se quando ainda pensa que ama outro alguém?

Quarta-feira, Julho 13, 2005

Histórias da Madrugada 52

Ela olhava perdidamente pela janela. Sentia a dor como uma pressão permanente no seu peito. A última noite deixara-a anestesiada. Ainda não queria acreditar que o vira com a outra, beijando-a, provocando-a… ouvia os risos deles como estaladas constantes até ficar inanimada, catatónica, sem reacção…
Resolveu de forma automática arrumar o seu quarto. Chegara a meio da noite e caíra na cama adormecendo de seguida. Os comprimidos que tomara juntamente com as bebidas alcoólicas explicavam aquele sono, assim como a dor de cabeça com que acordara. Só se lembrava daquela cena e não do que fizera depois.
Algo caíu ao chão, quando despejava a carteira. Um cartão com um nome e um número. De quem? João? Continuou a sua rotina sem pensar mais naquilo. O cartão foi parar ao cesto do lixo.
No fim do pequeno almoço, que fez por tomar com alguma dificuldade, começou a sentir-se mais acordada e lembrou-se… “ah, era daquele moço do restaurante!” Sorriu.
Isabel tinha-o enganado facilmente. Ele acreditara que se chamava Sofia, que morava naquele prédio, que o queria voltar a ver. Contudo, agora sentia algum mal-estar com o que tinha feito. Na altura, pareceu-lhe o mais acertado para se ver livre dele. No meio da viagem de táxi, já pensava que afinal ele poderia ser interessante, mas já não podia voltar atrás e revelar que o enganara. Que fazer? Bem, deixar andar e esquecer o assunto.
Estava atrasada. Nesse dia só começava a trabalhar às 10 horas, mas tinha que se apressar. Antes de sair, recolheu o cartão que estava no lixo e voltou a guardá-lo. Não sabia por que razão o fazia, mas a intuição feminina não se explica.
Chegada ao seu gabinete, no 12º andar, com vistas sobre a cidade, consultou a sua agenda. Trabalhava numa editora. Avaliava livros candidatos para publicação de novos autores, entre outras funções próprias dum editor adjunto. Ela própria tinha já publicado um livro de histórias infantis, tendo outro em carteira, que tardava em concluir. A sua secretária ligou-lhe:
- Drª Isabel, chegou o senhor que tinha entrevista consigo às 10h30, posso mandar entrar?
- Pode, Mariana, obrigado.
Isabel deu um jeito ao cabelo com as mãos, olhando para um espelho que tinha no gabinete, preparando-se para receber a visita de pé no meio da sala.
- Dá-me licença – ouviu ela dizer quando um homem entrou, com um sorriso, estendendo-lhe a mão – sou João…
- Como está, sou Isabel… faz o favor de se sentar.
Ele agradeceu, mas ficou a olhar… reconheceu-a, mas não queria acreditar. Ela só passado dois segundos, com a insistência do olhar dele, é que reparou que o conhecia… sentindo algum rubor que, felizmente, não seria muito perceptível por causa da maquilhagem matinal.
- Desculpe, mas fiquei a pensar se não a conhecia já…
- A mim? Não me recordo, mas como apareço em muitos locais públicos…


Começo por agradecer as ideias que me deram, depois publicarei aqui os nomes de todos vós.
Agora, como acham que ela devia agir? Dizer a verdade, revelando-se? Manter o engano, fugindo à identificação? Dizer que tinha uma irmã chamada Sofia? Aceito sugestões… Obrigado. Claro que escreverei algo um pouco diferente do que me propuserem, para que haja novidade para todos.

Respondi à carta da Anamor: www.angelbela.blogspot.com

Terça-feira, Julho 12, 2005

Histórias da Madrugada 51

Ele ainda acreditava que a verdade podia vencer.
Mas tudo começou num olhar distraído para o outro lado da sala, onde jantavam. O cruzar de olhares foi momentâneo, o que se seguiu não. Disfarçou, mas teve de voltar a olhar. Quem era aquela deusa de rosto fechado, que não sorria? Ela olhou de novo e fixou-se, ele resistiu, mas nenhum sorriso apareceu.
Coincidentemente, levantaram-se nas duas mesas ao mesmo tempo. Ele estava acompanhado por dois colegas de trabalho, amigos de longa data. Ela também se poderia dizer que era quem estava a mais na mesa, pois havia lá mais dois casais, que falavam animadamente.
Ele dirigiu-se ao balcão e perguntou ao empregado se conhecia quem estava naquela mesa. Não eram conhecidos, seria a primeira vez que ali iam.
Ela saíu. Ele seguiu-a. Os dois na entrada, olhando para a rua. Aparece um táxi e ambos levantam o braço. Pela primeira vez entreolharam-se e sorriram. Ele sentiu aquele arrepio habitual de quando desejava alguma coisa de forma decidida e tão profunda, que todo o destino de imediato se alterava à sua frente, promovendo a sua concretização. Nesses momentos, ele sabia que conseguira influenciar as forças que nos regem, pois o seu desejo era tão forte, a sua vontade tão inquebrantável, que nada se lhe oporia. A sua verdade afastaria qualquer obstáculo.
O táxi parou. Ele abriu a porta e convidou-a a entrar.
- Obrigada, pode vir, se quiser… - disse ela.
Os acontecimentos alinhavam-se, eles iriam juntos. Ela tinha o seu destino mais perto e seria a primeira a sair.
- Chamo-me João…
- Eu sou a Sofia.
Falaram de trivialidades, procurando impressionar-se mutuamente, como sempre acontece nestes casos. Quando chegaram a casa dela, ele aproveitou para lhe deixar um cartão com o seu contacto, que ela agradeceu, desculpando-se com a pressa, mas que lhe ligaria. O resto da noite foi para ele uma terna fantasia. Há muito que não sentia aquela alegria adolescente por uma mulher.
Entretanto, passaram dois dias e ela não ligava. Ele resolveu visitar o prédio onde a vira entrar. Falou com o porteiro. Ninguém a conhecia, nem sequer o nome. Naquele local só viviam famílias com crianças pequenas. Pensou então que ela seria casada, mas o porteiro não se lembrava de ninguém que correspondesse à sua descrição. Resolveu esperar. Sentado num café do outro lado da rua, foi assistindo ao dia-à-dia daquele local. Ela não apareceu. Desesperado, resolveu tocar às campaínhas à hora do jantar, perguntando se era de casa da Sofia. Em vão.
Mas ele ainda acreditava que a verdade podia vencer.


Aceito sugestões para a continuação... obrigado.

Recebi carta: www.angelbela.blogspot.com