Sexta-feira, Julho 15, 2005

sem título

O cansaço funde-se comigo e empreendemos uma viagem pelo meio de sebes mais altas que qualquer esforço...
O caminhar torna-se lento, e nem o arrebatamento de visões momentâneas me faz andar mais rápido, sei lá, sair por uma porta convicto que há realmente vida lá fora...
Eu queria poder sair, queria profundamente ter a certeza que as escadas, os muros, as casas, os corrimões lá fora são mais que meras imagens,
Eu gostava de poder acreditar que tudo é como pintamos, cá nas minhas telas de células sedentas de paz.
Eu diria que preciso de amar, o corpo diz que provavelmente uns carinhos estranhos acalmariam convulsões em mim, aquelas que reclamam a tranquilidade.
O corpo pede demais, e a mente diz: "Amar cansa!", mas o corpo pede, pede mais, sempre mais...
E eu não sei como fugir, se por momentos houve em que ficar era a única brecha possível, hoje nego-me como cobarde, e não fico.
Ficar até seria ameno para a alma, mas tempestuoso para a materialidade que nos compõe.
E eu sinto-me cansado, por querer amar, por querer percorrer tecidos de seda corpórea
Por me derreter em palavras, rejuvenescer em extâses, e brindar em forma de beijos...
Desejo não querer mais do que aquilo que a razão me proporciona, e ao mesmo tempo anseio por ilusões em que tornado algum comove árvores de crença.
Eu acredito em espaços onde a mitologia reina, mas acredito mais ainda em tempos onde sonhos percorrem de mão dada com figuras humanas estradas de possibilidades..
Eu rogo às horas que se mantenham impunes no acto de imaginar, que não gritem, não murmurem, não abanem...
A calma aí comanda, e retratos de praias de espumas leves e serenas criam-se e tornam-se monumentos ao deleite..
Mas o corpo não comanda instinto algum, ele é-lhe inato, ele é parte sua, ele bombeia-se no seu interior.
E "amar cansa", "amar dói" e "amar magoa" dizem as vozes ecoantes no espaço divagante da minha cabeça.
Parece que as cicatrizes fazem o favor de chantagear...
E o perdão de não amar só é comparável à vontade de não viver... e mesmo assim não lhe faz juz.
E amar é tão bom, e sorrir é tão revigorante, e poder contar com alguém é tão confortante, e ser-se gentil é tão forte, as nuvens abraçam-me ao pensar assim.
Porque há sempre um pedaço de mim que desconheço, ao qual só tu poderás abrir a porta.
Porque há sempre uma proximidade que se tem de cumprir, mesmo quando o vento contaria...
Mas depois abro os olhos e as imagens fazem o favor de não ficar, e a magnificiência dissipa-se,
E aí as horas controlam os cordéis de linho, reclamam suspiros, assassinam momentos...
O horizonte encurta-se, as memórias vão ao sabor do vento, e nas brisas que restam percebo então que amar afinal não cansa assim tanto.
E compreendo que o entusiasmo é que suplica descanso, mas que no fundo a imaginação reivindica percursos.
Procuro um banco, sento-me, repouso os meus pés de Hermes, descodifico para mim as mensagens da materialidade do meu ser,
E escuto o corpo que declama só se fundir com quem a mente voa.
E nesse descofidicar de mim próprio compreendo que ao fugir encontrar-me-ei sempre num sorriso teu.
O afogar de tanto, o submergir de nada, no topo flutua o cansaço, no fundo descansa a imaginação... e nos breves raios de sol, que iluminam todo o meu mar, o sonho parece encontrar o seu caminho...

Quarta-feira, Julho 13, 2005

Aos amigos...

Image Hosted by ImageShack.us
Fotografia tirada por mim

Perdeste o nome como eu há muito perdera a infância. Mas quando o teu olhar me sulca e fere o corpo e me devolve, por segundos, o que perdi, há um amanhecer feliz. E tens um nome, e não voltaremos a estar sozinhos.

(Al Berto, Lunário)

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Da transcendência da música

Image Hosted by ImageShack.us

Dou-te a vida que teimo em viver, nem que seja por breves minutos.
Dou-te a existência que teima em ser nómada na presença, nos gestos, nos passos e nas diversas maneiras que "ser" toma.
As palavras ao contrário de ti desvanecem-se ao fim de minutos, às vezes horas, digam que sim ou não, é verdade...
Eu não me consigo dissipar se não estiveres por perto, é na tua envolvência que me extravasso de mim próprio, e percorro cada nota tua na procura incessável de compreender até onde me levará a tua odisseia melódica.
Anseio por alcançar o cerne de tudo, o pequeno núcleo onde dizem rugir as virtudes do mundo. dizem-me ser impossível, será?
O esforço nunca é maior que a vontade, aliás o esforço deixa de ser esforço quando a vontade grita mais alto, e viver-te nunca será um esforço, será o maior dos prazeres...
E se me entregando a ti eu conseguir lá chegar, então terei certezas que o mundo é bem mais suave do que as amaguras que lá fora nos chicoteiam....
Eu em ti ouço as ondas, os rouxinóis, as montanhas, os prados, as crianças, os múrmurios sofridos, os gritos silenciosos..
Tu transcendes-me na razão, tu possuis-me nos segredos, tu abraças-me na emoção que me proporcionas...
Porque não sou eu como tu, solto, livre, independente, fugaz, vivo e esvoaçante, não tendo um ponto fixo, percorrendo o mundo em horas, percorrendo os poros de corpos em segundos, percorrendo as memórias dando-lhes sensações extasiantes que só tu conheces, não estás presa...
Estranhas sensações estas que me invadem, me penetram lá no âmago, se apoderam de mim, e fazem do meu corpo o campo de batalha, o cais de tantos navios, o livro de tantas aventuras, o lago de tantas sombras e o espelho de tantos sorrisos.
Eu sou teu, tu és minha, seremos então melodias que permanecerão nas imagens utópicas que em mim fazes brotar...
Sinto-me demasiado leve neste momento... obrigado música...
You and I know, you and I tried, you and I run, leaving those story’s far behind, and it feel so good, and it’s so worm, having those eyes, playing with me, myself and I...

Quinta-feira, Julho 07, 2005

Sem título...

Image Hosted by ImageShack.us

Para mim os pássaros não voam... planam.
Para mim os cavalos não correm, dançam.
Para mim as palavras não se dizem, sentem-se.
Para mim os corpos não gesticulam, falam...
Dizem que as nuvens não suportam o meu peso, eu faço delas corcel e prossigo por céus onde me perco, por brisas que me levitam...
Eu crio um mundo, eu teço-o com imaginação, eu sei que gosto dele, ele é meu, lá eu sou eu, sempre em cada pronúncia, gesto ou palavra.
Lá ninguém controla, ninguém reprime, lá sou criança quando quero ser, lá sento-me no chão vasculhando retalhos antigos, montando legos, brincando às escondidas...
Para mim a água não é transparente, nem o amor é a interpretação que uns interpretam do que outros disseram, lá o amor e água são como eu os imagino, uma palete de cores, um mar de possessões, uma árvore de sensações...
Lá percorro certos caminhos intransítaveis aqui, somente porque as brisas que me sussurram não se dissipam e eu continuo...
Continuar lá não é obrigação, é motivação...
Parar lá não entrave, é cobardia...
Como eu gosto de percorrer esses meus trilhos, como eu quero, posso e faço por isso!
Diz-se por aí que este mundo não pertence aos sonhadores, eu tenho um meu, e só partilho este com vocês... os outros não iriam perceber, porque lá consigo sonhar...
A sério, consigo mesmo, eu resmungo com os quatro ventos porque não me trazem andorinhas, eu grito com a terra porque não me traz relva, onde me possa deitar, e no toque encontrar o fio condutor da magia que é o meu mundo.
Queria-vos levar até lá, para verem, para observarem, lá onde eu realmente existo, onde não só mais uma pessoa a andar percorrendo o chão estigmatizado com os olhares que não se trocam numa rua movimentada.
Lá a distância não se julga, nem sequer existe, lá a paz encontra-se na proximidade de pessoas que se compreendem, e sabem porque vivem.
Lá as promessas tomam rosto, as emoções fazem inveja à imponência de vulcões, e o amor é nada mais que um abraço que abraça o mundo de cada um e o faz sorrir...
E lá eu percorro inimagináveis maneiras de se ter forma, eu modifico-me numa complexidade de anatomias, eu transformo-me num conjunto indefinível de melodias... eu lá sinto-me bem...
No meu mundo onde sou feliz! Porque lá a realidade é minha e eu torno-me num constante devir de seres, numa inconstância de presenças, numa multiplicidade de sentires...

Terça-feira, Julho 05, 2005

Estar

As noites não são iguais, tomara fossem.
Às vezes nem o silêncio da noite é o mesmo, é mais ensurcedor.
Às vezes nem o escuro da noite é o mesmo, é mais profundo.
E eu sinto-me encolher nesses breves momentos em que abraço o vazio que reside em volta de mim, e não sei para onde me virar, nem sei por onde começar a rogar, se pela presença de alguém, se pelo meu desaparecimento daqui.
Sinto-me pequenino, como se me tivesse depositado a mim mesmo numa caixinha guardada algures num báu velho e poeirento, onde nem o tempo faz favor de parar e dizer: Existes!.
As noites não são iguais, tomara fossem... tomam outro rosto, outra face, e em cada fechar de olhos, e em cada momento que me deparo com o mundo que cá dentro trepita... as viagens começam.
Pelo interior de mim, pelo exterior de mim.
Por esse recônditos lugares onde até eu não me vejo, onde por vezes sou sombra e noutras imagem.
Lá onde as telas em branco de mim não são pintadas pelos meus passos, nem pelos meus gestos, talvez pelos teus diferentes olhares, não sei.
E sempre que me abraço a mim mesmo, desfaço-me em cicatrizes de mim, em mil vivências, em mil passagens, em mil momentos distintos, onde somente estou, sou e faço...
Eu não sei, eu queria mesmo poder saber, será que me podias dizer que irias estar aqui?
Quando tudo se abate em mim, quando o mundo ganha proporções épicas, onde somente as personagens mitológicas parecem capazes de aguentar e continuar...
Partilhando ou derrubando comigo essa dimensão de mim, onde me julgo demasiado infímo...
Escavando comigo em busca duma brecha, dum qualquer pedaço de nada que abre alas a tudo...
Dirias que sim? Que estarias?...
Porque eu quero-te incondicionalmente!
Não quero noites conhecidas, demasiado óbvias e simples. Não quero abraços solitários, nem olhares perdidos no vago horizonte que a solidão do meu quarto me proporciona...
Quero um foco de luz, quero uma fonte de cores, quero brisas que despertam melodias em palavras desconhecidas, em notas divinas.
A noite... a misteriosa reveladora de segredos, de realidades das quais me quero abstrair, às quais sei porque pertenço, mas não compreendo...
Sonhos... pelo menos, pelo menos isso, talvez encontre... enquanto persigo odores que me digam que sim, que estarás aqui, sem te pedir, sem te rogar, estar... perdidos ou encontrados em nós... somente estar...

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Magnífico....

Image Hosted by ImageShack.us
Foto de Marta Gonçalves

Depois dum fim de semana de clausura a fazer o meu projecto sobre práticas funerárias no Minho cheguei a Coimbra e andei a perder-me na internet... e percorri este site fabuloso: www.olhares.com, e deparei-me com isto!!
Esta foto 'tá simplestemente genial... chama-se Inveja... é da autoria de Marta Gonçalves, sim eu não quero que pensem que é minha... e nem me passa pela cabeça ir de encontro aos direitos de autor...
O nome tem tudo a ver na minha perspectiva, demasiado carnal, crua, verdadeira e humana... e além disso revela como uma foto esconde e transmite histórias....
Aconselho a qualquer um que admire fotografia de nu artístico a preto e branco e não só a passar lá...

Sexta-feira, Julho 01, 2005

Das imagens e das palavras...

Image Hosted by ImageShack.us

Sentado, em frente à lareira, o escuro envolve-me, a luz desvanece-se eu aqui permaneço, percorro fotografias, rostos, situações, intimidades, cumplicidades, sonhos e medos. A tua luz, oh chamas, iluminam o pequeno mundo e ser que hoje construo, nesta sala, neste espaço. Cruzo as pernas, tento levitar, tento parecer alguém que não sou. Que bonito que foi, que quase utopia críamos, que ponte percorremos e que vida vivemos. Caras a preto e branco, odores a magnólia, espaços pintados num qualquer tom de magnificiência. E se assim não tivesse sucedido, e se assim não tivesse acontecido, e se naquele dia, se naquela manhã não nos tivessemos cruzado, e se não vissemos nos nossos sonhos um qualquer elo de ligação, oh meu amor. E se agora eu não estivesse aqui a percorrer fotografias, papéis. Se nos retalhos que partilhámos não tivessemos escrito algo gravado a fogo, a dor, a paixão.
No mundo onde te encontrei, encontrei-me também a mim, nas estrelas e constelações que percorremos formamos um uno de significados, um emaranhado de compreensões, um tapete em forma de sorriso. Fotografias...
Daria algo mais por ti, se no final de contas conseguisses ver como nos meus olhos o universo se abateu quando tu e eu fomos nós. Virias aqui agora? Virias aqui agora ao som desta música observar comigo estas fotografias? Irias lembrar-te desta música? Ouve bem... esta música, lembras deste som de piano? Lembras-te do que sussurrava-mos um ao outro na melodia destes sons? Oh transcendentalidade... oh estigma da minha utopia...
Nas fotografias... residirei eu, num qualquer espaço congelado esperarei, em pensamentos deambulantes numa mente demasiado cansada, na espera, na esperança que um dia encontres um lugar onde a porta entre o mundo da Vida e da Morte abra uma brecha, à espera que um dia encontres o caminho de volta, oh tu..... que te fostes...

Este é um texto antigo. Mas quis postá-lo de novo porque hoje me senti invadido por estas frases:
Ela não diz, ela revela,
Ela não abraça, protege...
Ela não sorri, ela ilumina,
Ela não olha, mostra....
E sabe como beijar o meu mundo, não deixando a magia morrer...

(E ao som desta música estas palavras... bem... fazem-me voar....)