Monday, July 18, 2005

Não perguntem por mim

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Não perguntem por mim. Eu estou aqui!
Porque eu vivo, eu respiro e acredito
Eu não sou de ninguém. Eu sou de ti…
Sou eu que ainda sinto. E que palpito
De saudade na pureza do meu grito

Não perguntem por mim. Eu estou aqui!
Porque sei ler o tempo. E o tempo é nada
Eu não sou de ninguém. Eu sou de ti…
Sou eu que traço a minha caminhada
Onde sigo a tua sombra projectada

Não perguntem por mim. Eu estou aqui!
Porque, bem ou mal, eu me quero assim
Eu não sou de ninguém. Eu sou de ti…
Se escrevo um poema, ele não tem fim
Enquanto houver voz dentro de mim

Não me perguntem se volto. Eu já voltei!
Não duvido da certeza dos meus passos
Porque todos os passos que já dei
Me conduzem para dentro dos teus braços

Não me perguntem se volto. Eu já voltei!




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Friday, July 15, 2005

Impulsos

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Que este poema
Te cinzele o peito
Contorne a tua alma
Desenhe o teu perfil
De branca nudez
Para que minhas mãos
Te lapidem
Num afago táctil
Escrevendo no teu corpo
Palavras sem rima
Luzindo sob os meus dedos
Ansiosos
Colocando uma letra
Em cada poro
E vestir-te de amor
Como se quisesse habitar-te
Silencioso
Sentindo o que só agora
Escrevendo eu sei



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Tuesday, July 12, 2005

Um conto etíope

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Uma história etíope mostra-nos um velho que, na altura de morrer, chama os seus três filhos e lhes diz:
- Não posso dividir em três o que possuo. Isso deixaria muito poucos bens a cada um de vós. Decidi dar tudo o que tenho em herança ao que se mostrar mais hábil e inteligente. Pousei em cima da mesa uma moeda de igual valor para cada um de vós. Pegai nelas. Aquele que, com a sua moeda, comprar com que encher o telheiro, terá tudo.

Partiram. O primeiro filho comprou palha, mas só conseguiu encher o telheiro até meia altura. O segundo filho comprou sacos de penas, mas também não conseguiu encher o telheiro.
O terceiro filho – que ficou com a herança – comprou apenas um pequeno objecto. Era uma vela. Aguardou a noite, acendeu a vela e encheu o telheiro de luz.


De Jean-Claude Carrière ( Tertúlia de Mentirosos )



A simplicidade e beleza deste pequeno conto fascinou-me. Não resisti em partilhá-lo convosco.


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Saturday, July 09, 2005

Renascer

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Vejo no teu rosto outra beleza
O tempo apurou os teus sentidos
Apagou-se a sombra da tristeza
Acordaram desejos esquecidos

Tens a primavera na lembrança
O calor no corpo adormecido
No teu peito renasceu a esperança
A seiva acordou, nada está perdido

Sentes em ti um desejo adolescente
No olhar doce, meigo e impaciente
Há outro sol, outro sonho, outra alegria

Para voltar a amar e ser contente
Um sorriso renovado em cada dia
Um amor que no teu peito se anuncia



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Monday, July 04, 2005

Rasgar a noite

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Lá fora, tudo é suave como o fumo do cigarro que entorpece. A noite é serena. Mas não trás a serenidade. Essa, anda perdida, longe de tudo, muito longe de mim, quase tão longe como tu!... Comigo, só a tua sombra, como uma breve nota numa melodia, sem imagem mas brilhante. Qualquer coisa que se transforma num doce suspiro. Como o barulho das folhas tocadas pelo vento ou o desfazer suave das ondas e vens a mim, como um murmúrio só escutado pela alma.

Como as espirais deste fumo azulado que se dissipa sem vento…





Esta noite procurei muitas coisas
Rastejei por muitos cantos
Sentei-me sobre pétalas de rosas
Desalinhei notas de música
Roubei a cor azul ao mundo
Espreitei janelas alheias
Embriaguei-me em corpos sensuais
Afundei-me em seus suspiros
Subi e desci ruas fictícias
Naveguei por rios sem margens
Perdi-me entre sombras disformes
Enganei os minutos do tempo
Inverti o sentido das coisas
Li versos envenenados
Deitei-me sobre o meu próprio desejo

Só não consegui rasgar a noite
Para encontrar nos teus olhos
A luz de uma manhã prometida


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Saturday, July 02, 2005

O Tempo

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Não sei o que é o tempo ou que vantagem
Pode haver em suas exactas dimensões
Já que todo o tempo são apenas ilusões
Que duram só enquanto dura esta viagem

O tempo do relógio é uma miragem
Divide não o tempo, mas as sensações
As horas que indica são meras convenções
Que não passam além de uma chantagem

O tempo verdadeiro é aquele que eu vivo
Não determinado por nenhum engenho
Do meu tempo só eu disponho, só eu comando

Apenas o final do meu tempo eu não consigo
Desvendar em todo o tempo que ainda tenho
Alguém determinará o dia, a hora… quando!



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Wednesday, June 29, 2005

Folhas de Outono

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Adormeço
No fundo de um poema
Ainda por fazer
Convoco a memória
E os sentidos
Na procura de tudo
Que se esconde na noite
Mas o silêncio perdura
As palavras fogem de mim
Como folhas de Outono
E desaparecem
Na sombra
De forma indolor

Mas tu já sabes a cor
Do meu silêncio,
As palavras
Que não escrevo,
Aquelas que não digo,
E que clandestinas
Vão pousar
Suavemente
Nos teus lábios...


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