7/19/2005

O meu Hayek é maior que o teu

Alguns bloguistas direitistas, nomeadamente no Blasfémias, consideram estranho que eu participe num evento chamado «Noites Liberais» (numa sessão marcada para Setembro e dedicada à cultura). Insinuam sisuda ou ironicamente que eu não sou um liberal como eles são. Mas é claro que eu não sou um liberal. Sou em muitas matérias um aliado dos liberais, simpatizo com algumas posições liberais, mas nunca me considerei liberal. Escrevi isso tantas e tantas e tantas vezes em três anos de blogues que não vejo onde exista dúvida ou polémica.

Não me foi comunicado pela organização das «Noites Liberais» nenhum caderno de encargos: perguntaram se me interessava discutir determinado tema com um convidado que tenha ideias diferentes (no caso António Mega Ferreira). Só isso. Se me convidassem para representar os liberais, eu tinha recusado o convite, porque não sou liberal (e em matéria cultural ainda menos). E se me convidassem para representar os conservadores, também tinha dito que não, porque mesmo sendo conservador obviamente não represento ninguém. A mania de quererem que a gente represente uma posição, de preferência de modo ortodoxo e infalível.

Outra coisa será dizerem que o «liberal» das «Noites Liberais» não é realmente liberal. É uma discussão interessante. Acho que o «liberal» das «Noites Liberais» pretende apenas marcar uma cisão com a direita iliberal, atitude na qual me reconheço inteiramente. Admito que existam poucos liberais nas «Noites Liberais». Mas lembro que alguns dos nossos bloguistas ditos liberais - nem é o caso dos Blasfemos - têm o costume de louvar constantemente as opiniões ultramontanas em matéria de costumes.

Eu não tenho nada contra gente com contradições. Mas quem zela pela pureza das espécies deve ter cuidado com as suas próprias misturadas. [P.M.]

7/18/2005

Magic word

Não «Rosebud» mas «Innisfree». [P.M.]

Quando os animais falavam

Quoth the raven, «Nevermore». [P.M.]

O futuro da literatura (Charlie Brown speaks out)



Entre o que os adultos disseram, houve uma coisa que me chamou a atenção:

«Whuón fuon zong?»
«Nhenhe uezozi».
«Fenhizong fonfon, fonfon fenhizong?»
«Uófuónhuó».
«Fonfon».

[P.M.]

Situação limite

Um conhecido sacerdote declarou que só devemos usar o preservativo em situações limite. Concordo. Eu só uso o preservativo em situações muito limite. Que é como quem diz: quando tenho sexo. [P.M.]

7/17/2005

Top of the pops

Estive esta semana no programa de Nuno Galopim na Radar (passou ontem e repete logo às 22). Não recomendo que o ouçam para me ouvirem a mim, que só disse patacoadas. Mas o Nuno pediu-me para escolher cinco canções: 2 dos meus álbuns estrangeiros preferidos, 1 do meu álbum português preferido e 2 de álbuns estrangeiros recentes. São essas canções que justificam a sugestão: «Avalanche» (Leonard Cohen), «Unhappy Birthday» (The Smiths), «Barcelona» (Mão Morta), «Blood Embrace» (Bonnie Prince Billie/ Matt Sweeney) e «Modern Way» (Kaiser Chiefs). P.M.

7/13/2005

Nenhum leilão da Christie's

Tocar

-Did he touch you?
-No.
-Did you touch him?
-No.
-Did anybody touch anybody?
-Well…yes.

(sex, lies and videotape, Steven Soderbergh, 1989)

Minúsculas

Nunca percebi porque é que sex, lies and videotape não leva maiúsculas. [P.M.]

Conhecer uma pessoa

«Conheci uma pessoa». Eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros. [P.M.]

Jesus wants me for a sunbeam (4)

Não há muita gente tão obcecada com a Bíblia como Nick Cave. Sobretudo com o Antigo Testamento,violento e vingativo (mas também há um excelente texto de Cave sobre o Evangelho de São Marcos). É uma obsessão ambivalente, e com momentos distintos, do misticismo ao sarcasmo. Escolho, entre tantas canções com menções religiosas, esta perspectiva sobre o estado do mundo.

4. Nick Cave,«God is in the House», No More Shall We Part (2001)

We've laid the cables and the wires
We've split the wood and stoked
the fires
We've lit our town so there is n
Place for crime to hide

Our little church is painted white
And in the safety of the night
We all go quiet as a mouse
For the word is out
God is in the house
God is in the house
God is in the house
No cause for worry now
God is in the house

Moral sneaks in the White House
Computer geeks in the school house
Drug freaks in the crack house
We don't have that stuff here
We have a tiny little Force
But we need them of course
For the kittens in the trees
And at night we are on our knees
As quiet as a mouse
For God is in the house
God is in the house
God is in the house
And no one's left in doubt
God is in the house

Homos roaming the streets in packs
Queer bashers with tyre-jacks
Lesbian counter-attacks
That stuff is for the big cities
Our town is very pretty
We have a pretty little square
We have a woman for a mayor
Our policy is firm but fair
Now that God is in the house
God is in the house
God is in the house
Any day now He'll come out
God is in the house

Well-meaning little therapists
Goose-stepping twelve-stepping Tetotalitarianists
The tipsy, the reeling and the drop down pissed
We got no time for that stuff here
Zero crime and no fear
We've bred all our kittens white
So you can see them in the night
And at night we're on our knees
As quiet as a mouse
Since the word got out
From the North down to the South
For no-one's left in doubt
There's no fear about
If we all hold hands and very quietly shout
Hallelujah
God is in the house
God is in the house
Oh I wish He would come out
God is in the house


[P.M.]

Teologia moral

1 Coríntios 6, 16 é um bocadinho exagerado. [P.M.]

Quandoque bonus dormitat Homerus

Nunca percebi o alcance desta expressão elevada: Quandoque bonus dormitat Homerus («por vezes mesmo o bom Homero dormitava»). Que diabo, «dormitar» não é assim um lapso tão grave, sobretudo para uma pessoa que nem existiu (como Homero).

Ficava muito mais convencido com um (perdoem o macarrão) Quandoque sapientissimus putanitat Emmanuel («por vezes mesmo o sapientíssimo Kant ia às putas»). Isto sim anima um gajo em momentos de pecado. [P.M.]

Contra mim mesmo

Susan Sontag tem um ensaio sobre Cioran, o mais genial pessimista do século passado, com o título «Thinking Against Oneself». Sempre quis ser digno desse mote. Que me digam que tenho conseguido, eis um imenso elogio. [P.M.]

Companheiro amigo camarada palhaço

Um bloguista sem otites ouviu em local público um conhecido jornalista português (Marques António) desancar este vosso escriba. O conhecido jornalista português (Mendes Artur) dizia mais ou menos isto: «esse indivíduo que tem um enorme rancor contra si mesmo». É genial. Uma mui acertada definição, equivocada em ataque pessoal. Quero agradecer o perspicaz epíteto ao conhecido jornalista português (Novais João). Da próxima vez que nos virmos pago uma rodada de Famous Grouse. [P.M.]

7/12/2005

Arte de discutir na blogosfera

Num dos melhores blogues do mundo e arredores.
[comentário enquadrável em «sociedade de admiração mútua», segundo o ponto 11] [P.M.]

7/11/2005

Espírito Santo



Ao procurar no Google a foto que ilustra o post anterior, descobri esta, que não conhecia. Como vemos, Suzanne foi ungida pelo Espírito Santo. Assim também eu. [P.M.]

Linguagem

Se gosto muitíssimo de Suzanne Vega (n. 11.7.1959) é em parte pelo seu espantoso trabalho com a linguagem. Não se trata apenas de uma letrista competente: cada texto de Vega é construído com absoluta minúcia, como se fosse uma pirâmide de fósforos (a imagem é dela). Nada está a mais nem a menos, como se o poema tivesse sido lido trezentas vezes em voz alta antes de passar ao papel.

Ao mesmo tempo, Vega sabe (como pouca gente no universo pop) que a linguagem é uma coisa que nos escapa, que a linguagem não é uma evidência mas quando muito uma aposta (e uma aposta geralmente sem esperança).




É isso que diz em «Language», de Solitude Standing (1987):

I won't use words again
They don't mean what I meant
They don't say what I said
They're just the crust of the meaning
With realms underneath
Never touched
Never stirred
Never even moved through.

[P.M.]

De um mail

Ouve lá, ó palerma, então eu só vou ao teu blog para ver as gajas (não tenho cu para a conversa) e tu vais e espetas dois barbudos em menos de uma semana? Ora fosgasse. [P.M.]

Referee



«Marina quê? Politólogos burgueses, é o que é». [P.M.]

Desmancha-prazeres

O que sabemos do comportamento eleitoral dos portugueses é que, ao contrário do que poderíamos pensar, as características socio-económicas não são bons indicadores: nem o rendimento, nem a educação são variáveis que expliquem o voto. Há pessoas com fracos rendimentos a votar à direita, pessoas com muitos rendimentos a votar à esquerda, pessoas com escassa instrução a votar tanto à esquerda como à direita. Portanto, os grupos sociais que se dividem entre esquerda e direita são relativamente semelhantes.

Marina Costa Lobo, politóloga, no DN de hoje. [P.M.]

Srebrenica

Srebrenica, o maior massacre em território europeu desde 1945, foi há dez anos. Deixou talvez 8000 mortos (muitos ainda por identificar). Sabemos que não foi um acidente. Não foram inopinadas vítimas civis de um ataque militar. Srebrenica foi uma «operação de limpeza», deliberada e planeada. E quase todas as discussões políticas que importam passam por Srebrenica: não apenas a NATO, as Nações Unidas, a União Europeia, mas também o «choque de civilizações», o nacionalismo, a natureza da espécie humana. [P.M.]

Raiz quadrada de menos um

Na introdução (muito emproada e indigesta) a New Poems (1938), e.e. cummings tem este arrancanço de nietzschianismo estético armado ao pingarelho que acho magnífico: The poems to come are for you and for me and are not for mostpeople - it's no use trying to pretend that mostpeople and ourselves are alike. Mostpeople have less in common with ourselves than the squarerootofminusone. [P.M.]

Imagem

Vivemos na época da imagem? Com certeza. Mas não apenas da imagem impressa, televisiva ou cibernética. Vivemos também de acordo com a imagem que os outros têm de nós. Melhor: com a imagem que os outros fazem de nós. Foi sempre assim? Claro. Mas nunca como hoje as pessoas se presumiram ingenuamente «sem preconceitos». Quando os preconceitos continuam vivíssimos. [P.M.]

Abominável Homem das Neves

À segunda frase saca do mace. Diz que me reconheceu pelas pegadas. [P.M.]

7/10/2005

Delete



Connections are ‘virtual relations’. Unlike old-fashioned relationships (not to mention ‘comited’ relationships, let alone long-term commitments), they seem to be made to the measure of a liquid modern life setting where ‘romantic possibilities’ (and not only ‘romantic’ ones) are supposed and hoped to come and go with even greater speed and in never thinning crowds, stampeding each other off the stage and out-shouting each other with promises ‘to be more satisfying and fulfilling’. Unlike ‘real relationships’, ‘virtual relationships’ are easy to enter and to exit. They look smart and clean, feel easy to use and user-friendly, when compared with the heavy, slow-moving, inert messy ‘real stuff’. A twenty-eight year-old man from Bath, interviewed in connection with the rapidly growing popularity of computer dating at the expense of single bars and lonely-heart columns, pointed to one decisive advantage of electronic relation: ‘you can always press «delete»’


Zygmunt Bauman, «Introdução» a Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds, Cambridge, Polity Press, 2003 [P.M.]

Horácio

Nos sites de engate, a frase que as meninas mais citam é o clássico carpe diem (que conhecem via Clube dos Poetas Mortos).

Eu cito Rubem Fonseca: «Carpe diem? Horácio que se foda». [P.M.]

Dating: a reader's guide

Dan Brown, O Código Da Vinci
Isabel Allende, A Casa dos Espíritos
Luis Sepulveda, O Velho que Lia Romances de Amor
Margarida Rebelo Pinto, Sei Lá
Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon
Miguel Sousa Tavares, Equador
Nicholas Sparks, As Palavras que Nunca te Direi
Patrick Suskind, O Perfume
Paulo Coelho, O Alquimista
Suzana Tamaro, Vai Onde te Leva o Coração

[P.M.]

Hi5

«24 anos. Morena. Olhos verdes. Gosto de sair à noite. De ouvir música. De ir à praia. De estar com os amigos. Curto Thomas Bernhard». [P.M.]

Guardar

CHICO: What you need is a good bodyguard.

GROUCHO: What I need is a good body. The one I've got isn't worth guarding.

(A Night in Casablanca, 1946). [P.M.]

7/9/2005

Onde está a tua vitória

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
(1 Coríntios 15:55)



Estive sem net nos últimos dois dias e por isso não escrevi sobre o ataque a Londres. Mas soube que muitos blogues responderam a esta tragédia com imagens e poemas. E pensei em Don DeLillo.

Quando li pela primeira vez DeLillo entendi o seu tom de paranóia (tributário de Pynchon) mas não percebi a sua obsessão com o terrorismo (por exemplo em Mao II, 1991). O terrorismo não me parecia assim tão central na nossa existência.

Infelizmente, o infame 11 de Setembro mostrou como o terrorismo é uma ameaça permanente, demencial e imponderável.

Mas o terrorismo é também um desafio à nossa capacidade de resistência. Ao ver nos blogues os poemas e as imagens (do blitz de 1940, nomeadamente), lembrei-me do ensaio «In the Ruins of the Future», que DeLillo publicou na Harper's (e depois no Guardian) em Dezembro de 2001.

É um texto extensíssimo que vale a pena ler na íntegra. De repente, aquilo que parecia paranóia ou apenas literatura estava em todos os canais de TV.

DeLillo explica que o terror é uma narrativa, uma narrativa apocalíptica a que não escapamos: Terror's response is a narrative that has been developing over years, only now becoming inescapable. It is our lives and minds that are occupied now. This catastrophic event changes the way we think and act, moment to moment, week to week, for unknown weeks and months to come, and steely years. Our world, parts of our world, have crumbled into theirs, which means we are living in a place of danger and rage. (...) We can tell ourselves that whatever we've done to inspire bitterness, distrust and rancour, it was not so damnable as to bring this day down on our heads. But there is no logic in apocalypse.

Contra essa narrativa, possuímos apenas uma contra-narrativa: a nossa memória dos mortos mas também a memória dos sobreviventes: There are 100,000 stories crisscrossing New York, Washington, and the world. Where we were, who we know, what we've seen or heard. There are the doctors' appointments that saved lives, the cellphones that were used to report the hijackings. Stories generating others and people running north out of the rumbling smoke and ash. Men running in suits and ties, women who'd lost their shoes, cops running from the skydive of all that towering steel. People running for their lives are part of the story that is left to us. There are stories of heroism and encounters with dread. There are stories that carry around their edges the luminous ring of coincidence, fate, or premonition. They take us beyond the hard numbers of dead and missing and give us a glimpse of elevated being. For 100 who are arbitrarily dead, we need to find one person saved by a flash of forewarning. There are configurations that chill and awe us both.

Como no poema de Holderlin, o que nos destrói é também o que nos salva. E por isso não devemos esquecer nada: The cellphones, the lost shoes, the handkerchiefs mashed in the faces of running men and women. The box cutters and credit cards. The paper that came streaming out of the towers and drifted across the river to Brooklyn backyards, status reports, résumés, insurance forms. Sheets of paper driven into concrete, according to witnesses. Paper slicing into truck tyres, fixed there. These are among the smaller objects and more marginal stories in the sifted ruins of the day. We need them, even the common tools of the terrorists, to set against the massive spectacle that continues to seem unmanageable, too powerful a thing to set into our frame of practised response.

O combate ao terrorismo exige decisões políticas decisivas e decididas.

Mas nós, cidadãos comuns, temos isto ao nosso alcance: poemas e imagens e narrativas. Que nos assegurem uma vez mais que a morte não prevalece. [P.M.]

7/6/2005

Agradecer

Houve um gozo generalizado quando o gabinete do actual presidente da Câmara de Lisboa recebeu um livro de Machado de Assis (1839-1908) e agradeceu ao autor.



Mas espreitem a antologia de contos de Machado que saiu na Cotovia (selecção e posfácio de Abel Barros Baptista). É óbvio que o gabinete do presidente da Câmara não se enganou. Machado está vivíssimo. Acho que devemos agradecer. [P.M.]

Notas parisienses (adenda)

Há um mês, assisti nos Campos Elíseos a uma grande manifestação cívica que reclamava para Paris os Jogos Olímpicos 2012.

Hoje anunciaram que os Jogos Olímpicos 2012 se realizam em Londres. [P.M.]

Contracepção oral

A fast word about oral contraception. I asked a girl to go to bed
with me. She said «No».
(Woody Allen) [P.M.]

Demolotaria

Conheço dois argumentos pertinentes contra a democracia. Um é teórico e está nos textos de Carl Schmitt. Outro é prático e consiste na existência do doutor Alberto João. [P.M.]

Entendimento

Sempre que me censuram por não entenderem determinado texto meu, penso num episódio que se passou com François Mauriac.

Numa crítica (negativa) a uma peça de Mauriac, um crítico escreveu: «Eu gosto de peças que se entendam». Ao que Mauriac respondeu: «E eu gosto de críticos que entendam as peças». [P.M.]

Um académico selvagem

Love and Death in the American Novel (1960) vem sempre citado nos manuais de literatura americana como um dos poucos estudos essenciais. Encomendei.

Leslie Fiedler (1917-2003) escolheu um tema desmesurado. Não se resguardou. Mas não é apenas nisso que revela grande topete. Os romancistas americanos (e os maiores: Fitzgerald, Hemingway, Faulkner) são vergastados e gozados a cada página. Uma tese central é que esses (e outros) romancistas eram sexualmente imaturos, homens incapazes de escrever seriamente sobre as mulheres, nalguns casos gays recalcados.

Do que conheço, nem sempre estou de acordo com as ideias expostas (e com os exemplos citados), mas é muito curioso ver um homem sozinho a dar cabo da moderna literatura americana, armado apenas com umas fichas de leitura e com vocabulário freudiano.

Admito porém que nem toda a gente ache graça. Saul Bellow, por exemplo, disse: «Leslie Fiedler is the worst fucking thing that ever happened to American literature». [P.M.]

Vozes

Escrevo um texto e recebo diversos mails ou comentários ou ecos. Uns dizem que o texto é óptimo, outros que é pavoroso, outros que é mediano, outros que é fraco, outros que é divertido, outros que é chato, outros que é original, outros que é um tédio, outros que é pedante, outros que é inteligente, outros que é estúpido, outros que é estimulante, outros que me dedique à pesca. O mesmo texto. É uma experiência que recomendo vivamente. [P.M.]

Sade

«Gostas de Sade?»
«Só conheço o Smooth Operator». [P.M.]

7/5/2005

De teus fermosos olhos nunca enxuto



(Inês de Castro, circa 1247, autor desconhecido, cortesia Centro de Artes Visuais de Coimbra) [P.M.]

Ano inesino

Com «Pedro e Inês», o mesmo logro, ou quase. Aí, é certo, a historicidade dos intervenientes na tragédia é comprovável, desde logo no testemunho histórico e literário de Fernão Lopes, que empresta ao futuro mito essa dupla legitimidade. Mas mito de quê? Se «Mariana» representa (prima facie) a entrega total, o dilaceramento da ruptura e uma estranha forma de vida face à memória do amor, «Pedro e Inês» (as aspas referem-se às figuras literárias, não às pessoas históricas) encarnam um duplo desafio: o amor contra as razões «mesquinhas» (a política, por exemplo) e o «amor para além da morte». Podemos começar pelas razões políticas. Os historiadores dizem-nos que a castelhana Inês de Castro foi assassinada (em 1355) porque os seus amores ilícitos com D. Pedro complicavam a nossa convivência com Castela, por essa altura atolada em conspirações e possíveis imbróglios dinásticos. Solução do problema: eliminar D. Pedro da equação, eliminando os seus laços a Castela. Em resumo: Inês foi vítima da famosa Razão de Estado. Isso mesmo fica bastante claro na peça de António Ferreira, centrada menos no par amoroso de que no pathos criado pelo confronto entre o Rei, que cumpre, implacável, desígnios «patrióticos», e a donzela que pede piedade não tanto por causa do amor mas sobretudo num registo de súplica filial. Também a versão teatral de António Patrício – Pedro, o Cru – não anda muito longe deste esquema, embora com um lirismo mais cruel e perturbado, o que faz todo o sentido, tendo em conta o evidente freudismo do autor.

Inês, então, morta por razões políticas. Como, aliás, sucede (indirectamente) com o Romeu e Julieta de Shakespeare. De uma forma ou de outra, o amor é sempre socializado, e por vezes torna-se vítima de considerações que nada devem ao coração mas à mais impediosa razão prática (sobretudo quando os amantes pertencem a classes dirigentes, em épocas em que casamentos eram questões eminentemente políticas). E Pedro? Ao infante cabe não o pathos (que podemos imaginar com algum fundo de realismo) mas o exagero «isabelino» que, de modo estranho, usa a vingança como alavanca de um mito sentimental. É certo que aqui temos um mito dentro do mito: quão «cru» foi Pedro depois de saber da morte de Inês é matéria de conjectura. Entre matar os matadores e o lendário ritual sádico com os seus corações vai uma distância entre o furor destrutivo do apaixonado e a demência de um desequilibrado. E depois, é claro, o mito dos mitos, «a Rainha morta» que Montherlant imortalizou para outros públicos. Inês desenterrada, entronizada, a mão de cadáver estendida aos horrorizados cortesãos. Em suma: um mito amoroso transformado numa história sanguinolenta e tétrica, da qual, aliás, o nosso «carácter nacional» supostamente seria incapaz. Um amor contrariado? Certamente, como convém a amores literários. Um amor «para além da morte»? Se aceitarmos os contornos lendários que assumiu, um amor essencialmente mórbido, ou com uma faceta mórbica que canibalizou todo e qualquer vestígio do amor.

(excerto de «Amor e outros equívocos», texto publicado em 2004 no jornal Duas Colunas, do Teatro Nacional S. João, a propósito do espectáculo A Castr0). [P.M.]

Disclaimer

Sempre que leio alguns mails penso na conveniência em escrever no cabeçalho do FdM o seguinte aviso As pessoas e os eventos mencionados neste blogue não correspondem necessariamente a pessoas e eventos concretos, qualquer semelhança é mera coincidência etc etc. [P.M.]

Damn good

Jesus wants me for a sunbeam (3)

É uma canção menos conhecida dos Cure. Robert Smith sempre afirmou o seu veemente ateísmo, e parece que o «blood of Christ» que aqui se menciona é uma zurrapa alcoólica que Smith afirma ter bebido em Portugal (e que não faço ideia o que seja). Mas a letra não é de quem a escreve e esse «estou paralisado pelo sangue de Cristo» parece-me uma imagem fortíssima.

3. The Cure, «The Blood», The Head on the Door (1985)

Tell me who doesn't love
What can never come back
You can never forget how it used to feel
The illusion is deep
Its as deep as the night
I can tell by your tears you remember it all

I am paralysed by the blood of Christ
Though it clouds my eyes
I can never stop

How it feels to be dry
Walking bare in the sun
Every mirage I see is a mirage of you
As I cool in the twilight
Taste the salt on my skin
I recall all the tears
All the broken words

I am paralysed by the blood of Christ
Though it clouds my eyes
I can never stop

When the sunsets glow drifts away from you
You'll no longer know
If any of this was really true at all


[P.M.]

Notas parisienses (12 e fim)

Teremos sempre Paris. [P.M.]

Notas parisienses (11)

Bilhetes, papéis, recordações, detritos. Numa pasta. [P.M.]

Notas parisienses (10)

Cafés enormes, inúmeros, em todas as esquinas, com cadeirinhas de verga, mesas de mármore redondas, grandes vidraças.

Aqui: snacks. [P.M.]

7/4/2005

El bosco

Convivo com a Espanha sem nenhum trauma passadista. Mas confesso que não gosto muito de ler textos em castelhano (excepto quando são autores espanhóis). Isso de transformarem Bosch em «El Bosco» ainda vá: até imagino Mota Amaral no Jardim das Delícias. Mas chamarem a Wuthering Heights «Cumbres Borrascosas», isso já me parece um abuso. [P.M.]

In vino veritas



Já há edição portuguesa deste livro. A editora é a Antígona e o tradutor (do original dinamarquês) José Miranda Justo. [P.M.]

Alarme

Tenho por vezes com Deus a mesma relação que tenho com o despertador. Ouço tocar. Sei que é importante. Não faço nada. [P.M.]

Nemureru bijo

Numa esplanada com uma novela de Kawabata e as adolescentes. Uma tarde monotemática. [P.M.]

Revisionismo

A ideia era boa. Começou bem. Era melhor do que o que estava antes. Houve grandes momentos. Alguns erros podiam ter sido evitados. Alguns erros foram lamentáveis. Mas globalmente fez mais bem que mal. As críticas negativas são redutoras. Como ideia era boa. E a ideia não morreu.

(não sei se está a defender a União Soviética ou o seu namoro) [P.M.]

Gmail

Era tão mas tão solitário que queria aderir ao Gmail mas não tinha quem lhe mandasse um convite. [P.M.]

Desporto

É incorrecto afirmar que eu não pratico desporto. Apagar números da agenda é um desporto. E eu sou medalha de prata na modalidade. [P.M.]

The gloom keeps me in bloom



Bill Calahan, Will Oldham. Só com receita médica. [P.M.]

Intelectual

As pessoas de direita usam «intelectual» como insulto. As pessoas de esquerda usam «intelectual» como elogio. Mas «intelectual» não é um adjectivo. É um substantivo. [P.M.]

Notas parisienses (9)

Efficiency efficiency they say
Get to know the date and tell the time of day
As the crowds begin complaining
How the Beaujolais is raining
Down on darkened meetings on Champs Elysees


John Cale, «Paris 1919», 1973 [P.M.]

Notas parisienses (8)

Saíamos do hotel e entrávamos na Rue Jean Giraudoux. Nada como começar bem o dia. [P.M.]

Vai e vem

O Barnabé acabou. Mantenho o que escrevi noutras ocasiões: 1) Estive sempre em desacordo com o Barnabé. 2) O Barnabé era um excelente blogue. 1 e 2 são incompatíveis? Só para os imbecis.

O Letra Minúscula tem duas semanas. José Mário Silva (agora a solo) escreve textos minimalistas e poéticos. Quem conhece o Zé Mário percebe que este não é só um blogue. O LM é o Zé Mário.

A Praia faz dois anos. Do Ivan Nunes tinha há um ano e meio uma ideia vaguíssima de um Cohn-Bendit magro. Agora é um amigo sem rodeios nem devaneios. E eu nem gosto de praia.

(vários outros blogues celebram dois anos de existência; como certamente me ia esquecer de algum, dou os parabéns (por todos) a um blogue que sigo desde o começo: o Avatares). [P.M.]

Notas parisienses (7)

Se queres ter o teu nome numa rua parisiense, convém que te tornes escritor. Ou general de Napoleão. [P.M.]

Notas parisienses (6)

Desta vez, espreitei os bouquinistes nas margens do Sena. Muito lixo sobre celebridades e sexo, mas também coisas óptimas e mesmo algumas preciosidades. A literatura maldita (de Vichy) tinha naturalmente grande destaque. A certa altura, pareceu-me ver Bagatelles pour un massacre, o célebre panfleto anti-semita de Céline, de 1937. Só conheço extractos do texto em bibliografia secundária sobre o escritor, porque Bagatelles nunca foi reeditado. Sendo indiscutivelmente um texto execrável (as passagens que conheço não deixam dúvidas), sempre é um Celine, e Céline é um dos grandes escritores do seculo passado. Curioso, espreitei. 400 euros custava o volume. Evidentemente, lá ficou. Mas o que se seguiu foi estranho. Quando me viu a olhar para Bagatelles, o vendedor, meio imundo, chegou-se ao pé de mim e baixou a voz. «Quer aquilo, não quer?», perguntou, como se fosse material pornográfico e eu tivesse 15 anos. «É difícil de encontrar, aquilo», explicou. E, baixando ainda mais a voz: «Foi proibido depois de 1945». O homem estava convencidíssimo de que o meu interesse, conjugado com o meu aspecto ariano, consubstanciava um comprador facho de armário. Aquela intimidade camuflada, como se fóssemos compinchas, não me agradou. Claro que o mais provável era que o bouquiniste fosse um vendedor como os outros, interessado apenas no dinheiro. Não sei. Sei que o homem se virou por momentos para atender um cliente e eu zarpei. [P.M.]

Notas parisienses (5)

Ao contrário do que sucedeu noutras visitas, não encontrei nenhum francês antipático. Pessoas com experiência da cidade garantem-me que é porque não encontrei nenhum parisiense. [P.M.]

Cat power

Quieto. Enroscado. Apenas imóvel, mas deixando que os outros acreditem que está à espera. Esse teatro ocioso. [P.M.]

6/30/2005

Os coelhos estão entre nós



Gretchen: Donnie Darko? What kind of name is that anyway? Sounds like a superhero or something.

Donnie: What makes you think I'm not?

[P.M.]

6/28/2005

Caprichos

Dizer que estes espectros e estes espíritos são invisíveis tem tanto valor para mim como se dissésseis o que eles não são em vez de dizerdes o que são; a menos, talvez, que queirais dizer que estes espíritos se tornam ora visíveis, ora invisíves, ao sabor dos seus caprichos, e que a imaginação terá certo embaraço em explicar a coisa, como em outros casos impossíveis.

(Espinosa, Carta a Hugo Boxel (1674), em Sobre Espectros e Espíritos, Teorema) [P.M.]

Gaudium et spes

António Costa Pinto e Rui Ramos são os convidados do É A CULTURA, ESTÚPIDO, que vai ter lugar no próximo dia 29 de Junho (quarta -feira), às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. O debate deste mês é, como sempre, moderado pela jornalista Anabela Mota Ribeiro, e é inteiramente dedicado ao tema «Portugal Contemporâneo», a partir do livro com o mesmo nome, coordenado por António Costa Pinto. Poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: Daniel Oliveira, José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos e Pedro Lomba. Esta é a última sessão do EACE.

A preto e branco (2)

«Atacar João César das Neves é muito previsível e por isso muito desinteressante». Assim começa o seu post «A preto e branco». Ao princípio, quando comecei a escrever, pensei que ia acabar com um longo email, rebatendo-o ponto por ponto. Mas seria inútil, por isso o meu objectivo será bem mais modesto.

«No entanto, eu vos digo que todo aquele que se divorciar de sua esposa, a não ser por causa de fornicação, expõe-se ao adultério, e quem se casar com uma mulher divorciada comete adultério» (Ev. Mateus 5:32).

O acima são palavras de Jesus Cristo. Como devemos entender estas palavras? Está Jesus a «propor um modelo de comportamento»? (curiosa expressão). Um cristão é, literalmente, um seguidor de Cristo - tudo o resto são tretas. Em matéria de moralidade, «o modelo de comportamento» (expressão mesmo engraçada) foi sempre o mesmo. É-o desde Abraão, desde a Lei dada aos Judeus, desde os tempos dos Apóstolos, dos primitivos Cristãos, de todas as Igrejas Cristãs. Se a mundividência de JCN é estranha, é estranha desde há milhares de anos. E qual é a responsabilidade de um cristão perante este «modelo de comportamento»? Em nome de quê, devemos rasgar os ensinamentos sobre «temas privadíssimos como a masturbação e a virgindade» que os Apóstolos nos legaram?

E por favor, não diga que o que está em questão é um problema de liberdades individuais, porque sabe muito bem que não é. Tanto JCN como este que lhe escreve, aceitam perfeitamente que vivemos numa sociedade democrática em que as pessoas têm o direito de fazer o que quiserem no domínio do privado sem pedir licença a quem quer que seja. Sei que somos adversários, que estamos em lados opostos nesta guerra espiritual. Também tenho consciência que estou do lado que está a perder, e certamente continuarei a perder. Sei também que não vou ser eu a persuadi-lo do que quer que seja.

Como confesso leitor de Kierkegaard, sabe certamente que ninguém alguma vez se converteu ao Cristianismo por persuasão intelectual. Mas queria aqui abandonar o lado belicoso e pedir-lhe para responder/comentar (de preferência no seu blog) as minhas perguntas.

Compreenderei perfeitamente se não responder e simplesmente deitar para o lixo este email. Há coisas bem mais interessantes para fazer do que responder a perguntas de estranhos impertinentes. Espero apenas que se não responder não seja com a estafada razão de este tipo de questões religiosas e morais ser pessoal. Quem responde assim, não é por verdadeiramente acreditar que a religião seja uma questão do foro pessoal que não é para ser discutida em público; quem responde assim é porque não tem religião e não tem verdadeiramente nada para discutir.


Gonçalo Rodrigues

Caro Gonçalo: Digo que o cristianismo «propõe um modelo de comportamento». Digo e repito. O Gonçalo acha estranha a expressão. Que parte da expressão? Imagino que seja o «propõe». Mas se não é uma proposta é exactamente o quê? Não certamente uma imposição. A «curiosa» expressão é usadíssima por padres e leigos (nada «progressistas») para indicar que o cristianismo tem determinados valores e que os apresenta a quem os quiser seguir (livremente). Não encontro nisso nenhum aspecto curioso.

Diz o Gonçalo que a moralidade cristã foi sempre a mesma. Desculpe, mas é uma afirmação sem sentido. Em dois mil anos de mundo e nos quatro cantos do mundo a moralidade cristã (e a moralidade sexual em especial) foi imensamente mutável, de acordo com problemas e sensibilidades particulares, com numerosas disputas teológicas, com alterações na sociedades. Há com certeza princípios básicos que não mudam, mas a adaptação ao concreto assume formas tão diversas que supor que temos a mesma exacta moralidade de um cristão africano ou de um cristão renascentista é um delírio. E a ideia de que temos a mesma moral sexual de Abraão, um delírio total.

O que critico nas homilias apocalípticas de JCN é uma inflexibilidade total quanto ao caso concreto, matéria muito diferente da firmeza nos valores. Para César das Neves, os pecadores (que somos todos) não possuem consciência ética, são uns alienados vítimas das modas e dos media, uns bicharocos que nem sabem o que querem. Não encontro nesse argumentário uma sombra sequer de sensibilidade ou compaixão, apenas uma certeza impante de um convertido que se presume sem telhados de vidro e que critica a sua época, por completo, de uma penada, como se ele mesmo tivesse tocado a fímbria do manto de Cristo e nós lhe reconhecessemos alguma autoridade para nos trovejar com o seu diagnóstico tosco.

Quando o Gonçalo escreve: «o cristão é, literalmente, um seguidor de Cristo - tudo o resto são tretas», parece que para si tudo é imediato e evidente no cristianismo. Parece que encontra sempre para todos os problemas uma visão transparente e cristalina (e a única admissível). Coisa sumamente estranha, tendo em conta que os teólogos e mesmo os santos andam a discutir tudo e mais alguma coisa (por vezes com grande violência) há vinte séculos. Nem São Paulo e São Pedro tinham opiniões semelhantes nalguns assuntos. E se dois apóstolos podem discordar, eu também posso com certeza discordar de si (e vice-versa). Sem atestados de apostasia.

Eu não pretendo «rasgar» coisa nenhuma que os Apóstolos nos tenham legado (embora os Evangelhos tenham costas demasiado largas para o que lá está efectivamente escrito). Mas sou contra o discurso moral maniqueísta, contra esse discurso que ignora as circunstâncias concretas, que apouca a liberdade individual, que menospreza a capacidade de cada cristão conduzir a sua vida em consciência e prestando apenas contas disso ao seu Deus, o qual não me consta que seja colunista de jornal.

Mas o argumento que mais me inquieta no seu mail - e que aparece sempre nestas discussões - é a sugestão de que eu não sou cristão, apenas porque discordamos nuns tantos pontos. Os cristãos fiéis a «Abraão» têm essa mania que muito me irrita de dizerem aos outros quem é ou não é cristão.

Um cristão é aquele que está unido a Cristo pela sua fé. E a fé tem uma dimensão puramente transcendente, inexplicável e que, como o Gonçalo recorda, não é passível de nenhum discurso intelectual satisfatório. O mais são preservativos e outras mundanidades que importam muito mas que não importam nada perante a dimensão espiritual.

Considero as matérias de fé mais importantes que as matérias de costumes. O Gonçalo, como outros católicos que me têm excomungado na blogosfera, acha que não. Está no seu direito. Mas espero que me reconheça o direito de ter uma opinião diferente da sua.

Eu continuarei teimosamente a não confundir Abraão com César das Neves. [P.M.]

Adenda: o Gonçalo Rodrigues responde aqui.

O binómio

Há coisa de um mês, um pedaço de um quarteirão aqui meu vizinho entrou em colossal colapso. Apareceram logo os bombeiros e as televisões.

Um jornalista pediu a um bombeiro uma descrição das operações de rescaldo. Este respondeu: «Neste momento vamos avançar com o binómio homem/cão».

Assim mesmo: «O binómio homem/cão». Chiça. [P.M.]

Verano azul



Já comprei, naturalmente. Mas confesso que tenho algum medo de abrir o celofane. [P.M.]

6/27/2005

A preto e branco

Atacar João César das Neves é muito previsível e por isso muito desinteressante. Eu, como imensa gente, acho as suas opiniões em matéria de costumes quase sempre estapafúrdias, sobretudo devido ao estilo fradesco e ao tom apocalíptico. Mas, a cada texto, aparece sempre quem o conteste de imediato (com bons ou maus argumentos), e isso torna dispensável um coro excessivo.

Houve uma vez que me senti mais propenso a cascar em César das Neves: quando este criticou a masturbação, esse direito fundamental de todos os cidadãos e cidadãs(contrariando aliás o seu hábito de só atacar práticas minoritárias). Mas este texto de JCN inclui uma menção que me parece importante sublinhar para entender a sua estranha mundividência.

Escreve JCN, num tom de quem desaprova: «Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso».

Eu pensava que no campo da sexualidade só valia precisamente o princípio da liberdade individual. Desde que se trate de actividades consensuais entre adultos. Defender o contrário disto nem sequer é moralismo. É totalitarismo. Na definição clássica, o totalitarismo distingue-se do autoritarismo por não admitir nenhuma esfera privada inexpugnável. É essa a precisamente a tese de JCN, que se inquieta com o que as pessoas fazem em privado com os seus corpos.

O que as pessoas fazem no domínio sexual diz apenas respeito a essas pessoas e às suas consciências e vontades. O cristianismo (entre outras religiões) propõe alguns modelos e comportamentos, mas geralmente não impõe (sempre que impõe é uma doutrina de opressão). É muito estranho que um cristão, um leigo como os outros, apareça agora armado em implacável juiz de quem se comporta de modo supostamente faltoso.

Repito, como elogio, o que César das Neves entende como crítica: «Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso». Gays, virgens até ao casamento, promíscuos, celibatários, masoquistas, assexuais, bissexuais, castos, moderados ou devassos. Cada um sabe de si. E ninguém tem nada a ver com isso.

César das Neves, como toda a gente, tem o direito de exprimir as suas concepções e de pugnar pelas suas convicções. O que me apoquenta é que as suas convicções denunciem uma obsessão negativa pela sexualidade dos outros. Não me refiro a temas como o casamento dos homossexuais, que tem uma dimensão pública e política que é discutível, mas às inquietantes referências ao que as pessoas fazem na sua vida íntima.

Uma pessoa que «faz o que quer» sem que «ninguém tenha nada a ver com isso» está no seu pleníssimo direito. E não precisa para nada de aprovações ou censuras externas.

Uma coisa é militar pelos valores cristãos (ou por um determinado entendimento desses valores) na campo público e legislativo. Outra coisa é esta estranha tentação de comentar do púlpito a intimidade dos outros, misturando tudo de um modo primário e não admitindo a autonomia individual.

Um cristão pode propor um modelo de comportamento. E pode lamentar que esse modelo não tenha acolhimento num determinado tempo ou numa determinada sociedade. O que um cristão não pode é julgar as pessoas com uma cartilha em preto e do branco, esquecendo a complexidade humana, os comportamentos contraditórios, os erros, ou simplesmente o direito de cada um conduzir a sua vida em privado como bem entenda.

O que um cristão não pode é tratar todos os outros (crentes ou incréus) como um carneirada decaída e sem consciência moral.

Há muitos cristãos que condenam comportamentos públicos e políticas públicas em matéria de costumes. Mas só padres e padres arcaicos é que se pronunciam em público sobre temas privadíssimos como a masturbação e a virgindade.

E este espectáculo de um professor de Economia nas vestes de severo confessor da pátria é uma coisa que nós francamente dispensamos.

(para o Lourenço)

[P.M.]

Yoko goes solo

A explosão do plástico é inevitável. Felizmente, um blogue novo faz-se em três minutos. [P.M.]

Beckett, errata

Uma citação de Molloy de Samuel Beckett apareceu algo desfigurada neste texto. Como é uma das minhas páginas favoritas, aqui fica a versão correcta:

Então, entrei em casa, e escrevi, É meia-noite. A chuva fustiga as vidraças. Não era meia-noite. Não chovia. [P.M.]

Jesus wants me for a sunbeam (2)

Gente obcecada com drogas («Heroin») e sado-masoquismo («Venus in Furs») a escrever uma cançoneta cândida e infantil chamada «Jesus»? Os caminhos do Senhor são misteriosos. O terceiro álbum dos The Velvet Underground, o mais suave e contemplativo (John Cale tinha entretanto saído), contém este estranhíssimo momento cristão.

2. The Velvet Underground, «Jesus», The Velvet Underground (1969)

Jesus, help me find my proper place
Jesus, help me find my proper place
Help me in my weakness
’cos I’m falling out of grace
Jesus
Jesus


[P.M.]

About

A: I do know what my songs are about.

Q: And what’s that?

A: Oh, some are about four minutes. Some are about five. And some, believe it or not, are about eleven or twelve.


(Bob Dylan, entrevista, 1966) [P.M.]

Comentários

Recentemente, três ou quatro blogues que visito com assiduidade encerraram as caixas de comentários ou instalaram sistemas de registo prévio para combater os insultos anónimos.

Desde que estou na blogosfera, mudei de opinião sobre muitas coisas. Menos numa: sempre considerei os comentários um convite aos canalhas. É isso mesmo que digo nesta passagem de um texto sobre blogues que escrevi para uma revista:

Os blogues permitem a existência de um sistema de comentários, em regime livre ou com inscrição prévia. Os comentários, volumosos sobretudo nos blogues políticos, têm de tudo: dichotes, ataques pessoais, emendas, respostas, pequenos ensaios. Pessoalmente, sempre fui contra os comentários. E só tenho encontrado gente que era a favor e se tornou contra, nunca o contrário. Os comentários, pela sua brevidade e pela sua tendência para o anonimato ou quase anonimato, potenciam o lixo, o boato, e mesmo ataques organizados. Uma caixa de comentários interessante implica um controlo constante por parte dos administradores do blogue. O que significa abrir a porta da liberdade de expressão para depois a fechar aos prevaricadores, com inevitáveis acusações censórias pelo meio. A percentagem de comentários proveitosos é ínfima. Os comentários são um simulacro de liberdade de expressão, e mais se aproximam de paredes de WC pública de que de um fórum de discussão digno desse nome (as cinco ou seis excepções confirmam a regra). Uma alternativa (que tenho usado), é publicar mails relevantes no blogue, comentados ou não. [P.M.]

6/26/2005

Foto tipo passe



[P.M.]

6/20/2005

Jesus wants me for a sunbeam (1)

Começo aqui uma tentativa de alinhamento de canções pop/rock cristãs. Não canções devotas nem necessariamente crentes, mas temas que usem vivências, motivos, linguagem e iconografia do cristianismo.

A primeira canção escolhida parte de uma famosíssimo aforismo bíblico: «É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus».

1. The Divine Comedy, «Eye of the Needle», Regeneration (2001)

They say that you'll hear him if you're really listening
And pray for that feeling of grace
But that's what I'm doing, why doesn't he answer?
I've prayed 'til I'm blue in the face

The cars in the churchyard are shiny and German
Distinctly at odds with the theme of the sermon
And during communion I study the people
Threading themselves through the eye of the needle
I know that it's wrong for the faithful to seek it
But sometimes I long for a sign, anything
Something to wake up the whole congregation
And finally make up my mind

The cars in the churchyard are shiny and German
Completely at odds with the theme of the sermon
And all through communion I stare at the people
Squeezing themselves through the eye of the needle



(contribuições deste e destes rapazes serão muito apreciadas) [P.M.]

6/19/2005

Notas parisienses (4)

A estátua equestre de Carlos Magno tem tanto verdete que parece uma metáfora. [P.M.]

Latrinas (3)

Julgo que foi Kundera quem escreveu que a existência dos excrementos prova que Deus não existe. Que a nossa condição é prosaica e vil e não feita a nenhuma imagem e semelhança. Mas também é possível que os excrementos nos lembrem apenas a nossa natureza prosaica e vil, isto é, que sejam uma imundície necessária para valorizar a nossa gloriosa imagem e semelhança. [P.M.]

Latrinas (2)

O romantismo de Jonathan Swift, em contrapartida, acabou duzentos e sessenta anos antes do meu, quando no poema The Lady's Dressing Room, (1732) pôs o amante Strephon a descobir que a sua amada Celia... como dizer? Cito: Thus finishing his grand Survey,/ Disgusted Strephon stole away / Repeating in his amorous Fits, / Oh! Celia, Celia, Celia shits! [P.M.]

Latrinas (1)

Acho que o meu romantismo acabou quando li um texto de Ingmar Bergman em que este confessava os seus problemas intestinais. [P.M.]

Eça tinha razão:

uma quinta no Douro com saída para o Chiado continua o paraíso. [P.M.]

Notas parisienses (3)

No Jardim do Luxemburgo não estava nenhuma adolescente de Rohmer. No mundo, existem adolescentes, e mesmo adolescentes inesquecíveis. Mas adolescentes de Rohmer só mesmo no cinema. [P.M.]

Dois anos de Aviz

Dar os parabéns ao Aviz (que comemora dois anos) é quase endogamia, sendo o Francisco um dos três extramundanos. Mas neste aniversário, a prenda é nossa, porque o camarada de Avis anunciou que vai escrever com mais regularidade no Fora do Mundo. [P.M.]

Notas parisienses (2)

A zona mais cativante de Paris chama-se «pântano» (Marais). E está cheia de judeus barbudos e de gays carecas (eu pelo menos não vi nenhum gay barbudo e nenhum judeu careca). [P.M.]

Acumulação de cargos

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(foto tirada na gasolineira Martinho perto de Belmonte)

Filipe Nunes. De dia, académico, assessor, bloguista. De noite, artista de variedades. [P.M.]

6/15/2005

Notas parisienses (1)

Em Paris, à entrada da estação de metro Cluny-Sorbonne, um casal estiloso e atraente discutia com empenho o conceito de «razão instrumental». A cada um os seus preliminares. [P.M.]

Hussardo

Alguns dos meus escritores favoritos são nomes célebres e consagrados: Beckett, Eliot, Kierkegaard, Tchekhov e outros. Mas há escritores que estão entre os meus mais amados e que muita gente desconhece. Desses menos conhecidos, o menos conhecido (por cá) é seguramente o francês Roger Nimier, que nasceu em 1925 e morreu num acidente de automóvel em 1962.





Chefe de fila dos chamados «hussardos», apaixonado e polémico, Nimier não é um génio da literatura (como os outros que citei) mas é alguém de quem me sinto muitíssimo próximo de imensas maneiras e a quem devo um certo modo de compreender a liberdade de espírito. Nimier escreveu ficção, crónica, crítica e mais ainda (algumas obras saíram postumamente). A sua filha, a romancista Marie Nimier, publicou em 2004 uma dolorosa evocação do pai em La Reine du silence (prémio Médicis). Entre os estudos e biografias, destaque para o minucioso Roger Nimier, hussard du demi-siècle (1995), de Marc Dambre.

Se quem escreve escolhe sempre os seus mestres, este é sem dúvida um dos meus. [P.M.]

Nota: recebi um mail do responsável duma nova editora portuguesa, a Livre, que me anunciou que a sua edição de estreia será precisamente «La Reine du Silence». E que é possível que Marie Nimier, filha de Roger Nimier, venha a Portugal apresentar o livro.

Casmurro

Manuel Portela, Pedro Serra, Osvaldo M. Silvestre, Abel Barros Baptista, Fernando Matos Oliveira, Luís Quintais, Gustavo Rubim. São autores de algum do mais estimulante ensaísmo português (e também poesia, no caso de Quintais) e mentores do pioneiro Ciberkiosk. Agora estão no blogue Casmurro, com patronos de truz: Machado de Assis e Groucho Marx. [P.M.]

6/14/2005

Eugénio em conversa

Encontrei uma única vez Eugénio de Andrade. Foi em 2001, na sua esplêndida Casa, por ocasião de uma sessão poética. Já me tinham contado algumas suas reacções intempestivas ou menos educadas para com alguns escritores novos. Comigo, Eugénio mostrou extrema cortesia e mesmo simpatia. Conversámos sobre poesia espanhola e inglesa e sobre o papel da crítica. Estivemos de acordo em tudo, nesses escassos minutos de diálogo. É uma recordação amável.

Devo dizer que não sei como teria reagido se Eugénio tivesse sido agreste. A sua poesia luminosa (mas também melancólica) talvez ficasse algo manchada para mim (sei de casos). Embora tenha tido algumas zangas com escritores que admiro, neste caso seria particularmente penoso um encontro aziago. Felizmente, a minha (volumosa) memória dos seus poemas fica bem acompanhada dessa minha (brevíssima) memória da sua pessoa. É um privilégio conhecermos quem estimamos. [P.M.]

6/13/2005

Eugénio de Andrade 1923-2005

O primeiro poema de Eugénio de Andrade de que me lembro: «Véspera da Água», de Obscuro Domínio, 1971. In memoriam.


Véspera da Água


Tudo lhe doía
de tanto que lhes queria:

a terra
e o seu muro de tristeza,

um rumor adolescente,
não de vespas
mas de tílias,

a respiração do trigo,

o fogo reunido na cintura,

um beijo aberto na sombra,

tudo lhe doía:

a frágil e doce e mansa
masculina água dos olhos,

o carmim entornado nos espelhos,

os lábios,
instrumentos da alegria,

de tanto que lhes queria:

os dulcíssimos melancólicos
magníficos animais amedrontados,

um verão difícil
em altos leitos de areia,

a haste delicada de um suspiro,
o comércio dos dedos em ruína,

a harpa inacaba
da ternura,

um pulso claramente pensativo,

lhe doía:

na véspera de ser homem,
na véspera de ser água,
o tempo ardido,

rouxinol estrangulado,

meu amor: amora branca,

o rio
inclinado
para as aves,

a nudez partilhada, os jogos matinais,
ou se preferem: nupciais,

o silêncio torrencial,

a reverência dos mastros,

no intervalo das espadas

uma criança corre
corre na colina

atrás do vento,

de tanto que lhes queria,
tudo tudo lhe doía.

[P.M.]

Na morte de Álvaro Cunhal

Sempre que morre uma pessoa que manifestamente não apreciávamos (uso um enormíssimo eufemismo), o comum «descanse em paz» é o único comentário decente. Nem barbarismo nem hipocrisia. [P.M.]

Caneco

Work out

Uma flexão contínua de conceitos. Uma espécie de musculação moral. [P.M.]

Casta

Quando dizes que a opinião de Z. te é de todo indiferente, estás a pôr Z. num patamar inferior. Ou mesmo numa casta inferior. Queres ser estóico, mas és meramente presunçoso. [P.M.]

Direito de veto

A frase mais pusilânime que conheço é esta: «Eu na altura pensava que gostava dela».

A frase correcta e decente seria assim: «Eu na altura gostava dela».

O que aconteceu entretanto a esse «gostar» pertence ao tempo que entretanto passou e ao que mudou no coração e no mundo. Mas o presente não tem direito de veto sobre o passado. Dizer o contrário é cair verticalmente num pântano moral. [P.M.]

Razão (2)

Por outro lado, não sei bem o que é «ter razão». Podemos dizer que Galileu tinha razão e o Santo Ofício não tinha, mas se passarmos para coisas mais comezinhas, não encontro muitas ocasiões em que alguém «tenha razão» de forma inequívoca. Sobretudo se estivermos no domínio da ética, em que os cenários não são geralmente a preto e branco e em que a razão é uma coisa esquiva no meio de tons de cinzento, sépia, pastel. [P.M.]

Razão

Não gosto nada que me dêem razão. Sempre que me dão razão, é porque antecipei correctamente um cenário negativo. Um pessimista com eu quer sobretudo não ter razão. [P.M.]

6/11/2005

Rádio Paris / Lisboa

Depois de uma semana parisiense supimpa, temi que o regresso custasse. Não custou. Lisboa meio vazia em meados de Junho é mesmo melhor que os Chans Elizês. E com preciosidades como o vídeo Carrilho e a entrevista Saraiva, temos posts. [P.M.]

6/2/2005

Schengen



Para comemorar os eventos, vou espairecer uma semanita algures em território europeu. A azulíssima Natalia toma conta do estabelecimento. [P.M.]

6/1/2005

Todas as razões são boas

Nalguns blogues e nalguns mails, os defensores do SIM lembram que havia gente pouco recomendável no lado do NÃO, e sublinham que na campanha foram usados argumentos perigosos, radicais, alarves, disparatados. É verdade. Mas, como escreveu o Miguel Freitas da Costa no DN, todas as razões são boas para votar NÃO. O importante é travar a «Constituição». Sobre más razões e más companhias acrescentarei alguma coisa em breve. [P.M.]

Acabou



Com o esmagador NÃO holandês acabou esta peregrina ideia de dotar 25 estados soberanos (mesmo se associados) de uma «Constituição». Acabou este texto protofederal, alheio ao sentimento dos povos, imbuído de um voluntarismo que ignorava muitas divisões políticas da Europa. Agora é altura de voltar à mesa das negociações, com gradualismo e sensatez. Demore o tempo que demorar. [P.M.]

Vamos a banhos

Primeiro de Junho. Regressaram as praias. E os anúncios da Calzedonia. [P.L.]

A palavra aos fundadores

5/30/2005

Nós, Europeus

O post aí abaixo leva a assinatura dos três foradomundistas embora não tenha as iniciais de nenhum. É o nosso segundo post colectivo. [F.J.V.]

5/29/2005

Oito parlamentos ratificaram a «Constituição Europeia». Ao segundo referendo, o NÃO venceu. Altura para tirar algumas conclusões dessa discrepância, para perceber que a Europa se constrói a passo e não a galope, para acabar com a chantagem de caminhos únicos e respostas únicas. Estamos gratos ao povo francês por esse contributo.

Allons enfants de la patrie