Atacar João César das Neves é muito previsível e por isso muito desinteressante. Eu, como imensa gente, acho as suas opiniões em matéria de costumes quase sempre estapafúrdias, sobretudo devido ao estilo fradesco e ao tom apocalíptico. Mas, a cada texto, aparece sempre quem o conteste de imediato (com bons ou maus argumentos), e isso torna dispensável um coro excessivo.
Houve uma vez que me senti mais propenso a cascar em César das Neves: quando este criticou a masturbação, esse direito fundamental de todos os cidadãos e cidadãs(contrariando aliás o seu hábito de só atacar práticas minoritárias). Mas
este texto de JCN inclui uma menção que me parece importante sublinhar para entender a sua estranha mundividência.
Escreve JCN, num tom de quem desaprova: «Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso».
Eu pensava que no campo da sexualidade só valia precisamente o princípio da liberdade individual. Desde que se trate de actividades consensuais entre adultos. Defender o contrário disto nem sequer é moralismo. É totalitarismo. Na definição clássica, o totalitarismo distingue-se do autoritarismo por não admitir nenhuma esfera privada inexpugnável. É essa a precisamente a tese de JCN, que se inquieta com o que as pessoas fazem
em privado com os seus corpos.
O que as pessoas fazem no domínio sexual diz apenas respeito a essas pessoas e às suas consciências e vontades. O cristianismo (entre outras religiões) propõe alguns modelos e comportamentos, mas geralmente não impõe (sempre que impõe é uma doutrina de opressão). É muito estranho que um cristão, um leigo como os outros, apareça agora armado em implacável juiz de quem se comporta de modo supostamente faltoso.
Repito,
como elogio, o que César das Neves entende como crítica: «Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso». Gays, virgens até ao casamento, promíscuos, celibatários, masoquistas, assexuais, bissexuais, castos, moderados ou devassos. Cada um sabe de si. E ninguém tem nada a ver com isso.
César das Neves, como toda a gente, tem o direito de exprimir as suas concepções e de pugnar pelas suas convicções. O que me apoquenta é que as suas convicções denunciem uma obsessão negativa pela sexualidade dos outros. Não me refiro a temas como o casamento dos homossexuais, que tem uma dimensão pública e política que é discutível, mas às inquietantes referências ao que as pessoas fazem na sua vida íntima.
Uma pessoa que «faz o que quer» sem que «ninguém tenha nada a ver com isso» está no seu pleníssimo direito. E não precisa para nada de aprovações ou censuras externas.
Uma coisa é militar pelos valores cristãos (ou por um determinado entendimento desses valores) na campo público e legislativo. Outra coisa é esta estranha tentação de comentar do púlpito a intimidade dos outros, misturando tudo de um modo primário e não admitindo a autonomia individual.
Um cristão pode propor um modelo de comportamento. E pode lamentar que esse modelo não tenha acolhimento num determinado tempo ou numa determinada sociedade. O que um cristão não pode é julgar as pessoas com uma cartilha em preto e do branco, esquecendo a complexidade humana, os comportamentos contraditórios, os erros, ou simplesmente o direito de cada um conduzir a sua vida em privado como bem entenda.
O que um cristão não pode é tratar todos os outros (crentes ou incréus) como um carneirada decaída e sem consciência moral.
Há muitos cristãos que condenam comportamentos públicos e políticas públicas em matéria de costumes. Mas só padres e padres arcaicos é que se pronunciam em público sobre temas privadíssimos como a masturbação e a virgindade.
E este espectáculo de um professor de Economia nas vestes de severo confessor da pátria é uma coisa que nós francamente dispensamos.
(para o Lourenço)
[P.M.]