
:: responder
às vezes alguém responde.da escuridão para onde se escreve, volta alguma claridade. do silêncio de ler, volta algum brilho d'alma.as respostas que nos ajudam nada têm a ver com a pergunta. são ecos. são novos apelos. às vezes escreve-se sobre a tristeza e a resposta que mais ajuda não é "alegra-te", mas "eu estou triste também". as pessoas não se entendem porque procuram sempre uma conclusão, que é como quem diz, um fim para o que as move. "porque é que dizes isso?" não é uma pergunta. "porque é que fizeste aquilo?" não tem resposta. comunicar não é trocar unicidades - é partilhá-las. " eu também" é a resposta mais bonita a tudo o que se possa dizer. pergunta-se "porque é que me sinto sozinho?", e a resposta certa é "eu também me sinto sozinho". não é, em tom moralista, " foi porque não fizeste isto ou aquilo e é isso que tens de fazer".para a Rita. por teres "respondido". excerto do livro " explicações de português" de Miguel Esteves Cardoso
:: katia b
ora ai está mais uma brasileira apaixonante que eu não conhecia: "" katia bronstein para os amigos.o ritmo é trip hop, bossa nova, mangue beat e lounge. (Bem meu tipinho) ""só deixo o meu coração na mão de quem pode é o grande tema do primeiro cd de 2003.deixo-vos a letra. o resto imaginem..Só deixo meu coração na mão de quem pode. Fazer da minha alma suporte para uma vida insinuante Insinuante anti tudo que não possa ser Quero dizer, eu to pra tudo nesse mundo Então, só vou deixar meu coração, a alma do meu corpo, na mão de quem pode. Na mão de quem pode e absorve Tanto no céu que no inferno Inspiração de Mutação Da vagabunda intensão De se jogar na dança absoluta da matança do que é tédio, conformismo, aceitação E eu fico aqui vou te levando nessa dança Sobre o mundo. Pode tudo do amor Pode tudo do amor Porque eu não quero teu ciúme que é o cúmulo Ciúme é o acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo, projetado Assim jogado como lama anti-erótica na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa Eu não to a toa Eu sou muito boa Eu sou muito boa pra vida Eu sou a vida oferecida como dança E eu não quero "te dar gelo" Diabos que o carregue Vê se aprende, se desprende Vem pra mim que sou a esfinge do amor Te sussurrando Decifra-me, decifra-me Só deixo minha alma, só deixo o coração Na mão de quem ama solto!""' http://www.quelque.com.br/ uma crónica bem brasileira sobre o cd
' http://www1.uol.com.br/katiab/ o sitio da moça
:: neura
aptece-me fechar no quarto, puxar os cortinados e só deixar entrar aquela luz creme.. ténue.pôr uma musica triste, mas doce. e lavar a alma.chorar esta dor que não sei de onde vem..há dias assim..
:: mundo meu
nunca pensei escrever isto: estou quase fã de uma novela!!!eu que abomino novelas, que raramente vejo televisão, agora como companhia ao jantar (sim, porque só consigo jantar lá para as dez), vejo esta novela da tvi!!!os diálogos são, apesar de tudo, minimamente audiveis, o enredo não é mau, e a actriz principal agarra bem o papel (a que fez o pedras rolantes).a múscia é aquele pop radio macau português, as personagens vão desde a malta do surf do new wave, ao velho do mar do verão azul, aos arquitectos e donos de hotel sofisticados. não está mau...
(ou então são os efeitos colaterais de viver temporariamente em casa dos pais!! eheh)
:: a meta
hoje fez-se-me luz.já concebi a meta para os próximos 5 anos. mesmo com todas as certezas que não posso ter.é mais fácil correr, quando sabemos para onde... (os dias de ressaca são sempre produtivos no campo conceptual..eheh)
:: rita
"sabia que ficar assim parada não me levava a lado nenhum, mas tinha ainda umas descabidas réstias de esperança que surgisse qualquer coisa que me entregasse a felicidade roubada. Entrara numa letargia absurda e achava que tudo o que fazia estava mal. Era uma reflexão baseada numa repetida sucessão de falhas. Afundei os dedos por entre os meus cabelos castanhos, tinha vontade de chorar, mas nem uma lágrima se atrevera a sair. Sentia medo, que aos poucos se ia apoderando do meu corpo esguio e do meu ego estilhaçado. E eu só queria continuar ali, a observar a brisa que fazia dançar as folhas ressequidas da amendoeira, aquela que me enfeitava a vida, em tardes desgostosas... "
eu tenho a companhia de uma nogueira nessas tardes. bem no meio do jardim, nas traseiras da casa.
o vento tambem lhe abana as folhas, quando falamos horas inteiras. e quando as lágrimas desaparecem, sei que estou vazio. de mágoas, mas tambem de felicidade. é então tempo de dizer "até já" à nogueira e voltar ao carrossel, com um sorriso de serenidade.
:: coisas soltas
. destesto sentir-me escravo do tempo. quando queria fazer tanta coisa, e simplesmente não tenho horas disponiveis no dia para tal.
. ando a trabalhar demais. estoirado. mas realizado. nos dois ultimos fins-de-semana, dois pequenos milagres. todos gostaram, nada faltou. nem os elogios. sabe bem.
. ando ausente. chego ao fim do dia e sei que ficou tanta coisa por dizer. que tenho saudades vossas, que te queria tanto abraçar, e sentir o cheiro da tua alma. que queria passear contigo pela praia até de manhã.
. quero voar. tenho cada vez mais certezas que esta casa é pequena demais. quero sair por ai a voar pelo mundo. emigrar, no sentido estrito da palavra. alguem sabe de algum trabalho?
. no sabado adormeci em vez de sair aos encontros combinados. só dormi cinco horas (work oblige), mas é o sinal que preciso de férias. urgentes. e que estou mais responsável também :)
:: perguntas
tamanho total dos arquivos no meu computador
em qual? ehehe
o esssencial, está na pen: 250 MB. o mesmo essencial, duplicado no gmail: 45 MB
o resto, pelos cds de backup, 3x 800 Mb, e o portatil, 1,2 GB (ganda contabilidade!!)
último disco que compreiThivery Corporation ( já o dei, raio de mania ;) tenho de re-compra-lo)canção que estou a escutar agorano carro: rosalia de souza e jazz no jazzsempre na cabeça: novelle vague in a manner of speaking , damien o rice, nancy sinatra bang bang5 discos/músicos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim5 cinco prefis de discos, so assim:1_ musica lounge: thivery, rosalia, mixs da usp/tagv2_ musicas para embalar: nouvelle vague, lamb, divine comed, kill bill, pulp fiction3_ musicas para lembrar: goldfraap, portishead, sergio godinho, jorge palma, underground4_ musicas para ouvir na melancolia_ os eternos tindersticks, sigur ros, portishead, rodrigo leão, adriana calcanhoto, madredeus, viva la tristeza: as musicas de pedro almodovar5_ musica para soltar o corpo: esta ultima onda hiphop-rap-afro-latina faço as perguntas a quem?a quem passa por aqui e nao me diz nada! (sim, tu!)
:: cinema
eu gosto de ir sozinho, naquelas tardes de cinza claro...e gosto de ir acompanhado, à noite.sempre com a obrigatória conversa de bar (filosófica e cenográfica) logo de seguida.
(e assim fico com um sorriso. na alma)a ver por estes dias: sin city, o lado bom da furia, uma cançao de amor, mondovino(?)
:: rancor, a outra versão
não acho que os homens não cultivem a memória.acho sim, que os homens cultivam a memória "apenas" das partes boas do passado.por isso nenhum homem se chateia com o amigo mais do que uns dias.nenhum homem olha para as ex-namoradas e se lembra dos defeitos. só daquelas virtudes.e só se recordam dos momentos bons do passado, que saltam logo à memoria, quase como uma mola.já para recordar os momentos tristes, o esforço de memoria é enorme.(quase) nenhum homem volta a puxar ao assunto, meses depois, daquele dia qem que nos atrasamos para o jantar, ou em que não conseguimos, por esquecimento, arranjar o bilhete daquela peça.essa é sem duvida uma caracteristica das mulheres. o saberem guardar "tão bem" aqueles rancores.
só me assalta uma duvida: é uma forma mais leve, de maior entrega ao outro, e mais doce de viver que temos, os homens, ou é uma forma de defesa, para nos permitir, de consciência tranquila, fazer alguns pequenos "pecados"? (rapidamente limpos da memória)
:: rancor
" os homens nao cultivam a memória. ao contrário, exercitam o esquecimento. mas há vantagens nisto - os homens sempre me pareceram muito menos rancorosos do que as mulheres.porque o rancor exige uma boa memoria. devíamos (as mulheres) periodicamente recorrer a uma espécie de cerimónia do olvido, como quem vai à sauna, para limpar a alma das lembranças más.o amor e o rancor sao dificeis de conciliar. guardar um e outro no coração e esperar que resulte, é como encerrar na mesma jaula um leão e um cordeiro, e esperar que o cordeiro submeta o leão. "
xis, 2mil5 excerto da crónica de Faíza Hayat
:: berenice
"Uma acção simples, sustentada na grandeza dos sentimentos, na elegância das expressão, na violência das paixões, na espera da palavra (...) em que um verso de Racine nos surge (...) como um sopro sobre uma ferida".
supremo o diálogo em verso. o texto forte como uma pedra, que nos acerta em cheio nos sentimentos, deixa-nos assim: presos na respiração, com a alma - dorida - a transbordar pelos olhos. não pela originalidade da narrativa. bem pelo contrário. por ser igual a tantas histórias na nossa vida. em que uma decisão, uma vez tomada determina todo o futuro. porque há momentos em que já não é possivel voltar atras. em que uma palavra, um gesto, um movimento, hipotecou todo o futuro. por alguem, com alguem, em alguem... porque perceber tarde demais o que é para nós alguem, é isso mesmo, tarde demais. é cruel este destino que não nos deixa voltar atrás e recomeçar do zero. daí por vezes tanto receio em quebrar certos laços. porque uma vez quebrados serão para sempre. e nas quebras o para sempre é sempre mais forte.dói acima de tudo na peça, poder ver o outro lado dos gestos e das palavras. o lado de quem não percebe, de quem fica magoado e confundido. e perceber que já fizemos alguém sofrer assim.dói. o estômago fica preso, mas saimos da peça com a alma lavada. e cada vez mais certa dos cuidados a ter nas decisões da vida. nem cedo demais, nem tarde demais. desafio duro, saber o momento certo, não é?
BERENICE, pelas 21:30, no Teatro D. Maria II com música de Mário Laginha.
:: musicas
ora, vamos lá de novo aos festivais. imperdíveis:
. 9 julho, hype@tejo .Kruder&Dorfmeister .Chemical Brothers .Dj Dolores. 16_19 agosto, Paredes de Coura .The Pixies .Nick Cave
:: benfica
passados dez anos, voltei a visitar assiduamente o estádio da luz (um bom presságio talvez).com lugar de época, foram 18 os jogos que vi ao vivo, muitas alegrias, algumas decepções, mas sempre muita emoção. podemos até nem ser campeões, mas foram 18 jogos em cheio, e sábado foi sem dúvida o mais emocionante de todos. é transcendente entrar num estádio preenchido de vermelho, e ouvir 60 mil pessoas a cantar em coro. como também é arrepiante o silêncio das mesmas 60 mil pessoas, quer nos momentos solenes, quer no voo da águia. ou o grito em uníssono do "oohh" quando a bola vai ao poste, o "bruaá" daquela finta, ou o ar pesado quando o adversário marca.mas único mesmo é o momento do golo. sábado então, quando já ninguém o esperava, tem ainda outro sabor. num segundo, um mar de gente aos pulos, histérico, abraçado, em lágrimas, aos gritos, de chachecol no ar... indiscritivel o que se sente. é algo superior, mesmo que fugaz.mas só por esse momento, vale bem a pena esta paixão.
:: encontrar
foi impossível encontrarmo-nos. há tanta gente. o mundo é tão grande.
os nossos caminhos são tão difíceis. tudo está contra nós. foi impossível encontrarmo-nos. mas encontrámo-nos. pela primeira vez. contra todas as vezes que estivemos longe de nos conhecermos. e contra as vezes que nos cruzámos sem nos vermos, se é que alguma vez nos cruzámos. o que interessa isso agora? contra todos os contras, encontrámo-nos.
e agora conhecemo-nos, partilhamos lágrimas e risos, amamos o bom e o menos bom de cada um. porque é mais bonito conhecer as imperfeições do que embrulhá-las em ilusões. e as diferenças também são essenciais: é através delas que se estabelece a distância entre um e outro, sem a qual não pode haver amor. quem ama alguém, ama por quem é. eu amo alguém que me está sempre a lembrar quem ela é – e não a mim.
adaptado de Miguel Esteves Cardoso
:: serenidade
hoje sinto-me profundamente sereno. estou como a manhã de hoje, quente, mas sóbria, com este branco silencioso, do céu coberto. sereno porque estou contente comigo.
porque ontem na empresa o objectivo foi cumprido, e nada o fazia prever. tudo poderia correr mal, mas tudo correu bem. porque éramos tão poucos mas agradamos, em todos os detalhes, a tantos. porque não há melhor sensação do que ver os clientes partirem com um sorriso de satisfação. sabe bem esse sentimento de dever cumprido. contente comigo, porque sai do trabalho e mesmo cansado ainda fui buscar aquela força, tomar banho, e acordar de novo. sair, jantar, limpar a cabeça e a alma. estar com os amigos, aqueles que só por estarem ali, mesmo na mesa ao lado, ou na rua ao lado, nos fazem sentir por perto. só por sabermos que lá estão. contente porque ainda continuo a saber divertir-me, a conversar sobre o nada, quando é preciso, a rir sobre qualquer coisa, o que é um excelente exercicio para limpar a cabeça, fazer resert e preparar para o dia a seguir.
as horas de sono são poucas, o que para muitos não faz sentido, porque só o sono descansa, dizem. mas nao é assim, pelo menos comigo. o cansaço pode ir acumulando, mas enquanto a alma estiver saudável, a serenidade vai estar cá, e essa é a verdadeira força que me faz levantar, correr e viver. como hoje.
:: este sou, definitivamente, eu
o empreendedorevitemo-lo. esta raça é particularmente rara no seio da familia do "homo salarius". o empreendedor adora trabalhar. mas não suporta trabalhar para alguém - subtileza!entre duas reuniões de teor administrativo, sonha em montar o seu próximo negócio. um gastrónomo, um investimento para um capitalista. aí, está preparado para trabalhar 20 horas por dia sem qualquer problema. os seus idolos: os fundadores do google.
excerto da pública de 02.05.05
:: estranha forma de vida
ando apaixonado.por ninguém em especial, mas mais por uma forma de estar na vida e pelas pessoa próximas que me acompanham. e me entendem nesse viver. o que dificulta muito concentrar-me em alguém que me complete ainda mais. concorrência forte. e desleal. porque agora não há limites, nem obrigações, "só" cumplicidades.
mas é saboroso partilhar a vida assim, saber divagar sobre os sentimentos, fazer planos de vida, reflectir sobre o futuro, e o passado, mas também rir sobre o nada. discutir futebol, ou chorar num filme. apreciar um bailado, uma cenografia, um obra de arquitectura, ou também ser feliz só por receber um raio de sol numa esplanada. ou o reflexo da lua no mar salgado... vida simples, talvez. mas completa.
:: os telemoveis
ontem divagava mais uma vez sobre a alteração que os telemóveis trouxeram ao nosso dia-a-dia.por um lado perderam-se os momentos do acaso, em que só se encontrava alguém porque a teia do destino assim queria, ou porque era tudo muito bem combinado, ou porque passava horas naquela esquina, à tua espera,porque sabia que mais cedo ou mais tarde lá passarias. perdeu-se o hábito de escrever uma carta, para entregar em mão ou deixar dentro de um livro emprestado. e assim o hábito de pensar um texto com tempo, dedicação e razão. e entregá-lo a alguém.
com os telemóveis tudo é mais imediato, tipo sopa instantânea, à distancia de um clic de segundos...perdeu-se algo de sentimento, que tem a ver com o falar directamente nos olhos da outra pessoa, mas ganhou-se tanto. tantos mal entendidos que se resolvem num segundo. tantos desencontros que já não o são. tantos pensamentos não partilhados, porque passava o seu tempo, mas que agora chegam no tempo certo, para leres quando quiseres. acima de tudo os telemóveis aproxima os que estão longe. e isso é tanto. estou a quilómetros de ti, e posso escrever-te a dizer que este mesmo sol que te ilumina neste momento, também me aquece. e me faz lembrar-te. posso ligar-te e falar dois minutos, matar saudades da tua voz, do teu riso despregado. e assim, renascer para o dia.
:: os meus amigos
" Seria incapaz de viver sem os meus amigos. Sem a consciência de que existem e são como são. Em tempos mais adversos dou comigo a enunciar mentalmente os seus nomes para me assegurar de que estão presentes e muito próximos. Gosto de estar com eles, divertem-me e divertimo-nos juntos mas, acima de tudo, dão sentido à minha vida. Desdobram, alisam e ampliam a minha existência. São aqueles que falam verdade, que não se protegem nem escudam, perguntam aquilo que temos necessidade que saibam e respondem aquilo que precisamos de ouvir. Põem o dedo nas feridas mas não fazem doer. Curam. São tão amigos e é tão verdadeiro o seu amor que, mesmo distantes ou ausentes, estão sempre connosco. Só é possível partilhar o silêncio com um amigo verdadeiro. Com os outros é impossível. Tudo se torna pesado e aquilo que não conseguimos dizer transforma-se em equívoco. Com os amigos não, o silêncio é bom e traz muita paz. Não tropeçamos nas palavras, não nos embaraçam os gestos e o olhar nunca se perde. Vai direito ao essencial. Para além do silêncio, das palavras e dos gestos há outras maneiras de saber quem são os amigos verdadeiros. Conhecem-se pela intimidade mas, também, pela liberdade. Por seguirem o seu caminho e nos deixarem seguir o nosso. Estão por nós mas não vivem a vida em vez de nós. Seguram-nos mas não nos prendem. Sabem que precisam de estar livres e dão-nos essa liberdade também. Sei, porque sinto, que a amizade é como o amor. Parece diferente mas é quase igual. A vantagem, na verdadeira amizade, é que existe menos posse, menos ciúme e mais liberdade. Por isso gosto tanto do amor dos meus amigos.”editorial de uma xis ... lembrada por uma verdadeira amiga
:: cativar
' Ensinaram-me um verbo cuja beleza demora a compreender: cativar.
Não é aprisionar, reter ou enredar. É andar, passo ante passo, cada um mais bem pensado e sentido que o anterior, para conseguir que uma coisa ou alguém se propricie a virar para o que somos, queremos, onde estamos e precisamos de ir.
Pois a verdadeira esperança consiste em cativar, calmanente, o destino. Não é forçá-lo.
Se o destino nos dá um encontro, se nos apresenta a possibilidade de um amor, por uma pessoa ou obra,
que nos move e nos faz desejar chegar a ela, é preciso continuá-lo, devagarinho, pela nossa própria acção.Mas temos de ser calculistas também. É uma prova de respeito.
Como é fácil fazer fugir quem se quer cativar, afugentando-o com demonstrações demasiados sinceras e completas do que se sente - é dificil o trabalho do encantamento, que precisa de ser medido e pensado, sem medo de se estar a ser sincero, frio ou calculista.
Infelizmente temos o culto da supresa e da espontaniedade, que nos leva à preguiça de desabafar de repente.
Desejamos as emoções por cima das pessoas e das coisas, sem pensarmos duas vezes: "Eu amo-te!", "Este é o meu sonho!". Fazemo-lo sem esforço, como se amar fosse, por si só, suficiente: tipo "Não vês que te amo! Porque é que és tao parvo e insistes em nao amar-me?"
Esquecendo-se que há sempre alguém que ama primeiro...'
excerto de "Esperar", de Miguel Esteves Cardoso
:: romances
"quase tudo o que vivi passou por romances. são infinitamente poderosos"dulce maria cardoso, in mil folhas_público
a vida só faz sentido vivida em romance. tudo o resto é acessório.
viver em romance é viver em permanente sobressalto, entregue á luta pelo amor de alguem.
ou pela descoberta se aquele é o amor porque vale a pena viver.
sempre vivi no limiar do romance.
de todas as relações que tive, e tenho, houve sempre um romance. ou qualquer coisa parecida, seja sentimental, fisica ou platonica. porque quando nos entregamos de todo a alguem, corremos sempre esse risco. e ser amigo, é entregar-mo-nos de todo até descobrir onde ficam os limites. não é fixá-los à partida. e saber que ali fica aquela margem tão frágil e subtil do que é o romance. mas saber tambem que o que nos liga significa tanto como um amor. é por isso que as verdadeiras amizades também são infinitamente poderosas.
mas foi sempre assim que descobri o romance em si mesmo. que é a maior e mais perigosa alegria do mundo. por isso o desafio ser tao grande. e por isso que, ao contrário do que se pensa, quanto mais for pensada e calculada, maior o valor dessa entrega. o "esforço" de pensar num presente, numa frase, num momento ou em partilhar uma simples esplanada,tem mais valor do que o momento em si. saber que alguem se esforçou por partitlhar algo é uma alegria imensa. só ultrapassada pela felicidade nos olhos de alguem, quando fomos nós que decidimos oferecer o momento...
é maravilhoso apaixonar-me. é sublime despertar paixões. e conquistar. conseguir provar a alguem que somos nós que a fazemos feliz. e ser feliz por o fazer. é indescritivel ver o riso de alguem a apaixonar-se por nós. e ficar preso nesse sorriso. por ele ser para mim.
afinal, o mais doce do teu olhar, é ver nele o reflexo do meu...
:: calvin
a tira de hoje do publico é qualquer coisa de fenomenal.o calvin (o filho que gostaria de ter um dia), ainda a acordar é abalroado por um dos miticos ataques do hobbes! chateado riposta: larga-me palerma!!!!responde com ar paternal, hobbes: - é de manhã!! agora podemos fazer coisas outra vez! Bora! uhiii...e já entusiasmado, atrás do seu amigo imaginário, calvin larga esta frase deliciosa:- é dificil zangarmo-nos com alguém que sente a nossa falta enquanto dormimos...
:: noite de verão
ontem esteve uma daquelas noites de verão.25º às dez da noite, tinha de ser: café numa esplanada.mas não podia ser uma esplenada qualquer. vamos à praia!duas horas de conversa, uma paz imensa, e uma brisa a pentear o sorriso...mas faltava qualquer coisa. talvez a caminhada pela calçada.não, ainda mais qualquer coisa: a areia, claro!de um simples café, já estava eu agora descalço a caminhar areia fora junto ao mar.três da manhã e a areia ainda estava quente nas minhas costas, as estrelas já ali, e o mar calmo e tranquilo como nunca... ou seria aquele olhar?
:: soundless
roubado de um blog por ai...
ele olha-a por entre o cabelo que a contorna.
olha-a. como à mais bela obra de arte por descobrir. nunca ninguém a expôs. louvre nenhum está à altura dela. toca-lhe ao de leve nos cabelos loiros e fugazes. electricidade estática. os cabelos a irem ter com a mão dele, numa súplica. toca-lhe suavemente no rosto, traçando com as costas da mão o contorno no rosto dela. ela de olhos fechados. os lábios num quase-sorriso brilhante e desnutrido de palavras. ele certo, seguro de que o que tem sob a pele da mão é tão somente o amor da sua vida. essa coisa inqualificável de que alguns não chegam nunca a ver a sombra. e beija-a. como se esse beijo fosse a última coisa antes das ruínas.
:: ...aprendi a chorar, rindo.
in "mar adentro", o filme.
há filmes que nos divertem, outros que distraem.e existem aqueles que nos fazem parar. e por momentos olhar para dentro de nós. eutanásias e discussoes filosóficas à parte, o que mais me tocou foi lembrar-me aquela frase.porque é assim que sempre encarei a vida. chorando, rindo. e às vezes esqueço-me.
porque assim a dor é menos intensa, e a mágoa é mais fugaz.porque o exercicio de rir, traz, em si mesmo, uma força imensa para seguir em frente.mas rir não é algo inato, é antes uma questão de vontade, uma forma de dar a volta ao destino.por que já é milagre bastante o viver. por isso é um desperdicio não rir. de mim, dos outros, com os outros...partilhar um riso a dois é um momento unico. fazê-lo várias vezes ao dia é o melhor anti-depressivo que conheço.e é a forma mais doce de me enxugar tanta lágrima...
:: cartaz _ expresso
o expreso (com a optimus), decidiu brindar-nos com o cd-rom do cartaz. e eu, modesto leitor, agradeço. porque está mais do que bem feito. essencialmente pelo conteudo: simples, directo e muito clean
um destaque de capa, mais cinco ou seis destaques por secção.apenas a informação necessaria e não mais, um pequeno texto descritivo de cada destaque, datas, salas e horários. e depois pequenos conteudos muito apelativos:"trailas" dos filmes, de teatro e de dança (!!!), duas ou tres musicas dos concertos... e chega. porque já me encheu a agenda para a próxima semana.
:: perfect day
" ... partilhar - contigo - durante horas, o silêncio de um livro,
numa almofada quentinha, faz-me feliz , num domingo à tarde. "parei nesta frase. simplesmente serena.e lembrei-me que não tenho fins-de-semana já lá vão seis meses.eram só dois dias, pensava eu. hoje dou mais valor aos dois dias em que todos tem tempo para parar por um sofá qualquer...
:: tropeço de ternura
"... nessa curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti." o'neill
há pessoas assim, que quando nos deixam, deixam-nos suspensos num sentimento maior que nós.deixam-nos um sabor doce na boca. e na alma. mas também uma sede.de beber mais. de sentir mais. e uma esperança vã, que o amanhã seja já hoje.que o próximo encontro seja já agora. sem intervalos. e vemo-las partir, e ficamos com aquele brilho nos olhos. aquele que é ao mesmo tempo o brilho da alegria e da saudade.alegria do momento que acabou de ser. de o viver. saudade do futuro que já ai vem. saudade do próximo sorriso. do próximo suspiro...digo-te adeus, e como um adolescente, tropeço de ternura... por ti.
:: um pouco de ti
há pequenas grandes coincidências que mudam tudo na vida. é isso que eu chamo o destino: um pequeno telefonema, no momento mais que certo e tudo muda. um pequeno desvio na viagem, ainda a tempo de te ver, subir as escadas e entrar noutro mundo. no teu.
tanto em tão pouco, só naquele pequeno bocado, naquela pequena longa conversa.
como diz o godinho: ontem soube-me a tanto, portanto, ontem soube-me a pouco...
:: conversas i
já me disseste que olhos, gostas chineses, agora sapatos altos não sabia...
não é sapatos altos, é sapatos abertos, altos ou baixos
vamos lá ver se consigo desenhar uma boneca para ti:
cabelo escuro e corrido? decotes q.b. e sobretudo presença, certo?
olhos doces e brilhantes. riso leve e fácil. mãos suaves e quentes.
ah, e magrinha, aliás, com formas esguias. (por alguma coisa só tive namoradas bailarinas)
como é que se chamam aqueles ossos altamente da bacia?
uiiii ... eu fico louco com esses ossos, e com a cova que fica mesmo ali ao ladodo lado de dentro, lindo...
eu não me passo mas acho que são partes bem bonitas
ah, e outra cova, aquela no fim da coluna, onde cabe uma mão ao nível da cintura...
:: saudades
é quando a vida nos magoa que sentimos mais saudades dos momentos bons.
como hoje. em que na minha tristeza, só sinto saudades...
saudades do meu quarto, iluminado pelo laranja das velas e por aquela musica.
saudades da minha rede ao meio da tarde, na sombra da nogueira, no silencio do jardim.
dos meus caes a correrem para lado nenhum. da cabeça deles no meu colo.
daqueles olhos irracionalmente e incrivelmente doces.
saudades do fim de tarde, naquela praia, até o sol desaparecer vermelho de vergonha no mar.
de jogar futebol à sexta. gritar com todos, marcar golo, perder. ganhar. mas sempre, mesmo sempre, jantar depois pela noite dentro. um bom vinho, falar do nada e dizer tudo.
saudades daquele café, onde quando chegava ao balcao, ja estavamos servidos. mais não fosse de alegria.
dde ir ao cinema, à meia noite, como que em pausa entre o jantar e o resto da noite. saudades de correr a noite, das conversas infindáveis a decidir onde ir, para ir sempre aos mesmos lugares. saudades das luzes laranjas nas paredes velhas, dos sorrisos delas. as mulheres. das conversas da noite.daquele balcao de vidro sobre a praça, numa cadeira que roda até eu querer.
saudades de dançar. de ver dançar. de rir. de beber. de descer aquelas escadas e ver tanta gente conhecida.
dos vinte minutos da cidade a casa, naquela estrada deserta.
da lua cheia nas paredes do jardim. do copo de champanhe na varanda, quase de manhã. saudades de acordar devagar... sem despertadores. nem pressas. nem trabalho...
:: simplify
editor_ i like your book except for the ending.author_ what's rong with the ending?editor_ it should be closer to the beginning...what can you edit out of a current project or ideia to make it better?what can you simplify?in ALICE, revista do clube de criativos de Portugal, seja lá o que isso for...
:: nouvelle vague
existem musicas assim. simples e doces. fulminantes, como uma seta, direita, não ao coração,
mas à alma, que é bem mais inantingível.
chamam-se nouvelle vague. misturam bossa nova com jazz, dão-lhe vozes unicas, tipo lisa germano, pegam em musicas que nos marcaram e deixam-nos assim. parados. a ouvi-los...love will tear us apart Joy Division just can get enough Depeche Mode guns of brixton The CLash a forest The Cure... sim. em bossa-nova jazz. ah, e claro in a manner of speaking Tuxedomoon
:: publicidade
(...) e porque há a tentação de dizer tudo num só anúncio?_ normalmente, quando isso acontece é porque não definiram bem o que queriam dizer, porque não se pode dizer tudo. E se isso acontece, é porque a agência aceitou um conjunto de objectivos para a campanha que não devia ter aceite.in ALICE, entrevista com andré baptista de almeida
:: sol de inverno
há momentos assim...
Forte de São Julião da Barra, 12h30. o sol queima o olhar, e aquece a alma. só se ouve o sossego do turbilhão do mar...
na mesa da esplanada, por cima da praia, o almoço vai demorar... ainda bem.a repetir, sempre a dia de semana, sempre contigo
:: tua
És um homem, mas podias ser uma criança. Podia aninhar-te no meu colo e cantar-te para adormeceres. Ou então deitava-te na cama e contava-te uma história, eu gosto de contar histórias. Adormecia-te como se todo o mundo, ou todas as coisas bonitas que nele vivem conspirassem pelo teu sono, pelos teus sonhos. Ficava a ver-te dormir, como às vezes fico, e passava-te a mão no rosto para te garantir que até quando dormes eu estou ao teu lado. Ser tudo para ti, porque não sei dar menos às pessoas que amo e que recebo no meu colo, porque aqueles que aconchego levam sempre o melhor e o pior: levam tudo. Tudo o que implica amor procura equilíbrio, mas vive de extremos. Estou aqui. Sou para ti. Continuo a olhar-te e sei que estarás ali e aqui, enquanto eu cuidar de ti como cuidas de mim. Adormecer-te-ei todos os dias que quiseres, mesmo que não me peças. Serei sempre tua, naquela eternidade que só quem ama conhece. Reconheço o amor contigo: quero que sejamos felizes. Quero que sejas tudo, quero que sejas meu. Só meu. No amor, a cada pessoa calha a sua coisa e duas pessoas não podem nunca ter duas coisas iguais. Nem ao mesmo tempo. E eu quero-te assim.
retirado de um blog algures por ai...
:: lua
a lua cheia tem algo de fascinante. ainda mais em noite de natal.
a meio da noite, vou fazer questão de vir até ao pátio.
e olhá-la.
e naquele momento vou saber que, onde quer que estejas , ela tambem te vê...
:: simply beatiful
- Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré 'Parda Flora', em Buenos Aires.
- Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
- Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre. em toda a parte.
in A balada do Mar Salgado, Corto Maltese
:: diário de um pai natal
19h arranco com destino à ceia de natal.
o telemovel vibra incessantemente com mensagens de natal
20h30 Olá!!!! cá está familia toda do lado do pai. Já lá vão uns meses.
23h depois do jantar do costume, enterrar no sofa em frente a lareira,
a beber um digestivo muito devagarinho, a tentar não olhar para a minha prima.
23h45 (hora fatidica) aquele piscar de olho da minha prima,
super disfarçadissimo, a lembrar-me da minha tarefa anual:
ir sorrateiramente até à garagem...
vestir-me de pai natal (estavam a pensar que era o quê!!!),
completo dos pés à cabeça (raio das barbas picam sempre),
e aparecer por fora da casa (cheio de frio),
com os sacos de prendas às costas (100 kgs no último ano)
e ainda ter de fazer HO HO HO em frente a cinco miudos histéricos e aos pulos!!!
... este ano vou fazer greve. juro!!
:: prendas de natal
(não sao prendas para mim. juro. estas ofereco-as eu a mim próprio)
humanos cd de homenagem a António Variações.
um génio pouco reconhecido. vale, mais não seja, pelas letras.
corto maltese, "Tango", edição especial com cd. para ler, ouvir e viver.
seinfeld dvd com a série I e II de episódios.
"2046", "o Apartamento", "Olhem para mim".... imperdiveis.
a descobrir numa qualquer sala de cinema perdida do país.
caderno de notas "Moleskine". o utilizado por Hemingway, Picasso e Chatwin.
tem mesmo história. basta tocar para sentir.
agenda 2005 "ambar" como é hábito: discrição, design e utilidade. juntos.
nokia 7280 no comments. (http://www.nokia.com/nokia/0,,63380,00.html) ver link behind the inspiration
:: palavras que nos beijam
há palavras que nos beijam, como se tivessem boca
palavras de amor, de esperança louca
palavras nuas que beijas, quando a noite perde o rosto
de repente coloridas, entre palavras sem cor
esperadas inesperadas, como a poesia... ou o amor
excerto_Alexandre O'Neill
:: stress bom
o stress pode ser bom!!
ele ajuda-nos a conseguir cumprir prazos inimagináveis e a assumir novos desafios.
o facto de estarmos sob stress, promove a dose certa de adrenalina e aumenta-nos a criatividade. assim, o segredo é mantermo-nos na "zona de melhor stress",
que passa por saber reconhecer quando estamos prestes a sair da dita.
Basta então descobrirmos o truque que nos mantêm nesta zona.
Para uns basta respirar fundo durante uns minutos, para outros dormitar uma sesta.
Para mim, o truque é apanhar sol ao ar livre, sem pressas.
... como hoje: ir à praia, num dia solarengo de inverno!
:: continuas em mim
há pessoas que não se despedem. continuam em nós. ficam, como se fossem um filme que fica em pausa a espera do próximo capitulo.
é uma sensação imensa, quando vemos uma pessoa passados meses e tudo continua na mesma. como se fosse ontem que nos rimos um do outro pela ultima vez. como se o tempo tivesse parado no ultimo adeus, e recomeçasse no novo olá...
continuamos a ultima conversa, brincamos da mesma maneira e temos a sensação que tudo permanece igual, mesmo na diferença. que tudo naquela pessoa nos continua familiar e próximo.
é nestes momentos que percebemos o que é a intimidade.
é olhar uns olhos passado tanto tempo e ver a mesma alma. e conseguir lê-la da mesma maneira... e sentir aquele arrepio nostálgico: era tão bom que te pudesse ver todos os dias...
:: seinfeld
na casa dos meus pais, na sala de visitas, uma das paredes tinha um vidro a toda a altura.
era para dar a sensação que a sala era maior, dizia a minha mãe...
não entendo como ela achava que uma sala é maior só por ter um espelho, como se alguém dissesse: "olha, uma sala igual aqui ao lado. e com um tipo parecidissimo comigo a ollhar para aqui!!!" :o)
o mais curioso é que existia um pequeno periquito, que passava o dia à cabeçada ao espelho!!
eu até entendo que ele achasse que aquilo era mesmo outra sala, o que nunca percebi era porque é que ele não evitava o outro periquito que voava na direcção dele!!!
:: calor
Calor. Sabes o quão sou feliz por te sentir?
Aquecer com uma bebida forte ou embriagar-me com as palavras amadas... tanto faz: sinto-te.
Derreter-me ao sol que me adormece ou quatro pés enroscados com amor... tanto faz: só não consigo viver sem ti.
de uma pessoa especial, que faz hoje anos. parabéns.
:: definitivamente tudo
Tu, foste como um dia de folga entre dois compromissos adiados. E é a lembrança dessa felicidade que me ilumina as palavras.
Não digo que te amei por ter possuído o teu corpo, mas sim por ter roçado a tua alma. Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir a tua voz, a demorar o meu olhar sobre o teu, ter-te-ia amado na mesma... Fiquei preso no que está para lá do visivel; enredado entre as folhas da tua verdadeira essência.
Não sei se ainda és aquela que encontrei, não deves ser. Mas, naquela tarde, sozinhos entre as paredes frescas da casa, foste, definitivamente tudo.
excerto do livro "segura-te ao meu peito em chamas" _ Possidónio Cachapa
:: Tony Soprano: és grande!!
É repetitivo dizer-se bem de The Sopranos. Diz quem vê, diz quem não vê, diz quem adora ou apenas gosta assim-assim, que é televisão "genial" ou "fabulosa", para usar dois adjectivos também recorrentes. Acontece que há razões para o entusiasmo e há, sobretudo, infindáveis possibilidades hermenêuticas, capazes de prolongar durante várias horas e páginas debates sociológicos, filosóficos ou psicológicos, sobre a vida de meia dúzia de mafiosos caricaturais.
Repare-se em Tony Soprano, por exemplo, uma das mais complexas personagens televisivas de sempre. E recorde-se o último episódio, transmitido segunda-feira, na 2. Tony conversa com a doutora Jennifer, sua psiquiatra, e confessa a cobiça pela noiva de Christopher, seu sobrinho.
A mulher mostra-lhe o caminho da redenção, único remédio para os seus ataques de ansiedade: ser um homem bom, lutar contra os instintos sexuais. A sequência acaba com um plano de Tony, olhar grave e céptico. Fica a dúvida sobre a eficácia da terapia: sabemos que Gandolfini é capaz da brutalidade e da compaixão, nunca saberemos o que aquela expressão significa.
Depois Tony encontra-se com Adriana, no bar desta. O noivo está fora. Tony oferece-lhe um copo, Adriana prefere coca. Tony não tem, mas sabe onde arranjar. No caminho até ao fornecedor, o carro onde seguiam tem um acidente. Nada de grave acontece. Mas no dia seguinte o boato circula rapidamente, entre a comunidade mafiosa de New Jersey e agentes do FBI, como uma piada ordinária: Adriana estava a fazer sexo oral a Tony.
Christopher é gozado e pede contas a Tony. Tony jura que não tinha intenção de ter relações com Adriana e é absolutamente convincente nessa declaração. O espectador, como Tony, continua a duvidar da terapia, e só lhe apetece exclamar, arrebatado pela dimensão do actor: És Grande!
Ricardo Dias Felner _ Público _ 13 Novembro 2mil4
:: sossegar
Gosto de sossegar como verbo transitivo. Sossegar só por si não chega. É mais bonito sossegar alguém. Quando se pede "sossega o meu coração" e se consegue sossegar. Quando se sai, quando se faz um esforço para sossegar alguém. E não é adormecendo ou tranquilizando, em jeito de médico a dar um sedativo, que se sossega uma pessoa.É enchendo-lhe a alma de amor, confiança, alegria, esperança e tudo o mais que é o presente a tornar-se de repente futuro. É o futuro que sossega. "Amanhã vamos passear" sossega mais que "Não te preocupes" ou "Deixa lá, que eu trato disso".
Sossegar não é dormir. É viver.Uma pessoa sossegada é capaz de deitar abaixo uma floresta. O sossego não é um descanso - é uma força. Não é estar isolado e longe, deixado em paz - é estar determinado no meio do turbilhão da vida. Sossegar é saber com que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece. Não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos de uma pessoa com quem se pode contar. É um alívio.
excerto de "sossegar" _ in "Verbos Irregulares"_ Miguel Esteves Cardoso
:: amor digital
Não consigo começar a escrever. Toca o meu telemóvel a anunciar mensagem escrita, toca o da minha filha em desgarrada com o meu. O teor das mensagens é mais ou menos o mesmo; as dela são escritas numa espécie de morse, um labirinto de linguagem teen, infinitamente mais rápida de debitar do que a minha já anacrónica para a era.
E tenho pena.
Pena, por ter de acelerar a minha capacidade de resposta na ponta do dedo. Pena, por não poder saborear devagar cada letra, como as sopas de letras que nos distraiam em palavras de massinhas, equilibradas na borda do prato. Pena, por todo o mecanismo desencadear em mim um nervosismo sobresselente, uma espécie de dependência digital do aparelho e do outro, e do efeito que o meu dedo causa no outro. É giro. Infinitamente giro, como infinitamente mortal porque, como qualquer outra droga, vicia, desarma e evita que as pessoas se olhem e se saboreiem com o olhar, se deliciem no prazer dos gestos, na forma a informar a forma...
O dedo leva-nos a conta-gotas até ao outro, um conta gotas rápido de mais, uma espécie de soro que entra de repente e nos cria a fantasia de sermos donos do mundo. Mentira é mentira. Ninguém ama alguém tipo ET ao toque do dedo no alfabeto, ninguém constrói amizades, inventa relações, governa a vida se não for à moda antiga, cumprindo etapas, marcando encontros, pensando a dois, saboreando uma santola e umas amêijoas numa saudável tagarelice ao fim da praia. Ou tocando. Não no inventor de sonhos, mas na mão do outro.
Hoje já não se comunica, contacta-se. E o contacto virtual e digital, através de todos os aparelhos domésticos e portáteis que temos ao nosso alcance, não é nunca a forma certa de estar com o outro, não é a mais certa mas, a mais fácil e curta. Há lá alguma coisa que se compare aos olhos do outro?
Por isso gosto tanto dos olhos. Gosto da luz líquida dos olhos. Costumo dizer que me basta ver a cara das crianças nas escolas que tenho andado a visitar, para perceber muito mais do que em mil e um relatórios que me possam dar para ler. Comunicar não é tão complicado como parece, nem tão simples assim. Tem-se medo de comunicar, tem-se medo deste encanto e deste veneno, absorvemo-nos nas mil e uma formas que podemos dar às letras. Tornamo-nos poetas e músicos, mágicos e malabaristas de letras pessoais e intransmissíveis na nossa versão virtual de circo encantado e o pior é que as tomamos como suficientes para aproximar, para estar perto, para tornar ainda mais saudosas as saudades.
Gostamos das palavras, isso sim, gostamos tanto das palavras, da sua doçura velada, que estamos longe de perceber como são finitas quando se confinam a ser só palavras fechadas em cofres digitais. Apaixonam, redimem, sobram, faltam, mas não são nossas, são iguais às do outro, iguais às do gajo na toalha estendida ao lado da nossa, estranhamente iguais. O que as distingue são as emoções que em nós se fazem, o que as distingue é a nossa capacidade de pegar nelas, descer ruas a pino, encontrar a tal esquina prometida e fazer delas das suas metáforas, das cores, das imagens «pessoas crescidas» que andam e falam e têm vida própria.
Mas não,
ainda que se viva no mesmo quarteirão, vivemos cristalizados no interior da nossa cabeça, só aí, sobretudo aí, quando as pernas não chegam para tudo e o dedo vai mais longe desdobrando-nos em infinitas combinações e matrizes possíveis e capazes de nos enlouquecer. Tudo isto sem sair de casa, como cápsulas que se tomam para alienar a fome, tipo Guerra das Estrelas, quando já poucos querem comer a sério ou sentir a sério. Ou dar e receber a sério.
Eu gosto delas, do seu vazio luminoso, aquecem-me e levam-me para perto das pessoas de quem gosto. Mas a fórmula - I miss you. I love you. I call you - não é desculpa para tudo. Só por si vale pouco, como as batatas sem bife, dão sabor, apimentam, agigantam a vontade, compõem um prato mas, só por si, valha-me Deus! E o bife ? É a bife que nos movemos. Sem bife, que se lixem as batatas!
Eu cá gosto de gostar devagarinho, gosto que me vejam abrir a porta com os cabelos primeiro, depois com os olhos e no fim com o meu sorriso habitual. E de ser por mim que esperam. Gosto de subir as escadas a saltar degraus, gosto de tocar, gosto de rir a meias, de tomar banho a meias, gosto de acordar com quem gosto, de descer ruas e cruzar rios, para ir outra vez adormecer nos braços de quem gosto.
Gosto muito mais do amor antigo do que este «à la carte» que ainda por cima agudiza as saudades e mata a coragem de matar as saudades de viva voz. Dantes, as cartas a tinta permanente, em dobras macias e eternas, demoravam o tempo todo do Sol e da Lua a cumprir-se, mas guardavam-se no cantinho do coração e não havia delete que as arrumasse na poeira do tempo.Tenho pena que este prazer digital asfixie o sabor da pele, a luz macia da voz, os gestos do olhar, premiando olimpicamente a pressa do tempo numa espécie de pombo-correio em voo picado telecomandado por nós, eternos fabricantes de sonhos.
por Maria João Lopo de Carvalho _ vidasexpresso _ 27.07.2mil4
:: deslumbra-me
Deslumbra-me a forma como dez minutos em frente aos nossos pais tem a capacidade de nos transformar, qual abracadabra, em adolescentes rebeldes e irritantes.
Cidadãos pacatos e tolerantes, colegas simpáticos e compreensivos, por outras palavras, adultos maduros e ponderados, regredimos de forma assustadora quando chegamos perto das nossas mãezinhas ou discutimos com o nosso pai qualquer coisa tão banal como o estado da nação ou o preço da gasolina.
De repente, remetemo-nos ao papel de contestatários, contradizemos só pelo prazer de ser do contra. Por muito que tenhamos jurado que desta vez não entramos no jogo, mal pomos o pé em território materno esquecemos todas as boas intenções. Geralmente basta um simples comentário do género "não tens tido tempo de ir ao cabeleireiro pois não?", "andas a trabalhar demais", ou mais estridente " olha que o menino cai", para desencadear as hostilidades. Se fosse outra pessoa qualquer a fazê-los, provavelmente responderíamos objectivamente, e quem sabe até abrindo o coração, mas ditos por um progenitor soam a provocação, directa, mais um lembrete que não somos exactamente aquilo com que sonharam.
E essa mágoa interna, somada ao desespero de verificar que não desistem de nos moldar a seu gosto e contento, para nosso bem evidentemente, lança-nos para dentro da trincheira, para o centro da batalha que há muito julgávamos encerrada. O resultado é desastroso, porque quando nos sentimos atacados, atacamos, damos por nós a dizer exactamente aquilo que sabemos que não gostam de ouvir, a encolher os ombros à semelhança do nosso insuportável teenager de 14 anos, ou a lançar um dah entre dentes, que nos deixa horrivelmente envergonhados de tanta infantilidade.
Tem uma vantagem óbvia, no entanto. É que, quando chegamos a casa e enfrentamos os nossos próprios filhos, percebemos perfeitamente o que lhes vai na cabeça. E não nos sentimos tão desesperados quando contestam tudo o que dizemos. Afinal, sabemos, por experiência própria, que é por os marcarmos tanto e tão fundo que precisam de nos empurrar para um bocadinho mais longe.
é fascinante, a sério que é. As escaramuças entre pais e filhos querem dizer que ainda não trocámos de papel, que resistimos heroicamente a inverter a partida. Se a um velhinho que não nos é nada aceitamos sem nervosismo que troque as histórias, lhe ouvimos os queixumes com empatia, já a conversa é outra quando se trata dos nossos pais. Corrigimo-lo, emendamo-lo, (não foi nada assim, olhe lembre-se lá...) num exercício por vezes cruel que não passa de um pedido desesperado de que não deixe de ser como era.
E os pais que obstinadamente se recusam a reconhecer a nossa idade, ou seja, continuam a ajeitar-nos o cabelo e o casaco, a interrogar-nos sobre os nossos actos e decisões, são pais que não desistiram de nos ter como filhos e de nos educar até ao ultimo minuto.
E o mais divertido é que nem precisamos de falar. sabemos tão bem o que querem de nós, que basta um arregalar de olhos, ou um suspiro mais profundo, para sentirmos a seta chegar direitinha ao alvo. E o seu poder é tão grande que, contra toda a nossa vontade racional, saímos dali directos ao cabeleireiro da esquina, na tentativa vã de sermos o filho ideal, provando-lhes (com raiva) que conseguiram ser os melhores dos pais.
Tudo, para na visita seguinte iniciarmos de novo o jogo...
Isabel Stiwell _ DNmagazine _ 09.11.2mil4