O Ricardo do Blog
Filho do 25 de Abril com escreve um artigo sobre a União Europeia em que me cita, o que eu agradeço e acho que não mereço.
Começa o artigo por escrever que:
“Eu reconheço que nem sempre a União Europeia (UE) tem sido um factor positivo para a economia portuguesa. Mas esta lógica tem limites!”
Dizer “nem sempre tem sido um factor positivo para a economia portuguesa” subentende que “muitas vezes tem sido um factor positivo para a economia portuguesa”.
E começamos logo aqui a discordar. Na minha opinião a UE tem sido quase sempre um factor negativo para a economia portuguesa. O que não quer dizer que ocasionalmente não tenha tido qualquer vantagem.
O argumento mais citado a favor da bondade da UE é mais ou menos o seguinte “olhem como Portugal estava em 1974 e como está hoje depois de ter entrado para a UE”.
Este é o argumento indonésio pois era o argumento que Suharto (antigo ditador da Indonésia) usava para justificar a ocupação de Timor, “olhem como está Timor agora e como estava Timor quando os portugueses sairam”.
Este argumento esquece que entretanto passaram dezenas de anos e que Timor, se fosse independente (ou mesmo se continuasse português) não teria ficado parado.
Este argumento até serve para justificar o salazarismo “olhem para o Portugal de 1974 e para o Portugal de 1926”...
É portanto aquilo a que se hama um não-argumento. A bondade da adesão à Ue não pode ser avaliada deste modo. Tem é de ser avaliada com casos concretos, política a política. E aí as coisas falham totalmente.
Qual é a política da UE que nos favorece e que nós não podiamos ter adoptado se não estivessemos na UE?E a esta pergunta ninguém responde...
Em seguida o Ricardo diz que não sabe o que é que eu defendo, se uma saída do Euro e até da UE ou se defendo qualquer outra solução.
Bom, a saída do Euro impõe-se cada vez mais. A situação financeira e económica está cada vez mais insustentável e,cedo ou tarde, teremos de sair. Quanto mais tarde o fizermos pior. Não há nada mais negativo do que decidir obrigado por acontecimentos que não dominamos.
A Argentina e a sua dolarização levaram dez anos a levar a Argentina à bancarrota. Nós vamos pelo mesmo caminho e não me espantaria nada de que o prazo fosse o mesmo. Teriamos portanto ainda quatro anos para alterar o rumo que estamos a seguir.
Quanto ao resto, eu acharia que o melhor era voltarmos à EFTA, como a Suiça.
Em seguida o Ricardo escreve “Proponho então um exercício que analise se Portugal fora da UE poderia ter políticas muito diferentes das que a UE propõe”.
Há aqui um problema de fundo, a UE não propõe políticas, a UE
impõe políticas, o que é muito diferente.
Mesmo que actualmente as políticas que um Portugal livre da UE adoptasse fossem as mesmas da UE, nada nos garante de que amanhã a UE não decidisse ter políticas diferentes que iriam contra os nossos interesses. O que o Ricardo diz é que se as políticas actuais da UE nos agradarem, o melhor é passar um cheque em branco à UE para, no futuro, determinar quais as políticas que devemos seguir!
O Ricardo entra então num exercício de imaginar o que é que poderia acontecer a Portugal fora da UE.
Mas começa logo por dizer que “vamos admitir que a saída de Portugal da UE não envolvia a devolução de fundos nem custos administrativos na recuperação da autonomia das políticas, inclusive na (re)conversão do EURO para o escudo”.
Claro que a aventura Euro nos sairia cara, muito cara e a reconversão para o Escudo teria custos. Tal como a introdução do Euro teve (e, que eu saiba, nunca foram contabilizados).
No resto acho que é exactamente o contrário. Uma saída da UE obrigaria a uma indemnização pois os bens da UE são de todos os estados membros e se um saí os outros teriam de lhe comprar a sua parte.
Quanto à devolução de fundos é uma ideia que muita gente tem, se saissemos teriamos de devolver tudo o que recebemos! Claro que isto é totalmente absurdo. Portugal recebeu mas também pagou e muito do que recebeu deu a ganhar a muitas empresas de outros estados membros que pagaram lá os seus impostos. Já agora, se Portugal saisse a Espanha era obrigada a devolver-nos o peixe que pescou nas nossas águas?
Por fim o Ricardo faz alguns exercícios sobre o que é que Portugal poderia fazer se recuperasse a sua moeda, valorizava, desvalorizava?
Simples, Portugal tem uma produtividade inferior à média europeia. As diferenças de produtividade são normalmente compensadas pela moeda que quando um país tem uma produtividade menor, se desvaloriza um pouco, quando tem uma produtividade maior, valoriza-se um pouco. Naturalmente o escudo desvia-se desvalorizar um pouco o que protegeria a nossa produtividade e teria efeitos benéficos nas exportações e no mercado de emprego.
Mas havia mais coisas a fazer. Por exemplo, a nossa taxa de juro devia ser um pouco mais alta, etc., etc.
Ao longo do tempo haveria periodos em que as políticas financeiras portuguesas seriam iguais às da Ue e outras em que seriam diferentes. Naturalmente os periodos em que seriam iguais tenderiam a aumentar à medida que se realizasse a convergência das economias portuguesas e das do resto da Europa.
No fim Ricardo escreve “Não vejo vantagens (e a existirem são sempre temporárias) em recuperar a política cambial e renunciar à resistência à especulação que o EURO oferece”.
Esta frase é curiosa. Quando as coisas começaram a correr mal o Mário Soares dizia que “se não fosse o Euro já cáteriamos o FMI”, esquecendo-se de dizer que se não tivessemos o Euro as coisas não estariam tão más...
Mas, no último Prós e Contras da RTP, Mário Soares mudou de argumento e disse exactamente o mesmo que o Ricardo escreveu, “se não fosse o Euro o escudo já estaria sujeito a forte especulação”.
Este argumento é aquilo a que se chama um “argumento de desespero”. O escudo existiu por muitos anos e nunca foi sujeito a fortes especulações. Não sei porque é que iría começar agora...
Termino este artigo, que já vai longo, a recomendar a leitura do “manifesto para o Euroralismo Checo”, mais precisamente a parte final “IV. ALTERNATIVES, SUBSTITUTS ET AUTRES SOLUTIONS”.
Este documento foi escrito por politicos favoráveis à UE e foi escrito antes da adesão da República Checa à UE.
Nele recomenda-se a adesão, mas não a adesão a qualquer preço. E no fim listam-se as alternativas à adesão caso as negociações com a UE não chegassem a bom porto. (neste documento a AELE é a EFTA).
O que Portugal devia ter feito era um documento deste estilo e depois devia-o sujeitar a amplo debate quer na classe política quer no público em geral. Se o tivesse feito talvez as coisas se tivessem passado de outro modo.