A Nossa Fala - XVI - Plangana
Então é assim: um rancho de pessoas ajustava com um proprietário o cultivo e trato de um determinado cereal, por exemplo, uma beirada de milho ou a ceifa de uma seara e consequente malha.... O mesmo valia para o olival, vinha, etc. O produto dividia-se em cinco partes, quatro das quais eram para o patrão e uma para os componentes do rancho que ajustara o trato.
Era eu garoto, portanto pau mandado, participei no acompanhamento de alguns quintos: sachava e aterrava milho e ia à água com uma cântara para dar de beber ao pessoal e, no tempo da ceifa, para molhar os colmos para fazer os nagalhos com que se atava a semente. Trabalho sacana porque a cântara não se podia pôr ao ombro por causa do rebordo que feria e, na mão, pesava que parecia chumbo, tanto mais que a fonte não ficava mesmo ali ao lado.
Foi numa destas partes em que, lembro-me bem, meu pai matou cinco cobras e partiu uma foice a matar a terceira que queria mamar os caçapos de uma lura que ele tinha achado. O comentário: "à puta da cobra cheira-lhe a leite e quer papar os caçapos". De vez em quando lá ia a ver o que se passava. Acabou por trazer os caçapos para casa. Foi então numa dessas partes que a ti conceição do penajóia que estava encarregada de fazer o almoço: feijão encarnado, massa manga de capote, com muito toucinho, buchanha, chouriça e outras partes do animal por excelência que é o porco, se dá conta que a panela de ferro só deitava 'escuma'. Eh! cachopo!, carraio puseste tu na água que a panela só bota escuma?? Eu?, nada. Vou à fonte apanho a água e trago-a limpinha. E ela: daqui a nada são horas do almoço e não tenho isto pronto. E eu a pensar: pior estou eu que estou farto de acarrejar água e não há meio de dizer que já chega... E a panela a deitar espuma para fora a apagar o lume e mais água fria para dentro e mais um arreganho na panela e a ti conceição: traz lenha moço, traz lenha. E eu lá ia buscar mais giestas e ramadas de carvalho secas,punha no lume aumentava a ala, mas a puta da escuma sempre a apagar o lume e a fazer mangação de mim e da ti conceição. Traz mais água, dizia ela. Estou trabalhado, dizia eu. De repente a mulher lá se convenceu que o que acontecia não podia ser e diz para mim: olha lá, isto não pode ser. Temos que despejar a panela.Traz-me aí as PLANGANAS e ajudas-me a despejar. E eu: pomos aqui um colmo espalhado, botamos a panela para cima da palha, o entulho fica lá e a água some-se! e ela: rais ta parta garoto: despacha-te atão. E o que era? A velha tinha lavado a panela e esqueceu-se do esfregão do sabão lá dentro. Rais trinta ma partam! vai a mais lenha, corre!
Despejou a cântara para panela, ateou-se o lume e lá se cozeram os feijões e mais o adubo que o caldo exigia a horas de o rancho comer.
Isto era um sábado. Domingo, havia intervalo: os velhotes vestiam o surrobeco, penduravam de uma corrente o relógio de bolso na casa cimeira do botão do colete, travavam a jaqueta num ombro e, depois de missa, havia fito com fartura, tinto a cada trinta e um e consequente arrebenta, bebedeira que bastasse e porrada muitas vezes. Boa mistura... Pior , era quando Três Dôques, especialista no jogo da cavaquinha e a quem baptizaram assim porque num jogo de bisca de nove por três vezes seguidas ficou com três duques na mão ( ele chamava-lhes dôques) e protestou: "três dôques seguidos não pode ser; arreio o jogo! e lá ficou o três doques.Mas, pior, dizia era quando ele, maroco, zé verniz, ferro velho e às vezes eu que também não era santo, se apanhávamos uma cadela saída, lhe passávamos pela vulva um farrapinho que atávamos na ponta de um pau e disfarçadamente untávamos as calças do surrobeco aos velhos do fito: os cães atiravam-se às pernas dos velhos e era uma risada geral com os velhos a praguejar e a enxotar os cães : garotos dum cabrão, se vos agarro! Mas nunca agarravam.
Num desses domingos apareceu, já a meio da tarde, lá em casa, ALBANO TABORDA CURTIS, o Tarzan e diz: vê lá se o teu pai por aí tem uma lebre e uns coelhos para eu jantar. Lá se lhe arranjaram os coelhos e a lebre e diz o meu pai: então isto é para quantos? e ele: eu e outro. Não pode ser, diz meu pai. Vais lá a ter daqui a uma hora e logo vês.
Fui eu mais o meu pai: os dois comeram a lebre, os dois coelhos, um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas. Sozinhos. Acreditem que é verdade.
E o meu pai: "mais vale sustentar um burro a pão de ló do que estes dois a palha".
E repetia: uma lebre, dois coelhos um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas; puta que os pariu, aos dois!"
