A contar desde 23 de Maio de 2005

Quinta-feira, Julho 21, 2005

A Nossa Fala - XVI - Plangana

Dos que me lêem, poucos terão participado em quintos, muitos nem saberão o que isso é e outros terão ouvido falar.
Então é assim: um rancho de pessoas ajustava com um proprietário o cultivo e trato de um determinado cereal, por exemplo, uma beirada de milho ou a ceifa de uma seara e consequente malha.... O mesmo valia para o olival, vinha, etc. O produto dividia-se em cinco partes, quatro das quais eram para o patrão e uma para os componentes do rancho que ajustara o trato.
Era eu garoto, portanto pau mandado, participei no acompanhamento de alguns quintos: sachava e aterrava milho e ia à água com uma cântara para dar de beber ao pessoal e, no tempo da ceifa, para molhar os colmos para fazer os nagalhos com que se atava a semente. Trabalho sacana porque a cântara não se podia pôr ao ombro por causa do rebordo que feria e, na mão, pesava que parecia chumbo, tanto mais que a fonte não ficava mesmo ali ao lado.
Foi numa destas partes em que, lembro-me bem, meu pai matou cinco cobras e partiu uma foice a matar a terceira que queria mamar os caçapos de uma lura que ele tinha achado. O comentário: "à puta da cobra cheira-lhe a leite e quer papar os caçapos". De vez em quando lá ia a ver o que se passava. Acabou por trazer os caçapos para casa. Foi então numa dessas partes que a ti conceição do penajóia que estava encarregada de fazer o almoço: feijão encarnado, massa manga de capote, com muito toucinho, buchanha, chouriça e outras partes do animal por excelência que é o porco, se dá conta que a panela de ferro só deitava 'escuma'. Eh! cachopo!, carraio puseste tu na água que a panela só bota escuma?? Eu?, nada. Vou à fonte apanho a água e trago-a limpinha. E ela: daqui a nada são horas do almoço e não tenho isto pronto. E eu a pensar: pior estou eu que estou farto de acarrejar água e não há meio de dizer que já chega... E a panela a deitar espuma para fora a apagar o lume e mais água fria para dentro e mais um arreganho na panela e a ti conceição: traz lenha moço, traz lenha. E eu lá ia buscar mais giestas e ramadas de carvalho secas,punha no lume aumentava a ala, mas a puta da escuma sempre a apagar o lume e a fazer mangação de mim e da ti conceição. Traz mais água, dizia ela. Estou trabalhado, dizia eu. De repente a mulher lá se convenceu que o que acontecia não podia ser e diz para mim: olha lá, isto não pode ser. Temos que despejar a panela.Traz-me aí as PLANGANAS e ajudas-me a despejar. E eu: pomos aqui um colmo espalhado, botamos a panela para cima da palha, o entulho fica lá e a água some-se! e ela: rais ta parta garoto: despacha-te atão. E o que era? A velha tinha lavado a panela e esqueceu-se do esfregão do sabão lá dentro. Rais trinta ma partam! vai a mais lenha, corre!
Despejou a cântara para panela, ateou-se o lume e lá se cozeram os feijões e mais o adubo que o caldo exigia a horas de o rancho comer.
Isto era um sábado. Domingo, havia intervalo: os velhotes vestiam o surrobeco, penduravam de uma corrente o relógio de bolso na casa cimeira do botão do colete, travavam a jaqueta num ombro e, depois de missa, havia fito com fartura, tinto a cada trinta e um e consequente arrebenta, bebedeira que bastasse e porrada muitas vezes. Boa mistura... Pior , era quando Três Dôques, especialista no jogo da cavaquinha e a quem baptizaram assim porque num jogo de bisca de nove por três vezes seguidas ficou com três duques na mão ( ele chamava-lhes dôques) e protestou: "três dôques seguidos não pode ser; arreio o jogo! e lá ficou o três doques.Mas, pior, dizia era quando ele, maroco, zé verniz, ferro velho e às vezes eu que também não era santo, se apanhávamos uma cadela saída, lhe passávamos pela vulva um farrapinho que atávamos na ponta de um pau e disfarçadamente untávamos as calças do surrobeco aos velhos do fito: os cães atiravam-se às pernas dos velhos e era uma risada geral com os velhos a praguejar e a enxotar os cães : garotos dum cabrão, se vos agarro! Mas nunca agarravam.
Num desses domingos apareceu, já a meio da tarde, lá em casa, ALBANO TABORDA CURTIS, o Tarzan e diz: vê lá se o teu pai por aí tem uma lebre e uns coelhos para eu jantar. Lá se lhe arranjaram os coelhos e a lebre e diz o meu pai: então isto é para quantos? e ele: eu e outro. Não pode ser, diz meu pai. Vais lá a ter daqui a uma hora e logo vês.
Fui eu mais o meu pai: os dois comeram a lebre, os dois coelhos, um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas. Sozinhos. Acreditem que é verdade.
E o meu pai: "mais vale sustentar um burro a pão de ló do que estes dois a palha".
E repetia: uma lebre, dois coelhos um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas; puta que os pariu, aos dois!"

Domingo, Julho 17, 2005

Toquem os sinos a rebate


Desde há uma dúzia de pares de anos, p’raí, os fogos florestais é que, desgraçadamente, têm marcado os nossos Verões. Podiam ser as festas de aldeia, podia ser a volta a Portugal, podiam ser as eleições, até podia ser um daqueles programas rascas da TVI. Mas não! Floresta a arder, gente desesperada, é essa, cada vez mais, a nossa imagem de marca do Verão. Dou comigo a matutar, com alguma aflição, se esta “rotina” não induziu já no nosso sub-consciente colectivo uma espécie de conformismo e, em consequência, uma tendência para a passividade e para a apatia perante um fenómeno, aparentemente inevitável.

Perguntas simples:

Porque é qu’arraio se registam tantos incêndios, todos os anos?

É ou não é possível parar isto?

Respostas complexas.
Neste texto, são identificados 3 processos que estarão na origem do fenómeno:

  1. Políticas rurais do Estado Novo
  2. Surto migratório das décadas de 60 e 70
  3. Políticas erráticas das últimas 3 décadas

O desenvolvimento do assunto a partir daqui dava uma tese de doutoramento.

Salta-se para duas ideias interessantes expressas no mesmo texto, assumidamente optimistas:

  1. O rural é o único sistema que se consegue autoregular à revelia do “regulador”
  2. Pressupõe-se a vontade de (cada um de nós, gente boa) participar nesse sistema de autoregulação, mesmo sabendo que o nosso tempo de acção é ínfimo.

Pode retirar-se daqui que os fogos florestais fazem parte do “mundo rural”, quer pelo lado do contributo que dão para a sua destruição (o desequilíbrio em curso), mas também pelo lado do contributo que dão para a sua autoregulação (o equilíbrio em construção). O aparente paradoxo esbate-se se pensarmos num “novo” mundo rural, com outra floresta (ou sem floresta). Quando? Parece que não há mesmo maneira de prever.

A nossa vontade de participar no movimento conducente ao novo equilíbrio está garantida (falo por todos, está bem?), e não! não nos conformamos.

Fica a faltar que os responsáveis deste país sejam gente boa (como nós), sintam o mundo rural e a floresta (como nós) e enfrentem, COMÉDADO, o ordenamento do território, e as políticas agrícola e florestal.

Que toquem os sinos a rebate em S. Bento.

Quarta-feira, Julho 13, 2005

A NOSSA FALA XV - AMELANCADO

AMELANCADO

Zé pantelhão era latoeiro. Botava pingo de solda em caldeiro, pote ou cântaro. Fazia a mistura do chumbo e do estanho num rego de cimento. Aquecia o ferro numa pequena forja onde a hulha era afogueada com uma pinha e uma ventoinha que se rodava manualmente como uma manivela e que ele mantinha impecavelmente oleada. Numa latinha ao lado, pendurada dum prego retorcido, tinha o ácido que permitia a ligação dos elementos e, assim, unia o que estava desunido e permitia coalescência de materiais.
Percorria a parte sul do concelho em passo certo e no seu andar meneante fazia lembrar a banda da música naquele bamboleio sempre certo a partir do abaixamento do braço do mestre que indicava o início da marcha.
Tonho de aldeia, vizinho de pantelhão, sozinho quase conseguia reproduzir o som da banda. Só ele foi mais caminheiro andante do que pantelhão. Nem contrabandista ou comerciante de figo seco e outra marouva, que subiam a marvana e a serra da raposa e malcata até ao sabugal caminharam o que tonho de aldeia calcorreou. Foi visto muitas vezes em Lamego, a norte, e em Portalegre a sul e todo o distrito o conhecia. Figura ímpar nas suas calças pelo tornozelo, santo de ocasião pendurado em tabuinha segura à camisa por um alfinete já enferrujado, pé encardido metido em sapato avantajado, almotolia à frente e alforge atrás, navalinha atada à presilha da calça por baraço tão encardido como os pés, marreca acentuada e, claro, a mão direita sem três dedos, fruto de um rebentamento de uma bomba de foguete no S. Bartolomeu. O pai, o ti mnel ceguinho já trôpego acompanhava o tonho e de vez em quando tocava uns acordes numa guitarra com um som único. Deles se conta que uma vez o tonho foi pedir esmola a uma casa de campo e lhe deram pão com chouriça. Ele encheu o papinho com ela e ao velho deu só o pão seco. O velho, cego, mas de olfacto apurado, chamou-o à atenção: ó tonho cheira-me a chouriça! O tonho para além de lhe chamar mal agradecido esperou a oportunidade e ao passar dum regato junto a um sobreiro diz para o pai: salte que é rego! O velho saltou e bateu de caras com o sobreiro: rais ta parta tonho! porque não me disseste que estava aqui o sobreiro? E o tonho: então cheirou-lhe o pão a chouriça e não lhe cheirou o sobreiro a cortiça? Eu não acredito que o tonho tal tenha feito tanto mais que era ainda ele que mais ajudava a Maria da Luz que ainda anda por aí e as filhas do Zé Ambrósio.
Então onde é que está o AMELANCADO?
Aí vem ele: o tonho amelancou a almotolia que ficou a verter no fundo. Foi-se ao pantelhão e pediu-lhe: ó zéi, bota-me lá aqui um pingo no fundo da armetria e desamelanca-ma lá! O pantelhão olhou e disse: «ó tonho, não vês que não pode ser… o pingo não pega na gordura do azeite e o bico da almetelia não entra na ponta da bigorna.
- Então e agora? - pergunta o tonho.
- Arranjas uma botelha das do vinho e assim já não se amelanca nem precisas de pingo.
Lembrou-se o tonho da cabaça onde em garoto metia as agúdias e não foi de modas: mais um baraço no pescoço da cabaça e pronto! Aí estava o tonho armado com a nova almotolia.
Arrancou o tonho todo contente em passo de banda de música: tá,tá,tá,tárátáta, pópopó tchim,tátata,pópoótchim…e encontro-o eu ao fundo da lagariça : ó tonho, então que dizem os jornais? O tonho espirra a pregar um susto e invariavelmente: “a guerra vai acabar! Espetaram um prego no cu do Salazar”!

Sexta-feira, Julho 08, 2005

A NOSSA FALA XIV - COMÉDADO

O mundo dá as voltas do catano que nós sabemos. Tudo porque o mundo é redondo, não é um paralelepípedo. Antigamente, o mundo aparecia-nos a preto e branco, agora, chega-nos a cores. E, também o sabemos, o dia a dia, a noite a noite, a preto e branco, era substancialmente diferente do dia a dia, da noite a noite, a cores. Sobretudo à noite, era preciso dar a volta às cores da lua. Roubar galinhas, coelhos ou marouva - sempre para comer nunca para estragar - era uma boa opção para alguns contemporâneos dos Beatles que esperavam na aldeia, o tempo de ir para a tropa.

No solstício do Verão daquele ano, logo a seguir às bonecas de S. João que se queimaram na Lagariça, no Outeiro e no Cavacal, apresentava-se ela, a Lua, prenha da luz que o sol lhe emprestava desde o outro lado do mundo. Pitincouro, Lambranca, Fainica, Montanhaque e Pantelhão tinham construído um mapa das capoeiras e coelheiras existentes na aldeia, marcadas a caneta azul as que ofereciam boas condições de recolha de mantimento para a rambóia dos sábados que armavam no palheiro do Fainica, a caneta vermelha os alvos inexpugnáveis ou perigosos. Naquela data, já tinham visitado a maior parte dos azuis. Havia-os que era como limpar o cu a meninos, outros não. Havia vezes que a missão corria bem, outras nem por isso.

Numa das capoeiras de limpar o dito aos ditos, a coisa ia-se complicando por via da cóia que o Lambranca já levava e que, na verdade, já vinha das bonecas do dia anterior, porque ele correra-as a todas três. Tinha passado o fim da estival tarde no fito, intervalando para branquinho fresco em cada uma das 10 vezes que se tinha feito 31. Para não ter de ouvir a velhota, deixara-se ficar no povo, embandulhando mais meia dúzia de branquinhos frescos até que o sino da torre bateu as 10, hora aprazada com os comparsas comensais para demandar em busca de galinácio animal. Como era o mais delgado, cabia-lhe quase sempre aproveitar o buraco e agarrar a pita, sem incomodar muito o galo, enquanto os outros, estrategicamente colocados, montavam guarda no exterior. O sinal de perigo combinado era o pio do mocho que eles foram apurando ao longo do tempo.
- Putas das pitas, cheiram mal como um corno – sussurrou ele ao Pantelhão que estava mais próximo.
- Anda cala-te e avia-te. O esterco dos coelhos é bem pior.
Agachado, o Lambranca ia avançando aos encontrões aos fundos dos baldes de lata velhos onde elas depenicavam o milho e as couves migadas miudinho e misturadas com farelo, resmungando cada vez que sentia a bota deslizar na caca espalhada pelo chão de terra, mas o que o irritou mesmo foi ter posto a mão mesmo em cima de uma viscosidade mal-cheirosa quando, vacilante, mandou as duas mãos ajudar os pés, para se não estatelar.
- Foda-se! Já caguei a mão nesta merda da merda de pita.
Nessa altura, dando-se conta do intruso, a comunidade galinácea começou a manifestar-se algo agitada, a começar pelo galo de crista de açafate. Ao erguer-se com ideia de limpar a mão a alguma coisa bateu com a nuca num prego espetado na trave. O Pantelhão ouviu-lhe alguns impropérios e insistiu, baixinho:
- Faz pouco barulho, caralho! E avia-te, porra!
A coisa descambou mesmo foi quando o Lambranca, na ânsia de limpar a mão suja, a raspou com força na trave de pinho e espetou, fundo, uma escádia no dedo mindinho. Instintivamente, levou o mindinho à boca para aliviar a dor. O sabor amargo da caca de galinha fê-lo cuspir vigorosamente para cima dos bichos.
- Puta que pariu esta merda, eu vou é partir esta merda toda ó caralho!, berrou ele, descontrolado.
A capoeira reagiu, obviamente, com múltiplos cacarejares, cabeças já levantadas. Quase às cegas, o Lambranca alçou a mão ao calhas para agarrar uma das cabeças afuniladas na ideia de a calar de imediato com uma torcedela de pescoço. Estranhamente, quanto mais torcia, mais o animal cacarejava. Instalou-se o alvoroço no galinheiro. O Pantelhão desesperava do lado de fora do buraco:
- Ó Lambranca dum cabrão, qu’arraio de bulha andas tu aí a fazer c'as galinhas?
Já os outros se tinham juntado quando o Lambranca aparece com uma pita a estrebuchar desalmadamente, agarrada por uma asa. O Fainica foi o primeiro a perceber e a dar-lhe a volta fatal ao pescoço:
- Mata a puta da pita COMÉDADO, caralho!
A fuga foi mesmo à justa porque já se percebia o balancear de um candeeiro a petróleo que vinha dos lados da casa do Ti Ambrósio Fanhoso.

Noutro sábado, tinham marcado o palheiro do Ti Zé Manel Caturrão. Lá chegados, deram com fechadura e reboco novinhos, não havia hipótese de buraco para o Lambranca. Vira-se o Pitincouro: destelhamos o telhado. É muito alto, porra, lembrou o Fainica, só se a agarrarmos com uma corda. E onde é que está a dúvida? Vós, esperar ali no barroco que eu já venho.
Só foi preciso desviar 4 telhas. O Montanhaque alumiava com uma lanterna de pilha quadrada e dava as coordenadas ao Pitincouro que segurava a corda de nylon enquanto o Pantelhão ia atirando pedrinhas para fazer as galinhas levantar a cabeça.
- Alumia COMÉDADO, porra!
À enésima tentativa, a pita pedrês lá enfiou a cabeça no nó corredio.

30 anos mais tarde, no solstício do Verão, o filho do Lambranca havia de passar boa parte da estival noite a trocar SMS com a filha do Fainica. Não havia bonecas de S. João.

Terça-feira, Julho 05, 2005

A NOSSA FALA XIII - ENCORRANCHA

ENCURRANCHA OU ENCORRANCHA


Certo, certo é que a memória não encurrancha. Cheguei a esta asserção ( para o povo que não sabe o que é encorrancha, não estranhe que haja quem não saiba o que é uma asserção) ; ( eu até propunha ao “dono” do blogue que se criasse um glossário onde o maralhal pudesse ver o que as palavras queriam dizer); ficaria assim explicado o que é um batorel, um tamoeiro, uma cravelha, um cancelão, um brocho, uma brocha, uma cisgola, uma fanega , um moio, um caisenadinha, um dembanão, um chirrichichi, uma infusa, uma semilha, uma paveia, um canelo ou até um picanço bacoreiro, um tropa - gatos, um espadacho dos grandes, um flecho, para não falar de um piorno, piorna ou piorneira, ou duma pieira que até tinha direito a ladainha e tudo quando caía um dente dos de leite à canalha: «Pieirinha pieirão, toma lá este dente podre e dá-me cá outro são» ) (...). estais vós a ver agora porque é que a memória não encorrancha?( ou encurrancha)?
Vamos lá então à história ou estória ou aventura ou a um desencurrancho. ( ou será que é desencorrancho) .Ouvi isto tanta vez ....mas nunca o vi escrito. Olha, vai onomatopaico. Como vos parecer, assim é).
Já algum de vós viu um ninho de papa–figo? Aquilo é uma obra de arte! Um ninho suspenso como se fora uma cesta de verga das de tiras de castanheiro bravo. Um espectáculo, um deslumbramento! Verdadeiramente excepcional. Só vi um, mas vedes que não me esqueci. Lá está: a memória não encurrancha!
Claro que caí do cabrão do sobreiro quando fui tirar o ninho do papa-figo. Caí eu e a pernada e, claro, o ninho. Lembro-me como se fosse hoje!
Tempos dum cabrão eram aqueles em que, garoto a saber a tabuada, acompanhava o velhote a Alcanena, ali mesmo ao pé dos olhos de água onde há uma remanescência que só vista ( vedes a falta que faz o glossário?). Só a visitei muitos anos depois: à remanescência e ao Alviela que, aprendi eu, dava a água a Lisboa... ( Lisboa devia só beber vinho e laranjada , que a água que ali nascia dava mal para um povo de aldeia). Bom, mas adiante que a memória dorme mas não encurrancha.
Aí alombei com alguns quilos dos grandes que o caminho era feito a pé e a dis- tância aumentava a cada passo em vez de minguar. Míngua tinha eu de uma infância infantilmente vivida. Mas era o tempo em que não havia lugar nem tempo para essas mariquices da entrada gradual no mundo do trabalho... Ah! Tempo! Já o velho comandante dizia: ah tempo! Um dia trago-vos só o comandante. Fica prometido.
E doutras coisas que eu me lembro. Se não lembro parece que as revivo quando escrevo. E se o bom actor é aquele que quando se apresenta e para mim representa, me deixa sem saber se está a representar-se – isto é, se está a ser a sua própria pessoa -, ou se está a representar e, assim, o que ele representa não é a sua pessoa mas a pessoa do outro que ele empessoou na sua pessoa e, assim, é um hipócrita no sentido grego do termo, já que parece uma coisa e é outra. Usa diferentes más-caras. Com filho da puta, já vos dei cabo da mona. Sabeis porquê? Porque a memória não encurrancha! Às vezes dorme. Mas não encorrancha.
O actor é para ser levado a sério senão finta-nos. Olhai para os políticos! Se os não levais a sério, eles enrabam-vos a brincar. Mas não sejais vós a pôr a manteiga. Encostai antes as nalgas à parede...As nalga e as patas. Escoiceai-os! Olhai que a memória dorme mas não encorrancha. Este conselho vos dou eu.
A esta hora estais vós a dizer: porra! Este não é o mesmo changoto dos outros textos! Mas é! Vos asseguro eu que sou o mesmo.
Só que a memória não encorrancha e veio aqui a ter muita alembradura.
Já dizia o meu avô comandante do inferno: quem quer bolota, tropa! (uma vez que não temos glossário convém dizer que este TROPA, pertence ao verbo TREPAR e o imperativo da ordem feito indicativo presente no caso seria TREPA) . Já agora sempre se assinala que na raia sul a bolota se distingue da lande e da boleta e ainda da azinha ( se é doce e boa para comer crua ou assada), locais onde o dito parafraseado é assim:” quem quer bolet(r)a, trepa! ( leia-se trêpa).
O que vós aprendeis neste blogue!
Mas vamos à história do encu(o)rrancha:
A bandeira de guerra tinha ido ao guerrilhas a mandar fazer uns sapatos finos para o casamento do filho do espeta-figos. A noiva era garriça! Gente do campo. Bravia quanto baste e com uma escola que fazia com que o zé inverno não arrebitasse cachimbo em matéria de decidir o que quer que fosse, salvo em definir onde plantaria os tomates, os pepinos e o feijão, as batatas e as couves, para além de escolher o borrego para a sra do incenso. Fora isso o inverno encolhia. Nem o chapéu escolhia que eram ela que lho comprava. Alguns lhes vendi eu. Olarila!
Bom, mas a bandeira de guerra que era prima da garriça velha, foi então encomendar uns sapatos ao guerrilhas, artista da sovela e da ponta de cabo, em linho nº6, da ataca e da tomba em bota cardada. Ó Lurdes diz o guerrilhas, tenho aqui um atanado ensebado que isto faz um sapato macio como um filha da puta, mas não o podes deixar ficar à água, cassenão encorrancha. Isto é que é artigo! Mando-te virar os sapatos em Castelo Branco, na loja do Barbas, ali mesmo ao pé da sé e fazes uma figurona no casamento do espeta figos. Não podes é andar com eles à agua. Se chover no dia do casamento, não os ponhas a secar ao lume. Põe-os na adega, aí obra duns três dias e traz-mos cá que eu dou-lhe uma cera de burnir à mistura com cera de abelha e sebo de cabrito velho. Ficam como novos e não encorrancham.
Dão-te até ao casamento da tua Beatriz, ou eu não seja guerrilhas.
Mas assim não os posso levar ao campo, retorque a bandeira de guerra.
Tu és parva ou quê? Para isso compras umas sandálias de pneu de avião, ponteadas por dentro e em cabedal do rijo. Ficas servida para dez anos. Essas já não encorrancham. Inda vais ao meu enterro com elas.
Então, não é que foi mesmo? E as sandálias não estavam encorranchadas. O mesmo não se podia dizer do guerilhas...

Domingo, Julho 03, 2005

Requiem

Foi anunciado o "adeus até ao meu regresso" do blog mais interessante (para mim) da blogosfera portuguesa.
Resta-me (nos) esperar pelo regresso do webcedário.

Noutro estilo, também se lamenta o fim do barnabé .

Quinta-feira, Junho 30, 2005

A NOSSA FALA XII - MARIGADA

A Marigada (ou marigueda)

Nome comum para toda a variedade de fruta, mais ainda se se trata de a ir a gamar , é MAROUVA.
Gabava-se o velho peidorreiro que a ele ninguém lhe gamava a marouva e montou uma choça de pastor debaixo da cerejeira. Ouvia-se a ressonar no cimo dos cabeços a partir da lameira da pinta.
Bardinas por excelência, coiote pete, tôcojoão com seu cão favorito toniche e bruto amola tesouras,filho do ferreiro que aguçava a pedra das agulhas ao maralhal que ia da tasca do fatela até acima com um calhau embrulhado num jornal e vinha com outro estrada abaixo já com a pedra aguçada, eles os três, decidiram gamar as cerejas ao peidorreiro. Era assim que se calejava a malta.
Escaldado também eu fui um dia, não com a pedra das agulhas, mas com uma mata bicho às seis e meia. O meu destino era levar uma bilha de gás ao chicharro, detrás do cemitério. Chovia como um corno, mas a vida tem que se gramar como vem. Quando com o meu carrinho de duas rodas , mas de caixa aberta, a aparar a água, o mouraria me chama de dentro da tasca do fatela: anda cá! então não vês que nos enganámos a contar! Mandei vir cinco copos e só éramos quatro. O fatela diz que o que se manda vir tem que se pagar. Aproveita tu!Anda.
Entrei, mamei o copo da jeropiga e virei-me para ir levar a bilha quando me deparo com um semicírculo: Querias beber e não pagar? Agora mandas vir seis que há-de cair outro! E foi assim.
Escusado será dizer que quando regressei já o mouraria, o marrafa, o bites, o prim e puta maluca, estavam com uma bácora na cabeçorra que mal se tinham. O bites já cantava o fado e o mouraria acompanhava com palmas…
Bom… mas as vedetas da história são outras: coite pete, toco João e amola tesouras,bruto, principalmente se encorpava uns brandes.
Por volta da meia noite, já o café do adro fechara eles aí vão. Ouvem o peidorreiro e avançam…trepam à cerejeira, enchem bem os bolsos e, caladinhamente desceram .O toco, no entanto, volta atrás e enche o peito do peidorreiro ressonante com as cerejas. Abalaram e foram comer as cerejas para o batorel do peidorreiro, onde cuspiram os caroços.
Naquele tempo as ruas de aldeia não atordoavam com os barulhos das moto4 e começam a ouvir uns gritos. Aguçam os ouvidos e conferem que se trata do peidorreiro a berrar que nem um capado acusando tudo e todos em linguagem não reproduzível.
Riram a bandeiras dspregadas e lá se foram a dormir com o papinho bem feito com as cerejas do peidorreiro.
Mal amanheceu ele aí vem, nariz adunco, olho remelado e cara por lavar, camisa com nódoas de cereja e tamancos de pau que se ouviam a calcorrear as poucas pedras entretanto existentes ali ao pé do cruzeiro do cavacal. E vociferava: cabrões dum corno, roubaram-me as cerejas e ainda por cima vestiram-me com elas. Se eu sei quem foi parto-lhe a puta da fronha…, filhos duma grande…gatunos dum cabrão, gandulos dum filho do diabo, não houvesse um raio que lhes partisse as patas àqueles bandidos dum corno, galegos, se os caço…
Anda que às MARIGADAS já não mas mamam: vou lá a pôr um chocalho reboleiro em cada parnada, e deixo o trabuco carregado com zagalos e chapo-lhes a alma. Limpo-hes o sebo ali mesmo. Raios me partam se não lhes afundo o bandulho com um tiro.
Toda a rua se levanta a ver o que passa e o peidorrreiro lá contou e recontou a história vezes sem conta…Acabava sempre d mesma maneira: “anda que às MARIGADAS, já não mas mamam”.