julho 21, 2005

March of the Penguins

pinguim copy.jpg

Para vender o seu trabalho acerca do comportamento reprodutivo do Pinguim Imperador à Warner Bros, Luc Jacquet teve que aceitar um texto novo, lido com o timbre aconchegante de Morgan Freeman mas de conteúdo líquido falsamente modificado, diz-se, para a digestão das massas. Palavras como "instinto" ou "selecção" aparecem (?) muito apagadas no fundo gelado das antárcticas paisagens, pois o motivo a "aquecer" a mensagem passou a ter que ver com o "amor", a "dor da separação" e a "alegria do reencontro". A excepcional qualidade de imagem e o naturalmente extraordinário nicho ecológico destes animais bastariam para despertar o interesse das pessoas. Prova desta verdade é a popularidade de outros trabalhos cinematográficos e de várias séries televisivas quer pela National Geographic quer como co-produções entre esta e grandes estações de televisão. O "Blue Planet" da BBC é um bom exemplo. Assim, ao divulgar as belezas da Biologia exigindo a omissão dos seus termos, cai-se no risco de ober um resultado final em que as "simplificações" passam de "estimulantes do apetite" a "eméticos".
Contudo, mesmo fazendo minha a pergunta de Roger Ebert e da grande Tina Turner (What's Love Got to Do With It?), não deixo de recomendar este filme. Ali não se exibe apenas um grande plano de sobrevivência em condições extremas. Luc Jacquet também traduziu para a tela algumas perguntas com parca resposta na área do comportamento animal: criação de laços entre parceiros na relação monogâmica (que dura todo o período de reprodução), criação de laços entre progenitores e prole (e que envolve processos de reconhecimento do chamamento entre centenas de seres da mesma espécie, numa cacofonia difícil de imaginar para quem não trabalha na Bolsa de Valores de Nova Iorque), organização e orientação no modo migratório, e movimento individual estocástico e competição intraespecífica (que determinam o desenvolvimento da colónia contra as baixas temperaturas).
Além disso, a "cena de sexo" mete no bolso a actuação de um grupo considerável de habitantes de Hollywood e justifica a minha proposta de mandar estes últimos à Antárctica, em viagem educativa relativamente longa.

VB | 03:48 PM | Comentários (0)

julho 20, 2005

Comentários de volta

O Conta Natura padeceu de um mal informático que impossibilitou os seus incontáveis visitantes de enviarem os seus valiosos comentários. A situação já se resolveu pelo que pedimos a todos que reenviem os vossos comentários.

Peço desculpa em nome da equipa do Conta Natura.

Bruno Afonso

VMB | 08:40 PM | Comentários (0)

Diptera

Ordem Diptera, Família Tephritidae
Espécie Munromyia, Koru, Kenya
bfly.jpg

Existe um site fantástico dedicado exclusivamente às verdadeiras moscas, ou melhor dizendo à ordem Diptera da classe dos insectos: "The diptera site". É ainda um projecto em desenvolvimento, mas a quantidade de informação, e a qualidade da sua integração, são já excelentes. Estive a ver mais em pormenor o sub-site dedicado à família Tephritidae, tem fotos de moscas muito atraentes, que merecem a dedicação de um neurónio (ver "post" anterior sobre Brad Pitt). Li um parágrafo interessante sobre o comportamento de cortejamento nesta família:

"Courtship can be elaborate in some species, or simple and brief in others. Headrick & Goeden (1994) defined 14 movements or behaviors that commonly occur in courtship, which may include various types of body, leg, and wing movements, and/or transfer of a nuptual gift (trophallaxis). The latter behavior has been observed in diverse taxa, including species of Dirioxa (Acanthonevrini), Anastrepha (Toxotrypanini), and various genera of Tephritinae (Freidberg 1986, Aluja, Jacome et al. 1993, Headrick & Goeden 1994). The gift may be passed before or after copulation, and it may consist of liquid transferred by direct contact of the mouthparts (Freidberg 1982, Aluja, Jacome et al. 1993) or may be a solidified froth deposited on the substrate (Stoltzfus & Foote 1965, Pritchard 1967, Novak & Foote 1975, Freidberg 1981, Jenkins 1990).

Tenho dois comentários:
A- 14 movimentos diferentes é bastante mais do que se pode observar, em média, em qualquer bar/disco/club numa sexta à noite
B- trophallaxis, dar presentes para copular? estas moscas não sabem que estão a ter comportamentos politicamente incorrectos? e é isso que andam a ensinar aos nossos alunos de biologia? não ficaríamos melhor servidos com a teoria da criação?

PP | 02:03 PM | Comentários (1)

julho 19, 2005

Meditações computacionais

Tenho andado às voltas com alguns amigos meus sobre algumas questões com um pouco de biologica, um pouco de matemática, um pouco de física:

- Neste momento, a matemática e a física já estão avançadas o suficiente para construir um modelo de como funciona o cérebro humano e o sistema nervoso, perante fornecimento dos dados experimentais adequados?
- Ou será que, para explicar o funcionamento deste sistema é preciso algoritmos matemáticos e teorias físicas que ainda não foram completamente delineados?
- Ou ainda: será que o cérebro humano é capaz de compreender o cérebro humano? Por outras palavras, será que para compreender um sistema de um determinado nível de complexidade, não é preciso um sistema de complexidade superior?

MM | 04:32 PM | Comentários (0)

julho 18, 2005

Os ratos

kayo2_s.jpgQuem já perdeu a disposição para ouvir falar do Holocausto não vá embora. A referência aos acordos de Nuremberga com que começo este post serve apenas para distinguir um "pequeno" caso na nossa história: apesar da imposição da medicina factual ter sido inaugurada no séc. XIX, não é senão nos documentos dos referidos julgamentos que vemos pela primeira vez códigos internacionalmente aceites quanto à ética médica, em particular no que se refere à experimentação em humanos. Este "atraso" é somente o enunciado de uma questão hodierna: porque é tão lento o processo que dá força de lei aos princípios morais no domínio da investigação farmacêutica? O que vemos nos últimos decénios da nossa tão (orgulhosa e) carinhosamente chamada "época moderna", é afinal uma marcha lenta (ou ré?), pouco racional, mais baseada em escândalos e acidentes do que em planeamento e previsão, rumo à regulamentação segura do medicamento. Hoje o resultado convencional consiste no conteúdo da Declaração de Helsínquia (nos anos 60), definindo a ética da investigação médica, e o da Declaração de Manila (1981), especificando o problema dos testes clínicos em habitantes de países em "vias de desenvolvimento". A actuação de ambas nunca foi muito para além do papel.

Por outro lado, segundo dados do ministério da saúde em Washington (2001), se cerca de 10 mil ensaios clínicos são efectuados por ano nesses países (10% dos quais em África), o total de testes da mesma natureza financiados por fundos públicos e privados dos EUA passou de 271 a 4458 entre 1990 a 1999. Curiosamente porém, por cada 1450 novos medicamentos postos em circulação entre 1972 e 1997, apenas 13 dizem respeito a enfermidades tropicais. Porquê? Será novidade pensar que as farmacêuticas andam a usar humanos desprotegidos (mas gentios) como cobaias? A etiqueta "not tested in animals" na loção da l'Óreal também se refere a Africanos?
Nem pelo volume de negócios das empresas farmacêuticas (380 mil milhões de euros em 1999) ser já superior à reunião do PIB de todos os países do Sahel (300 mil milhões de euros no mesmo ano), deve ser menos difícil a estas empresas resistir à tentação de continuar a explorar a rentabilidade dos ensaios clínicos nesses países (cerca de cinco vezes mais baratos que em países "desenvolvidos"), devida à falta de legislação do medicamento (a mesma da ocupação colonial, que se senão é racista, é pelo menos obsoleta), a alta frequência de doenças contagiosas em ambientes epidemiológicos "propícios", as terríveis condições sanitárias na região e a natural docilidade dos pacientes.

Na minha opinião, foi com grande lucidez que Jean-Philippe Chippaux (director do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento, em Dakar) enumerou, num artigo recente (desculpem eu só ter conseguido "on-line" a tradução italiana do mesmo) algumas variáveis deste problema.

Primeiro, embora sem negar a importância dos testes clínicos em humanos como modo essencial de garantir a segurança de um fármaco e de obter a cura desesperadamente procurada por uma numerosa população humana, é indispensável evitar a manipulação dessa necessidade para justificar o mal.
Mas não é fácil definir o plano moral deste tema. Testar um medicamento que pode trazer a cura desconhecida para uma doença que afecta milhões é correcto? Eu digo que sim. Testar sem consentimento oficial prévio, como fez por exemplo a Pfizer, um antibiótico (Trovan) contra a meningite, "aproveitando" uma epidemia na Nigéria? Considerando que durante o tal teste 11 crianças não evitaram a morte e muitas mais, lesões cerebrais graves, eu digo que não. Já há antibióticos contra todos os tipos de meningite bacteriana. De qualquer modo, o Trovan acabou sendo retirado do mercado nos EUA, três anos após o sucedido em África mas por efeitos adversos no fígado dos norte-americanos durante tratamentos de outras infecções. (O processo judicial contra a empresa, apesar de iniciado há quatro anos, ainda não conhece data para o julgamento)
Outro ponto da moral deste tema consiste na decisão entre o que é tratamento preventivo e curativo. Quando, com o patrocínio da Fundação Bill e Melissa Gates, o medicamento de prevenção da SIDA, Tenofovir da empresa Gilead foi testado em populações nigerianas (com a subsequente suspensão dos ensaios clínicos pelo governo daquele país em 2005, por alegadas faltas éticas graves) e camaronesas (em 2004, sobre uma população de 400 prostitutas mal informadas - segundo duas ONGs algumas mulheres pensavam mesmo que estavam a ser vacinadas!), o medicamento já tinha sido aprovado pela FDA e comercializado nos EUA. Porquê então o teste? Para verificar se realmente o medicamento reduz a transmissão do HIV em África (enquanto já dava lucro na pátria amada), ou para ajudar a Microsoft a emaciar o fisco? Qual é a ética de dar placebo a um subgrupo (controle) de trabalhadoras sexuais em Iaundé (esperançadas de, com isso, viverem mais distantes do risco que diariamente as assusta), sem que lhes tenha sido aumentada a vigilância médica ou reforçada a tradicional terapia de prevenção contra a SIDA? Afinal a eficácia de uma terapia de prevenção do tipo Tenofovir numa população paupérrima e desmoralizada não será tão grande como a da profilaxia contra o paludismo do passado. Esta já havia demonstrado ser impossível promover o consumo quotidiano e permanente de um medicamento por aquelas populações, sobretudo se o fármaco é caro. Talvez seja cinismo da minha parte mas não creio que os donos da Gilead tenham sequer considerado a comercialização do referido medicamento em África após a aprovação do mesmo.

Em segundo lugar, se de facto na ordem de prioridades, melhorar a saúde colectiva dos países pobres vem antes do lucro de quem produz os medicamentos, é importante desenvolver testes clínicos em África de fármacos que não apenas correspondam às necessidades específicas do continente mas que se adeqúem às limitadas condições sanitárias, de farmacovigilância, de conservação e de actuação da prescrição médica, de modo a fomentar a adesão. Por outro lado, um lado mais "cultural", o interesse económico da farmacopeia tradicional africana parece cada vez mais ao serviço do Norte que dos próprios africanos. De teste e utilização mais económicos e socialmente mais aceitáveis, esses fármacos poderiam igualmente valorizar o património nacional e promover o desenvolvimento da indústria farmacêutica local.

Porém, tudo passa por um terceiro factor importante e já mencionado: o reforço e a vigilância por parte dos governos Africanos dos testes clínicos promovidos por grandes capitais. Para ilustrar o poder efectivo dos comités de ética (recomendados pela WHO desde Helsínquia) em países Africanos, bastaria olhar para a eficácia com que a sua página de Internet funciona.
Há também o problema crónico, agora muito na moda devido às sujas desculpas de uma certa organização sem fundamento legal internacional conhecida por G8: a corrupção do poder local. Sim, é verdade, todos sabemos que existe. Mas o gradiente da moral da classe política africana não corresponde (e nunca correspondeu, nem em África nem em qualquer outro continente colonizado por brancos) ao gradiente geográfico de critérios usados pelos países (menos corruptos?) do norte para "cooperar".
Em todo o caso, que dizer da "flexibilidade" das premissas morais que governam a relação entre a "Big Pharma" e os governos de África, se o próprio Phllipe Kourilsky, director geral do Instituto Pasteur em Paris, sustenta que a urgência de responder às necessidades sanitárias no terceiro mundo autoriza o abrandamento de restrições regulamentares? Assim, testar medicamentos de prevenção da SIDA entre prostitutas camaronesas justifica-se porque permite obter uma resposta rápida e decisiva sem complicações administrativas ou custos "excessivos". Olha a grande novidade, desqualificar o princípio da prevenção por causa das despesas.

Noutras palavras: ricos com poder e ciência impõem regras específicas a pobres desprovidos de direito a sequer aceitá-las.

VB | 12:21 AM | Comentários (0)

julho 15, 2005

Crónicas de Sexta-Feira: Choro

Quando um bebé nasce é confrontado com um ambiente familiar incerto. De modo a maximizar a sua sobrevivência os bebés evoluíram estratégias capazes de induzir e fortalecer a atenção dos seus pais. O choro infantil evoluiu como um sinal acústico capaz de comunicar necessidade de atenção. Em ratinho quando uma cria é isolada da mãe, emite uma serie de sons cujo objectivo é induzir a busca e ajudar a sua localização. Os sistemas neurosensoriais responsáveis pela modulação desta resposta projectam neurónios para centros neuronais que controlam a ansiedade em indivíduos jovens ou adultos.

Apesar do choro ter originalmente aparecido como um meio “honesto” de comunicar desconforto, por vezes leva a um conflito de interesses entre a cria e os seus pais. Tal conflito é particularmente óbvio quando existe uma ninhada numerosa e uma situação de falta de recursos. Neste caso pressões selectivas levaram a que as crias tenham evoluído um conjunto elaborado de respostas de modo a manipularem a atenção dos seus pais à custa dos seus irmãos.

Nos serem humanos o choro é frequente durante os primeiros meses a seguir ao nascimento do bebé. Existem no entanto casos em que sem razão aparente o choro é particularmente alto e longo (mais de 3 horas por dia, durante mais de 3 dias por semana). Apesar de poder ser um sinal de patologia grave ou de intolerância alimentar (por exemplo a lactose), com frequência tal choro traduz a robustez do bebé, dificuldades de controlo da duração do choro e eventualmente uma tentativa de induzir uma atenção acrescida por parte dos pais. A intensidade "anormalmente" elevada do choro humano, em comparação com primatas não humanos, pode ter sido o resultado de uma crescente ausência de predadores.

Ps. Este post não deve ser encarado como qualquer tipo de conselho médico.


Rui Martinho | 10:34 PM | Comentários (0)

julho 13, 2005

Buying time

A entrada sobre Cuba encontra-se momentaneamente embargada por motivos técnicos. Como hoje é o dia em que devo animar o estaminé, aproveito para deixar um enlace para o Portal Earth Trends, do World Resource Institute. O Portal fornece parâmetros demográficos, ambientais, sociais e económicos para todos os países do planeta, com uma apresentação e acessibilidade irrepreensíveis. Os dados fornecidos também me pareceram credíveis (depois de ter consultado a informação sobre Portugal).

VMB | 04:36 PM | Comentários (0)

Compañeros de Ciencia, quisiera perguntar

cuba.png
O título é inspirado na canção Playa Giron, de Silvio Rodríguez, o grande cantautor cubano. Nessa canção Silvio dirige-se às elites criadoras (escritores, músicos e historiadores) e pergunta como deve ele cantar o feito dos heróis da Baía dos Porcos, que rechaçaram a invasão de exilados cubanos apoiados pelo vizinho americano. Apesar da professia de Fidel em 1960, que previa para Cuba "necesariamente, un futuro de hombres de ciencia, de hombres de pensamiento", Silvio ignora os homens de ciencia na cancao. Urge pois perguntar como estamos de ciencia em Cuba.
(estou a ter problemas com o teclado sem acentos. O texto segue dentro de momentos. Barbosa, nao comeces ja a comentar!).

VMB | 10:14 AM | Comentários (1)

julho 12, 2005

Grandes questões

A Science começou a publicar uma lista das grandes questões científicas do nosso tempo, mencionando que havia suficiente para dar trabalho a muitos cientistas durante muitos anos. Achei que seria interessante debater algumas delas.
Cá vai uma:

Até que ponto a variação genética está ligada à saúde de um indivíduo?

Para juntar umas achas à fogueira:


Am J Epidemiol. 2005 May 1;161(9):831-9.

The role of cognitive ability (intelligence) in explaining the association between socioeconomic position and health: evidence from the Whitehall II prospective cohort study.

Singh-Manoux A, Ferrie JE, Lynch JW, Marmot M.

INSERM U687, National Hospital of Saint-Maurice, 94415 Saint-Maurice, France. Archana.Singh-Manoux@st-maurice.inserm.fr

Associations among cognitive ability, socioeconomic position, and health have been interpreted to imply that cognitive ability could explain social inequalities in health. The authors test this hypothesis by examining three questions: Is cognitive ability related to health? To what extent does it explain social inequalities in health? Do measures of socioeconomic position and cognitive ability have independent associations with health? Relative indices of inequality were used to estimate associations, using data from the Whitehall II study (baseline, 1985-1988), a British prospective cohort study (4,158 men and 1,680 women). Cognitive ability was significantly related to coronary heart disease, physical functioning, and self-rated health in both sexes and additionally to mental functioning in men. It explained some of the relation between socioeconomic position and health: 17% for coronary heart disease, 33% for physical functioning, 12% for mental functioning, and 39% for self-rated health. In analysis simultaneously adjusted for all measures of socioeconomic position, cognitive ability retained an independent association only with physical functioning in women. These results suggest that, although cognitive ability is related to health, it does not explain social inequalities in health.


E neste momento no meu instituto (tal como em muitas outros, tenho a certeza), há um grande debate sobre como estudar a genética da obesidade. Há factores genéticos que predispõe para ganhar peso excessivamente? Terão a ver como processamento de gorduras? Com o controle do apetite? Ou com factores psicológicos? Ou será tudo ambiental e cultural?

Para quem quiser ver o link original:
http://www.sciencemag.org/sciext/125th/

MM | 01:31 PM | Comentários (0)

julho 11, 2005

2005, Ano mundial da Física

A 58.ª Assembleia Geral da ONU, a 1 de Junho de 2004, declarou 2005 o Ano Internacional da Física, cujo lançamento ocorreu na UNESCO, em Paris, entre 13 e 15 de Janeiro de 2005. Portugal foi um dos principais impulsionadores do Ano Internacional da Física. Reconhece-se desta forma, que a Física tem um papel fundamental para o conhecimento da natureza, para o desenvolvimento tecnológico e para uma educação capaz de fornecer os instrumentos necessários à construção das infra-estruturas científicas, essenciais ao desenvolvimento.

O ano de 2005 foi escolhido por corresponder ao centésimo aniversário do "ano milagroso" (annus mirabilis) da produção científica de Albert Einstein, ano em que publicou quatro artigos lendários que criaram ou forneceram a base para o desenvolvimento de outros tantos campos fundamentais da Física, a saber: a Teoria Quântica, a Física Estatística, a Teoria da Relatividade e a Física Atómica e Nuclear.

De acordo com a maioria dos físicos qualquer um destes artigos seria merecedor de um prémio Nobel. No entanto, apenas o trabalho sobre o efeito foto-eléctrico acabaria por ser contemplado em 1921. O que torna os trabalhos de Einstein verdadeiramente notáveis, é que ele parte de pressupostos simples da física teórica e através de um raciocínio lógico consegue explicar resultados experimentais que tinham confundido a comunidade científica durante décadas.

O Efeito Foto-Eléctrico: no primeiro dos seus trabalhos Einstein propõe que a luz não terá apenas comportamento ondulatório (como se acreditava até então), mas também comportamento corpuscular. Isto é, Einstein sugere que a radiação luminosa que se propaga sob a forma de ondas seria transportada por pequenas partículas de luz, os “quanta” ou “fotões” de luz. Com esta modificação Einstein consegue explicar porque é que quando se faz incidir um feixe de luz sobre um dado material, só a partir de um certa energia crítica da radicação luminosa se consegue arrancar electrões ao material. Para explicar o fenómeno, Einstein faz a comparação entre bolas de bilhar e os electrões: imagine-se uma mesa com bolas de bilhar espalhadas pela sua superfície. As bolas de bilhar são os electrões na placa metálica. O fotão de luz seria outra bola, atirada contra a mesa. Fotões com energias suficientemente altas podem arrancar um electrão da placa, da mesma forma que uma bola atirada com muita energia pode arrancar outra bola da mesa. Mas se a energia for baixa, a bola permanece na mesa o mesmo acontecendo com os electrões da placa.

Movimento Browniano: no segundo trabalho Einstein explica de uma forma simples o movimento Browniano (que corresponde ao movimento aleatório de uma partícula de pólen em suspensão num líquido). Segundo ele, o ziguezaguear das partículas de pólen era o resultado das constantes colisões com as moléculas do líquido. Einstein obteve uma fórmula em que calculava a variação da posição da partícula em suspensão em função do tempo, mostrando como ela dependia do tamanho da partícula e da temperatura e viscosidade do líquido. Esta demonstração era baseada na existência real das moléculas do líquido e na taxa de colisão entre elas e as partículas em suspensão. Em 1908, o francês Jean Perrin confirma espectacularmente a fórmula de Einstein e a existência de um mundo invisível repleto de moléculas e átomos em colisão constante.

Relatividade Restrita: neste trabalho Einstein é capaz de reconciliar as leis de Maxwell para o Electromagnetismo com as leis da Mecânica, introduzindo uma correcção nestas últimas para velocidades próximas da velocidade da luz. A relatividade restrita tem diversas consequências impressionantes, porque os conceitos absolutos do tempo e da distância são rejeitados. Deixa de haver referenciais absolutos que era uma das bases das leis de Newton. Todo o movimento passa a ser relativo daí o nome de “teoria da relatividade”. A teoria da relatividade restrita continha porém alguns paradoxos e foi substituída por Einstein cerca de uma década mais tarde pela teoria da “relatividade geral”. Foi com a demonstração desta última em 1919, após a observação do desvio da luz de algumas estrelas durante um eclipse solar, que Einstein ganhou toda a fama e mediatismo de que goza ainda hoje.

Equivalência entre massa e energia: o último dos trabalhos de Einstein, publicado no final de 1905, continha uma das equações mais famosas da física E = mc2, ou seja, Einstein diz que a energia que possui um corpo de massa m é igual à sua massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Esta equação pode ser utilizada para prever a quantidade de energia libertada numa reacção química ou nuclear e esteve na base da construção das armas e centrais nucleares.

Alexandre Correia

RPA | 12:06 AM | Comentários (0)

julho 10, 2005

Introspecção

introspection.jpg

"More important, however, is what I learned about myself"

VB | 08:56 PM | Comentários (0)

julho 08, 2005

Crónicas de Sexta-Feira: Impacto do darwinismo social

Desde o iluminismo que o conhecimento científico funciona como motor de transformação social. No entanto o impacto do darwinismo social, com as inevitáveis ilações de uma permanente luta classes ou raças, é um exemplo dramático de como a ciência pode influenciar toda uma geração de utópicos. No caso do socialismo tais ideias traduziram-se no conceito de um progresso “natural” das sociedades humanas em direcção a uma utopia marxista. No caso do fascismo, o darwinismo social ganhou dimensões nacionalistas e xenófobas e alimentou um movimento intelectual que amadureceu no início do século XX.
Francis Galton, primo de Charles Darwin, declarou que a ciência deu à humanidade a possibilidade de se melhorar e defendeu que apenas os “melhores” se deviam reproduzir. A crença de que alguns grupos têm natural primazia sobre outros, a necessidade de evitar a influência dos “impuros” e a obsessão com o declínio e a corrupção das sociedades humanas são sentimentos centrais ao movimento fascista.
A História ensina-nos como os políticos podem, recorrendo ao populismo e à demagogia, extrapolar “verdades” científicas e aplicá-las a novas realidades sociopolíticas. Apesar do advento dos movimentos fascistas a seguir à I Guerra Mundial ter sido eventualmente inevitável, a lição parece ser óbvia. Nenhum cientista pode ignorar ou ficar indiferente ao impacto político (ou social) que a sua investigação pode ter na sociedade em geral.

Rui Martinho | 10:19 PM | Comentários (3)

julho 07, 2005

Fundos Europeus para a Bial, empresa sediada numa zona pobre de Portugal


EU clears 45 mln euros for R&D project in Portugal
06 Jul 2005 11:22:11 GMT
Source: Reuters
BRUSSELS, July 6 (Reuters) - The European Commission approved on Wednesday 45.2 million euro ($53.77 million) in public funding for a pharmaceutical research and development project in a poor area of Portugal.

The project will aim at developing two new medicines for the central nervous system. It will be run by a company known as BIAL, which is based in a part of Portugal suffering from a very low standard of living, the Commission said.

"I am happy to approve aid which promotes research and innovation, especially when it also supports the Commission's regional development policy," European Union Competition Commissioner Neelie Kroes said in a statement.

The project will be spread over five years, starting from 2004, and will consist of testing prototype drugs in animals and humans. It includes industrial research and pre-competitive development activities, which will be carried out both in and outside Portugal.

BIAL concentrates most of its activities in Portugal, where it ranks seven in the pharmaceutical sector, but it competes mainly with multinational companies, the Commission said.

PP | 10:23 AM | Comentários (5)

julho 06, 2005

Gestão de ciência


Uma das opções para quem termina um doutoramento em ciência é, pelo menos em alguns países, a carreira de gestão de ciência. Com o crescimento do investimento em ciência é óbvio que a actividade de gerir este esforço económico da sociedade se torna cada vez mais importante, não só do ponto de vista utilitário como para modular o próprio desenvolvimento das várias áreas científicas. Em Portugal existem várias entidades a desempenhar funções de gestão de ciência, algumas delas são:

Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P.

Agência de Inovação - Inovação Empresarial e Transferência de Tecnologias, S.A.

Centro Científico e Cultural de Macau, I.P.

Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação

Direcção-Geral de Protecção das Culturas

Gabinete de Gestão Financeira da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Gabinete de Relações Internacionais da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Inspecção-Geral da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Instituto Nacional da Propriedade Industrial, I.P.

Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, I.P.

Observatório da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Observatório da Sociedade da Informação e Conhecimento

Programa Operacional Ciência e Inovação 2010

Programa Operacional POS-Conhecimento

Secretaria-Geral do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Espero não ser mal interpretado, e não estou a dizer que as pessoas que trabalham nestas entidades façam um mau trabalho, mas as minhas questões são:
1- Quantas pessoas trabalham nestas entidades?
2- Quem são, ou por outras palavras qual é o seu perfil, qual é a sua formação?
3- Como funciona a abertura de posições nestas entidades?
4- Quando foi a última vez que viram um anúncio do tipo, Entidade X procura Doutorado para actividades de gestão de ciência, dá-se alguma formação complementar e senhas de refeição?

PP | 10:42 AM | Comentários (10)

julho 05, 2005

O Sangue das Testemunhas

Esta semana a Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) apresentou um parecer sobre a objecção ao uso de sangue e derivados para fins terapêuticos por motivos religiosos.

Há uns 12 anos atrás, era eu jovem estudante de medicina e encontrava-me de urgência, entra um outro jovem, jovem pai, jovem marido e jovem trabalhador da construção civil, cujas condições de segurança na altura eram bem piores do que as actuais, entra com uma fractura não complicada do fémur, muito queixoso, mas lúcido na recomendação de não ser transfundido por se afirmar como Testemunha de Jeová (convido-o a visitar a página oficial). Trata-se de um movimento cristão, iniciado por Charles Taze Russel em 1870, na Pensilvânia. Apresenta uma organização particular, sem distinção entre elementos do clero e leigos, mas que não nega uma hierarquia. Ao longo da sua história tem conseguido afirmar-se não sem fugir a alguma controvérsia edificada num forte proselitismo coordenado por esta “Torre de Vigia” e reclama ter raízes na forma primitiva do Cristianismo.

Convém aqui recordar a importância do sangue que sempre foi visto como símbolo de Eternidade, de Vida. Receber o sangue é um meio para alcançar essa mesma Vida - a Energia Vital. As referências bíblicas a sangue são inúmeras. Algumas marcam mais fortemente o quotidiano destes crentes, e acabam mesmo por definir a linha estreita entre a vida e a morte; e fazem-no com a recomendação de que não se devem alimentar de sangue “abstende-vos de sangue.” (Actos 15:29).

Hoje, como outrora, o sangue é muito mais do que um símbolo. É um tecido conjuntivo suportado por uma matriz de sustentação fluida, onde o componente celular tem três grandes funções: o transporte de oxigénio, a hemostase e a imunidade contra os agentes infecciosos. A fase líquida, composta por água, sais minerais e proteínas (com muitas e diversificadas funções) estabelece a ligação e o contacto directo ou indirecto com todos os órgãos contribuindo para o equilíbrio dinâmico, animado pelo coração.

tube.gifVoltando ao meu jovem doente, o seu desejo foi cumprido até à perda de consciência, o que ocorreu duas horas após a chegada ao hospital. O estado de coma chegou com a incontrolável baixa da pressão arterial a que chamamos choque, causada pela hipovolémia secundária à hemorragia que, por sua vez, não se podia solucionar sem o auxílio de uma transfusão. Nesta altura o chefe de equipa contactou a mulher do doente que se limitou a reafirmar o desejo do marido e pai dos seus filhos de não ser submetido a qualquer transfusão. Recordo-me da imagem como se tivesse ocorrido ontem. Fazia-se acompanhar pelo seu conselheiro espiritual, com quem partilhava a amarga angústia de suspender sobre aquele homem, a cruel espada de Dâmocles. Nada a demoveu, nada a fez vacilar quando renovou a interdição de transfundir o seu marido.

Na sala de cuidados intensivos, todas as veias do acidentado estavam ligadas a garrafas transparentes de soro, a máscara de oxigénio com débito máximo na esperança vã de que a água transportasse o precioso gás melhor do que a hemoglobina.

Curiosamente, a rejeição das transfusões pelos Testemunhas de Jeová não se estende de forma coerente a todos os derivados. Um hemofílico poderá receber o seu factor VIII ou IX; um insuficiente renal poderá receber eritropoietina, para estimular a produção de glóbulos vermelhos na sua medula óssea, ou um insuficiente hepático uma infusão com albumina para recuperar a concentração proteica circulante. Já as plaquetas, os concentrados de eritrócitos, ou o plasma completo são absolutamente interditos. Para mais contradições convido-o a um viagem iluminada pelo farol da Torre de Vigia!

Apesar de não ser consistente o princípio da rejeição das transfusões de sangue para aqueles que a professam, a CNECV pronunciou-se sobre o tema antes mesmo de reflectir sobre a investigação na área do desenvolvimento com recurso a células estaminais... Mas de facto, não somos nós quem define as prioridades da comissão.

Quanto ao meu doente, seis horas depois de entrar de maca no hospital e de ter relatado com as suas próprias palavras como tinha escorregado de um andaime à altura de um primeiro andar, expirou pela última vez. Pareceu-me que a morte já o tinha vindo buscar horas antes, quando depois de perder a consciência, a única solução possível foi redobrar a infusão salina que o levou quase à transparência. No final, aquela figura diáfana que deixou nas nossas memórias a marca da sua partida, afirmava de forma convicta, arrogante até, onde pode chegar o ridículo. Foi como se não pudéssemos dar a mão a alguém que escorrega à nossa frente para o precipício, ou se negássemos um copo de água a alguém que cai desidratado à frente de um charco. Esta contradição mortal permanecerá para mim como paradigma do nonsense.

Ao ler com atenção este parecer recordo que os procedimentos de há 12 anos cumpriram integralmente com a opinião desta comissão no momento presente. Apesar de estar claro para todos que nem para os Testemunhas de Jeová a questão é pacífica, a CNECV pronuncia-se com a segurança de quem comanda a bioética mas com a leveza de quem não vincula ninguém ao seu parecer. Mantenho, apesar deste, a mesma incompreensão e a mesma revolta, tanto hoje como naquela tarde.

RPA | 04:48 PM | Comentários (2)

julho 04, 2005

Paranóia

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VB | 05:46 PM | Comentários (0)

julho 03, 2005

Os "à-letrados"

039_MINORITYREPORT_DOUBLESIDED.jpgSe é verdade que dispomos de um neurónio específico para o Brad Pitt, mais valia que existisse nenhum para o Tom Cruise. Principalmente porque ele próprio, a julgar pela franca hostilidade à psiquiatria e à psicologia (recentemente demonstrada perante os meios de comunicação social) não o quer (nem o merece). Pois então que seja feita a sua vontade, assim na terra como no espaço sideral. A insistência desta "estrela" em trazer quotidianamente vestida a farda de pregoeiro da Cientologia, ultrapassa já o direito ao livre exercício da prática religiosa, para tornar-se em mais uma infundada salada de ideias "pseudobiomédicas" com privilégio mediático, cujo aparente desígnio é lançar confusão sobre a opinião pública e consequentemente aumentar a entrada de futuros capitais para essa igreja. Dizer: queremos apenas ajudar as pessoas... porque nós estamos certos e todos os outros errados, não parece ser um modo satisfatório, no âmbito científico, de fundamentar uma teoria (nem coloca o ex-barman do "Cocktail" numa categoria muito diferente da do seu actual presidente). Talvez por isso tenha sido lançada esta semana pela Associação Americana de Psiquiatria uma declaração de repúdio pelas afirmações públicas de Tom e um repto a que, também publicamente, este fundamente as suas declarações, nomeadamente quando classifica o Metilfenidato (ou Ritalin, uma droga usada no tratamento de crianças afectadas por hiperatividade com deficit de atenção - ADHD) como uma street drug. A mistura dos alhos com os bugalhos, da Medicina com a vulgarização de um medicamento ou da Ciência com a "hipocondrização" das sociedades urbanas deste país, não permite comentários abusivamente demorados num blog como o Conta Natura. Aliás o problema da publicidade "cientológica" do Tom nem consiste tanto do seu conteúdo cientificamente risível (A psiquiatria é uma pseudociência porque eu li tudo sobre o assunto e conheço a sua história completa... não existe algo chamado desequilíbrio químico a condicionar certos comportamentos ou emoções... os antidepressivos simplesmente não funcionam) mas da sua incapacidade de sequer definir religião: somos uma religião [não uma ceita] porque tratamos das coisas do espírito... (Não creio que a parapsicologia, também tratadista - ou tratante? - das "coisas" do(s) espírito(s), seja por muitos considerada uma religião); ... embora admitamos cristãos cientólogos, judeus cientólogos e até muçulmanos cientólogos. (É necessário explicar ao Tom que a convivência entre árabes e judeus na mesma cidade já tem sido uma catástrofe: pô-los no mesmo disco-voador-de-Noé vai ser ainda pior)

Contudo, o ataque "pararreligioso" sistemático (e em tantas frentes) ao pensamento científico parece, nos tempos que correm, inesperado, principalmente se olharmos de relance às descobertas feitas e às tecnologias ao dispor. É inevitável, pois, que neste contexto também se mencione a agitação criacionista como um assunto pertinente. Do mesmo modo que a Cientologia apresenta uma abordagem "científica" secreta e não comprovada ao estudo da mente, restringindo-a depois ao campo religioso, os novos criacionistas exibem agora um conjunto de "observações biológicas" com as quais desejam redimir o antigo juízo literal dos textos do Pentateuco.bilde2.jpg Não se trata "apenas" da preocupação frente à decisão de alguns estados em não impedir a teoria do intelligent design de ser apresentada na sala de aula com o mesmo valor que todo o conjunto de princípios fundamentais apresentado por Charles Darwin. Trata-se da mobilização de uma série de grupos e instituições num movimento colectivo de influência crescente (sobretudo associada à doutrina cristã evangélica estado-unidense) com grande habilidade em malabarismos retóricos e semânticos para justificar regras apenas raramente vinculadas à razão. Irredutíveis na sua visão literal do Génesis, estas pessoas não deixam, por outro lado, de demonstrar uma incrível flexibilidade interpretativa no domínio das Parábolas com que, Quod scripsi, scripsi, Cristo ensinou. A mais recente ilustração desta campanha é a abertura ao público na passada primavera do Museu da Criação em Kentucky pelo pastor evangelista australiano Ken Ham, fundador e presidente da organização Answers in Genesis. Entre outras características, o museu, que custou cerca de 25 milhões de dólares, expõe uma réplica do Grand Canyon para demonstrar a "verdade bíblica" acerca da idade da Terra; apresenta a SIDA como castigo divino pela culpa dos homossexuais; acusa os dois jovens autores do massacre de Columbine de acreditarem (apesar do seu ulterior suicídio) ...in Darwin's survival of the fittest; mostra uma "réplica" em "tamanho real" da arca de Noé, de onde se podem ouvir as ondas, o ruído da tempestade e até os gritos das pessoas morrendo afogadas do lado de fora. Tudo isto em estilo muito moderno, com a ajuda de pessoal do Universal Studios e tudo. De acordo com as previsões dos especialistas em marketing contratados para o efeito, Jerry Falwell (reverendo baptista evangelista e chanceler da Liberty University onde se realizará a 2005 Creation Mega Conference) declarou que o museu atrairá mais de 300 mil visitantes no próximo ano e ajuntou, quiçá involuntariamente, It's going to be a mini-Disney World!
bilde.jpgNão obstante as vozes emergentes de todos os ambientes cristãos, contrárias a estas "criativas" interpretações, o que poderá significar esta antítese? Esta aparente e paradoxal criminalização da Biologia? (Paradoxal, considerando que quem parece ser acusado de dogmatismo desta vez é a Ciência, não a fé) Talvez se trate de uma manifestação do que Cornel West deslinda no seu extraordinário trabalho do ano passado (Democracy Matters), isto é, da tentativa desesperada de envolvimento cívico no combate ao esvaziamento da cultura política, por parte da religiosidade dos Estados Unidos, pese embora a sua desnorteada rectidão e a sua perspectiva estreita, exclusivista e punitiva dos males do país1. Eu prefiro ver nisto uma simples extensão do maniqueísmo feroz que reveste parte da sociedade, principalmente aquele que veio ao lado das "manipulações" ideológicas e políticas do pós-11 de Setembro e que poderia ser pintado no seguinte estilo:

"Nós somos o Bem porque não podemos ser o Mal. A nossa grandeza e o nosso poder demonstram o nosso Bem e justificam a nossa missão de levá-lo aonde está o Mal. O Mal não está senão onde não estamos nós, o Bem. Afinal de contas, quem não é por nós, é contra nós2".

Dias virão em que para muitos os livros de Biologia regressarão ao Índex, amaldiçoados pela companhia dos outros contentores de doutrinas terroristas, como o socialismo, o casamento gay ou a apologia da necessidade do incesto para originar, de apenas um casal, toda a Humanidade.

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VB | 12:00 AM | Comentários (4)

julho 01, 2005

Crónicas de Sexta-Feira: Anatomia da alma?

prairie_voles[1].jpg

A atracção sexual e o estabelecimento de interacções sociais são duas das mais importantes facetas do comportamento humano. A complexidade de tais comportamentos, a influência de factores sociais ou culturais e os óbvios problemas éticos tornam o estudo de eventuais factores genéticos particularmente difícil. Mas apesar de um problema complexo por vezes uma boa solução aparece em sítios inesperados e duas espécies de pequenos roedores do género Microtus têm tido um papel importante na melhor compreensão das bases moleculares deste processo.

A espécie monogâmica Microtus ochrogaster e a espécie não-monogâmica Microtus montanus possuem um comportamento social diametralmente oposto. Enquanto que a primeira é fortemente social, onde predominam as grande colónias com uma estrutura essencialmente monogâmica. A segunda é uma espécie não social, composta por indivíduos solitários não-monogâmicos.

Dois neuropéptidos parecem ter uma função crucial no estabelecimento do comportamento monogâmico – oxitocina e arginina-vasopressina. Infusão de oxitocina em determinadas regiões do cérebro de fêmeas de Microtus ochgaster facilita o estabelecimento de uma relação duradoira entre um macho e uma fêmea mesmo após um breve encontro sem sexo. Infusões de vasopressina tem um efeito semelhante nos machos. Pelo contrário, inibição do receptor de oxitocina, bloqueia a capacidade das fêmeas de estabelecerem relações monogâmicas.

Comparação entre espécies de Microtus revelou que as monogâmicas têm um enriquecimento de expressão do receptor de vasopressina em pelo menos uma região envolvida na “mesolimbic dopamine reward system”. Isto levou a que alguns investigadores especulassem que o comportamento monogâmico resulta de um comportamento condicionado onde o prazer do sexo foi associado a um conjunto de estímulos olfactivos da parceira. Importante para este modelo, em Microtus montanus (não-monogâmico) expressão nessas regiões do receptor de vasopressina foi capaz de alterar o seu comportamento e aumentar a sua sociabilidade.

Uma análise cuidada do promotor que controla a expressão do receptor de vasopressina nas duas espécies de Microtus revelou que a única diferença significativa é a existência de um microsatélite (zonas cujo o DNA possui muitas repetições) em Microtus ochrogaster. O tamanho deste microsatélite tem consequências funcionais importantes pois afecta a expressão do receptor. Uma vez que o tamanho dos microsatélites é relativamente flutuante isto sugere um sistema molecular capaz de modular rapidamente o comportamento de uma espécie em resposta a pressões ambientais.

Rui Martinho | 09:50 PM | Comentários (0)