Quarta-feira, Julho 20, 2005

desilusão

Deitou-se no sofá frente à televisão. A cozinha arrumada. A luz do candeeiro, muito velada, deixava em quase escuridão o grande espaço da sala onde tremelicava a luz da televisão. Ouvia mais do que olhava. Um ruído estranho e constante fê-la prestar atenção. Soergueu-se devagar, atenta. Voltou a recostar-se. Era a máquina de lavar. Punha as máquinas a funcionar sem pensar no que estava a fazer e depois nem de tal se lembrava. Esta mania de estar sempre a pensar longe. O noticiário acabou. Desligou a televisão e colocou música. No livro que andava lendo, mal passou duas linhas. A cabeça a andar às voltas. Interrogava-se. Espantava-se. Ela ali a sentir que, nestes últimos tempos, ou andava acompanhando mais as actualidades ou se andavam passando aconteceres tão estranhos que a levavam a dar-lhes atenção. Ou seriam as duas coisas?! Sorriu. Deixou que as imagens se formassem usando os olhos de ver para dentro e para longe. Pensava assim perceber ou, ao menos, relaxar.

Uma lagoa de terra muito escura. Um castanho quase negro. Disse lagoa, mas era mais uma enorme cratera de terra muito esfarelada em todo o perímetro e que se acumulava assim no centro. Uma brisa soprava e a terra do centro espraiava pelo espaço. Um espaço que parecia uma cúpula translúcida sem cor definida. Um horizonte que não acabava. Que não se percebia onde acabava. Era da neblina intensa ou daquela luminosidade esbranquiçada.
Concentrou-se um pouco mais naquela interioridade que a levava a outros lugares.
Como que foi abarcando para além daquele buraco árido. Era como se estivesse andando por lá...
Uma casa enorme toda branca. Um casarão com portões, portas, muitas janelas. Tudo fechado.
Deve ter ficado ansiosa naquele exercício de olhar com os olhos de ver para dentro. Deve ter sido isso.
De repente estava na parte detrás da casa e havia um tanque e uma trepadeira sobre um tanque onde água fresca corria de uma telha. Uma rapariga, via-a detrás, devia estar aparando água. Dobrada sobre o tanque devia estar molhando o vestido vermelho. Devia ter um avental largo. Via o laço branco atado atrás.
Era o que ela via com os olhos de passear para lá do de dentro de si.
Sentiu que tinha sede. Sentiu que tinha medo de voltar à cratera. Sentiu que lhe era estranho haver ali água e flores e uma casa e antes aquela paisagem morta. Sentiu que era bom que houvesse ali gente. Sentiu que era estranho a moça não se voltar. Sentiu que estava com muito medo e não sabia de quê. Já etava quase tocando a moça e sentia um estranho tremor, um quase desejo.
De repente, percebeu porque era vermelho o vestido da moça e de igual cor estava mesclada a água do tanque...
Tentou ir mais longe naquele ver para lá do de dentro de si. Tentou voltar a usar os olhos de ver para dentro, mas não conseguiu.

Ergueu-se e foi estender a roupa. A máquina acabara a lavagem.

Sentiu tristeza e receio ao pensar que perdera os olhos de olhar para de dentro ou que estes viam o mesmo que os outros...


Quinta-feira, Julho 14, 2005

simplesmente

Já fez uma semana que, numa capital da Europa, numa cidade do Ocidente, manhãzinha detonaram bombas em locais de gentes que acorriam, simplesmente, ao seu local de trabalho ou a um hospital, ou, ou...simplesmente apanhava aquele transporte público que, no instante em aquela pessoa- muitas aquelas- se dirigia simplesmente para o seu trabalho ou, ou, ou, o estrondo aparecia e o pavor e os gritos e o sentir que está numa armadilha e o sufoco e a saudade e o não saber respirar e o desrespirar e o morrer sentindo que se morre e ai que vou morrer e passam por cima dele sem lhe ver que passam e querem se salvar e são muitos num medo que é mais que medo e é sempre crer que se pode e já não pode a dor ensanguentada e o rir pensando em alguém amado e o chorar e o grito muito gritado de pavor ou se aquele consegue um vislumbre de sair daquele morrer e ...
Não eu não tenho o direito de assim narrar... já faz uma semana e silenciaram dois minutos por alma...
E faz uma semana e eu interrogo-me: PORQUÊ?
E gostava de obter resposta. Gostava.
Mas já fizeram tantas outras, muitas semanas, de outros tantos, muitos, rebentamentos em outras capitais do ocidente e menos aí que em capitais do oriente...fizeram semanas...nem acaba de fazer uma semana de um e está outro acontecendo e nem que têm tempo de tentar respirar.
E eu, de todos antes de há muito me venho a interrogar: PORQUÊ?
Simplesmente, eu, muito simplesmente me respondo:
Pior que não acreditar em sei lá eu bem o quê, é acreditar muito, mas mesmo muito em sei lá bem eu o quê. Será?!Poderá a grande crença que cega ser resposta aos meus interrogares?
Sei que, para mim, muito simplesmente eu, digo:
Acreditar muito completamente, mesmo muito, é acreditar na Vida nas suas múltiplas formas e em tudo o que a preserva e envolve e dignifica.
(Mesmo assim, um acreditar com a ressalva de não sabermos tudo de uma maneira definitiva e termos que ir pensando e crescendo uns com os outros. )
Tudo, e todos, o que contraria a Vida, seja de que seja o seu justificar, anda agindo errado no meu simples modo de ver.

Sábado, Julho 09, 2005

mal entendidos


- Bons dias Sª Dona Assunção! Uns espinafrezinhos fresquinhos?!
Avelino, ataviado no guarda-pó cor de terra que lhe expunha o excesso de carnes, esfregava as mãos uma na outra, as costas num requebro e os pés fazendo passinhos para a esquerda e a direita em frente da velha senhora. Senhora Dona era como Avelino sempre chamava às, como ele dizia, “verdadeiras senhoras”. Dona Assunção parecia não o ver e ia seguindo a sua entrada na loja o que fazia Avelino dançar – esquerda, direita, atrás; esquerda, direita, atrás; até chegar ao balcão, dois metros desde a entrada atulhados de caixas de fruta e legumes variados. Então, Avelino postava-se muito direito do lado de lá do balcão e ouvia atento e solícito.
Nem sempre ela vinha. Era até raro. Uma vez por mês, talvez. Normalmente vinha a Gertrudes, moça das Beiras que desde há muito trabalhava na casa. Trazia sempre um papelinho com a letra muito cheia de arabescos da dona Assunção. Quando Dona Assunção saía daquela casa, a maior da rua, aliás também da outra pois que ia de um lado ao outro; quando era ela que vinha à loja do Senhor Avelino, era assim que, como há 50 anos, Avelino a recebia. O mesmo quase cerimonial, variando apenas na sugestão de compra.
Hoje Dona Assunção encostou um pouco mais o corpo ao balcão, deixou cair a ossatura, que poucas carnes sempre haviam recoberto, numa inclinação de confidência ou de pedido. Avelino estranhou e sentiu-se como se uma lava lhe percorresse, em todos os sentidos, o corpo. Dobrou-se, instintivo, por de cima das chouriças, salpicão e demais charcuteria. A cabeça dependurada do corpo rechonchudo, muito espetada para ouvir. Avelino, antes, durante, enquanto ouvia, ele não sabe, apercebeu-se de coisas…tantas coisas!
A boca da Dona Assunção cheirava a leite e a açúcar queimado e Avelino pensa que corou. A boca da Dona Assunção era rosada por baixo do batom vermelho esborratado e Avelino sentiu que uma baba lhe escorreu aos cantos da boca. O cabelo dela era muito branco e via-se, assim de perto, o rosado da cabeça e Avelino sentiu que estava olhando Dona Assunção em camisa e acha que nem ouviu quando ela lhe sussurrou:
- Senhor Avelino pode passar-me a levar a casa estas compras? - e mostrava um rol escrito naquela letra esmerada. E explicava:
-A Gertrudes adoeceu e foi para a terra.
Avelino tremia-lhe a mão com que aceitou o rol.
Dona Assunção, que sempre o soubera um bom homem, não supusera que tal amizade o ligasse à Gertrudes e hesitou em dizer-lhe:
- Tenha paciência senhor Avelino.
E Avelino respondeu-lhe tentando que a voz lhe saísse sem tremuras:
- Farei com o maior gosto, Dona Assunção.
A entoação soou-lhe a grito de entusiasmo. Mas já, endireitando-se, Dona Assunção pedia:
- Pese-me estes três pêssegos, por favor, Senhor Avelino.

Gustave Klimt

Terça-feira, Julho 05, 2005

tesouro

Levei-me a ver o mar e estava acastanhado.
Levei-me a ver os prados e estavam amarelos de secura.
Subi aos altos montes e a neve derretia nas vertentes vermelhas.
Olhei o céu e o azul tapara-se de um amarelo que crepitava.
O sol no alto crescera num tamanho e cor como se fora pôr-se no horizonte.
Levei-me a ver os rios e andei a pisar leitos secos e em pedra. Sem nem lodo.
Sentei-me debaixo de uma árvore e não havia sombra.
Levei-me a espreitar as fontes nas serranias e esfarelavam terras amarelas. Lavas.
Levei-me a ver cidades e encontrei os vermes e as gentes convivendo.
Dependurados das janelas. Desfalecidos. Mortos. Deambulando enlouquecidos.
Levei-me a ver de novo o mar e este fervia.
Sentei-me na areia que ofuscava. Pus-me de joelhos.
Cruzei as mãos no peito e pedi-Te perdão.
Depois, eu que nunca soube oração, vi-me a rezar.
Pedia que nos perdoasses.
Agradecia-Te pela Vida.
(...)
Quando acordei a chuva tamborilava na janela.
Nunca mais parei de agradecer-Te nos essenciais tesouros que nos deste.

Imagem de G. Klimt

Sexta-feira, Julho 01, 2005

leveza

Trazias um vestido de ramagens verdes
com uma margarida em cada seio.
Cheia de cuidados, deste dois passinhos.
Parecia que pedias desculpa ao chão
licença para o pisar.
Passos de gata bailarina.
Passos de querer ir devagar.
Não mais que esses passinhos
dois
quase de passarinho.
Foi deste modo que vieste a mim.
Envolvi-te com muita ternura.
Encostaste o teu corpo ao meu.
Sorriste.
Apertaste de leve a minha mão.
Levaste-a aos teus lábios.
E, mais do que um beijo,
puseste nela o ardor do teu corpo,
o teu desejo.
Nossos corpos enfeitavam-se um ao outro.
Peguei nesse jardim que me acolhia
e numa curva de água
num fresco de sombra junto a um ribeiro,
em suas margens
fomos desfazer em pétalas
brancas, amarelas
devagarinho
uma a uma
as margaridas do teu vestido de ramagens.


Sábado, Junho 25, 2005

o dedal

O dedal caiu de novo. Parecia vivo o demo do objecto. De cada vez que o tentava enfiar no dedo anelar como assim aprendera amparando o dedo do forçar da agulha no tecido. De cada vez, ele caía e findava desaparecido. Ia encontrá-lo no lugar nenhum em que supusera. E só depois de um grito desesperado de estupor se lhe calar. Um grito que a ser, acordaria, a uma hora tardia como era aquela em que cosia na camisa o bordado. Pedira-lhe a filha. E arreliava-a aquela coisa do dedal. Ela que pensara fazer aquele serviço em menos tempo e, afinal, ali estava já a lua era um ponto no céu, muito lá em cima, depois de se ter apresentado redonda e rosada mal o sol se escondeu. Logo naquela noite, se lembrara de ficar dando aqueles pontos com o dedal endoidado de escondidas e saltos. Na noite de um dia em que ele chegara mais cedo. Ele sempre entrava no banho directo da fazenda. Por lá se ficava ronronando. Hoje, como habitual, chamara-a. Ela demorara-se no ir. Esperara novo chamar. Fizera charme, como um destes dias lhe dissera, de covinhas na cara, a sua menina. “Mãezinha, tu fazes tão bem o teu charme.” Pois que assim fosse. Fizera outra vez esse tal de charme. Era assim. Era como sempre fora. Ela tardava. Ele chamava. Ela demorava mais um niquinho. Sempre ia deixando ele esperar. Ele batia na água. Molhava a saia dela. Parecia brinca de meninos. Ela sabia que não era, não. Rolavam molhados e riam. Riam muito.
Pensava e ia dando pontos miudinhos para prender o bordado. De repente, exclamou um apre muito agudo. Um fio fininho escorria-lhe do dedo. Apenas um toque da agulha. Ela olhava o tecido embebendo. Assentou os tecidos na mesa e apertou o dedo com um pedaço de trapo. Não percebia porque se sentia tão bem com aquele fio de sangue a correr pelo dedo, encharcando os tecidos, sujando a blusa. Ela se parecia que vinha descendo de uma nuvem. A luz da lua entrava pela sala numa nesga da janela grande. A luz do candeeiro mal se apercebia. Apagou-o. Abriu de par em par a janela. O trapo caiu do dedo. Caiu-lhe o vestido. Devagarinho, quase numa dança, entrou no quarto. Aconchegou-se ao corpo dele.
Ele envolveu-a nos braços e, num sorriso que só a lua viu, tirou-lhe o dedal do dedo.
Ela teve acerteza que a luz da lua estava muito quente nessa noite
.

Sábado, Junho 18, 2005

instante

Buscavas uma sombra. A tarde abrasava, mas ali, na margem da ribeira, refrescava. A vegetação rendilhava de luz o saibro marginando as águas. Poucas águas. Um nada mais que regato ondulando sobre dispersas pedras. Viste-a. A sombra lá estava. Extensa sombra de um tronco, mesmo na beira da água, quase conforme ao anatómico que desejavas descansar. Encostaste a mochila, tropeçaste de ligeiro num ramo e deitaste-te. O corpo todo assente. Do lado de lá da ribeira pachorrentavam-se bois. Lentamente tiraste botas e meias. O fresco da água tocou cada um dos pés. Respiraste fundo.
A manga da camisa acima do pulso mostrou a marca arredondada. Sete dias. Deram-te sete dias de liberdade. Mais para a noite dormirias no endereço certo. Agora, precisavas abrir os pulmões à serra. Por isso, ali estavas apenas respirando...


imagem "por entre as pedras"de
José Rebelo[ Mané ]

Quarta-feira, Junho 15, 2005

tu

Um risco no céu
Um luminoso risco alaranjado
Tu voando para muito além
Tu indo para qualquer lado

Um risco muito longo
Um risco muito andado
Tu sorrindo um sorriso rasgado
Tu aprimorado cavalgando potro

O céu rugia azul, anil, alaranjado
Tu pintando tintas no rosto amado
Tu tecendo rimas
Tu voando ventos
Tu chovendo chuvas
Tu...
um risco cortando o céu
num fim de tarde.

Domingo, Junho 12, 2005

anúncio


mataram o teu filho, mãe

fecharam-no numa cela,
a horas certas vendaram-no
mataram o teu filho, mãe

a uma hora que não esperava
apanhou-o o estilhaço da bomba
mataram o teu filho, mãe

o estampido soltou-se da pistola do guarda
mataram o teu filho, mãe

em volta da cintura uma faixa,
a uma hora de ponta retirou a cavilha
mataram o teu filho, mãe

na beira da estrada assaltaram-no
mataram o teu filho, mãe

mataram –no, mãe...

Acordei com a notícia da morte deles e aqui fica a minha parca homenagem

de Álvaro Cunhal

Frente a frente
Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


de Eugénio de Andrade

Segunda-feira, Junho 06, 2005

duvidas

Dois planos. Dois espaços. Mais do que essa simplicidade de ver: dois tempos. Não. Não é isso do relógio atrasado. É um algum outro espaço com um tempo diferente. Uma dimensão outra. Vagueias entre um e outro como uma corrente em movimentos de sinusóides interferindo.
Funcionas em planos diferentes.
Oscila em tempos diferentes o teu eu dividido.
Queres contar e as palavras não te chegam. Ou tu não as dominas. Não dominas as imagens. O mundo em que o teu eu vagueou. O mundo em que viveste. Não dominas a palavra de o contar. A palavra de te dizeres tu nesse mundo real que to dizem, e tu dizes, de imagens. Esse mundo que sentes real. (Esse mundo que sabes real.)
Não. Tu não dominas a arte de usar a palavra para contar o que nem percebes.
Não, tu... mais do que isso. Tu receias contar. Tu receias entender.
Não, tu não dominas a palavra que te conte.
Não, tu não dominas a palavra que te questione.
E as imagens soltam-se-te onde?! sim! e de onde aquela realidade?!
Campos de regatos terminando em lagos de fogo brando, amarelado, manso.
O mar em ondas de fogo. Ondas de fogo com a consistência e o ruído da água contra rochas. Rochas de lava. Cavalos brancos fogem em tropel. Só cavalos brancos. Rebanhos de ovelhas em fuga. Só ovelhas negras. O ruir das cidades como se tu estivesses longe e lá. Tu, sentada numa poltrona, vindo à varanda e sentindo-te ruir num escombro igual a cada um dos que eram apenas escombros da cidade. A cidade toda a escoar-se para um mar enorme. Um mar enorme muito azul muito escuro. Um mar que sabias muito fundo.
De onde essas imagens quando te sentias a tangenciar outra dimensão sem que te fosse permitido nela entrar?! (parecia que te empurravam, lembras?!) E tudo o que sentias, vias, era real. Mais do que imagem. Mais do que sonho. Eram reais entrelaçando-se na imprecisão de tempos.
As casas vertiam-se sobre um lago abanado como brincadeira de papel. E tu dentro de uma delas caías realmente de um cair de sufoco e imenso medo por ti e pelos que tu sabias que caiam também.
Dizem-te que é imaginação. Sorris. Sorris de novo sem que te vejam. Não te iam entender. Tu viveste lá nesses imensos confins que...onde ficam?! de onde vêm essas... imagens (tão) reais?!
Aprecias mais dócil (est)a realidade. A tua, dizem-te. Sabes tu?! Olhas em redor. Não foi sonho. Os sonhos têm-se numa noite. Num pedacinho da noite ou de um dormir...

Não dominas a palavra de o contar.
A palavra de te dizeres tu.
De te contares nesse mundo real que to dizem de imagens.
Esse mundo que sentes real. Esse mundo que sabes real.



Quadro de
Dali


Sexta-feira, Maio 27, 2005

Um ele

Calorava na carruagem . Separadas por cada vida, gentes entravam. Buscava cada uma seu lugar longe da outra. Havia, naquela hora da tarde, muito espaço. Poucas gentes muito longes de um a outro banco. Tu na janela. O queixo na mão. Pensavas. Não muito pensando. Um laivo de pensar, rasando o olhar nas gentes, uma a uma, entrando na carruagem. No relógio enorme os ponteiros faziam um ângulo agudo. O sol batia no das horas. Ofuscava-te. Eram trinta depois das cinco. De apressado passo, a figura destacava no vir de lá do fundo. Não entrou na porta. Surgiu no meio de todas as gentes andando rápido, o sobretudo esvoando de sobre o fato. Uma barba entre o branco e o amarelo palha. Olhaste o que podias no ápice que se fez dele a esgueirar seu ir na extremidade oposta à que surgira. Ficou-te um interrogar de condição a dele. Ficou-te um a pensar que era figura de excentricidade. Não mais. Um tudo-nada além do cada um que buscava, longe de cada outro, sentar na carruagem. Solavancou de leve o corpo todo como de todos, cada um sentando sua vida no ir ou, como tu, no voltar.
E de repente. Muito de repente, tu ficaste no susto. Um gritar. Parecia que tinha começado sessão de teatro. A voz apregoando. Ele de passo tão estudado, entrando do oposto lado em que há pouco se fora de teu pensar. Um passo bem diverso como dançando. As mãos segurando coloridos venderes. A voz apregoando como quem conta história. Nem que nada mais tu vias que a excentricidade consumada. Não. Aquele teatrar vivido incomodou-te. O real de um ele a entrar em cena a cada ir da carruagem. Sim. Confirma. O teu imaginar espezinhado. Vidas no comboio.
Distraíste. Olhaste firmemente a paisagem.

Quarta-feira, Maio 25, 2005

replicação

Segunda-feira, Maio 23, 2005

um ano?!

Onde andava cada um de nós naquele dia 23 de Maio de 2004?!

onde...neste mundo dos blogues quando me iniciei com um espaço ali num intervalos, agora ahpartes, de um indeciso, mas já e sempre seilá, então com muitas reticências sei lá...?!
um espaço que iniciei
assim... tinham florido as minhas orquídeas

( tu aniversavas em aleluia de outras andanças desta vida! )

...devagarinho... com tantos de vós, amigos, fui vivendo e cheguei ao
UM ano a blogar!
como na Parábola do filho pródigo, hoje a lembrança aos que deixei de ver por aqui.
Mariaras a Velha... Armando do meu top do coração – nunca mais vos vi!
Inconformada que diz
escrevo apenas (ai! o nosso Devil!! ) – onde andarás, amiga?!
Inde - disfarçado por aí...nunca mais o vi!

A eles e a todos que vejo dia a dia neste tempo diferente de por aqui,

o meu muito obrigada

a todos é devido o meu estar hoje aqui

tudo o que escrevo, eu escrevo por vossas mãos também...

escrevi para todos este texto invisível




Domingo, Maio 22, 2005

amizade

..............



com a palavra do
Biquinha
me fico

e o penso

Quarta-feira, Maio 18, 2005

dom de

Não era necessariamente azul. Nem era especialmente rosado. Nem era azul apenas. Nem era rosa. Era um céu de fim de tarde. Também não era um céu, apenas, de fim de tarde. Era um céu azul rosado ao fim da tarde. Porém, eu entendo, passada esta eternidade sobre esse eu ter visto, que não era isso. Nem que lhe acrescente eu adjectivos de assim como : era um fim de tarde belíssimo com o rosado do céu em fundo azul. Nem assim, deste outro modo: um fim de tarde majestoso banhava de rosado o azul do céu. Não. Decido que não. Não era um desses fins de tarde. Era aquele fim, daquela tarde. O céu não era nem azul nem rosa. O céu era uma paleta entre tons de muitos rosa e tons de muito azul. Tons de muitas frequências, naquela tarde. E estou quase a escrever algo de aproximado ao que era aquele, aquele e não outro, fim de tarde. Escrevi a palavra tom e escrevi a palavra frequência. Naquela tarde, além da luz com que se pinta e de outros variados modos se contar um fim de tarde, naquela tarde que chegava ao fim, houvera sons de várias tonalidades. Tantos acordes como a paleta que era o céu que vos tentei, de escrever dorido, descrever aqui. Acordes e tonalidades. Tonalidades de cor e som. Acordes de som e luz. A mesma caracterização precisa cada uma.
Tal era nesse dia de há pouco, agora, o fim de tarde em que se ali chegaste. O fim de tarde em que tu te sentaste na sombra. Não sentado à sombra. Não por ela, mas pela protecção daquele arredondado do casco do barco ali deixado. Como ele, tu. O barco e tu, ambos perdidos na praia de enseada virada a poente. Na praia onde se fazia um fim de tarde igual àquele fim de tarde de um outro Abril. Estavas acocorado naquele ninho do entre o barco e a areia morna em sentido oposto ao sol que derramara os tais de cor de rosa por sobre o fundo azul.
Quem te viu pensou, disto estou eu certa por devido àquele outro, muito antigo, fim de tarde que tentei descrever em tom e som. Quem te viu, olhou um doirado de debaixo do escuro quase que fazia no entre o barco e a areia. Quem te descortinou, pensou que era reflexo do céu naquela parte que era mais em tom azul, o que eram afinal os olhos teus. Quem te primeiro encontrou ali sentado, deparou dois olhos muito azuis e uma madeixa loira. Só depois, muito depois, quem te viu, percebeu que este fim de tarde em que te encontrou nem tinha nada de rosado e nem tinha, isso nem tinha nada, qualquer som.
Tu, vindo de nem sabes de onde, apenas ouvias naquele colorido da tarde, o colorido do teu imenso som.

leia notícia aqui
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Oiçam-me nas palavras "minhas" escritas pela encandescente
Obrigada a ela!