| ABRUPTO |
|
correio para
jppereir@mail.telepac.pt
______________
|
20.7.05
APRENDENDO COM GUIMARÃES ROSA: AQUILO QUE NÃO HAVIA, ACONTECIA.
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. COISAS SIMPLES
![]() Laurence Stephen Lowry O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: UMA BIBLIOGRAFIA MUITO ESPECIAL Sobre o comentário ao ciclone em Cancun, recomenda-se a leitura do Eça (as catástrofes e as lei da emoção - e o pé desmanchado da Luizinha Carneiro). Também sobre a política, as quedas dos Governos e os impostos, a crónica das Farpas (crónica II, 1º volume, «os 4 partidos políticos»: “… Na acção governamental as dissensões são perpétuas...” “Como assim?! Mais impostos?!...” Idem, sobre o estado da Nação, a crónica XI do 2º volume “Autorizadas opiniões sobre o estado da Administração Pública (“… O Sr, Luciano de Castro, chefe da oposição…”) E nas duas crónicas sobre o exército e a marinha (crónicas XVII e XVIII), onde está tudo dito e (na XVIII) onde se pode ler o que, para mim, é uma das mais belas e mais corrosivas frases do Eça: “… todavia, a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento!”. (Luis Rodrigues) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: EUFORIA EÓLICA Quando o Eng. Carlos Pimenta e outros falam em acabar com as burocracias da expansão eólica, infelizmente e talvez sem saberem, referem-se à supressão dos pareceres do ICN que à falta de dinheiro não pode ser mais célere, mas que é a única instituição capaz de prever a amplitude do impacto a vários níveis (paisagístico, geológico, ambiental). Há alguns meses atrás estava em reunião com uma pessoa do ICN, que me informa ter acabado de receber um despacho para os pareceres de parques eólicos receberem aprovação imediata, e só depois se estudariam os impactes. Isto quando as empresas que fazem os estudos de impacte ambiental nem sequer verificam se o monte em que vão construir é oco por dentro e desaba com o primeiro camião que por lá passar (como pode acontecer com frequência na Serra de Aire e Candeeiros). (Jorge Gomes) Neste último caso (eólica), (post Montes, Cumeadas, Cimo dos Montes), as suas preocupações são também as minhas preocupações. Infelizmente não existe uma cartografia (feita, por exemplo, pelo Instituto de Conservação da Natureza) sobre as áreas non edificandi (chamamos-lhe assim) para a instalação de aerogeradores. Quando estamos a falar de 2500 MW de potência, significa, pelo menos, 1250 ventoinhas e qualquer coisa como 125 parques eólicos (regra geral, cada parque tem 10 aerogeradores). Fácil é imaginar que a maior parte das serranias mais apetecíveis para a energia eólica são área protegidas (não apenas do ponto de vista ecológico, mas sobretudo cénico). Ou seja, adeus paisagem como a conhecemos... E não são apenas os aerogeradores: vamos começar a ter serras rasgadas com caminhos, linhas de alta tensão, etc., etc.. No entanto, nesta euforia (ontem parecia que a crise seria levada qual "e tudo o vento levou") a favor dos parques eólicos, esquece o Governo (e não sabe este país tão pouco atreito à matemática) que o problema energético (e o crescimento das importações de combustíveis fósseis) se deve sobretudo à ineficiência energética. Sobre qual será o verdadeiro impacte destes 2500 MW de eólica perante o alucinante crescimento do consumo de electricidade em Portugal (quem nos dera que o PIB tivesse igual crescimento...), veja-se o Estrago da Nação, onde abordo num último post esta questão de uma forma que penso ser bastante acessível. (Pedro Almeida Vieira) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SERRA DA ESTRELA (EM TEMPO REAL) É assim pela Serra da Estrela, uma Área Protegida. Na semana passada, em dois dias arderam para cima de 1500 hectares.Ficam as imagens. Até já nem são novidade. (Angelina) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A GUERRA DOS MUNDOS OU VEM AÍ OS MARCIANOS (EM TEMPO REAL) Este rio Tejo anda doido: ele é luar, ele é porta-aviões… eu bem tento ter uma vida tranquila, mas não consigo. Chego a casa minding my own business e dou de caras com o porta-aviões. É a primeira vez que vejo um “ao vivo”. Só os conhecia ou de telejornais, ou, ainda melhor de filmes (“Batalha de Middway”, etc) Andamos excitadíssimos a de telescópio e binóculo de longo alcance em punho (quem vive onde eu vivo tem que estar devidamente equipado!), mas ele está em contra luz, e hoje há canícula o que não torna a tarefa fácil, mas já percebemos que: é enorme, comprido e alto, é dos EUA, a bandeira vê-se bem, tem largas dezenas de aviões, há barcos, tipo cacilheiros, a transportar gente para terra, para poderem dizer que visitaram Lisboa. Está também uma fragata portuguesa (uma das maiores, mas não consegui ver o nome) estacionada perto com alguns homens na proa também de binóculo em punho (pudera, muitos deles nunca devem ter visto tal cidade bélica flutuante). (J.) 19.7.05
AR PURO
![]() Ansel Adams, Rain, Beartrack Cove, Glacier Bay National Monument, Alaska
EARLY MORNING BLOGS 545
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..." Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza. — "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..." (João Guimarães Rosa) * Bom dia! 18.7.05
COM QUE ENTÃO O MUNDO NÃO MUDA?
Um cidadão vai aos Frescos e verifica que, na última hora, actualizou-se um O céu sobre Lisboa, uma Grande Loja do Queijo Limiano, um ou uma BLOGUITICA,um afixe, um Diário da República, uma Semiramis, um O Acidental, o Quartzo, Feldspato &; Mica, um desBlogueador de conversa, um Miniscente, um Insurgente, as Blasfémias, um Bicho Carpinteiro, um Casmurro, uma Linha dos Nodos e um Abrupto, pouco antes. Onde é que estão os adultos? DILEMAS Como é que um disciplinado amador da história, que estes dias se preocupa (sempre para acabar o malfadado volume terceiro) com minudências sobre saber se o dirigente X do PC da Africa do Sul estava matriculado em 1946 na Universidade de Witvatersrand, Wits para os conhecedores, – sim, chega-se aí da prisão de Peniche, pelo V Congresso do PCP, para os comunistas moçambicanos e destes para a terra do ouro e dos diamantes… - e cai na asneira de ligar o Mezzo e ver um magnifico programa sobre Ustad Gulam Hassan Shagan, e se tornar, por uma hora, num puro multiculturalista?
![]()
SILLY SEASON
O nosso centro do mundo noticioso são as férias em Cancun prejudicadas por um malvado ciclone. "Tão pequeno burguês!", diria o tenebroso subversivo que há em mim. * Abjecto! É o mínimo que se pode dizer da forma como os canais nacionais tratam a tragédia que assola o México. Sim, porque quero acreditar que um furacão que assola uma zona em que a população vive em estado de pobreza, muitas vezes extrema, ainda cabe na designação de tragédia. É que nos nossos telejornais, a coisa aparece sob a forma de "Furacão estraga as férias a milhares de turistas". Portanto, qualquer turista é mais importante que a população local que fica para apanhar os cacos da catástrofe.... As mesmas pessoas que há uns dias se uniam à dor londrina, ultrapassam os dramas frequentes do 3º mundo e lastimam apenas as férias estragadas. Já na semana passada, o atentado que vitimou 24 crianças no Iraque passou para segundo plano nos nossos telejornais face, por exemplo, à novela Miguel vs Benfica. Enfim, parece que para muita gente o sofrimento é inerente à condição de 3º mundo, não merecendo por isso grande comiseração por parte do mundo ocidental. Triste, no mínimo... não? (Rita Amado)
MONTES, CUMEADAS, CIMO DOS MONTES
caminham para ser uma espécie em extinção. Eu sou inteiramente a favor da energia eólica e reconheço-lhe todos os méritos. Mas qualquer coisa do que conheço do meu país, me diz que daqui a anos não haverá cumeadas livres de ventoinhas. Já começou e vai a toda a velocidade, porque parece que é um excelente negócio. Não deve aqui também haver um esforço de ordenamento antes de ser tarde de mais? Ou já é tarde de mais? COISAS COMPLICADAS
![]() George Segal, Street Crossing
EARLY MORNING BLOGS 544
Before Sleep The lateral vibrations caress me, They leap and caress me, They work pathetically in my favour, They seek my financial good. She of the spear stands present. The gods of the underworld attend me, O Annubis, These are they of thy company. With a pathetic solicitude they attend me; Undulant, Their realm is the lateral courses. Light! I am up to follow thee, Pallas. Up and out of their caresses. You were gone up as a rocket, Bending your passages from right to left and from left to right In the flat projection of a spiral. The gods of drugged sleep attend me, Wishing me well; I am up to follow thee, Pallas. (Ezra Pound) * Bom dia! 17.7.05
COISAS COMPLICADAS
![]() Joseph Kosuth
EARLY MORNING BLOGS 543
Todo estará en sus ciegos volúmenes. Todo: la historia minuciosa del porvenir, Los egipcios de Esquilo, el número preciso de veces que las aguas de Ganges han reflejado el vuelo de un halcón, el secreto y verdadero nombre de Roma, la enciclopedia que hubiera edificado Novalis, mis sueños y entresueños en el alba del catorce de agosto de 1934, la demostración del teorema de Pierre Fermat, los no escritos capítulos de Edwin Drood, esos mismos capítulos traducidos al idioma que hablaron los garamantas, las paradojas que ideó Berkeley acerca del Tiempo y que no publicó, los libros de hierro de Urizen, las prematuras epifanías de Stephen Dedalus que antes de un ciclo de mil años nada querrán decir, el evangelio gnóstico de Basílides, el cantar que cantaron las sirenas, el catálogo fiel de la Biblioteca, la demostración de la falacia de ese catálogo. Todo, pero por una línea razonable o una justa noticia habrá millones de insensatas cacofonías, de fárragos verbales y de incoherencias. Todo, pero las generaciones de los hombres pueden pasar sin que los anaqueles vertiginosos -los anaqueles que obliteran el día y en los que habita el caos- les hayan otorgado una página tolerable. (Jorge Luis Borges) * Bom dia! 16.7.05
COISAS SIMPLES / AR PURO
![]() Andrew Wyeth
EARLY MORNING BLOGS 542
Stopping By Woods On A Snowy Evening Whose woods these are I think I know. His house is in the village, though; He will not see me stopping here To watch his woods fill up with snow. My little horse must think it's queer To stop without a farmhouse near Between the woods and frozen lake The darkest evening of the year. He gives his harness bells a shake To ask if there's some mistake. The only other sound's the sweep Of easy wind and downy flake. The woods are lovely, dark, and deep, But I have promises to keep, And miles to go before I sleep, And miles to go before I sleep. (Robert Lee Frost) * Bom dia! 15.7.05
INTENDÊNCIA
Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO com dois estudos de Júlia Coutinho sobre o escultor e militante comunista José Dias Coelho, morto pela PIDE em 1961. ALGURES, PERTO DE SI ![]() Watteau, Tempestade (Como houve alguma discussão sobre este artigo nos blogues e ele está indisponível no Público de ontem, reproduzo-o aqui por uns dias e depois vai para a "verdade filha do tempo".) Algures, perto de si, acabará por explodir uma bomba, flutuar uma doença, fluir um veneno. Tão certo como dois e dois serem quatro, o que não é absolutamente certo, mas é quase certo. Um dia alguém perceberá que é mais simples atacar no aeroporto de Lisboa, do que em Londres, pesará os prós e os contras do impacto publicitário, e escolherá Lisboa, ou um evento lisboeta, para dar uma lição aos “novos cruzados”, ou seja nós. É só, parafraseando a frase certeira sobre Londres, uma questão de “quando”. É por isso que não basta bater no peito e dizer que “somos todos londrinos” e na volta da esquina já estar a discutir as tenebrosas propostas do Sr. Blair para limitar direitos de privacidade das mensagens porque isso facilita a vida aos terroristas. Na volta da memória, escarnecer o Patriot Act, essa “fascização da América” como já lhe ouvi falar, atacada por tudo que é burocracia bruxelense e suas extensões nacionais, como se, sobre a dupla pressão dos autocarros que explodem, e da insegurança popular, não se tenha também que ir por aí, com a prudência e as cautelas que as democracias tem que ter por tal caminho. Já o disse e repito, a separação cada vez maior entre elites europeias e americanas nesta questão do terrorismo, vem dos segundos se acharem em guerra e os primeiros não. Será apenas uma questão de tempo, até esta ser apenas uma questão de termos, não de substância, porque, falando como um sábio da Guerra das Estrelas, “em guerra estamos”. É também por isso que poucas vezes como nos dias de hoje se vê o grau de demissão do pensamento ocidental como nestes momentos. Mário Soares é entre nós o principal “justificador”, introduzindo com displicência, dele, e complacência de muitos, todos os temas dessa culpa auto-punitiva e demissionista: valorização das “causas” pelo combate inevitável da “pobreza” contra a “opressão globalizadora” e a “superpotência única”, necessidade de retirada total do mundo ocidental dos locais da “humilhação”, Palestina e Iraque, “negociação” com o terrorismo e ramificações várias destas posições mais radicais. Olhamos para o homem da bomba e tentamos percebe-lo e explica-lo, quase sempre projectando a nossa visão e os nossos combates políticos caseiros para um dimensão que nada tem com eles. Encontramos nos velhos e errados quadros interpretativos do nosso marxismo vulgar, uma explicação causal subsidiária da contradição exploradores-oprimidos. Fora dessa banalidade interpretativa, factualmente falsa, não conseguimos pensar. A tradição da nossa cultura foi sempre colocar-nos dentro dos olhos dos outros, quanto mais Outro os outros forem. E num certo sentido este é um sinal da vitalidade da cultura ocidental, que vem da sua dupla génese quer na tradição greco-latina, quer cristã. Mas se é assim que fazemos, não o fazemos (ou não o fazíamos) para encontrar-nos no Outro, quando a face do Outro era a da nossa morte, a da nossa destruição. Nietzsche diria que isto era inevitável após dois mil anos de cultura de culpa judaico-cristã, outros diriam que mais cedo ou mais tarde o Dr. Freud nos traria esta versão de Thanatos, onde Sade, Netchaiev e Bin Laden estão unidos numa mesma negação. Duvido, até porque nem Bin Laden, nem Hitler, nem Staline são vozes da culpa que eles nos dizem termos. Eu acho que tem todo o sentido “metermo-nos na cabeça” de Hitler hoje, e ler o que de interessante disse sobre a Europa face à Rússia e aos EUA, ele que era um percursor, ao modo ariano, de uma Europa unida, contra os imperialismos americano e soviético. Mas nunca me pareceria razoável, acharia até mesmo uma traição, querer “meter-me na cabeça” de Hitler entre 1933 e 1945, quando os “meus” o combatiam e ele os queria matar. As únicas explicações que me interessavam, as únicas “causas” que eu queria perceber, eram aquelas que me permitiam derrotá-lo funcionalmente, as que eram instrumentais para acabar com ele e com os seus. È importante perceber que, mesmo nas questões onde o meu pensamento lhe admitia “razão”, essa razão só pode ser defrontada depois da eliminação dele - válido para Hitler, ou Staline, ou Bin Laden. Não há causalidade que me interesse porque ela institui uma nobreza de pensamento qualquer, mesmo residual, que o ajuda a matar-me e que institui verdadeiramente o niilismo. E da falência do pensamento ocidental, da sua dificuldade e complexo em lidar com as suas fronteiras culturais e civilizacionais, está a nascer o niilismo e a face do niilismo actual é a justificação do terrorismo da Al-Qaida. Uma coisa é o movimento livre do pensamento, o voo crepuscular da coruja, que não conhece limites ao “pensável”, outra é a incorporação, quase sempre como culpa, da vontade de morte (a minha) pelo alheio. Aí a boa tradição do pensamento ocidental é outra: o combate frontal e directo. Essa também é (era?) a nossa tradição: quando se está em guerra corre-se para a frente. Vem na Ilíada. Foi assim que Alexandre combateu em Gaugamela, os marinheiros gregos em Salamina, os cristãos coligados em Lepanto, os ingleses contra os zulus. Combate duro, directo, na primeira linha, frontal com o inimigo, é uma velha tradição da forma de lutar do Ocidente. Uma das consequências desta frontalidade do combate, está expressa na velha máxima militar e civil de que “em tempo de guerra não se limpam armas”, o que não é bem verdade, mas percebe-se o que se quer dizer. Voltemos à questão da guerra. Eu bem sei que há quem ache que não está em guerra, e que a expressão “guerra” para caracterizar o que se está passar é enganadora. Talvez valha a pena discutir a terminologia, porque ela tem claras desadequações, como aliás, o quadro legal no direito internacional da guerra, para defrontar este tipo de combate. Mas a mim não me choca chamar guerra a um conflito que tem as características de ser global, da Indonésia, à Índia, á China, às antigas republicas soviéticas da Ásia Central, da Europa toda, aos EUA, que tem objectivos “não negociáveis” por incompatibilidade total de visões do mundo culturais e civilizacionais. Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho á mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um “boche” consigo. E aí o “não se limpam armas”, é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles. COISAS COMPLICADAS
![]() Paul Strand, On The Shore, Gaspé Bay, 1936
EARLY MORNING BLOGS 541
Summer Storm We stood on the rented patio While the party went on inside. You knew the groom from college. I was a friend of the bride. We hugged the brownstone wall behind us To keep our dress clothes dry And watched the sudden summer storm Floodlit against the sky. The rain was like a waterfall Of brilliant beaded light, Cool and silent as the stars The storm hid from the night. To my surprise, you took my arm– A gesture you didn't explain– And we spoke in whispers, as if we two Might imitate the rain. Then suddenly the storm receded As swiftly as it came. The doors behind us opened up. The hostess called your name. I watched you merge into the group, Aloof and yet polite. We didn't speak another word Except to say goodnight. Why does that evening's memory Return with this night's storm– A party twenty years ago, Its disappointments warm? There are so many might have beens, What ifs that won't stay buried, Other cities, other jobs, Strangers we might have married. And memory insists on pining For places it never went, As if life would be happier Just by being different. (Dana Gioia) * Bom dia! 14.7.05
AR PURO
![]() David Hockney, Iceland. Evening
EARLY MORNING BLOGS 540
Minibiografia Não me quero com o tempo nem com a moda Olho como um deus para tudo de alto Mas zás! do motor corpo o mau ressalto Me faz a todo o passo errar a coda. Porque envelheço, adoeço, esqueço Quanto a vida é gesto e amor é foda; Diferente me concebo e só do avesso O formato mulher se me acomoda E se nave vier do fundo espaço Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo: Logo me leve, subirei sem medo À cena do mais árduo e do mais escasso. Um poema deixo, ao retardador: Meia palavra a bom entendedor. (Luiza Neto Jorge) * Bom dia!
PÉSSIMAS ENTREVISTAS
as que Judite de Sousa fez a Maria Eugénia Cunhal e a Urbano Tavares Rodrigues sobre Cunhal. Os dois entrevistados são muito diferentes, mas, em ambos os casos, Judite de Sousa ouviu de menos e falou de mais. Falou e falou e falou. No caso de Maria Eugénia Cunhal numa raríssima, única ocasião, defrontou uma pessoa tão difícil de entrevistar como o irmão e repetiu o mesmo estilo reverencial que era usual com ele. A começar por ter deixado passar uma directa contradição entre ambos os entrevistados, quando Urbano conta que leu o Cinco Dias, Cinco Noites antes de Cunhal se ter revelado como "Manuel Tiago", porque a irmã lhe dera o original para ler. Maria Eugénia Cunhal insistiu na óbvia impossibilidade de que só soubera que Cunhal era “Manuel Tiago” no dia em que este informou o mundo todo de que “o Álvaro Cunhal e o Manuel Tiago eram a mesma pessoa”. A péssima qualidade da entrevista foi mais evidente com Urbano Tavares Rodrigues, que é um conversador nato, e falava com fluidez e sem quebra de interesse, e quando ia dizer alguma coisa era interrompido por mais uma banalidade da entrevistadora.
|