Friday, July 22, 2005

silly season*

1 - Teixeira dos Santos ainda não deveria ter chegado ao seu gabinete vindo da tomada de posse e já fervia a controvérsia da sua não declaração de rendimentos e património ao Tribunal Constitucional, desde 2000. Enquanto alguém estuda se há, ou não, fundamento para estas críticas ao novo patrão das finanças, foram-me ocorrendo uns pequenos nadas: sabendo que, hoje em dia, a devassa da privacidade está garantida a todos os que exercem cargos governativos, não será que quem tem aspirações a tais cargos deve pautar a sua vida por rigorosos parâmetros de cumprimento dos deveres cívicos e legais? ora, se este «ministeriável» não o fez, esquecendo o exemplo da mulher de César, de que outras coisas se irá esquecer? Sócrates, manifestamente, não encontra quem não tenha telhados de vidro, ou será que nem se dá ao trabalho de verificar se os seus escolhidos os têm? ou escolhe-os, exactamente, porque os têm? ao que consta, o actual ministro, contrariamente ao seu antecessor, é um político bastante permeável à influência dos interesses partidários, dialogante e, sobretudo, muito interessado no cargo; desiludam-se, portanto, aqueles que esperem vê-lo soçobrar ao mesmo tipo de «cansaço» que vergou Campos e Cunha, pelo que o PS poderá dormir hoje muito mais descansado; mas poderão os portugueses fazer o mesmo?
2 - A entrevista de Freitas do Amaral é um disparate pegado, prova mais do que evidente da falta de carácter que sempre o caracterizou, agora agravada pela vaidade extrema e uma senilidade preocupante, em quem se encontra em funções com a relevância das que exerce; o governo franziu o sobrolho, mas o PS não gostou da brincadeira; o poeta reagiu com estrondo ao convite à dança presidencial do outro; Sócrates filosofou sorridente sobre a asneira do ministro, numa desvalorização assassina do acto e da personagem; Freitas ficou, mas não devia; a bomba relógio da sua saída já começou a rodar.
3 - No meio de toda esta animação e rodopio, o Sr. Sampaio apaga-se, exonera sem reclamar e dá posse sem um pio (longe vão os tempos...); o Sr. Coelho faz o elogio fúnebre do exonerado, manda recados aos exoneráveis, segura os OTÁrios, promete aos «betonáveis» e faz a quadratura do círculo; Marques Mendes exila-se em Sintra, apaga fogos em vários distritos e grita contra o vento, mas este passa demasiadamente acima da sua cabeça; Carrilho procura o carácter em défice, enquanto dos lados do Caldas sopram vapores de fidalguia perfumada, ao que consta a viajar de smart, dois lugares; entretanto, avançam-se negociatas, instalam-se amigalhaços, empenha-se o futuro, em nome do qual se desgraça o presente. É Portugal, no seu melhor.
* ou melhor dizendo, nas palavras de Miguel Torga:

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

Thursday, July 21, 2005

A Comissão Europeia, que procura manter-se distanciada da política interna dos Estados-membros, não deixou de reagir à saída de Campos e Cunha com um aviso, sério, de que espera que se mantenham as medidas duras de combate ao défice.
Surgindo esta demissão imediatamente a seguir ao alargamento do prazo dado a Portugal pela Comissão para correcção do défice excessivo, é fácil imaginar que o desenlace desta crise nas finanças lhes tenha aparecido embrulhada numa boa dose de oportunismo político. Assim se minam a credibilidade e o poder negocial dos governos junto das instituições europeias. Depois, não se venham queixar do tratamento dado a certos dossiers.

Wednesday, July 20, 2005

Nota mensal de conjuntura da Direcção-Geral de Estudos e Previsões (DGEP)

Segundo a nota, «Em Junho, assistiu-se a uma diminuição generalizada dos indicadores de confiança dos consumidores e dos empresários».
Com a saída de Campos e Cunha, esperará o governo que o voluntarismo de Mário Lino faça milagres? Parece-me que pode tirar o TGV da chuva...
Image hosted by Photobucket.com
Afinal, no caso de Campos e Cunha o seu artigo tratava-se do seu testamento político. Consequência, sai.
Mau, muito mau, seja qual for a perspectiva. Se bem que estivesse politicamente morto desde o caso da acumulação de vencimentos.
E Freitas?

«Às vezes o mais difícil é começar pelas coisas simples.»

Termina assim um notável post de Suzana Toscano no 4R - Quarta República.
A não perder.

Preocupações à solta

O ultimato da Al-Qaeda aos países da Europa com intervenção no Iraque levam-me a pensar que não têm sido apenas os níveis de prevenção de actos terroristas que têm sido negligenciados pelo ocidente. Negligência tão importante quanto essa tem sido, ao que me parece, o pouco cuidado com que a falta de coesão e de objectivos comuns entre os países europeus, bem como a tensão entre estes e os Estados Unidos, têm sido tratadas, tendo-se deixado transparecer uma imagem de divisão e de vulnerabilidade, que os terroristas estão a utilizar agora numa dimensão política, de uma forma como, até ao presente, não me parece que tenha sido tão claramente visível.
O terror islâmico é anterior à intervenção no Iraque, mas este vespeiro sem solução à vista, que divide aliados e ganha dinâmicas de oposição na rectaguarda interna de cada um dos países envolvidos, está na fase de maturação ideal para o tipo de pressão que a Al-Qaeda vem agora fazer, numa estratégia «exemplar» de oportunismo, conseguindo beneficiar de «méritos» que à sua ameaça são anteriores e externos. Situações destas parecem-me difíceis de reverter, com sucesso e sem humilhação, sobretudo porque os países que já se preparavam para abandonar o Iraque, sob pressão das respectivas opiniões públicas, vão aparecer agora como cedendo à ameaça, numa real situação de fraqueza e de divisão face à ameaça do terror.
Importa ainda reter que, se fizermos fé num registo de um pretenso terrorista, o ataque de Madrid teve por objectivo a queda do governo de Aznar, o que aconteceu. Esta queda poderia, pode quase dizer-se que teria acontecido, naturalmente, pelo voto popular, mas agora nunca se saberá. O que fica, o que se retém, é que a Al-Qaeda quis colocar no governo de um país europeu uma linha política mais «manejável» e o conseguiu. Quantos governos não estarão a meditar neste exemplo? Com que consequências para o equilíbrio de forças no ocidente e deste em relação ao terror islâmico?
Não sendo a política externa uma área da qual domine os meandros, fico-me pelo registo das impressões e, a partir destas, parece-me que a Al-Qaeda estará, pelo menos ao nível da mensagem que transmite, a jogar agora noutro tabuleiro, ou seja, a utilizar a ameaça suspensa do terror como causa fracturante dos periclitantes nós da solidariedade internacional. É sabido que a cedência só conduzirá a novas exigências, até à absoluta consumação dos abjectos fins do terrorismo. Mas quantos estarão dispostos a morrer por acreditar nisso?

Tuesday, July 19, 2005

Antologia

DIES IRAE

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga - Cântico do Homem

«Pode ser uma sueca num filme italiano?»

Claro que pode, DBH, desde que o iceberg seja este. E na silly season pode sempre ir-se um pouco mais longe, não é verdade?
Image hosted by Photobucket.com

«Everything you can imagine is real.»*

Campos e Cunha escreveu e disse, desta feita sobre medidas de contenção da despesa e investimento público, e, de tal forma o fez, que foi o suficiente para surpreender o governo que (ainda) integra e provocar a histeria nas hostes socialistas, a que não pertence. Freitas do Amaral, se bem que em tom de solidária mea culpa, não deixa a outro críticas claras ao governo a que pertence, sobre o défice de comunicação e o erro estratégico que constituiram as promessas eleitorais do não aumento dos impostos.
Há quem veja nestas evidências de «mal-estar governativo» cisões no governo. Não vê de todo mal, pois há ministros que nem se falam, a não ser o estritamente necessário. Mas, para além da estratégia pessoal que estas intervenções de «independentes» não deixam de evidenciar, as mesmas acabam por se constituir uma parte importante no cenário que o governo criou como pano de fundo à sua altamente penalizadora actuação.
Adenda: A ler, sobre este tema, o que se escreve no Bloguítica (post 818), no Diário da República, no Blasfémias , no Arte da Fuga e n'O Acidental.
* Pablo Picasso

«It is a great ability to be able to conceal one's ability.»*

Com a determinação de reduzir a nossa dependência do petróleo, José Sócrates aposta, sem hesitações, na energia eólica. Numa aparente resposta à opção do governo, a Iberdrola, em Portugal liderada por Pina Moura, veio já anunciar que se vai candidatar ao concurso lançado pelo governo e apresentado, com pompa e circunstância, na Culturgest. Acontece, porém, que a empresa espanhola estava já a marcar terreno no mercado da energia eólica em Portugal desde o ano passado, tendo efectuado investimentos no sector que lhe permitem aspirar a dominar um mercado superior a um milhão de clientes, num prazo de cinco anos. Nas «teias» do negócio enredam-se as GALPadas e a «aversão» do governo à energia nuclear?
*Rochefoucauld

Sunday, July 17, 2005

Reprises de Verão

«A nossa vida é o que damos» George Séféris
Image hosted by Photobucket.com
Melina Mercouri
1920-1994
Nascida na Grécia, esta mulher esplendorosa, para além de actriz de renome mundial, foi activista política contra a ditadura grega e, nos seus últimos anos de vida, membro do parlamento e ministra da cultura do seu país. Após a sua morte, o marido, e realizador de um dos seus filmes mais memoráveis - Nunca ao Domingo, criou a Melina Mercouri Foundation, com o intuito de prosseguir os objectivos de Melina no domínio da preservação do património cultural grego.

Saturday, July 16, 2005

«Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes»*

Image hosted by Photobucket.com
Leio no Expresso, com estupefacção, que Freitas do Amaral conseguiu convencer Bill Gates a realizar em Portugal o encontro anual da Microsoft, com o engodo de estar assegurada a presença de Durão Barroso, Presidente da Comissão.
Pergunto-me: Freitas assegurou, previamente, a concordância de Barroso, ou espera convencê-lo, a bem do turismo nacional? Ou o PS tem qualquer arma contra o actual Presidente da Comissão, que obriga este, qual marioneta, a «dançar» ao sabor dos «chamamentos» socialistas? Esta última possibilidade começa a não ser absurda, se recordarmos como Barroso se submeteu à convocatória de Sampaio para a audiência sobre a questão europeia, colocando-se ao nível de simples comentadores políticos nacionais.
Seja qual for a razão que o move, ou condiciona, Durão Barroso deverá, muito rapidamente, repensar as suas intervenções na cena política portuguesa. Sob pena de o seu estatuto de um dos mais importantes lideres mundiais poder, muito justamente, vir a ser posto em causa.
* Johann Goethe
Continuam os maus resultados dos alunos portugueses nos exames, agora no 12º ano. Também continua a não surpreender, este facto, como era expectável que a matemática fosse umas das disciplinas de insucesso, agravado este em 4% relativamente ao ano transacto. O inglês é outra das disciplinas em que os resultados preocupam e, francamente, surpreendem - de 9% de chumbos do ano passado passa para 21% no presente, com médias não superiores a 6,9%. Continuam, portanto, as razões de preocupação relativamente ao futuro das novas gerações, que uma escola ineficaz e ineficiente «prepara» para os desafios do amanhã. E se os resultados agora publicados nos preocupam pelo futuro, não deixam de explicar muitas das dificuldades do presente.
Mas o que mais impressiona aqueles que, de há um tempo a esta parte, têm olhado para estes resultados com a obrigação de algum distanciamento crítico, é a disparidade entre os resultados dos exames e a classificação interna de frequência, francamente mais positiva esta do que aqueles. Esta disparidade, em percentagem não aceitável, quando tomada a média na sua globalidade, assume foros de escândalo em algumas disciplinas. A esta situação, já conhecida, a administração educativa tem respondido com um silêncio comprometido, os sindicatos têm assobiado para o lado e as organizações representativas dos pais preferem abordar outras dimensões da relação escola/família. Quanto às universidades, é o que se sabe. Porquê? E por quanto mais tempo?
A mudança que se pretende não pode centrar-se, apenas, no aumento do número de horas a mais que alguns professores, em algumas escolas, passarão a ter que cumprir, no que é uma boa medida, se bem que muito mal servida pelo proteccionismo político com que o ME pretendeu resguardar-se para aplicação da mesma. De uma vez por todas, é imprescindível que o rigor, a exigência da qualidade, a procura determinada do saber, sejam mais do que muletas do discurso de responsáveis políticos, professores e representantes das famílias. Avaliar e formar escolas e professores é urgente. Exigir ,na justa medida, a alunos, também. Mas será isso que, efectivamente, todos querem? Permito-me duvidar!

Friday, July 15, 2005

«Nunca chegamos ao fundo da nossa solidão.»
George Bernanos

Wednesday, July 13, 2005

França suspendeu Schengen

Image hosted by Photobucket.com