Domingo, Julho 03, 2005

Queen + Paul Rodgers (Queen ou Smile?)


Queen + Paul Rodgers
Lisboa
Estádio do restelo
2 de Julho 2005



No princípio, criou Deus os céus e a terra.

Nascidos a partir dos Smile, uma banda académica que contava com Brian May nas guitarras, Roger Taylor na bateria e John Deacon na guitarra baixo, os Queen tomaram forma com a entrada de Frederick Pluto Bulsara, um miúdo franzino e tímido que havia chegado à poucos anos de Zanzibar, onde o seu pai trabalhava no Ministério de Negócios Estrangeiros Inglês.
Com a sua entrada, completava-se uma das mais estáveis formações do rock, agora já sob a designação pela qual se tornariam conhecidos por todo o mundo.
O som desta nova banda distanciava-se bastante do som praticado pelos Smile.
Há já alguns anos que Brian May procurava alguém cuja voz se pudesse fundir com o som muito particular da sua guitarra, alcunhada de Red Special. Esta havia sido construída por si e pelo seu pai nas horas vagas de ambos e uma vez terminada e amplificada pelo mítico VOX AC 30, possuía um som muito característico.
Freddie Mercury tinha essa tal voz que aliada à sua mestria como compositor de canções e um grande poder de comunicação faziam dele o grande “animal de palco.”
O primeiro álbum, homónimo, veio em 1973. “Queen” era um exercício heavy-metal com umas pitadas de glam-rock (Black Sabbath meets T-Rex?). Possuía o rock favourite “Keep Yourself Alive” e uma versão jurássica de “Seven Seas of Rhye” que viria a ser completada no registo seguinte “Queen II.”
Este segundo registo evidenciava uma banda muito mais madura principalmente ao nível da composição, abraçando a banda cada vez mais o universo glam.
“Queen II” é ainda o álbum no qual a banda se aproximou mais do conceptualismo, ao dividir o registo em dois momentos, sendo que o primeiro era dominado pelo branco (“Procession”; “Father to Son”; White Queen (As it Began)”; “Some Day One Day”; “The Loser in the End”); e o segundo pelo negro (“Ogre Battle”; “The Fairy Feller’s Master-Stroke”; Nevermore”; The March of the Black Queen”; Funny How Love is”; “Seven Seas of Rhye”).
É neste período que Brian May contrai hepatite e temendo pelo seu futuro na banda, decide convencer os seus colegas a desistirem da tour de promoção ao álbum “Queen II”, propondo-lhes a composição e gravação de um novo álbum.
Desta forma o ano de 1974 presencia o nascimento de “Queen II” e de “Sheer Heart Attack.”
Em “Sheer Heart Attack” é evidente a quase omnipresença de Brian May. À porta de entrada está “Brighton Rock” com o seu quase intermezzo composto unicamente por um exercício de guitarra, onde Brian joga com as funcionalidades do “delay”. O guitarrista viria mais tarde a aprofundar este exercício em “Brighton Rock Solo”, presente no duplo álbum registado ao vivo “Live at Wembley’86” e numa apresentação da EXPO’ 92 em Sevilha, onde se fez acompanhar por, entre outros, Steve Vai (Frank Zappa), Cozy Powell (Rainbow, Black Sabbath, Emerson Lake & Powell) e Rick Wakeman (The Strawbs, Yes).
Mas “Sheer Heart Attack” era muito mais…
Possuía o primeiro grande sucesso da banda, numa altura em que a Trident tinha algumas dificuldades em distribuir lucros, como May viria a confessar alguns anos mais tarde.
“Killer Queen” fez furor nos tops do Reino Unido, Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, E.U.A., Holanda e Japão e foi como que um adoçar de boca para o que aí viria a seguir…
“A Night at the Opera” apanhou o mundo de surpresa. A liderar o colossal sucesso do álbum estava o emblemático tema “Bohemian Rhapsody”, cujo single teve em risco de não ser editado devido à sua duração de quase 6 minutos.
Mas estávamos nos anos 70. Eram os tempos primorosos da fusão por parte de Miles Davis ou dos Weather Report e do rock progressivo dos Genesis, King Crimson, Jethro Tull, Van der Graaf Generator ou dos Yes, cujas peças alcançavam facilmente os 20 minutos, pelo que os tímidos 6 minutos de “Bohemian Rhapsody” lá se conseguiram estabelecer por conta própria no formato single.
Impunha-se agora a difícil pergunta. Como dar seguimento a “The Night at the Opera”?
Os Queen responderam com “A Day at the Races” continuando desta forma a sua trilogia, inacabada até hoje, dos irmãos Marx.
Datado de 1976, “A Day at the Races” é talvez o mais menosprezado álbum da banda, assombrado que está pelo seu irmão mais velho. A principal razão desta passagem em branco é o facto de o mesmo ser visto como um sucedâneo de “A Night at the Opera.”
É verdade que o nome e capa do álbum “A Day at the Races” pressupõem um seguimento lógico perante o álbum anterior e que o tema “Somebody to Love” se poderia descrever como uma versão gospel de “Bohemian Rhapsody”, mas “A Day at the Races”, sendo claramente um follow up “seguro”, é também um álbum que apresenta uma maior coesão nos seus conteúdos e onde se sente uma maior paridade nas contribuições feitas pelos elementos da banda.


E ouvi, vinda do templo, uma grande voz, que dizia aos sete anjos: Ide, e derramai sobre a terra as sete salvas da ira de Deus.

Estamos em 1976 e no Reino Unido impera o movimento punk, cuja importância reside não tanto no movimento em si, mas nas ramificações que irá gerar, restituindo os formatos mais simples às tabelas e dando uma valente machadada a alguns dos grandes nomes de finais dos anos 60 e princípios dos anos 70, cuja música estava já longe dos seus tempos primorosos.
Em Dezembro de 1976, o programa da B.B.C. “Today”, substitui à última da hora uma reportagem sobre os Queen, por uma outra sobre os Sex Pistols.
Mercury encontra-se algum tempo mais tarde com Sid Vicious. Este pergunta-lhe como vão as aulas de ballet, ao que Mercury lhe responde: “Ah, Mister Ferocious, as minhas aulas de ballet vão bem e as suas de música?”
Mas as “aulas de ballet” estavam longe de ir bem. A qualidade dos álbuns ia decrescendo ao mesmo ritmo que a popularidade ia crescendo.
A orgulhosa inscrição “No Synths!” foi abandonada a partir do álbum “News of the World”, tendo esses mesmos sintetizadores ganho terreno de edição em edição, até atingirem o seu máximo “esplendor” no horrífico álbum de 1982, “Hot Space.”

E em ti não se ouviu não se ouvirá mais a voz de harpistas, e de músicos, e de flautistas, e de trombeteiros, e nenhum artífice de arte alguma se achará mais em ti.

Em Novembro de 1991, Mercury vem a público confessar o seu estado de enfermidade, que até aí havia sido apenas matéria de tablóides baseada na sua crescente debilitação física e estado de reclusão a que o músico se havia obrigado a partir de meados dos anos 80.
No dia seguinte, 24 de Novembro, Mercury morre deixando um legado de quase 20 anos de trabalho.
Brian May, Roger Taylor e John Deacon decidem não dar seguimento à banda, embora May e Taylor tenham ficado um pouco balançados após o sucesso mundial do tributo a Freddie Mercury.
O fim seria “Made in Heaven”, álbum feito com a perícia e paciência de um ourives, no qual foi incluído algum do material que Mercury havia deixado inacabado (“Let me Live”), reaproveitadas algumas faixas gravadas a solo por Mercury (“Made in Heaven” e “I Was Born to Love You”, ambas incluídas no álbum “Mr. Bad Guy”) e de outras gravadas por Brian May (“Too Much Love Will Kill You”, original do álbum “Back to the Light”) e por Roger Taylor (“Heaven for Everyone” do seu side-project Cross).
“Made in Heaven” como álbum é melhor percebido como um último testemunho de Mercury, seguindo de perto as ideias evidenciadas em “Was It All Worth It”, presente no álbum de 1989 “The Miracle” e “The Show Must Go On”, faixa incluída em “Innuendo” de 1991.


E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.

A morte de Freddie Mercury provocou uma ainda maior apetência por parte do mercado em relação à sua música e à música dos Queen.
Instaura-se o processo de memorabilia. A banda havia já editado os dois primeiros volumes de êxitos, que representam fielmente os períodos dos quais são embaixadores.
Em 1992 é editado o espectáculo ao vivo que a banda deu em 1986 no mítico – e infelizmente já desaparecido – Estádio do Wembley, no qual a banda bateu, ao longo de duas noites (11 e 12 de Julho de 1986), todos os recordes de venda de bilhetes com o bonito número de 300 000 bilhetes vendidos.
O álbum póstumo “Made in Heaven” é editado três anos mais tarde, sendo seguido em 1997 por “Queen Rocks”, uma compilação que continha as faixas mais “ásperas” da banda e o inédito “No One but You (Only The Good Die Young) ”.
Em 1999 sai o terceiro volume de êxitos, amplamente criticado pela sua falta razoabilidade. Será que em 30 de carreira a banda ainda não havia aprendido que faixas “desconhecidas” e versões feitas por outros artistas de temas seus, não eram material para um “Greatest Hits?”
Por esta ordem de ideias seriam muito mais proveitosas, as versões de “Stone Gold Crazy” pelos Metallica e de “Get Down Make Love” pelos Nine Inch Nails…
Felizmente o Vanilla Ice faltou à festa…

Depois de “Queen On Fire: Live at the Bowl”, editado o ano passado, começaram a surgir rumores de que uma reunião estaria eminente.
2005 vê o regresso aos palcos da banda (sem John Deacon que desde logo se mostrou contra à ideia de assumir um novo formato sem Mercury), tendo como vocalista Paul Rodgers (Free, Bad Company).
Chegou ontem, dia 2 de Julho, a vez de Portugal poder assistir a um concerto de Queen, e ainda que estivesse algo reticente quanto a esta nova formação, a experiência de palco, o grande sentido de dinâmica de espectáculo e a alegria contagiante dos músicos que muito bem foram tratados pela assistência, levou a uma mudança radical da minha opinião perante este novo formato.
A noite começou muito bem com “Tie Your Mother Down” (“A Day At The Races” – 1976). Era a prova de fogo para Paul Rodgers e o cantor sabia disso. Sabia ainda que seria impossível fazer frente à figura de Mercury pelo que assumiu, e muito bem, a sua própria figura, cuja carreira, embora menos visível do que a dos Queen, teve os seus momentos altos ao longo dos anos 70 e 80.
Por lá passaram ainda, retirados do álbum “A Night At The Opera” (1975), “I’m In Love With My Car”, “39”, “Love of My Life” e uma versão meio estúdio, meio “live” – será possível a alguém cantar isto com a mesma intensidade de Mercury – de “Bohemian Rhapsody”; de “Jazz” (1979), “Fat Bottomed Girls”; do álbum “The Game” (1980), “Another One Bites The Dust”, “Crazy Little Thing Called Love”; de “The Works” (1984), “Hammer to Fall”, “I Want To Break Free” e “Radio Ga Ga”; de “A Kind Of Magic” (1986), “A Kind Of Magic”, de “The Miracle” (1989), “I Want It All”; de “Innuendo” (1991), “These Are The Days of Our Lives” e, por parte de Paul Rodgers, “Can’t Get Enough”, tema retirado do álbum de estreia homónimo dos Bad Company, editado pela Swan Song - editora formada pelos Led Zeppelin - em 1974.
Pelo meio houve ainda tempo para vários momentos a solo, sendo de destaque obrigatório o momento em que Brian May – esse guitarrista inspirado e inspirador – tocou uma versão algo improvisada do seu “Brighton Rock Solo”, enquanto encenava, através dos écrans gigantes, a sua actuação no aniversário da Rainha Isabel II, onde deu início às festividades no topo do palácio de Buckingham.
May estava inspirado e fez de forma brilhante a transição de “Brighton Rock Solo” para “Lost Horizon”, tema retirado do seu álbum de estreia a solo “Back to the Light” (1992).
Para o encore estavam guardados “The Show Must Go On”; “All Right Now” dos Free; “We Will Rock You”; “We Are The Champions” e “God Save The Queen.”
No final era visível a satisfação de todos os que tinham tomado parte daquela grande festa. A banda, incluindo os músicos de suporte, tinha rejuvenescido perante tantas atenções por parte da assistência, que pulou, dançou e está hoje, certamente, afónica.
Após o concerto fica a pergunta. Será que estes novos Queen são capazes de continuar com o legado de forma convincente, o que inclui um retorno às gravações e ao processo criativo, ou será que sem Mercury, voltaram a ser apenas os Smile?

Quarta-feira, Junho 29, 2005

Álbum do dia: Van der Graaf Generator "Still Life"



“Still Life”…
É irrefutável o sentimento de introspecção existente nesta natureza morta, produzida por uma das mais interessantes bandas do movimento progressivo dos anos 70.

Longe das batalhas cósmicas de “Pawn Hearts”, “Still Life” vai buscar um outro tipo de intensidade, que provem essencialmente das imagens sempre fortes criadas pelo imaginário Hammilliano, cujos textos e interpretação vocal têm aqui um papel preponderante na construção dos temas, já que a nível instrumental a banda se encontra muito mais sóbria.

As melodias, sempre baseadas na simplicidade traduzida nos teclados de Hugh Banton e saxofones de David Jackson, socorrem-se dos muitos momentos que ora roçam a perfeição ou a assumem como sendo a personificação musical da mesma.

Terça-feira, Junho 28, 2005

Álbum do dia: Suede "Dog Man Star"



Penso que todos nós começamos a estar fartos das chamadas “next big things.”
O desenrolar do processo acontece sempre da mesma forma. Aponta-se um novo valor a ter em atenção – e ai de quem vá contra – começando-se a construir toda uma montanha de atenções por parte dos média, para daí a alguns meses alguém desmistificar o mito e fazê-lo cair por terra. Afinal há que dar o lugar a outro.
Os Suede foram um caso diferente. Após terem sido alvo da atenção por parte dos média – o “Melody Maker” colocou-os na primeira página ainda antes da banda ter editado o seu primeiro single, com a inscrição “A melhor nova banda britânica” –, de lhe terem resistido e principalmente após terem perdido o seu guitarrista, Bernard Butler, a banda não se alienou e prosseguiu na sua rota em direcção ao “difícil segundo álbum.”

“Dog Man Star” era mais fresco e mais desafiante do que o seu antecessor. Butler havia abandonado a banda, mas “The Power” deixava antever o espírito criativo do jovem Richard Oakes, que tinha 17 anos quando integrou a banda.
Outros pontos de interesse incluem “The Wild Ones” a que Brett Anderson chamou a melhor canção de sempre dos Suede; ou “Daddy’s Speeding”, que relata um encontro com James Dean.

Pop etéreo, com boas melodias e um vocalista carismático.
Mais é impossível…

Segunda-feira, Junho 27, 2005

Álbum do dia: Mimetic Tale "Personal Plot"



“Personal Plot” poderia bem ter sido a banda sonora da estadia de Gulliver em Liliput.
Tudo aqui é feito numa à escala de 1/3 desde o tamanho do mini c.d. e package até à duração do mesmo.
Assim sendo penso que a melhor forma de encarar este registo sonoro é a de o encarar como um – fantástico - teaser que irá por certo suscitar a vontade de quem o ouve para descobrir obras “completas” de Mimetic Tale.

Em termos de organização este “Personal Plot” apresenta uma visão de transição – que se pressente como sendo bastante autobiográfica - entre um mundo calmo e hipnótico e um outro mais turbulento.
A própria ideia de analisar musicalmente esta transição é desde logo interessante, e de facto a música é uma das únicas artes capazes de descrever a complexidade dos nossos mundos interiores em permanente mudança.
Mimetic Tale de seu nome civil Jerome Soudain, que também integra as bandas Art Zoyd e Von Magnet como percussionista, começa este seu pequeno teaser com “Smooth Feeling”, um registo introspectivo que facilita a nossa entrada num mundo que deixa de ser apenas seu para passar a ser também de quem o visita.
No próximo tema, “Le Spectre”, a introspecção dá lentamente lugar às percussões formulando-se desta forma a passagem entre dois estados de espírito e assumindo-se a propensão para a agressividade depois explorada nos remanescentes dois temas “The North Side of my Heart” e “Harsh Feeling.”

Embora a nível musical “Personal Plot” não apresente muitas novidades, também é certo que o próprio conceito de novidade, quando aplicado à música contemporânea, é sobretudo utilizado para descrever algo a que não estamos habituados.
Assim sendo este registo deverá ser analisado tem em conta a qualidade estética que apresenta. Neste campo Jerome Soudain apresenta uma obra que prima pela muito boa construção individual e colectiva de “Personal Plot.”
A escolha das tonalidades é também muito bem conseguida possibilitando um registo quase impressionista na forma de como leva o ouvinte nesta viagem ao seu “si.”

Mimetic Tale é pois um nome a ter em conta em registos futuros, que se esperam apenas mais amplos.

Sábado, Junho 25, 2005

Álbum do dia: Love "Forever Changes"



A capa e as canções são um magnífico testemunho do verão quente de 1967. Após duas tentativas, Arthur Lee, o líder do projecto, conseguia desta vez criar aquela que viria a ser a sua grande obra-prima, tendo como principais ingredientes, as orquestrações de David Angel, a voz de Arthur Lee e os textos deste.
Das baladas hipnóticas às canções “nonsense”, passando pelos momentos mais ásperos do álbum, tudo espelhava beleza e alegria. “Forever Changes” ficou, pois, para a história do rock como um dos álbuns mais marcantes que saiu da fornalha psicadélica. Numa época dourada, Arthur Lee teve a visão suficiente para criar um Manuel de referência para futuras gerações de músicos, que ainda hoje prestam homenagem ao seu mentor.

Os Love tinham sido criados dois anos antes, sucedendo aos Arthur Lee and the LAG’s, um grupo de rhythm and blues, que ainda chegou a editar o single “The Ninth Wave”, em 1963. Deste combo transitou John Echols, guitarrista, para a formação dos Love. Juntaram-se-lhe Bryan MacLean, Ken Forssi e Alban “Snoopy” Pfisterer e, depois de um curto período sob a designação de The Grass Roots, Lee decidiu chamar-lhes Love.
Assinaram contracto com a Elektra Records, que aos poucos ia assim construindo um catálogo underground, e que já tinha alguma fama nessa área, depois de ter assinado com Phil Ochs, Judy Collins e com os The Byrds, nesta altura ainda sob a designação de The Beefeaters.

Editado no tal verão quente de 1967, o chamado “verão do amor”, “Forever Changes”não foi na altura reconhecido como a obra-prima que indiscutivelmente é. Enquanto que “Strange Days” dos companheiros de editora The Doors, vendia aos milhares, este terceiro registo do grupo de Arthur Lee não era encarada pelo público da mesma forma que o segundo do grupo de Jim Morrison. Mas talvez tenha sido essa a razão pela qual os Love e “Forever Changes” se tenham tornado respectivamente uma banda e um álbum de culto para os admiradores da cena hippie de finais dos anos 60.

Após o fracasso comercial de “Forever Changes”, a banda viria a desagregar-se, sendo que Lee voltaria a reunir-se com outros companheiros, nunca conseguindo no entanto igualar a magia presente em “Forever Changes.”
O mesmo permanece como um dos mais belos registos de sempre.

Sábado, Junho 18, 2005

Álbum do dia: Univers Zero “Rhythmix”



Se o rock progressivo sinfónico, característico do início dos anos 70, se baseou à grande no romantismo do século XIX, a música progressiva dos Univers Zero revela-se muito mais próxima do século XX.
Formados em 1974 e desde sempre liderados pelo seu percussionista e principal compositor Daniel Denis, os belgas Univers Zero começaram por encabeçar o movimento Rock-in-Opposition, movimento esse que desde logo abandonaram em favor de um tipo de música muito mais perto da “agressividade” de Béla Bartók (1881 - 1945).

Este novo tipo de música de câmara é dotado de uma produção rock com todo o frenesim deste. Tal é de resto particularmente visível no álbum de 2002 intitulado “Rhythmix.”
Neste álbum há ainda o acréscimo de uma ambiência mecânica, como se a música fosse o respirar de uma siderurgia, cujas palpitações altamente irregulares tornam impossível antever o desenrolar de cada peça. Um exemplo perfeito dessa imprevisibilidade é o tema “Rouages: Second Rotation - (Cogwheels: Second Rotation)” que após começar com um elemento percutivo que forma o “esqueleto” da peça, vê acrescidos elementos mecânicos que, pelo nome da mesma, se percebem ser carretos, desembocando toda esta parafernália num brilhante ambiente que parece ter saído algures do século XVI sem nunca perder no entanto, uma certa ambiência contemporânea.
Outros momentos altos incluem os brilhantes emparelhamentos rítmicos de “Terres Noires - (Blacklands)”; “Phobia”; “Shanghaï's Digital Talks”; “Emotion Galactiques - (Galactical Emotions)” e “The Fly-Toxmen's Land”, esta última com um brilhante momento de trompete assinado por Bart Maris, que empresta ainda o seu instrumento em “Emotion Galactiques - (Galactical Emotions)” e “Zorgh March.”

“Rhythmix” é sem qualquer sombra de dúvida um daqueles álbuns que nos faz amar a própria música, com todos os seus maravilhosos esquemas rítmicos, sopros sombrios – cortesia de Michael Berckmans – e o espalhar do próprio som que se faz como se de luz se tratasse…
É acima de tudo um grande candidato a obra-prima da década!

Quinta-feira, Junho 09, 2005

Álbum do dia: Dream Theater “Octavarium”



Dream Theater é o nome por excelência que melhor designa o termo controvérsia.A sua música possui referências claras a autores tão distintos como Elton John, Megadeth, Metallica, Tool, U2 ou Pink Floyd, sem nunca perder por completo a sua identidade própria.Depois do mal amado "Train of Thoughts", os Dream Theater regressam em 2005 com “Octavarium.”

Neste novo álbum, a banda põe freios à sua conduta Thrash Metal e volta a incluir vários elementos progressivos, quer ao nível da construção dos temas, quer ao nível das tonalidades utilizadas. Mas nem só de rock progressivo vive o Homem…A palavra de ordem em “Octavarium” é mesmo diversidade.Algumas faixas chegam mesmo a apresentar alguns elementos catchy – evidentes na balada “The Answer Lies Within” ou em “These Walls” – constituindo estes autenticas piscadelas de olho às tabelas de singles.

Não se pense porém que a banda norte-americana deixou de vez as tonalidades mais abrasivas. Faixas como "The Root Of All Evil" e “Panic Attack” relegam o ouvinte para a rugosidade de "Train of Thoughts" ou para “Glass Prison”, incluída no duplo álbum de 2002 “Six Degrees of Inner Turbulence.”

Quanto aos elementos progressivos, estes são particularmente notórios nos “intros” e “outros” das faixas e principalmente na faixa título, uma suite épica de quase 24 minutos.
É com um enorme prazer que se assiste ao desenrolar das várias atmosferas criadas nesta suite.
A mesma começa num registro muito próximo dos Pink Floyd de “Shine on you crazy diamond”, abrindo caminho para uma balada que por aí cai muito perto.
Por volta dos 16 minutos, a banda prova toda a sua mestria instrumental com impressionantes duelos entre John Petrucci e Jordan Rudess, sendo estes acrescidos pela voz de James LaBrie, que a esta altura fazem lembrar a voz de Dave Mustaine (Megadeth, MD45).
A suite “Octavarium” termina numa secção sinfónica, sendo também esta uma óptima forma de terminar um tão excitante álbum.

“Octavarium”, o álbum, representa a solidificação do rumo tomado pela banda no primeiro disco de “Six Degrees of Inner Turbulence” e que aqui apresenta uma maior sabedoria na mistura de todos os ingredientes que o compõem.
Como contraponto a este novo rumo, torna-se infelizmente cada vez mais evidente que os bons tempos de Kevin Moore já lá vão…

Domingo, Junho 05, 2005

Álbum do dia: Pink Floyd "Ummagumma"



Editado em 1969, "Ummaguma" marca o início dos Pink Floyd fora da influência de Syd Barrett. Embora este apenas tenha gravado com a banda o álbum de estreia “The Piper at the Gates of Dawn”, a sua influência foi perdurando no seio do grupo.

Para álbum de 1968 “A Saucerful of Secrets” foi rebuscado o último single que a banda gravou com Syd, intitulado “Jugband blues”, numa altura em que o contributo de David Gilmour – contratado numa primeira instância como guitarrista para os espectáculos ao vivo – era ainda mínimo.

Antes de “Ummagumma” a banda teve ainda a oportunidade de fazer a banda sonora para o filme “More” de Barbet Schroeder, escrita e gravada no tempo recorde de 8 dias.
Esta banda sonora apresentava já indícios do que estava para vir em “Ummagumma”, se bem que este o superasse de longe.

“Ummagumma” apresenta-se como um álbum duplo, sendo que no primeiro disco a banda apresenta versões gravadas ao vivo dos clássicos “Astronomy Domine”, “Careful With That Axe, Eugene”, “Set the Controls for the Heart of the Sun” e “A Saucerful of Secrets”.
Excluindo “A Saucerful of Secrets”, todas as versões aqui registradas apresentam melhorias significativas, através de uma maior interacção dos músicos e de uma menor preocupação com os tempos previamente estabelecidos. Com efeito sente-se que a música dos Floyd flúi muito melhor ao vivo do que em estúdio.

O segundo disco foi inteiramente gravado em estúdio e apresenta ideias pessoais de cada um dos músicos.
Alguma da crítica apontou negativamente esta escolha, afirmando que se tratava de um produto desunido, sem coesão...
O que se diz sobre algo é sempre algo relativo, mas tratando-se deste álbum em particular é necessário atender ao seu carácter experimental.
Assim sendo, esta parte do álbum contém alguma da mais interessante música editada sob o nome Pink Floyd.
A iniciar a segunda parte de “Ummagumma” está “Sysyphus“, uma peça dividida em quatro andamentos, para mellotron e piano de Richard Wright.
Começa o mellotron numa linha quase vocal que parece invocar o filho de Aeetes e fundador de Ephyra. Esta linha dá depois lugar a um piano caótico, sendo o ouvinte mais tarde reconduzido à bonança no terceiro andamento, que no seu final volta a introduzir o ouvinte num ambiente de terror.

A verdadeira paz apenas aparece em “Grantchester Meadows”. Esta peça pastoral marca o início da parte musical de Roger Waters, onde o mesmo aparece no ambiente bucólico dos prados de Grantchester envolto nos sons que o rodeiam.
A paz acaba quando a personagem principal entra em casa juntamente com um seu inimigo alado que acaba por morrer às mãos do seu carrasco.
Começa “Several Species Of Small Furry Animals Gathered Together In A Cave And Grooving With A Pict”, um exercício de multi-dubbing cujo desenlace nos transporta até um discurso de Waters mascarado de insecto fascista.
“Several Species…” é com certeza uma das mais bizarras faixas do repertório de Waters e mesmo dos Floyd.

O senhor que se segue é David Gilmour. Este apresenta-nos a contribuição mais “terrena” de “Ummaguma” nos três partes de “The Narrow Way”.

O contributo final vem pela mão de Nick Mason.
A sua peça intitulada “The Grand Vizier's Garden Party” encontra-se dividida em três partes, sendo que a primeira e terceira partes – para flauta solo – dão à peça um certo sentido esférico.
Quanto à segunda parte, composta por elementos de percussão e fita magnética, assemelha-se muito a certas obras de Edgard Varese, aproximando-se bastante a alguma da estética erudita contemporânea.

Embora os membros dos Floyd tenham dito mais tarde que “Ummagumma” tinha sido um fracasso no sentido artístico – chegaram mesmo a pensar em regravá-lo – todos eles são unânimes quanto à importância do conteúdo conceptual, que viria a influenciar muitas outras bandas.

Quinta-feira, Maio 19, 2005

Em tua memória


ll

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Adeus



Lembro-me de quando falámos como dois miúdos de coisas que ambos gostávamos.Eu acreditava que o “Pawn Hearts” havia sido escrito quando todos os planetas estavam alinhados. Tu choraste quando o ouviste pela primeira vez.
Até sempre.

Quarta-feira, Maio 11, 2005

Saladas, burgers, sabor a Brasil, pastas...



Aquilo de que eu precisava mesmo era um telefone novo , visto que o actual tem alguns problemas com a rede… o dito equipamento refinou-se e agora apenas recebe cobertura da rede em cidades ou – quando em pequenas vilas – na rua.

Lá recorri a essa metropolis do consumo que atende pelo nome de Colombo em busca de um substituto acompanhado pela Iara.
Com não tínhamos tido tempo para apanhar alguma coisa em casa para comer, decidimos que depois comíamos qualquer coisa por lá.

Quando chegamos descobrimos que praticamente todos os folhetos, posters e demais papéis publicitários da indústria alimentar haviam sido elaborados pela Iara.
Como é claro, tive de correr “todas as capelinhas” para ver toda a sua obra.

Continuo com o mesmo telefone…

Sábado, Maio 07, 2005

Back to basics



A maior parte das pessoas escolhe o final de ano com divisor de águas, onde importa acima de tudo fazer um balanço do ano transacto e desejos para o ano que começa.
Ontem iniciei a minha época balnear e dei por mim a pensar que as minhas águas são divididas – e analisadas – nesta altura.
Continuo a julgar que a vida me corre bem enquanto for agradavelmente imprevisível.

Sexta-feira, Maio 06, 2005

Álbum do dia: Patrick Moraz "Story of I"



Após a saída em 1975 do álbum “Relayer”, todos os então músicos pertencentes aos Yes editaram álbuns a solo que delineavam na perfeição o contributo que cada um deles para a banda.
Assim Chris Squire (guitarra-baixo) editou o fantástico “Fish out of Water”, John Anderson (voz) editou aquele que seria o seu álbum de referência intitulado “Olias of Sunhillow”, Steve Howe (guitarra) meteu mãos à obra em “Beginings” onde mostra toda a sua mestria na guitarra e nos arranjos, mas infelizmente uma quase incapacidade no canto, Alan White (bateria) afundou-se em “Ramshackled” e Patrick Moraz iniciou-se neste estranho mas muito interessante “Story of I”.

Este apresenta-se como sendo um álbum cuja missão é a fusão entre a música popular brasileira – particularmente ao nível rítmico - o rock e o jazz, resultando esta mistura numa complexa e extraordinária aventura musical com um elevado grau de inovação.
À partida seria muito difícil misturar sintetizadores, pianos, bateria e guitarras com um infindável número de instrumentos de percussão tais como as castanholas, a cuica, o berimbau, o tam-tam, o agogô, o surdo, o reco reco, o repique, o tamborim, o pandeiro, a frigideira, o tumba ou o ganzá.

Começando com “Impact” tornam-se desde logo óbvias as qualidades técnicas de Moraz, impondo-se este nos teclados por entre uma secção rítmica alucinante que irá desembocar em “Warmer Hands”, tema que possui a voz de John McBurnie, aqui muito semelhante à voz de Jon Anderson.
Sempre considerei que talvez Moraz não tivesse a escolha apropriada como substituto de Rick Wakeman nos Yes, em grande parte devido à sua estética profundamente jazzistica, mas a este ponto do álbum dou por mim a mudar de ideias e a confirmar esta mudança em “Intermezzo” onde o teclista se instala de forma brilhante no piano, exibindo uma técnica muito mais fluida do que a exibida por Wakeman e com a vantagem de lhe faltar a pompa deste.

Com “The Best Years Of Our Lives” assiste-se a um abrandamento do álbum. Este é o primeiro de muitos momentos onde “Story of I” parece recuperar o fôlego.
Penso que Moraz tentava desta forma agradar a dois universos. Um que apelava ao seu gosto pessoal e o outro à entrada nas playlists das rádios, coisa que acabou no entanto por não acontecer, já que o álbum cedo desapareceu na bruma tornando-se apenas num item de colecção para todos aqueles que gostam de Yes.

Entra “Descent”, um prelúdio para a brilhante “Incantation (Procession)” que volta a introduzir a fusão de sintetizadores e percussões também sentidas na faixa seguinte “Dancing Now”.

“Impressions (The Dream)” reintroduz o piano envolto numa melodia de alguma forma suspensa no ar. Esta sensação de suspensão é realçada por um sintetizador que nos entrega directamente a Morfeu, deitado na sua cama de ébano, cuja capacidade de assumir qualquer forma humana e de aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada, aqui se percebe em música inserindo o temperamento perfeito para a próxima faixa intitulada “Like A Child In Disguise”, que narra a história de um amor quase unilateral.

A fusão instala-se uma vez mais, qual final apoteótico, em “Rise And Fall”, desta vez acrescida por guitarras distorcidas envoltas no mesmo ambiente frenético das percussões.
Moraz guarda para o final o seu maior momento de calmia, lançando-se na sua sinfonia espacial onde emula uma orquestra com os seus sintetizadores e recria o ambiente perfeito para o desfecho do seu álbum de estreia.
Após todo o aparato vivido ao longo deste riquíssimo álbum, é agora altura de descansar e contemplar o trabalho feito.

Sábado, Abril 30, 2005

“Redra Ändra Endre De Fase” revisto pela revista Modern Dance (Reino Unido)



Since only three compositions fill this CD and with over half an hour being devoted to the opening track it will come as little surprise that this is quite a serious undertaking musically speaking. Redra is the title of the opener and it starts with what sounds like a cross between a marimba and xylophone which if you listen closely appears to contain subtle electronic effects.
The playing starts quite slow and then becomes quite frenetic and the rhythm and melody are somewhat intoxicating but you really do have to concentrate and listen to this piece repeatedly to gain the benefit. Then suddenly after seven and a half minutes, the instrumental changes to a piano-only piece with fast complex interplay. For the last ten minutes from the end its back to the xylophone and then the piano and further alternation between the individual sounds towards the end of this mammoth piece. It comes as a bit of a shock to find the next track Andra appears to be purely electronic and although it is not totally of an ambient nature. The sequences are easily recognised and these basic themes are then slowly manipulated in the middle is a fast piano solo that almost startles and then its back to the ambient textures of this eleven-minute plus instrumental. Its back to the repetitive piano riffs at the start of Endre De Fase. This is probably the most difficult track to appreciate, as it is basically a long piano piece with subtle effects. The interaction of the varying chords provides a very complex pattern. Although quite melodic it’s played with gusto and hence some may have difficulty in keeping up with the tempo. This CD will challenge the ordinary listener, but for those willing, the rewards are plentiful. (Brooky)


Outras recensões a "Redra Ändra Endre De Fase" em http://jeronimosamuel.no.sapo.pt/discografia/redraandraendredefase.htm

Recensão a "Symptom of Thisease" na webzine Decadence (Espanha)



El subtitulado 'Thisco split' es como un Tradado de Ambient que cierra un año que ha resultado espectacular para éste, algo más, que un sello discográfico llamado Thisco, y a la vez es un extraño Juego de Identidades . El portugués Samuel Jerónimo usa el alias de BIO mientras que su compatriota Jorge Mantas se oculta bajo THE BEATIFUL SCHIZOPHONIC. Por otro lado CRIA CUERVOS es el seudónimo del italiano Eugenio Maggi. Los tres por separado dan cuerpo a esta obra que posee una unidad en su apuesta por la linealidad y la abstracción y por su claro rechazo del loop. Samuel Jerónimo -su album 'Redra andra endre de fase' ha sido destacado entre lo mejor del 2004 por la prensa lusa- desarrolla durante los 19 primeros minutos de 'The distant image of the abstract light' un viaje al corazón de las tinieblas en busca de algun coronel refugiado en la selva . La performance 'Forêt, forêt, des yeux fourmillent' de Eugenio Maggi es aún más opresiva, casi 18 minutos de alucinación psicotrópica sólo apta para almas malsanas. Jorge Mantas opta por dividir su tiempo en tres partes de 9:30, 7:13 y 5:25 para excrutar en 'Her heart is a room full of drones' , 'Soul scanner' y 'Girl in ecstatic peace' pasajes ocultos de la sombría mente del cazador.

Comentários a "Redra Ändra Endre De Fase" por nomes da Bor land



Rodrigo Cardoso:

Antes de mais, os parabens pelo teu último trabalho.
Gostei do disco, dos loop's, do novo piano, assumidamente electrónico, com base na repetição, o enquadramento maquinal. Gostei de ouvir composições impossíveis. "Redra Ändra Endre de Fase" é um dos tais álbuns para se guardar e ouvir silênciosamente.

Francisco Silva (Old Jerusalem):

Finalmente ouvi o “Redra Ändra Endre De Fase” e gostei muito! Parabéns pelo trabalho.

Terça-feira, Abril 26, 2005

Álbum do dia: Soopa + Radon "United Scum Soundclash"



A música é uma forma de arte fantástica porque apenas necessitamos de um único sentido para recolher uma enorme quantidade de informação.
Isto não implica a subjugação da mesma como uma arte menor, até porque ela tem de conseguir despertar todo o tipo de sentimentos no ouvinte, apenas utilizando esse único sentido da audição.Como é claro possui algumas vantagens. Não é necessário que o ouvinte conheça um determinado código linguístico mesmo que nela exista canto.
Os sons encarregam-se de fazer passar a mensagem como muitas vezes as palavras não conseguem.

Com a participação de Jonathan Cactus Man, Miguel Autoblack, Filipe The Banshee, Scott Nydegger, Steve McKay e Kamil Kutra, "United Scum Soundclash" apresenta a música como linguagem universal ao associar sons a experiências que neste caso são profundamente citadinas, fazendo uso de uma paleta de atmosferas musicais que vão do cinzento ao negro, por entre loucos desvairos de free-jazz controlados por electrónicas profundamente experimentais.
Tal distopia futura – ou será que ainda estamos no presente? – é esmagadora, abstraindo-se e abstraindo-nos de tudo o quanto temos como certo no nosso dia-a-dia.
Somente por nos conceder tal experiência, este álbum já seria um esforço louvável. Adquire uma importância ainda maior quando nos conseguimos permanecer lúcidos o suficiente para contemplar o maravilhoso processo de construção/desconstrução musical existente ao longo do álbum.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Álbum do dia: Duty Free Area "D.F.A."



Para os italianos Duty Free Area a.k.a. D.F.A. tudo começou em 1991 em Verona quando Alberto De Grandis, Luca Baldassari e Roberto Tommasini decidiram combinar esforços e montar uma banda.

No ano seguinte começam a compor os primeiros temas, sob grande influência das ideias de De Grandis. Estas composições vão sendo alvo de melhorias e tornam-se cada vez mais ambiciosas com a entrada de Silvio Minella em 1993, gravando a banda a sua primeira demotape em 1994.

Em 1995 gravam a demotape “Trip on Metrò” que suscita a atenção de Alberto Piras da banda Deus Ex Machina, que se oferece para gravar o primeiro registo da banda denominado "Lavori In Corso”. Através deste, a banda vê a sua lista de concertos crescer exponencialmente, sendo que numa das datas chegam mesmo a tocar com os seus patrícios "Banco del Mutuo Soccorso".

É já em 1998 que após chegarem à final do Concorso Omaggio Demétrio Stratos, são contactados por Mauro Moroni da Mellow Records que contracta o grupo a fim de gravarem um segundo álbum. O resultado sai no ano seguinte com denominação homónima à banda.
Este registo apresenta uma banda madura com composições ambiciosas e onde a técnica de Alberto de Grandis e de Alberto Bonomi sobressaem.
Os ambientes estéticos vão desde a fusão entre o jazz e o rock de “Escher”, “Esperanto” e “Ascedente Scorpione”, a tensão em crescendo em “Caleidoscopio”, o rock sinfónico em “Ragno” – com Bonomi a brilhar –, e a lírica “Malia”.

No geral não se podem apontar grandes defeitos a este álbum homónimo dos D.F.A. As composição ambiciosas aliadas a execuções aprimoradas e a uma produção bastante boa, fazem dele um álbum a ter sempre “de baixo d’ouvido.”

Sábado, Abril 23, 2005

Álbum do dia: Steve Hackett "Voyage of the Acolyte"



Steve Hackett começou por ser um músico de estúdio, tendo participado nesta condição nos projectos Canterbury Glass e Sarabande.
Em 1970 integra o grupo Quiet World com quem grava o álbum “The Road” editado nesse mesmo ano pela Dawn Records.
Após esta curta estadia, Steve decide responder a um anúncio vindo no jornal Melody Maker, o qual anunciava que uns tais Genesis estavam a fazer audições para encontrar um novo guitarrista, agora que Antony Phillips havia saído da formação.
Na verdade foi John Hackett quem persuadiu o irmão a responder ao anúncio, já que a ideia de uma banda com o nome Genesis, cujo álbum de estreia se chamava “From Genesis to Revelation” sugeria muito mais um qualquer grupo de gospel, do que uma banda de rock.
A resposta ao anúncio resultou na entrada de Hackett nos Genesis (na mesma altura de Phil Collins), tendo este tido a sua primeira oportunidade de contribuir para o som geral da banda no álbum de 1971 “Nursery Cryme”.
Este evidenciava um carácter menos bucólico e pastoral do que o seu antecessor de 1970 “Trespass”, sendo que a guitarra de Hackett transpirava elegância e experimentalismo.
Jeferson Araújo-Pereira afirma no seu livro “Obras Primas do Rock Progressivo” (Brasil, 2000) que foi por ventura Hackett quem inventou a técnica do “tapping” ao contrário do que é descrito na maior parte das publicações especializadas na guitarra, que afirmam ter sido Eddie Van Halen. Na verdade o tema Eruption (ouvir aqui) foi editado no álbum homónimo dos Van Halen a 10 de Fevereiro de 1978, ou seja, 7 anos após a edição de “Nursery Cryme” onde está presente o tema “The Return of the Giant Hogweed” onde Hackett utiliza esta técnica.

Com o passar dos anos os Genesis foram-se tornando numa banda cada vez mais reconhecida dentro do panorama da musica popular, embora no seio do grupo houvessem alguns problemas que acabaram por afastar Peter Gabriel da banda, tendo este mais tarde seguido uma carreira a solo.
Já como quarteto, os Genesis viam agora outra disputa a erguer-se. Tony Banks (teclados) e Hackett competiam entre si pela liderança criativa da banda. Tal disputa torna-se particularmente notória nos álbuns “A Trick of the tail” de 1976 e “Wind and Wuthering” de 1977 e dita o abandono de Hackett dos Genesis em 1977, após ter editado em 1975 o muito bem sucedido álbum a solo “Voyage of the Acolyte”.
Neste álbum, Steve conta com a participação de dois dos seus colegas dos Genesis, Phil Collins na bateria, percussão e voz, e Mike Rutherford na guitarra-baixo e guitarra de 12 cordas.
O mesmo começa com uma verdadeira debandada no tema “Ace of Hands”, onde os músicos provam que estão perfeitamente à vontade quer nas linhas mais “groovy”, como nos momentos mais calmos. Essa amplitude de esquemas estéticos é depois realçada nos restantes temas do álbum, desde os pastorais “Hands of the Priestess”, “The Hermit” e “The Lovers”, ao frenético “A Tower Struck Down”, passando pelo belíssimo “Star of Sirius” e pelo lírico “Shadow of the Hierophant”.

Tal como muitos outros músicos que assinam os seus trabalhos em nome próprio, Steve Hackett não possui as mesmas qualidades vocais que possui na guitarra, enveredando pelas decisões inteligentes de convidar vocalistas consoante o ambiente com que pretende dotar cada tema e de apenas colocar a sua voz em pequenos apontamentos e devidamente tratada por efeitos, tal como acontece aqui em "The Hermit”.
Os vocalistas convidados em “Voyage of the Acolyte” são Sally Oldfield que empresta a sua voz em "Shadow of the Hierophant" e Phil Collins em "Star of Sirius".

Como “Voyage of the Acolyte” foi lançado enquanto Steve ainda fazia parte da banda, são inegáveis algumas parecenças no som deste registo para com a banda. Ainda assim este primeiro álbum é um rasgo de inspiração que parecia contida no guitarrista e que apenas aqui desenvolveu o seu inteiro potencial

Sexta-feira, Abril 22, 2005

Álbum do dia: Isildurs Bane "The Voyage"



“The Voyage” é uma das grandes obras criadas pelo grupo sueco Isildurs Bane.
Seguindo de alguma forma os trabalhos iniciados em “Cheval”, “The Voyage” é composto na sua maior parte por várias suites inspiradas em edifícios ou pessoas. Exemplos maiores disso são: a suite homónima, inspirada na vida e obra do artista helvético Adolf Wölfli, que por ter vivido a maior parte da sua vida num hospício e não ter conhecido as limitações e influências do dia-a-dia dotou a sua obra de ideias completamente novas que funcionavam como janelas abertas para o seu pensamento; e a suite "La Sagrada Família" inspirada na Catedral de Barcelona.

Com a participação do Zorn Trio, a já complexa música dos Isildurs Bane tornou-se mais ampla passando por momentos recheados com guitarra que desaguam em partes de um surpreendente eruditismo misturado com jazz, desempenhando o grupo sueco com distinção, a difícil tarefa de misturar tudo isso de uma forma tão homogénea que se torna difícil a tarefa de perceber claramente se alguma delas é dominante.

Ao fazê-lo estão a quebrar as barreiras entre o que é percebido como música rock e música erudita do século XX.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Gouveia Art Rock 2005: Recensão



Gouveia Art Rock 2005


Bandas Participantes:

- Amarok
- French TV
- Arena
- Lars Hollmer
- Miriodor
- Trape-Zape
- The Watch
- Univers Zero
Teatro Cine
Gouveia
9 e 10 de abril de 2005


.:: Amarok


O grupo catalão de folk-progressivo, cuja música, quase sempre composta por Robert Santamaria, sintetiza elementos sinfónicos, jazzísticos e étnicos de diversas proveniências (especialmente espanholas e árabes). Ao vivo, em formação de septeto, apresentou um espectáculo de grande colorido sonoro e visual, o que constitui uma boa forma de iniciar o festival. Música muito interessante e uma grande presença em palco, evidenciando uma componente cénica que, à partida, não seria de esperar. Muito divertido e um excelente contacto com o público.

Infelizmente não foi um concerto perfeito: o nível de entusiasmo não foi mantido ao longo de todo o espectáculo, o som não foi o mais equilibrado e o Robert Santamaria não escapou a uns quantos "pregos", em particular no Saz.

Quanto às peças em si eram admiráveis pela sua construção onde mestiçaram o rock com a música tradicional fazendo mesmo uso de instrumentos antigos ou exóticos.


.:: French TV

A banda de Mike Sary (guitarra-baixo) sintetiza em si e de forma original diversos estilos e subgéneros do progressivo - da Escola de Canterbury ao Rock in Opposition -, temperando tudo com um humor muito próprio e alicerçando o resultado numa grande probidade oficinal.
A interligação dos temas e dos músicos foi perfeita, tornando-se bastante claro que era Sary quem “comandava o barco” quer ao nível musical, quer ao nível da comunicação com a audiência.
Temas de destaque: “Everthing Works in Mexico” e “The «Pardon Our French» Medley”


.:: Arena

Super-banda de neo-progressivo, composta por membros que integram, ou já integraram outras formações do mesmo subgénero: Clive Nolan (Jadis, Pendragon, Shadowland), Mick Pointer (ex-Marillion), John Mitchell (The Urbane, Kino) e John Jowitt (IQ).

Antes de mais, se acreditarmos na igualdade "progressivo=esquisito", então Rob Sowden (voz) é a personagem mais progressiva de todo o festival. Mas falemos sério: do ponto de vista técnico, esta banda esteve irrepreensível.

Em palco a banda foi a única em todo o festival a apresentar um produto finalizado, com todos os elementos a tocar para a plateia ao contrário das outras que tocavam entre si.
Tal disposição espacial dos músicos requeria mais participação da audiência dificultada pelo facto de estar sentada, embora se tenha levantado no encore para grande satisfação – amplamente visível – dos músicos.

Foi ainda interessante presenciar o facto de todos os instrumentistas, à excepção de John Jowitt (guitarra-baixo) tocarem com tonalidades bem próximas das usadas pelos instrumentistas dos Marillion. Claro que no caso de Mick Pointer (bateria), não poderia ser de outra forma já que integrou esse baluarte do neo-progressivo nos seus primórdios.
Já no caso de Clive Nolan (teclados e coros) e do exímio ex-IQ John Mitchell (guitarra eléctrica e coros) a parecença era gritante.

Tratando-se de uma banda de neo-prog, não se pode pedir muito mais para além de executarem a música correctamente e, neste particular, teremos assistido a um concerto perfeito deste subgénero cuja aventurança musical se prevê em todos os casos limitadíssima.
O problema presente no concerto é inerente à banda e à música que pratica: muito monótona e quadrada. Durante muito tempo sem o mínimo lampejo de criatividade ou de progressividade. Acho que foi mais uma banda hard rock (ou AOR, ou rock FM) que, ora passava os limites do foleiro, ora pontuava a sua música com alguns apontamentos mais sinfónicos e elaborados, do que uma banda prog.
Mas também, que mais se poderia esperar de uma banda que, como diria o Zappa, "are only in it for the money"? Foi o Mick Pointer (bateria) que o disse e, ao menos, há que aplaudir a sua honestidade. Mas a partir do momento em que isto é dito, é escusado procurar por um qualquer valor artístico escondido na sua música: os próprios músicos negam-o explícitamente! E já que falamos na "mesa redonda" da manhã de domingo, é precisamente ela que devemos ter em mente quando categorizamos este grupo: os próprios Arena têm uma certa relutância em considerarem-se uma banda prog (seguramente porque estão com medo de vender menos uns disquitos) e isto fez-me compreender o real sentido das palavras do Clive Nolan que eu havia lido há uns tempos na LOUD! e que eu na altura interpretei como sendo a velha conversa do "o-nosso-som-não-se-enquadra-em-nenhum-estilo-pré-definido", mas que na realidade eram a expressão pura e simples de repúdio pelo Prog. Já agora, aqui ficam as palavras do Clive (e agora que as releio o seu conteúdo parece-me tão óbvio que me sinto um tudo nada estúpido por me ter escapado à primeira): «Se as pessoas nos quiserem chamar prog rock eu não me importo, mas não é algo que queiramos ser. Somos apenas aquilo que somos». A saber, acrescento eu, uma máquina mercantilista apostada em ganhar mais uns cobres pela feitura de música sem alma, conscientemente criada a pensar nas leis de mercado. Tudo bem. Pessoalmente prefiro a mentalidade, muito mais saudável e honesta, de um Jeff Gard (baterista dos French TV): «Estou nas minhas férias, por isso vim aqui para me divertir. E é o que tenho feito! Tenho me divertido e vou continuar a divertir-me!» e aproveito para lembrar as palavras do saudoso Carlos Paredes quando lhe perguntaram por que razão não deixava o seu modesto emprego na função pública: «Amo demais a música para viver dela.»


.:: Lars Hollmer

A lenda viva do folk-progressivo, um autêntico ícone do movimento Rock in Opposition, cuja música vanguardista com uma forte inclusão de elementos da música de raiz tradicional sempre se posicionou na vanguarda, quer na carreira a solo quer como elemento dos Samla Mammas Manna, dos Looping Home Orchestra, dos Von Zamla ou dos Accordeon Tribe, esteve particularmente bem em Gouveia.

Este senhor tanto era melancólico e outonal, como alegre e brincalhão (os repetidos falsos finais numa música realmente contribuíram para a empatia entre palco e público). E se já a solo foi bom, então com a presença de Michel Berckmans (Univers Zero) o espectáculo atingiu todo um novo nível. As deliciosas improvisações e a evidente cumplicidade entre estes dois excelentes músicos (amigos há anos) contribuíram para alguns dos momentos mais geniais de todo o festival, tendo também o condão de formatar os ouvidos da audiência para novamente começar a programar os ouvidos desta.

Esta catarse foi essencial para o sucesso da próxima banda, os canadianos Miriodor.


.:: Miriodor

Banda vanguardista do Québèc canadiano terminou a primeira noite em beleza.
Pelo que me apercebi a sua visão de composição musical assemelha-se muito à dos Gentle Giant, não do ponto de vista estético, mas por causa da imensa variedade e complexidade musical com que dotam a sua música.

Os Miriodor criaram em Gouveia momentos de absoluto prazer enquanto a sua música parecia estar suspensa no ar. Mais uma vez se ignorarmos o ponto de vista estético a forma de como a música se movimentava e ia “crescendo” parece-se com algumas coisas que ouvi dos americanos Tool embora, como disse, esteticamente sejam completamente diferentes.

Tratou-se de um espectáculo mais do que correcto e imaculado do ponto de vista técnico e interpretativo. Houve alturas em que o concerto decaiu um pouco prejudicados pelo adiantado da hora, houve uma escolha pouco previdente do alinhamento: é sempre arriscado para uma banda tocar muitos temas novos.

Sendo os Miriodor os herdeiros da tradição Samla Mammas Manna, seria de esperar um pouco mais de humor e boa-disposição ao vivo, em vez da apresentação demasiadamente estática e formal.

Um concerto fantástico ainda assim.


.:: Trape-Zape

Composto por quatro experientes músicos (Fernando Guiomar - guitarra acústica, guitarra eléctrica; Vasco Sousa – contrabaixo; João Luís Lobo – bateria; José Manuel David – piano, sintetizador), este grupo lisboeta apresenta um progressivo de fusão inteiramente instrumental, de sólida secção rítmica e de apreciáveis técnicas e expressividade dos solistas.

Fernando Guiomar veio confirmar, juntamente com a sua banda, aquilo que já tinha prometido o ano passado: excelência absoluta. Grande entrosamento entre os artistas e grande musicalidade. O "Ibero", que tivemos a oportunidade de ouvir em primeira-mão em 2004, ganha um novo fôlego com o resto da banda.


.:: The Watch

Enquanto se assistia ao concerto dos The Watch era impossível deixar de pensar na interessantíssima palestra que Thomas Olsson deu na manhã de domingo na Biblioteca Virgílio Ferreira e que abordou a certa altura a problemática Rock Progressivo ou Rock Regressivo?
Poder-se-á classificar os The Watch como Rock Progressivo, quando até os momentos de humor são "passadinhos a ferro" dos comentários do Peter Gabriel?
Penso que para os The Watch existem dois cominhos para que saíam deste impasse. Ou fazem pequenas alterações e tornam-se numa banda interessantíssima ou assumem-se de vez como uma banda de covers dos Genesis.
Apesar deste senão, a banda deu um concerto interessante atingindo o seu ponto alto quando Sergio Taglioni (teclas) enfrentou como “gente grande” o piano de cauda…


.:: Univers Zero

A melhor banda do festival, e a melhor banda a ter passado por Gouveia!
Espectáculo absolutamente fantástico! Os Univers Zero conseguem transpor fielmente para o palco aquilo que mostram nos discos. As vestes negras, a iluminação sóbria e austera, as projecções, a contenção na interpretação, enfim todo um mise-én-scéne que contribui para acentuar a atmosfera negra, opressiva e depressiva da música que fazem. Perfeito a todos os níveis, e nem mesmo as falhas técnicas puderam macular a excelência deste concerto. Cada um dos instrumentistas esteve no topo do seu desempenho, interpretado com mestria as complexas composições dos UZ. Mas claro, um destaque tem de ser feito ao grande Daniel Denis, um espectáculo dentro do espectáculo, um autêntico virtuoso que deixou o público absolutamente estarrecido. Daqui lhe faço a devida vénia.

Uma nota final para as críticas que têm acusado a banda de ser excessivamente séria. É absolutamente verdade, mas só na medida em que a música o pede. Momentos houve em que os músicos souberam abandonar essa atitude e mostrar um lado mais ligeiro (que até acaba por acentuar as partes mais dramáticas). Basta lembrar o infortúnio da falha do PA e como o teclista se desdobrou imediatamente numa muito pouco séria interpretação a cappella - e os outros sorriam...

Recensão por Samuel Jerónimo e João Troviscal Costa

Álbum do dia: V/A "Puget Sound"



A antiga ponte de Tacoma Narrows, em Puget Sound, era conhecida como “Galloping Gertie” devido ao seu comportamento ondulante causado pelo seu relativo baixo peso. Com cerca de 2 quilómetros de comprimento foi aberta ao público no dia 1 de Julho de 1940, ligando as localidades de Tacoma e Gig Harbor.

Às 11 horas do dia 7 de Novembro de 1940, registraram-se rajadas de vento com uma velocidade média de 70km/h, o que induziu fortes vibrações na estrutura e causou o seu colapso.
A ponte estava aberta ao trânsito a apenas alguns meses.
Ninguém morreu neste incidente que se tornou num dos mais estudados casos de má engenharia, em grande parte devido à abundância de documentos tais como filmagens e fotos realizadas para documentar a queda da ponte.

O álbum homónimo editado pela bor-land revela-nos outras histórias.
Não são histórias de falhanços mas sim de sucessos.
Reunindo os três projectos, Electric Marbles, The Boy with the Broken Leg e Daily Misconceptions, “Puget Sound” revela-nos sonoridades que juntam o rock indie à electrónica experimental com laivos de músicas vindas de norte.

Existe mesmo a preocupação de incluir neste registo as imagens criadas por Soft Loop e X (os VJ’s que trabalham a parte visual do projecto ao vivo), que nos ajudam a absorver as melodias doce-lounge dos Electric Marbles, da inocência dos The Boy With the Broken Leg e o olhar nas nuvens dos Daily Misconceptions.

A surpresa surge não tanto do espírito criativo que aqui ainda tem tempo e lugar por onde crescer, mas da coesão que 3+1 projectos conseguem ter.
Também por isso aconselhável.

Quinta-feira, Abril 07, 2005

Álbum do dia: Old Jerusalem “Twice The Humbling Sun”



“And so the daylight glows again”

Depois de ter surpreendido tudo e todos em 2003 com o álbum de estreia “April”, Francisco Silva volta à carga com o segundo álbum do projecto Old Jerusalem, desta feita denominado “Twice The Humbling Sun”.
Mantendo-se claramente no universo songwritiano com laivos de folk norte-americano, este segundo registo apresenta-se mais vivido, mais experimentado, sem nunca deixar de lado o cariz intimo que desde sempre categorizou Old Jerusalem e que neste “Twice The Humbling Sun”, é realçado pela temática musical repleta de melodias onde impera a harmonia envolta na respiração do músico, o que só por si deixa antever a mise-en-scene dos concertos ao vivo...
Ao todo são 42 minutos de música repartidos por 11 estórias, 11 momentos a serem ouvidos com vários estados de alma, emoções e sentimentos.

Segunda-feira, Abril 04, 2005

Álbum do dia: Sci Fi Industries "The Air Cutter"



Depois de um interregno de três anos desde o seu último longa-duração “Architectural Development”, Sci Fi Industries regressa este ano com o novíssimo “The Air Cutter”.
Não se pense porém que este tempo de interregno tenha sido improdutivo. Luis van Seixas, pessoa por de trás do projecto, esteve presente nas compilações “Thiscology e “Electronic Thisturbance”, no sampler “Thiscotronica Sample Mind” e produziu ou co-produziu muitos outros títulos, tendo ainda lançado no início deste ano o e.p. “6 Factor”.

Toda esta actividade não arredou o músico da criação de autênticas jóias da música electrónica. Após o muito bom “Architectural Development”, van Seixas lança mãos à obra neste “The Air Cutter” onde propõe uma revisitação não só à sua carreira – ouça-se “I mean it, the end“ e compare-se à música produzida pelo músico em “Dead People on Stylish Chairs” – como também da música electrónica como manifestação artística. Este último ponto de analise é particularmente audível em temas como “Theory of disease” e “Murnaus absistencia” - esta última que recebe o meu louvor pessoal para não só o melhor tema do álbum como também como para o melhor tema de toda a carreira de Sci Fi Industries – onde existe um cruzamento claro entre a música electrónica de uns Kraftwerk e a música electrónica característica do fim dos anos 90.

Outro aspecto a realçar é a própria construção das músicas que aqui perdem algum do seu carácter progressivo, tão presente nos álbuns anteriores, para passarem a estarem focadas na exploração intensiva de todos os caminhos possíveis que uma única célula pode seguir.

Terça-feira, Março 29, 2005

REDRA 'ZDB


A instalação Redra com música de Samuel Jerónimo e vídeo-arte de Carlos Sousa irá estar patente na Galeria Zé dos Bois em Lisboa, no próximo dia 2 de Abril.A instalação irá ombrear com um concerto de Zero Lvx Krieg Nihil Fix.

Gerida colectivamente desde 1994, a ZDB difunde actividades diferenciadas que têm em comum a afirmação da arte emergente face às propostas institucionalizadas. É uma estrutura nómada que tem ocupado e recuperado diversos espaços abandonados da cidade de Lisboa. Como centro de criação, produção e difusão de arte emergente, a zdb é um espaço de experimentação tanto para os artistas emergentes como para os projectos que, através da ZDB, têm o primeiro contacto com o público e o mundo artístico.

Samuel Jerónimo + Carlos Sousa

Depois de ter recolhido as melhores críticas vindas quer de Portugal, quer de outros países como da Itália, Reino Unido, França, Bélgica, Espanha ou Bielo-Rússia e de ter visto o seu álbum de estreia “Redra Ändra Endre De Fase” apontado pelo jornal Público como um dos melhores dez álbuns nacionais de 2004, o músico valadense Samuel Jerónimo junta-se agora ao artista alcobacense Carlos Sousa, na criação da exposição audiovisual “Redra” que estreou no dia 25 de Fevereiro no Museu Nogueira da Silva em Braga.
Samuel Jerónimo foi ainda recentemente convidado pelo percussionista Pedro Carneiro (Prémio Revelação Música Clássica na Gala SIC 2004, Prémio Jovens Músicos, Prémio Maestro Silva Pereira, Distinção do Presidente da Republica Jorge Sampaio em 2004. etc.) para lhe escrever duas peças que o mesmo irá estrear.Outros projectos para o futuro incluem dois álbuns a serem editados em 2006. Um deles multi-timbrico e o outro inteiramente composto por peças para órgão de igreja.

"A mudança impõe-se cada vez mais como a maior constante das nossas vidas. A actual dinâmica em que o obsoleto de hoje, foi o contemporâneo de outrora, apenas intensifica um processo contínuo que na verdade nos transcende, já que o universo onde a mudança se opera ultrapassa grandemente as dimensões de espaço e tempo onde o Homem viveu, vive e viverá.
Dentro do espectro da mudança humana é inegável o papel do erro. Tal foi estudado pelo sociólogo Robert Merton na sua obra “Arte do acaso” (...ou “serendipity” para Merton).
Desde Arquimedes, ao acidente que provocou a descoberta da penicilina por Fleming, passando pelo desenvolvimento de novos materiais como o teflon, o “acidental” na ciência é hoje um facto não só conhecido, como bem documentado.
A instalação vídeo “Redra” não se deixa contaminar por ideias preconcebidas, que permitem que inúmeros domínios escapem ao seu controlo ao tomar apenas em consideração actos explícitos, baseia-se sim em premissas mais simples e quase minimais, em erros. Preferencialmente em erros provocados propositadamente em máquinas.
Levar as máquinas ao erro, manipulá-las de modo a não fazerem aquilo para o qual foram projectadas, levá-las a fazerem algo de imprevisto, aleatório e irrepetível, criando assim algo de natureza abstracta tanto em conceitos como em conteúdos, algo que se desvia do controlo da máquina sobre o homem e do homem sobre a máquina e se centra numa “zona de contacto” que foge ao domínio do homem e da máquina."

Zero Lvx Krieg Nihil Fix

"pvra dalem (lisboa, 1977), filha de realizadores, cresci um pouco em Portugal e a voar sobre a Europa.
Formei-me na área de som no conservatório nacional/estc.
Algures em 1996 comecei a trabalhar com experimentação sonora usando diversos objectos de metal (incluindo lâminas), rochas, voz, e explorando diferentes espaços acústicos e possibilidades.
Em 1999 formei o projecto a solo imbolc, baseado na exploração do noise electrónico, com uma componente hermética e ritualística muito presente.
Entre 1999 e 2004 imbolc colaborou com diversos projectos, tais como karnnos, wolfskin, urdraum, sleeping with the earth, in gowan ring, sardonik grin, blood box, entre outros, tendo também actuado ao vivo em Portugal e nos EUA.
Formei o actual projecto a solo zero lvx krieg nihil fix, vulgo zlknf, em meados do ano passado; zlknf trabalha com paisagens sonoras dentro da música electro "anarco" acústica, trazendo paisagens oníricas que do quase silêncio mais planante aceleram até á intensidade mais acerada, em padrões de diferentes texturas, mas sempre dentro dum universo tudo menos ortodoxo. A componente electrónica ao vivo é acompanhada pela modulação sonora em directo, bem como à experimentação de objectos e voz em tempo real.
Juntamente com o primeiro trabalho de zlknf, apokruphos knvit, que é dividido em duas peças (apokruphos knvit e undaharia wuunkena), desenvolvi uma série de imagens para passar em background, que acompanham a progressão sonora.No momento presente encontro-me numa série de "works in progress" em aceleração constante... comme la vie est lente et comme l'ésperance est violente"

Álbum do dia: Pluto "Bom dia"



O final dos Ornatos Violeta talvez tenha sido um dos maiores desperdícios de talento do rock português. Digo talvez porque em 2004 Manuel Cruz e Peixe voltaram à carga com um novo projecto cujo álbum de estreia “Bom dia” continua a ter como maior condão uma vontade de experimentar bem conduzida e doseada.

Esta nova formula envolvendo uma equipa antiga, vem dar um especial significado à frase que abre o álbum no tema "Entre nós" que nos diz "Tal como o pássaro tem de voar para ser o que é.”

Os temas são os de sempre, citadinos, banais, no entanto sem nunca cair em fórmulas gastas ou esteticamente horrendas, por mais subjectivo que isso possa ser. Isto aplica-se tanto à música, com Peixe a assumir-se cada vez mais como um instrumentista a ter em atenção, como às letras de Manel Cruz que se mantêm eficazes na forma de como transmitem o conteúdo de cada tema.
Sendo claramente um disco de bom rock, muitas das canções reservam algumas agradáveis surpresas para o ouvinte, como a multi-divisão das mesmas e a progressão para outras paisagens sonoras, “Bom dia” corresponde a um novo despertar que prevê promissor.

Sexta-feira, Março 25, 2005

Álbum do dia: Genesis “Nursery Cryme”



A princípio a ideia de eu gostar dos Genesis era inconcebível. Não tinha apanhado a fase de Peter Gabriel – reformulo, Steve Hackett – pelo que as únicas coisas que conhecia da banda eram os singles retirados dos álbuns mais chegados à minha fase de vida “consciente”, o que aconteceu por volta de 1990, altura em que 9 ou 10 anos comecei a comprar álbuns.
Um dia o meu professor, após me andar a maçar há anos com rock progressivo – álbuns de Genesis, King Crimson e Yes eram o prato do dia – gravou-me uma cassete o álbum “Selling England by the Pound” e o meu mundo musical redireccionou-se.
Ali estavam uns rapazolas a compor músicas cujo conteúdo daria para fazer não um mas uns dois ou três álbuns.
O vocalista – Peter Gabriel – parecia meio louco com todos aqueles treatismos vocais – as bandas de Neo-Prog bem tentaram imitá-lo… -, Steve Hackett produzia uns sons na guitarra muito elegantes, Phil Collins – o anticristo para muitos – era um baterista perfeito e extremamente criativo, Tony Banks vinha da escola clássica mas por outro lado também se “mexia” bem nos sintetizadores e depois havia Mike Rutherford, o homem que andava lá por trás a dar consistência aos talentos.
“Nursery Cryme” deverá ter sido um dos álbuns que primeiro comprei.
Vinha de “Selling England by the Pound” e “The Lamb Lies Down on Broadway”, pelo que a adaptação não foi fácil. Mesmo assim temas como “The Musical Box”, “The Return Of The Giant Hogweed”, “Harold The Barrel” e “The Fountain Of Salmacis” atraíram-me desde logo, ajudando “Nursery Cryme” a permanecer durante algum tempo no rol dos álbuns mais ouvidos nesses tempos.
Em “Nursery Cryme” a banda distanciava-se cada vez mais dos ambientes pastorais de “Trespass” e avançava a bom passo em direcção a paisagens mais cruéis/hilariantes, tornando-se também a música mais complexa e excitante.

Quinta-feira, Março 24, 2005

Portugal Progressivo – Associação Cultural apoia Instalação “Redra”



No seguimento da bem sucedida apresentação da instalação vídeo-arte REDRA no Museu Nogueira da Silva em Braga, a Portugal Progressivo Associação Cultural aceitou a proposta do compositor português Samuel Jerónimo e vai associar-se às próximas apresentações em:

02 de Abril: Galeria Zé dos Bois "ZDB" (Lisboa)
07 de Abril: Escola Adães Bermudes (Alcobaça)
10 de Abril: Festival Gouveia Art Rock 2005 (Gouveia)
13 de Maio: Feira da Fanzine (Almada)

A instalação REDRA é um trabalho de colaboração entre Samuel Jerónimo e o artista plástico Carlos Sousa que se desenvolve em torno da suite musical que abre o álbum REDRA ÄNDRA ENDRE DE FASE de Samuel Jerónimo, considerado pelo jornal Público uma pedrada no charco na cultura portuguesa e um dos dez melhores trabalhos do ano passado.Mais informações aqui.

Álbum do dia: Rodrigo Leão "Cinema"



Sempre fui um séptico no que respeita à música do Rodrigo Leão, talvez porque nunca a tenha conseguido classificar.
Mas será que é assim tão importante classificar as coisas de que gostamos?
Certamente que não!
Importante mesmo é aquilo que os nossos sentidos nos dizem e a avaliação que fazemos dessa informação.
Neste seu quarto álbum, Rodrigo Leão aproxima-se cada vez mais de uma estética pop, o que não é necessariamente mau. A forma de como o faz não renega o passado musical a solo do músico e acrescenta-lhe algumas cores diferentes que me soam particularmente bem.
Todo o conteúdo da palavra “bonito” vêm ao de cimo quando ouvimos este álbum.
É uma obra repleta de elegância que nos maravilha logo à primeira audição.

GAR 2005 hoje na RDP-Antena 1



Tenho o prazer de anunciar que esta noite, às 24:00, a emissão da RDP-Antena 1 irá dedicar uma hora de emissão ao GOUVEIA ART ROCK 2005.
Será durante o programa "Porto Sem Abrigo" de Álvaro Costa, que convidou a organização do GAR para uma entrevista.
A entrevista foi gravada ontem. O programa incluirá música de praticamente TODAS as bandas do GAR 2005 bem como uma surpresa-extra que está guardada para o final.
Na entrevista falou-se de festivais passados, das bandas que já tivemos emGouveia e das perspectivas para este.
A emissão decorre da meia noite à uma e poderá ser escutada em todo o país e no mundo através da Antena 1.
Boa escuta!
Faço votos que o programa contribua para tirar ainda mais gente da poltrona e levá-los a Gouveia!

A relembrar que a Instalação “Redra” com música de Samuel Jerónimo e vídeo-arte de Carlos Sousa irá estar presente neste certame, mais precisamente na abertura da discussão que irá contar com a presença de Samuel Jerónimo, David Oberlé (da mítica banda britânica de folk progressivo Gryphon), Manuel Cardoso (Tantra), Thomas Olsson (musicólogo, professor da Universidade de Lund – Suécia - e colaborador/ideólogo do grupo progressivo Isildurs Bane) e Fernando Magalhães (jornalista/crítico de música do Jornal Público).

Quarta-feira, Março 23, 2005

Peça do dia: Karlheinz Stockhausen "Aus den sieben tagen (Dos sete dias da semana)"



1968 AUS DEN SIEBEN TAGEN (FROM THE SEVEN DAYS)
15 text compositions for intuitive music
[variable duration]

Durante o Maio de 68, enquanto nas ruas de Paris os operários e os estudantes faziam lado-a-lado uma das maiores revoltas sociais do século, Karlheinz Stockhausen esteve em retiro espiritual durante sete dias, nos quais se privou de comer e beber.
Dessa experiência resultou uma das suas obras mais abertas e abstractas.

Nesta peça, Stockhausen - que se vê a si mesmo como um padre místico cuja obra, repleta de simbologia, almeja abrir novos horizontes à audiência - defende que todas as pessoas têm a capacidade de comunicar entre si através de telepatia. Para tal basta apenas que se submetam a um ritual que lhes altere o estado de consciência diária.
Os próprios executantes desta obra deverão eles mesmos fazer do acto de execução da peça, um ritual no qual terão de fazer jejum e abstrair-se de quaisquer pensamentos durante três dias, de forma a aumentar as capacidades de transmissão de pensamentos através da telepatia.

Segunda-feira, Março 21, 2005

“Apocalypse Now”



Vou frequentemente jantar com o Luis Seixas sempre que ele vem a Alcobaça para trabalhar nos restauros do Mosteiro.
Aliás se não fosse por eles, difícilmente o teria conhecido e gravado alguma coisa que fosse, já que foi através da sua determinação que me lancei na aventura.
Da última vez que fomos jantar – sempre na pizzaria “El Rei” – adicionamos mais um tema nas nossas habituais conversas sobre a Thisco, música em geral, ódios de estimação, etc.
Este assunto extra irrompeu na conversa quando foi anunciado na televisão uma futura transmissão do filme de Francis Ford Coppola “Apocalypse Now”.
Servindo-se do romance de Joseph Conrad "The Heart Of Darkness", Coppola conta a estória de um jovem capitão americano que é incumbido de ir no encalço de um coronel, que aparentemente enlouqueceu, assassinando dezenas de pessoas inocentes e construindo um estranho reino no interior da selva, onde é "adorado" pelos seus seguidores...
Ora a conversa surgiu a partir das imagens dos helicópteros sob as valquírias de Wagner, que servem sempre para ilustrar este filme.
Tais imagens fazem já parte de um imaginário colectivo onde se situam muitas outras tais como a ascensão do monólito negro em “2001 Odisseia no espaço”, a chuva de sapos em “Magnolia" ou o passeio de bicicleta e o “call home” do “E.T.”
É incrível como o cinema povoa o nosso imaginário comum!
Ainda acerca de “Apocalypse Now” dei ontem por mim a pensar enquanto revia o filme, que existem dois actores que têm a particularidade esmagadora de quase anularem as prestações de todos os outros com quem contracenam.
Tanto Marlon Brando como James Dean (“East of Eden”; “Rebel Without a Cause”; “Giant”) têm esta particularidade. As suas presenças são esmagadoras por razões talvez inqualificáveis. Digo talvez porque tudo é relativo, mas é por outro lado certo que parte da beleza da vida está no facto de não termos de racionalizar tudo por medidas.
Existem coisas pelas quais nos sentimos atraídos sem que queiramos saber porquê.

Domingo, Março 20, 2005

Play Misty for Me



"Play Misty for Me" inicia a carreira de Clint Eastwood não só como director, mas também e sobretudo como um fantástico contador de estórias.
O filme narra a estória de Dave Garver (Clint Eastwood), um disc jockey de uma rádio californiana, que todas as noites recebe uma chamada de uma mulher misteriosa a pedir-lhe que toque o clássico de Erroll Garner “Misty”.
Após romper com a sua namorada Tobie Williams (Donna Mills), Dave percorre os bares locais onde encontra Evelyn Draper (Jessica Walter), que vem mais tarde descobrir tratar-se da mulher misteriosa que todas as noites lhe telefona a pedir que toque “Misty”.
Após uma curta conversa, os dois envolvem-se no apartamento de Evelyn naquilo que parece ser um one-night stand, mas que depressa descobrimos ser o inicio de uma relação doentia por parte de Evelyn para com Dave, que depressa descobre o estado de loucura em que Evelyn se encontra…
Um thriller fascinante contado de uma forma também ela fascinante.

Álbum do dia: Tori Amos "Under the Pink"



Tinha cerca de uma hora até à hora de almoço. Na verdade teria tido mais tempo se não tivesse enveredado na criação de um pequeno-almoço sumptuoso… enfim nada se perdeu.
Quando me dirigi ao armário onde guardo alguns discos, caí na já habitual indecisão quanto ao que ouvir. Lá me decidi por este “Under the Pink” da Tori Amos, álbum que de resto já não ouvia há muito, mas mesmo muito, tempo.
Talvez por causa do tamanho deste interregno, “Under the Pink” recuperou a frescura das primeiras audições, à medida que ia redescobrindo aspectos de que já me havia esquecido e descobrindo outros anulados por audições consecutivas.
A música contida neste título é quase impressionista, já que apenas pinta a paisagem geral delegando-nos a tarefa de percepcionar os detalhes nela presentes.
Há ainda a inclusão de características que tornam a música mais viva e pulsante. Uma delas é o uso da dinâmica com conta, peso e medida – ouça-se "Pretty Good Year" -, o “prepared” piano em "Bells for Her", as partículas de piano suspensas no ar em “Icicle” e a maravilhosa voz de Amos que se impõe como o seu mais maravilhoso instrumento durante este registo.
A música de Amos é pois muito mais do que o superficialismo dos singles “God” e "Cornflake Girl", singles esses que desta vez consegui ouvir e retirar deles bastante prazer auditivo.
Tal aconteceu por ventura devido a um já certo distanciamento temporal da data de edição deste álbum, altura em que o mesmo – tal como acontece com toda a música mainstream – foi amplamente divulgado nos média. Como é evidente, quando ouvimos um tema a passar na rádio e na televisão vezes sem conta, ele acaba por perder todo o seu carácter pessoal e por vezes quase personalizado, tornando-se público, impessoal, corriqueiro…
É bom voltar a ser íntimo desta música.

Quinta-feira, Março 17, 2005

Recensão a "Symptom of Thisease" no Weblog Gente Bruta



CD tripartido por ambientes electrónicos de Bio (aka, Samuel Jerónimo cujo o álbum de estreia "Redra andra endre de fase" mereceu uma atenção no Underworld anterior), Cria Cuervos (de Itália) e The Beautiful Schizophonic (aka, Jorge Mantas, editor de zines de música extremista e escritor - ver Underworld #11). É usada matéria-prima sonora de três identidades, identidades essas que se diluem na edição do CD. Embora, que a faixa inicial de Bio, se destaque das outras quatro. Longe da erudição do CD de estreia de Jerónimo, o compositor usa electrónica de forma bastante dinâmica e quase caótica. Será interessante saber o que irá Samuel Jerónimo fazer no futuro. Desde já é mais do que uma promessa nacional no campo do electro-acústico. Já os outros dois projectos são minimalistas e conceptuais que perdem versus o "músico verdadeiro". Esta edição salienta a diferença quando um "músico verdadeiro" e um "esteta" metem-se a fazer música "aborrecida" (senso comum quando se fala em música ambiental electrónica), o primeiro consegue imprimir e concretizar mais ideias do que o segundo que recorre ao massacre da repetição ad eternum do ruído. Jerónimo salvou o CD!

Quarta-feira, Março 16, 2005

Recensão a "Symptom of Thisease" no Jornal Blitz



À semelhança de Rasal.Asad, também Samuel Jerónimo, sob o alter-ego Bio, se atira para uma extensa suite narrativa electrónica na primeira (e, sem dúvida, mais recomendável) faixa da compilação SYMPTOM OF THISEASE, mas os motivos da peça, “The Distant Image of the Abstract Light”, são mais circulares e tecnológicos – do que os utilizados por Rasal.Asad -, oscilando entre um ambientalismo desolado, colagens de sons-memórias aleatórios (vozes, piano, relógios) e breves surtos de exuberância rítmica. A contribuição do italiano Eugénio Maggi, aka Cria Cuervos, pega em gama idêntica de ingredientes mas reduz o composto a um leque de frequências subliminares, tal como as três faixas de The Beautiful Schizophonic (Jorge Mantas), que readquirem o bafo de ameaça latente do EP de Rasal.Asad (e dos Main).

Robots



Uma antestreia é sempre uma antestreia. Existe sempre aquele sentimento de sermos os primeiros a assistir, a experimentar a degustar…
Enfim a estória de como arranjamos os convites é bastante simples. A Iara trabalha num atelier de design que possui a conta da Burger King, estando de momento a fazer uso do merchadising do filme para promover os seus próprios produtos.
Ao que parece ninguém por lá sabia o nome das personagens pelo que a Burger King doou entradas duplas para as pessoas do atelier.
Quanto ao filme propriamente dito, o que mais me impressionou foi a criação de personalidades completamente distintas para cada um dos robôs.
Também me agradaram as analogias a “2001 Odisseia no Espaço” e a ideia de hierarquia social ditada pelo material de que cada robô era feito.

Sideways



“Sideways”, o novo e premiado filme de Alexander Payne é um road-movie que nos conta a viagem de dois amigos – Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church) - que embarcam numa viagem de despedida de solteiro pelas vinhas da Califórnia.
À medida que os dias vão passando tornam-se cada vez mais evidentes as diferenças entre os dois amigos. Miles, um recém divorciado e pretenso escritor, com uma fixação em vinhos só quer saborear a perfeição numa garrafa de vinho Pinot, enquanto Jack, actor em declínio acentuado, procura o seu último sabor de liberdade.
Os dois apenas possuem em comum a entrada na meia-idade e o facto de não terem conseguido concretizar os seus sonhos, no caso de Miles de ser um escritor reconhecido e Jack de ser um actor famoso…

Segunda-feira, Março 14, 2005

“Redra Ändra Endre De Fase” no Prix Ars Electrónica



“Redra Ändra Endre De Fase”, álbum de estreia de Samuel Jerónimo, irá concorrer ao concurso austríaco Prix Ars Electrónica na categoria - Computer compositions - (electro-acoustic, acousmatic and experimental).

The Prix Ars Electronica is an established international computer art competition. In Austria every year the Austrian Broadcasting Corporation organizes the Prix Ars Electronica, which claims to be the world's most renown and highest-prized competition for computer- and multimedia art.

Domingo, Março 13, 2005

Peça do dia: Steve Reich “Tehillim”



Hoje estive a trabalhar até às 8h30 da manhã e após um curto descanso para lá voltei novamente às 13h30. No tempo decorrente entre estes dois turnos senti que precisava de um bálsamo cerebral acompanhado de uma boa soneca comprimida.
Tinha tudo esquematizado, o tempo que tinha até adormecer, o discman na mesa-de-cabeceira provido de headphones… apenas faltava saber o que iria ouvir.
Nos dez minutos que demoro a fazer a viagem desde o meu local de trabalho até à minha casa fui pensando em alguns títulos, todos eles providos de sons reconfortantes.
Estranhamente não pensei no álbum que acabei por ouvir. Só quando cheguei a casa é que me deu uma vontade axiomática de ouvir o “Tehillim” de Steve Reich.
“Tehillim” - palavra hebraica para salmos - foi de alguma forma um trabalho extremamente importante para Reich devido ao facto do compositor ter inserido pela primeira vez numa composição sua, elementos que apelam a uma maior sensibilidade por parte do ouvinte. Esta peça diverge um pouco do seu - até então habitual - esquema de composição, onde fazia um uso constante da repetição e da por si inventada técnica de phasing.
Apesar destas divergências, é possível descobrir aqui algumas reminiscências dos seus primeiros trabalhos tais como “Come Out” e “It’s Gonna Rain”, ambas fazendo da voz humana na forma de discursos, os quais eram depois submetidos à técnica de phasing.
Ao escrever “Tehillim”, Reich fez aquilo que muitos antes de si já haviam feito, ou seja, pegou num tema sagrado e musicou-o, sendo que neste caso ele tinha a absoluta liberdade para criar música nova para os salmos que escolheu, já que a tradição oral acerca da forma de como os cantar há muito se havia perdido.
O resultado final apresenta-se na forma de uma peça dividida em quatro partes que avança muito para além da ideia de que Reich é um compositor minimalista. Na verdade penso que este rótulo cai muito melhor em compositores como Phillip Glass, que explora a mesma tonalidade durante largos minutos ou Henryk Mikolaj Górecki, que estabeleceu estruturas modais bastante simples a partir do cançoneiro polaco – o seu país natal – e a partir de textos por si escolhidos.
Ainda que por vezes a estrutura de composição de Reich seja fácil de ser entendida, o resultado é sempre complexo abrindo a cada instante novas possibilidades principalmente rítmicas, mas também melódicas, atraindo magneticamente a atenção de quem ouve as suas peças.

Sábado, Março 12, 2005

Instalação Redra patente na Galeria Zé dos Bois



A instalação Redra com música de Samuel Jerónimo e vídeo-arte de Carlos Sousa irá estar patente na Galeria Zé dos Bois em Lisboa, no próximo dia 2 de Abril.
A instalação irá ombrear com um concerto de Julian Fane, também ele possuidor de uma forte vertente visual.

Gerida colectivamente desde 1994, a zdb difunde actividades diferenciadas que têm em comum a afirmação da arte emergente face às propostas institucionalizadas. É uma estrutura nómada que tem ocupado e recuperado diversos espaços abandonados da cidade de Lisboa. Como centro de criação, produção e difusão de arte emergente, a zdb é um espaço de experimentação tanto para os artistas emergentes como para os projectos que, através da zdb, têm o primeiro contacto com o público e o mundo artístico.

Quinta-feira, Março 10, 2005

Million Dollar Baby



Fazendo uso do seu habitual minimalismo visual, Clint Eastwood vem uma vez mais, através deste “Million Dollar Baby”, confirmar o seu grande talento como contador de estórias.
A sua visão da eutanásia torna-se interessante devido à sua aproximação ao tema. “Million Dollar Baby” vive da carga dramática existente no dilema vivido por Frankie Dunn (Clint Eastwood), no qual terá de escolher entre ajudar ou não Maggie Fitzgerald (Hilary Swank) a morrer.
Se o fizer estará a magoar-se a si mesmo e a perder uma grande parte do seu mundo. Se o não fizer estará a condenar essa parte do seu mundo a sofrer…

Segunda-feira, Março 07, 2005

The Public Genesis Express



Não, não se trata da nova ferrovia pública de alta velocidade…
Comemora-se ontem e hoje, os trinta anos sobre o duplo concerto dos Genesis, em Cascais. 20 000 pessoas, em dois dias, assistiram a um acontecimento histórico que marcou uma geração de jovens que vieram de todo o país para assistir ao primeiro grande espectáculo de rock realizado em Portugal.
Estes últimos dois dias foram dos Genesis na imprensa especializada, ou será melhor dizer, não tão especializada... Pois do Fernando Magalhães já sabe o que espera: certeza, conhecimento, experiência e uma escrita escorreita, sincera e absorvente, cheia de referências que imediatamente vamos à procura...no fundo, ele é um mestre... Realmente, temos de lhe dar os parabéns pelo excelente artigo do Público...
O João Lisboa, com o seu conhecido ódio de estimação ao rock progressivo, já não foi tão perspicaz em relação ao "Lamb Lies Down on Broadway", pois atirou para a arena os mesmos lugares comuns que geralmente se associam ao rock progressivo e que convenhamos, já chateiam! Pompa e circunstância, rendilhados musicais dispensáveis, dispersão temática associada ao consumo de substâncias psicotrópicas e acima de tudo, uma enorme sobranceria burguesa aliada a um ecletismo arrogante, que faz com que se pense que todos os prog-rockers fossem desprovidos de inteligência musical e por outro lado, cheios de pedantismo intelectual... Se a obra prima dos Genesis, o álbum "Lamb Lies Down On Broadway" não é inteiramente desmontável é porque é pretenciosa? Desde quando uma obra de arte tem de ser descodificável em todos os seus níveis (conscientes e inconscientes) e ter uma explicação plausível ou necessária? E será que é assim tão inacessíevl? Quanto a isso devo ainda acrescentar que a mesma já teve uma versão em banda desenhada, pelo que sinceramente não percebo esse “hermetismo”.
O rock progressivo não é menos acessível do que outras correntes musicais. É certo que vive esotéricamente, ou seja, para dentro, e posteriormente, acede à evasão, tal como por exemplo uma obra de carácter fantástico... Se há certas pessoas que não o compreendem (pelo menos nos seus mais variados aspectos), então porque decidem falar sobre elas? E também já começa a cansar o mesmo contraponto rock progressivo-punk, como se nessa altura só existissem esses dois movimentos musicais! Também o "disco-sound" já se dançava nas discotecas, havia o country-rock com cheiro a cavalo dos Eagles, o nacional-cançonetismo, os primórdios do heavy-metal... aliás, toda a gente sabe que o punk inglês, antes de se vender completamente à moda e às rendas de Vivien Westwood e Malcom McLaren (ou seja, apenas um ano depois!!), já tem antecedentes em bandas americanas e até inglesas dos fins dos anos sessenta... No fundo, foi uma revoluçãozita de pedrada no charco e pronto...
Mas ainda bem que no mesmo jornal Expresso veio um artigo interessantíssimo sobre o concerto e mais à frente o mesmo João Lisboa diz mil maravilhas dos Fairport Convention e do Richard Thompson! Assim está desculpado...
Mas também não consigo deixar de pensar que o "Lamb Lies Down on Broadway" continua a fascinar imensa gente de todos os quadrantes musicais, com o seu mistério (ou não) e com a sua grandeza inigualável na história da música...
Vamos inventar a máquina do tempo para irmos a Cascais de 5 e 6 de Março de 1975? Quem me dera lá ter estado...
Falando nisso, no próximo dia 4 de Maio irá realizar-se na Aula Magna, um concerto da banda The Musical Box no qual a banda irá simular na perfeição o concerto de da tour de “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis. Nesta quimera, a banda utilizará instrumentos da época, os fatos originais que Gabriel envergou e ainda todos os cenários da tour de 1975.
Os bilhetes podem ser adquiridos em qualquer loja fnac e ticketline.
Poderão ainda aceder ao site - http://www.next-tv.de/specials/musicalbox/index.htm - para assistir aos The Musical Box a tocarem excertos dos álbum dos Genesis “Foxtrot”, “Selling England by the Pound” e “The Lamb Lies Down on Broadway”

Domingo, Fevereiro 27, 2005

Instalação Redra || Museu Nogueira da Silva || Relatório


FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

CARLOS SOUSA > FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

FUNDAÇÃO DE SERRALVES (PORTO)

CASA DA MÚSICA (PORTO)

CASA DA MÚSICA (PORTO)

CARLOS SOUSA > CASA DA MÚSICA (PORTO)

CASA DA MÚSICA (PORTO)

BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA > FACHADA - BRAGA

SÉ - BRAGA

SÉ - BRAGA

SÉ - BRAGA

BRAGA

CARLOS SOUSA > MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

SAMUEL JERÓNIMO > MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

SAMUEL JERÓNIMO > MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

BRAGA

BRAGA

CARLOS TAVARES - LUIS LOUREIRO - SAMUEL JERÓNIMO > MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

INSTALAÇÃO REDRA

INSTALAÇÃO REDRA (DETALHE)

BANCA THISCO

MUSEU NOGUEIRA DA SILVA - BRAGA


A instalação “Redra” foi muito bem acolhida em Braga, o que se traduziu numa significativa venda de discos e no entusiasmo dos presentes em querer saber mais acerca do projecto nas suas vertentes técnicas e conceituais.Esta interactividade entre o palco e a assistência ditaram não só o sucesso da instalação como também da pequena palestra dada a seguir acerca do tema “O papel do erro na descoberta/mudança”.Para o final estava ainda guardada uma participação da assistência ainda maior através da colocação de dúvidas ou da expressão verbal de tudo aquilo que tinham sentido durante a instalação. Um muito obrigado à Dra. Carolina Leite e à Portugal Progressivo – Associação Cultural.

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

Instalação Redra || Museu Nogueira da Silva

.....

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

Museu de Arte Moderna de Sintra || Colecção Berardo


Hamish Fulton Sutherland Milestone, 1976


Hamish Fulton Bird Rock / Fifty One , 1983


Rubens Azevedo Sem título, 1999


Roy Lichtenstein Interior with Restful Paintings , 1991


Jean Gorin Composition nº 28, 1930


O Museu de Arte Moderna de Sintra tem patente uma importante colecção de arte internacional, a Colecção Berardo. A mesma é representativa de grande parte da arte moderna do século XX, onde estão representados os principais movimentos, correntes e linhas de investigação artística, com obras consideradas essenciais para a compreensão da história de arte internacional.

Domingo, Fevereiro 20, 2005

Centro Cultural de Belém || Exposições temporárias

.
Helena Almeida “A Experiência do Lugar”


PRÉMIO BESPHOTO
Produção: CCB e BES
20 Janeiro a 27 de Fevereiro
das 10h às 19h Galeria 2, Piso - 1


A exposição do recém-criado Prémio BESPHOTO nascida de uma parceria entre o BES e o CCB tem por objectivo a promoção da excelência da arte fotográfica criada por portugueses
Os artistas convidados para a exposição foram Helena Almeida, João Tabarra, Vítor Pomar e Nuno Cera, que na opinião do Júri de Selecção – Alexandra Pinho (BES), Delfim Sardo (CCB), Emília Tavares (Museu do Chiado), João Fernandes (Fundação de Serralves) e Sérgio Mah (LisboaPhoto) – realizaram em 2004 as mostras de maior interesse no âmbito da fotografia portuguesa.
Desconheço quais foram os critérios de selecção dos trabalhos. Sei apenas que aos meus olhos sem o mínimo treino fotográfico, mas não totalmente desprovidos de sentido estético, se exceptuarmos os trabalhos da fotógrafa Helena Almeida, todos os outros trabalhos são de facto medíocres.
Enquanto me demorava a observar os trabalhos de cada fotógrafo, ia-se apoderando de mim a ideia de que todos nós temos fotografias de família bem mais kitsch do que as expostas.
Existem ainda uns contornos quase académicos de erotismo em certos trabalhos, erotismo esse que nem é chocante - como o de Nan Goldin - nem indutivo, causando apenas a indiferença.

Rebecca Horn “Light imprisioned in the Belly of the Whale”


Rebecca Horn Bodylandscapes Desenhos, escultura, instalações 1964-2004
Co-produção: CCB, K20, Hayword Gallery, Martin Gropius Bau
4 de Fevereiro a 17 de Abril das 10h às 19h Galeria 1


Rebecca Horn – uma artista de renome internacional e várias vezes premiada – é amplamente conhecida pelos seus objectos mecânicos e esculturas móveis, instalações e obras relacionadas com a arquitectura, que impressionam pelo imaginário assombroso e enorme qualidade. Igualmente aclamados são os filmes da artista, que cobrem um amplo espectro, do experimental ao narrativo, e unem de maneira brilhante o poético ao surreal, extraindo efeitos chocantes de lugares comuns e plausíveis.Nesta mostra representativa, O centro Cultural de Belém apresenta cerca de 15 objectos e trabalhos de grandes dimensões produzidos nos últimos 40 anos.
A exposição apenas peca pelos desenhos de Horn que claramente destoam com a qualidade dos objectos escultóricos mecânicos e instalações da artista.
Especial destaque para a instalação de luz e som “Circle for Broken Landscape” (1997) a qual é verdadeiramente arrebatadora. A artista consegue criar um espaço o qual me apeteceu contemplar durante horas.

Rui Chafes e Vera Mantero Comer o Coração (Eating your Heart Out)Instalação de Rui Chafes e Vera Mantero Comissário: Alexandre Melo
Produção: IA em colaboração com CCB
De 4 Fevereiro a 17 de Abril 2005 das 10h às 19h Galeria 1


Comer o Coração é o título da obra que representou Portugal na 26ª Bienal de São Paulo. Uma obra única e inédita produzida especialmente para essa ocasião. Um trabalho de concepção e criação conjunta entre o escultor Rui Chafes e a coreógrafa e bailarina Vera Mantero, que agora é apresentada no CCB.
A peça resultou do convite dirigido pelo Instituto das Artes ao crítico Alexandre Melo, comissário da mostra, que convidou o escultor Rui Chafes e a coreógrafa e bailarina Vera Mantero a realizarem um trabalho inédito de concepção e criação conjunta.O título, conforme A. Melo, "é uma metáfora para a violência da vontade de arrancar ao desenho das formas ou à presença viva de um corpo a inatingível completude de uma presença plena. Através da construção imaginada por Rui Chafes o corpo de Vera Mantero liberta-se do chão e animado pelos desenhos que o redesenham prossegue a procura de um lugar extraordinário, para além de todas as conveniências. Escultura em ferro e corpo vivo. Coreografia sem chão, para um ser humano e ferro com o mundo à volta."

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

2001: A Space Odyssey



O Homem respondeu com a sua criatividade a todos e quaisquer problemas colocados pela natureza, encontrando soluções originais que lhe asseguravam a sobrevivência face às modificações do meio em que vivia.
Passadas que estão as grandes etapas da evolução física, a evolução do Homem passa actualmente pelos factores culturais, uma vez que o cérebro do ser humano actual não possui quaisquer diferenças em relação ao cérebro do Homem de Cro-Magnom, que viveu há cerca de 35000 anos atrás.
Este desenvolvimento intelectual continua ainda hoje a dever-se a um único factor, que corresponde ao uso da linguagem. Este factor permite a transmissão e consequente desenvolvimento dos conhecimentos passados de geração em geração.
Mas onde e como foi iniciado todo este processo?
Cada cultura tem a sua própria versão dos factos envolvendo normalmente figuras divinas ou mitológicas como criadoras de toda a vida existente no planeta.
“2001 Odisseia no Espaço” é uma aproximação – no plano do fantástico – não tanto à origem da Humanidade, mas sim à origem e desenvolvimento da inteligência no Homem.
Arthur C. Clarke descreve claramente dois momentos cruciais na evolução do Homem. O primeiro momento acontece quando a personagem Sentinela da Lua aprende a manejar um osso como ferramenta e arma após ter visto um grande monólito negro, de proveniência alienígena sinal óbvio de que se tornara inteligente.
O segundo momento acontece quando o supercomputador de bordo da nave espacial Discovery, HAL 9000 (com voz de Douglas Rain) – as iniciais HAL são as mesmas de IBM, utilizando-se as letras precedentes – confessa a Dave Bowman (Keir Dullea), quando este o está a desligar após HAL ter tomado conta da nave espacial, que está com medo. Ao confessá-lo, HAL está a evidenciar um sinal de inteligência, que é fruto da inteligência Humana assumindo o Homem o papel de Deus na criação de vida.
Mas o filme de Stanley Kubrick é muito mais do que isto…
Embora só tenha sido reconhecido pela Academia de Hollywood pelos efeitos especiais, no filme são facilmente observáveis os soberbos trabalhos de fotografia, direcção de actores e montagem.
Finalizando, também a escolha da banda sonora foi feita com um primor tal que é actualmente impossível dissociar “Also Sprach Zarathustra” de Richard Strauss – uma peça escrita antes da invenção do automóvel - de “2001 Odisseia no Espaço” e de todo o nosso imaginário comum acerca da ideia de espaço.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

Nuno Rogeiro comenta Instalação "Redra"



Nuno Rogeiro comentou esta manhã ao microfone do Rádio Clube Português, no seu apontamento diário, a instalação “Redra” com música de Samuel Jerónimo e vídeo-arte de Carlos Sousa.
A mesma irá estrear-se já no próximo dia 25 de Fevereiro no Museu Nogueira da Silva em Braga.

Domingo, Fevereiro 13, 2005

Closer



Confesso que estava algo relutante em ver este filme depois de ter apanhado com o “Unfaithful” de Adrian Lyne. No entanto como as criticas eram boas lá decidi dar uma espreitadela e devo dizer que fico feliz quanto a essa decisão.
O argumento baseia-se na peça de Patrick Marber, sendo uma metáfora sobre as relações afectivas contemporâneas, sobre a necessidade de ser amados, a necessidade do sucesso profissional, os jogos de sedução, o medo da solidão, a dependência afectiva, a atracção sexual, o individualismo, a falta de comunicação.Partindo de um dispositivo quadripartido, o filme conta a história de encontros e desencontros, atracções e infidelidades de quatro estranhos, Anna, Dan, Alice e Larry.
Dan (Jude Law) é um jovem jornalista que aspira tornar-se um grande romancista, mas que de momento, ganha a vida a escrever obituários. Certo dia Dan conhece Alice (Natalie Portman), que vem a saber ser uma rapariga que apenas possui a roupa que tem vestida e que acaba de chegar a Londres fugida da América e de um relacionamento falhado.
Alice logo se torna a musa de Dan, sendo através dela que ele amadurece, ganha energia, autoconfiança e coragem suficientes para se aproximar da mulher que ele acredita amar, Anna (Julia Roberts), uma fotógrafa de grande sucesso que está a recuperar de um divórcio recente. Os dois conhecem-se numa sessão fotográfica para o primeiro romance de Dan, no qual ele conta toda a história de Alice.
Os dois depressa se envolvem, mas Anna, descrente do futuro da relação, casa pouco tempo depois com Larry (Clive Owen), após o ter conhecido através de um blind date marcado pelo próprio Dan. Larry é um médico de prestígio, um dermatologista muito conceituado e extremamente confiante, que pela sua astúcia começa a jogar à defesa quanto à sua relação. Anna, apesar de casada com Larry, tem um caso secreto com Dan e tornam-se amantes.
A partir deste ponto, este jogo de sedução, amor e sexo, onde ninguém é inocente, torna-se cada vez mais doloroso enquanto todos se magoam progressivamente de uma forma cada vez mais intensa.

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

"Melinda and Melinda"



“Melinda and Melinda” faz-se rodear de factos interessantíssimos. O realizador ausenta-se pela primeira vez da tela num filme seu, muito embora insira na trama a personagem Hobie (Will Ferrell) que contém todos os seus tiques comportamentais.
Outro facto interessantíssimo é a visão da vida segundo duas perspectivas que embora pareçam antagónicas, acabam no final por o não ser.
A vida deverá ser vista como uma comédia ou como um drama. Quando Melinda (Radha Mitchell) conhece o pianista Ellis (Chiwetel Ejiofor) no bar, este pergunta-lhe “Tears of sad or tears of joy?”, ao que Melinda responde “Aren’t those the same tears?”.
Fica assim dado o mote do filme e da vida de Melinda vista segundo as duas versões, ora rodeada por um destino fatídico, uma desgraça iminente e um rol de amizades que caminham igualmente para um ciclo de desagregação e reconstrução, ora do outro lado uma Melinda quase igual à chegada mas em tudo diferente na partida. É sobretudo nesta versão mais risonha que Melinda menos se mostra e menos intervém, e mais Allen (Neil Pepe) realmente se aproxima do costumamos ver mais frequentemente, com Melinda a assumir vislumbres de musa.
“Melinda and Melinda” vem reconfirmar todo o génio de Woody Allen e ditar-nos mais pistas acerca da arte de viver.

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

“Redra Ändra Endre De Fase” apontado por Luís Oliveira – editor da webzine Ventrilocution - como um dos highlights de 2004



Instead of delivering the bland, stereotypical “best of” list which seems to have become more frequent in forums such as this one, we decided to go that extra mile and do something even more asinine, by cramming our own listings with some of the stuff we enjoyed about the year that just passed and that probably mean jack shit to our regular reader. Still, we hope you’ll find a way to cope with this unusual amount of unnecessary information before skipping ahead to check out what we have been listening to these last few weeks. Enjoy.
Pedro Serôdio


:§: Luís Oliveira [in no particular order]

Skalpel's debutLes Triplettes De Belleville (both the film and its OST)
Kill Bill vol.2
Esoteric - 'Subconscious Dissolution Into The Continuum'
Peccatum - 'Lost In Reverie'
Paatos - 'Kallocain' and their gig in Ericeira
Sixtoo - 'Chewing On Glass & Other Miracle Cures'
Bizarra Locomotiva's 'Ódio' and that thunderous live experience
Mão Morta - 'Nus'
Quinteto Tati - 'Exílio'
De Grønne Slagtere
Witchcraft's debut
Storm Thorgerson - 'Mind Over Matter'
Henry Miller - 'The Colossus Of Maroussi'
Fadomorse - 'Entrudo'
Second Kyu in Judo
Autografia
Samuel Jerónimo - 'Redra Endre De Fase'
Black Tape For a Blue Girl's song 'Tarnished'
Confessor's return
Dead Can Dance's return
Karl Sanders - 'Saurian Meditation'
Spektrum - 'Enter the...'
Aeon Spoke - 'Above the Buried City'
Atrium Carceri - 'Seishinbyouin'
Murcof - 'Utopía'
Gato Fedorento
Orwell's masterpiece - '1984'
Enslaved - 'Isa'
Ronin's LP
Laibach - 'WAT'
The Chasm - 'The Spell Of Retribution'
VZ's 'public birth'
All the labels, bands and distros kind enough as to submit their material to our consideration

Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Peça "Endre De Fase" no programa radiofónico britânico"Musa Lusa"




A peça “Endre De Fase” foi hoje transmitida no programa radiofónico “Musa Lusa”, a partir da rádio britânica “Resonance 104.4fm”, oriunda da cidade de Londres.
A transmissão da peça inseriu-se numa programação especial dedicada à This.Co.


Playlist:

Samuel Jeronimo Endre De Fase
Sci Fi Industries Requested
Sci Fi Industries Tales From The White-Noise
Ghoak Anthology
Ghoak Fotossistema 700
L'Ego Sorcerer
L'Ego We'll Take Care of You
Com.Gen Linea Curva
Rasal.A'Sad Momeant

Musa Lusa is a weekly radio show promoting Portuguese music and musicians on Resonance 104.4fm. Broadcast live across London on 104.4fm every Monday, 3.30-4.30pm, with simultaneous worldwide web streaming at www.resonancefm.com. Hosted by Miguel Santos (director of both the Anglo-Portuguese Cultural Relations programme at Calouste Gulbenkian Foundation, and of the annual music festival Atlantic Waves), it showcases a breathtaking variety of music, ranging from contemporary fado to experimental electronica, alternative pop to ethno/folk, jazz, modern composition, upfront club music and many other genres you would never dream come from Portugal.

Mais informações

Domingo, Fevereiro 06, 2005

“Redra Ändra Endre De Fase” revisto pela Webzine "Progressor" (Uzbequistão)



This is the debut solo album by the 25 year-old multi-instrumentalist and composer Samuel JERONIMO, hailing from Portugal. Before, he played electric guitar in the Progressive Rock band Mystery Of Grace, whose repertoire included all-original songs and Samuel's renditions of the works of Beethoven, Mozart, Mussorgsky, Grieg, Paganini and Vivaldi.
Simply and unpretentiously, Samuel compiled the album's title of those tracks presented. The first and the longest of them, the 33-minute Redra, is the best, although the beginning didn't fill me with enthusiasm, to say the least. The processed, repetitive percussion sounds running in the course of the first five minutes, are incredibly monotonous. I had time to get tired while I listened to them, and then I thought that the entire thing is probably about that stupid electronic minimalism. Unexpectedly, Jeronimo the Musician replaced Jeronimo the Mechanic to perform a living, amazingly impressive concerto of neoclassical music for piano and vibraphone. Since all this brilliance continued during nearly half an hour, I've become imbued with a deep respect to the Maestro…

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

Álbum do dia: Beach Boys “Sunflower”



A transição dos anos 60 para os anos 70 trouxe a mudança para o seio dos Beach Boys. Esta mudança esteve presente na troca de editora – a banda abandonou uma relação de 7 anos com a Capitol Records para passar a ser editada pela Warner Bros. -, nos problemas de saúde de Brian Wilson e consequente deterioração artística do génio de “Pet Sounds” e finalmente no panorama artístico extrínseco à banda, com a ascensão de novas ideias, públicos e gostos.
Editado em 1970, “Sunflower” tem como principais destaques, a ascensão de Dennis Wilson como compositor, especialmente no maravilhoso tema “Forever”, e claro os maravilhosos temas "This Whole World", "Our Sweet Love" e "At My Window", todos eles saídos da pena de Brian Wilson.
Com o eloluir do mercado, não será de estranhar que os Beach Boys se tornassem pouco apetecíveis para o grande público, ligados que estavam ao formato fun fun fun song característico dos seus primeiros dias.
“Sunflower” é assim uma valiosíssima peça perdida na sombra da moda, moda essa que havia anos antes projectado a banda para o estrelato.

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

Peça do dia: Heiner Goebbels “Surrogate Cities”



Heiner Goebbels nasceu em 1952 na Alemanha. Com “Surrogate Cities” conseguiu impressionar muitas pessoas, incluindo o maestro da Orquestra Filarmónica de Berlim, Sir Simon Rattle – que saudades tenho eu dos seus programas transmitidos aos sábados de manhã na então RTP 2 -, que lhe encomendou uma peça para a sua estreia na regência do referido corpo.
“Surrogate Cities” é uma colecção de cinco trabalhos: uma “Suite para Sampler e Orquestra”, “The Horatian – Três Canções”, “D & C”, “Surrogate” e “In the Country of Last Things”. Todos eles representam diferentes abordagens às várias estórias contidas numa cidade, ideia que por si só me atrai bastante e que aqui está bem desenvolvida.A Suite para Sampler e Orquestra é composta por dez secções, sendo que cada uma delas recebe o nome de uma dança barroca, facto que acaba por baralhar quem pega no álbum pela primeira vez.
Ao incorporar o sampler nesta composição, o compositor consegue aceder a sons normalmente não disponíveis numa orquestra. Além do sampler, Goebbels utiliza ainda elementos próprios de outras tipologias musicais como é o caso do rock e do jazz, aqui presentes nas percussões e nas vozes. Frequentemente violenta e explosiva, a música de Goebbels recebe ainda textos de Heiner Müller, Hugo Hamilton e Paul Auster, o que ajuda à concepção imaginativa da peça. No geral, “Surrogate Cities” destaca-se como sendo uma das peças cuja linguagem apresenta uma maior frescura nos seus conteúdos. Este facto não se deve tanto às alternativas timbricas – estou-me a lembrar do sampler presente em “City Life” de Steve Reich e da bateria no “West Side Story” de Leonard Bernstein - escolhidas pelo compositor mas sobretudo à utilização que este faz delas.
As portas para o novo mundo estão abertas…

10 melhores álbuns internacionais segundo Luis Loureiro



1. KARDA ESTRA "Voivode Dracula"

Um belo trabalho cheio de neo-classicismo de Richard Wileman e do seu projecto de estúdio Karda Estra. O compositor inglês apresenta-nos uma escrita sombria baseada na obra de Bram Stoker, cheia de mistério, extremamente elegante e estranhamente melódica.
Lindíssimo, arrebatador, hipnótico.
Compõe-se de 5 peças e conquistou-me graças a um envio inteligente de alguns CDrs para minha casa com o patrocínio do mr Lagartinho Metaleiro...
Comprei-o depois, pois claro, ao Mário.



2. GUAPO "Five Suns"

O quinto álbum desta banda seminal de um zehul british foi, para muitos, o grande álbum de 2004. Para mim também foi. Entre Magma e King Crimson, aqui viaja-se freneticamente de sol em sol, graças à pura energia e complexidade das composições/divagações improvisadas da banda. É eventualmente o trio com mais "power" que conheço no prog.
A seguir com atenção em 2005, ano em que se espera o lançamento do novo álbum através da etiqueta Ipecac de Mike Patton...



3. AMAROK "Quentadhärken"

Temos banda para o GAR 2005!! Um excelente e colorido trabalho feito de cruzamentos da música mediterrânica com influências célticas e flamencas. Progressivo puro, sinfónico até, mas com um irresistível e sempre melódico toque folk. Estou muito curioso por vê-los em Gouveia, até porque no ano passado, em Tiana (Barcelona), eles optaram por tocar muito poucas faixas deste álbum, que ainda não tinha saído.




4. THORK "We'Ila"

Será de mim ou simplesmente adoro tudo o que os manos Maurin fazem? Os Nil já se sabe, os Syrinx são o que são... e agora, neste segundo álbum desta estranha e original abordagem de "dark folk progressive rock", voltam a convencer-me de que em Annecy se faz a reinvenção do sinfonismo no prog. Um álbum extraordinariamente negro, feito de estruturas sinfónicas complexas, em que a adição de elementos folk parece ter sido feita a partir de largos desertos de sombra. A descobrir, com urgência! Já agora, antes do novo álbum dos Nil que está a saír em Abril/Maio.



5. LIQUID SCARLET s/t

Foi uma surpresa de última hora, mesmo sobre o final do ano. Álbum de estreia de uma banda nova vinda de paisagens que conheço e aprecio, as dessa Escandinávia larga e nostálgica. Mas atenção, os Liquid Scarlet não são uma extensão dos Anekdoten ou dos Paatos, embora em algumas abordagens se possam aproximar.
As estruturas são mais prog, com referências que percorrem desde uns Anglagard a uns Genesis ou os (obrigatórios) King Crimson. Variado e excelente!



6. UNIVERS ZERO "Implosion"

Não sendo um álbum tão conseguido como os anteriores "Rhythmix" (que foi para mim o melhor de 2002) e "The Hard Quest" - grande album!! - é sempre um trabalho com a assinatura inconfundível de Daniel Denis. De abordagem mais directa que os anteriores, contém algumas pérolas ("Mellotronic") e outros momentos mais frios, onde a electrónica domina a um nível nunca antes atingido nos UZ (apesar das incursões nesse sentido feitas no álbum anterior).



7. WHITE WILLOW "Storm Season"

A opção por uma piscadela de olhos mais "heavy" aos cifrões americanos não retira beleza ao trabalho dos White Willow. Este é mais um excelente trabalho de uma carreira que já começa a ser bastante consistente. O tema de abertura, "Chemical Sunset" vai ser um clássico e é, a par de "L'Origine" dos Thork o momento mais alto do novo progressivo sinfónico produzido em 2004.



8. PAATOS "Kallocain"

Pop? Prog? Pouco me interessa, confesso. Apesar de não conseguir o nível do seu antecessor, este "Kallocain" é um álbum bastante equilibrado, sem pontos baixos de princípio a fim. Mais centrado na bela voz de Petronella e em cuidadosos arranjos e uma produção de excelência. Menos apostado nas estruturas e belas passagens instrumentais de "Timeloss".
Mantém, no entanto, viagens anteriores por nostálgicos e lindíssimos momentos. Mágicos, como os que a banda partilhou connosco, especialmente nos inesquecíveis concertos da PPAC em Vizela e na Ericeira.



9. SAMUEL JERÓNIMO "Redra Ändra Endre de Fase"

Não é por acaso que o Fernando Magalhães o considerou no Público "uma pedrada no charco". A utilização da electrónica ao serviço da composição como raramente se ouve.
Uma suite ("Redra") que seguramente ficará por muitos anos como obra maior de um progressivo feito música contemporânea. Frieza que toca calor. Música que respira matemática.




10. PLANETA IMAGINARIO "Que me dices?"

Este ano confesso que não esperava
ver dois álbuns espanhóis no meu "top" mas eles aí estão. Quem conhece e se rendeu, como eu, a álbuns como a obra-prima "Of Queues and Cures" dos National Health encontra aqui bilhete directo para o prazer. Transpira Canterbury, com toda a ausência de peso e massa que a escola de Wyatt, Ayers, Sinclair, Miller e amigos nos deixou... Excelente lançamento do nosso amigo Rafa Dorado da galega Margen Records.


Luis Loureiro é redactor da Webzine ProgPT e do Weblog Tenda dos Índios.
É ainda membro da Portugal Progressivo - Associação Cultural e uma das pessoas por detrás da organização do Festival Gouveia Art Rock

Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Peça do dia: Claude Debussy "La Mer"



"La Mer" de Claude Debussy, é uma suite em três quadros sinfónicos ("Da Aurora ao Meio-Dia Sobre o Mar"; "Jogo das Ondas"; “Dialogo Entre o Vento e o Mar"), onde nos é apresentado o mar sob três formas: o ruído das vagas, o seu movimento ondulante e cor, onde a fronteira entre a água e o ar (céu) é sempre instável.
A peça é composta por três elementos que a relacionam ao objecto retratado: as sonoridades do mar (voz do mar); os seus ritmos (o movimento das vagas); as suas harmonias (as nuances e reflexos que os olhos que para ele olham).
Estes quadros apelam sobretudo à imaginação, recorrendo ao poder da sugestão onde as impressões assumem o papel das visões.

Chat: Old and New



A:
Ainda não tive tempo para elaborar qualquer lista aleatória dos melhores de 2004, porque em primeiro lugar não me tenho fascinado com novos lançamentos de neo-prog ou novos trabalhos de antigos grupos e em segundo lugar porque compro música de vários géneros...mas como estamos numa lista de prog-fusão-rock que abarca muitas sonoridades e ambientes, posso dizer que numa primeira vista o que me fascinou no ano passado foram as descobertas arqueológicas que cada vez mais são desenterradas e que têm dado uma credibilidade ao rock denominado "progressivo", se bem que o termo seja inicialmente redutor e assuste muito boa gente!!
Por mais que tente pensar num disco editado no ano passado, acabo sempre por pensar noutras correntes musicais que pontualmente dizem respeito ao rock
progressivo, como por exemplo a do folk progressivo, também por vezes apelidado de "acid-folk", ou coisa que o valha... Gostei muito do disco que Devendra Barnhart editou com aqueles desenhos líricos e uma voz perdida no tempo à procura de Nick Drake, mas fiquei surpreendido em descobrir que o que ele fez no ano passado já Simon Finn o havia feito num disco perdido no espaço-tempo e gravado em 1970, chamado "Pass The Distance"!! É a mesma atitude, a mesma efabulação, mas...no disco de Simon Finn resulta melhor o experimentalismo à deriva e a esquizofrenia sincera, enquanto que o rapaz Devendra apenas me parece uma ténue projecção de todo este universo...
Com isto quero dizer que há um som marcado pelo tempo, muitas vezes associado a questões de produção e logística, sendo fascinante o interesse pelo passado musical, mas aí a criatividade não passa por recriar um híbrido falsamente credível, como num jogo onde tentamos descobrir as diferenças cronológicas...
Tento gostar dos últimos discos (potentíssimos) dos King Crimson, mas prefiro ouvir as obras-primas dos Radiohead (The Bends, Ok Computer) ou os 90 Day Men (Panda Park é excelente e é de 2004!), porque me parece que os Crimson copiam as sonoridades actuais!! Tento ouvir um qualquer disco de um novo grupo prog, mas resultam todos num fiasco, no já e de-já ouvido, nas vozes copiadas ao Peter Gabriel, ao John Wetton ou ao Jon Anderson (do outro Ian dos Jethro Tull diziam que cantava mal, mas acho até que o seu timbre é inimitável!), nos instrumentos que copiam os solos e as escalas do Peter Banks e Mike Rutherford!!! Já não há pachorra para os neo-progs e desculpem-me ser tão crítico, mas acho que é possível fazer música de grande qualidade influenciada pelos sons de 60 e 70, sem cair no primitivismo dos neo-proggers!! Vejam-se os BirdSongs of Mesozoic ou os 90 Day Men, estes já falei acima!! Há também toda aquela escola americana dos U-Totem, Thinking Plague, 5 Uu's e outros, que são extremamente criativos sem bajularem os mestres...O rock progressivo não pode ser copiado!! Fica toda aquela magia do tempo em que foi produzido, por vezes em condições dificílimas, veja-se o exemplo dos Fruupp...Ando fascinado com eles, comprei aquela antologia em 2 cds chamada "It's All Up Now", que é fabulosa!!
Excelentes músicos, nem me atrevo a considerá-los de segunda ou terceira divisão do Prog, pois são muito bons!!! ... Mas no entanto, lendo o texto de apresentação do cd, a certa altura diz-se (Ian McDonald dixit...) que o equipamento musical deles era horrível e até embaraçoso, de tão antiquado...Mas fizeram pequenas obras primas do prog britânico! Na canção "Prince Of Darkness" imitam saudosamente (em 1974!) os trejeitos de Peter Gabriel, mas viveram nesse tempo e torna-se delicioso!!! Qual é o interesse de um projecto como os Musical Box??? A nostalgia??? Prefiro a nostalgia dos Fruupp!!! Os bigodes e os cabelos mal cortados!!!

B:
Antes de mais (parece-me) que partes de uma premissa totalmente errada, que o Progressivo actual é “neo-progressivo”. Sendo este um subgénero (a meu ver
mal catalogado, mas não interessa…) que define uma determinada sonoridade e musicalidade e não é um fenómeno temporal ou algo que tem como pressuposto o
carácter cronológico. No máximo podes afirmar que o Progressivo Sinfónico actual reveste-se em “neo-progressivo”. Muitas vezes podemos verificar tendências entre sonoridades e épocas, mas nunca leis que relacionam um determinado “tempo” a uma determinada sonoridade, como disse - nunca leis ou relações directas, entre ambos.
Não tenhas uma visão tão redutora da Música Progressiva dos dias de hoje, o Progressivo actual está bem vivo e respira muita saúde. Contudo, requer muito mais atenção por parte do entusiasta e comprador de música, pois pela pressão constante e cada vez maior da sociedade consumista fica complicado essas bandas terem um espaço e um pouco de ar para respirarem. Quando listei aqueles álbuns não inclui os “a-progressivos”, como é o caso do “neo-progressivo” ou o “metal-progressivo”… mas sim trabalhos que podem muito bem discutir lado a lado com os trabalhos da década de setenta.
Não me parece, acho que existe sempre uma evolução. Não sou pessimista em afirmar que a música Progressiva actual se baseia de Ruminações daquilo que
já foi feito, antes pelo contrário. Atenção que eu parto da premissa que o “neo-progressivo” não faz parte desta Música Progressiva. A história musical prova o contrário… ouve sempre uma evolução musical, algo que a “geração actual” tenta sempre ignorar.
Ao conheceres certas bandas “ruminadoras” criaste essa ideia, é compreensível. Possivelmente tens buracos nos pés, dos tiros! hehe brincadeira! Bem, mas já que tiveste essas sensações más, é hora de procurares os bons trabalhos actuais… Esquece o “neo-progressivo” e tem cuidado com o sinfónico (realizado depois de 1977).

Domingo, Janeiro 30, 2005

Peça do dia: Karlheinz Stockhausen “Gruppen”



A peça “Gruppen” foi escrita para três orquestras dispostas no formato de uma ferradura com o objectivo de rodearem o ouvinte: uma orquestra fica situada no flanco esquerdo, a outra no direito e a terceira na frente do ouvinte. Nas gravações áudio procura-se o mesmo efeito através da atribuição de três diferentes canais de gravação, um para cada orquestra.
Stockhausen disse que grupos (Gruppen) de sons, ruídos e sons-ruídos são coisas completamente distintas. Cada uma delas move-se na sua própria dimensão espaço-temporal. Esta separação resultou inicialmente em sobreposições de layers de tempos diferentes, o que seria impossível de se fazer apenas com uma só orquestra. Daí que o compositor tenha optado por este novo conceito de disposição da música e da direcção e movimento do som no espaço, que já havia experimentado na peça de 1956 “Gesang der Jünglinge” para 5 grupos de colunas.
Deliberadamente composta como um todo – a obra não está dividida em movimentos – a peça começa calmamente à medida que a multiplicidade de ritmos se vai pronunciando com cada vez mais intensidade e os três grupos (orquestras) vão interagindo com maior liberdade entre si.
Esta interacção é tal que, embora cada um deles seja bastante diferente dos outros, quando justapostos alcançam uma coesão parecida com a de três elos de uma só corrente.
Existem na peça súbitas descargas energéticas que desaparecem tão rapidamente como apareceram. A fluidez do discurso musical é também notória na volatilidade rítmica, nas instrumentações ora uniformes, ora disformes, ora extremamente densas e na tensão existente no jogo pergunta-resposta entre as três orquestras.

Ouvir excerto

Sábado, Janeiro 29, 2005

REDRA: O papel do erro na descoberta/mudança



INSTALAÇÃO REDRA
Música por Samuel Jerónimo
Vídeo-arte por Carlos Sousa

A mudança impõe-se cada vez mais como a maior constante das nossas vidas. A actual dinâmica em que o obsoleto de hoje, foi o contemporâneo de outrora, apenas intensifica um processo contínuo que na verdade nos transcende, já que o universo onde a mudança se opera ultrapassa grandemente as dimensões de espaço e tempo onde o Homem viveu, vive e viverá.
Dentro do espectro da mudança humana é inegável o papel do erro. Tal foi estudado pelo sociólogo Robert Merton na sua obra “Arte do acaso” (...ou “serendipity” para Merton).
Desde Arquimedes, ao acidente que provocou a descoberta da penicilina por Fleming, passando pelo desenvolvimento de novos materiais como o teflon, o “acidental” na ciência é hoje um facto não só conhecido, como bem documentado!
A instalação vídeo “Redra” não se deixa contaminar por ideias preconcebidas, que permitem que inúmeros domínios escapem ao seu controlo ao tomar apenas em consideração actos explícitos, baseia-se sim em premissas mais simples e quase minimais, em erros,
Levar as máquinas ao erro, manipulá-las de modo a não fazerem aquilo para o qual foram projectadas, levá-las a fazerem algo de imprevisto, aleatório e irrepetível, criando assim algo de natureza abstracta tanto em conceitos como em conteúdos, algo que se desvia do controlo da máquina sobre o homem e do homem sobre a máquina e se centra numa “zona de contacto” que foge ao domínio do homem e da máquina.


O erro nas Artes Digitais

Os anos 80 tornaram acessíveis a cada vez mais pessoas as novas tecnologias da informação, tornando-as também ao mesmo tempo cada vez mais dependentes destas. Tal facto deve-se à ideia de que os meios informáticos são mais rápidos e fiáveis, quando na verdade os sistemas informáticos são bastante susceptíveis de terem falhas e erros, o que os torna quase imprevisíveis. Este carácter de imprevisibilidade é particularmente fascinante porque abre um leque de infinitas possibilidades, sendo que a própria ideia de infinidade – por mais abstracta que seja – é algo que nos fascina desde a nossa infância, na qual somos seduzidos pelo conceito de infinito quando aprendemos a contar, primeiro até 10, depois até 100, 1000, 10000, 100000, 1000000…
A maioria dos artistas que desenvolve o seu trabalho utilizando como médium as falhas informáticas utiliza estratégias como a alteração dos dados (bites – zeros e uns), a utilização aleatória na execução de tarefas para as quais não foram concebidos, a provocação de falhas no hardware - aquecimento ou alteração dos próprios componentes -, a provocação de falhas de energia ou interrupção das comunicações entre computador e impressora, scanner e câmara fotográfica ou vídeo.
Outros esperam apenas que as coisas aconteçam. Embora em alguns casos exista uma mediação do artista no sistema, em ambos os casos o resultado será sempre imprevisto pois nunca se saberá qual será o resultado final até estar concluído.
Perante tudo isto, diversas questões ou críticas se levantam face a tecnologia e à arte.
O erro sempre foi uma fonte importante de categorias e de paradigmas novos da percepção e da criação. O “Novo Mundo“ foi descoberto devido a um erro de navegação de Colombo. Freud explicou que os erros e os lapsos inconscientes no acto de falar, tinham um significado inconsciente…
Um erro, tem então um significado relevante?
Um erro é sempre original, em contraste com a produção em série consolidada pela tecnologia. Assim também nós poderíamos mencionar a música electrónica criada usando erros e gltiches (erros de programação) ou a estética do hip hop baseado na utilização não convencional dos discos, aproveitar a ruína ou arruinar directamente a tecnologia tendo em vista uma reconfiguração. Não é necessário esquecer toda a arte experimental que se aproveitou do acidente ou do azar como uma nova possibilidade de construção. O erro no uso dos instrumentos ou nos métodos da investigação, diria o filósofo e historiador de ciência, Paul Feyerabend, produziu algumas das descobertas mais férteis que a ciência nos deu. O erro, então, é um evento que por ser excepcional assume o carácter de revelador.
O erro também é procurado por ser uma amostra da não fiabilidade da tecnologia, e do seu carácter de instituição fiável ou insolvente. Estas imagens, no geral, são uma investigação dos erros gerados por aparelhos electrónicos, simultaneamente uma celebração estética e de ridicularização desses mesmos meios.
A cada tipo de sociedade corresponde uma máquina e uma forma de arte. Se hoje podemos traçar a genealogia dos objectos técnicos, classificar as imagens sejam elas analógicas ou digitais e indagar sobre os seus suportes e sobre a razão da arte e da técnica terem resistido ao tempo e à própria morte. Suportar e resistir são sinónimos. O filósofo francês Gilles Deleuze dizia que, se a informação molda e define a sociedade de controlo, a contra-informação só se efectiva num acto de resistência. "Poderíamos dizer, então, que arte é aquilo que resiste", concluiu. Todo o acto de resistência seria, de certo modo, uma obra de arte, e toda arte conteria germes de resistência. "O acto de resistência possui duas faces. Ele é humano e é também um acto artístico. Somente o acto de resistência resiste à morte, nem que seja sob a forma de uma obra de arte", propôs Deleuze. Apontar o acto de resistência como a interface comum entre comunicação e arte numa sociedade de controlo parece fundamental para compreender as linguagens contemporâneas, particularmente as novas possibilidades estéticas que despontam na inter penetração da tecnologia digital. Se percebermos bem, todos os movimentos artísticos que influenciaram este século foram, cada um a seu modo, actos de resistência. Resistência à simplificação das linguagens; resistência aos materiais convencionais; resistência do próprio corpo do artista transformado em obra de arte nos movimentos mais radicais.
A utilização deste tipo de Médium como arte, critica o desenvolvimento das sociedades onde a tecnologia é tomada como o bem mais precioso, um alvo para a ironia, um espelho do paradoxo lógico que permite e ridiculariza maliciosamente em diversas maneiras a tecnologia. Uma relação cruel que muda as regras da relação entre o homem e a máquina, como uma inteligência que, quando nivelada e mascarada de estupidez, fala a mesma língua dos seres humanos.
Tradicionalmente, o estudo da estética é o estudo de formas estáveis, a discussão em torno da arte está concentrada em objectos concretos: pintura, escultura, arquitectura… com o advento do computador, destabilizou estas ideias preconcebidas da arte, e enevoando as categorias e fronteiras da arte. Muitos erros foram cometidos a quando da utilização por parte dos críticos de arte quando utilizavam as mesmas ideias para avaliar uma obra de arte estática ou dinâmica, um sistema dinâmico requer um constante reajustamento focado no seu interesse, havendo uma troca entre as três temporalidades passado, presente e futuro, para a avaliação deste tipo de trabalho é necessário uma Hyperestética, que requer uma teorização em tempo-real de modo a acompanhar o desenvolvimento tecnológico.
_____________________________________________________________
SAMUEL JERÓNIMO 1979
Biografia

Samuel Jerónimo nasceu a 2 de Setembro de 1979, na vila da Nazaré. Desde cedo se entregou ao estudo da guitarra, estudo esse que era bifronte por ter tanto de académico como de auto-didáctico.
Em 1993 após o estudo da guitarra rock, começa a estudar a guitarra barroca com professor Sérgio Barreiro, professor esse que influenciou e permitiu o melhoramento e ampliação das suas técnicas e gostos musicais.
Após ter gravado diversos exercícios para a guitarra, forma o projecto "GCraft", caracterizado por interpretações ao vivo de peças da autoria de Beethoven, Grieg, Mozart, Mussorgsky, Paganini e Vivaldi, tudo à guitarra eléctrica. É também durante esse período que recebe o convite para integrar o grupo musical alcobacense Mystery of Grace, onde permanece por 2 anos e compõe uma suite de 36 min., para grupo de rock.
Em 1999 inicia-se na música electrónica com a peça “The Distant Images of the Abstract Light”, inspirado em trabalhos do artista Douglas Gordan.
Em 2000 começa a compor exercícios rítmicos aos quais posteriormente juntará harmonia. Este é o começo da primeira de duas suites para piano intituladas “Redra”. A primeira será editada em 2003 na compilação “Thisobidience: These Guys Gone Out!”, da editora lisboeta Thisco. Esta edição marca o início da colaboração entre o músico e a referida editora que em 2004 edita o seu álbum de estreia “Redra Ändra Endre De Fase” marcado pela combinação de diversas sonoridades que passam maioritariamente pelo piano, mas também por instrumentos de baqueta e electrónicas.
O mesmo colhe os melhores elogios da crítica nacional e estrangeira sendo mesmo considerado pelo Jornal Público com um dos melhores 10 álbuns nacionais de 2004.
_____________________________________________________________
CARLOS SOUSA 1979
Biografia

Carlos Sousa nasceu a 16 de Maio de 1979, na cidade de Leiria. Tendo descoberto desde cedo o gosto pelas artes plásticas, começou inicialmente por desenvolver alguns trabalhos nas áreas da pintura e fotografia, com os quais colaborou em algumas exposições colectivas na região de Leiria entre 1996-1999.
Em 1999 entra para a Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha onde frequentou o curso de Pintura, durante a frequência do curso descobre os potenciais valores das artes digitais e começa a iniciar alguns projectos nas áreas da Video-Arte e do Vídeo Jaming, com os quais participou em 2002, em várias mostras de vídeo. Efectuou também algumas vídeo instalações na Biblioteca da Câmara municipal de Alcobaça, tendo também participado no mesmo período, no grupo musical Dial S for Subliminal Messersschmitt, para o qual realizou vários vídeos para utilização em live-acts.
Actualmente, frequenta o último ano da licenciatura em artes plásticas, na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, estando neste momento a desenvolver um projecto multidisciplinar que explora questões relacionadas com os novos meios digitais, em que questiona a utilização de erros informáticos e a utilização de maquinas\computadores que têm problemas de mau funcionamento, criando assim deliberadamente imagens aleatórias sem qualquer controlo do meio, reforçando a ideia da imposição das máquinas sobre o homem. Um dos resultados desse projecto foi a realização de um vídeo que acompanha a faixa áudio “Redra”, realizada por Samuel Jerónimo.

EM HARMONIA COM OS RIT(M)OS E A VIRTUDE



por: José Alberto Vasco
(Musicógrafo)

Em Novembro de 1972 tomei uma das decisões mais determinantes da minha vida: deixar de fumar para começar a comprar discos com as minhas economias. Os resultados dessa minha importante deliberação começariam a concretizar- se cerca de um mês depois, na já infelizmente desaparecida discoteca da Electrolis, em Leiria, na data em que aí comprei o meu primeiro L.P. adquirido com as minhas próprias poupanças: o agora mítico Islands, dos King Crimson. Nessa tarde de um lúcido e envolvente Dezembro encetava- se também o meu frutuoso relacionamento com a pop progressiva e uma das suas mais marcantes personalidades criativas: Robert Fripp, líder daquele agrupamento. Poucos anos depois, essa minha paixão sofreria contundente revés, fulminada pelo então remanescente punk rock, mas ainda hoje recordo com alguma melancolia algumas das bandas sob cuja influência então alicercei o meu efémero relacionamento com a pop progressiva e os seus grandes heróis. Além dos King Crimson, esse foi também o caso de agrupamentos como os Emerson, Lake & Palmer, os Genesis, os Gentle Giant, os Jethro Tull, os Van der Graaf Generator ou os Yes... Já no final da segunda metade daquela inesquecível década de 1970, travei conhecimento com uma nova tipologia musical, surgida nos E.U.A. durante a década anterior, mas que apenas então se começava a afirmar na Europa: a música minimal. A percepção de composições como a seminal In C, de Terry Riley, ou a minuciosa Music For 18 Musicians, de Steve Reich, cimentou a minha sedução pelo minimalismo musical, tendo mesmo assistido à sublime interpretação desta última, ao vivo, pelo próprio autor e pelo seu próprio ensemble. Mal eu sabia então que essa minha nova paixão musical ainda muito me iria honrar, em 17 de Fevereiro de 2001, data em que foi apresentado no Cine- Teatro de Alcobaça o excelentíssimo concerto Fases do Minimalismo, por mim organizado. Nesse espectáculo, integralmente dedicado à música minimal, tive a rara oportunidade de apresentar ao público da minha cidade natal não só aquela tipologia musical como também dois qualificados percussionistas: Manuel Campos e Miguel Bernat. Foi precisamente a partir desse memorável dia que travei um conhecimento artisticamente mais aprofundado e intensivo com o Samuel Jerónimo, um dos muitos espectadores que então me manifestaram pessoalmente a sua explícita admiração por aquela música, por aqueles artistas e pela oportunidade de poderem ter assistido àquele fulgurante espectáculo num emblemático auditório de Alcobaça.
Precisamente dois anos após este último concerto, foi a vez de ser o próprio Samuel Jerónimo a surpreender- me, oferecendo- me um exemplar de um multidisciplinar C.D., uma colectânea em que sob a intitulação Thisobidience: These Guys Gone Out! eram apresentados trabalhos de alguns novos compositores e intérpretes da área pop/ rock. Um deles era o mesmíssimo Samuel Jerónimo, que eu entretanto soubera ter despertado para as lides musicais no final da última década do século vinte, como guitarrista da banda pop alcobacense Mystery of Grace. Ao ouvir o seu tema musical incluído naquele C.D. rapidamente me apercebi de que entre as suas grandes paixões musicais avultavam declaradamente as da música minimal e da pop progressiva, por si subliminarmente personalizadas em incontornáveis vultos daquelas tipologias como Steve Reich, Keith Emerson e Rick Wakeman. A arte musical de Samuel Jerónimo logo se me revelou como um interessado e aliciante trabalho de processamento e manipulação musical em computador, cuja interpretação era informaticamente programada para teclado digital, orientação tecnológica cuja ondeante e subjectiva sonoridade pianística, de declarado cariz minimal, assimilava o especial e indefectível condão de se evidenciar como uma autêntica e irresistível ressurreição, em termos de subliminar e criativo pastiche, das memoráveis cavalgadas pianísticas de alguns imparáveis heróis da pop progressiva.
Foi já sem grande surpresa da minha parte que seguidamente tomei conhecimento de que o intelectivo e proficiente Samuel Jerónimo se tinha convictamente abalançado na concepção de uma produção musical de teor muito mais exigente e aprofundado: a realização e interpretação de um C.D. em nome próprio. Foi assim que surgiu, no segundo semestre de 2004 e novamente através da meritória editora independente This.co, o primeiro trabalho discográfico de fundo de Samuel Jerónimo, incluindo três suas novas composições que confirmavam plenamente o interesse que a sua criatividade tinha anteriormente gerado: Redra, ändra e Endre De Fase. Ouvir e interpretar criticamente a música de Samuel Jerónimo nesta sua nova contextualização formal reconfirmou- me que essa sua arte evolui e se assume, algo inconscientemente, como um colorido, híbrido e penetrante sonho, cuja pulsão em breves e fugazes instantes nos transporta do primeiro lustro do presente século até à década de setenta do século anterior, numa incorpórea e dualística caminhada, com tanto de musical como de poético, razão do reajustamento semântico que tornei título deste texto, a partir da intitulação de um convincente poema incluído num livro de Nuno Júdice, cuja memória me (re)transporta também ao imaginário de uma década cujo fulgor me é constantemente reavivado pela sensibilizante arte musical de um Samuel Jerónimo cuja música não deixa de ser uma música do futuro e de futuro. A sua evolução puramente criativa para esta sedutora instalação audiovisual é apenas a confirmação de que esse mesmo futuro fica mesmo à porta do Samuel Jerónimo...