Queen + Paul Rodgers (Queen ou Smile?)

Queen + Paul Rodgers
Lisboa
Estádio do restelo
2 de Julho 2005
Nascidos a partir dos Smile, uma banda académica que contava com Brian May nas guitarras, Roger Taylor na bateria e John Deacon na guitarra baixo, os Queen tomaram forma com a entrada de Frederick Pluto Bulsara, um miúdo franzino e tímido que havia chegado à poucos anos de Zanzibar, onde o seu pai trabalhava no Ministério de Negócios Estrangeiros Inglês.
Com a sua entrada, completava-se uma das mais estáveis formações do rock, agora já sob a designação pela qual se tornariam conhecidos por todo o mundo.
O som desta nova banda distanciava-se bastante do som praticado pelos Smile.
Há já alguns anos que Brian May procurava alguém cuja voz se pudesse fundir com o som muito particular da sua guitarra, alcunhada de Red Special. Esta havia sido construída por si e pelo seu pai nas horas vagas de ambos e uma vez terminada e amplificada pelo mítico VOX AC 30, possuía um som muito característico.
Freddie Mercury tinha essa tal voz que aliada à sua mestria como compositor de canções e um grande poder de comunicação faziam dele o grande “animal de palco.”
O primeiro álbum, homónimo, veio em 1973. “Queen” era um exercício heavy-metal com umas pitadas de glam-rock (Black Sabbath meets T-Rex?). Possuía o rock favourite “Keep Yourself Alive” e uma versão jurássica de “Seven Seas of Rhye” que viria a ser completada no registo seguinte “Queen II.”
Este segundo registo evidenciava uma banda muito mais madura principalmente ao nível da composição, abraçando a banda cada vez mais o universo glam.
“Queen II” é ainda o álbum no qual a banda se aproximou mais do conceptualismo, ao dividir o registo em dois momentos, sendo que o primeiro era dominado pelo branco (“Procession”; “Father to Son”; White Queen (As it Began)”; “Some Day One Day”; “The Loser in the End”); e o segundo pelo negro (“Ogre Battle”; “The Fairy Feller’s Master-Stroke”; Nevermore”; The March of the Black Queen”; Funny How Love is”; “Seven Seas of Rhye”).
É neste período que Brian May contrai hepatite e temendo pelo seu futuro na banda, decide convencer os seus colegas a desistirem da tour de promoção ao álbum “Queen II”, propondo-lhes a composição e gravação de um novo álbum.
Desta forma o ano de 1974 presencia o nascimento de “Queen II” e de “Sheer Heart Attack.”
Em “Sheer Heart Attack” é evidente a quase omnipresença de Brian May. À porta de entrada está “Brighton Rock” com o seu quase intermezzo composto unicamente por um exercício de guitarra, onde Brian joga com as funcionalidades do “delay”. O guitarrista viria mais tarde a aprofundar este exercício em “Brighton Rock Solo”, presente no duplo álbum registado ao vivo “Live at Wembley’86” e numa apresentação da EXPO’ 92 em Sevilha, onde se fez acompanhar por, entre outros, Steve Vai (Frank Zappa), Cozy Powell (Rainbow, Black Sabbath, Emerson Lake & Powell) e Rick Wakeman (The Strawbs, Yes).
Mas “Sheer Heart Attack” era muito mais…
Possuía o primeiro grande sucesso da banda, numa altura em que a Trident tinha algumas dificuldades em distribuir lucros, como May viria a confessar alguns anos mais tarde.
“Killer Queen” fez furor nos tops do Reino Unido, Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, E.U.A., Holanda e Japão e foi como que um adoçar de boca para o que aí viria a seguir…
“A Night at the Opera” apanhou o mundo de surpresa. A liderar o colossal sucesso do álbum estava o emblemático tema “Bohemian Rhapsody”, cujo single teve em risco de não ser editado devido à sua duração de quase 6 minutos.
Mas estávamos nos anos 70. Eram os tempos primorosos da fusão por parte de Miles Davis ou dos Weather Report e do rock progressivo dos Genesis, King Crimson, Jethro Tull, Van der Graaf Generator ou dos Yes, cujas peças alcançavam facilmente os 20 minutos, pelo que os tímidos 6 minutos de “Bohemian Rhapsody” lá se conseguiram estabelecer por conta própria no formato single.
Impunha-se agora a difícil pergunta. Como dar seguimento a “The Night at the Opera”?
Os Queen responderam com “A Day at the Races” continuando desta forma a sua trilogia, inacabada até hoje, dos irmãos Marx.
Datado de 1976, “A Day at the Races” é talvez o mais menosprezado álbum da banda, assombrado que está pelo seu irmão mais velho. A principal razão desta passagem em branco é o facto de o mesmo ser visto como um sucedâneo de “A Night at the Opera.”
É verdade que o nome e capa do álbum “A Day at the Races” pressupõem um seguimento lógico perante o álbum anterior e que o tema “Somebody to Love” se poderia descrever como uma versão gospel de “Bohemian Rhapsody”, mas “A Day at the Races”, sendo claramente um follow up “seguro”, é também um álbum que apresenta uma maior coesão nos seus conteúdos e onde se sente uma maior paridade nas contribuições feitas pelos elementos da banda.
E ouvi, vinda do templo, uma grande voz, que dizia aos sete anjos: Ide, e derramai sobre a terra as sete salvas da ira de Deus.
Estamos em 1976 e no Reino Unido impera o movimento punk, cuja importância reside não tanto no movimento em si, mas nas ramificações que irá gerar, restituindo os formatos mais simples às tabelas e dando uma valente machadada a alguns dos grandes nomes de finais dos anos 60 e princípios dos anos 70, cuja música estava já longe dos seus tempos primorosos.
Em Dezembro de 1976, o programa da B.B.C. “Today”, substitui à última da hora uma reportagem sobre os Queen, por uma outra sobre os Sex Pistols.
Mercury encontra-se algum tempo mais tarde com Sid Vicious. Este pergunta-lhe como vão as aulas de ballet, ao que Mercury lhe responde: “Ah, Mister Ferocious, as minhas aulas de ballet vão bem e as suas de música?”
Mas as “aulas de ballet” estavam longe de ir bem. A qualidade dos álbuns ia decrescendo ao mesmo ritmo que a popularidade ia crescendo.
A orgulhosa inscrição “No Synths!” foi abandonada a partir do álbum “News of the World”, tendo esses mesmos sintetizadores ganho terreno de edição em edição, até atingirem o seu máximo “esplendor” no horrífico álbum de 1982, “Hot Space.”
E em ti não se ouviu não se ouvirá mais a voz de harpistas, e de músicos, e de flautistas, e de trombeteiros, e nenhum artífice de arte alguma se achará mais em ti.
Em Novembro de 1991, Mercury vem a público confessar o seu estado de enfermidade, que até aí havia sido apenas matéria de tablóides baseada na sua crescente debilitação física e estado de reclusão a que o músico se havia obrigado a partir de meados dos anos 80.
No dia seguinte, 24 de Novembro, Mercury morre deixando um legado de quase 20 anos de trabalho.
Brian May, Roger Taylor e John Deacon decidem não dar seguimento à banda, embora May e Taylor tenham ficado um pouco balançados após o sucesso mundial do tributo a Freddie Mercury.
O fim seria “Made in Heaven”, álbum feito com a perícia e paciência de um ourives, no qual foi incluído algum do material que Mercury havia deixado inacabado (“Let me Live”), reaproveitadas algumas faixas gravadas a solo por Mercury (“Made in Heaven” e “I Was Born to Love You”, ambas incluídas no álbum “Mr. Bad Guy”) e de outras gravadas por Brian May (“Too Much Love Will Kill You”, original do álbum “Back to the Light”) e por Roger Taylor (“Heaven for Everyone” do seu side-project Cross).
“Made in Heaven” como álbum é melhor percebido como um último testemunho de Mercury, seguindo de perto as ideias evidenciadas em “Was It All Worth It”, presente no álbum de 1989 “The Miracle” e “The Show Must Go On”, faixa incluída em “Innuendo” de 1991.
E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.
A morte de Freddie Mercury provocou uma ainda maior apetência por parte do mercado em relação à sua música e à música dos Queen.
Instaura-se o processo de memorabilia. A banda havia já editado os dois primeiros volumes de êxitos, que representam fielmente os períodos dos quais são embaixadores.
Em 1992 é editado o espectáculo ao vivo que a banda deu em 1986 no mítico – e infelizmente já desaparecido – Estádio do Wembley, no qual a banda bateu, ao longo de duas noites (11 e 12 de Julho de 1986), todos os recordes de venda de bilhetes com o bonito número de 300 000 bilhetes vendidos.
O álbum póstumo “Made in Heaven” é editado três anos mais tarde, sendo seguido em 1997 por “Queen Rocks”, uma compilação que continha as faixas mais “ásperas” da banda e o inédito “No One but You (Only The Good Die Young) ”.
Em 1999 sai o terceiro volume de êxitos, amplamente criticado pela sua falta razoabilidade. Será que em 30 de carreira a banda ainda não havia aprendido que faixas “desconhecidas” e versões feitas por outros artistas de temas seus, não eram material para um “Greatest Hits?”
Por esta ordem de ideias seriam muito mais proveitosas, as versões de “Stone Gold Crazy” pelos Metallica e de “Get Down Make Love” pelos Nine Inch Nails…
Felizmente o Vanilla Ice faltou à festa…
Depois de “Queen On Fire: Live at the Bowl”, editado o ano passado, começaram a surgir rumores de que uma reunião estaria eminente.
2005 vê o regresso aos palcos da banda (sem John Deacon que desde logo se mostrou contra à ideia de assumir um novo formato sem Mercury), tendo como vocalista Paul Rodgers (Free, Bad Company).
Chegou ontem, dia 2 de Julho, a vez de Portugal poder assistir a um concerto de Queen, e ainda que estivesse algo reticente quanto a esta nova formação, a experiência de palco, o grande sentido de dinâmica de espectáculo e a alegria contagiante dos músicos que muito bem foram tratados pela assistência, levou a uma mudança radical da minha opinião perante este novo formato.
A noite começou muito bem com “Tie Your Mother Down” (“A Day At The Races” – 1976). Era a prova de fogo para Paul Rodgers e o cantor sabia disso. Sabia ainda que seria impossível fazer frente à figura de Mercury pelo que assumiu, e muito bem, a sua própria figura, cuja carreira, embora menos visível do que a dos Queen, teve os seus momentos altos ao longo dos anos 70 e 80.
Por lá passaram ainda, retirados do álbum “A Night At The Opera” (1975), “I’m In Love With My Car”, “39”, “Love of My Life” e uma versão meio estúdio, meio “live” – será possível a alguém cantar isto com a mesma intensidade de Mercury – de “Bohemian Rhapsody”; de “Jazz” (1979), “Fat Bottomed Girls”; do álbum “The Game” (1980), “Another One Bites The Dust”, “Crazy Little Thing Called Love”; de “The Works” (1984), “Hammer to Fall”, “I Want To Break Free” e “Radio Ga Ga”; de “A Kind Of Magic” (1986), “A Kind Of Magic”, de “The Miracle” (1989), “I Want It All”; de “Innuendo” (1991), “These Are The Days of Our Lives” e, por parte de Paul Rodgers, “Can’t Get Enough”, tema retirado do álbum de estreia homónimo dos Bad Company, editado pela Swan Song - editora formada pelos Led Zeppelin - em 1974.
Pelo meio houve ainda tempo para vários momentos a solo, sendo de destaque obrigatório o momento em que Brian May – esse guitarrista inspirado e inspirador – tocou uma versão algo improvisada do seu “Brighton Rock Solo”, enquanto encenava, através dos écrans gigantes, a sua actuação no aniversário da Rainha Isabel II, onde deu início às festividades no topo do palácio de Buckingham.
May estava inspirado e fez de forma brilhante a transição de “Brighton Rock Solo” para “Lost Horizon”, tema retirado do seu álbum de estreia a solo “Back to the Light” (1992).
Para o encore estavam guardados “The Show Must Go On”; “All Right Now” dos Free; “We Will Rock You”; “We Are The Champions” e “God Save The Queen.”
No final era visível a satisfação de todos os que tinham tomado parte daquela grande festa. A banda, incluindo os músicos de suporte, tinha rejuvenescido perante tantas atenções por parte da assistência, que pulou, dançou e está hoje, certamente, afónica.
Após o concerto fica a pergunta. Será que estes novos Queen são capazes de continuar com o legado de forma convincente, o que inclui um retorno às gravações e ao processo criativo, ou será que sem Mercury, voltaram a ser apenas os Smile?




































































































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