Novembro 30, 2004
348. Patinhos arqueológicos III

1CHILDE, V. Gordon (1950), «Algumas analogias das cerâmicas pré-históricas britânicas com as portuguesas», Revista de Guimarães, 60 (1-2). Guimarães, p. 5-16.
Novembro 29, 2004
347. Patinhos arqueológicos II
O professor Jorge de Alarcão relembrou-me no debate que se seguiu, que a temática não é exclusiva da Meseta, como expus, mas que se encontra também representada na cultura castreja do NO peninsular e que existem até produções conhecidas, por exemplo, na Cornualha britânica.
Nas minhas pesquisas consequentes descobri, por coincidência, um velho artigo de Gordon Childe1 (1950), onde são apresentados exemplares de cerâmica decorada com patinhos da região da Cornualha, nomeadamente de Chun Castle (local representado na imagem).

Jorge de Alarcão reflectiu igualmente, nessa interpolação, sobre as dificuldades na classificação da espécie animal que os palmípedes decorativos representam: se patos, se cisnes ou gansos. Segundo este investigador, o mais natural é que fosse a espécie existente no lugar onde foi produzida a cerâmica decorada. Comentei-lhe, como hipótese, que a presença destes palmípedes decorativos em regiões tão distantes revela não só uma tradição cultural comum, de raiz indo-europeia, mas poderia dever-se também ao facto da sua simbologia estar intimamente associada ao movimento migratório destas aves, que marcaria o início de cada novo período solar anual (ideia que desenvolvi no post n.º 301).
Agora pergunto: Não coincidirão as áreas de concentração dos ornitomorfos cerâmicos com o possível traçado da rota migratória destas aves? Esta é a interrogação que merece futura análise, nomeadamente o estudo das migrações dos palmípedes europeus.
1CHILDE, V. Gordon (1950), «Algumas analogias das cerâmicas pré-históricas britânicas com as portuguesas», Revista de Guimarães, 60 (1-2). Guimarães, p. 5-16.
Novembro 25, 2004
346. A Rua das Bocas.
Esculpindo seres antropomórficos com o fim de servirem de goteiras de água da cobertura, o artista decidiu abrir-lhes a boca, para lhe dar maior expressividade à sua função arquitectónica. Tal realismo não terá deixado as pessoas indiferentes e com o tempo o fenómeno deu nome ao arruamento urbano.


345. Colunas dóricas.

Uma perspectiva da arquitectura clássica por M. C. Escher.
Novembro 23, 2004
344. José Alcino Tomé: o último artista rupestre do Vale do Côa.

Quando em 1995 se falou em impedir a construção da barragem de Foz Côa e em proteger as gravuras rupestres, logo houve algumas vozes que vieram derrubar demagogicamente os estudos e as afirmações científicas proferidas pelos arqueólogos na defesa deste património. A ideia que se tentou espalhar, contribuindo para o intenso ruído gerado em volta da decisão controversa, era que aquelas gravuras tinham apenas algumas dezenas de anos e tinham sido produzidas por moleiros.
A verdade é que o facto foi distorcido e exagerado para dissimular a realidade. Efectivamente, a par dos vários ciclos artísticos rupestres pré e proto-históricos existentes, conhecem-se também alguns desenhos recentes concebidos por um dos últimos artistas do Côa – o Sr. José Alcino Tomé, que o meu amigo Luís Luís teve ainda a felicidade de entrevistar (antes de falecer) e trazer até nós num fabuloso artigo de etnoarqueologia(1).
Nesse texto são narrados os devaneios artísticos da adolescência do Sr. Alcino Tomé, enquanto trabalhava num moinho na Canada do Inferno, entre 1943-1946. A sua produção artística conhecida resume-se a 5 painéis em diferentes rochas, cujo repertório abrange os zoomorfos (peixes e aves), as representações astronómicas (sol e lua), objectos religiosos (custódias – como na foto do último post) e meios de transporte (veleiros e comboios a vapor) – elementos habituais da sua vivência quotidiana, sempre assinados e datados para a posteridade.
Na entrevista mantida com o moderno gravador, o arqueólogo ficou a saber interessantes pormenores sobre o processo artístico:
a) Os critérios de selecção das rochas: «Porque eram as mais lisas ou viam-se melhor»;
b) As técnicas de gravação: «Com uma pedrinha fininha “desenhava” ou “riscava” (…) por cima do risco (…) “afundava” ou “picava”», com o pico de moleiro.
c) A inspiração temática: «Era o que me vinha à ideia» e «eram ideias, imaginações»;
d) As motivações para a criação artística: «As horas vagas» ou «via lá aquelas antigas e depois entusiasmei-me». «Lembrei-me dos antigos e: Deixa-me cá desenhar, que quando morrer há-de cá ficar também gravado».
Tinha razão o Sr. Alcino Tomé, pois os arqueólogos, da mesma forma que lidaram com a arte pré-histórica, puderam perpetuar o seu humilde e genuíno trabalho.
Mais um que conquistou a imortalidade!
(1). DIEZ, Marcos García; LUÍS, Luís (2002-2003) – José Alcino Tomé e o último ciclo artístico rupestre do vale do Côa: um caso de etnoarqueologia. Estudos Pré-históricos. Viseu. 10-11, p. 199-223.
343. Também há gravuras do século XX no Vale do Côa.
Novembro 22, 2004
342. Um blog pouco 'académico'.
Destaco, da simpática análise feita a este blog, a ideia de que a minha linha editorial é pouco “académica”.
É verdade. Apesar disso poder ser pouco abonatório para um «blogue específico», é mesmo propositado. Não posso dar o que não tenho e não presumo aquilo que não sou. As linhas condutoras desta publicação têm sido frequentemente reavaliadas, mas as coordenadas são as mesmas desde a sua fundação: a arqueologia apresentada a todos de forma simples e divertida. Não pretendi ter um discurso demasiado técnico, nem escrevo da mesma forma que nos artigos ou nos relatórios científicos. O Arqueoblogo serve para descomprimir, sem sair da linha de trabalho.
Por outro lado, apenas partilho as reflexões e o prazer que o meu trabalho me proporciona. Não pretendo alargar-me para além do tema, nem procuro desabafar ou usar as teclas para expor outras convicções pessoais. Não desejo expressar-me demasiado sobre o que penso da política e da sociedade. Apesar de ser tentador dizer tanta coisa…
Se existe alguma motivação forte para manter este espaço ainda vivo, é a necessidade de ultrapassar a grande distância física que me separa do meio, de colmatar as dificuldades de trabalhar no interior, de esclarecer até algumas dúvidas científicas com eventuais colegas, de comunicar, de sentir a vossa presença do lado de lá e de estar mais perto dos amigos (mesmo daqueles que são tímidos e muito silenciosos).
Novembro 18, 2004
341. Arqueólogos de cãs e barbas compridas.
Mas o que me interessa agora relembrar é o dia em que os escuteiros chegaram, por primeira vez, à estação arqueológica, com o seu chefe de grupo (velho, contrariado e retrógrado).
Nunca me esquecerei do seu espanto e surpresa ao ver-me. Dos seus olhos fitando-me, atentos aos meus gestos e às minhas primeiras explicações.
Pouco depois surgiu o primeiro convite, do mais afoito, para ir petiscar qualquer coisa na sua farta provisão alimentar.
Um dia confessaram-me: «Estávamos à espera dum arqueólogo velhote, de cabelos brancos, oculinhos graduados e com barba crescida e depois vimos o Marcos e não era nada do que estávamos à espera…»
340. Mais arqueologia na Blogosfera.
Ainda por cima, desta vez, o blog tem um toque feminino. Assina MJ. Não a conheço, mas vou passar a ler as suas palavras a diário. Promete qualidade.
Novembro 17, 2004
339. Pormenores de Portugal.

Quem é esta personagem e em que cidade foi tirada a foto?
Novembro 16, 2004
338. Primeiro o ICN, a seguir o IPA?
Noticiava o Jornal Público de Domingo que o orçamento para 2005, relativo ao IPA, tinha sido reduzido em cerca de 14,9 por cento (apesar do orçamento geral do MC ter sido aumentado 4,3 por cento, relativamente ao ano anterior). Trata-se efectivamente do Instituto mais penalizado na política cultural do Governo para o próximo ano.
Os que viram os seus orçamentos incrementados foram o Instituto de Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB), o Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), o Instituto das Artes (IA) e o Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT).
Porquê estas diferenças? Pensem por vocês.
Se juntarmos a isto as últimas declarações e ‘pressões’ do Bastonário da Ordem dos Engenheiros, publicadas em outro diário, verificamos que maus ventos sopram para a Arqueologia nacional, tal como tem vindo a suceder com o ICN. Por isso comentava Fernando Real, Director do IPA, que: «Sem reforço no funcionamento, o IPA pára a meio do ano (…) Como é que vamos fazer para pagar combustíveis, comunicações, manutenção?».
Costumo dizer que os arqueólogos têm muitas semelhanças com os biólogos, na postura dedicada “às causas perdidas”, na luta contra a insensibilidade da maior parte da população (e sobretudo dos políticos) e na importância renegada das suas áreas de investigação. Felizmente para nós, a Arqueologia andava, nos últimos anos, alguns patamares acima da Preservação da Natureza.
Sou solidário com o trabalho dos nossos colegas da Natureza e tenho amigos neste meio. Ainda me recordo de ter acompanhado o trabalho de alguns deles no Parque Natural de Montesinho e ter tido o privilégio de realizar uma inesquecível farolada nocturna para detecção de animais selvagens, há muitos anos atrás; recordo-me também das actividades arqueológicas que desenvolvi em conjunto com a técnica de educação ambiental da Reserva da Malcata.
Mas também vi como estas instituições, e outras, entraram em profunda decadência. São hoje uma verdadeira vergonha nacional - sem dinheiro para gasóleo, com carros avariados, com telefones cortados e com máquinas fotocopiadoras sem papel.
Não sei o que sucederá ao IPA no futuro. Espero que este panorama desolador da Natureza não se repita na preservação patrimonial, mas começam-se a ouvir alguns ecos de instabilidade. Como poderão agora os arqueólogos das extensões regionais assegurar a fiscalização das obras públicas, efectuar contactos com os respectivos arqueólogos, exigir-lhes determinados procedimentos e realizar as visitas constantes ao terreno?
Novembro 14, 2004
337. As armas das gravuras proto-históricas do Côa.

Para quem esteve atento ao post sobre as gravuras proto-históricas do Côa (n.º 331), encontrei agora uma foto no site do Departamento de História Antiga da Universidade de Navarra, com algumas das armas aí representadas. Trata-se de uma falcata e de três pontas de lança (duas com os respectivos espigões).
Novembro 13, 2004
336. Eu já manuscrevi.

Naquele scriptoria estavam vários copistas empreendendo a sua incumbência voluntária em silêncio, que me fizeram lembrar a longa e dedicada tarefa dos primitivos copistas responsáveis pelas sucessivas cópias que este livro teve ao longo dos tempos. Até que Gutemberg inventou um mecanismo, que se estreou, exactamente, a tipografar o volume bíblico (1440-1450). A partir de aqui, esta obra deixou de estar confinada aos aposentos clericais e difundiu-se pela população, com as benéficas e irremediáveis consequências.
Novembro 10, 2004
335. As surpresas da arqueologia pós-incêndios (Episódio IV: A promessa do madeireiro).
Para aqueles que se têm interessado sobre o desenrolar do salvamento do Dólmen de Sacaparte, direi que não há novidades.
O madeireiro está avisado para não proceder ao corte dos pinheiros sem a nossa presença no local, mesmo prometendo que evitará a danificação do monumento pré-histórico.
Temos que aguardar ainda mais um tempo.

(Próximo episódio: Finalmente cortados!)
Novembro 9, 2004
334. Extractos de leituras IX.
«Aproximámo-nos de uma vivenda de cimento que atravessámos a pé o jardim até à porta das traseiras. Um falo branco empinava-se no meio de um canteiro de malmequeres.
- A tíbia de um dinossauro – disse Casimir Slapelic.
A irmã tinha um rosto curtido indicando uma idade avançada. Pertencia a um exclusivo grupo de senhoras de Sarmiento, as arqueólogas. Não eram bem arqueólogas, mas coleccionadoras de antiguidades. Passavam as cavernas e as margens do lago a pente fino, à procura de relíquias dos caçadores antigos. Cada uma delas tinha uma rede de peões que traziam objectos encontrados nos campos. Os “profissionais” amaldiçoavam-nas, chamando-lhes ladras.
Naquela tarde, a exilada báltica “recebia” uma galesa. A visita examinava os tesouros que a sua desprezível concorrente desembrulhava, mas o seu olhar cobiçoso traía as suas observações condescendentes.
A irmã do Casimir Slapelic sabia como alimentar o ciúme da sua rival. Mostrava-lhe caixas cobertas de veludo preto, onde se encontravam pontas de flecha, cintilantes como jóias, e dispostas de uma maneira que pareciam peixes tropicais. Os seus dedos acariciavam as superfícies facetadas. Havia facas de sílex rosa e verde, pedras de “boleadoras”, um ídolo azul e algumas flechas com penas de águia.»
Na Patagónia, Bruce Chatwin. Quetzal Editores, Lisboa, 2002, p. 105-106.
(por sugestão de DK voltarei mais vezes à carga com o Chatwin)
333. Lusitana júnior II.
Novembro 8, 2004
332. A Arqueologia na Filatelia X

A valorização e a protecção das pinturas rupestres que os aborígenes perpetuaram nas rochas, ao ar-livre ou nas grutas, é uma questão nacional australiana. Neste caso, a sua cronologia é muito mais recente, tratando-se de pinturas dos indígenas austrais, cujo nível de desenvolvimento civilizacional, ainda nos inícios do século XX, se assemelhava, sobretudo em aspectos artísticos, ao do Homem pré e proto-histórico dos antípodas. O estudo aprofundado e a interpretação destas representações plásticas mais recentes, que se reporta sobretudo à etno-arqueologia, permitem compreender as motivações da própria arte pré-histórica europeia.
Nesta estampilha apenas percebemos que se tratam de pinturas parietais aborígenes descobertas no interior de uma gruta (dado que a legenda do selo é muito lacónica). Não sabemos em que região concreta se encontram, nem a sua cronologia, mas pelo tipo de elementos figurados trata-se de uma manifestação artística bastante elaborada, podendo encontrar paralelos, por cá, exactamente nas representações da Idade do Bronze e da Idade do Ferro.
Observam-se cinco figuras humanas (três homens com a cabeça coberta e duas mulheres de cabeça despida e peito nu), segurando armas ou instrumentos musicais; e um sexto indivíduo, de maiores proporções, vestido com vestes rituais – talvez se trate dum feiticeiro. Estamos perante a representação de qualquer cerimónia simbólica ou religiosa.
Os territórios aborígenes dispunham de centenas de balizas fronteiriças, assinaladas por árvores isoladas ou por rochedos elevados, onde pontualmente eram gravadas representações pictóricas deste tipo. Só os anciões da tribo conheciam a sua exacta localização e o significado destas pinturas.
Elas descrevem ritos de culto aos ancestrais mitológicos, associados à flora e à fauna do ambiente envolvente, mas também podem relatar diversos acontecimentos lendários dos antepassados, personificados por seres mitológicos, meio ancestrais e meio omnipresentes invisivelmente. Os antropólogos definem estas sessões de pintura aborígene como uma forma de conectar o passado ancestral da tribo, com a vivência presente; e o garante da preservação do ambiente natural envolvente, actuando como uma forma de regulamentar socialmente as novas gerações e de determinar os papéis comunitários de cada um.
Novembro 5, 2004
331. O Parque Arqueológico do Vale do Côa não tem só gravuras pré-históricas!
Nem todos saberão que no Parque do Côa existem também gravuras datadas do I milénio a.C. Na verdade, os Lusitanos - esses nossos antepassados tão lembrados (e tão desconhecidos), também deixaram lá a sua assinatura.
Se existe alguma forma de arte lusitana, por assim dizer, ela foi imortalizada exactamente aqui. Não tendo sido detectada ainda qualquer manifestação artística em escultura ou em joalharia, e não se conhecendo sequer um conjunto de motivos decorativos na cerâmica, típicos deste povo, apenas nos restam as gravuras do Côa, produzidas pelos homens que habitavam a região onde viviam exactamente os populi lusitanos.

(in Europreart)
São essencialmente representações antropomórficas e zoomórficas, como António Martinho explicou, sobretudo cavalos e cavaleiros armados com as mesmas armas patentes na moeda do post n.º 321: o escudo, a falcata e sobretudo a lança.
Estas gravuras concentram-se, curiosamente, na parte final do rio Côa, junto à foz no Douro - facto que tem levado os investigadores a interrogarem-se sobre as motivações que terão levado estes homens a escolher este território mais setentrional. Seriam marcações fronteiriças desta comunidade?
Esta é uma questão que só o prolongamento da investigação centrada neste período cronológico poderá desvendar.
Novembro 4, 2004
330. Lusitano júnior
Novembro 3, 2004
329. Recessão blogosférica.
Menos visitas e menos comentários em quase todos e sobretudo neste.
Blogs que fecham ou esmorecem a produtividade.
O universo dos blogs estará em crise?
O Arqueoblogo está em queda de cotação?
Ideias para eu reflectir.

