Julho 20, 2005

O poeta e a estátua 

Porque razão haveria o poeta Manuel Alegre impedir que lhe fizessem uma estátua em Coimbra. Afinal, já existe uma, aqui. É horrorosa. Como todas as outras, aliás. Mas o parque, esquecendo as estátuas, vale a pena visitar. E levar a criançada.

Freitas, "superstar" 

A entrevista de Diogo Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros, ao DN pode explicar-se e reduzir-se a uma dupla negativa: o fundador do CDS não recusa uma candidatura a Belém... Sem o dizer, quer que fique claro que está na grelha de partida do Grande Prémio de Belém. Com Manuel Alegre e Cavaco Silva. PONTO FINAL.

Mesmo as críticas (ou a autocrítica...) quanto à falta de explicação das medidas de austeridade, decretadas pelo Governo de José Sócrates, podem bem ser entendidas como uma tentativa de criar um espaço próprio, por muito que repita estar solidário com Sócrates. Um espaço próprio que Freitas do Amaral já tem, pelo seu percurso e pelas atitudes "independentes" tomadas dentro e fora do Governo socialista de Sócrates.
Especulações? Claro!

O ataque a Cavaco Silva também é um ensaio para um discurso de campanha, apresentando o ex-primeiro-ministro como factor de instabilidade.

O problema, porém, é outro: tanto a direita como a esquerda olham Freitas do Amaral com desconfiança, pelo seu percurso elíptico da direita do CDS para a esquerda (?), que o levou ao Governo do PS. O que complica os sonhos presidenciais do senhor ministro...
É difícil a esquerda esquecer as feridas das lutas políticas dos anos '70 e '80. E o povo de direita dificilmente perdoará Freitas pelos seus desvios de esquerda.

Julho 18, 2005

Liberais e bailarinas 

É claro que o ballet Gulbenkian não é indispensável. Na verdade, seguindo a visão liberal, nada na produção cultural é indispensável. Se o mercadinho não premiou, então que se lixe. O liberalismo, visto assim, é a ideologia do conformismo. Aliás, prova disso, é que nos blogues que se arvoram do liberalismo não se leu uma palavrinha de jeito sobre a matéria. Contrangimento ou indiferença? Inclino-me mais para a segunda hipótese.

Ora acontece que eu sempre vi os liberais deste país besuntarem a Gulbenkian de elogios. Cada vez que se falava da subsídio-dependência estimulada pelo Estado, vinha logo a seguir o grande elogio à fundação do velho arménio como instituição rigorosamente privada, totalmente independente dos dinheiros do Estado (dos “contribuintes”) que era capaz de produzir bens culturais (e científicos) de altíssimo calibre. A Gulbenkian provava a incompetência do Estado. E nem valia a pena tentar argumentar que a fundação tem ao seu dispor meios com que o Estado português nunca sonhou nem poderá sonhar.

Mas agora a Fundação fechou a sua companhia de dança. Os liberais encolhem os ombros: é o mercado e siga a Marinha. Mas se, entretanto, aparece alguém (no caso, Santana Lopes) a dizer que quer resolver o problema, então sim é um ai Jesus, aí vem a malandragem do Estado a querer “distorcer o mercado” metendo a sua imunda patorra onde não é chamado.

Evidentemente, não elogio Santana. A proposta que fez para este problema é – como outras anteriores (Parque Mayer, Túnel do Marques) – nada mais é do que simplesmente megalomana. Orçamentalmente, a CML não tem onde cair morta. Tem – ou deveria ter - milhentas outras prioridades à frente.

Portanto, a solução não é o Estado, admito-o perfeitamente. A solução são os privados. Não faltam neste país instituições riquíssimas para quem o ballet Gulbenkian poderia ser uma agradável peninha no chapéu. Fundações ou grupos bancários ou outros grupos económicos, o que fosse. Se o liberalismo fosse para levar a sério, isto já tinha acontecido.

Mas não. Desgraçamente, até agora nenhum “agente económico” se chegou à frente. Bailarinas sim. Mas só agarradas ao varão.

Governo e o vento 

Agora é que pode dizer-se que o Governo é um cata-vento.

Veja porquê aqui.

Julho 17, 2005

Marcus Vinicius 2 



Para uma antologia mínima, faltava ainda a Tarde em Itapuã, o Samba da Bênção, a Felicidade, o Soneto da Separação, Eu sei que vou te amar, pelo menos. E obviamente o Operário em Construção, transformado hoje em peça obsolescente


Onde anda você

Vinicius de Moraes / Hermano Silva


E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer
E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão

Hoje eu saio
na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você
E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

Marcus Vinicius 


Associo o Glória Fácil às celebrações em curso, embora nem saiba o que pensam disto a f. e o n.s. (quanto ao J.P.H. presumo)



Pela luz dos olhos teus

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar



Julho 15, 2005

O cão que mordeu o telemóvel 

O cão mordeu-me o telemóvel. Fui encontrá-lo (ao telemóvel) escondido num bocado de relva de onde saía o toque "oldphonering", o trrimtriim antigo. Aquilo ainda toca, atende e faz chamadas, mas perdeu uma data de "funcionalidades" - tudo o que precise de ecrã, que agora é azul eléctrico com uma abóbada violeta e uma ligeira estria amarela. Sobra um centímetro normal. O telemóvel, já em razoável mau estado pelas vezes que caiu ao chão, tem agora dentadas caninas muito visíveis junto às teclas.
A questão é que já não posso ler sms. De certa forma, de há 24 horas para cá, tem sido uma delícia tentar decifrar apenas um centímetro de mensagem. "Luz" (ontem ao fim da tarde) "um dia" (meia-hora depois) "Portugal" (hoje de manhã) e "jantar Bairro Alto" (ao meio da tarde). Tentei explicar a alguns interlocutores que não conseguia ler sms, telefonando. Mas a ideia de falar, em vez de escrever, foi em alguns casos razoavelmente aterradora. Não é claro que se escreva no ecrã do telemóvel para poupar dinheiro, em substituição da fala - os adictos sabem que muitas vezes é só para inventar outra coisa qualquer.

O mais divertido era mesmo... 

... se Alberto João Jardim se candidatasse a Presidente da República. E se ganhasse, já imaginaram?
O jornal "Semanário" escreve hoje um longo artigo, espalhado por duas páginas com as imagens de Cavaco Silva e Santana Lopes (outros potenciais candidatos à direita), sobre este cenário digno dos Monty Phyton!

Já imaginaram as primeiras medidas?
A primeira: "Portugal rompe relações com a China".
E a segunda: "Presidente corta relações com o primeiro-ministro e anula audiências da quinta-feira"
ou
"Presidente só comunica com o Governo através de e-mail".

Julho 14, 2005

Pois então hoje que é 14 de Julho tomem lá uma pastilha 

Têm-me chegado às orelhas uns zunzuns queixosos sobre o silêncio deste blogue. Dois ou três zunzuns, para ser mais preciso. Por isso, e porque hoje é 14 de Julho, dia de tomada da pastilha, então tomem lá uma pastilhadas daquelas à antiga, com a devida vénia à agência Lusa. Tomai nota:

Hoje é quinta-feira, 14 de Julho, centésimo nonagésimo quinto (enfim: 195º) dia do ano. Pois que faltam 170 dias para o final de 2005. Este dia é - caso não saibam - dedicado a São Camilo de Léllis e a São Francisco Solano, olá se é.

Nos céus, a Lua atinge o Quarto Crescente. Isto pela 16h20 (falta pouco, não percam, é lindo lindo lindo). O Sol nasceu às 6h23 - hora boa para uma pessoa se deitar. E o ocaso há-de registar-se - se até lá o planeta Terra não explodir - pelas 21h02 (bela hora para o primeiro "gin" pré-jantar)

Pois no porto de Lisboa, a preia-mar verificou-se às 9h12 (nem mais nem menos). Voltará às 21h31 (boa hora para o terceiro "gin" pré-jantar). Quanto à baixa-mar (essa maluca!) foi às 2h42 (mais coisa menos coisa) e às 14h57 (hora a que as pessoas civilizadas tomam a primeira bica do dia).

Caso não saibam, Caranguejo é o signo dos nascidos nesta data. Em 14 de Julho nasceram o (inesquecível) estadista francês Cardeal Mazarino (de 1906), a (misteriosa) sufragista britânica Emmeline Pankhurst (1857), o (belo) artista austríaco Gustav Klimt (1862), a (incrível) arqueóloga britânica Gertrude Bell (1867), o (alucinante) romancista norte-americano Irving Stone (1903), o (insondável) escritor norte-americano de origem polaca Isaac Bashevis Singer (1904), o (fleumático) actor inglês Terry Thomas (1911), o (transsexual)músico norte-americano Woody Guthrie (1912), o (simples) Presidente norte-americano Gerald Ford (1913), o (complicado) cineasta sueco Ingamar Bergman (1918), o (maravilhoso) actor norte-americano Harry Dean Stanton (1926), o espanhol) responsável pela política externa da União Europeia Javier Solana (1942), a (sueca) herdeira do trono da Suécia Victoria (1977).

Nesta data, em 1789 - lembram-se? - os cidadãos parisienses revoltavam-se e tomavam a prisão da Bastilha, libertando os prisioneiros. A Revolução Francesa tomava forma. No ano seguinte, o rei Luís XVI aceitava a Constituição. De então para cá não se fala doutra coisa. Lamentavelmente, o PÚBLICO falhou a notícia. O DN não.

Já em Portugal, neste dia, em 1897, acontecia algo de dimensão histórica muito semelhante: começavam as ligações ferroviárias entre as estações do Juncal e da Régua.

Em 1901, o cirurgião Egas Moniz, que seria Prémio Nobel da Medicina em 1949, concluía o doutoramento. Foi o tipo que inventou uma operação ainda não suficientemente generalizada, a lobotomia (mas o Nobel foi por outra coisa, acho que as radiografias ao cérebro).

Em 1933, eram ilegalizados todos os partidos políticos na Alemanha, à excepção do nacional-socialista nazi, no poder (sem comentários). Coincididência ou não, 33 anos depois, em 1966, começavam no Estádio de Alvalade os III Jogos Luso-brasileiros. E dez anos depois, em 1976, o general Ramalho Eanes prestava juramento como primeiro Presidente da República Portuguesa eleito por sufrágio directo e universal.

Em 1978, Anatoly Scharansky, dirigente do movimento de emigração dos judeus na URSS, era condenado a 13 anos de trabalhos forçados por espionagem anti-soviética (sem comentários). Segundo a Lusa, aconteceram mais um milhão de coisas neste dia.

Hoje, há um ano, Pedro Santana Lopes, primeiro-ministro indigitado, anunciava os titulares das pastas dos Negócios Estrangeiros e das Finanças, no XVI Governo Constitucional (quem foram? esqueci-me, desculpem). No mesmo dia, morria Germano Figueiredo, futebolista que integrara as equipas do Benfica e do Atlético e fora um dos Magriços da Selecção ao Campeonato do Mundo de 1966.

Ora, a propósito deste Mundial - mas um mês e meio antes -, em Luanda, Angola, um certo e determinado cidadão, cuja identidade não revelo (mas que posso tratar genericamente por "pai"), era arrancado ao acompanhamento permanente das "incidências" dos tais Magriços para, muito a contragosto, ir saber como se encontravam o seu primeiro filho, acabadinho de nascer, e a respectiva mãe.

Eh pá isto ainda não é a revolução 

mas lá que tem muita graça tem, isso tem. Experimentem então clicar na bandeirinha inglesa que está ali do lado esquerdo. Vão reparar que resulta numa tradução instantânea do blogue. O resultado, está claro, é pouco mais do que risível (é o problema que falta resolver nestes programas). Mas, por isso mesmo, divertido. E o amigo Bush assim até pode ler isto sem tem de ter o trabalhão de mandar traduzir. O inglês da tradução é quase tão mau quanto o dele.

Quereis agora colocar este brinquedinho nos vossos blogues? Pois então dirigam-se ao meu compadre Rui (quandooblogbatemaisforte.blogspot.com), que foi quem mo disponibilizou. Se ele não ajudar, pois então make him a proposal he can not refuse. Capicce?

Julho 7, 2005

ainda não 

da primeira vez levei quase um dia.

estava na caixa geral de depósitos a falar com o meu gerente de conta e o gajo diz: um avião acertou nas torres gémeas. como? perguntei eu. porquê? acidente? atentado? não se sabe ainda, respondeu ele. ia a meio da rua augusta quando um amigo me ligou a contar do segundo avião. passei o dia de nariz colado ao écran, como toda a gente, a ver as mesmas imagens cem, duzentas, quinhentas vezes, em voyerismo estuporado.

só na manhã seguinte, quando acordei e liguei outra vez a televisão e vi outra vez as torres cair, me encontrei com aquelas imagens, naquelas imagens. só aí aquilo me aconteceu a mim. a mim. ao meu mundo. no meu mapa.

com atocha levou ainda mais tempo. dois meses, mais exactamente. era a segunda vez. parecia menos mentira, mas mais normal. foi preciso ir à estação, fazer do memorial improvisado os passos em volta, ler as cartas de amor dos namorados, dos amantes, das mulheres e dos maridos, dos pais, dos filhos, dos amigos. uma era de uma gata à dona de 17 anos. nunca te esquecerei, dizia a gata. diziam todas o mesmo: nunca te esquecerei. nunca vos esqueceremos.

lá em baixo, descidas as escadas de acesso à gare, os olhos secos no vento de milhares de velas descobriam a mesma promessa. impossível, ao lado a porta das partidas.

quanto mais tempo passa mais mentira nos parece, dizia uma das mensagens.

não sei como está, um ano depois, a estação de atocha. o que aconteceu às mensagens, às velas, aos ursos de peluche, às flores. se quem passa ainda pára. se quem chega ainda abranda a pressa, ainda empurra o nó das lágrimas para longe, para dentro, como quem esconde uma vergonha. a vergonha de só então saber, de só então ter acontecido.

não sei nada de londres.

ainda não me aconteceu. ainda não é verdade.

f.

Julho 6, 2005

Cibergenealogia 

Pus o nome de um familiar no Google. Só para ver no que ia dar. Deu-me não o familiar que eu queria mas o seu avô, que tinha o mesmo nome. E continuei à procura. Dei com uma sessão da Câmara dos Deputados, em 1918, onde se falava dele. Tinha sido demitido de administrador de um concelho pelo governador civil do distrito (Coimbra, no caso) e o povo estava revoltado. Um deputado levou o assunto ao plenário parlamentar. O ministro do Interior explicou a demissão com o facto de o meu parente ter dado uma entrevista a um jornal de que o governador civil não gostou. E prometeu o "inquérito" do costume.

Soube também, nas minhas "pesquisas", que o meu parente era, na sua cidade, um "importante" e "respeitado" maçon (cruzes!). Mas o mais interessante foi o ter percebido que, em 1913, os estudantes da cidade lhe dedicaram uma canção (simpática, por sinal). E que essa canção nasceu de incidentes entre estudantes e polícias que viriam a marcar, durante muitos anos, o dia da Queima das Fitas (27 de Maio).

Enfim, permitam-me que partilhe este orgulho. Mas sobretudo que saliente, nesta (preguiçosa) busca, o papel de um blogue (Cartasportuguesas.blogspot.com) e, ainda mais, o "site" do Parlamento. Se repararem bem, estão lá transcritos (debates.parlamento.pt) todos os debates parlamentares desde a Monarquia Constitucional. Ora isto é um trabalho de um valor documental único, incalculável. Isto sim, é das tais coisas que faz pelo progresso do país. Mas, que eu saiba, ainda não vi nenhum dos seus responsáveis ser medalhado pelo sr. Presidente. Para isso os critérios são outros: aparecer muito na "Caras", por exemplo. Ou promover debates televisivos chatos como a potassa.

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