21.7.05
A ESCOLHA
Entre duas nulidades pomposas e politicamente débeis - Manuel Pinho e Mário Lino -, e uma criatura séria, mas politicamente desapoiada e imatura - Campos e Cunha-, Sócrates não hesitou. A não ser no Parlamento, nunca vimos o primeiro-ministro "ao lado" do ex-ministro das Finanças. Pelo contrário, quando houve cheiro e anúncios de (falsos) milhões, Sócrates nunca faltou aos espectáculos. O betão e os nababos do "poder" local estão de parabéns. Teixeira dos Santos, que, por mero acaso, estava logo ali à mão de semear, já garantiu a OTA. Por mais que Sócrates e o novo ministro tenham rapidamente "garantido" a continuação do "rigor", não é preciso meter explicador para entender como é que as coisas se vão passar daqui em diante. A retórica opaca de Pinho e Lino serve perfeitamente para os estrados dos comícios autárquicos. O "rigor" rapidamente passará de moda e ninguém vai quer ouvir falar mais de impostos. Campos e Cunha, sobretudo depois do artigo do Público e de uma presença cansada numa Comissão parlamentar, traçou para si próprio um destino bem longe da Praça do Comércio. Nem sei mesmo se se sentia bem acompanhado pelos seus ambiciosos secretários de Estado, gestores cuidadosos de "agendas" próprias e muito bem "pilotadas", tantas vezes à distância. Será curioso verificar quais é que permanecem com Teixeira dos Santos ou quais são os que se "solidarizam" com o primeiro que os escolheu ou aceitou. Voltamos, pois, ao velho problema da credibilidade. Desde há três anos que o país é governado por amadores. O que tem um preço inelutável. Apesar da rapidez com que Sócrates "resolveu" o episódio - uma vez mais dando consistência ao murmúrio de que tudo não passa de uma boa gestão das "questões de forma" -, abre-se inequivocamente um novo e preocupante "ciclo" em apenas cinco meses de nova "situação". O recurso a um "camarada" confiável, como Teixeira dos Santos, independentemente dos seus maravilhosos atributos técnicos e académicos (os jornais da "especialidade" já se babaram), tranquiliza muita gente que não devia sentir-se tranquila. Não julguem Sócrates e o PS que, com a remoção de Campos e Cunha, o "ciclo" eleitoral surge mais animador. Não surge. Os portugueses, mesmo distraídos e em férias, de vez em quando "intervalam" no seu torpor cívico. Campos e Cunha, que não percebia nada de "política", foi sacrificado por ela. Mas não o foi seguramente pela "melhor".
Adenda: Como Campos e Cunha partiu, posso revelar que, em Março, pouco depois da sua posse, pôs-se a hipótese de eu ir integrar o seu gabinete. As pessoas que amavelmente se lembraram de mim (coitadas) devem ter explicado a quem "de direito" quem eu era e o que tinha feito. Como o senhor não me conhecia de lado nenhum, deve ter legitimamente perguntado a quem me conhecia quem eu era. Esses anónimos que eu não sei quem são mas que, pelos vistos, me "conhecem", fizeram chegar a mensagem que eu era demasiado "complicado". Tive pena de nunca ter podido explicar a Campos e Cunha a minha "complicação". Talvez ele perceba agora que, se calhar, a "complicação" já lá estava. E se calhar para lhe sobreviver, como sobrevivem todos os bons e espertos "descomplicados" deste mundo.
INCÚRIA
Depois de Figueiredo Lopes e de Daniel Sanches, cuja habilidade política em lidar com a temática dos incêndios deverá ficar registada dos anais adequados, estou em crer que António Costa também não está para se maçar em demasia. Por causa dos fogos e da seca, o segundo semestre vai ser de profunda agrura para muitas regiões do interior e, eventualmente, para todo o país. Esta causa é tão ou mais "política" do que andar ao colo com gente que não merece. A médio e a longo prazo toda a incúria se paga. Todinha.
20.7.05
O PUSILÂNIME
Salvo erro, por ocasião das eleições legislativas de 1991, Freitas do Amaral deu uma preciosa entrevista ao Expresso. Era, de novo, líder do CDS e prometia "equidistância" face ao PS e ao PSD. Sabe-se o que aconteceu. Cavaco repetiu a maioria absoluta e Freitas viu o seu partido reduzido a uns reles quatro por cento. Anos volvidos, depois do deserto e de outras humilhações, Freitas, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, dá nova entrevista. Trata-se - não sei se ele se apercebeu disso - de uma nova humilhação. Mais patética - por causa da idade e da "experiência" - mas na mesma linha pusilânime que é a sua maior característica. Por ser quem é, trata-se de uma caso (grave) de pusilanimidade de Estado. Freitas sonha em ser o candidato presidencial das esquerdas, já que não pode ser o das direitas. Isso impele-o a dizer as baboseiras mais extravagantes em nome dessa sublime ambição. Por outro lado, como nunca sabe bem qual é o seu lugar em lado nenhum, "adoça" a boca de Sócrates e do PS com uma convesa sonsa e paternalista sobre "comunicação" e "impostos", manifestando-se muito "solidário" com tudo e todos. Imagino a alegria que deve reinar no Rato com estes "conselhos". Freitas foi MNE noutra encarnação, quando não havia União Europeia, e é quase como um bimbo poliglota que manifesta as suas posições em matéria externa. A parte tragico-cómica da entrevista é, porém, a que concerne às presidenciais. Como o melhor representante da "ala soarista" do governo, Freitas pronuncia-se como se fosse Mário Soares a falar. O novo "frentismo/freitismo", contra o chamado "salvador" da "direita", tem nesta entrevista miserável o seu acmê ideológico. Não é por acaso que, ontem, a pretexto dos trinta anos da manifestação da Alameda, Soares meteu esse "passado" na gaveta, e lembrou - jamais inocentemente - que agora o que é preciso é lutar contra o "perigo" de "sentido contrário". Não sei se os "ideológos" do PS já deram por isso, mas este género de contributos só serve para baralhar ainda mais as contradições do partido em torno das presidenciais. E não ajuda nada ao desempenho, desde já bastante atribulado, do governo. Freitas do Amaral não me surpreende. Da mesma forma que aqui o defendi quando apoiou o PS em Fevereiro - contra os ataques idiotas da "direita" a que ele cerebralmente nunca deixou de pertencer -, logo ali avisei acerca da sua irresistível atracção pela pusilanimidade política. Ele chama-lhe "centrismo", coitado, e há quem , por caridade ou oportunismo, finja que acredita. É o caso do dr. Soares que jamais brinca em serviço. Depois deste episódio grotesco, só posso aconselhar o Prof. Cavaco Silva a permanecer em silêncio até ao momento extremo em que já não haja mais circo deste para oferecer aos distraídos. E, depois, sim, que apareça. E nos "salve" definitivamente "disto".
17.7.05
O AZUL
1. Pela primeira vez na minha vida, experimento um "café internet". E cedo aos Jaquinzinhos. Gosto do peixe - não como outra coisa -, contemplo o mar - não quero outra coisa -, reparo, embrutecido, nas pessoas ao meu lado - são inexplicavelmente sempre a mesma coisa - e leio uma boa surpresa de setecentas páginas, bem traduzidas por Pedro Serras Pereira, chamada "A história secreta", de Donna Tartt (penso que é assim que ela se chama), muito curiosamente referenciado pelos nossos "jornalistas culturais". O calhamaço jazia lá em casa e eu ainda não tinha dado por ele.
2. Acontece que também leio jornais e vejo (alguma) televisão. A supressão do Ballet Gulbenkian pela "culta" e esfíngica Teresa Patrício Gouveia, com a conivência dos não menos "cultos" Vieira Nery, Pereira Leal e Rui Vilar, releva como acto de "gestão", prático e desembaraçado, como convém aos dias de hoje. Eu não falo pelos outros e muito menos pelos que andaram a pavonear-se pelos jardins da Gulbenkian ou a exibir "petições" infantis. Falo apenas por mim, por ter sido privado de mais uma coisa de que gostava.
3. Soube do desaparecimento de Piero Cappucilli, um dos maiores barítonos verdianos da sua geração. Tive a ventura de o ver e escutar num São Carlos de 1983, num tempo em que ele - o teatro- era manifestamente vivo. Era então presidente do Teatro o dr. Serra Formigal, porventura o último director que o Teatro teve. Nessa altura, a maior parte dos analfabetos que perora agora nos jornais sobre "crítica musical", pura e simplesmente não existia. Cappucilli ofereceu-me, numa récita inesperada de "Um Baile de Máscaras" em que não houve greve, uma versão inesquecível, ao lado de um Carlo Bergonzi em permanente fim de carreira. Estávamos, pois, todos vivos. Até o Teatro - ao que parece, transformado num restaurante com plateia e camarotes para papalvos absorverem - também era, imagine-se.
4. Carrilho continua a sua caminhada imparável para o desastre. Eu só posso lamentar. Com uma lista de putativos vereadores assaz medíocre - li qualquer coisa que o seu "número dois" disse contra Carmona e fiquei esclarecido sobre a natureza do ilustre desconhecido -, com o dr. Coelho a "puxar" pela esposa do candidato, com a "factura" apresentada pelos apoios errados e oportunistas, e o mais que há-de por aí aparecer, espero o pior. É pena. Há mais de um ano, quando a aventura solitária de Carrilho prometia e muitos dele desconfiavam, fui dos primeiros a testemunhar-lhe apoio. Estou completamente à vontade, por isso, para o ir zurzindo sempre que achar conveniente. Para que não digam que ninguém avisou.
5. Vejo, sem alegria, mas com ironia, que o país oficial continua a afundar-se mansamente. Quando reparei no "elenco" do Conselho de Estado reunido no final da semana para tratar da Europa - que certamente não deixou de "reparar" em nós e na nossa maravilhosa "opinião"(o comunicado do PR é uma pérola) -, percebi tudo. Até o dr. Campos Cunha não quis ficar atrás e escreveu um pequeno texto a prometer-nos mais privações em 2006. Para não falar na "nata" banqueira, sempre tão querida da nossa "opinião" editorialista, na versão Ulrich. O cavalheiro pretende redimir a pátria cortando 10% nos salários de toda a gente e privar-nos de gozar o que de melhor ainda temos, o mar. Se eu fosse o Luíz Pacheco, respondia-lhe.
6. Finalmente, e mesmo antes de se declarar candidato, Manuel Alegre já tem garantida a sua estátua em Coimbra. Tudo indica que Sócrates o vai "engolir", a ele e a toda aquela magnífica retórica anti-fascista e "combatente" que faz mexer o bardo e os seus "apoiantes". Eu acho bem. Tem boa figura e uma voz extraordinária. Apareça, pois, nas presidenciais. Cá o esperamos.
7. A vida devia ser só e exclusivamente isto, o azul.
13.7.05
UM VERÃO ANTES DAS TREVAS
O "prefeito para a congregação do défice", o honorável Vitor Constâncio, veio uma vez mais dar más notícias. O Boletim Económico do Banco de Portugal/Verão 2005 não é leitura que se recomende para a praia. De nada valeram estes três anos em que, mês sim, mês não, nos vieram prometer a "retoma". Nunca chegou a chegar. Segundo o proficente Constâncio, sem ainda termos propriamente saído de uma, já corremos sérios riscos de entrarmos noutra recessão. A imatura economia portuguesa, sombria e cercada pelas piores "perspectivas" exteriores, continuará axfixiada. Os milhões do eng.º Sócrates e do dr. Pinho correm o risco de submergir neste turbilhão global em que uma economia periférica, pobre e materialmente subdesenvolvida, pouco mais pode fazer senão esperar. Entretanto o país arde alarvemente perante a impotência aparente dos poderes públicos. Isso também soma ao "incremento" negativo da economia e da "confiança" das gentes. Uns escassos meses depois de um novo fôlego e de uma "nova esperança", o país adormece para o Verão em estado de pré-pesadelo. O regresso à realidade, com autárquicas, escolas, fábricas, empregos públicos e privados "a arder", promete ser doloroso. No fundo, a "história" destes últimos tempos apenas regista o percurso de um imenso fracasso, uma espécie de "choque tecnológico" ao contrário. E a falta de vivacidade e o ar permanentemente timorato do ministro da Finanças já começam a fazer parte desse percurso. Tudo e todos me fazem lembrar o título de um livro antigo e esquecível que não desejo premonitório: um verão antes das trevas.
12.7.05
O REGRESSO DO GRANDE EDUCADOR
Não perdendo o melhor da sua condição de ex-"grande educador da classe operária", a que ostensivamente protestou não pertencer, Arnaldo Matos disse duas coisas acertadas no "Prós e Contras" da RTP, ambas ligadas à justiça. Os magistrados deviam ser legitimados democraticamente e não corporativamente, e, muito menos, exibirem "sindicatos". Não é estranho pensar-se em remover o actual procurador-geral da República. O que é estranho é que ele ainda lá esteja.
A VIA ESPANHOLA
Espanha, Espanha, Espanha... Com esta cadência reiterada, José Sócrates explicou a essa coisa mítica chamada "tecido empresarial português", o gentil propósito de o tornar mais "competitivo". O método é sempre o mesmo. Ele, o "tecido", espreme-se um bocadinho e o Estado subsidia. Depois, com jeito e devagarinho, "avança" para o mercado aqui do lado que aparentemente suspira por ele. Achei piada ao anúncio da "via espanhola" do primeiro-ministro. Tratou-se de um mero mimetismo de algo defendido, ainda não há muito tempo, por Cavaco Silva por causa da célebre "competitividade". Porventura este detalhe terá escapado aos assessores do chefe do governo. Mas isso agora não importa. O que releva é saber se o famoso "tecido empresarial português" mexe e se é "competitivo". Para ele "mexer", não dispensa o concurso do Estado. Manuel Pinho não tem feito outra coisa senão andar por aí a oferecê-lo. O que tem e o que não tem. Acontece que realisticamente o Estado tem por ora muito pouco para dar. Não se viu, aliás, ninguém particularmente entusiasmado com o exercício, à excepção dos bonzos do costume, nomeadamente os banqueiros do regime. E quanto a ser "competitivo", vou ali já venho. Eu julgo que a Espanha agradece o voluntarismo dos nossos poderes públicos e a "iniciativa" do nosso "tecido empresarial". Um e a outra deixam-na naturalmente tranquila.
11.7.05
PENSAMENTO DO DIA
Diálogo em Sex and the City:

Samantha: Carrie, you can't date your fuck buddy.
Carrie: Say it a little louder, I don't think the old lady in the last row heard you.
Samantha: You're going to take the only person in your life that's there purely for sex, no strings attached, and turn him into a human being? Why?
10.7.05
PERGUNTA...
... O Jumento a Sócrates:
Por que é que na Administração Pública as regalias são cortadas a direito sem mais conversas e no Banco de Portugal tem de haver uma comissão de vencimentos em que quem representa o primeiro-ministro é ex-governador daquela instituição, ele próprio um dos beneficiados das mordomias locais? Se na Administração Pública as medidas são tomadas de um dia para o outro, qual o prazo dado ao Banco de Portugal para repor a verdade económica nas suas regalias? Se os direitos dos funcionários públicos podem ser retirados por iniciativa do Governo, porque é que o ministro das Finanças promoveu uma conferência de imprensa em moldes santanistas só para dizer que a sua pensão do BP é um direito adquirido, o que entenderá o ministro por direito adquirido?
Por que é que na Administração Pública as regalias são cortadas a direito sem mais conversas e no Banco de Portugal tem de haver uma comissão de vencimentos em que quem representa o primeiro-ministro é ex-governador daquela instituição, ele próprio um dos beneficiados das mordomias locais? Se na Administração Pública as medidas são tomadas de um dia para o outro, qual o prazo dado ao Banco de Portugal para repor a verdade económica nas suas regalias? Se os direitos dos funcionários públicos podem ser retirados por iniciativa do Governo, porque é que o ministro das Finanças promoveu uma conferência de imprensa em moldes santanistas só para dizer que a sua pensão do BP é um direito adquirido, o que entenderá o ministro por direito adquirido?
DELÍQUIOS
Ouvi há pouco o dr. Barroso, com aquele seu optimismo de pacotilha, babado de alegria por o Luxemburgo ter votado favoravelmente o tratado constitucional europeu. De uma penada, e graças ao voluntarismo do sr. Juncker - que foi, aliás, recompensado nas urnas -, Barroso voltou a desenterrar o cadáver da Constituição Europeia. Falou num "plano D", de "diálogo", de todos com todos, para ultrapassar a "crise". Estava muito contente. Felizmente para ele e para a Europa, agora quem manda provisoriamente é outro mestre do sorriso plastificado, o sr. Blair. E de certeza que a última coisa que o preocupa neste momento, é o futuro do tratado. Depois de Londres e dos transes da União, este semestre britânico anuncia-se de chumbo. As medidas de vigilância avançadas pelo ministro inglês do Interior, com limitações declaradas dos direitos de cidadania, não auguram nada de bom. Se começamos a ter medo da própria sombra, instituindo sistemas de controlo securitário para além do estritamente necessário, entramos num caminho perigoso e declaradamente inútil de "prevenção" do que é imprevisível. Abusar, em democracia, dos privilégios que ela outorga ao poder, é diminui-la e apoucá-la diante dos seus inimigos. Não se ganha nada em "fechar" a "sociedade aberta". Este é um dado a que convém prestar verdadeira atenção e jamais aos delíquios provisórios do dr. Barroso.
RUÍNA SOBRE RUÍNA
Tenho evitado "olhar" para o PSD. Como disse aqui, por alturas do desvario completo atingido no fim do ciclo Barroso/Santana, ficou desse partido um amontoado de escombros insignificantes. A circunstância de a liderança ter sido disputada por Menezes e por Marques Mendes, foi suficientemente esclarecedora. Consta agora que Mendes, uma compostinha realidade virtual, está à espera de ganhar as autárquicas para se "afirmar". Engano dele. Se os candidatos apoiados pelo PSD vencerem um maior número de câmaras, encarregar-se-ão de reclamar, para eles e para os seus caciques locais, a respectiva vitória. Mendes será olimpicamente ignorado e ainda poderá ter de engolir os sucessos dos sobas Isaltino e Major Loureiro. Depois Mendes também não está à vontade para criticar este governo e para lhe "despejar" "ética" e "coerência" para cima todos os dias. Era - e com inteira justeza - considerado um dos melhores "braços" políticos no governo de Durão Barroso que ainda há pouco mais de um ano, lá estava. E manifestamente não manda quem encolhe os ombros e sublinha "paciência" quando é publicamente desautorizado pelo partido na Madeira e quem vê tratada como "inconveniente" a sua presença num evento local do PSD. Santana Lopes já percebeu o tremendo equívoco que grassa no seu partido. Avisou que tenciona "passar" pelo Parlamento, provavelmente para "ensinar" Mendes a fazer aquilo que ele sabe fazer melhor: oposição. A conjugação destes "sinais", mesmo com o eventual sucesso de 9 de Outubro, mostram que a "crise" laranja veio para ficar. Não tenho a certeza que a história venha a julgar os responsáveis por esta tragédia partidária, apesar da sua identificação, de Bruxelas ao Porto, passando por Lisboa ou pela Madeira, ser perfeitamente clara. O "tempo" da política de hoje é condescendente para com os seus piores servidores. De besta a bestial e de bestial a besta, vai apenas a distância de um editorial hebdomadário. Contudo isso não invalida que o PSD, muito por força dessa superficialidade e dessa insolência, seja neste momento aquilo que é, uma ruína sobre uma ruína.
9.7.05
LER OS OUTROS
No Diário de Notícias, o artigo de Ruben de Carvalho, Informação e Sobriedade, sobre a forma contida como os media britânicos trataram os atentados de Londres, contrastando com registo histérico-palavroso dos nossos "correspondentes" e "especialistas". E Medeiros Ferreira no Bicho Carpinteiro, De novo as ideologias? Por outro lado, não vejo ninguém deveras preocupado em perseguir seriamente os verdadeiros actos de terrorismo nacional que consistem em atear incêndios. Este é um problema político e não apenas de bombeiros.
SALDOS
A "época de saldos" que constitui a aventura presidencial no PS, conheceu esta semana três momentos divertidos. Tudo começou com uma entrevista de Manuel Alegre ao Jornal de Letras. Aí Alegre assegurou que ele, "o poeta", estaria "disponível" para a "aventura" (a presidencial) e até mesmo "tentado" por ela, contrariamente ao "político". De "invadido pela história" no ano passado, aquando da sua frustrada candidatura a líder do partido, Alegre sente-se agora "tentado" pela mesma, embora na suave condição de bardo. Pegando nesta sublime confissão, Eduardo Prado Coelho foi mais longe. Elegeu Alegre "o candidato da esquerda" e, num acesso verdadeiramente místico, não hesitou em ver nele "o primeiro presidente na era da globalização". No mesmo dia, João Soares, também conhecido pela sua profunda imaginação política, encarou com bons olhos a hipótese de Freitas do Amaral vir a ter o apoio do PS para Belém. Eu ainda sou do tempo em que o Partido Socialista, por estas alturas, ou seja, a sensivelmente meio ano de distância das eleições presidenciais, já tinha candidato e, por sinal, vitorioso. Foi assim em 76 e 80 com Eanes. Soares "apareceu" em Julho de 85 contra o referido Freitas. E Sampaio "consagrou-se" candidato em Julho de 95, nos Jerónimos. Depois da debandada final dos "desejados" Guterres e Vitorino, estes floreados em torno de nomes recorrentes para 2006 tornam ainda mais grotesco o "processo". O PS, pelos vistos, já só pensa em tentar não perder completamente a face. Quanto ao resto, trata-se de saber, com Alegre, Freitas ou outro qualquer, qual é a percentagem menos humilhante para um partido no governo e com uma maioria absoluta no Parlamento. Tal como Cavaco Silva em 91 ordenou ao partido que não se mexesse se Soares se recandidatasse (Cavaco queria continuar a governar, com maioria e tranquilamente, depois das eleições de Outubro), o PS no governo podia dizer às suas hostes para não disparatarem tanto perante o putativo avanço de Cavaco. Nem que fosse para acabar de vez com os "saldos".
8.7.05
REVISÃO DA MATÉRIA
Graças aos ataques bombistas de Londres, as nossas televisões e as nossas rádios "descobriram" e revelaram-nos milhares de "especialistas" em "segurança" e "terrorismo". Horas a fio, desfiaram uma verdadeira procissão de cabeças das mais diversas origens que nos "ilustraram" sobre a matéria. Todos invariavelmente nos descansaram quanto às "intenções" da Al Qaeda em relação a Portugal. Todos deram as mais extraordinárias explicações para o ocorrido. Discorreram sobre o islão que não conhecem e sobre o ocidente que não sabem manifestamente como se pode defender. Até o dr. Soares, na sua versão de evangelista do Fórum de Porto Alegre, veio falar da "pobreza". No meio de tanto disparate, os rapazes da Al Qaeda continuam a rir disto tudo e às escâncaras. Sempre que lhes apetece, enterram cobardemente a "superioridade ocidental" - de que todas estas luminárias se reclamam -, num arranha-céus ou num comboio, à custa da vida de centenas de inocentes. Talvez estivesse na hora destes "iluminados" reverem a matéria dada.
7.7.05
CREPÚSCULO EM LONDRES
Claude Monet, London - Houses of Parliament at Sunset MERECIMENTOS
Os miseráveis actos de terrorismo ocorridos em Londres distraíram a opinião pública do "debate" sobre o "estado da nação". Pelo que pude ver e ouvir, ninguém perdeu nada. Aliás, as bravatas que presenciei revelaram um dos mais medíocres debates dos últimos tempos. Apanhei uma parte em que o governo, pela voz de Santos Silva, e a oposição, julgo que do PP, requeriam ao presidente do Parlamento que fossem tiradas e distribuídas fotocópias de ditos do passado, de uns e de outros, para - digo eu - apurar o mais ou o menos mentiroso, consoante as perspectivas. São chincanas deste teor que emporcalham a "imagem" do regime. São discursatas de efeito nulo e rebarbativo que diminuem o respeito pelo "sistema" democrático. São estas criaturas que nós não sabemos que estamos a eleger quando votamos que depois nos aparecem pela frente, vagas e imateriais, nos "debates". Elas, as criaturas, "representam-nos". Por estas e por outras, cada vez menos encho a boca com a "democracia representativa". Porém, quando ando por aí e ouço falar os meus concidadãos, penso que tudo, afinal, está tudo no lugar certo. Eles e nós. Merecemo-nos.
6.7.05
VISIONÁRIOS
De manhã, quando liguei o rádio do carro, estava a perorar o presidente do comité olímpico português, salvo erro o eterno Coronel Moura. Apanhei a prosa a meio, mas percebi o contexto. Tal como Londres, Paris, Nova Iorque ou Singapura, também Lisboa merecia organizar uns joguitos. O argumentário do Coronel era infalível. Resmas de postos de trabalho e a já célebre "auto-estima" estão sempre na "linha-da-frente". Por que não, dizia o Coronel, sermos candidatos em 2016 ou, digo eu, sempre por aí adiante até ao ano 3000, em nome desse extraordinário reforço sempre adiado da "auto-estima" nacional? A baboseira megalómana, quando ataca - e ataca forte -, custa muito a passar. O mais recente adepto da modalidade é o eng.º Mário Lino, das Obras Públicas. Mesmo ao arrepio da prudência voluntarista do primeiro-ministro, Lino quer a Ota, os comboios e o mais que puder juntar ao "bolo" cimenteiro. Se lhe falarem um bocadinho nos jogos olímpicos, ainda o vamos ver de mãos dadas com o Coronel Moura a correr atrás do nosso justo lugarzinho ao lado dos "grandes". Esta gente acha-se subtil e toma-se normalmente por "visionária". Pensa - julga - em "grande". Em suma, não se enxerga.
SÓCRATES, JULHO DE 2005
Continuo a achar que não há melhor alternativa a Sócrates. Reconhecer isto é já uma evidência da melancolia que me atravessa cada vez que penso na "coisa" pública. Adiei a passeata nocturna do meu cão para ouvir o primeiro-ministro na SIC. E, depois, estive a rever o Million Dollar Baby em "dvd". Que espantoso argumento quando comparado com o que Sócrates me ofereceu! Quando, em Fevereiro, votei no PS, já não tinha ilusões. Muitos dos meus amigos e conhecidos continuaram - e continuam - a acreditar piedosamente no Pai Natal. A minha natureza "contra mundum" não me deixa, no entanto, grande margem de manobra. Mesmo assim, escutei o que o homem tinha para me contar. Desde logo, pareceu-me que foi muito mal entrevistado. Ricardo Costa tem a mania que é engraçadinho e Sócrates - e bem - fez questão de lhe demonstrar precisamente o contrário. O rapaz da economia contou pouco. Tinha "pano para mangas" e não soube aproveitá-lo. O registo discursivo de Sócrates é de uma clareza cristalina, assente em duas ou três "ideias-chave" que raramente ultrapassam o limite da banalidade. Jamais abandona aquele estilo misto de "campanha eleitoral" com o do "estudante aplicado". Não tem rasgo, mas também não ofende. Se ainda houvesse, estaria no "quadro de honra" do liceu. Tem uma magnífica presença física e não se defende mal. Seja lá o que for que isto quer dizer, deixou uma impressão de "força de vontade" por vezes traída por algum voluntarismo fácil. Passou praticamente incólume perante o "pacote" arco-íris, embrulhado em cimento e em belíssimas intenções, que tinha apresentado de manhã. Não convenceu na história das SCUT, um outro "pacote" que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de engolir. Safou-se razoavelmente na questão Souto Moura com uma resposta académica. E "diluiu" com inteligência as "mágoas" dos setecentos mil funcionários públicos nas "dores" dos quatro milhões de trabalhadores "privados". Tudo em nome de uma coisa a que chamou "uma ideia de esquerda". Nada do que foi dito me entusiasmou particularmente, nem a mim nem sequer a um morto. Apesar de tudo, devemos estar agradecidos por, cerca de um ano depois, termos um Sócrates no lugar de um Santana Lopes. Não quero com isto dizer que vamos parar a algum lado, em especial, por causa disso. Com o outro é que, de certeza, não íamos a lado nenhum.
5.7.05
O "PENSAMENTO" DO DIA
Quando ouço a palavra "cultura", puxo pela betoneira.
O "PRÉ-BETÃO"
"As obras para a construção do aeroporto na Ota e das ligações de comboio de alta velocidade (TGV) só devem avançar na próxima legislatura. Os montantes previstos nos próximos quatro anos para cada um desses projectos no programa de investimentos que o Governo hoje apresenta destinam-se a mais estudos, projectos de engenharia e expropriações", diz-nos o Público. Insistir nestas tretas e apresentá-las como "grandes investimentos" para "relançar a economia" até dois mil e tal, é o mesmo que continuar a hipotecá-la em nome de uma "elasticidade" e de uma robustez que ela manifestamente não tem. É prosseguir a mito faraónico dos estádios de futebol sob outra forma. É vender "gato por lebre" aos ingénuos. "Mais estudos, projectos de engenharia e expropriações"... Todos sabemos o que é que isto quer dizer, o que é que isto custa e, sobretudo, quem é que beneficia. Pior do que o betão só mesmo o "pré-betão".
4.7.05
4 DE JULHO
Ten days before Jefferson died, he wrote some notes for the approaching fiftieth anniversary of his Declaration of Independence. "May it be to the world what I believe it will be... the signal of arousing men to burst the chains under which monkish ignorance and superstition had persuaded them to bind themselves, and to assume the blessings and security of self-government... The general spread of the light of science has already laid open to every view the palpable truth that the mass of mankind has not been born with saddles on their backs, nor a favored few booted and spurred, ready to ride them legitimately, by the grace of God..." Science! To us that means total sorveillance, electronic devices to track others, weapons of mass...On July 4, 1826, Jefferson died. For posterity he wanted to be known as the author "of the Declaration of American Independence, the statute of Virginia for religious freedom, and father of the University of Virginia."
A few hours later, the dying John Adams said, "Thomas Jefferson still lives." But Jefferson had already departed. John Adams had his epitaph ready; it was to the point: "Here lies John Adams, who took upon himself the responsability of the peace with France in the year 1800".
"Let us now praise famous men and our fathers that begat us", as the New England hymn of my youth, based on Ecclesiacticus, most pointedly instructed us.
(Gore Vidal, Inventing a Nation - Washington, Adams, Jefferson, 2003)
O PAÍS ERRADO
Primeiro foi o ministério das Finanças que errou o orçamento. Depois, soube-se que, antes deste erro, já o Banco de Portugal tinha errado o défice. Agora foi o ministério da Justiça - e essa entidade misteriosa que é o INE - que transmitiram dados errados sobre a Justiça a Bruxelas. O senhor "entidade reguladora da saúde" - outro mistério -, apaparicado pelo Presidente da República e pelos governos, percebeu que estava no "lado errado", ou mesmo em lado nenhum, e demitiu-se. O senhor presidente do Governo Regional da Madeira acha "errada" a presença de "indianos" e "chineses" na sua coutada praticamente privada no meio do Atlântico. Esta pequena e grotesca tragicomédia elucida-nos um pouco mais sobre o país em que temos a infelicidade de viver. Um país errado, irremediavelmente errado.
A GRUTA DOS NADADORES

Deu-me para reler um outro "alter ego" meu, o Conde Ladislaus de Almásy, O Doente Inglês, de Michael Ondaatje. Concentrei-me apenas no famoso capítulo IX, A Gruta dos Nadadores. Uso a tradução de Ana Luísa Faria para a Dom Quixote. Muito antes de o livro sair por aí, já o tinha lido no original. O essencial, na minha pobre e pessoal leitura, está concentrado nesse capítulo. Gostava de o poder pôr todo aqui. É um belo momento literário a que gosto de voltar de vez em quando. Sobretudo agora, quando tanto se incensa um livro notoriamente menor de Alan Hollinghurst, The Line of Beauty, traduzido pela Asa, e igualmente vencedor de um "politicamente correcto" Booker Prize, em 2004. De facto, quem não aprecia a mistura da então fogosa Mrs. Thatcher com "tories" sexualmente mal resolvidos e túrgidos adolescentes, ambiciosos ou ingénuos?
Eu era um homem quinze anos mais velho do que ela, está a ver? Tinha atingido essa fase da vida em que me identificava com os vilões cínicos dos livros. Não acredito na permanência, nas relações que duram anos e anos. Era quinze anos mais velho. Mas ela era mais esperta. A sua ânsia de mudar era maior do que eu pensava.
As palavras do marido em louvor dela não faziam o menor sentido. Mas eu sou um homem que em muitos aspectos da vida, mesmo como explorador, se deixou sempre guiar pelas palavras. Por boatos e lendas. Coisas registadas por escrito. Cacos com inscrições gravadas. O tacto das palavras. No deserto, repetir alguma coisa era como lançar mais água à terra. Ali qualquer pequeno cambiante significava um desvio de cem milhas.
Sou um homem que virou quase por completo as costas ao convívio mundano, mas às vezes sei apreciar a delicadeza de maneiras.
Esta é a história de como eu me apaixonei por uma mulher que me leu uma determinada história de Heródoto. Ouvi as palavras que ela foi desfiando do lado de lá da fogueira, sem nunca erguer os olhos, nem mesmo quando provocava o marido. Talvez fosse só para ele que lia o episódio. Talvez não houvesse na escolha outro motivo exterior ao casal. Era simplesmente uma história que a perturbara pela familiaridade da situação. Mas revelou-se-lhe de súbito um caminho na vida real.
Ela parou de ler e ergueu os olhos. Arrancando-se às areias movediças. Ela estava a evoluir. De modo que o poder acabaria por mudar de mãos. Entretanto, com a ajuda de uma historieta, eu apaixonei-me. Palavras, Caravaggio. As palavras têm o seu poder.
Sou um homem capaz de jejuar até ver aquilo que quer.
"Acho que te tornaste desumano", disse-me ela.
"Não sou o único traidor."
"Não me parece que te importe, isto que aconteceu entre nós. Passas por tudo de largo, com o teu medo e o teu ódio à posse, à ideia de possuir, de ser possuído, de ser nomeado. E julgas que isso é uma virtude. Eu acho que tu és desumano. Se eu te deixar, para quem é que te viras? Arranjas outra amante?"
Eu não disse nada.
"Diz que não, raios te partam."
Daqui em diante, segredou-me ela, ou encontramos ou perdemos as nossas almas. Se os mares se afastam, porque o não fariam os amantes? Os portos de Éfeso, os rios de Heraclito desaparecem e são substituídos por estuários de sedimentos. A mulher de Candaules torna-se mulher de Giges. As bibliotecas ardem. Que havia sido a nossa relação? Uma traição aos que nos rodeavam, ou o desejo de uma outra vida?
Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas.
Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trapámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências. Eu só desejava caminhar por uma terra assim, onde não existissem mapas. Levei Katherine Clifton até ao deserto, onde se abre o livro colectivo do luar. Estávamos no meio do rumor das nascentes. No palácio dos ventos.
Eu era um homem quinze anos mais velho do que ela, está a ver? Tinha atingido essa fase da vida em que me identificava com os vilões cínicos dos livros. Não acredito na permanência, nas relações que duram anos e anos. Era quinze anos mais velho. Mas ela era mais esperta. A sua ânsia de mudar era maior do que eu pensava.
As palavras do marido em louvor dela não faziam o menor sentido. Mas eu sou um homem que em muitos aspectos da vida, mesmo como explorador, se deixou sempre guiar pelas palavras. Por boatos e lendas. Coisas registadas por escrito. Cacos com inscrições gravadas. O tacto das palavras. No deserto, repetir alguma coisa era como lançar mais água à terra. Ali qualquer pequeno cambiante significava um desvio de cem milhas.
Sou um homem que virou quase por completo as costas ao convívio mundano, mas às vezes sei apreciar a delicadeza de maneiras.
Esta é a história de como eu me apaixonei por uma mulher que me leu uma determinada história de Heródoto. Ouvi as palavras que ela foi desfiando do lado de lá da fogueira, sem nunca erguer os olhos, nem mesmo quando provocava o marido. Talvez fosse só para ele que lia o episódio. Talvez não houvesse na escolha outro motivo exterior ao casal. Era simplesmente uma história que a perturbara pela familiaridade da situação. Mas revelou-se-lhe de súbito um caminho na vida real.
Ela parou de ler e ergueu os olhos. Arrancando-se às areias movediças. Ela estava a evoluir. De modo que o poder acabaria por mudar de mãos. Entretanto, com a ajuda de uma historieta, eu apaixonei-me. Palavras, Caravaggio. As palavras têm o seu poder.
Sou um homem capaz de jejuar até ver aquilo que quer.
"Acho que te tornaste desumano", disse-me ela.
"Não sou o único traidor."
"Não me parece que te importe, isto que aconteceu entre nós. Passas por tudo de largo, com o teu medo e o teu ódio à posse, à ideia de possuir, de ser possuído, de ser nomeado. E julgas que isso é uma virtude. Eu acho que tu és desumano. Se eu te deixar, para quem é que te viras? Arranjas outra amante?"
Eu não disse nada.
"Diz que não, raios te partam."
Daqui em diante, segredou-me ela, ou encontramos ou perdemos as nossas almas. Se os mares se afastam, porque o não fariam os amantes? Os portos de Éfeso, os rios de Heraclito desaparecem e são substituídos por estuários de sedimentos. A mulher de Candaules torna-se mulher de Giges. As bibliotecas ardem. Que havia sido a nossa relação? Uma traição aos que nos rodeavam, ou o desejo de uma outra vida?
Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas.
Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trapámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências. Eu só desejava caminhar por uma terra assim, onde não existissem mapas. Levei Katherine Clifton até ao deserto, onde se abre o livro colectivo do luar. Estávamos no meio do rumor das nascentes. No palácio dos ventos.

3.7.05
O FRANCISCO JOSÉ VIEGAS...
... já foi à Espanha "pós-21%". Pena não chegarem cá pelo mar.
UM PAÍS QUE TEM O QUE MERECE
Para ler na Grande Loja. Só se esqueceu de uma tal Elsa Raposo, uma "celebridade política" descoberta pelos manos Câmara Pereira para Cascais. E por falar em Cascais, o PS, com a habilidade com que anda a tratar do "dossiê" autárquico, foi buscar o sr. dr. advogado Arrobas da Silva (parece que é assim que ele se chama) para enfrentar Capucho, já que, por motivos diversos dos de Elsa, também ele é uma "imagem" televisiva. Longa vida e obra, pois, ao António Capucho!
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