DRAGOSCÓPIO
Quarta-feira, Julho 20, 2005
O horror, a tragédia...
Ainda não tinha reparado, até porque é privada que não frequento, mas o Dodo, acaba de mo confessar ele próprio, em lágrimas, destroçado, está na lista de links do "Aviz".
Neste caso eu não tenho dúvidas: soliarizo-me com a sua lancinante dor e envio-lhe daqui as minhas condolências.
Pobre Dodo!... Pior que isso só mesmo o "abruto", se tivesse links; ou a "Bosta intiligente", que os tem e não digo mais nada.
É diante de tragédias destas, de cancros a céu aberto desta envergadura, que um indivíduo com um pequeno furúnculo, como é o meu providencial "Portal Nacionalista", ergue os braços aos céus e agradece a sorte com que a fadas o ungiram, provavelmente à nascença.
Abençoados nacionalistas, que me protegem de sarnas e lepras destas!...
Ornitorrinco luso-americanus

Há uma expressão catita com a qual tropeço ocasionalmente na "blogosfera": "Direita liberal". Tem imensa piada. Acho-lhe imensa graça! Penso até que é uma conjugação felizarda, coquete, digna do cruzamento de duas alimariazinhas dos antípodas ( por exemplo, o ornitorrinco e o rafeiro alentejano; ou a hiena malhada da Namíbia e a foca do Alaska). Figurasse o portento num qualquer cardápio, como prato de culinária, e teríamos certamente um qualquer pitéu do estilo "costeleta de bacalhau"; ou "filetes de novilho".
Dir-me-ão, os acólitos, amantes do rigor, que é de fast-food mental que se trata. Que, sendo hamburguer, pode ser de qualquer coisa: cães atropelados, minhocas ou restos avulsos garimpados num qualquer açougue ou lixeira. Ai sim? Pronto, então já cá não está quem falou.
A propósito, aqui fica a definição de "ornitorrinco", no dicionário da Porto Editora (desculpem lá não ser o Houiss):
s.m, Zoologia designação de uma mamífero monotrémato, ovíparo, com bico de pato e um só orifício urogenital - uma forma de transição entre os répteis e os mamíferos -, que vive nas margens dos cursos de água da Tasmânia e Austrália.

Um animal metrossexual, portanto. O único mamífero que põe ovos.
Se eu fosse mauzinho, o que não sou, diria que a variante luso-americana consegue prodígios ainda maiores: usa o mesmo orifício não apenas para defecar e reproduzir-se, como, igualmente, para raciocinar.
Mas isso, não sendo um exagero, seria, claramente, uma indelicadeza.
Estéticas
Não levo a mal coisíssima nenhuma. Por quem é!... Diz muito bem. Partindo do princípio que considera uma obra de arte aquele quisto urbano que fica, sensivelmente, ali por detrás da Churrasqueira do Campo Grande, não só não levo a mal como vou mesmo mais longe: louvo-lhe a coerência.
Terça-feira, Julho 19, 2005
Coca cola é que é!...

À atenção especial do Caguinchas, com patrocínio do Besugo e o beneplácito da Lolita, algumas sugestões para o futuro nome do –em breve- ex-estádio da Luz:
1. Estádio Coca-Cola ou Coca-Cola Stadium (excelente, porque nem têm que mudar a cor).
2. Estádio Mcdonnalds ( idem, basta acrescentar uns tons de amarelo)
3. Shell Arena ( o vermelho, em parte, ainda se aproveita, mas implica uma preponderância do amarelo e talvez a mudança dos calções para esta cor).
4. Estádio El Corte Inglês (sem comentários).
Já agora, aproveitem a embalagem e vendam (ou aluguem, ou lá o que é) também o nome. S.L.BP até que ficava catita. Se bem que Sort Lisboa e Coca-cola (ou Sport Coca-Cola e Benfica, que, quanto a mim, atestaria ainda melhor o tão apregoado carácter não bairrista mas global da agremiação) seria o máximo! Devia render umas massas do caraças, dava para comprar um monte de coxos - os árbitros todos pelo menos -, e ainda sobrava um pé de meia para o presidente fazer uma plástica aos abanos auricolares.
E a águia, essa ave emblemática, com uma garrafa de Coca-cola nas garras ou um Big Mac no bico, confesso, e duvido que alguém consiga negar: ficaria delumbrante.

-fotografia tirada pela nossa repórter Zazie, em viagem pelo futuro
Segunda-feira, Julho 18, 2005
O Homo-Clismo

Se na antiguidade grega se estimava sobretudo o teatro, na actualidade ama-se cegamente o cinema, espécie de sucedâneo ultra-massificado (na versão industrial) do circo romano.
O Novo Mundo do Consumo deixou de ser uma tragédia: foi promovido a filme. Em vez de palavras estagnadas, de cenas cósmicas estáticas, temos agora um corrupio de imagens, um carrocel flamejante de fantasias. O cinema não exorcisa nem purifica pela catarse: celebra, incita, promove, instrui, institui, induz. Não reproduz ou representa a profundidade abissal da existência humana: na Nova Vida-Filme importam menos as palavras e mais os cenários, as poses, os esgares, os ângulos e perspectivas; os camarotes do divino ocupam-nos agora as super-stars, os ídolos. Os paradigmas deixaram de habitar e presidir a partir do passado: passaram a estrelas-guias no presente -lideres de imagem, de mercado, de opinião -, vedetas da frivolidade histriónica que urge macaquear. Na Vida-Filme tudo se sobrepõe esfuziantemente; cada momento varre o anterior, cada imagem vampiriza a precedente. Não há sequer tempo para reagir ou apontar, tão pouco refectir ou conversar: o Gastador-consumidor é um espectador pasmado na cadeia, deslumbrado e estarrecido por cenas cada vez mais violentas, explosivas e espectaculares. Está completa e fisicamente preso, dependente, agarrado ao ecrã. Os seus instintos mais radicais -de matar e copular, principalmente -, propagam-se e infectam todas as coisas, agentes e protagonistas do filme. Tudo, agora, se metamorfoseia em potencial assassino ou violador: as casas jorram sangue, os ramos das árvores tornam-se braços estranguladores, cometas despenham-se em genocídio sobre as cidades, os animais organizam-se e marcham ao morticínio humano, os automóveis resolvem rancores antigos, os electrodomésticos revoltam-se, as máquinas conspiram, anjos psicopatizam e viram serial-killers, amigos de infância compram machados afiados, pais extremosos planeiam chacinas domésticas, donas de casa anódinas preparam macabros banquetes, a possessão, a licantropia, o vampirismo, o infanticídio, o canibalismo alastram em avalanches multicolores e apoteóticas; o estupro, o tráfico, o lenocínio, o sado-masoquismo lavram de enxurrada. O único fito permanente e obsessivo que parece palpitar em todas as coisas, seres e imaginários -presentes ou futuros -, é o de exterminar, estropiar ou, no mínimo, copular analmente as pessoas após preliminares escabrosos.
Se o Cosmos antigo era um palco da necessidade (ananke), a Nova Aldeia Global -de bimbos e saloios globais -, quer-se ecrã da possibilidade (dynamis). Ultra-dinâmico, o filme, por exemplo, instaura a possibilidade, dinamiza. Daí à realidade é um passo. Mais exactamente: a possibilidade -a dinâmica-, é já o hall de entrada da realidade. Depois, trata-se mais uma vez de mera inversão ou perversão dos processos antigos: faz-se da possibilidade uma necessidade. A diferença é que a necessidade contemporânea -ao contrário da antiga, que era cósmica e emanescente -, é mundana, particular, egonóica ou mero adorno de elites. E é também transcendente: não se compreende nem justifica - assiste-se. Veja-se a figura popular e emblemática do serial-killer, atracção de multidões e sucesso garantido de bilheteiras: Vê-se compelido por uma necessidade intrínseca e transcendente de chacinar engenhosamente pessoas. Secretamente, no seu íntimo, o espectador mastiga, compreende e absolve. Instala-se até uma certa empatia nostálgica (por um momento, mentalmente, divaga-se: regressa-se ao tempo em que os animais já nao falavam, mas ainda nos podíamos comer e chacinar carnalmente uns aos outros, sem subterfúgios).
O cinema, liturgia refinada da mudança, altar sumptuoso da metabolia, ditadura perpétua da agitação, debita -insinuante e cavilosamente - que tudo muda, tudo corre, tudo se transforma; nada permanece - a não ser aquilo que move o próprio cinema: as taras, fobias e traumas do saloio global, naturais e artificiais; bem como, claro está, os lucros da Indústria. Ora, como já foi dito aqui atrás, perfectófobo e edenoclasta, o Novo Homem Gastador-consumidor, bimbo da Aldeia-inferno Global suporta cada vez menos palcos idílicos ou finais felizes. Apressa-se, desde cedo, em explicar às crinças que não existe Pai Natal, nem fadas, nem cegonha transportadora, nem menino Jesus, nem nada para além do salário do papá e/ou mamã, da vida selva/competição muito difícil, heróica e exigente, da economia de mercado, e dos espermatozóides à conquista dos ovários na epopeia da foda-queca. Para ele, o mundo em si, na sua complexidade externa e hostil, é uma coisa suja, ameaçadora, cabalística. Donde nada de bom pode advir ou ser esperada. Só o trabalho salva: seja na forma palerma, naif, de assalariamento, seja no esquema fast, espertalhão, de nepote, familiar ou mafia, seja no parasitismo big de pseudo-administrações o governos a soldo da Indústria. O trabalho representa, assim, a esterilização do mundo, uma espécie de abstergência global ritualizada e neurótica-obsessiva. Ao contrário do espectador antigo defronte da tragédia, o consumidor-gastador não está minimamente preocupado com uma qualquer purificação interna; obceca-se, outossim, com a lavagem e ornamentação externas - da sua pele, dos seus dentes, do seu cabelo, das suas unhas, enfim: da sua imagem, do seu aspecto, daquilo que se vê, como também do seu automóvel, da sua casa, da sua rua e cidade. Persegue e almeja um mundo limpo, desinfectado, asséptico. Mas limpeza não no sentido profundo, da sua sanidade ou da do seu mundo -que os gregos chamariam higiénico -, mas numa acepção superficial, lavatórica, derivação do klysmos helénico: um Homo-clismo, simultaneamente heteroclismo e autoclismo.
Harry da Puta que a pariu!

«Horas depois do lançamento do sexto livro de Harry Potter - «Harry Potter e o Príncipe Mestiço» - apareceram na Internet algumas críticas, assinadas por jovens leitores, a maior parte delas favoráveis e destacando o lado negro da obra.»
Resta saber se o tal "lado negro" é da parte da mãe ou do pai. Do príncipe, claro está.
Outra questão que talvez fose oportuno debater, com relativa seriedade, é se uma "civilização" que bombardeia e liquefaz as mioleiras dos seus juvenis (que vão dos 8 aos 80, como todos sabemos) com lixo deste calibre, em operações de psico-envenenamento à escala global, merece ou não, por sua vez, ser bombardeada?...
Esta civilização não é a minha. Não tenho rigorosamente nada a ver com isto. Nem quero ter.
Chamam "civilização ocidental" à ausência da mesma; como do outro lado chamam o equivalente a igual vazio. Vão vender peixe podre a outro. Não há nenhum confronto de civilizações: o que há é um concurso pela destruição delas. A ver quem faz pior e mais depressa. De parte a parte são macacos terroristas ao despique. E o Bin Laden (se é que trabalha por conta própria) , para ficar ao nível, ainda vai ter muito que pedalar. É o artesanato contra a indústria.
Domingo, Julho 17, 2005
Subtilezas
Não sei se isto já ocorreu a alguém antes, mas, em bom rigor,a palavra "assim", por prefixação (a-sim), também pode significar não, como "anão" (a-não) pode significar sim.
São estas sutilezas que, geralmente, escapam ao vulgo.
Sexta-feira, Julho 15, 2005
patacoadas e gambosinos

Ó Caguinchas, lampião desgraçado, toma lá mais um:
«O terrorismo transnacional tem como inspiração central uma batalha de cariz ideológico contra os regimes democráticos e os seus valores. Nada mais.»
Aproveito para acrescentar o seguinte: o Caguinchas, como todos sabem (e se não sabem, deviam saber) é benfiquista e, portanto, por definição, inimputável. Pode, em consequência ( e por falta da mesma) dar-se aos desfrutes que muito bem lhe estimulem a veneta.
Das enormidades que, em resultado, aqui publica, eu, se bem que - como é visivel no último postal -, acautele minimamente o estilo, em nada me responsabilizo pelo conteúdo (se é que algum tem).
Não subscrevendo eu, de todo, as asneiras que, por regra, emite, não posso, todavia, deixar de reparar em patacoadas congéneres, largadas por presumidas pessoas sérias, como aquelas, a pessoa e as bacoradas, em epígrafe.
Regimes quê?! Uma batalha de quantos?! Quais valores?!
Então agora a principal ocupação duns gajos que ninguém sabe muito bem quem são é dar cabo de coisas que não existem? E o mamífero opinioso ( partindo dum pressuposto optimista), vai ao desplante assertivo e peremptório de garantir que esse não só é o fito principal como, pasme-se, o exclusivo.
Caralho, estamos a ser atacados por gambosinos?
Do ponto de vista do mexilhão

Pus-me a imaginar que um familiar meu (o diabo seja surdo), daqueles que eu gosto, ia a bordo dum cacilheiro que explodia por obra e graça desses filhos da puta dos terroristas arábicos, desses que ninguém conhece mas todos sabem que vestem lençóis. E ainda por cima têm haréns, os cabrões! Senão agora, pelo menos prometidos no Além...
Mas lá me estilhaçavam o familiar, todo em pedaços, pelo Tejo abaixo, que era uma dor de alma assim todo estilhaçado, meu rico mano...
O que é que um gajo faz numa situação destas? Ãh?!...Foda-se, rebentam-nos com a família, sem pré-aviso nem nada, à surrelfa, sem dizer água vai, nem explicar porque carga de água tem que ser um pobre diabo e coitado a arcar com os pecados do mundo. E nem sequer era comuna o meu desgraçado familiar, vejam lá bem. Se ainda fosse, ou do FêCêPê, ainda vá que não vá. Mas nem isso: Nem comuna, nem fascista, nem morcão, nem treta nenhuma dessas, coitado: Não se metia em políticas; era futebol e telenovela, trabalho/casa, casa/trabalho e o relato do Glorioso aos domingos para lavar a alma. Volto a perguntar-vos: que diabo se faz por alturas duma desgraceira tal?
Bem, ou somos uma sociedade com regras, ou não. O mínimo que um gajo enlutado, desvairado de dor pode fazer é clamar por justiça, razões para o absurdo, pedir indemnizações, sei lá!...Toda a gente sabe que eu não gramo a bófia, mas neste caso, excepcionalmente, até para chateá-los, dirigia-me à esquadra e apresentava queixa.
"Era uma pessoa bem constituída, saudável, na plena posse das faculdades. Contribuinte, pai de filhos menores, meus sobrinhos, chavalitos traquinas mas bons benfiquistas, e agora, em menos de nada, fizeram-no em fanicos e andamos à procura dele por todo o estuário, os ossos pelo menos, porque a carninha, ainda por cima bem assada, já devem estar a pitá-la os caranguejos. Quero justiça! Está na constituição! É o elementar, caralho! Exijo saber quem fez isto e porque razões andam malucos destes à solta, aparentemente sem controlo nem freio de qualquer espécie! E se, pelos vistos, os deixam andar à vontade antes, ao menos que não os condecorem depois!...Por conseguinte, pergunto-vos: o que é que pensam fazer? A minha cunhada está em choque, os fihos estão em minha casa e não me deixam ver a bola descansado!..."
Imaginem vocêses o estado de cabeça perdida em que eu não estaria por esta altura, diante das instituições, como diante dum qualquer deus que me desamparara. Mas, pior um pouco, imaginem que um badameco qualquer dum anão mija-postas do regime, um caga-tacos de meia tijela armado em doutor, me saía ao caminho, em plena televisão, com a seguinte explicação:
"Eles cometem estas horríveis atrocidades por uma razão muito simples: querem acabar com a nossa democracia!"
O que é que se diz a um calhorda destes?
Pois o que eu iria, em grandes berros, se não pudesse estrangulá-lo logo ali, ou pontapeá-lo na peida badocha até à exaustão, era simples:
"Olha, ó meu grande monte de merda, vai contar histórias da carochincha à grande vaca que te pariu!...Democracia? estou-me cagando prá democracia, estamos aliás todos, como estava o meu pobre familiar doravante pulverizado e a sair pela barra neste momento, e como decerto estão os turras também! O que eles querem, esses merdosos, é o que estão a fazer: a rebentar com desgraçados e otários como eu e o infeliz do meu irmão. Porque para acabar com a democracia, já lá estás tu, ó filho da puta, e os teus amigalhaços da corda todos! Aliás, não têm feito outra coisa desde que para lá treparam e se lhe alaparam às tetas, sanguessugas do caralho! Nisso os turras de merda nem vos chegariam aos calcanhares, para quê gastarem tempo, explosivos e energias? Ou, pelo menos, teriam que ir para a bicha, o que não me parece que lhes quadre muito ao feitiozinho cagamerdoso.
Democracia? Uma boa democracia estavas tu a precisar pela peida acima! Sabes o que parece, ó batráquiozito? Eu digo-te: é que vocês e eles estão associados, feitos, maucomunados, isso sim, para darem cabo de nós! Qual faz de mar, qual faz de rocha, são pintelhices. Do ponto de vista do mexilhão.
Quarta-feira, Julho 13, 2005
Dragão dixit
Em tempos idos, eu primava por iniciar umas certas prelecções sobre "Ética" com a seguinte e provocante máxima: "Um homem não é uma puta".
Naturalmente, encontrava-me então, como ainda hoje, nos antípodas do "liberalismo".
Afinal de contas, a prostituição, justamente, é a mais antiga das profissões, o métier liberal por excelência. E paradigma.
Para quem tenha dúvidas, a título de anedota, faça a fineza de ler isto.
Como poderão reparar, a tese é antiga, quase tão antiga como a profissão: os fretes a que sujeitamos o coiro não nos conspurcam nem constrangem a psique. Em variante moderna: o que nos ocupa o cu não nos tolhe a língua. Ou ainda, traduzindo para um lema mais popular e ao nível: "olhai para o que eu digo; não repareis no que eu faço." Padre Inácio, suponho, dixit.
Por mim, não digo que as putas não tenham direito ao mercado. Respeito muito as putas, o Caguinchas é minha testemunha.
Mas há putas e putas. O critério de diferenciação, quanto a mim, sustenta-se num conceito chave: Pudor. Por incrível que pareça, há (ou pelo menos havia) aquelas que o têm. E aquelas que não.
Devo estar a ficar ultrapassado, obsoleto mesmo. Continuo a achar que, numa puta, tanto quanto um cinto de ligas, fica bem um certo recato, uma razoável sobriedade profissional. Uma certa auréola de penumbra e mistério cativa o devaneio nomadizante. Já o vir aos gritos para a rua, a vangloriar-se que a montam, à canzana e conforme calha, por valados e vãos de escada, como marketing para trolhas e camionistas poderá ser revolucionário, não discuto, mas enquanto chamariz para cavalheiros com sistemas mentais multiceluares é, no mínimo, confrangedor. E catastrófico.
É mais certo que a internem do que a fodam.
Dragão dixit.
Terça-feira, Julho 12, 2005
O plebeismo-mor da paróquia
«Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. »
- Fernando Pessoa, "Crónica"; 1915.
Serve - o pedaço de génio em epígrafe - de preâmbulo a uma consideração breve e muito simpes: Nesta Idade das Trevas que vivemos, o anonimato é um dos derradeiros redutos da verdadeira aristocracia. Fora isso, regra geral, é o buliçio chocalheiro, feirante, saloio, das pegas intelectuais que, à laia de pretexto caniche para o ataque, vêm perambular no jardim público os respectivos nomes pela trela.
A Direita Colibri

A Direita Colibri, ou Direita Beija-Flor, anda em permanente flirt com a Esquerda Arco-Íris. Lembram aquela menina atotozada em peregrinação do feiticeiro do Oz, na companhia de figuras tão épicas quanto um espantalho com miolos de palha, uma lata ambulante sem coração e um leão pusilânime proto-gay. É comovente. Estão condenadas ao final feliz.
Segunda-feira, Julho 11, 2005
Sexta-feira, Julho 08, 2005
Trespassa-se

TRESPASSA-SE
LEILOA-SE
ou, em último caso,
DÁ-SE, a quem prometer estimá-lo
Blogue irreverente, iconoclasta, com clientela fidelizada, incluindo um esquizofrénico ou esquizofrénica (tem dias), de dupla (senão mesmo múltipla) personalidade bem vincada, que mui feericamente ornamenta os balcões de comentários.
Boa carteira de inimigos, todos eles embolados. Mugem e resfolegam, mas não marram.
Motivo para o trespasse:
Tédio.
Quinta-feira, Julho 07, 2005
A Educação do Povo (reposição)

Como não há uma sem duas... Leia-se no corolário do postal anterior.
As revoluções, mesmo quando antecedidas do prefixo “pseudo” (quase todas, portanto), fazem-se invariavelmente acompanhar dum cardápio de ideias peregrinas. Todas elas urgentes, todas elas magníficas, todas elas prioritárias. Uma dessas, aquando da primavera Abrileira cá do burgo, era: “temos que educar o povo!”
Uma série de romeiros iluminados, regressados dos exílios dourados na estranja ou dos piqueniques selvagens nas colónias, acolitados por chusmas de marxistas-leninistas instantâneos, em patrocínio da Farinha Amparo, tomaram-se de brios e entusiasmos, e propuseram-se ir educar o povo, a massa ígnara, bruta e analfabeta.
Como sempre, nestas aventuras, tomaram por princípios e axiomas meros preconceitos. A saber, 1. Que o povo era educável; 2. Que o povo queria ser educado; 3. Que eles reuniam e congregavam sob o substracto córneo das suas sapientes trunfas o know-how bastante para educar o povo.
Havia também um eufemismo muito usual por altura destas balbúrdias: confundia-se “educação” com “lavagem ao cérebro”. Ou melhor, dizia-se “educar”, mas, no fundo, queria dizer-se “lavar”. Eles, abençoados pela História, tinham que desencardir o povo, que escorria merda e surro de quase cinquenta anos.
Ora, sempre que uma caterva de luminárias se decide a educar quem quer que seja, e sobretudo o “povo”, a primeira coisa que faz é arranjar um modelo (de preferência de importação, são sempre os melhores). Em se tratando daquela região europeia situada a oeste de Espanha, pior um pouco. A discussão, de séculos, nunca é “quem somos ou quem devemos ser”, mas sim “quem copiamos ou quem devemos copiar”. Se na aparência poderão passar por homens ao observador menos atento, na essência não enganam: são verdadeiros macacos de imitação. Encontrareis excepções a esta regra, mas, certamente, não nas elites –políticas, culturais, sociais, industriais –, lá do sítio. Aí, a macaquice, jurada e jactante, é condição de acesso. Vivem à coca da casa do vizinho e do que o vizinho lá mete. O país inteiro, por osmose, como os seus átomos constituintes, espia o resto do bairro/mundo e roi-se de inveja das Franças, das Escandinávias, das Inglaterras ou das Américas. Que povos educados, a transbordar civismo e boas maneiras! Que maravilha de pessoas! Que inteligências amestradas, atestadas de higiene e sentido do dever fiscal! Que trabalhadores ordeiros e laboriosos!
A unanimidade quanto à superioridade do que é estrangeiro não podia ser maior. As divergências, essas, animadoras de polémicas virulentas e vociferações descabeladas, germinam desse dogma básico e encarniçam-se à volta da tal questão fulcral e de importância transcendente, ou seja: Sendo certo que só existimos se copiarmos, quem vamos então imitar. Isto predetermina tudo. Por alturas da grande convulsão primaveril, a diferença é que o leque de escolha era ainda maior do que é hoje. Não só os belos povos ocidentais podiam servir de paradigma, como também uma série de outros, da Albânia à Cochinchina, despertavam a cobiça e os ímpetos emuladores dos fogosos endoutrinadores da plebe. O difícil era a escolha. Quase todos os povos eram melhores que o nosso, mais limpos e imaculados. Bastava ir ao Atlas geográfico. Ao nosso, repito, emporcalhava-o, inquinava-o até aos ossos – e à medula dentro dos ossos – a longa noite fascista. Era fascista como podia ser outra coisa qualquer. A palavra caíu-lhes no goto; dignificava e canonizava a sedição, beatificava o tumulto, justificava toda a parafrenália de medidas drásticas e emergências médicas.
Também o povo, há que reconhecê-lo, era pólvora seca, anelante, à espera de faísca. Aliás, essa, é sempre a sua postura predilecta: barril a clamar rastilho. Ainda para mais, xenómano a ressacar desde há mais de quarenta anos sem o chuto de estrangeirina no dígníssimo cu, agradeceu, merejado em êxtase, mal experimentou o valente coice dos novos mestres. Foi vê-lo a levantar voo, retropropulsionado, como se foguetões o catapultassem. Foi à lua e veio. De caminho deu uma espreitadela à União Soviética e descuidou-se todo pelas calças abaixo. Ainda hoje tresanda ao susto, ainda hoje expia o trauma.
A ideia de copiar a União Soviética, claro está, era a mais peregrina de todas. Por isso mesmo, à época, triunfou no concurso e surgiu, resplandecente, meteórica, como a mais fascinante e sublime. O povo soviético, na perspectiva de então, emergia nimbado de fulgores e virtudes, açambarcava medalhas olímpicas e exportava bailarinos. Era, pois, de todo conveniente imitá-lo o quanto antes.O que sucedeu depois já todos sabem. Para vermos até que ponto era brilhante essa tese, basta dar, hoje, uma volta pelo paraíso de trolhas em que se tornou a nação: os ex-virtuosos e fulgurantes licenciados soviéticos, suprassumo da educação, cartam agora baldes de massa e formiguejam pelos andaimes acima e, de quando em vez, dos andaimes abaixo. Triste fim para um império tão luminoso.
Mas uma ideia peregrina nunca anda só. Abortada a fotocópia soviética, enveredou-se pela imitação da gleba europeia e, ultimamente, lançam-se olhares de maravilha e cobiça à gleba americana.
Entretanto, as funções elementares da escola –coisas como ensinar a ler, a escrever e a contar-, desvaneceram-se sob uma catadupa de novas pedagogias, avançadas psicofolias e mirabolantes reestruturações ou paixonetas, cada qual mais mentecapta e mentecaptizante que a anterior. Os níveis de analfabetismo da pátria não esmoreceram por aí além – continuamos os menos alfabetizados de todos. Em contrapartida, os de analfabrutismo dispararam, em todas as direcções, e colocam o país, senão no comando destacado do Primeiro Mundo, certamente muito próximo disso. Uma miríade de especialistas debruçam-se sobre coisa nenhuma e montam comissões de volta de cada palha. O resultado? É manifesto: Aos poucos, em fornadas anuais e sucessivas, os licenciados da pátria, cobaias de sucessivas Sextas Divisões de dinamização cultural, vão fazer companhia aos ex-soviéticos, a cartar massa pelos andaimes acima e, ocasionalmente, em voo picado, dos andaimes abaixo.
Não se trata duma injustiça: é, de facto, o nível da sua licenciatura, o alcance da sua educação. Num país que passa o tempo, numa compulsão obsessiva, a alcatroar terras, a erigir caixotes de betão e a terraplenar tudo o resto, outro destino não seria de esperar. Depois, é preciso não esquecer que desde que trolhas atávicos, por via do sortilégio de licenciatura à pressão, em patrocínio, repito, da farinha Amparo, tiveram acesso às cadeiras docentes e, nos últimos trinta anos, se refastelaram nelas a seu bel-prazer, produzir algo mais que trolhas, suas réplicas e decalque, seria impensável. A não ser por obra e graça do divino Espírito Santo.
Moral da história: Os políticos não educaram o povo, porque o povo não se auto-educa. E o Espírito Santo, de facto, obra, mas cobra juros.
Quarta-feira, Julho 06, 2005
A Maré negra (um ano depois)

Andei a recapitular os arquivos e descobri lá algo que convém ir repetindo, até à exaustão. Hoje, eu não diria melhor. Se bem que, um ano depois, há que dizê-lo de novo...
O que é preocupante, mesmo preocupante, na cultura deste país -sendo que desta deriva tudo, das artes às políticas, passando pelas ciências-, não são os analfabetos numerosíssimos, nem os semi-analfabetos ainda mais pululantes. Esses, todos esses, regra geral, lá se desenrascam, fazem das tripas coração, transcendem-se conforme podem. São conhecidos até casos meritórios, quase miraculosos. Não, a minoria sabichona, doutora, vanguarda da classe analfabeta, essa, em números galopantes, é que impressiona, alucina. Estudaram, aprenderam as letras, meia dúzia de números; infestaram, em regime de manada, universidades, faculdades e politécnicos. Mestraram-se e doutoraram-se, alguns, os piores (regra geral os pajens sabujos, as cortesãs, os acólitos). De aprendizes do servilismo, da papagaeira, da mimese ao pior nível da tropa macaca, tornaram-se mestres, campeões. A praxe virou escola e, por fim, a toque de rasgos inteligentes dignos de sargentada marteleira, de açougueiros alfarrabistas, a escola virou academia, antro, seita exotérica. E o problema -do país, da cultura, deles próprios-, foi precisamente esse. Mais valia que tivessem porfiado pela via honesta, agarrados à enxada ou à herança; fazendo algo de útil à comunidade ou pagando honestamente pelos próprios vícios, pelas putas. Sempre ginasticavam o corpo, a musculatura, o esqueleto, ou a gaita. Sempre poupavam o ralo da História e os cofres do Estado. Exercitavam o que tinham, desenvolviam as faculdades intrínsecas que os preenchem. E não, ao invés, de través e revés, aquilo que não têm, nem querem ter e só lhes serve de móbil para cultivar a raiva a quem tem; e o despeito, a inveja, o temor de ser descoberto, desmascarado, apeado do trono usurpado. Valia mais, mil vezes mais, serem dignos analfabetos do que infames analfabrutos. Gentalha que se serviu dum privilégio, do suor e (quantas vezes!) do sacrifício de pais e avós, do investimento público e nacional, enfim, não para burilar virtudes ou qualidades, mas apenas para aguçar egos, refinar vilezas, aprimorar defeitos ou destilar vaidades bacocas. Antes pobres de instrução, que indigentes de espírito! Assim, nem eles se cultivaram nem as batatas e os campos, que era o que lhes convinha cultivar, pois é a cultura máxima que alcançam e a pátria deles requeria. Pior: agora, é a cultura do país que lhes está entregue a eles (e elas), como o país está entregue à erva daninha, ao mato agreste e aos silvados. Resultado: grassa uma dupla desertificação: a do interior do país e a do interior das cabeças de quem era suposto dirigi-lo. Quer dizer: o deserto de ideias propagou-se aos campos do país. E aos mares. E aos céus. É o vazio em toda a parte. Nem sonhos, nem esperanças, nem vergonha, nem tino, nem ponta por onde se pegue.
Não contente de tocar rabecão, o sapateiro cismou de ser o maestro; não satisfeito com a missa, o merceeiro subornou o padre e trepou ao altar; e o marialva, não lhe bastando ir às putas quis também ir à nação: capacitou-se que se metia a gaita também podia meter a cabeça. Ou seja, meteu na cabeça a gaita, com todas as suas infinitas pintelhices, para gáudio e recreio das suas atávicas e cristalizadas faculdades - a bicefalia invertida e congénita, nem mais-: fornicar com a de cima e raciocinar com a de baixo. Entretanto, a labreguice, que distribuída pelos campos chega a ser pitoresca, amontoada nas cidades, atravancando e emporcalhando academias, salas de espectáculo e ministérios, redunda em mera poluição humana. Coalho pastoso, superficial, flutuante e nauseabundo. Faz as vezes da nata, pois faz. Mas uma nata negra, espessa, mortífera, como a dos grandes derrames. A ocidental praia, convertida em sepulcro de pescadores e marinheiros, está coberta por um manto fúnebre desses.
O badameco veio ser doutor, o borra-botas agora caga-postas. A macaquear os cavaleiros de outrora, também transita por aí armado, empertigado e fátuo. Não com a espada, mas com o grandessíssimo pingarelho. E onde quer que meta o pensamento, com a tramela no encalce, não demora o eco da caverna retumbante que lhe faz oca a rocha craniana. Na ausência de ideias próprias, vale-se do bedelho que mete por toda a parte.
E é esta a tropa fandanga que está aos comandos do regimento... Depois, venham-me cá dizer que o que faz falta é formação, ainda por cima unversitária... Quando o que existe é um sistema instalado de deformação, de torção, de selecção de moluscos e imbecis! Quando a puta da máquina está sabotada, transviada, invertida: não produz homens -quanto mais sábios, pioneiros, espécimes elevados-, só vomita chouriços. Cadáveres adiados que já mal procriam. Porque primeiro há que tratar da carreira, do ego, do cabrão do coiro e respectivas manias -essa novel agremiação de moléculas, joint-venture de células prometida aos vermes, e que os vermes vão já devastando por antecipação! Isso e, mal brotam da cloaca doutorante, porem-se logo a fungar a brisa, a escutar o murmúrio, à cata do prostíbulo onde melhor se possam vender.
Formação? Este país, a nível de mentalidades, está a precisar é dum valente clister!
Essa sim, essa é que é uma prioridade absoluta. Ou, no mínimo, uma dose maciça de anti-helmínticos.
...
PS: E, caso não tenham percebido, não é uma questão de berço nem escola. A massa é igual em toda a parte. Só a embalagem é que muda. O espírito não se adquire nem se herda. Nasce-se com ele, como se nasce com braços e pernas, cabeça e testículos (ou ovários). Ou nasce-se sem ele. Mistérios de Deus e da Natureza. Ide perguntar-lhes porquê. Interrogar é já um claro sintoma de inteligência; tal qual debitar ininterruptamente opiniões e anedotas alarvajadas o é da ausência dela. Sobretudo, quando se mascaram as anedotas de leis, discursos, pareceres técnicos ou tratados eruditos.
Não é nenhum drama não possuir inteligência. Drama mesmo, tragédia absoluta, é promover esse vácuo a espírito. Não é por se multiplicar múltiplas vezes o zero que se alcançam números formidáveis. A incontinência ainda não é uma forma de génio. Por muito que a vendam a peso de ouro.
Mau input, pior output. Chama-se a isto lógica.

«O jornal ‘Libération’ revelou que o presidente francês, Jacques Chirac, ofendeu a cozinha britânica durante um encontro em Moscovo com o presidente russo e o chanceler alemão: “Não se pode confiar em pessoas cuja cozinha é tão má”, terá dito Chirac.»
Tem toda a razão, sr. Chirac: uma gastronomia abaixo de cão.
Mas pior que tão ordinária confecção (ou ausência dela) só mesmo os efeitos devastadores sobre os comensais. Quer dizer, se a cozinha é bera, que dizer da filosofia? De facto, só mesmo uma ingestão metodica e ancestral de tais mistelas pode justificar a emissão ininterrupta de tamanhas bostas, logorreias e flatulências.
Entretanto, que uma seita de mosquinhas mortas cá da paróquia as achem uma delícia só abona das idiossincrasias da espécie. E da excelência do dejecto.
Cosmic-Cowboys Incorporated

Começaram com os índios, entediaram-se com os árabes e agora já andam aos tiros aos cometas. Em tudo o que mexa, eles atiram.
Além disso, sabendo que Deus matou os dinossauros à pedrada, não querem correr o mesmo risco. Petulâncias, enfim.
Facto indiscutível é que um novo e revolucionário passo acaba de ser dado: uma cultura de calhaus que se dedicava ao homicídio industrial experimentou pela primeira vez o fratricídio. E parece que gostaram. Tenhamos esperança.
Terça-feira, Julho 05, 2005
Anatomia da notícia (ou o Dragão a aquecer para o combate de logo à noite)

Durante muito tempo, a sucessão pressupunha encadeamento: os sucessos, os eventos, os factos, decorriam de outros que os precediam, causavam ou pré-determinavam; os acontecimentos inseriam-se num fluxo cósmico, histórico ou meramente mecânico. Parte manifesta dum Todo finito e orgânico -e, por conseguinte, compreensível, abarcável-, podiam ser explicados e compreendidos. Mais que quantificados, esses eventos, eram, então, qualificados, ou seja, definidos pelas suas propriedades e relações. Esse era um tempo de mitos, filosofias, poesias, histórias, religiões. Entretanto, tudo se alterou; tornando-se infinito, incomensurável, o universo tornou-se também inexplicável e, por consequência, incompreensível. Hipercomplexo, não pode ser mais contido numa história simples ou num qualquer paradigma ou fábula heróica. Labiríntico para lá do imaginável, nenhum fio lhe resiste. A ligação e o encadeamento esboroaram-se e perderam-se, quiçá, irremediavelmente; a sucessão dos acontecimentos deixou de ter qualquer nexo ou harmonia hereditária. Mais que suceder, cada novo evento depõe, usurpa e apaga o anterior; compete com milhões de outros simultâneos, rivais; emerge, destrona, disputa e dissipa-se. Num ápice, tão rápido quanto irrompe, é varrido, despenha. Tudo se resume a uma espécie de pirotecnia artificial nocturna: uma sucessão espectacular de assobios e explosões, concentrando basbaques e vigílias, obnubilando o céu e as estrelas. São milhares de foguetes não a anunciarem qualquer festa, mas a anunciarem outros foguetes, foguetes atrás de foguetes, anúncio do próprio anúncio, prelúdio perpétuo de coisa nenhuma. E o que falta em espanto, sobra em deslumbramento e estupefacção. A multidão, essa, pasma e embrutece. Diante de fervilhar tão intenso, de balbúrdia tão cintilante, apercebe-se do absoluto que irrompe fulminante em cada novo evento e do vácuo mais retumbante em que se precipita no instante seguinte. Vazio, esse, que, consequentemente, tem que ser preenchido por novos eventos e eclosões. Atesta como os acontecimentos, longe de meramente se encadearem -como alvitravam mentes pretéritas e obsoletas -, apenas se multiplicam. Percebe como, imune à explicação, o mundo é agora unicamente sensível ao cômputo, ao cálculo, ao balanço parcial. Cada evento, mais que a propriedade e a relação, importa, doravante, segundo o valor que apresenta. Este, pasme-se, confere-o a notícia. Acontece, de facto, o que é notícia. Isso é, na verdade, o que sucede, ou seja, o que emerge, ascende, irrompe. O resto, que borbulha e fervilha sob essa nata privilegiada, culminante, aspira por suceder, por ascender à superfície, por explodir no firmamento incendiado e flamejante. O Homo-blobglob, aliás, sabe que existe, que acontece, que ainda está vivo, pelas notícias. Na medida da importância em que o noticiário o reflecte e situa, assim se revê. A imagem que tem de si próprio, a sua auto-estima, os parâmetros do seu pensamento, dependem intimamente das notícias. Flutua com as bolsas e as cotações, angustia-se com as estatísticas e orçamentos; desespera com vaticínios e augúrios para a conjuntura internacional. Ainda por cima, cada nova notícia/evento, apesar de fugaz é sempre retumbante, apocalíptica, definitiva, única. E é também por tudo isso que ele, o indivíduo Blobglob, na maior parte dos casos, se reconhece na massa, donde não se demarca nem diferencia, onde chafurda e se resolve, onde fervilha e fermenta à espreita de uma oportunidade, de emboscada entre a fortuna e o acaso; aguardando, com avidez, um impulso, um jacto, um géiser que o projecte à superfície, à crista dos acontecimentos. Nesse limbo exasperante onde vermibula reside grande porção do pântano do seu descontentamento crónico. Atascado nele, mais que sonhar, planeia, conspira, anseia engrandecer-se, granjear notoriedade, dar brado e notícia, tornar-se motivo de novidade e interesse. Para o efeito, pratica uma nova e furiosa ascese: depura-se, liberta-se, emancipa-se de todos e quaisquer escrúpulos, princípios ou ideais. Redime-se de todas as ingenuidades e canduras. Reduz-se a mera máquina volitiva, aspiradora, haurifegante. Tenta vencer o pântano pela absorção.
Biblioplectria I

Para o título mundial de Chinesises abstrusas, super-pesados, esta noite, o combate do século (que ainda é uma criança)! Pela enésima vez, senhoras e senhores:
No canto esquerdo, de calções brancos, o campeão: Manel Kant, o relógio puritano de Konigsberg; no canto oposto, de calções pretos flamejantes, o desafiante: Ulisses Dragão, o iconoclasta virtual, ferrabrás do teclado.
O combate terá 15 assaltos. Do ponto de vista do campeão. Porque na perspectiva do candidato serão abordagens.
A apoiar o titular, respectivamente como treinador e aguadeiro, estarão David "Escocês" Hume e o cão Atma; nas mesmas funções, em socorro do desafiante, esforçar-se-ão Dino "Tarrafal" Sauro e o Caguinchas.
Como árbitro teremos o homem-dinamite em efígie: Fred Nietzsche, ele próprio; e na qualidade de júri alternarão as finalistas do último concurso Miss Universo.
"Vou massacrá-lo", prometeu já o belicoso Dragão, exibindo um kung-fu demolidor.
"O conceito transcendental à priori vai permitir-me desmontar-lhe as categorias do entendimento e reconduzi-lo a uma aporia espaço-temporal crítica, donde nunca deveria ter saído!" , garantiu o temível filósofo idealista.
Para já, a vida não parece fácil para o tresloucado candidato. Mas, mais logo, veremos.
Não perca! Sabata contra Sartana, aliás, Kant contra o Dragão, esta noite, nos bombeiros de Bloga-a-Bela!...
Segunda-feira, Julho 04, 2005
Por falar em música
O que ando a re-ouvir neste momento, e devo dizer que me sabe que nem ginjas, são estes rapazes:

Passem os ouvidos, pelo menos, pelas seguintes três faixas:
* Cross-eyed Mary
* Thick as a Brick
* Locomotive Breath
E depois digam-me se estes gajos não são uns autênticos flibusteiros sonoros, dignos de tocar à abordagem num qualquer bergantim de danados.
O tal de Ian Anderson usa mesmo o raio da flauta como se levasse um sabre nos dentes. Animais, é o que eles são!...
E agora vou regalar-me mais um bocado!...
Um cão especial
O cão Toby, um animal surpreendente, está naquela fase complicada das gulas inverosímeis. Presumo que o farejou primeiro, ao meu telemóvel. Depois, achando-o apetitoso, comeu-o.
Num ímpeto irresistível, não me contive. Condecorei-o.
O crachá das "Operações especiais" até nem lhe fica nada mal.
Se ele conseguir manducar a televisão, estabeleço-lhe uma Comenda.
Concurso "A Mão Invisível"

As incríveis potencialidades da "Mão Invisível" são:
a) Tocar inefáveis pívias ao mercado
b) Gamar carteiras com mais eficácia
c) Segurar a bengala do "Homem Invisível"
d) Não deixar impressões digitais no local do crime
e) Apertar firmemente a "mão-de-obra".
Escolha uma das respostas, responda em envelope lacrado para o Apartado 666, e habilite-se a uma viagem ao paraíso terreal: a China. Conheça o país do comunismo benigno, amigo da Banca e da Indústria. Veja como as nomenclaturas se tornam boas, desde que partilhem os lucros da escravização das massas com quem de direito. Relembre os tempos épicos da Revolução Industrial, agora em versão 2.0 Yellow, com especificações ISO9002.
Concorra já! A viagem ao "melhor dos mundos" pode ser sua.
Domingo, Julho 03, 2005
Interlúdio Musical

O Live Aid Não-sei-quantos foi um acontecimento musical. E nada mais que isso. Da choldra que por lá passou, não perco tempo com comentários.Basta dizer que considero os U2 uma grandessíssima merda. Calculem agora o resto da popezinha fast-sound que para aí se inocula aos mentecaptos e adolescentes do planeta, passe o pleonasmo.
Quanto a mim, o evento, musicalmente falando, valeu por dois momentos, não por acaso finais: ver os Floyd todos juntos de novo a tocar, empenhadamente, "Confortably Numb" e, surpresa maior ainda, assistir ao melhor músico vivo a dar o melhor show da noite. Quem sabe, sabe. E ele sabe. Eu julgava-o num asilo, mas, felizmente, o cavalheiro fez questão de me desmentir. Pois, o senhor Paul McCartney não só arrasou com uma garra, elegância e energia absolutamente incríveis para a idade, como se deu ao luxo de tocar ao vivo "Helker Skelter", a música maldita do White Album, aquela que Manson escreveu a sangue nas paredes do massacre de Sharon Tate. McCartney, todavia, possesso dum Lennon que o deve ter iluminado lá do Além, acompanhado por uns catraios nada coxos, tocou-a. Aos primeiro acordes, eu, estupefacto, disse para a Senhora Dragão: "Não é possível! Este gajo está doido...Com sessenta e tal anos não se vai atrever a berrar isto ao vivo!..."
Mas ele atreveu-se e berrou-a, meus amigos! Lá dos abismos! Exemplarmente! A um nível capaz de fazer corar os Zeppelin no seu apogeu. O cabrão do preto gordo na bateria não ficou a dever nada ao Bonham dos melhores dias.
Olha, Paul, vinte valores! Deus te abençoe.
E, de vez em quando, para variar, dá gozo ver alguém podre de rico que o mereça.
Sábado, Julho 02, 2005
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