No ano passado não queria fazer anos. Mais especificamente, não queria fazer dezasseis anos. Mais especificamente ainda, não queria fazer dezasseis anos porque achei que tinha passado os meus quinze anos a dormir e sem fazer nada de decente. Acabei por cometer um acto de delinquência juvenil com a rapariga mais bonita do mundo e por fazer uma festa de não-aniversário só com dois amigos meus num restaurante chinês e, embora tivesse tido várias festas de anos depois dessa, é nessa que penso quando me lembro dos meus anos no ano passado. Não no jantar em si, mas no "não-quero-fazer-anos-amanhã-por-isso-vou-não-fazer-anos-hoje".
Não é que entretanto tenha adorado ter dezasseis anos, mas já me conformei com o facto de a idade não voltar atrás. Estou triste, é claro, por só ter comemorado um dia de não-aniversário - soubesse eu o que sei hoje e a partir dos meus doze anos não teria feito outra coisa (agora já não faz sentido porque sou uma emo que perdeu o gosto à vida) - mas ainda me apetece ir cometer actos de delinquência juvenil com a rapariga mais bonita do mundo e dar beijos à chuva e partir o coração a alguém.
É que eu tinha uma lista, entenda-se: estava triste porque nunca tinha ido a Paris, nunca tinha cometido um acto de delinquência juvenil, nunca tinha dado um beijo à chuva, nunca tinha partido o coração a alguém e - não estava triste por isto - nunca tinha feito dezasseis anos. Fiz dezasseis anos sem ter feito nada disso. Tirando o acto de delinquência juvenil com a rapariga mais bonita do mundo. Ainda não fui a Paris, mas também já me conformei com isso. Fui a muitos sítios bonitos e um dia hei-de ir a Paris. (Os beijos à chuva... os beijos à chuva são mitos românticos, é como o sexo na banheira. Lá porque existe uma música a dizer que é bom não precisa de ser nada de especial. Para além de que a hora do banho é uma hora sagrada, não a vamos desperdiçar a fazer seja o que for que não seja apanhar com água na cara e apanhar com a água na cara e, se tiver mesmo de ser, cantarolar qualquer coisa.)
Daqui a trinta dias faço anos. A única coisa que quero é um pastel-de-nata para pequeno-almoço como no ano passado e um urso de peluche gigante como no ano passado, que desapareceu, coitado. Sofreu tanto. E se calhar até quero combinar uma festa de trinta pessoas em cima do joelho no próprio dia, como há dois anos, e se calhar até hei-de ir às campainhas com a Vera e a Carolina ,como há muitos anos.
(...e quando faltar só um dia para os meus dezassete anos, quando estiver em pânico por mais que tenha dito que não o ia fazer, vou ligar à rapariga mais bonita do mundo para irmos cometer um acto de delinquência qualquer e ao rapaz mais bonito do mundo para vir festejar o meu não-aniversário comigo, com a promessa de não ter de o fazer no dia seguinte, para no dia seguinte ele aparecer no meio da festa com um chicote e umas algemas, não me entendam mal, estava lá a minha avó e nós somos puros e castos.)