
Conhecidas as
projecções e os primeiros
resultados, é altura de avançar com os comentários às eleições de hoje.
Como todas as sondagens da última semana mostravam - e, desta vez, não se enganaram - Sócrates acabou por ser reeleito, perdendo, como se esperava, a maioria absoluta.
Como já aqui tinha escrito, votei Sócrates. Não votei PS, porque não sou socialista, mas votei porque Sócrates acabou por ser a solução menos má e as alternativas eram piores, sobretudo do lado do PSD, onde Ferreira Leite se limitou a mostrar a sua total incapacidade e, acima de tudo, impreparação para governar um país.
Neste momento, estou convencido que se tivesse sido Passos Coelho a concorrer, teria, muito provavelmente, vencido. O meu voto, por exemplo, já não iria para Sócrates...
Um último apontamento para o governo que será formado. Se se confirmar que o PS terá mais deputados que PSD e CDS/PP juntos (o que parece pouco provável), penso que deverá governar sem se coligar com mais nenhum partido. Ver-se-á obrigado a dialogar, a negociar, a ceder, a ouvir e, acima de tudo, a tolerar a opinião dos outros. Deverá fazer acordos pontuais em questões fulcrais, deverá perceber que nem sempre tem razão e ceder perante tal evidência. Considero positivo este resultado, já que raramente soube aproveitar a maioria absoluta. Porém, se o PSD e o CDS/PP manifestarem intenções de governar coligados, o PS fica obrigado a coligar-se. A minha preferência vai para o partido de Paulo Portas, por considerá-lo o mais capaz para governar entre as escolhas possíveis, mas tal não sendo possível, por força da primeira hipótese, deverá ser o PCP e por uma simples razão: entre PCP e BE foi o que menos guerreou o PS e deverá ser o mais tolerante a um entendimento com o PS. O BE elegeu Sócrates como o inimigo e bateria o pé nas mais diversas áreas, fazendo chantagem.
Concluo, então, com os vencedores e derrotados de hoje:
Vencedores1. Sócrates
Como já aqui tinha escrito, apesar de todas as acusações, todas as suspeições, todas as insinuações, resistiu e sobrevive, continuando como PM. Mas vence por fraqueza do adversário. Como em cima escrevi, se em vez de Ferreira Leite, o candidato do PSD tivesse sido Passos Coelho, muito provavelmente teria perdido.
Houve, todavia, vários contributos para que tivesse vencido: as gaffes de Ferreira Leite (e o sketch dos Gato Fedorento reunindo-as todas) e as suas ideias ultra-conservadoras, os debates televisivos, onde saíu-se bem e os seus adversários menos bem, a primeira página do Diário de Notícias do passado dia 18 de Setembro, a notícia do Expresso sobre o PPR de Louçã e, claro, a sua determinação.
2. Paulo Portas
Poderia dizer que foi o CDS/PP a vencer, mas o partido é, cada vez mais, de um homem só. Portas foi uma autêntica máquina nestas últimas semanas, fez a melhor campanha, apostando em questões-chave e temas centrais, fugiu às intrigas e apresentou ideias, mesmo que não concordemos com elas. O partido subiu no número de votos, capitalizando o descontentamento nas hostes laranjas e desconfiança em Ferreira Leite, aumentou a representação no Parlamento e pode mesmo vir a ser a terceira força política, estando, neste momento, "taco-a-taco" com o BE.
3. Francisco Louçã
Apontou Sócrates como o alvo a abater e apostou na perda da maioria absoluta. Conseguiu o segundo objectivo, se bem que Sócrates não saíu derrotado (no fundo, no fundo, acredito que prefira Sócrates a Ferreira Leite). O BE aumentou, em muito, o número de votos e de deputados, tendo sido, por isso, um dos vitoriosos da noite. Mas como o rosto do Bloco é Louçã (a maioria dos deputados agora eleitos pelo BE não so conheço), é ele o vencedor, tal como Portas no CDS/PP.
Derrotados1. Ferreira Leite
Era, dos cinco líderes, a menos preparada para o cargo a que concorria. Mostrou, ao longo de quase ano e meio, que não foi talhada para ser PM nem para liderar um país, muito menos num cenário de crise internacional. O sketch dos Gato Fedorento deveria ter sido a última machadada nas suas esperanças. Aliás, ainda hoje voltou a cometer uma gaffe ("um acto eleitoral composto por 3 actos eleitorais"). Mas não só. Certamente, dentro do próprio PSD houve muita gente descontente com as retaliações (com Passos Coelho), com as listas (Preto, Lopes da Costa) e com a estratégia adoptada (e com o estratega-mor, Pacheco Pereira). E, claro, a tal notícia do DN, de que o amigo Cavaco estaria a ajudá-la.
2. Jerónimo de Sousa
Foi tenrinho demais e, por vezes, deixou-me a sensação de que não queria atacar Sócrates em demasia, antecipando uma eventual coligação. Os comunistas não apresentam ideias, mas uma ideologia, que, como é sabido, é a mesma desde sempre. E perde um pouco para o BE ao não evoluir em certas áreas e certas posições.
Perdeu votos, perdeu mandatos e força. Depois das autárquicas, penso ter chegado a altura de dar o lugar a outro.
3. Cavaco Silva
Sobre o caso das escutas e da tramói de Belém, já aqui muito escrevi e deixei bem clara a minha posição. Considero, assim, ter sido um dos derrotados desta noite. Amanhã veremos se a assumirá.
4. Como
O Jumento escreveu, foram derrotados os canalhas, os pulhas, os amigos das reuniões da Aroeira e da Avenida de Roma, as corporações, os que vivem à custa das mordomias, enfim, todos aqueles que usaram meios ilegítimos para derrubar os que foram democraticamente eleitos.
5. A Comunicação Social
Perdeu e perdiria sempre, independentemente dos resultados, no sentido de que alguns orgãos se deixaram instrumentalizar por interesses obscuros e pela intriga e vingança política. Deveriam, depois de hoje, reflectir sobre o seu papel na sociedade e a forma como intervém na política.
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Correcção: o PCP acabou por ter mais um deputado do que em 2005, ao contrário do que as projecções apontavam. Não deixa de ser, porém, uma derrota (o objectivo era aumentar bastante o número de votos e deputados, capitalizando a diminuição do PS e passou para quinta força política), se bem que mais suave.