Domingo, Maio 24, 2009

O ensaio geral

Foi há 40 anos. Lançada a 18 de Maio de 1969, a missão Apollo 10 representava o último dos vôos orbitais lunares tripulados necessários para o teste de todos os sistemas que deveriam permitir, pouco depois, a chegada da primeira missão tripulada ao solo lunar. Sem o impacte mediático da Apollo 8 (a primeira a levar uma tripulação a orbitar a Lua, ainda por cima com noite de Natal passada lá longe), a Apollo 10 teve contudo um papel fulcral no assegurar de uma série de leituras e ensaios que garantiram o sucesso da Apollo 11, poucas semanas depois. A bordo da cápsula Apollo seguiram os astronautas Tom Stafford, John Young e Gene Cernan. Na imagem, a pequena cápsula em órbita lunar, no momento do rendez vous com o módulo lunar.

Música de fé e devoção

Vários compositores dedicaram grande parte da sua obra à expressão de uma devoção de cariz religioso. Messiaen é frequentemente apontado como um dos exemplos maiores de uma relação artística com a transcendência entre os compositores do século XX. Não é caso único e o britânico John Tavener (n. 1944) é autor de uma obra que toma a sua fé igualmente como referência central a muitas das composições. Membro da igreja Ortodoxa, Tavener conta entre as peças de referência com uma obra para orquestra, violoncelo solista e um soprano que reflecte sobre a protecção da Mãe de Deus, referência concreta a um dos dias santos no calendário ortodoxo. The Protecting Veil é uma das obras mais vezes gravadas entre o repertório de Tavener e nasceu de uma encomenda feita em finais dos anos 80 pela BBC, tendo os Proms (concertos promenade) como primeiro destino. A estreia ocorreu nos Proms de 1989, com a London Symphony Orchestra, com o viloncelista Steven Isserlis como solista). Entre as gravações disponíveis conta-se uma, pela Orquestra do Ulster, dirigida por Takuo Yuasa, com Maria Kliegel (violoncelo) e Eileen Hulse (soprano), editada em 1999 pela Naxos.

John Tavener nasceu em Londres em 1944 e é descendente diecto do compositor britânico do século XVI John Taverner. Ganhou nototiedade em finais dos anos 60 quando estreou a cantata The Whale, com a London Sinfonietta, obra que em 1968 gravou e editou pela Apple Records, onde lançou outras peças pouco depois. Nos anos 70 interessou-se pela igreja ortodoxa, convertendo-se a ela em 1977. A sua música é muitas vezes comparada à de Arvo Pärt mas na verdade a eventual proximidade não vai muito além da relação entre a obra e a religião e algumas afinidades formais (que mesmo assim o integram por vezes entre a “família” de autores de uma área muitas vezes designada por minimalismo sagrado). A obra de Tavener transcende muitas vezes as fronteiras de género e comunica para vários públicos com facilidade. Em 2004 chamou Björk para com ela gravar Prayer Of The Heart (editada em disco no catálogo da Naxos), na verdade um das mais interessantes momentos da obra da cantora na presente década. A sua obra recente mantém a fé como centro gravítico, mas alargou horizontes a reflexões sobre outras religiões.

Como explicam as notas no booklet da edição de 1999 de The Protecting Veil, na Naxos, esta obra revela uma música “intensamente estilizada, geometricamente formada e de carácter meditativo”. Há uma ligação directa entre a obra e a evocação da Mãe de Deus, segundo a tradição de uma festa ortodoxa que remonta ao início do século X. A festa assinala uma visão que terá dado força e protecção aos cristãos, nas vésperas de um confronto militar que terminou com uma derrota dos sarracenos. John Tavener tenta, como descreve o texto, “captar o que considera ser o poder quase cósmico da Mãe de Deus”, que na música é representada pelo som do violoncelo. The Protecting Veil é uma obra frequentemente apresentada em versão de concerto. A imagem (em cima) documenta uma experiência recente com músicos da orquestra da BBC e estudantes de dança da Universidade de Stanford, criando juntos uma abordagem de música e dança a esta composição de Tavener.



Imagens de uma animação digital qure toma como banda sonora um dos momentos de The Protecting Veil, de John Tavener.

Sábado, Maio 23, 2009

Contemporâneos e políticos

Manuela Moura Guedes, aliás, Manuel Marques em Os Contemporâneos

A série Os Contemporâneos continua a escalpelizar a nossa realidade televisiva -- este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 de Maio).

Quando vejo Os Contemporâneos (RTP1) a desmontar a pose, o estilo e o discurso de Manuela Moura Guedes no Jornal Nacional (TVI), não posso deixar de pensar no insólito de tal desmontagem. De facto, ao fazê-lo, assumem uma atitude de salutar contundência crítica que, em boa verdade, devia distinguir a própria classe jornalística (que, salvo honrosas excepções, se mantém indiferente à deturpação televisiva dos seus valores mais viscerais).
Acima de tudo, Os Contemporâneos conseguem fazer passar a mensagem de que importa superar a visão do jornalismo como um trabalho que, apenas porque celebra o fulgor da verdade, poderia ser dispensado da sua continuada problematização social. Que é como quem diz: mesmo admitindo que o Jornal Nacional seja feito apenas com materiais informativos legitimados por alguma fonte fidedigna, mesmo assim, isso não nos deve impedir de afirmar, serenamente, que se trata de um mau serviço prestado ao jornalismo. Porquê? Porque o jornalismo não se confunde com a insinuação, o alarmismo e a redução da realidade a uma espécie de prisão simbólica em que as personalidades públicas só podem existir como figuras angelicais de inocência ou monstros horrorosos de culpabilidade. Na prática, o “Jornal de Sexta” encarnou como paradoxo vivo de um delírio gerador de inevitáveis energias de compensação que, como é óbvio, favorecem os seus alvos preferenciais (José Sócrates e o Partido Socialista).
E é espantoso, insisto, que seja um programa como Os Contemporâneos a revelar o talento quase solitário de, em televisão, nos fazer reflectir sobre este estado de coisas. Trata-se, aliás, de um excelente exemplo para nos ajudar a perceber que não há nenhum “enfraquecimento” do humor por já não haver censura... Tal visão ignora que o tecido social se faz tanto de discursos explícitos como implícitos e que a própria noção de real é algo que permanece sempre em aberto (mesmo no espaço mais democrático). No caso do jornalismo, e em defesa do jornalismo, é preciso reafirmar o jornalista como um agente social que se deseja exigente, mesmo contundente, mas que não se pode confundir com um oráculo de verdade. Para tragédias gregas, já tivemos o Euro 2004.

Cannes 2009: 23 de Maio

Quando vemos em competição filmes tão banais e de tão falsa pompa como Map of the Sounds of Tokyo (Isabel Coixet, Espanha) ou Visage (Tsai Ming-Liang, Taiwan), é inevitável perguntarmos que lógicas podem justificar a sua inserção na competição. Claro que esta 62ª edição do Festival de Cannes foi de nível muito alto (Resnais, Haneke, etc., etc.), mas que dizer quando vemos produtos como estes, sabendo que Francis Ford Coppola ficou de fora porque a organização apenas lhe queria dar uma sessão de gala, extra-concurso...
Seja como for, importa reforçar a ideia de que o certame continua a ser uma montra admirável da variedade da produção con-temporânea, ao mesmo tempo que mantém uma importantíssima ligação com a memó-ria, também ela plural, da história. Símbolo forte dessa atitude é a secção 'Cannes Classics', um dos espaços do certame com mais significativo crescimento nos últimos anos. Nesta edição, a programação incluiu títulos de autores como Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard, Michael Powell/Emeric Pressburger, Luchino Visconti, Joseph Losey, Georges Franju, Jacques Tati... De Tati passou uma cópia restaurada de As Férias do Senhor Hulot (1953), cópia essa que não se destina apenas ao mercado do DVD. Assim, o filme será objecto de reposição em França, a 1 de Julho, a provar que, no mercado das salas, é possível preservar espaços de vocação especificamente cinéfila.

TV: jornalismo, futebol e... Minnelli

Que se passa na televisão? Algum jornalismo pueril, algum futebol não muito bem falado e... Vincente Minnelli! Este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 de Maio), com o título 'Veleidades televisivas'.

1. Com o passar dos anos, José Rodrigues dos Santos criou um curioso estilo pessoal de apresentador de telejornal: a postura hierática é, por assim dizer, pervertida pelas nuances dramáticas que introduz no texto e, em particular, pelo uso simbólico das mãos (por exemplo, para sublinhar oposições como “esquerda/direita”, “dentro/fora”, etc.). É tudo muito pueril e simplista, mas possui um pedagógico poder revelador. Apresentando-se ele como protótipo da objectividade, o seu corpo diz o que muitas formas de jornalismo televisivo insistem em recalcar: que somos também aquilo que fazemos com o corpo, ou melhor, que ter um corpo é o contrário de qualquer neutralidade. Roland Barthes, analista das ideias do corpo, adoraria observar estes lapsos cometidos em nome de uma ingénua crença na “verdade” e na “transparência”.

2. Não quero favorecer a noção grosseira segundo a qual os comentadores do futebol não sabem falar português. Além do mais, comentar um jogo em directo é um trabalho complexo, sujeito a erros frequentes e totalmente compreensíveis. Mas confesso que me incomoda o triunfo do mal falar. Assim, parece consagrada a generalização dos tempos infinitos a abrir frases (“dizer que...”). Agora, entrámos na ignorância das significações originais das palavras. Por exemplo: veleidade, esse “assomo de presunção” a que se refere o Dicionário Houaiss. Para alguns comentadores, a palavra passou a ser sinónimo de facilidade ou cedência: “a equipa está a dar muitas veleidades ao adversário...” Como? Importa-se de repetir?

3. A passar no canal TCM, descubro o clássico Deus Sabe Quanto Amei (1958), de Vincente Minnelli. No original Some Came Running, trata-se de uma pérola do classicismo de Hollywood, com Frank Sinatra, Shirley MacLaine e Dean Martin. E não posso deixar de confrontar aquilo que (re)vejo com a obscena linguagem das telenovelas. Porque Minnelli filma exactamente o mesmo: as atribulações amorosas, as convulsões sexuais, até mesmo o jogo de hipocrisias nas relações sociais. Mas não há comparação possível: de um lado, a paixão pela natureza humana; do outro, apenas a retórica de um conceito medíocre do comércio narrativo.

Echo & The Bunnymen, 1984

Editado em Maio de 1984 (há 25 anos, portanto), Ocean Rain, o quarto álbum dos Echo & The Bunnymen assinalou o atingir de uma linguagem pessoal que o grupo procurava disco após disco, mantendo firme uma identidade "independente", ligações claras a marcas do pós-punk britânico, mas abrindo espaço a novas presenças. Em cena entra uma definitiva afirmação por modelos pop de 60 (além dos Velvet Undregound, que surgiam nas entrelinhas da sua música desde os primeitos discos), convocando memórias várias, do melodismo dos Beatles ao mundo de supresas e mistérios dos Doors. Ocean Rain assinala ainda a materialização definitiva de uma curiosidade por uma mais eleborada cenografia, que já se indiciara no álbum anterior, mas que aqui ganha uma expressão quase sinfonista. Esta é a obra-prima dos Echo & The Bunnymen e um disco de absoluta referência entre a história pop britânica dos anos 80. Para o recordar, aqui fica o teledisco de Seven Seas.



Echo & The Bunnymen
'Seven Seas', 1984

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Cannes 2009: 22 de Maio

Se dúvidas ainda houvesse, o filme de João Pedro Rodrigues apresentado em 'Un Certain Regard', Morrer como um Homem [foto], bastaria para esclarecer que ele é um dos autores mais originais, e também mais radicais, do cinema português: o seu filme traduz-se numa invulgar viagem ao mundo da identidade sexual, seus fantasmas e revelações.
Morrer como um Homem centra-se na figura de António, aliás "Tonia" (Fernando Santos), um homem que se tornou vedeta de es-pectáculos de travestis e que ambiciona fazer uma operação para mudar de sexo. Num registo de realismo tendencialmente poético, evocando algumas experiências da primeira fase da filmografia de Rainer Werner Fassbinder, João Pedro Rodrigues desenha o labirinto de uma tragédia que começa na diferença sexual, se transfigura em fábula sobre os enigmas da identidade e desemboca numa respiração trágica que, de forma admirável, integra o sentido de destino do... fado. Pode dizer-se que, depois de Ne Change Rien, de Pedro Costa, o melhor do cinema português contemporâneo passou por Cannes.
Grande e, talvez, inevitável desilusão é The Imaginarium of Dr. Parnassus, o filme que o actor Heath Ledger estava a rodar quando faleceu. O realizador Terry Gilliam tenta "substituir" o ausente por três outros actores (Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell), mas o filme ressente-se de tanta atribulação: é um objecto de grande sofisticação técnica e, ao mesmo tempo, de completa arbitrariedade narrativa.

Rameau no século XXI

Apresenta-se como Private Domain, e é um projecto de colaboração que não só cruza o trabalho de vários músicos como abre pontes entre vários tempos, propondo reencontros com peças de compositores de outros séculos. Hoje, numa primeira visita a este disco propomos Here In This Place, uma leitura, vocalmente conduzida pela dupla Paul & Louise, que tem por base um fragmento da ópera Les Indes Galantes, de Rameau (1682-1764).

Ra Ra Weekend (ou Vampire Riot)

Rostam Batmanglij, dos Vampire Weekend e Wes Miles, dos Ra Ra Riot, vão editar, em Julho, o primeiro álbum do seu projecto paralelo, a que chamaram Discovery. Num dos temas do álbum colabora Ezra Koenig, o vocalista dos Vampire Weekend.

Os discos do futuro

O formato do disco, semelhante ao CD e DVD pode, afinal, não ter vida tão curta como multos lhe adivinhavam. Um grupo de investigadores em nanotecnologia de uma universidade australiana está a trabalhar num modelo que, sem aumentar as dimensões do disco, multiplica por dois mil a sua capacidade de armazenamento. Chamam-lhes discos a "cinco dimensões".

Mais informação aqui.

E chega o cinema

O universo Star Trek chegou às salas de cinema em 1979 com Star Trek: The Motion Picture, um filme que, na verdade, nascera de um trabalho de pré-produção destinado a criar uma segunda série de televisão. Foi aproveitado (e desenvolvido) o argumento do episódio-piloto, mantendo-se as novas personagens Ilia e Decker, todavia com Leonard Nimoy a retomar o papel de Spock (em vez do novo vulcaniano Xon). Com novos cenários e, sobretudo, um orçamento mais volumoso, o realizador Robert Wise explorou as imagens, revelando o filme uma faceta contemplativa em paralelo com uma narrativa de (alguma) acção. A história passa pelo encontro com uma gigantesca estrutura que, na verdade, revela no seu anterior uma antiga sonda terrestre: a Voyager. O filme foi um sucesso de bilheteira, abrindo alas a uma história de presenças regulares no grande ecrã, a mais recente acabada de estrear.

Essencial?

Discografia Duran Duran - 64
'The Essential Collection' (compilação), 2007

Editada em Janeiro de 2007, a compilação The Essential Collection foi mais uma simples operação “baralha e volta a dar” com base no catálogo “clássico” dos Duran Duran. O alinhamento não foge muito ao que em 2000 tinha já sido explorado pela antologia mid-price Girls On Film: The Collection, concentrando todo o alinhamento em temas editados entre 1981 e 1982. A capa usa uma fotografia promocional dos dias de Rio.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Cannes 2009: 21 de Maio

Não será, por certo, através de À l'Origine, de Xavier Giannoli, drama baseado em factos verídicos, que a França renovará as suas vitórias no Festival de Cannes. Em todo o caso, também na selecção oficial, mas fora de competição, foi bom descobrir a estreia na realização de Fanny Ardant (com produção de Paulo Branco): chama-se Cendres et Sang e é uma bela viagem a uma ideia mitológica da família e das suas paixões internas.
O grande filme desta quinta-feira foi The Time that Remains, de Elia Suleiman, cineasta palestiniano de quem conhecemos no mercado português Intervenção Divina (2001). Desta vez, ele faz uma espécie de itinerário simbólico da existência dos palestinianos, começando em 1948 e registando a violência, os sofrimentos e também o absurdo que a história lhes reservou. O filme oscila entre a crueza da memória e um delirante sentido de burlesco, com o próprio Suleiman [foto] a viver/representar a saga da sua família. Ele é, afinal de contas, um admirável gestor das formas e das suas significações políticas.

João Bénard da Costa (1935 - 2009)

Homem do cinema, crítico, ensaísta, investigador, director da Cinemateca, personalidade fundamental na história do cinema português do último meio século, João Bénard da Costa faleceu aos 74 anos, vítima de doença prolongada.
* * * * *
Assinado pelo seu presidente, Gilles Jacob, o Festival de Cannes divulgou o seguinte comunicado:

Cannes, 21 Maio 2009

O festival tomou conhecimento, com pesar, do falecimento de João Bénard da Costa, director da Cinemateca de Lisboa, fundador do movimento cinclubista em Portugal. Professor e historiador do cinema, João Bénard da Costa era um erudito, um homem fino, cultivado, delicioso, que deu muito ao cinema português. Ainda no ano passado, ele esteve em Cannes acompanhando Manoel de Oliveira para assistir à homenagem que o festival lhe prestou. Querido por todos, homem do coração, foi o seu coração que acabou por ceder. Inclino-me perante a sua memória e dirijo à sua família a emoção e os sentimentos do festival.

* * * * *

Desde os tempos da revista O Tempo e o Modo e do combate cultural e político contra o salazarismo, até ao trabalho na Cinemateca Portuguesa -- primeiro nas direcções de Félix Ribeiro e Luís de Pina, depois já no cargo de director --, João Bénard da Costa foi um homem de combate pelas ideias e pelos seus valores humanos. Por certo desencadeando concordâncias e divergências, mas sempre conduzido por uma genuína paixão pelas coisas do cinema que, além do mais, se traduzia numa preocupação crescente com a defesa do património cinematográfico. Neste aspecto, importa destacar o seu papel determinante (juntamente com José Manuel Costa) na aprovação, construção e colocação em funcionamento do ANIM, Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, hoje uma instituição fundamental numa política de defesa das memórias cinematográficas e televisivas do nosso país.

* * * * *

O texto que se segue foi lido na Antena 1:

Quando falamos de João Bénard da Costa, é inevitável lembrarmos o estudioso da história do cinema, o analista metódico do cinema português e também o homem da Cinemateca, sempre empenhado na defesa do património fílmico.
Mas, do tempo em que trabalhei com ele, precisamente na Cinemateca, nos anos 80, gostaria de lembrar, sobretudo, a vontade de descoberta. Ou seja: o João Bénard era alguém que nunca desistia de descobrir, de continuar a descobrir o cinema e as suas convulsões. Isso tem um nome muito especial: cinefilia -- e é uma belíssima herança.

Discos da semana, 18 de Maio

A vontade em estabelecer diálogos entre os domínios da música pop(ular) e os da “clássica” é coisa antiga, com episódios vários, para o melhor e para o longe disso. A história do estabelecimento de pontes entre mundos que outrora viveram quase como que separados por muros (e ainda vai havendo quem neles acredite) lembra como fulcral o episódio deliciosamente “sacrílego” de Walter Carlos (hoje Wendy) em 1968 quando, munido de sintetizadores, gravou um disco com peças de Bach... Um disco que chegou aos ouvidos de Kubrick, desafiando este o músico a trabalhar na banda sonora da sua Laranja Mecânica, onde semelhante abordagem revinventou então a música de Beethoven e Rossini... Nas quatro décadas que nos separam de Switched On Bach, os dois mundos cruzaram-se várias vezes, com desfios lançados de ambos os lados. Philip Glass, Steve Reich, John Adams, Todd Levin, entre outros, ensaiando olhares sobre a pop (e suas periferias). William Orbit, Susumu Yokota ou Scott Walker, entre outros mais, experimentando percursos além das fronteiras “clássicas” da pop... Já este ano, com discos de Ambrose Field e Murcof (respectivamente Being Dufay e The Versailles Sessions) assistimos a mais duas importantes propostas de diálogo entre géneros e tempos, ambas reflectindo contudo uma mudança de postura que não crê mais em barreiras de género, antes, no alargar de horizontes de referências, formas e soluções instrumentais a abordar. Em centa entra agora mais um disco precisamente no mesmo comprimento de onda. Private Domain é um esforço colectivo que conta com Iko (com formação clássica em direcção e canto) como pólo que a si junta as presenças de nomes como os de Murcof, Emilie Simon, Marc Collin ou a dupla Paul & Louise. Juntos actuam sobre peças (ou excertos) de nomes de vários tempos, de Monteverdi a Schubert, de Rameau a Fauré, abordando-as numa lógica semelhante à que assiste, habitualmente, à construção de uma versão de uma canção de um outro autor. Private Domain é, contudo, mais que um parente próximo do modelo do disco tributo. A soma das presenças criativas opera sobre os originais, neles colhe pistas, fragmentos, que transforma em novas realidades. E da leitura pop de ecos da obra de Rameau pela dupla Paul & Louise à reinvenção de um madrigal de Monteverdi como canção electrónica por Murcof, abrem-se portas de descoberta que, definitivamente, chamam atenções para todo um vasto mundo de referências e obras que a criação contemporânea, na idade da cultura híbrida e fragmentada, pode (re)descobrir.
Iko invites...
“Private Domain”
Naïve Records
4 / 5
Para ouvir: MySpace


Há já alguns meses que, por estas terras, não se fala de outra estreia: a d’Os Golpes. E com razão. Não apenas porque há muito que não víamos uma banda pop portuguesa a definir, com eficaz sentido de estratégia, o caminho para a entrada em cena de um primeiro álbum. Mas também porque, agora finalmente revelado, o álbum em tudo responde às expectativas que pelo caminho foram lançadas. Em tempos chamaram-se 400 Golpes (como os Les 400 Coups do filme de Truffaut). Investiram na demanda de uma identidade, caíu o “400”, ficou um caminho atento a um conjunto de heranças com geografia e cultura demarcadas: as do aqui, mas não apenas as do agora. Recuperando toda uma simbologia (que não mais faz que o vincar de uma personalidade), os Goples mostram nas canções de Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco sinais estimulantes de uma relação tranquila com a memória, sem que tal os distancie ou alheie do presente. Não são, é certo, os primeiros a fazê-lo entre uma nova geração de bandas que encontrou na nossa música um ponto de partida e no português uma língua oficial. Mas ao panorama de (re)encontros no presente juntam a redescoberta de legados que pareciam esquecidos e sem herdeiros na vida pop nacional: o Corpo Diplomático, os Heróis do Mar, a Sétima Legião...Bandas que desbravaram terreno num tempo em que o desafio que se colocava era o de encontrar, pelo prisma de uma identidade portuguesa, formas de assimilar uma música moderna que chegava de portos pop anglo-saxónicos. 30 anos depois, os Golpes voltam a ir para fora cá dentro. Estão atentos ao presente pop/rock, mas juntam ao que escutam uma alma que tem latitude e longitude por estas bandas... Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco é, assim, mais um disco a juntar a um lote que está a fazer de 2009 mais um ano poderoso em acontecimentos na música portuguesa.
Os Golpes
“Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco”
Amor Fúria / Mbari
4 / 5
Para ouvir: MySpace


Com uma carreira “subterrânea” desde o início da década, Richard Swift só se fez realmente notado quando, em 2005, a Secretly Canadian juntou dois dois seus primeiros álbuns (um deles até então fechado na gaveta, o outro editado apenas em vinil e vendido em concertos) como The Richard Swift Collection – Vol 1. Revelava-se um cantautor de afinidade “beatlesca”, com claro gosto pela exploração, em terreno lo-fi, de ambientes, molduras e texturas para as suas canções. O álbum teve sucessor, em 2007, em Dressed Up For Letdown, disco que curiosamente passou a leste de muitas atenções. Seguiram-se depois os episódios “não canónicos” Music For The Films Of Richard Swift e Richard Swift as Onassis, duas experiências com pontuais focos de interesse mas distantes, muito distantes, do cantautor que cativara admiradores em finais de 2005. O novo The Atlantic Ocean é, assim, um disco para “fazer as pazes” com a canção. Regressa o Richard Swift melodista, herdeiro de escolas clásicas (dos Beatles a Harry Nilsson), juntando frequentemente mais temperos electrónicos a canções que revelam contudo afinidades evidentes com os álbuns de 2005 e 2007 (de que este, na verdade, é o real sucessor). O cativante tom lo-fi de outros tempos cede lugar a uma música mais cuidada na arte final. Mas a identidade do autor, afinal, revela-se intacta.
Richard Swift
“The Atlantic Ocean”

Secretly Canadian / Popstock
3 / 5
Para ouvir: MySpace


Entremos numa máquina do tempo, daquelas feitas em casa, e primamos os botões, marcando o destino: 1986. A máquina dá uns solavancos. Pchh.. fshhh... Pshhhh... E pára de novo. Ouve-se música... O gira discos, na garagem onde a máquina do tempo está instalada, toca um álbum. Roda a faixa de abertura, Contender, e pelo som não restam dúvidas. Perfeito, a máquina anda mesmo no tempo, pensamos. Pegamos então na capa do disco... The Pains Of Being Pure At Heart, lê-se... Consulta-se mais informação e faz-se gelo: “recorded in 2008”... Desfaz-se a fantasia! Em 1895, uma máquina do tempo foi ponto de partida para um belíssimo romance “científico” (assim lhe chamava então) de H.G. Wells. Mas, mais de cem anos depois, é engenhoca ainda por inventar. Todavia, um disco quase pode criar a ilusão. E para viajar até 1986 não há melhor banda sonora que o álbum de estreia desta banda indie nova-iorquina. Em dez canções aplicam, a preceito, soluções de forma que evocam os dias em que bandas como os Jesus & Mary Chain, Wedding Present, Ride (que só surgiram em 1988) ou Soup Dragons escreviam o que de novo a pop tinha para nos contar. Melodismo intenso, de escola pop a evocar modelos de 60, mas em regime eléctrico, com gosto pelas texturas de distorção. 23 anos depois, os Pains Of Being Pure At Heart revisitam o livro de estilo da geração “C86”. Juntam-lhe canções novas, suas. Algumas delas belíssimas, é bem verdade. Mas desprovidas de marcas de personalidade realmente interventiva sobre as referências convocadas, limitando-se a mimetismos e jogos de espelhos. Não serão uma banda-tributo que toca originais (porque revelam capacidade de fazer boas canções e de as moldar a uma ideia). Mas parecem não querer ir muito para lá do retrato dos discos e bandas que gostam de ouvir. É pena!
PS. Moral da história: não deixar a capa do disco ao pé da máquina do tempo.
The Pains Of Being Pure At Heart
“The Pains Of Being Pure At Heart”
Fortuna Pop
3 / 5
Para ouvir: MySpace


Editado em finais de 2006, Jarvis assinalava a estreia em álbum de Jarvis Cocker, uma das mais carismáticas e musicalmente consequentes figuras da pop britânica dos anos 90 (com carreira que, na verdade, remontava a meados de 80). O álbum mostrava um homem em busca de novo rumo, entregue a uma mão cheia de canções que, salvo pontuais excepções, em nada traduziam os adjectivos com que o seu autor até então era reconhecido. Agora surge Further Complications... E o título não podia ter sido mais bem escolhido, revelando o disco que o que parecia uma desorientação pós-Pulp ganha agora amplitude de desnorte. Gravado com Steve Albini na mesa da produção, este é um álbum de alma eléctrica, com ambientes que evocam memórias várias de 70, do glam rock ao prog rock... O divórcio recente do músico pode indiciar o clima emocional menos tranquilo que as canções traduzem. O “espírito” e o tom jocoso do observador e comentador do quotidiano que escutávamos noutros tempos está mais ausente que nunca. Restam alguns instantes com interesse relativo... Mas estamos longe, muito longe, do ícone que fazia a agenda pop na Inglaterra de outros tempos.
Jarvis Cocker
“Further Complications”
Rough Trade / Popstock
2 / 5
Para ouvir: MySpace


Também esta semana:
The Field, Manic Street Preachers, Madness, Passion Pit, Tangerine Dream (reedições), Jeffrey Lewis, The Vaselines, Tori Amos, Lightning Seeds, Passion Pit, Tom Tom Club (reed.), Kronos Quartet

Brevemente:
25 de Maio: Grizzly Bear, Phoenix, Siouxsie & The Banshees (live), Iggy Pop, Iron & Wine, Pink Mountaintops, Loop
1 de Junho: Patrick Wolf. Eels, John Vanderslice, Foreign Born, Elvis Costello, Franz Ferdinand (dub)
8 de Junho: Sonic Youth, Little Boots, Kasabian, Placebo, The Housemartins (reedição), Neil Young (archives), Orbital

Junho: Regina Spektor, Tortoise, Duran Duran (reedições + DVD), VV Brown, Jeff Buckley, George Harrison, Frankmuzik, Peter Hammil, Chris Isaak, God Help The Girl, Gossip, Dirty Projectors, Fiery Furnaces, Wilco, Carminho, Moby
Julho: Chris Garneau, Florence and The Machine, Cass McCombs

Quarta-feira, Maio 20, 2009

Cannes 2009: 20 de Maio

Já a entrarmos no terço final da 62ª edição do Festival de Cannes, vale a pena sublinhar que tem sido um certame pleno de contrastes fascinantes. E, como se esperava, com vários autores habitués a retomar e reconverter algumas componentes fundamentais dos respectivos universos criativos. Assim aconteceu com Quentin Tarantino, com o muito aguardado Inglourious Basterds, e Michael Haneke, com Das Weisse Band.
O caso de Tarantino é, sem dúvida, o mais espectacular, quanto mais não seja porque ele visa uma reconversão quase surreal do clássico filme de guerra, criando uma espécie de ficção em segundo grau que, momento a momento, vai problematizando a própria possibilidade de convocar referências exteriores ao universo em que se move. Vale a pena dizer, a esse propósito, que Inglourious Basterds até consegue integrar na sua banda sonora uma canção como Putting Out the Fire, de David Bowie, originalmente pertencente ao filme Cat People (1982), de Paul Schrader -- convenhamos que ouvir Bowie numa cena de Paris, durante a ocupação nazi, tem tanto de impossível como de irresistível...
Quanto a Haneke, filma desta vez o ambiente de uma pequena comunidade rural nos tempos que antecedem a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Rodado num preto e branco austero e envolvente, Das Weisse Band é mais um caso exemplar do labor de um cineasta que não se cansa de problematizar e interrogar os fantasmas da história alemã.

Bicicletas de Bombaim (em Londres)

Chamavam-se Mumbai Tandem Organisatiom, mas agora respondem como Bombay Bycicle Club e são uma banda a seguir com atenção. Vêm de Londres, mas tomam como referências uma série de nomes americanos, dos Strokes aos Sonic Youth, passando pelos incontornáveis Velvet Underground. O novo single, Always Like This, contudo, mostra-os por terrenos não muito distantes da pop à la Vampire Weekend. Aqui fica o teledisco.

Ingmar Bergman, segundo os Sparks

Os Sparks estão a compor um musical para a rádio sueca. Tem por título The Seduction of Ingmar Bergman e será transmitido em estreia em Agosto, numa versão original em sueco. O grupo está igualmente a trabalhar numa versão em inglês e tenciona, depois da estreia radiofónica, levar este seu musical aos palcos.

Tributo a Judee Sill

Judee Sill, uma cantora de folk com breve carreira nos anos 70 (morreu em 1979) vai ser brevemente evocada num triubuto no qual participam nomes como Final Fantasy, Bill Callahan, Beth Orton ou David Rossen (dos Department Of Eagles e Grizzly Bear). O álbum, com o título Crayon Angel: A Tribute To The Music Of Judee Sill, vai ser editado a 22 de Setembro.

O melhor 'Star Trek'...

O novo filme Star Trek é, segundo os leitores do Sound + Vision, o melhor da história da saga, tendo colhido 48 por cento dos votos. Em segundo lugar surge o clássico filme de Robert Wise que estreou a saga no grande ecrã, em 1979. Os filmes com o elenco da Next Generation ficam no fim da tabela, o mais bem classificado dos quais sendo The First Contact, com 2 por cento.

Star Trek (2009) – 48%
Star Trek: The Motion Picture (1979) – 17%
Star Trek II: The Wrath Of Khan (1982) – 15%
Star Trek VI: The Undiscovered Country (1991) – 5%
Star Trek V: The Final Frontier (1989) – 4%
Star Trek III: The Search For Spock (1984) – 3%
Star Trek: First Contact (1996) – 2%
Star Trek IV: The Voyage Home (1986) – 1%
Star Trek Generations (1994) e Star Trek: Nemesis (2002) – 0% (*)
11º Star Trek: Insurrection (1998) – 0%

(*) Ambos os filmes com votação superior a Insurrection.


A série original de Star Trek, produzida em finals da década de 60, foi entretanto votada como a melhor das aventuras televisivas da Enterprise, com 60% dos votos. Em segundo lugar, com 18%, surge a Next Generation. Em terceito, Star Trek: Enterprise, com 9%. E em quarto, ex-aequo, as séries animada, Deep Space Nine e Voyager, com 3%.


Aproveitámos o momento para perguntar aos leitores do Sound + Vision qual era a melhor série televisiva de ficção científica. Aqui a votação foi disputada, com Espaço 1999 a somar apenas mais um voto que os Ficheiros Secretos, mesmo assim sagrando-se a vencedora. Igualmente destacada na votação surge Battlestar Galactica, certamente pelos feitos da série recente e não da original...

Espaço 1999 – 26%
Ficheiros Secretos – 25%
Battlestar Gallactica – 23%
Star Trek – 8%
V – Batalha Final – 4% (*)
Babylon 5 – 4%
Dr Who – 3%
Buck Rogers e The 4400 – 1%
10º Stargate SG-1 – 0%

A "avó" Ida

É certamente uma das descobertas do ano. Chama-se Ida, e é um fóssil com 47 milhões de anos, no qual foi identificado o que parece ser o elo de ligação entre os primatas e animais mais primitivos. Ou seja, um antepassado nosso. De dimensões pequenas e com o aspecto próximo de um lémur, o fóssil revela um impressionante estado de conservação, permitindo observar vestígios do pêlo que cobria o animal, assim como restos do que terá sido a sua última refeição. O fóssil deste animal a que foi dado o nome científico Darwinius masillae foi encontrado no início dos anos 80 na Alemanha e nos últimos anos foi estudado por um paleontólogo norueguês. Ida está agora em exposição no American Museum of Natural History, em Nova Iorque. Um documentário sobre a descoberta começará brevemente a circular por vários canais de televisão.
A descoberta está detalhadamente relatada um artigo da revista científica Plos One, que pode ser encontrado aqui.

Terça-feira, Maio 19, 2009

Cannes 2009: 19 de Maio

Sabine Azéma dirigida por Alain Renais: um jogo de espelhos, de facto. Ou ainda: uma situação clássica que classicamente regressa num filme de clássica e desconcertante depuração, quer dizer, esplendorosamente moderno. Chama-se Les Herbes Folles e é um dos momentos de pura alegria criativa de Cannes 2009.
Desta vez, Resnais parte de um romance de Christian Gailly (L'Incident) para criar uma teia de acontecimentos que desconcertam qualquer determinismo, seja ele factual, afectivo ou moral: Azéma fica sem o seu saco, roubado por esticão, e André Dussolier encontra a sua carteira no chão de um parque de estacionamento. A partir daí, gera-se um labirinto de laços e enlaces que, de uma só voz, interroga as razões (ou a ausência delas) do impulso amoroso e pulveriza todas as regras da narrativa fílmica. Se quisermos uma definição fácil, mas porventura sugestiva, diremos que, quase meio século depois, esta é uma reinvenção de um dos clássicos do autor, O Último Ano em Marienbad, agora cruzado com os sobressaltos da comédia romântica.
Grande acontecimento foi a passagem de I Love You Philip Morris, estreia na realização da dupla de argumentistas Glenn Ficarra/John Requa, no âmbito da Quinzena dos Realizadores. É uma história de amor entre dois homens, interpretados pelos fabulosos Jim Carrey e Ewan McGregor (Carrey esteve na sessão das 14h00, de terça-feira, no Palais Stéphanie), história que integra de forma brilhante as formas de uma cultura genuinamente queer: trata-se de (re)pensar as relações amorosas para além da diferença de géneros, pelo caminho propondo um relançamento brilhante de alguns dispositivos clássicos da comédia. Vale a pena ver o trailer.

Na floresta

Os Modest Mouse têm novo disco a caminho. A editar em Agosto, será um EP que juntará alguns inéditos a temas editados em lados B de singles retirados dos seus dois últimos álbuns. Um primeiro avanço para o novo EP chega na forma de um single. Trata-se de Satellite Skin, que hoje apresentamos num teledisco realizado por Kevin Willis.

Na hora das remisturas

O novo single dos Depeche Mode, Peace, vai apresentar uma série de remisturas de temas do seu mais recente álbum, assinadas por figuras de primeiro plano. Jónsi Birgisson, vocalista dos Sigur Rós, apresenta uma nova versão de Come Back, que estará apenas disponível na versão em vinil, a sete polegadas, do single. Na versão em CD surgirá uma remistura de Fragile Tension pelos MGMT.

Florida, ano 2000

O intenso ano político que 2008 foi para os americanos não se esgotou numa das mais mediáticas campanhas eleitorais da história. O universo da ficção televisiva (e cinematográfica) assimilou então uma agenda de interesses que rapidamente se materializou em filmes e séries com a presidência americana como peça central. Um dos casos mais interessantes da produção de ficção para televisão na América de 2008 evocou, num magnífico tele-filme (já editado em DVD em alguns territórios), os dias de tensão que a Flórida conheceu no ano 2000, quando de uma efectiva recontagem dos votos poderia ter resultado um futuro bem diferente para a política americana.
.
Produzido para a HBO por Kevin Spacey, que assume também o papel protagonista, Recount: The Story Of The 2000 Presidential Election inicia a narrativa no dia da eleição presidencial de 2000, ao fim do qual Al Gore telefona uma segunda vez ao candidato adversário, não “concedendo” assim vitória a George W. Bush. As atenções deslocam-se então para a Florida, onde o filme acompanha a “novela” legal que então tomou os noticiários do mundo, as petições para recontagem de votos, as esperas, as opções, os boletins de voto olhados à transparência... Até à decisão final que atribuiu os votos do estado ao candidato republicano e a ele, consequentemente, a presidência dos EUA.
Com um fabuloso elenco onde encontramos actores como Laura Dern, John Hurt ou Tom Wilkinson, Recount (realizado por Jay Roach) vai mais longe que o mero registo docu-drama. Não apenas porque escuta, com igual curiosidade, os bastidores de ambas as candidaturas. Mas porque a cada figura atribui um corpo de ansiedades e dúvidas, de expectativas e combatividade. Parte do mundo real, inclusivamente de algumas entrevistas de preparação com as figuras que então escreveram a história. Mas delas segue em frente para criar um drama político com a carga emotiva de um duelo de gigantes. Houve críticas. Seriam inevitáveis... Aqui e ali foram apontadas pequenas imprecisões. Mas ninguém apresentou Recount como um documentário!

Quadros numa exposição

John Squire, que em tempos integrou os Stone Roses e nos últimos anos tem privilegiado o seu trabalho como artista plástico, vai brevemente apresentar em Inglaterra a sua primeira grande exposição individual. A exposição, ‘Heat, Light, Death & Industry’ inaugura a 7 de Julho na Gallery Oldham, ali devendo ficar patente até 5 de Setembro.

Site oficial de John Squire aqui.

A segunda série que nunca nasceu

Durante a década de 70, a transformação de Star Trek de um pequeno “caso” de sucesso televisivo num culto com novo potencial a explorar chamou a atenção da estação de televisão que, anos antes, havia decidido colocar um ponto final à série original. Em finais da década, a Paramount deu luz verde à pré-produção de uma nova série, que contaria com grande parte do elenco original, à excepção de Leonard Nimoy. A série, que teve como título de trabalho Star Trek: Phase II, contava com três personagens novos: um vulcaniano (Xon), uma deltóide (Ilia) e um humano (Decker). Os cenários chegaram a ser desenvolvidos, assim como o modelo de uma nova Enterprise. Os argumentos para os 13 primeiros episódios estavam já a ser escritos, um deles, In Thy Image (o piloto) entretanto concluído. Porém, o sucesso recente de filmes como A Guerra das Estrelas e Encontros Imediatos do Terceiro Grau levou a Paramount a abandonar a ideia de levar uma nova série ao pequeno ecrã e apontou o projecto que estava a desenvolver para uma estreia da saga no cinema...

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Cannes, 2009: 18 de Maio

O autor recorda a morte de Irène, sua mulher, em 1972, vítima de um acidente de automóvel. Passaram-se mais de 30 anos e relê os seus diários da época. Ao manusear os registos de 1971, decide queimá-los com o fogareiro de campismo. Ainda aproxima o livrinho da chama, chamuscando a contracapa, mas depois desiste.
Parece um episódio de um melodrama convulsivo. E, num certo sentido, é mesmo. Em Irène (selecção oficial, 'Un Certain Regard'), Alain Cavalier prossegue a sua saga digital e "amadora": quatro anos passados sobre Le Filmeur (também apresentado em Cannes), faz mais um filme radicamente pessoal, utilizando a sua pequena câmara para percorrer memórias pessoalíssimas, como quem está a reconverter a própria vocação subjectiva do acto de filmar. Discretamente, este produto de um cinema "pobre", é das coisas mais fascinantes de todo o festival.
Quem também permanece fiel às componentes do seu universo, é o italiano Marco Bellocchio: o seu Vincere (a concurso) evoca a personagem fascinante de Ida Dalser, mulher "não oficial" de Benito Mussolini que acabaria por ser marginalizada e internada num asilo. É um grande filme histórico, conseguindo um notável equlíbrio dramatúrgico entre as experiências individuais e as dinâmicas colectivas.

Música para dançar

Os Gossip estão de regresso, e anunciam para 23 de Junho a edição de Music For Men, um novo álbum de originais. O avanço para o álbum já é conhecido. Aqui fica Heavy Cross, o primeiro single.

Gorillaz em 2010?

Os Gorillaz poderão ter um novo álbum de originais em 2010. A notícia foi avançada pelo manager do projecto à BBC6, revelando então que Damon Albarn tem canções para dois álbuns de Gorillaz, acrescentando que esta música não deverá ser contudo revelada antes de 2010, uma vez que o músico está neste momento a trabalhar num novo disco com os Blur. A mesma notícia não dava como certa a edição destas novas canções no formato de um ou dois álbuns, estando também a sua arrumação e edição por decidir.

Em risco de não ser editado...

O novo álbum de Danger Mouse, em colaboração com Sparklehorse, David Lynch e uma série de convidados (de Julian Casablancas, dos Strokes, a Black Francis, dos Pixies), ou seja o muito falado projecto Dark Night Of The Soul, está em risco de não chegar a ver a luz do dia. A BBC dá conta de um desentendimento entre Danger Mouse e a editora EMI, referindo ainda que esta terá cancelado o lançamento do disco. A BBC avança contudo que não é certo ainda que o álbum tenha sido definitivamente arquivado, ou apenas adiado. Danger Mouse fala, entretanto, num lançamento do disco no formato de CD-R em branco.
A música de Dark Night Of The Soul está, entretanto, disponível para escuta gratuita (legal) no site da estação de rádio pública norte-americana NPR. Resta saber por quanto tempo a música ali estará disponível.

A etapa desenhada

Entre 1973 e 1974, na verdade atravessando duas épocas de produção (a segunda contudo bem curta), Star Trek teve uma segunda vida televisiva, desta vez na foirma de uma série de animação. O ponto de partida para as novas aventuras era a própria série original, que entretanto começara a ganhar um estatuto de culto que não conhecera quando originalmente exibida. Muitas das vozes dos actores do elenco original marcaram presença nestas aventuras animadas, garantindo assim uma lógica de continuidade. Contudo, em finais da década de 80, o criador de Star Trek, Gene Roddenberry, retirou os factos retratados nestes episódios do “cânone” central da série, não sendo a maioria dos acontecimentos de ficção ocorridos nestes episódios considerados na cronologia oficial deste universo de ficção. Ao todo foram 22 os episódios produzidos, hoje todos eles disponíveis em DVD.