June 19, 2009

AHHHHHHHHHHHHHH!!!

FÉRIAS

June 16, 2009

o alfabeto. a lua.

São nossos os nossos segredos. O momento em que apagamos a luz, o lado que miramos ao acordar, a última palavra antes do silêncio, o pedaço de sonho que escondemos e o que revelamos, a luz do candeeiro ou a lua por detrás dele, a faca de cortar a fruta e o pão, a lágrima que deixamos cair e a que sustemos e desejamos seja engolida pelo canto do olho, o segundo em que começamos a bater palmas e o que prenuncia a impaciência, o tom da voz e o gesto que o acompanha, a força da carícia e a intensidade do beijo, a entrega e a distância, a quantidade de água com que regamos as flores, levantar ou dormir para o outro lado. São nossos os nossos segredos.

Lembro-me que, por vezes, pensava que havia tanta gente que não mudava coisas em casa, a sua disposição, a cor, o espaço. Penso agora que deve ser pela garantia que temos de antecipar o aninhar do corpo num lugar que nos vai acolher os movimentos dos ossos e dos músculos para ressoarmos como nós. Como o lado fresco da almofada nos acolhe mais repouso.

E, se concluirmos que há pouco mais que nos mantenha dentro de nós que um cigarro fumado devagar na varanda, de onde depois nem apetece sair mesmo que esteja fresca a noite, que não é preciso mais que um copo para beber um vinho a dois, e que a cama, na realidade, não precisava daquele tamanho todo, provavelmente confirmamos uma e outra vez que, mesmo que não haja transcendências, podemos ter a sorte de olhar de soslaio para o palheiro e encontrar logo a agulha.

Hoje, em modo de distância não escolhida, imodesta, cito-me:
"Para contrapor às coisas-que-não-são-nada-o-que-se-calhar-ainda-é-pior, expliquei-lhe, muito resumidamente, que, das 33 vértebras que equilibram o sentido ascendente da minha coluna vertebral, 17 são minhas, 16 são do Pedro; nas minhas mãos, divido com ele - quase 50/50 - os 27 ossos do carpo, do metacarpo e das falanges; 12 costelas são minhas e as outras 12 dele. Isto para não falar dos ossos dos pés. Todos estes, os fios em que me trago marionete e mestre-bonecreira. Porque não conseguiria crescer ou respirar fundo sem algo muito maior que eu à minha volta. E nunca poderia ser mais ou menos ou assim-assim. O resto é came so far for beauty."

E, com todas as palavras com que desenha a luz, cito-o:



Para que saiba que,

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.

June 12, 2009

semana de contagem regressiva

O CCB deu "Carta Branca a Camané". O fadista convidou Mário Laginha a reescrever para a Orquestra Metropolitana de Lisboa os temas de "Sempre de Mim" e mais alguns fados antigos. Esperem delicadeza e jazz na 2ª feira.

De vez em quando o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, convida um compositor ou intérprete a criar de raiz um espectáculo e levá-lo à cena no CCB. Chamam a essa iniciativa Carta Branca, em referência à liberdade total que é oferecida aos criadores. O percussionista Pedro Carneiro e o compositor Jorge Palma foram dois dos portadores da Carta Branca e agora é a vez de Camané: segunda-feira teremos a oportunidade única de ver a obra do fadista reescrita para as pautas da Orquestra Metropolitana de Lisboa e o piano de Mário Laginha.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que Camané trabalha os seus temas com orquestra. O ano passado o Teatro Municipal de Portimão convidou-o a tocar com a Orquestra do Algarve na inauguração do novo teatro. Na altura o fadista convidou Mário Laginha para fazer alguns arranjos e o encontro foi gratificante ao ponto de Camané ter sentido "imediata identificação" com Laginha e Cesário Costa, o então director da Orquestra do Algarve e actual director da Metropolitana de Lisboa.
"Logo na altura combinámos encontrarmo-nos outra vez porque tivemos muito prazer a trabalhar juntos", disse ao Ípsilon o fadista, a partir da Argentina onde esta semana deu concertos. O espectáculo do Algarve serviu de embrião para o do CCB, mas, de acordo com Camané, este "tem mais arranjos, mais temas com orquestra, é mais completo".

No palco do CCB

O que podemos esperar ver no palco do CCB? O concerto será "baseado no último disco", o extraordinário "Sempre de Mim", mas também terá "alguns temas mais antigos". A maior parte dos arranjos é de Laginha, havendo igualmente um do pianista Filipe Melo, para "Mais um fado no fado", e outro do incontornável Zé Mário Branco, para "Luz de Lisboa". Laginha realça a presença de vários temas de Zé Mário Branco, que qualifica, após estudá-lo para este espectáculo, como "um compositor incrível".

A estrutura do concerto é curiosa: todos os músicos estão "sempre juntos no palco", embora aconteçam "sempre coisas diferentes". "Pode acontecer uma música nova com guitarras e orquestra, e a seguir um fado tradicional só com guitarras", disse Camané. Segundo Cesário Costa teremos direito a ver Camané com o seu habitual trio (guitarra portuguesa, guitarra de fado e viola-baixo), Camané com o piano de Laginha, Camané com Orquestra, Camané com piano e Orquestra e ainda Camané com trio, Laginha e Orquestra.

Garantidos no alinhamento estão, além dos dois temas já mencionados, "À mercê de uma saudade", "Asas fechadas", "Lembra-te sempre de mim", "Esse silêncio", "Marcha de Lisboa", "Te Juro", "Abandono" e "Margarida" (de Laginha, a partir do poema de Álvaro de Campos).
Já houve experiências de fado com orquestra, no entanto, segundo Cesário Costa, o que distingue este concerto é a "presença do piano e dos arranjos do Laginha, que trazem um lado jazzístico raro à união entre orquestra e ao fado".

Camané confessa que não deu grandes indicações a Laginha. "Ele é muito generoso e gosta de acompanhar cantores. Fez os arranjos para a minha forma de cantar". Laginha teve portanto de se desunhar, passe a expressão. Pensou no universo da Broadway como referência, mas chegou à conclusão que "não é transportável para aqui". Realça que à excepção dos trabalhos de Carlos do Carmo "não há muitas referências para isto" pelo que teve "de experimentar", "de usar as cordas de uma maneira que fosse criativa e respeitasse o fado".

Cesário Costa exemplifica essas experiências: "Há certas partes em que normalmente temos a guitarra a conduzir e essa parte agora é feita pela harpa. Ou então por vezes há uma tuba presente na instrumentação, o que dá um colorido muito diferente".
Num trabalho destes há especificidades a ter em conta. Por exemplo: no fado, o tempo é muitas vezes ditado pelo cantor, e os instrumentistas vão atrás. Com uma orquestra a acompanhar, isto podia tornar-se problemático. Laginha admite que na concepção do alinhamento (definido pelos três) houve temas que propôs porque achou "que a relação deles com o tempo não ia ser dramática". Noutros, em que há pausas e interrupções, viu-se obrigado "a fazer uma escrita muito clara, para o maestro saber que vai ali haver uma suspensão".

Mas esses possíveis empecilhos parecem ter sido bem contornados, pelo menos a ter em conta a opinião sempre exigente do principal interveniente, Camané: "No 'Abandono', que é um fado irregular, com muitas paragens e tempos incomuns, quem dá o tempo sou eu a cantar e a orquestra tem de me seguir. Mas acho que tal como ficou vai resultar muito bem". Assegura ainda que "os silêncios foram respeitados, bem como os tempos e a ligação com as palavras".

Inquirido sobre se o concerto resultará num disco, responde com recurso ao seu usual modo de auto-desconfiança: "Não faço ideia se vão gravar ou não. Espero mesmo não saber se vão gravar, que é para não ficar nervoso". Mas não deve haver problemas: Cesário Costa assevera que "houve todo um trabalho feito para que a subtileza do Camané estivesse presente, de modo que o Camané não estivesse ao serviço da Orquestra. Queremos oferecer leveza e delicadeza para o Camané brilhar".


No Ípsilon de hoje

June 10, 2009

anti-stress

June 07, 2009

que coisa esta a democracia...

Custa cada vez mais participar...

June 04, 2009

o Pastis sou eu!

"You see, I’m a guy who will avoid sneezing in public to avoid the danger of some stranger around me saying, “Bless you.”"

nota baixa

Porém, a minha intuição - fonte de quase toda a gramática e ortografia que utilizo -, tende a contorcer-se, num ligeiro desconforto, com mais que uma das opções da tradução deste livro. Duvido que resista a comprar o original para confirmar um ou outro detalhe... Devia conseguir abstrair-me e, como dizem no Norte, sentar-me para trás e apreciar a volta, mas há tantos "de's" antes de "que's" que se dispensavam, só para dar um exemplo.

sobre o mito dos primeiros parágrafos dos livros

Todas as explicações sobre as origens do Estado partem da premissa de que "nós" - não nós, os leitores, mas sim um qulaquer nós genérico tão amplo que não exclui ninguém - participamos no seu aparecimento. O facto, porém, é que o único "nós" que conhecemos - nós próprios e aqueles que nos são próximos - nasce no Estado, e também os nossos antepassados nasceram no Estado, até onde somos capazes de reconstituir. O Estado está lá sempre antes de nós.


in
Diário de Um Mau Ano, J.M. Coetzee (1.º parágrafo)

May 26, 2009

agora sim, as melhores séries de TV

O Mourinha e o Steed resolveram meter-me num daqueles trabalhos das correntes. Eu, ainda que ande mui pouco blogueira, dificilmente resisto ao que gosto e vai daí que decidi esmagá-los com uma demonstração de gosto inquestionável e - imagino eu - flutuante. Portanto, do alto deste copito de Porto fresquinho e numa perspectiva totalmente objectiva e sem grande ordem, dito:

The Sopranos - Melhor série de todo o sempre, indestronável;

Six Feet Under - A segunda melhor série de todo o sempre, indestronável. Ah! E tinha o Nate. E o Dexter;

Twins Peaks - Parecia difícil acreditar que faziam uma coisa tão bonita e boa só para mim;

X-Files - Umas das primeiras opções religiosas. Ao contrário de muitos (fracos), resisti até à série 5;

Monty Python's Flying Circus - As mais saborosas gargalhadas de todo o sempre. Sem rival;

L.A. Law - Co-arguida num processo de responsabilidade penal por opções profissionais desajustadas;

Star Trek - Eram estes que me deviam ter ditado o destino...

Millennium - Paixão ao primeiro episódio, fabulosa escuridão e melhor teledisco (adoro dizer teledisco!) da história dos telediscos para o Horses, da Patti Smith;

House MD - Porque eu queria ser o House no meu trabalho, embora não quisesse ter o trabalho do House;

Picket Fences - Tal como no Twin Peaks, a luz que vinha da cor daquela série, prendia-me sempre;

Dallas - Pela telenovela que existe dentro de todos nós e, mais recentemente, em modo reprise, pela companhia a passar a ferro, aos Domingos à tarde;

Rome - Irresístivel o clima de conspiração permanente, aquilo sim era alternância democrática e porque era uma das épocas em que preferia ter existido;

Boston Legal - Por motivos de adição actual e porque planeio tornar-me uma lunática respeitada a muito breve trecho. E não resisto ao James Spader e à Candice Bergen. As conversas entre o James Spader e o Captain Kirk (não sei se repararam que ele ainda se senta no sofá, como se estivesse a desbaratar Klingons e devorar galáxias) são do melhor que se escreve em televisão;

Dexter - Melhor genérico e personnal favorite para a forma de resolver problemas indesejáveis: com muita película aderente.


Claro que este post me desviou de uma série qualquer, mas o que tem de ser, tem de ser.

SOCORRO!

Não consigo parar de ver este blog:

My One Thousand Movies

O Estado Português agradece a quem me tirar isto da frente.

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