Aviz
«We have no more beginnings.» [ George Steiner ]
Setembro 15, 2005
Agosto 18, 2005
Aviz.

Como escrevi um dia, isto não merece grandes anúncios – o Aviz acabou. Não há grandes razões para isso. Simplesmente, não prolonga a sua temporada. E, terminando a sua temporada, sai como chegou – sem ruído. Daqui a uns tempos, umas semanas, haverá espaço para outra coisa (mantém-se o projecto do Gávea, porque se trata de um blog sobre livros brasileiros). Obrigado a todos os que fizeram links para o Aviz, a todos os que o leram e a todos os que enviaram comentários e mails. E também a todos os que discordaram e aos que concordaram (e com que concordei).
Desenvolvimento adequado do Algarve.
A ideia peregrina que aparece nas páginas do DN de hoje, defendida pelo presidente da Câmara de Lagos (acerca do Algarve) é para reter: «Também não podemos cair em fundamentalismos ambientais que impeçam um desenvolvimento adequado.» O desenvolvimento adequado do Algarve está aí à mosstra.
Mais bingo.
Depois de Duda Mendonça (campanhas de Lula e do PT) ter sido pago pelo PT nas Bahamas; depois de Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, ter implicado o presidente do Banco Central, o ministro da Justiça e o PT; é agora a vez de outro doleiro, Vivaldo Alves, o Birigüi, dizer que Paulo Maluf também pagou a Duda Mendonça através do Citibank de Nova Yorque. O fabuloso Maluf apoiou Marta Suplicy na segunda volta das eleições em S. Paulo, contra José Serra.
A opinião de Hélio Schwartsman, da Folha.
Informação inocente.
Assassinato do prefeito de Sto. André, Celso Daniel, vai ser reaberto. Mais lenha para arder na sede do PT.
Agosto 17, 2005
Agosto 16, 2005
Árvores.
Insisto sempre, sobretudo para quem vive no Porto: passar pelo Dias com Árvores é uma obrigação.
Revista de blogs. Wagner em Bayreuth.
«[...] Kundry, Parsifal, Amfortas, Gurnemanz, uma loura nua da cintura para baixo, e outra loura, que na versão do ano passado representava a antiga amante de Titurel, este agora nem sequer aparece em cena e canta dos bastidores, a tal africana gorda e mamas monstruosas lá está deitada de pernas abertas como elemento representando a fertilidade e o Graal ele mesmo. Os elementos cénicos são tantos e tão dispersos na sua profusão que destroem toda a unidade cénica. Trágica esta destruição por um “intelectual” de qualquer unidade cénica e de qualquer representação artística das ideias de Wagner. Para escutar a música havia que fechar os olhos.»
[Sobre o Parsifal, de Wagner, direcção musical de Pierre Boulez e encenação de Christoph Schlingensief. No Crítico Musical.]
Aviso.
O departamento de saúde de Nova York pede disciplina dietética e moral anti-gordura aos restaurantes da cidade. O problema é se é apenas um começo.
Notícias da frente.
Denise Frossard, a deputada do PPS do Rio, sobre o dinheiro de Duda Mendonça entregue pelo PT nas Bahamas.
Notícias que abalaram o mundo.

Ela nunca leu um livro. «I haven't read a book in my life. I haven't got enough time.» Ele também já não marca golos.
Agosto 15, 2005
Frases que já não se podem ouvir.
O Carlos V.M. iniciou há pouco tempo uma nova série de posts: as frases que já não se podem ouvir. Continuem, por favor. Há uma lista para preencher.
Forra-gaitas, bertoldinhos e balhastreiras (*) (Actualizado)
O Filipe NV queixa-se de que, nesta altura, «todos se queixam do país que temos e que somos». E que aparecem forra-gaitas, bertoldinhos e balhastreiras, em colunas de jornal, vergastando o país. Meu caro Filipe: mas isso é um desporto nacional, a garantia de que o país existe mesmo, de que o primeiro-ministro pode continuar a telefonar sem correr o risco de encontrar a gravação «o número para o qual ligou não existe», a certeza de que podemos continuar a malhar nele sem sermos considerados estrangeiros. Mas eu compreendo; o Filipe refere-se aos que, há cerca de um ano, encontravam motivos para pensar que a Pátria, amada e decente, estava no bom caminho -- e que hoje, vendo o país a arder, choram amargamente o destino que nos está reservado. Ou seja, aqueles que, na época, nunca viram motivos para dizer «olha as nomeações para a Caixa!» e se acidulam hoje com as nomeações para a Caixa, suponho eu. Desvantagens, Filipe, de se ser um liberal à moda antiga.
(*) Bertoldo s.m. Indivíduo parvo, estúpido, palerma. Forra-gaitas s.2g.2n. Indivíduo avarento, sovina. Obrigado Antônio Houaiss.
Balhastreira não encontrei, caro FNV. Será balastreira, «que assenta o balastro», ou seja, o cascalho?
Afinal, F NV esclarece: «Balhastreira: eufemismo para "Puta" utilizado no Alentejo, aparentado (?) com o "bandarra" e "bruaca" brasileiros.» Cortesia do Heinz Kroll, O Eufemismo e o Disfemismo noPortuguês Moderno
Bringing it all back home, 5. (Actualizado)
A retirada unilateral de Gaza, aconteça o que acontecer nos próximos dias, é um acto de heroísmo e de dignidade. Por agora, é uma derrota sem vencidos, uma vitória sem vencedores. A dificuldade em compreender a grandeza dos acontecimentos explica o silêncio, mas as consequências fazem parte do médio-prazo.
Este post antigo, sobre alguns comentários a esta nota.
Agosto 14, 2005
Millôr.
Sobre Shakespeare: «Gosto de trabalhar com o português, embora inglês seja a que eu mais leio. Nunca tive temor de nada. Deve-se julgar as obras pelo que elas têm de qualidade, não por serem de fulano ou beltrano. Shakespeare fez muita besteira, mas tem três ou quatro obras perfeitas, e Macbeth é uma delas. Traduzi Shakespeare por ser do caralho, mas se me dessem algo ruim para traduzir, dizendo que era um pensamento dele ou de Confúcio, perguntaria se era mesmo dele ou de um completo idiota.» Portugal-Brasil: «Nem sempre é fácil entender um português e há filmes portugueses que só conseguimos ver com legendas. O que acontece é que temos dificuldade de entender o português de Portugal mais pela eufonia e pela prosódia que pelos vocábulos em si mesmos. Não sei se os portugueses passam pelo mesmo problema, mas o fato é que, até os anos 30, todo ator brasileiro imitava sotaque português para ser respeitado e, hoje, nossa influência em Portugal é total. A telenovela entra lá, e não adianta o intelectual português ficar contra, porque o povo acha engraçado o jeito de a gente falar, e termina copiando. Já usam expressões como "estou a dar a volta por cima, o pá!", lá do jeito deles, com sotaque, mas usam.» O estrangeirismo empobrece a língua portuguesa? «De maneira nenhuma. Antigamente, tivemos palavras como porta-seios, uma coisa muito feia, que felizmente foi substituída pelo galicismo "sutiã". Toda língua é invadida e, como mulher, fecundada. De vez em quando a nossa leva na bunda, mas nada que, lavada, não fique novinha. Houve tempo em que o galicismo era uma aberração. Não se podia escrever "amante", mas "amásia". Era assustador.» Os presidentes brasileiros a falar português: «Fernando Henrique diz besteiras o tempo todo. Como um cara inteligente diz que o povo deveria fazer checkup e que tem o pé na cozinha? Teria o pé na África e olhe lá. [...] Lula diz bobagens do tipo "as mulheres são desaforadas". Diz também sem saber o que está dizendo. Pensa que está elogiando, sendo engraçadinho, mas não tem noção das palavras. Ocorre que ele tem pronúncia até melhor que o FHC. [...] Já Sarney é o Lula em barroco. Escreve um romance débil mental e passa a ser considerado uma revolução nas letras nacionais.» Sobre Camões: «Veja, no entanto, um escritor como Camões. Ao se dirigir ao rei Dom Sebastião, o poeta afirma que "a disciplina militar prestante / não se aprende, senhor, na fantasia, / sonhando, imaginando ou estudando, / senão vendo, tratando e pelejando". Repare que ele não diz "tratando, pelejando e vendo" - pois seria o caso de um sujeito que sai na porrada sem pensar. Quem não sabe escrever não cria esse tipo de hierarquia, pouco importa.» Sobre Paulo Coelho: «Vende muito, mas é merecidamente desprezado porque faz uma merda de literatura.» Entrevista aqui.
Regresso do hooligan.

Uma boa notícia, com bons augúrios; o hooligan retoma o seu cantinho.
No Brasil, outra boa notícia e uma excelente (ah, maldade!); assim se conhecem os hooligans.
Agosto 13, 2005
Vai dar pizza. Vai dar sashimi. (Actualizado)
FBI chamado ao mensalão. E depois de Nelson Jobim, presidente do Supremo TF ter instado a Polícia Federal a não investigar e a fazer apenas o que se lhe pede, é a vez de a PF pedir ao STF para investigar coisas que lhe não tinham sido pedidas. Vai dar pizza? Vai dar sashimi?
De onde vieram os fundos para a campanha de Lula em 2002? «Duda Mendonça afirmou ter recebido em sua conta Dusseldorf, nas Bahamas, pagamentos relativos à campanha de 2002. A CPI ainda precisa descobrir a origem dos recursos que abasteceram esta conta. Sabe apenas que eles partiram de outras quatro fontes no exterior.»

«Ele não é o fraco, ignorante que todos imaginam. Ao contrário. Ele é brilhante, inteligente. E isso serve para o bem e para o mal. Mas, para muita gente, é melhor que o presidente apareça como fraco», Heloísa Helena.
Entrevista de Hélio Bicudo (83 anos, tem uma longa militância em favor dos direitos humanos, na qual se destaca o combate à ação do Esquadrão da Morte paulista, filiado há 25 anos no PT.) à Veja desta semana:
«Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção. [...] Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma. Seu pronunciamento de sexta-feira confirma. Lula manteve a postura de que não faz parte disso e não abre espaço para uma discussão pública.» [Texto online através do blog do Noblat.]
«Brazil's Opposition Shelters President From Scandal, for Now», artigo de Larry Rohter, no The New York Times. (Anteriores textos de L.R., no NYT, aqui e aqui.)
Traições. (Actualizado)
E Lula, não deve dizer quem o traiu?
Ler este post.
Escreve Ricardo Noblat: «Sei que todo mundo gostaria que Lula identificasse aqueles que o traíram. Pois não foi isso o que ele disse ontem na Fala da Granja do Torto - que foi traído? Sinto muito, mas ele não poderá dar os nomes. Porque na verdade ele não foi traído. Delúbio, Sílvio "Land Rover", José Dirceu e outros menos citados agiram por delegação dele.»
Cristovam Buarque, que disse sair esta semana do PT.
Agosto 12, 2005
Tomás Eloy Martínez, «El Cantor de Tango».


«El sábado seguiente fue al almacén de Boedo. Cuando vio desplazarse a Martel hacia la tarima, junto al mostrador, incorpóreo como una araña, y lo oyó cantar, cayó en la cuenta de que se voz eludía todo relato porque ella misma era el relato de la Buenos Aires pasada y de la que vendría. Suspendida por un hilo tenue de los do y de os fa, la voz insinuava el degüello de los unitarios, la pasión de Manuelita Rosas por su padre, la revolución del Parque, el hacinamiento y la desesperanza de los inmigrantes, las matanzas de la Semana Trágica en 1919, el bombardeo de la Plaza de Mayo antes de la caída de Perón, Pedro Henríquez Ureña corriendo por los andenes de Constitución en busca de la muerte, las censuras del dictador Onganía al Magnificat de Bach y las hechicerías de Noé, Deira y De La Vega en el Instituto Di Tella, los fracasos de una ciudad que tenía todo y a la vez tenía nada. Martel la dejaba caer como un agua de mil años.»
Tomás Eloy Martínez, El Cantor de Tango (Planeta)
Notícias da frente. Pronunciamento.
Lula, na Granja do Torto, falou para a tv. Essencialmente: que se sente traído e que não sabia do que se passava. Questão de fé.
Cristovam Buarque deixa o PT («Ele disse esperar do presidente a declaração de que não disputaria a reeleição à presidência ou informasse que enviaria um projeto para acabar com o instituto da reeleição. Diante das declarações do presidente, Cristovam declarou que deixará o partido, mas só comunicará sua decisão oficialmente na próxima segunda-feira.»)
História deliciosa: lista de deputados que beneficiaram de Marcos Valério, foi forjada no parque de estacionamento do Senado, eliminava todos os deputados do PT e incluía de todos os outros partidos. O responsável pela tentativa, Paulo Pimenta (PT-RS) admitiu a fraude.
Ver este post, do Gândavo.
Notícias da frente. Más.

"Lula sabia do acordo de R$ 10 milhões com o PL"; "pedi ao Delúbio: cheque não. Me dá em dinheiro"; "reclamei com Dirceu que o dinheiro entrava pingado. Ele disse: calma, o Delúbio vai resolver"; "só recebi R$ 6,4 milhões. Estão colocando R$ 4 milhões a mais na minha conta".
Declarações de Valdemar Costa Neto, líder do PL, na edição da Época desta semana.
Ver os posts da Grande Loja.
Que tal o vinho?
O Pedro V. tem um blog que eu desconhecia até agora. Provas de vinho, muito pessoais e sem rococós, e com algumas cervejas pelo meio. Bebamos.
Notícias da frente. Más.



No Brasil, Hugo Chávez, presciente, diz que há uma conspiração da direita contra Lula; a direita (do PL, partido aliado de Lula, e grupo do seu vice Alencar) diz que Lula sabia; o PT chora e diz que os maus têm de ser punidos, enquanto o até agora intocado Palocci é citado na CPI dos bingos (a que liga Waldomiro Diniz a Dirceu, que está com a vida complicada também aqui). O presidente Lula, que se declara perplexo com as revelações, fala hoje, através da rádio; dirá que se sente traído. Uma sondagem atribui pela primeira vez vantagem a Serra, actual prefeito de São Paulo, no confronto com Lula.
Xanel
A Isabel abandonou o Xanel Cinco e criou o Miss Pearls. Escrevendo bem, como sempre, o que é uma bênção.
Revista de blogs. Teologia mínima.
«Matemático que afirmou ter demonstrado matematicamente a existência de Deus reconhece que errou nas contas.» [No Torneiras de Freud.]
E agora, Lula?
Duda Mendonça, o marqueteiro do PT, põe Lula em cheque. Depósitos na conta do publicitário foram feitos já em 2003, no primeiro ano do governo Lula. Fica a suspeita de que possam ter origem em dinheiro público.
(Na opinião geral do Congresso, Duda Mendonça 'livrou a cara' e 'jogou Lula e o PT na fogueira'.)
Duda confirma que Valério pagou festa da posse de Lula.
Agosto 11, 2005
É a vida.
Vendo bem, quem não obstruiu o caminho para tantas nomeações políticas desastradas no último governo, pode dizer o que lhe apetecer, mas não pode pôr-se em bicos de pés para criticar a nova administração da CGD.
A ler. «Liberal, de liberdade.»
O texto de Pacheco Pereira sobre quem exigiu a publicação dos estudos sobre a Ota e o TGV.
Sibilino.
Larry Rohter, o jornalista do The New York Times que Lula quis expulsar do Brasil, publica o primeiro artigo sobre a crise. Para quem esperava material explosivo, desilusão; o texto é mais sibilino: «Se há uma conspiração ocorrendo no país ela é comandada pela oposição e por grandes empresários de São Paulo» e tem como objectivo «manter Lula no poder e não tirá-lo».
Smoke.
Pobres, vilões, feios, sujos -- eles são os fumadores no cinema. Os glamorous and positive não fumam. «Almost half of all characters who smoked were in a lower socioeconomic class.»
A pedido.
A pedido do João P., que ameaçou com chantagem caso eu não comentasse o assunto: sim, eu penso que o Jorge Costa devia continuar na defesa do FC Porto. Por três motivos.
Agosto 08, 2005
Transparentes.
A propósito do Discovery, ontem, domingo, um jornalista de tv apresentava o site da Nasa sem se esquivar ao tradicional comentário: «É assim que os americanos vendem o seu peixe...» Ou seja, podíamos entrar no site da Nasa e saber vários megas de informação acerca da missão espacial. A piada vinha a propósito num país onde sabemos tudo sobre os estudos acerca do novo aeroporto da Ota, dos rankings das universidades, dos relatórios sobre os buracos do metro de Lisboa ou do Porto, enfim, sobre coisas públicas. Transparentes como nós não há. O site da Nasa é uma ninharia ao pé da nossa transparência.
Jabuti. Começou a corrida.
Está aqui a lista de nomeações para o Prémio Jabuti deste ano; começou a corrida. Dez livros brasileiros da temporada. Alguns menos.
Ensaio sobre a cegueira.
A questão, como escrevi aqui, ao contrário do que está sugerido em vários comentários neste blog, não é a intocabilidade ou a contaminação do presidente Lula. Lula é o menos, apenas um pormenor central. De resto, com o avolumar de notícias sobre as ramificações portuguesas no caso (que não são de estranhar), espero ser ilibado do terrível pecado de «inclinação ideológica». A questão não é que a Polícia Federal tenha ilibado Lula do caso; a questão é que ele tenha ocorrido nas barbas do presidente e que ele tenha afirmado que nada disso era importante. Cegueira é aquela que quer cegar toda a gente à volta.
Coisas.
Notícia da Veja desta semana e ainda mais recente. Mensalão ao rubro com janelas abertas para os dois lados do Atlântico.
Agosto 05, 2005
Mensal.
O Aviz acompanhou o mensalão brasileiro desde há meses -- antes de serem divulgados os seus contornos essenciais na grande imprensa. Durante dois meses, a imprensa portuguesa não mencionou o assunto, o que se compreende pela fidelidade a Lula, e só agora trata o tema. Estranho isto, agora que se desenha o mensalão português. Com todos os contornos visíveis por aí.
Agosto 04, 2005
Apoio.
Depois de jornais estrangeiros elaborarem sobre independência editorial para apoiarem a eleição de John Kerry, Gilberto Gil apoia Manuel Maria Carrilho (no Público de hoje).
Ideias sobre o terrorismo.
Chamo a atenção para o artigo sobre o assunto, de Francisco Seixas da Costa no Diário de Notícias.
Criticas. (Actualizado)
Críticas muito negativas ao novo livro de Rubem Fonseca no O Globo e na Veja.
Não há links para os textos.
Por gentileza do Francis C. Afonso, o texto da Veja está reproduzido aqui nos comentários.
Nao se pode virar as costas.
Dois dias sem blogar e é isto: o mensalão atinge as proporções previstas, tocando finalmente empresas portuguesas. O toque é acidental e tangencial. Mas há mais novidades a chegar, descansem.
Agosto 02, 2005
Notícias da frente.
O primeiro deputado brasileiro a cair foi Valdemar Costa Neto, líder do PL (partido do vice-presidente de Lula): renunciou ao mandato para não ser «cassado». Foi ele quem primeiro se insurgiu contra a existência do mensalão, sugerido por Roberto Jefferson, e convocou o conselho de ética. Pela boca morreu o primeiro peixe. Valdemar, cuja ex-mulher foi ouvida na CPI (onde mencionou a existência de uma operação Taiwan, a que convém prestar atenção) confirmou receber dinheiro do PT. No seu discurso de renúncia chamou Jefferson de delinquente.
Entretanto, promiscuidades familiares entre Dirceu e Valério. O ex-número dois do governo, Dirceu, admite igualmente renunciar ao mandato.
Agosto 01, 2005
Verissimo.
Sem exagero. Acaba de sair uma edição revista do primeiro romance de Luis Fernando Verissimo, O Jardim do Diabo (Objetiva). O texto de abertura está aqui, disponível. Exile and cunnilingus, diz ele.
Mais Rubem Fonseca.

O Bruno, do Leões de Tolstoi, acrescenta mais textos aos fragmentos do novo livro de Rubem Fonseca (Mandrake. A Bíblia e a Bengala, Companhia das Letras) publicados aqui, no Gávea.
Entretanto, pode ler a pequena nota sobre o livro, do Estadão, escrita pelo bom do Ubiratan. Ubiratan Brasil, aliás; não há nome mais brasileiro.
Julho 31, 2005
Vencidos da vida.
Tem toda a razão de ser a pergunta de Vasco Pulido Valente do Público de hoje: «Onde se meteu a gente dos 40 e 50 anos, que devia agora tomar conta do país, com força, com experiência e uma visão nova?»
E outras coisas.
1) Lula e o negócio do filho com a Telemar (que lhe ofereceu uma empresa com dinheiros públicos). Ler aqui como Lula sabia do negócio.
2) Escândalo já envolve 19 crimes. Ler aqui.
3) Lula e Dirceu (hoje na Folha, indisponível o online): «Não sei se teríamos conseguido fazer o que fizemos na nossa relação com o Congresso se a gente não tivesse a coordenação de um companheiro como o José Dirceu. (Dezembro de 2003)» / «Não sei todos os acordos que ele faz no Congresso. O fato concreto é que, nos momentos difíceis, o Dirceu, o presidente Sarney, os nossos líderes e o João Paulo, depois de tanta choradeira, me comunicavam: "Olhe, foi feito o acordo, vai votar amanhã e vai passar".» (via Noblat)
4) João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara [presidente do Parlamento], deverá ser o primeiro parlamentar ligado à lista de pagamentos de Marcos Valério de Souza a renunciar ao mandato. OESP de hoje.
Leia aqui a coluna de Elio Gaspari, no O Globo de hoje.
Coisas que só visto.

A Folha de São Paulo publica na edição deste domingo fotos atrevidas da secretária de Marcos Valério, Fernanda Karina Somaggio, uma das peças-chave do escândalo do mensalão. Havia rumores de que tinha sido convidada pela Playboy para posar nua. Link para o ensaio fotográfico.
Jornalismo & credibilidade. O Brasil no Aviz.
Alguns leitores e amigos têm escrito sobre a «cobertura» que o Aviz faz da situação brasileira. Não é coisa nova. Há anos que acompanho o assunto. A primeira vez que isso aconteceu foi na altura das Directas Já!. Não vale a pena contar mais. Tenho escrito bastante sobre o Brasil nos últimos vinte anos: gabo-me de ter chamado a atenção sobre muitos escritores brasileiros pela primeira vez em Portugal; e de conhecer o país (apenas não estive em Roraima, já agora); e de ter lido bastante. De vez em quando encontro outros entusiastas que também sabem que o Brasil não é só samba, musiquinha, futebol e praias (mas é também isso). Na literatura portuguesa dos finais do século XIX, o Brasil era tratado como «os brasis» -- tinham razão, eles. Os Brasis. O sul, o norte, o nordeste, a meia-norte, o sudeste, o sertão, as chapadas e os grandes rios, a floresta, a serra, o pampa, tudo. Uma das acusações que de vez em quando me fazem é a de que a minha informação está inquinada. O argumento usado é o de que cito muito a Veja. Não é verdade. Ambas as coisas não são verdade: 1) que eu cite muito a Veja; 2) que a Veja não seja credível. Eu tenho um caso com a Veja, sim, porque acho que a Veja é muito bem feita e raramente tem sido desmentida (ao contrário da Isto É, por exemplo) nas suas investigações. Quando era director da Grande Reportagem tínhamos um acordo de colaboração com a Carta Capital, por exemplo. Mas, embora conheça alguns repórteres da Veja e seja até leitor de Mário Sabino como romancista (ele é editor da revista), não cito muito a revista. Et pour cause. É uma guerra portuguesa, evidentemente (sobretudo quando as pessoas dizem, «ah, mas a Veja não é um modelo de jornalismo!»). Pelo contrário, et pour cause, cito bastante os três majors: OESP, Globo e FSP. Mas a lista de jornais que frequento está nos links do blog. Aí ao lado, em baixo. Embaixo. Não citarei a Caros Amigos, evidentemente, nem os jornais ligados a partidos e influências locais. Mas reservo-me o direito de ter as minhas próprias informações.
O caso brasileiro é complexo em Portugal e complexo na Europa. Tem Lula pelo meio. E tem a vitória da esquerda há dois anos. O caso brasileiro transformou-se numa questão de fé. No dia das eleições que deram a vitória a Lula, recordo como foi tratada na televisão portuguesa a única pessoa que declarou que não tinha votado Lula e que assumiu a sua desconfiança (curiosamente, foi um treinador de futebol, Marinho Peres -- todos os outros, desde sambistas de aluguer a actores falavam dos novos tempos que estavam aí, como uma promessa de paraíso): houve quem se risse dele, do desgraçado e incréu.
Bom. Eu sou incréu, na verdade. Reservo a minha fé para outras áreas e a minha credulidade para questões pessoais. Acompanho a política brasileira desde há vinte anos; vi as multidões em redor do funeral de Tancredo e também a vi em redor de Collor (à hora a que Collor era eleito, estava em Lisboa a entrevistar José Wilker, que votava Lula). Vi o impeachment de Collor. Sarney, Itamar, FHC, Lula. Fui parcial algumas vezes, sim. Confesso: nunca gostei de Collor nem de Itamar nem de Sarney (nem do que ele escrevia). Desconfiei da tucanagem como toda a gente, mas acho que o governo de FHC foi o melhor que pôde acontecer ao Brasil naquelas circunstâncias. Sim, li coisas inacreditáveis. Li até Frei Betto, imagine-se (mas também li Paulo Coelho…). Li a propaganda petista (inimaginável). Não interessa.
Mas sou incréu. Fui incréu em relação a Lula e previ que acontecesse isto. Escrevi-o antes das eleições, quando os jornais, as rádios, as televisões, tratavam Lula (em Portugal) como a segunda aparição da Virgem. Não era. Mas, à parte a parcialidade da minha própria opinião, não fui parcial nem escondi factos nas minhas reportagens, nem acrescentei outros.
Os políticos do centrão português veneram Lula por provincianismo, porque ele era o operário e o retirante que chegou ao Planalto. Há dois anos era difícil dizer mais do que isso. Eu disse e escrevi. Não escondi factos. Limitei-me a isso. Lembro-me de quando o Manuel Carvalho, num editorial do Público, logo na altura das eleições, chamava a atenção para as contradições do lulismo e do novo poder petista – e das muitas cartas de leitores indignados com o «soez ataque» a Lula e ao Brasil. Linchamento.
O que me interessa neste escândalo político actual no Brasil não é a derrota de Lula nem a queda do PT. Isso é o menos. Lula significou, para muitos brasileiros, a redenção por anos de humilhação diante das oligarquias. Eu compreendo isso. Claramente. Mas acho, a esta distância, que o Brasil precisava de passar por isto, para compreender que ética e política são coisas diferentes e que a esquerda brasileira não tinha o exclusivo da moral nem da ética. Nem era seu património.
Muitos mails dizem que este escândalo é inventado pela imprensa. Não é. É uma prova de que fé e política não funcionam juntos. E de que este escândalo revela até que ponto o PT se preparava para transformar o Brasil numa espécie de «México do PRI» com o apoio da imprensa aliada, do dinheiro e da lavagem ideológica permanente.
PS - Lembro quando comecei a chamar a atenção, em Portugal, para as crónicas de Diogo Mainardi e de como a reacção era violenta: escroto, escarro, era o que diziam. Mainardi é brilhante. «Ah, mas não é o Paulo Francis!» Quem disse isso? Mainardi foi o único que arriscou a cabeça e o emprego de colunista. Disse o que pensava e daquela maneira.
Julho 30, 2005
Novo Rubem Fonseca. Morram!

Novo romance de Rubem Fonseca, A Bíblia e a Bengala, com Mandrake (o advogado criminalista da sua obra-prima, A Grande Arte) como personagem principal. Morram de inveja porque o livro ainda não está em distribuição. Mas estão aqui extractos do romance em primeira mão.
Relatos da frente. (Actualizado)
Afinal é Dirceu que faz chantagem verdadeira, segundo parece e é publicado na edição da Veja de hoje; e sobre o próprio Lula. E, em relação a post anterior sobre assunto, agora é assessor de José Dirceu, o ex-número dois de Lula (e ex-funcionário dos serviços secretos cubanos) que confessa que também recebia de Valério.
Entretanto José Dirceu desmente a revista Veja. Aguarda-se o depoimento de Dirceu na próxima terça-feira, na CPI. Porque há um problema técnico.
NESTE DOMIGO: afinal é própria directora da agência de Marcos Valério que confirma a notícia da Veja. Tudo volta ao princípio. A Veja tinha razão.
Opacidade?
Caro Paulo: o problema não é apenas o da Ota e o dos seus relatórios secretos ou opacos (bondade tua, chamar-lhe opaco, ao processo). A questão está na ideia sobre a natureza do Estado. Desta vez não conhecemos os relatórios sobre o novo aeroporto (e eu creio que se devem ler com ironia as declarações de Fernando Pinto acerca desses relatórios); mas, antes, diz lá, quem é que achava que não se deviam divulgar relatórios sobre as universidades e as escolas públicas? Quem é que esconde relatórios e estudos sobre o prolongamento do metro em Lisboa? Onde estão os relatórios sobre as obras no Terreiro do Paço?
25 mil milhões de euros são ou não são dinheiro? Os contribuintes devem ser informados ou não? É estranho, ou não?
Mais dicionário de soundbytes, de Groucho.
Mais entradas no dicionário de soundbytes, de Osvaldo M. Silvestre, no Casmurro. Por exemplo: e-mail:
«1. Segundo o Dicionário da Academia, deve antes dizer-se «correio electrónico». Por exemplo: «Recebeste o meu correio electrónico, doçura?». 2. Os brasileiros chamam-lhe imeio e os espanhóis Emílio. Os portugueses chamam-lhe imeile. 4. Serve para tudo (amor, negócios, circulares, etc.), economiza em papel e selo e ainda permite que se lhe pendurem anedotas visuais sobre Bush (v.), Bin Laden (v.) ou Durão Barroso (v.) e fotos de mulheres nuas. 5. O problema vai ser depois, quando se quiser editar a «Correspondência Completa» dos escritores de hoje. Sobre este dilema filológico, consultar Ivo Castro.»
Traduções, 2.

O alfabeto. No Casmurro.
Contribuição de Abel Barros Baptista: «Consideremos a contribuição judaica, imprescindível. Sinais de baixo para cima, primeiro. Jacob era extremamente pobre. Nem tinha casa, vivia de ajudas esporádicas. Um dia, comprou um bilhete de lotaria e ganhou o primeiro prémio, uma fortuna enorme. Comprou logo casa em local central, um duplex mobilado, moderno. Pediu ajuda para se vestir com roupa elegantíssima. Um Mercedes, último modelo, foi a última aquisição. Tudo pronto, casa organizada e habitada, decidiu-se, enfim, a sair à rua. Quando pôs o pé no passeio, um autocarro desgovernado passou-lhe por cima. Morreu, claro. Mas pouco antes de expirar, olhou o céu, perguntando: — Senhor, agora que eu ia ser feliz, porquê eu? E uma voz faz-se ouvir, vinda de cima: — Ó homem, desculpa, não te reconheci.»
Traduções, 1.

Interrupção
Nós interrompemos os trabalhos dos deuses,
seres inexperientes e apressados do momento.
Nos palácios de Elêusis e de Ftia,
Deméter e Tétis iniciam boas obras
entre chamas altas e fumo denso. Mas
Metanira precipita-se sempre dos
aposentos reais, desalinhada e assustada,
e Peleu sempre temeroso intercede.
Konstandinos Kavafis, 1901
Tradução de Carla Hilário Quevedo
No Bomba Inteligente.
Cozinha Confidencial.
Se não estivesse sem dormir há 36 horas, esta noite tinha-me levantado a meio da leitura do Kitchen Confidential de Anthony Bourdain. Aquela sugestão culinária, lá para as páginas sessenta e tal, é mais do que comovente. Mas dormi. Felizmente.
Revista de blogs. MTV.
«Un poco hasta el chochete, que quieres que te diga, de tanto cantor emetiví meio apaneleirado, com o seus bonés de marca, as calcinhas caídas, olhar lânguido e sensual, ie, ie, jovens imberbes que seduzem a adolescência planetária à base de estrofes afinadas e letras de amor sem sal, sem pimenta, sem essa garra de macho que nos faz às mulheres arranjar o cabelo, molhar os lábios, roer as unhas e desabotoar a camisa. Ie, ie, beibe, ai love iu, e mais nada, sem emoção, sem que ao grelo se lhe estimule mais vontade que mudar de canal, de estação de rádio e de época vital, para aqueles anos em que os gajos eram machos e copulavam para espalhar os genes por esse mundo fora.» [No Rititi, que mudou de endereço.]
Revista de blogs. Sobre limites e descobertas.
«Desde que eu sinta prazer, mas eu mesma me coloco certos limites, essas coisas, acho que foi a criação, não sei explicar direito e também tem algo a ver com os caras que eu me relacionei e, óbvio, comigo mesma.» [N, leitora do blog Saudades do Presidente Figueiredo, citada pelo autor, Dante.]
TeleSur
Afinal, o «projecto anti-capitalista» (por não ter publicidade?) da cadeia de televisão TeleSur pan-latino-americana é financiado pelo petróleo venezulano e dirigido pelo ministro das comunicações venezuelano.
Desta vez o Brasil não acompanhou o delírio de Chávez e não entra na sociedade directamente, ao contrário do que anunciou a imprensa portuguesa.
Golpe de misericórdia.
Um assessor do PP confirma e dá o golpe de misericórdia: sim, ele levava malas de dinheiro das empresas de Marcos Valério. Para onde? Para o Congresso de Deputados. Mas há divergência: um deputado diz que o local referido é a presidência do PP, e não a tesouraria. O PP é um dos partidos aliados de Lula, o do presidente do Congresso, Severino Cavalcanti. O anterior presidente do Congresso, João Paulo Cunha, uma das grandes figuras do PT, também já levantava (através da mulher) dinheiro proveniente de Marcos Valério. A notícia acompanha a descoberta de outro deputado do PT que também levantou milhares de reais da mesma conta.
Entretanto, depois das denúncias da Veja sobre sucessivos avisos (de vários políticos) ao presidente Lula sobre a existência do escândalo, outros dizem também que Lula sabia.
Uma das colunas mais curiosas da última semana é a de José Nêumanne, no Estado de São Paulo de quarta-feira passada, na sequência da declaração de Lula sobre «não ter lições de ética a receber de ninguém». Nêumanne recorda a Lula vários episódios, nem tão recentes nem tão antigos, sobre escândalos e indícios de mexicanização do PT, que Lula encobriu e que o PT abafou e suprimiu. Exemplos: a demissão e perseguição a Paulo de Tarso Venceslau (que denunciara o suspeito «caixa 2» do PT comandado por Roberto Teixeira) ou o assassinato do prefeito de Campinas. Sem falar do favorecimento da Telemar ao próprio filho de Lula, ou do crescimento interessante das empresas do ministro Luis Gushiken, cerca de 630% nos últimos dois anos, com fundos de pensões governamentais.
Julho 29, 2005
Azul.
Por motivos díspares, mas não disparatados, os meus dias de sorte coincidem com derrotas do Boca. Desta vez, o FC Porto marcou-lhes dois, «con la defensa del Boca rendida a sus pies».
Revista de blogs. Castigos.
«E o chefe da nação vem dizer que o brasil não merece o que está passando. Merece, sim, mr. desentendido da silva. Foi isso que o país elegeu, não tá lembrado?» [No Nibelunga do Cabelo Duro]
Revista de blogs. Televisão.
«Tenho uma televisão panorâmica a cores. E um panorama cada vez mais negro.» [No What Do You Represent?]
Quem os viu.
Eu acho bem que os governos actuem em caso de buzinões, marchas lentas e cortes de estrada. Também acho bem que não seja permitida a barulheira das galerias durante as sessões do Parlamento. Mas eu sempre achei isso. Nunca defendi buzinões, marchas lentas e cortes de estrada ou que se passe a portagem da Ponte 25 de Abril sem pagar. Mas é bom ver que não estou sozinho. Quem os viu.
Denise.
Nas últimas duas semanas tenho acompanhado as declarações e a intervenção da deputada brasileira Denise Frossard, do PPS (RJ), em torno da CPI dos Correios. Na verdade, tem sido uma voz excelente e a primeira a formular a acusação de formação de quadrilha e a possibilidade de Delúbio Soares entrar na prisão. Denise, que foi juíza, tem aquele aspecto e usa ternos Armani e colete. Gosto. No meio do espectáculo (o senador Sibá, do Acre, leva queijos e bolachas para a sala de audiências da CPI), Denise transporta consigo uma ideia: a de que tem de haver decência na política. Dizer isto noutro lugar, é fácil. Mas no Brasil, no meio de investigações que podem atingir o próprio Lula, haver alguém que o diga dessa maneira, é forte.
Como se sabe, o escândalo e a CPI dos Correios, que funciona em pleno e cujo trabalho ainda não está a metade do caminho, já varreram a direcção do PT e o topo do governo. Se o PT tivesse conseguido, como queria, silenciar a imprensa (e continuar a expulsar jornalistas), controlar as televisões e submeter o Judiciário, seria muito mais difícil, por exemplo, ouvir Denise Frossard.
Ele não devia usar esse nome. (Actualizado)
O presidente do Supremo Tribunal brasileiro, Nelson Jobim, tenta de tudo para «blindar» Lula seja qual for o resultado das investigações. Há um ano no cargo, Jobim foi um aliado firme do PT para que o Judiciário perdesse a sua independência e se submetesse ao governo e ao partido de Lula. Ele não merecia usar esse nome, Jobim.
A Patrícia acrescenta, nos comentários aí acima: «Para a deputada e juíza Denise Frossard (PPS-RJ), Jobim "perdeu uma boa chance de ficar calado", sugerindo que não é competência do Judiciário intervir nas negociações políticas entre Executivo e Legislativo (o presidente do STF sugeriu uma "pacificação" para que a democracia não seja ameaçada por um eventual afastamento de Lula por conta das denúncias de "mensalão" e caixa dois."»
Ota!
Caro Paulo:a ideia de que é necssário esclarecer, em relação à Ota e ao TGV «o seu contributo para a crise orçamental, para a competitividade, bem como a sua viabilidade e utilidade» parece-me francamente boa. Todos a temos chamado, aqui e ali, tendo como base esses princípios muito claros: não há estudos a justificar a Ota; não há acordo sobre o TGV (não precisa de haver unanimidade); as obras públicas anunciadas pelo governo vão, como de costume, gerar alegria nas grandes empresas do betão e da infra-estrutura, além de emprego e «desígnios nacionais», mas não se lhe conhecem grandes virtudes em matéria de incremento da produtividade e de imaginação. Mais do mesmo, não concordas?
Irlanda.

Para quem conhece a Irlanda e a história do Eyre e do Ulster nos últimos cem anos, a decisão do IRA é a única possível. Não sei se a memória de Londonderry poderá voltar a ser apenas a de Derry, mas creio que sim. Pelo menos os domingos de Páscoa não voltarão a ser sangrentos.
Mandatos prolongados, meus amigos.
O Parlamento aprovou a limitação de mandatos dos autarcas, mas com efeitos práticos só em 2013. Ainda há tempo, meus amigos, ainda há tempo.
Chiraco-mundismo.
Artigo de Paulo Tunhas na Atântico sobre o google de Chirac e a ideia de que o Google ameaça a Europa. (via João Miranda)
Curiosamente, Hugo Chávez lançou esta semana a TeleSur para ser «uma espécie de Al Jazeera da América Latina».
Julho 27, 2005
No melhor fórum cai a nódoa.
O Estado de São Paulo revela hoje que os dinheiros do PT & de Marcos Valério & das suas empresas & dos seus bancos (cerca de meio milhão de $R) também caíram directamente na organização do Fórum Social Mundial, de Porto Alegre. Por um lado, José Bové não é um hóspede barato, evidentemente; por outro, já não há pecados originais.
Anthony Bourdain.
Estou envolvido com os livros do Anthony Bourdain. Li A Cooks' Tour. In Search of the Perfect Meal em dois ou três dias e preparo-me para o arranque das primeiras páginas do livro anterior, o mais famoso, Kitchen Confidential. Tenho direito ao meu habeas corpus.
Reencontro com a história.
Zapatero defendeu que todos os países estão sob a ameaça do terrorismo extremista islâmico, independentemente do seu envolvimento militar ou não no Iraque. Ah, o que dirão agora? Que Zapatero enfileirou pela terceira via. Traidor. Afinal, havia atentados antes do 11 de Setembro.
Portugal Fashion.
Os coletes reflectores, obrigatórios desde Junho, podem ser guardados na bagageira. Os coletes podem ter diversas cores. Não existe qualquer imposição legal que exija a utilização do colete desde o momento em que o condutor saia do carro. Ah, senhores, tudo isto é um desastre. Tudo isto é mau para a nova moda já em vigor nos carros portugueses. Não é obrigatório? Não há imposição legal? Ah, o que vai ser de nós?
Revista de Blogs. Intimidade.
«Com o aumento do número de blogs, fotologs e videologs, em breve a intimidade deixará de ser uma coisa, digamos assim, íntima. "Tenho que conversar com você, minha querida, mas não sei se aqui é o lugar ideal. Estamos só nós dois."» [Fabio Danesi, no FDR]
Revista de Blogs. Estrelas.
«Não fosse esta coisa aborrecida da redução do orçamento comunitário, Carlos, e eu até estava capaz de te propor sociedade para uma joint-venture à maneira: enquanto tu contavas aí em baixo, eu ficava cá por cima – uma, duas, três, quatro – a contar as estrelas todas do céu. Mas é preciso não desonrar a pátria. Isso nunca. Não devemos fazer nada que não tenha subsídio.» [Manuel Jorge Marmelo, no Nariz de Ferro]
Julho 26, 2005
Idade.
Se há argumento pernicioso é o da idade: Soares poderia candidatar-se aos noventa anos. Seria um bom sinal; a vida política não tem de ser entregue à rapaziada com bom aspecto. O problema da candidatura de Soares é que vai aproveitar a sua própria idade para pretender tornar indiscutíveis as suas ideias. É um poderoso instrumento de marketing.
«Um acto cívico e pedagógico.»
Toda a gente anda satisfeita com o «acto cívico e pedagógico» de Mário Soares. Uma tal quase unanimidade é muito preocupante. Cívico, está bem, tal como votar, pagar impostos ou aprender a assinar o próprio nome; pedagógico, é um abuso só desculpável com a ideia que o próprio faz da República.
Julho 25, 2005
O regresso do rei.
Só para abreviar: a recandidatura de Mário Soares à presidência significa um envelhecimento muito significativo da própria República. Não que seja mal ser velho. Pelo contrário, a sabedoria é um valor em si mesmo, e isso é quase sempre uma vantagem. Mas o envelhecimento, em certos casos, mistura velhice & ressentimento.
Play-back.
O governo chinês considera que os músicos que usam playback nas suas actuações em palco são criminosos e as multas são pesadíssimas. Eu prefiro o playback. No palco desafinam muito.
Julho 21, 2005
Julho 13, 2005
Julho 12, 2005
Revista de blogs. Vícios.
«Vício é que nem bunda: todo mundo tem, mas acha melhor esconder – e não é bonito ficar falando do formato alheio.» [No Garotas que Dizem Ni.]
Melhor do que a encomenda.
Tarso Genro, o novo presidente do PT na Folha: «O PT perdeu a bandeira da ética? Ainda não. A bandeira é recuperável. O risco existe [Que o PT perca a credibilidade e a viabilidade como partido eleitoral].»
Ah, diz-me toda a verdade.
«O relatório do Banco de Portugal salienta a interrupção do processo de ajustamento da economia em 2004, devido em especial à subida do consumo no primeiro semestre.» «
Livros do Brasil.

Já não há desculpa para não ler alguns dos clássicos brasileiros. A Cotovia começou a publicar a colecção Curso Breve de Literatura Brasileira, dirigida por Abel Barros Baptista. Algumas das melhores coisas da língua portuguesa estão aí.
Divinos sinais.
Não sei bem se é isso. Mas a vantagem da rede sem fios, wifi, para me ligar à net, é o milagre deste Verão.
Julho 10, 2005
Internacionalização da economia de ponta.
Depois de rumores sobre a vaguíssima entrada do banco BES no rol de nomes do escândalo do mensalão lulista, perdão, petista, no Brasil, outra notícia sobre a internacionalização da nossa economia, agora com a Volkswagen. Infelizmente, é apenas uma vaguíssima participação, nada de escandaloso ou muito saboroso. Mas sempre é uma pequena glória luso-brasileira.
Revista de blogs. Ninguém te manda.
«-Bom dia! Tem o Jornal de Letras?
[…] Trejeito pensativo.
-Ó menino, de letras são eles todos.» [No Daedalus.]
Revista de blogs. A festa do colete verde.
«Placa de platina na cabeça, ii. O banco de um veículo vestido com colete fluorescente, daqueles com o número autorizado e tal, não é uma questão de desgosto. É uma questão de preço. Há um ano aconteceu o mesmo com a bandeira da pátria com pagodes.» [Segismundo, no Albergue dos Danados.]
Revista de blogs. Londres.
«Londres. É a guerra total mas não vemos o inimigo. Morrer sem combater, foi-nos reservada a pior das indignidades.» [No A Natureza do Mal.]
Revista de blogs. Questões de política geral.
«Uma das premissas para um sujeito não querer nunca ser "reacionário" e "de direita" é acreditar que pessoas ricas e desmioladas e egoístas não têm simpatias esquerdistas. Ou que apenas as pessoas que não têm simpatias esquerdistas são ricas, desmioladas e egoístas. Mais ou menos assim: as patricinhas loiras de calça colada e cabelo superliso não votam no Lula. [...] O curioso é que todas as fulanas que conheço que se encaixam exatamente na tal descrição (bonitinha, patricinha, ansiosa para parecer sofisticada, com bastante dinheiro para supérfluos todos os meses - ou seja, a definição da mulher desmiolada e burra, para os que têm simpatias esquerdistas) votam no Lula, são "contra o monopólio econômico dos EUA", "contra a religião organizada" e "a favor do aborto" (o que, para 90% da população mundial, faz delas mulheres inteligentes). Então eu me pergunto: onde estão as tais blonde bimbos de verdade, as burras & loiras & ricas que não têm simpatias esquerdistas? A única explicação é que elas automaticamente passam a ser do lado do "bem" quando pensam feito eles e votam no Lula e todo o resto ("ah, gente, tudo bem que ela seja patricinha, né, mas é inteligente").» [No Miss Veen]
Revista de blogs. Como vencer a blogosfera.
«Como vencer uma discussão fazendo uma dancinha de vitória.» Ler o post do Alexandre.
Revista de blogs. Coisas que acontecem em São Paulo.
«Carla atravessou a rua usando apenas saia. Do outro lado encontrou seu inimigo, nu, excitado, de camisinha já posta. Ele veio no seu rumo, mergulhou nela e os dois fizeram amor rolando e rodopiando pela calçada, até que o solo tremeu de paixão. A lua, as estrelas, os postes, os faróis, tudo vibrava, tudo era amor.» [No Santaputa]
Revista de blogs. Castigos divinos.
«Deus não vai agüentar a multidão de puxa-sacos e demais. Em vez disso, seguirá Seu plano de punir os pecados de cada geração com o castigo correspondente, como tem feito desde há algum tempo. Por exemplo: à liberação sexual dos anos 60, Deus respondeu com Delfim Netto. À new wave da década de 80, respondeu com a AIDS.
"E a década de 70?" – perguntareis. Na verdade, Deus nada teve a ver com aquilo, pois o castigo da disco é a própria disco.» [no Radamanto.]
A Casa Quieta.

Surpresa: o romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, A Casa Quieta (Dom Quixote).
«...pássaros organizados a cercarem-nos, cegos por moedas migalhas notas, nem sequer a pretinha ou a tua mãe, as mulheres que quis eram mulheres que me queriam, que me desejavam, não necessariamente para investir, cinco seis sete vezes, mas quem sabe, deitarem-se ao meu lado a rir, de vestido molhado pelos salpicos do poço, debaixo das árvores da primavera, morango baunilha buganvília rosas água fresca malmequeres...»
Revista de Blogs. Minimalismo.
«E para os devotos dos blogs minimalistas, e pelo mesmo preço, vos digo, hoje faria um post praticamente melancólico, dizendo que: em terra de passarinhos que tem olho é coruja, e em terra de marinheiros quem tem mamas é maruja.» [No Opiniondesmaker]
Imprensa.
De dois debates que ouvi, com a presença de jornalistas, elogiou-se muito a contenção da imprensa britânica depois dos atentados terroristas de Londres; elogiou-se a sua sobriedade, o respeito pelas vítimas, até a natureza das perguntas dos repórteres aos londrinos que saíam da cena do crime. Elogiou-se o código de conduta da BBC e o respeito por ele, em qualquer circunstância. Eu não acreditava que estava em Portugal, o país em que as televisões anunciam arrastões e fazem directos da Cova da Moura.
Carcavelos.

Não resisto a republicar a foto (do Pedro) tirada nos areais de Carcavelos. Este é o verdadeiro arrastão.
Amiguinhos.
A esquerda já vê em visitas ao Estádio do Dragão uma jantarada conspiratória de direita, em busca de amigos.
Notícia extraordinária. Mais maldade.
Petista preso com dólares na cueca é exonerado. «O assessor parlamentar José Adalberto Vieira da Silva foi demitido neste sábado, após ter sido preso ontem no aeroporto de Congonhas, carregando R$ 200 mil numa valise e mais US$ 100 mil presos em sua cueca. Vieira é assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do presidente nacional do PT, José Genoino, que renunciou nesta manhã ao cargo. (Aqui)»
Maldade.
A notícia de que Tarso Genro, o ministro da Educação que Lula tirou a Porto Alegre para substituir Cristóvam Buarque, é o novo presidente do PT. Ou seja, segundo se murmura, vai trabalhar de ouvido (e quem sopra é Dirceu). Mas tem uma vantagem: Tarso deixou o Ministério da Educação.
(Genoíno deixa a direcção do partido e diz que tem pensar «como sobreviver na vida».)
Mensalão português.
Tinha de acontecer. Pode haver, parece, uma ligação entre o banco BES e o «mensalão» PT/Jefferson. Papel instrumental, claro, e ligeiro. Mas tem essa sombra: negócios com o poder, qualquer que seja o poder.
Arrastão de Carcavelos. Portugal desmentido.
A manchete do Expresso é assim mesmo: a polícia, afinal, declara que não houve nenhum «arrastão» em Carcavelos. Mas também declara que foi pressionada para dizer que houve. Desde quando é que a polícia é pressionada para dizer que houve um «arrastão»?
Outro eu, definitivamente.
A ideia não é nova, mas tem aparecido aqui e ali. Ninguém é exactamente uma mesma e única coisa, mas convém que um governo seja animado por um princípio de coerência. Por exemplo: dizer «eu defendo o Estado social» e iniciar uma campanha acelerada de privatizações. Ou dizer «eu quero controlar decididamente o défice e emagrecer a Administração pública» e negar que se vão fazer despedimentos na Administração pública ou prometer grandes obras públicas determinadas pelo Estado. Mas a verdade é esta: acontece.
Eu e as touradas.
Eu e as touradas não temos relação nenhuma. Mas, numa passagem pelo café da vila, vi pela televisão duas coisas que me deixaram orgulhoso, nem sei bem de quê: um forcado preto ovacionado de pé depois de uma pega extraordinária, e uma cavaleira loira que parece que se portou bem. Nenhum deles tinha patilhas.
Julho 08, 2005
Vidas miseráveis.
No Alfa Porto-Lisboa, um cavalheiro telefona para vários amigos, perguntando se o tinham visto na televisão, de tarde. Muitos tinham visto.
«A merda das bombas tirou-me meia-hora de conversa», explicou ele, um cavalheiro da indústria da comunicação. «Aquele Blair meteu-se com eles, levou.» Há pessoas com vidas miseráveis.
Julho 07, 2005
Londres, 2.
Composed upon Westminster Bridge (3 September, 1802)
Earth has not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres, and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendour, valley, rock, or hill;
Ne‘er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! the very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
William Wordsworth (1770-1850)
Londres.
London I wander thro' each charter'd street,
Near where the charter'd Thames does flow.
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.
In every cry of every Man,
In every Infants cry of fear.
In every voice, in every ban,
The mind-forg'd manacles I hear.
How the chimney-sweeper's cry
Every blackning Church appalls;
And the hapless Soldiers sigh
Runs in blood down Palace walls.
But most thro' midnight streets I hear
How the youthful harlot's curse
Blasts the new-born infant's tear
And blights with plagues the marriage hearse.
William Blake (1757-1827)
Leis de Murphy.
Há uma grande discussão sobre se o governo aumentará, ou não, os impostos, ou se criará mais. Temo bastante que as pessoas se tenham esquecido das «leis de Murphy». Claro que os impostos vão aumentar.
Transportes. O mundo já não é o que era, 2.
Gare de Oriente, na fila para comprar o bilhete para o Porto. Um casal holandês, jovem, faz um questionário completo ao funcionário da blheteira. Este, depois de ouvir, recomenda determinado comboio, sugere um bilhete ida-e-volta porque é mais barato. Num inglês irrepreensível. Eles decidem e fazem mais algumas perguntas. O funcionário sorri, diz que sim, e entretanto aproveita para lhes corrigir o inglês. Havia um tempo verbal incorrecto e um complemento directo fora do sítio. Chega a minha vez:
«Belo inglês, hein? Parabéns.»
«Eh, eh, eh. O mundo já não é o que era.»
Transportes. O mundo já não é o que era,1.
Aeroporto de Lisboa, às 7:30 da manhã. Turistas a embarcar para o Brasil, executivos apressados para as linhas europeias, etc. Encontro-o, de t-shirt, preparado para o check-in para S. Paulo.
«Para onde vais?» [pergunta desnecessária, mas com algum efeito]
«Para S. Paulo.»
«Vais de férias?»
«Não. Vou a uma prova de vinhos.»
«Eh, eh, eh...»
«O mundo já não é o que era.»
Julho 06, 2005
Jogo de cifras. Em benefício do hooligan.
Charlotte, vamos tratar de aspectos estratégicos, portanto. Os bilhetes do inaugural da Liga ficam por minha conta, mas o jantar tardio corre por vos.
Levarei a bandeira do imortal, embora sejam admitidos pendões do River (por Lucho e pelo Carlos) e do Grêmio (por Anderson e por mim). Os outros estão em fase de observação .
Cifra entre hooligans.
Charlotte, diz-lhe que era bom que preparássemos a ida ao jogo inaugural. O Carlos pode levar-te, não? Quanto ao Lisandro, tenho esperanças.
Arrastão de Carcavelos. Portugal em cores.
Já muita gente percebeu o que se passou em Carcavelos a esta hora. Mas as melhores fotos vêm no Céu sobre Lisboa. Sobretudo esta, a do meu país em várias cores.
Lucho. Uma cifra de hooligan.
Charlotte, diz-lhe que o Lucho já chegou e que não tenho pena que o River tivesse ficado sem ele. Aliás, o Lucho vai ajudar-nos a massacrar o Boca, em Amesterdão, tão certinho como isto.
Adufes.
Parabéns atrasados ao Rui, do Adufe, verdadeiro apontador da blogosfera portuguesa. Graças a ele não podemos desculpar-nos com falta de atenção. Basta lê-lo. São dois anos, claro.
Dois anos também comemorados pelo Pantalassa, outra ponte entre continentes a que vale a pena estar atento.
E dois anos para o Opiniondesmaker, um grande nome de blog. Escreve ele: «Este blog possuirá uma coisa boa: não tem leitores; terá quanto muito olhos que pestanejam intermitentemente por aqui. É como um hotel feito para não ter hóspedes mas apenas passantes.» Mas um homem que escreve isto sabe que não é verdade: «Evitaria os temas difíceis, especializava-me no sermão da Montanha, relativizava a moral sexual, valorizaria o sfumato, inventava outra vez as amêijoas à bulhão pato, compararia Canaletto com Poussin e chamava a Borges menino da mamã, mas Deus estaria sempre presente; e haviam de ver.»
País de Lula.
O velho PT, instrumental, cubano, araguaísta -- é disso que Lula se livra, com a tralha que tem de sambar (Genoíno, Dirceu, Delúbio, Valério, professor Luizinho, etc.)? Tralha de dois anos de poder assente em informalidade (o Banco do Brasil tornou-se accionista do PT, na verdade) e em optimismo, os dois males do populismo misericordioso.
A ideia de o grupo de Marta Suplicy pode chegar à direcção do PT também é curiosa: transporta, nos bolsos, o rasto de uma administração curiosa em São Paulo.
Entretanto, ao mesmo tempo que Lula chora, no planalto, atribuindo mais ministérios ao PMDB (incluindo o das Cidades, que era de Olívio Dutra) de Renan Calheiros e Sarney, o PMDB confirma que entrava no bolo do mensalão, o que é mais fogo a arder nas barbas do presidente.
Felizmente, neva.
PS - Sugestão do J.C.B., veja-se este blog.
México, regresso.
Em 1994 passei uma larga temporada no México e assisti, digamos, ao desmoronar do velho PRI; o seu último rosto era Carlos Salinas, que cumpria a via-sacra de revelações sem fim sobre as ligações entre política e droga, com homícídios pelo meio (incluindo o do candidato presidencial do próprio PRI), e as sequelas da «revolução zapatista». Ernesto Zedillo, o novo presidente, era um homem sensato com uma tarefa impossível: acabar com setenta anos de corrupção, arbitrariedades, violência, burlas eleitorais, perseguições. Assisti, com jornalistas do La Reforma, a assaltos a vendedores do jornal, praticados por funcionários do PRI. E vi televisão, um enorme monstro de propaganda do partido. Havia um claro sentido do irrespirável. Carlos Monsiváis, à esquerda, Jorge Fuentes e o grupo San Angel Inn, no sector liberal, e muitos assessores de Zedillo, comungavam dessa ideia simples: as coisas tinham acabado e o «zapatismo» de Chiapas era apenas um sinal. Depois, viria Cárdenas (que não veio; pelo contrário, foi a direita do PAN, e depois Vicente Fox). O PRI ganhou de novo as eleições em Mexico DF, com 47%.
FARC, Colômbia.
Raul Reyes, um dos homens fortes das FARC, numa reportagem da France Presse. Que não negoceia, a menos que o presidente Alvaro Uribe perca as eleições na Colômbia. Ninguém acha estranho que Reyes mencione países amigos nas suas declarações.
Verão, também.
As crianças deviam ser geneticamente impedidas de saltar para a piscina a menos de oitenta centímetros de tudo o que fossem esquinas, vértices, cantos, seja o que for. Problema de respiração, a meio do Verão.
Julho 05, 2005
Retratos do Verão.
Praia da Comporta. Azul, branco, última luz do crepúsculo. Ruído do mar. Praias fluviais no Norte. Castanheiros verdes, carvalhos renascidos no castelo de S. António de Monforte, pinhais de Boticas.
Incêndios de Mafra, terra queimada, bombeiros.
Edimburgo. Fogo de artifício.
Aquelas imagens são banais e banalizadas. Não têm qualquer relevância nem, actualmente, qualquer significado.
PS - Estranho que a França e a Alemanha se associem para perdoar a dívida africana e para ajudas humanitárias ao grande continente, e não entendam que as vacas francesas e alemãs recebem mais subsídios num mês do que jamais receberão agricultores africanos ou latino-americanos durante uma vida inteira.
Pacheco Pereira escreveu sobre o assunto, a propósito de Edimburgo e de uma reportagem sobre Angola, potência militar regional.
Chineses na Madeira e a Cova da Moura. Coisas arrastadas pelo vento.
Na janela de comentários, «Anonymous» escreveu que aí «não moram só os "imigrantes africanos"; muitos do que lá moram, africanos ou não, são mesmo é portugueses, com passaporte e BI Portugueses, assim como a maioria dos jovens do "arrastão" do 10 de Junho». Parece-me inteiramente correcto. Para todos os efeitos, é preciso ver que, quando se fala em pretos & brancos, ou seja, pretos na Cova da Moura ou na Quinta do Mocho, estamos também a falar de muitos cidadãos portugueses. Distinguir pretos & brancos pode ser um julgamento misericordioso mas é também ignorância. O meu país é de várias cores.
O arrastão de Carcavelos surpreendeu muita gente e eu acho que há razões para isso. Não vale a pena sermos cínicos ao ponto de dizer que “estava escrito” – isso tanto serve para ser usado pela extrema-direita racista, que culpa “os pretos e os estrangeiros” pelos desacatos na velha pátria (como se fôssemos todos branquinhos e enjoados), como pela esquerda fatal que aprecia o retrato de vitimização “dos marginalizados e dos excluídos” (como se em Portugal houvesse apartheid). Esse caldeirão é redutor e nele cabe tudo o que não vale a pena discutir com seriedade. Na verdade, não estava escrito. Poderia acontecer, mas a dimensão do estrago tomou proporções alarmantes, com as televisões a anunciar mais “arrastões” onde se tratava apenas de assaltos e a tremer de comoção com um roubo por esticão cometido por um “cidadão de raça negra”.
Há uns anos, era Fernando Gomes ministro da Administração Interna, e uma actriz foi assaltada. A actriz murmurou ainda que Lisboa era pior do que o Rio de Janeiro. Só umas semanas depois toda a gente se deu conta do exagero e do ridículo. Imediatamente, explodiram comentários, na imprensa e na rádio, sobre o mal que os pretos estavam a fazer à pátria, ainda que o caso não tivesse registado as proporções trágicas do Meia Culpa, em Amarante (em que só brancos estavam envolvidos, portanto). A paranóia foi gritante. As televisões adoram.
Esta questão do racismo volta de vez em quando à tona. Uns energúmenos organizaram uma manifestação “patriótica” para pedir que os pretos sejam expulsos e a pátria salva da invasão dos estrangeiros. A praia de Carcavelos, entretanto, voltou à calma com menos gente, que prefere outras paragens. O problema de Carcavelos, aliás, não é de integração racial nem de segregação racial: era de policiamento. Pretos ou brancos, adolescentes “excluídos” ou imberbes “integrados”, os criminosos devem ser tratados como criminosos pela polícia. Não há volta a dar-lhe. O resto é cair na vitimização rota, muito sociológica e sacana, ou no racismo de pretos e de brancos, demasiado imbecil.
Há aqui uma questão central: a da nacionalidade. Eu quero que o meu país seja feito de pretos e de brancos, de católicos e de muçulmanos, de ucranianos e de beirões. É uma ideia pessoal e admito que seja lamentável – mas não vejo outra solução. Estamos todos cá. Já vai longe o tempo em que tivemos um treinador da selecção nacional de futebol que defendia a existência de “portugueses legítimos” e de “portugueses de segunda”. Para mim, Deco é como se tivesse nascido no Minho e um miúdo nascido de pais bielorrussos que trabalham em Lisboa é como se fosse ribatejano.
O presidente Sampaio foi à Cova da Moura. Devia ir mais vezes porque vivem lá portugueses e não pretos. E o presidente da Câmara da Amadora também. Se aquelas pessoas são portuguesas, são portuguesas – devem obedecer às nossas leis, ser tratados como cidadãos, presos se cometem crimes, hospitalizados se estão doentes, perseguidos se praticam excisão feminina, e os seus filhos educados nas escolas públicas. Essa é a lei que eu defendo. Se não são portugueses, devem comportar-se como estrangeiros e respeitar o país onde vivem até que decidam, de acordo com uma lei justa e generosa, optar pela nossa nacionalidade. E aos estrangeiros devemos também um pouco de atenção. Nós fomos estrangeiros em qualquer outro lugar da nossa vida.
Isto não evita os arrastões, mas ajudará bastante. O pior racismo é o da iniquidade com que se permite a miséria. A pretos ou a brancos. (no JN)
Enquanto a Microsoft vigia a net chinesa às ordens do governo.
Bispo católico raptado na China. Ainda não vi reacções oficiais a isto.
Blog de política. Política impura.
O Paulo Gorjão assinala dois anos do Bloguítica. Acompanhei os dois blogs que o Paulo manteve desde o início (o internacional e, depois, o nacional). Confesso que sinto alguma falta dos seus comentários sobre política internacional, onde se revelavam mais as sombras da política impura e os seus conhecimentos sérios quando se fala da Ásia-Pacífico, por exemplo. No caso da política nacional, a sua atenção é superlativa e, muitas vezes, desarmante, mesmo quando não concordo. Parabéns, Paulo -- outra cerveja nos espera no Bonaparte.
Chineses na Madeira.
As declarações de Jardim são impróprias e imbecis. Não há outro comentário que se possa fazer. Eu quero chineses, brasileiros, ucranianos, bielorrussos, japoneses (por falar nisso, há um excelente restaurante japonês no Funchal, com um sashimi muito bom), espanhóis -- tudo. Definam-se as regras e o assunto fica arrumado. Já o escrevi várias vezes, e sou insuspeito. E sobre Jardim sou ainda mais insuspeito (tenho um honroso processo judicial nesta matéria).
Quanto ao presidente da República, acho que reagiu de maneira sofrível. Por um lado, condenou as declarações. Por outro lado, estragou tudo no final, ao dizer que é preciso «ter muito cuidado em Portugal» para que atitudes como estas «não possam ser vistas por terceiros como declarações que tenham a ver com racismo ou xenofobia». Ridículo. Por terceiros? Porque temos de causar boa impressão lá fora? Porque temos de esconder o dr. Jardim debaixo do tapete? Porque o presidente foi à Cova da Moura?
A existência de um homem que diz «está-me a fazer sinal aí porquê? Que estão chineses aí? É mesmo bom que eles vejam porque não os quero aqui» é preocupante.
O país de Lula. Continua o abanão.
Caindo a direcção do PT, com Genoíno (talvez Raul Pont suba a presidente, quem sabe), o encantador Delúbio e quem mais Lula puser na lista de perdidos e amigos que têm de sambar, há um dilema a resolver: «Na direcção do PT só vai ficar o Lula e gente que não é do PT.»
Claro que ficam os gaúchos. É o que se chama a síndrome Getúlio de regresso...
O país sem fim. Coisas boas.
Mart'nália no Porto, brilhante, cheia de riso. O pai Martinho da Vila em Lisboa e no Porto. Neva na serra, de Gramado a Cambará. O Ulisses está na lista dos mais vendidos, na nova tradução de Bernardina Pinheiro (e Paulo Coelho desceu no top -- é a minha vingança depois de ter ocupado parte dos últimos dez dias a ler o homem). Peço-lhes o favor de descobrirem, na música, os nomes de Vítor Ramil, de Adriana Maciel, de Nei Lisboa e de Claudio Levitan.
O país de Lula. Continua o «mensalão».
Continua o mesmo episódio da mesma novela. Com esta novidade, há mais partidos aliados do PT a receber por fora, mantendo o PMDB a velha tradição de conhecer todo o mundo. Ou de como há estranhas coincidências: os pagamentos do PT aos partidos aliados aumentavam na véspera de votações importantes no Congresso. Teoria um: o PT, coitado, e Lula, coitado, vítimas do sistema (apud companheiros vários, enternecidos). Teoria dois: trata-se de uma conspiração evidente contra o país (Frei Betto, Dirceu, Genoíno, etc.). Não vejo outras explicações. Mas os companheiros pedem delicadeza no tratamento dos companheiros investigados. Lula diz que o combate à corrupção será mortífero, mas a verdade é que a história já vem de longe e chamuscou as barbas do presidente.
Entretanto, o velho Malvadeza diz que os ministros de Lula são maus, mas, como bom coronel, não deixa de apoiar Lula. Amizades.
Julho 03, 2005
A Praia.
O Ivan foi uma das pessoas que gostei de conhecer nos últimos dois anos de blogosfera. Muitas vezes, a rir, e só por isso, eu dizia «aqui está o Ivan, que é de direita, embora ele não saiba, e diga que é de esquerda». Na verdade isso nunca foi importante, nem costuma ser importante entre gente bem-educada. A Praia é um blog delicado, bem escrito e o Ivan é um cavalheiro. A delicadeza faz parte dos elementos de um bom carácter. Por mim, tenho pena que ele não escreva mais; mas compreendo que estas coisas têm a justa medida. Tenho com o Ivan um interesse comum, o Brasil (futebol, livros, praias, música), que ele conhece bem e onde nos encontrámos para beber e até fumar um bom charuto. Tudo isto para dizer que A Praia faz hoje dois anos.
IVA. O combate pela pátria.
Aviz fica a quarenta e cinco minutos de Espanha. O supermercado Corte Inglés de Badajoz, na passada sexta-feira, estava cheio de portugueses. O combate do IVA está a ter bons efeitos. A pátria regressa aos velhos e bons hábitos.
PS - Aliás, há supermercados espanhóis que fazem «entrega em casa», do lado de cá da fronteira.
Julho 02, 2005
Pink Floyd.
Aquele tema do Live Aid. Eu tinha 14 anos em Chaves e o mundo era tão incógnita como hoje. A mesmíssima canção, trinta anos depois.
Outro Poema de Bernardo Pinto de Almeida. As palavras são coisas
Falamos das coisas e elas acontecem
por isso ciciamos o que nos pede o corpo
não são as coisas só aquilo que dizemos
nossas pobres palavras não as dizem inteiras?
As palavras são coisas, extremas, luminosas,
quando tu dizes porta, há uma porta que se abre
quando tu dizes sexo, há um amor que se cumpre
não sabemos sequer o poder das palavras
nem o poder das coisas nem o poder dos rostos.
As coisas são palavras feridas pela morte
são agulhas finíssimas que trespassam a noite
os teus lábios dizem coisas os teus lábios cintilam
por eles fala o mundo, por eles se faz o oiro
pois o mundo acontece sempre que o pronuncias.
Vingança.
Juntamente com os livros do cavalheiro, li os quatro primeiros capítulos do segundo volume do opus magnum de João Alberto Pereira Azevedo Neves, um vetusto catedrático de Medicina Legal de Lisboa nos anos vinte do século passado: Guia de Autópsias. É a segunda edição, de 1930 (Imprensa Nacional). A parte sobre «ferimento occasional da morte» é superlativo: «A affirmação de que um ferimento foi apenas causa occasional demanda que se prove que elle não era sufficiente para, só por si, produzir a morte e, por outro lado, que havia circumstancias particulares no offendido e victima que fizeram com que a offensa, que n'outros seria benigna, para elle se tornasse mortal.» Como em tudo.
Gosto: uma palavra armadilhada.
Provavelmente, juntamente com Bernardo Pinto de Almeida, o autor de quem mais gosto de ler textos sobre arte e sobre artistas. José Gil acaba de publicar Sem Título. Escritos sobre Arte e Artistas (Relógio d'Água).
Misericórdia no meio do calor.

De entre os livros dispersos, e até para repousar das coisas temíveis a que a profissão obriga, leio Morte no Paraíso. A Tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines (Rocco). Que livro. Excelente biografia, mesmo com olhar enternecido de Dines. O problema das biografias é a paixão pelo biografado. Mas não há outro remédio: «Subir não é apenas o ato de acompanhar a elevação da topografia, pode ser a maneira de escapar da depressão. Subiu o morro em Salzburgo, a colina de Bath, agora vai escalar a serra de Petrópolis, três refúgios acima da mêlée. Tudo diferente em matéria de geografia, tudo igual em matéria de significado. A varanda que tanto o fascina é a metáfora da fresta por onde pensa espreitar os tumultos lá embaixo. Chalé mobilado -- não quer acumular coisas -- assim não terá que cortá-las logo de seguida.» [pág. 403] E este fragmento da carta de Albert Speer: «Não posso contar muito sobre a reacção do governo nazi ao suicídio de Stefan Zweig. Tudo o que posso lembrar foi que sua morte foi saudada com grande alegria e que o partido considerou um bem merecido para aquele inimigo do nacional-socialismo.»
E o funeral de Zweig (autorizado por Getúlio Vargas em Petrópolis, e ao qual não compareceu nenhum escritor brasileiro): «No exato momento em que Hitler acende os fornos do Holocausto, na aprazível Petrópolis discute-se a maneira mais honrosa de sepultar uma vítima do nazismo[...]» «Badalam os sinos das igrejas, o comércio fecha as portas, nos mastros a bandeira do Brasil a meio-pau. Cinco mil pessoas acompanham o féretro a pé enquanto, nas calçadas e sacadas, outros dão adeus ao inventor do país do futuro. No cemitério da cidade, obedecendo ao ritual judaico, os caixões são colocados sobre pranchões de madeira, de modo que os corpos fiquem perto do chão, enquanto o rabino Lemle lê um trecho do Jeremias, do próprio Zweig [...].»
Lupicínio Rodrigues, aliás.

Se Acaso Você Chegasse Se acaso você chegasse No meu chatô e encontrasse Aquela mulher Que você gostou, Será que tinha coragem De trocar nossa amizade Por ela que já lhe abandonou. Eu falo porque essa dona Já mora no meu barraco À beira de um regato E de um bosque em flor De dia, me lava a roupa, De noite, me beija a boca E assim, Nós vamos vivendo de amor |
Jefferson, o Átila brasileiro, 3.
Para quem quer ler o essencial sobre o assunto, ir aqui. Tem especial importância a nota de humor de Lula: «Amigos que erraram vão sambar.» Eles não têm feito outra coisa, note-se, companheiro.
Jefferson, o Átila brasileiro, 2.
Mas reparem bem neste pormenor: Jefferson, o homem que está a deixar o Brasil no meio do turbilhão, denunciando o «mensalão» e outras corruptelas maiores, «teria se desequilibrado ao subir numa escada quando procurava uma caixa de CDs do cantor Lupicínio Rodrigues». Lupicínio, génio e herói porto-alegrense (e autor do hino do Grêmio, já agora.) Bom, espíritos perversos propõem que a canção que Jefferson (o homem a quem o PT pagava para manter o PTB na órbita do lulismo) procurava era, imagine-se, «Vingança». E o que diz a canção? Isto (em itálico, para bom entendedor):
Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
Que lhe encontraram chorando e bebendo
Na mesa de um bar e que quando
Os amigos do peito, por mim, perguntaram
Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar
Mas, eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
Que tive, mesmo, que fazer esforço .
Pra ninguém notar
O remorso, talvez, seja a causa do seu desespero
Você deve estar bem consciente do que praticou
Me fazer passar essa vergonha com um companheiro
E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada
Sem ter, nunca, um cantinho de seu pra poder descansar.
Jefferson, o Átila brasileiro.

Aí está como Roberto Jefferson apareceu para mais um depoimento na CPI brasileira que também se encarrega do «mensalão». A legenda podia ser: «Vejam o que acontece a quem denuncia o aparelho do PT.» Mas não. A imprensa ecslarece: «O deputado exibiu ao chegar à CPI o rosto inchado, com 12 pontos, segundo sua assessoria de imprensa, causado por um acidente doméstico ocorrido na segunda-feira passada. O deputado teria se desequilibrado ao subir numa escada quando procurava uma caixa de CDs do cantor Lupicínio Rodrigues e o armário no qual se apoiou caiu sobre a cabeça dele. Por causa disso, Jefferson teria pensado em desistir». Mas não desistiu. Tudo baralhado na pátria de José Dirceu.
Julho 01, 2005
A natureza do mal.
Ontem, ao passar em Coimbra, não quis esquecer-me de dar os parabéns ao Natureza do Mal. Por dois anos de vida.
Virada.
Vitória de virada do Grêmio, meu tricolor brasileiro. Depois de estar a perder por 1-3, deu a volta e terminou a ganhar 4-3. Sim, o Grêmio subiu ao quarto lugar, claro que da segundona. Mas enfim, é um ano sabático, logo estaremos de volta.
Junho 30, 2005
Como tudo se explica.
«A minha geração achou que era dona do país», diz Saldanha Sanches na Visão; é uma frase a reter. Saldanha Sanches poderia ter dito «a minha geração acha que é dona do país» para assim se explicar parte do falhanço da «classe política»; visto de longe, lá dos altares do espírito, o país é moldável, maleável, transformável, e as soluções adequam-se. Mas quando a proximidade é inevitável, ah, tudo é desilusão. A teoria da choldra (que vem do século XVIII, sobretudo) nasce desse olhar. Mas nem todos eram miseráveis ou cretinos; muitos eram geniais (Cavaleiro de Oliveira, Luís da Cunha, Verney, Sanches). Tornaram-se miseráveis quando (como todos os que carregam utopias infalsificáveis), para além de se julgarem donos do país, se julgaram donos da verdade. Sócrates, que é da geração seguinte à de Saldanha, está na encruzilhada.
Esfolar o Coelho.
Prossigo a tarefa. Prevejo que daqui a quinze dias Paulo Coelho esteja devidamente esquartejado. Ler este homem é uma tortura, admito. Hoje de noite reli páginas de Monte Cinco para testar algumas qualidades (minhas) como conhecedor do Livro. Apesar da citação «mariana» e católica que abre os seus livros, estou convencido de que Coelho usa uma Bíblia de quarto de hotel.
Referendo.
Sim aos referendos. Mas esta «febre referendária» em relação ao aborto parece apenas uma tentativa de o PS sacudir a água do capote e servir-se dele como arma que o PSD também pode usar, se se portar bem. O PS ainda não descobriu para que servem as maiorias.
Junho 29, 2005
Um poema de Bernardo Pinto de Almeida. Bilhete postal (H.S. 3B)
Aos que fizeram da luta de classes um negócio
se deitaram das pontes mas com pára-quedas
se despediram do mundo e fundaram outra empresa,
fizeram da dor um carnaval
montaram takeaways de sentimentos
não poderemos senão desejar
os melhores votos de
uma feliz,
rápida,
morte.
Junho 28, 2005
Os problemas florestais.
Retratos a meio da floresta: colesterol mau acima do nível, colesterol bom à medida mais do que justa; próstata em bom estado; hemograma sem drama; os outros elementos andam regulares, do fígado ao que for preciso saber que existe e que se manifesta, além de que a tensão arterial não é para preocupar. Fica o relatório feito por uns tempos. Há cerejeiras à beira do caminho. Metade da vida já lá vai; agora, uma dieta com certos rigores, passeios pelos bosques, mais sono durante o Verão. Estou pronto para Setembro. Retratos a meio da floresta.
Árvores, sem adjectivos.
Um dia destes, no Livro Aberto, dei com este livro. Tinha andado desatento, mas felizmente a sorte favoreceu-me. O livro é de Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho e Manuela Delgado Leão Ramos e leva o título À Sombra de Árvores com História (publicado pela Campo Aberto ainda no ano passado, 2004). Eu não sei o que é necessário para que o Porto (a cidade, a Câmara, os portuenses, nunca se sabe) inclua o livro na sua bibliografia fundamental. Mas a verdade é que um livro destes, assim, faz parte da história da cidade. O inventário das árvores históricas do Porto (para quem não sabe, há um inventário de árvores centenárias portuguesas realizado e publicado pelos serviços do Ministério da Agricultura) é um acontecimento e um marco que devia ser assinalado. Eu faço-o com atraso, mas o defeito é meu. Distraído com romances, não tinha dado por estas fotografias de jacarandás, magnólias, metrosíderos, ciprestes, plátanos, araucárias, cedros do Líbano e do Atlas, tílias, carvalhos e ginkgos, tudo espalhado pela cidade, em praças, ruas, jardins, colinas, passeios junto à água do Douro ou do mar. Parabéns ao Dias com Árvores. Oxalá pudessemos merecer essa homenagem, de cada vez que passeamos pela cidade e de cada vez que gostamos de as ver, às árvores.
Dois anos de Abba.
O Aba de Heisenberg comemora dois anos também, de excelente incerteza. Andamos quase todos pela mesma idade, é o que nos vale.
Portugal.
Fátima Lopes, Luís Buchinho, Nuno Gama (eu não percebo nada do assunto), ou alguém mais, não sei. Mas a moda do colete reflector está a transformar a pouco e pouco a paisagem visual das estradas. Garanto que vi um cavalheiro vestir o colete para sair do carro e dirigir-se ao tronco de um pinheiro, na berma.
Mais coisas temíveis, 2.
Regresso a Veronika para verificar que há uma série de repetições involuntárias em Brida, ou ao contrário (no caso de Paulo Coelho, não interessa a ordem de publicação). Problemas semelhantes dão origem a soluções completamente inversas. Pobre Siddhartha que se transforma em Taróloga Maya. Em Brida há uma passagem comovente que me esqueci de assinalar ontem, e que recomendo à atenção do Rui CS: o namorado de Brida (que é secretária numa empresa de Dublin) ganha menos do que ela; ele é professor no departamento de Física numa universidade pública irlandesa. Assim vai o mundo. Há sempre temas para debate.
Revista de Blogs. Canalha fundamental.
«Carrilho é o canalha fundamental. Isso está antes do seu programa político, antes do partido a que pertence, antes de uma vitória «da esquerda». E é inquietante que algumas pessoas decentes publicamente associadas a esta candidatura não tenham ainda feito a sua ruptura, manifestado abertamente isso. Ah, sim – eu votarei no Sá Fernandes. Eu votaria em quase todos os outros, para não votar em Carrilho.» [Ivan Nunes, no A Praia]
Exames, 2.
Sobre os exames e a «quase unanimidade» à volta dos exames, o Ademar F. Santos escreve por email: «Não tomes a nuvem por Juno. A crença nas virtudes redentoras dos exames não passa disso mesmo... uma crença. Se, de vez em quando, passares os olhos pelo Abnoxio constatarás que, não sendo eu "pedagogo" nem "pedabobo", não mudei de opinião a respeito da serventia dos exames (há 20 anos, pelo menos, que não mudo de opinião). Como diria o Almada, se não houver outra maneira de a gente se salvar... estamos fodidos. O problema é que, pelos vistos, andamos quase todos à procura de fórmulas muito simples e expeditas para garantir a qualidade da educação, como se a educação fosse uma equação a duas ou três incógnitas e se pudesse resolver assim, de uma penada, mais exame, menos exame... Há muito que deixei de dar para o peditório das "reformas", as tais "reformas" iluminadas que, de uma forma instantânea e igualizadora, resolveriam todos os problemas do nosso ensino. Já se viu que não resolvem. A reforma dos "exames" seria apenas mais uma. Podes crer que nada de essencial se alteraria.»
Solidariedade.
A bondosa Tati, solidária por email: «Venho, por este modo, apresentar-lhe a mais sentida solidariedade pela vil tarefa a que foi obrigado. Entendo o sofrimento causado por tão penosa cruz que arrasta - ler, de «cabo a rabo», o Paulo Coelho não é tortura admissível. Não fosse ser Socrático o governo, e juraria a pés juntos que Inquisição nunca mais. Assim, não sei, não... Presumo pelo que escreveu que os seus sinais vitais se conservam e a lucidez não foi afectada. Afinal, riu com o Verónika! Eu também, mas por pouco tempo, que não devem as gentes rir das desgraças alheias.»
(Actualizado com o link correcto para o blog da Tati.)
Frescura.
Na mesma edição do Público, Eduardo Prado Coelho recorda uma afirmação de Sócrates depois da demissão de Guterres. O actual primeiro-ministro dizia, então, que os «eleitores querem é uma hipótese mais fresca».
Junho 27, 2005
Erros meus, boa fortuna.
A melhor secção da imprensa de ontem é «O Público Errou», do Público: por um lado, o Público trocou a fotografia de Malam Bacai Sanhá com a de Artur Sanhá. Até aqui, tudo normal. Depois, o Público pede desculpa pelo facto de, no texto de Mário Mesquita de domingo, António Guterres ter sido identificado como Alto Refugiado em vez de Alto-Comissário para os Refugiados.
PS – Meu caro Mário Mesquita: o erro foi involuntário?
Mais coisas temíveis.
Continua a odisseia à volta de Paulo Coelho. Hoje foi Brida, que só pode ler-se (é uma maneira de dizer) depois de O Alquimista ou o Diário de Um Mago, para «perceber» o que são a Magia do Sol e a Magia da Lua. Não percebi, realmente, mas não terá muita importância. Mas várias vezes me apeteceu esbofetear (também é uma maneira de dizer) a personagem principal, Brida. É preciso dizer que o cenário irlandês é absurdo, que Dublin está cheia de livrarias ocultistas e que o livro é de Paulo Coelho. A vida não é fácil. Isto vai sair-me caro.
Coisas temíveis.
Por razões de trabalho, estou a ler Paulo Coelho. Eu tinha apenas lido O Alquimista, há uns anos, para escrever um artigo que ficou com o título «Eu li Paulo Coelho e sobrevivi». O exercício, agora, está a ser penoso, mesmo ao ritmo um livro por dia. A vingança será terrível, sobretudo depois de ler Monte Cinco e Veronika Quer Morrer. O primeiro deu-me vontade de queimá-lo; o segundo, de rir. O Alquimista não volto a ler, recordo bem as consequências funestas. Mesmo com todo o espírito de tolerância de que sou capaz (e ele é bem vasto, posso comprová-lo), Paulo Coelho será sempre o pior de Raul Seixas. Nem sequer um flibusteiro. A um homem assim a França, Chirac e o Ministère de la Culture atribuíram comendas e ordens de cavalaria. Tenho dúvidas sobre o resultado desta semana e meia de dedicação a Coelho, mas a vida não é fácil.
Catalunya, Nuno.
Este gajo, é uma maneira de dizer, está claro, vive entre o Porto e Barcelona, passa ali pela Indonésia e pára dois dias em Bali, ainda vê a ilha de Flores, tudo isto antes de murmurar que está na Noruega ou na Irlanda, ou em Gandem, na Terra Nova, ou num hotel de australianos em Anchorage. A descrição podia continuar. O Nuno é um dos portugueses mais atentos que eu conheço. Andava há um ano para escrever isto, mas agora que ele mencionou o Las Nubes, de Juan José Saer, achei que era demais e que estava a pedi-las.
Revista de Blogs. Continuo a discordar que as pessoas saiam de casa.
«Continuo a discordar que as pessoas saiam de casa, acho negativo. Devia-se promover o repouso caseiro, a ver a Sport TV, a ler um jornal estrangeiro, a queimar livros de jovens escritores portugueses, sei lá. Quer-me parecer que se sai demais. Há pessoal a dar com um pau (que é o que mereciam) espalhado pelas esplanadas com as chaves do carro em cima do telemovel e estes em cima da carteira, estritamente por esta ordem, num equilibrio que revela filosofia. Não raras vezes estão de chinelos. Não concordo. As pessoas só deviam sair dos seus aposentos para engordar ou emagrecer. Agora assim, cachos de gajos a olharem uns para os outros a comentar o último rabo.... pá, não sei, parece-me desapropriado. É que ninguém sabe nada de história de Portugal, por exemplo. Não os vejo preocupados com isso, ou, se estão, disfarçam muito bem.»
[maradona no A Causa Foi Modificada]
Exames.
Verifico agora, lentamente, que governo, pedagogos, muitos professores, muitos bloggers, muita gente, afinal defende os exames do 9.º ano. Se daqui a uns anos se verificar a quase unanimidade na sua defesa, eu pedirei indemnização pelos insultos que tive de escutar, ler e aturar de cada vez que defendi a sua existência e necessidade. E mais: imagino, um dia destes, a Dra. Ana Benavente a concordar com a existência destes exames. É o descalabro.
A ler.
A entrevista de António Campos à Pública. É curioso como os europeístas merdosos saem trucidados desta entrevista, que arrasa a PAC, esse elefante que consome o orçamento e cria as maiores injustiças. Não só em relação aos europeus, mas também em relação ao resto do mundo.
Junho 26, 2005
Mais sinais.
Castanheiros, praias fluviais, colinas ainda verdes, banhos na água do rio, risos, uma cerveja no meio do Verão, os meus três filhos correndo em redor de um castelo, o céu azul, um calor assim, mesmo as coisas que faltam estão presentes.
«Rescaldo.»
Reparo que não é apenas a imensa legião de comentadores desportivos que pratica o «rescaldo da jornada». O termo é mau, muito mau. Mas ouvi-o hoje na rádio para «fazer o rescaldo da jornada parlamentar». A ideia era ver quem ganhou «o embate»; se o governo, se a oposição. Parece que foi o governo. O campeonato prossegue.
Junho 25, 2005
A ler, 2.
Questão de legitimidade: se Carrilho mostra a família, exibe a criança e tudo isso, ele abre, ou não, as portas da sua intimidade? Se o faz, é ou não legítimo recordar outros episódios pouco ou nada edificantes da sua intimidade (embora praticados em público, como os descritos por Vieira, e conhecidos do meio)? Isso faz um presidente da Câmara de Lisboa?
A ler.
É apenas uma pequena coluna, mas vale a pena ler o texto de Joaquim Vieira na Grande Reportagem deste sábado sobre Carrilho e a intimidade.
Maus sinais.
Não compreendo como é possível saber-se que o famoso arrastão de Carcavelos foi, afinal, apenas o que foi, e não haver um mínimo de decoro nas televisões.
O cantinho do hooligan nas Confederações.
Bom, mas que seja claro: o Brasil, que seria a minha selecção na Taça das Confederações, está a jogar mesmo mal. Não admira, com o comando de Parreira, um dos mais chatos brasileiros da história da humanidade. Como hooligan, o comentário é simples: futebol-arte (aquela coisa que levou o Brasil à derrota contra a Itália no fatídico mundial) é coisa de veado, daí chamar-se futebol-bailarino; futebol de equipa só consegue fazer-se com gaúcho ao comando (já que Telé Santana está ocupado); com Parreira não há soluções: nem violência patriótica nem malabarismos de bola. Vale-lhe o facto de ter Robinho, Adriano (eh, eh), Ronaldinho, Cicinho e uma parte de Deus que, como se sabe, é brasileiro e canta canções de Lupicínio.
Bons sinais.
Depois de Gabriel Alves fazer um discurso de três minutos e meio, em televisão, sobre a ineficácia do ataque brasileiro, sobre o quão mal estavam a jogar à bola, sobre a falta de soluções atacantes e a ausência de soluções defensivas, sobre a merda que estava a ser o jogo do Brasil, respirei de alívio. Sabia que o momento estava a chegar; de facto, um minuto depois, Adriano marca o terceiro contra a Alemanha. Há coisas que são assim mesmo.
Junho 23, 2005
Livro Aberto.
Rititi no Livro Aberto deste sábado, às 23:00, na RTPN. Desta vez não repete às 13:00 de domingo (imagine porquê). Mas volta à 01:30 de quinta-feira na :2.
E na próxima semana, mas já repetindo às 13:00 de domingo, eles os quatro.
Junho 21, 2005
Junho 20, 2005
Europeus, nós?
A peça da RTP sobre o falhanço da reunião de anteontem era notável: um primeiro-ministro luxemburguês condoído, coitado & tão indignado, um Chiraque condoído, coitado & tão generoso, um Blair sorridente passeando de chávena (de chá?) na mão, muito sacaninha. Eis como se explica o mundo. No final, Durão Barroso apareceu a dizer não sei o quê.
Abatanado.
Joel Neto prossegue, na Grande Reportagem uma campanha pela defesa do abatanado e do café cheio. Eu sei, Joel, eu sei: isso é um disfarce por causa da cerveja ruiva, aquela Murphy's Irish Red bebida à mesa, durante o fim da tarde.
Parreira, bom amigo.
Retrancão, eles dizem de Parreira, o técnico que não consegue ganhar mais do que 4 jogos seguidos. O México não perde há dezanove jogos. Vida é assim.
Milton Friedman, 92 anos
Na Folha de São Paulo de ontem, recomendo a leitura da entrevista com Milton Friedman: legalização imediata da marijuana e de quase todas as drogas.
Junho 17, 2005
Nós, Europeus.
Nós, europeus, devíamos sentir vergonha disto. Um resto de pudor. Um resto de paisagem. Nós, europeus, devíamos imaginar como se sai de Antuérpia e se abandona aquela paisagem. Provavelmente ainda não encontrei cidade mais europeia do que Antuérpia, o cruzamento de todas as liberalidades, de todos os muros, de muitas religiões, das universidades. Quem conhece Antuérpia sabe do que falo: daquela luz, daquela diferença de uma rua para a outra. E devíamos ter vergonha desta gente que assaltou Bruxelas e que assalta a Europa, mas vinda de dentro.
Microsoft, obrigado pela filha da putice.
A Microsoft em prol da liberdade e dos direitos humanos. Mas quem, no seu perfeito juízo, poderá censurar-te Microsoft?
Defeso e preliminar. Uma teoria freudiana.
Mais ou menos na mesma altura em que José Pacheco Pereira prova que também não é um homem do mundo (ao ter admitido que pensava que o Norton de Matos que ia para o Vitória de Setúbal era o velho general e não aquele cavalheiro que passa por ser treinador de futebol), o Bombyx-Mori fala sobre o defeso antes da época propriamente dita:
"Esta é a única altura do ano em que acho legíveis (suportáveis) os jornais desportivos. No defeso, são obrigados a fazer um considerável esforço de imaginação arquetípica para tornar verosímeis as ficções que constroem à roda das contratações dos grandes. Ficções quase inofensivas. Há um acordo tácito: os leitores não levam à letra as miríades. Como se fossem fantasias sexuais que se interrompem muito antes dos preliminares. Ou inclusive transferências, a via regia porém difícil e polémica para aceder ao inconsciente e perscrutar, no passado, a causa de neuroses e outras psicopatias. Já dizia Freud: a transferência é uma forma especial de recordar."
Parabéns, parabéns.
Sim. Agradeço a todos os que, nos seus blogs e no "correio do Aviz", assinalaram o 2° aniversário deste blog. Já vos trato da saúde.
P.S. - E a ti também, Besugo, que não perdes pela demora.
Ter a dizer, não ter a dizer.
Sobre os posts. Quando se escreve sem ser para postar, coisa que acontece bastantes vezes a quem vive disto (disto, imagine-se), há muitas coisas que já não se postam porque, simplesmente, se perdeu a oportunidade ou porque já não apetece postar. Ou porque se ficou preguiçoso. Ou porque (ah, esta é a melhor parte) há sempre alguém a fazê-lo melhor do que nós. Razão porque descobri blogs muito bons ultimamente.
Vantagens de não ter caixa de comentários.
Vantagens de não ter caixa de comentários é o título de uma série de pequenos posts do Tulius Detritus, no A Memória Inventada. Muito bons.
Os dois últimos:
* As fantasias sexuais do homem de esquerda envolvem mulheres sem consciência política (it goes without saying). Porém, quando elabora a composição da partenaire, este homem prefere as mulheres de direita (aqui haveria algo mais a dizer).
* Existe uma deontologia do homem famoso? Existe. Não se deitar com a jornalista antes da entrevista, por exemplo.
Junho 16, 2005
Os pais da Pátria.
Esta ideia peregrina (e imbecil) de que temos de "pagar dívidas" aos pais da República para que fiquemos de bem com a democracia, não é absurda. É ela que tem permitido, autorizado e incentivado a mediocridade do debate político e o respeitinho permanente a uma série de bonzos que acham que a pátria é mesmo sua.
Notícias da frente ocidental.
Mas, como sai Dirceu porque sabia, o que aconteceria se se soubesse que Lula também sabia?
Ficando Furlan, Roberto Rodrigues, Palocci e Márcio Thomaz Bastos (e nenhum dos outros), isso seria uma reforma ministerial.
Desiludam-se primeiro, habituem-se logo a seguir.
"E desiludam-se: eu vou em frente, com a minha família e todos os meus, por uma Lisboa com projecto. Como alguém disse, e bem: habituem-se!" [Manuel Maria Carrilho, no Público de hoje.]
Dois anos de Aviz. É a vida.
Pois a novidade foi-me dada esta manhã, por mail, pelo António, do Local & Blogal: o Aviz com dois anos de vida, irregular e distraída.
Évora falhou.
Ninguém ganhou com isso: "Comunicado do Governo Civil de Évora: O Governo Civil de Évora informa que o resultado do concurso “Arrebitem-me o meter”, promovido pelo blogue Contra a Corrente, cujo licenciamento foi deferido a 30 de Abril do corrente ano, foi considerado nulo."
Julgavas, Carlos, que eu não ia dar notícias sobre isto?
Junho 15, 2005
Aprender com Moçambique.
Sim, aprendamos com Moçambique. Aí está uma mudança que vale a pena. Mudemos.
Ui. Viajar em Portugal, exemplo de civilização.
Villas-Bôas Corrêa, tu endoidou? Tu não sabe que guerra está comprando. Nem imagina em que debate se meteu, desgraçado. Tu, que podias ter ido de Portugal, regressado ao Brasil e, segurando com os dedos o meio chope já em fase terminal, poderias ter apenas comentado, "não tá mal aquilo, não". O que foste tu dizer! "Portugal é um país caiado de branco, a imagem da limpeza das ruas, das paredes das casas e edifícios, das estradas." Tu tem a certeza? Tu não sabes o que significa falar da "gentileza prestante, a amabilidade invariável, a cortesia natural, espontânea do povo português, um dos mais educados do mundo. Não apenas com os brasileiros, mas com um toque especial para o irmão mais moço e estouvado, que fala a mesma língua." Tu achas?
Nós gostamos de Portugal, sim, mas há limites. Da próxima vez que virem o Villas aí pelas ruas, distribuam-lhe abraços, bacalhaus, carolos, livros de Saramago, mapas de estradas e um mazagrã reparador. Se o presidente o descobre, dá-lhe uma comenda. Protejam-no. Nós queremos Portugal só para nós. Não deixem o Villas à solta, ele rouba-nos o país.
Obrigado, Villas-Bôas.
Eduardo.
Dois textos de Eduardo Pitta, a ler no Da Literatura: um, sobre os escritores e a fama da leitura omnívora: "Por último, mas não em último, a classe dos patuscos. Os patuscos obrigam-nos a gostar das luminárias de estimação. Quem não afina com o cliché tem os patuscos à perna." Outro, sobre o desaparecimento de René Bertholo e de Eugénio de Andrade: "Nos dois casos, falo de Eugénio como se deve falar de um grande autor: sem rodriguinhos laudatórios ou «reverência» bacoca. Um poeta como Eugénio merece esse sinal de respeito. Compreendo e solidarizo-me com a comoção dos amigos próximos. Mas incomoda-me o eco das carpideiras."
Notícias da frente ocidental.
Nada de novo no Congresso, nada de novo no Planalto. Jefferson manteve. Curioso isto: ser um personagem como Jefferson que pode desmontar o pequeno puzzle do lulismo. Bah.
Reparação, 2
Diz Carlos Malha, por email, acerca de Michael Jackson (post "Reparação"): "Também nunca nutri qualquer espécie de admiração por Michael Jackson, e tempos houve em que facilmente o arrumaria como "imbecil" e "grotesco". Porém, ouvi um dia Caetano Veloso dizer que o considerava um músico de grande talento. Continuo a não gostar de Michael Jackson, mas este foi um daqueles pequenos desconcertos que ilustram as imensas maneiras que há de ver as coisas."
O Carlos enviou "uma maneira de ver de Caetano": a sua versão de "Billie Jean" (enquadrada por uns pedacinhos de Ewaldo Ruy / Fernando Lobo, no início, e de Beatles no fim).
Cunhal, 2
O Miguel, por mail, escreve sobre o post acerca de Cunhal: "Quanto ao “marche” é de facto difícil ter uma visão proporcionada das personagem perante a sua perda. Direi que faz parte do momento. [...] Mas, perante este país, este tempo. Este desespero sem sonho. O cerco destes garotos tornados líderes; a abundância da sua demagogia; o seu embrulho polido e vazio... Viva Cunhal. Não por empatia ideológica, mas pela capacidade de ter um sonho e dedicar-lhe uma vida. Sem mais. Sem flores. Admiro o trabalho e o pudor da atitude. É apenas uma empatia de registo pessoal."
Junho 14, 2005
Richard Zimler.
Estou a ler Goa ou o Guardião da Aurora, de Zimler (edição Gótica). A continuação da vida dos Zarco, antes e depois da tragédia (ver O Último Cabalista de Lisboa e Meia-Noite ou o Princípio do Mundo), mas com um lirismo muito inesperado. Muito.
Adenda.
Além do "mensalão" que o PT pagava em Brasília a deputados do PL e do PP; além do pagamento do PT ao PTB, em dinheiro; além da revelação de que o PT teria proposto mudança de partido a uma deputada do PSDB, com pagamento adequado; além da outra revelação de que o PT terá permitido o desmatamento da Amazónia a troco de financiamento ao partido (inclusive na zona onde a Irmã Dorothy foi assassinada, recordo, caso a investigação venha a sofrer revezes); além disso, claro, há ainda a existência de um suposto "mensalão" em S. Paulo durante a administração de Marta Suplicy. Fim do episódio.
Jefferson, rapaz.
O Brasil pára hoje para ouvir Roberto Jefferson, o presidente do PTB, sobre o "mensalão" (pagamento de 30 000 reais, mensais, a cada deputado do PP e do PL, por parte do PT, para que apoiassem as votações do governo).
Piada do dia: os líderes do PP e do PL decidiram atacar Jefferson e o PTB, para salvar a coligação petista e lulista na Câmara e no Senado. De que maneira? Dizendo que Jefferson e o PTB não têm razão para fazer acusações dessas ao PT. Porquê? Porque, como circula em Brasília e foi já publicado na imprensa, o próprio PTB e o próprio Jefferson teriam obtido um financiamento de 20 milhões de reais por parte do PT. Lindo. Inteligente.
Segunda nota do dia: a senadora Heloísa Helena, expulsa do PT e fundadora do PSOL, disse ontem o que toda a gente queria dizer e ainda não tivera coragem para dizer: sim, Lula sabia; no PT, essas coisas são assim. Vingança fria.
Reparação.
Eu não gosto dele. Mas quem irá reparar as centelhas de ódio que destruíram a sua vida miserável? Ele precisa de tratamento, de terapia, de médicos. Quem poderá recompensar aquele homem feio, ridículo, grotesco? Ele inventa agora que sofre de uma doença que deixa branca a sua pele. Ele é um imbecil. Um pateta. Um homem inconformado e sem solução, um andróide. Nada do que ele diga ou faça o livrará de ser aquele imbecil. Mas quem poderá reparar aquela acusação, aqueles risos?
Marche.
A ser verdade esta citação, o presidente Sampaio acha que «é um grande comandante que desaparece», referindo-se a Álvaro Cunhal (além de que «há continuadores no PCP capazes de prosseguir o seu legado»). Por que razão as pessoas, mesmo as de alguma responsabilidade, como o Presidente, não hão-de poder elogiar os mortos com algum sentido das proporções?
Revista de Blogs. O Casmurro comenta o final de uma época.
Já soube que alguém disse que a morte de Álvaro Cunhal é o fim de uma época?
— E daí, Groucho?
— Nenhuma surpresa, claro. Surpresa é não dizerem o mesmo da morte de Eugénio de Andrade. No caso de Cunhal, o lugar-comum implica contra-senso: há anos que lhe chamavam fóssil, anacrónico, dinossauro… Será que a época que acabou com ele é aquela em que os homens podiam sobreviver à própria época? A vida aquém-túmulo vai tornar-se insuportável para muita gente…
— Sempre especioso, carago. Mas por que raio haviam de dizer o mesmo do Eugénio de Andrade?
— Não é isso, senhor, não digo que devessem dizer. Registo apenas a diferença, essa sim, especiosa, que liquida ideias e ideais políticos para certificar o óbito das épocas que os originaram, enquanto pressupõe que os poetas e a poesia são de sempre, mais perenes que o monumento mais perene que o bronze de Horácio. Dir-se-ia que a época dos poetas nunca há-de chegar ao fim…
— Ao fim chegará, se já não chegou. O que não quer dizer que os poetas acabem…
— Sempre especioso, meu caro senhor, sempre especioso.
[Abel B. Baptista, no Casmurro]
Atenção! Isto é muito sério.
Comunicado: Abel Barros Baptista, Fernando Matos de Oliveira, Gustavo Rubim, Luís Quintais, Manuel Portela, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, acolitados por certo Groucho, de vários talentos e múltiplos serviços, comunicam que se associaram na criação de um blogue, Casmurro, já muito apresentável e rescendendo a excelente literatura. O Groucho é o menos Dom Casmurro de todos eles, à primeira vista.
Cultura literária.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros é pouco sensível às memórias literárias do nosso tempo.
Junho 13, 2005
PT/PTB/PP/PL/etc
O que ressalta disto tudo é que a desesperada tentativa de salvar Lula no meio da catástrofe que arrasta Dirceu, Genoíno, Ciro Gomes (até tu, Ciro!), etc., etc., pretende que todos sejam imbecis. Como se fosse possível que Dirceu e Lula não soubessem do que se estava a passar. Dirceu recusou-se a comentar o caso em Lisboa, onde esteve agora, mas o eco do desacato chega a todo o lado. Já Lula, com essa imagem do presidente chorando quando lhe deram a novidade, não é para acreditarmos.
Álvaro Cunhal.

O melhor que se pode dizer de um homem de quem se discordava é que continuamos a discordar dele, mesmo depois da morte.
Eugénio de Andrade. Adeus português.

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Junho 12, 2005
Silêncio.
Sim, eu tenho uma ideia sobre o vídeo de campanha de Manuel Maria Carrilho com a imagem de família pegada à do candidato à câmara de Lisboa; eu não o faria. Nunca. Em nenhuma circunstância (também nunca seria candidato ao lugar, na verdade). Mas no mundo de Carrilho como no mundo dessa gente, o acto é normal. O acto decorre com simplicidade. Tenhamos o pudor de desviar o olhar e de não votar, aqueles que não são do mundo dessa gente.
Para terminar.
O Sporting deixou sair Pedro Barbosa e Rui Jorge assim. O FC Porto deixou sair Costinha e Maniche assim. Uma vergonha absoluta.
Parreira, coitado.
L.M.A., por mail, acha que eu sou «um hooligan que não perdoa a Parreira nem a quem afronta o FC Porto», e que «o Brasil não merecia perder desta maneira». Ah, sim, sou hooligan. Sou hooligan e não gosto de Parreira nem de Zagallo, aquele duo das melodias de sempre que transforma talentos em vulgaridades. Não gostava de Zagallo no Mundial de França e pedi a sua derrota antes da final. Infelizmente, não veio. E Parreira é um chato futebolístico insuportável, só comparável a Scolari, o homem que foi obrigado a mudar a selecção portuguesa já em andamento, depois de ter sido teimoso durante meses de mau futebol (ah, o que eu daria para vê-lo a treinar o Brasil FC, de Pelotas). Nem me interessa que tenha chegado à final. Quanto a não perdoar quem afronta o FC Porto, é mentira. Ponto. Mas o insuportável Parreira disse aquela frase sobre Deco.
Compreendido.
Obrigado, obrigado. O recado era este, mas grandioso, com sotaque porteño: «Diz ao Francisco que gravei o jogo e vi-o duas vezes. E que vamos esperar o Lucho ao aeroporto.» Compreendido. Lá estaremos. Over.
Junho 11, 2005
Goelada de Parreira, goleada na Argentina.
Parreira, aquele homem cretino e chato que dizia que «Decos, no Brasil há às centenas», não teve afinal nenhum Deco para opor a uma Argentina que os pôs no sítio. 3x1 foi pouco. Eu gosto de goleadas. E ainda por cima com Lucho (González).
Questão jurídica.
Como a campanha eleitoral dos partidos é, cada vez mais, preparada e decidida por agências de comunicação e agências de publicidade, será possível que o PS venha a ser processado por «publicidade enganosa»?
Conforme se esperava.
1) Sim, quase toda a gente vai criticar José António Saraiva por ter sido entrevistado no Expresso. 2) Sim, Eduardo Prado Coelho correu a defender Manuel Maria Carrilho depois do vídeo da sua candidatura à Câmara de Lisboa; a família é tudo. 3) Sim, passados três meses, Freitas do Amaral já não tem a «unanimidade» atrás de si. 4) Sim, o presidente Sampaio distribuiu mais umas medalhas (nos seus dois mandatos, de qualquer modo, só gastou metade das de Mário Soares, um mãos largas). 4) Sim, a generalidade da imprensa portuguesa continua a pensar que o presidente Lula, coitado, não sabia que o seu próprio partido pagava aos deputados do PP e do PL (e do PTB, bem vistas as coisas) – coitado do Lula, tão coitado. 5) Sim, ainda ninguém sabe como o governo vai cortar na reforma de Luís Campos e Cunha, ou no seu ordenado de ministro.
O partido dos reformados.
Jorge Sampaio, Alberto João Jardim, Fernando Ruas, António Vitorino, António Guterres, Campos e Cunha, Mário Lino, Cavaco Silva. Reformados. Retirados. Aposentados. Subvencionados. Que país absurdo, que país de reformas antecipadas.
Junho 06, 2005
Brasil, PT.
Está garantido, portanto, o seguinte: o PT pagava a deputados do PP e do PL cerca R$ 30 mil por mês para votar favoravelmente propostas do governo na Câmara de Deputados.
Remunerações.
Uma coisa é a inveja, o populismo, o blablabla fácil. Outra, a ideia de que as empresas ou instituições atribuem, salvo erro, reformas de oito mil euros ao fim de quatro anos de serviço.
(Os links vão para os textos de Rodrigo Adão da Fonseca, em resposta aos de João Miranda, no Blasfémias.)
Influência.
Claro que a decisão britânica não influencia a decisão portuguesa sobre o referendo ao tratado europeu. A nossa decisão é que, por ser tão clara, está a influenciar a dos outros países da união.

A Time noticia a cartilha do politicamente correcto publicada em Brasília. Com atraso, naturalmente. Mas também, nota-se, com um bocadinho de inveja: os brasileiros, graças sobretudo a intervenções como as de João Ubaldo, não deixaram sequer que a cartilha passasse dos armazéns do lulismo. Já os americanos, claro, tiveram Clinton.
Junho 05, 2005
Revista de blogs. O inefável no IP3.
«Anteontem, por volta do meio dia, havia um carro branco da BT estacionado na via de emergência (com os quatro piscas ligados). Na berma, dois agentes impecavelmente aprumados nas suas botas pretas e nos seus coletes reflectores, colhiam frágeis margaridas amarelas.» [Pedro Caeiro, no Mar Salgado]
Deve ser da temperatura.
O Billy Shears escreveu sobre uma das minhas músicas de Verão. Tens viajado muito, tens, Billy.
Revista de blogs. Problemas de teoria literária.
«O mérito desta colecção [«Os Poemas da Minha Vida», do Público] (em que, declaro já o meu conflito de interesses, também irei colaborar) é o de através dos poemas da “vida” de cada um, nós os lermos, aos poemas, e à “vida” de quem os escolheu. Vale mesmo a pena, porque pouca coisa reflecte mais a percepção que cada um tem de si próprio, ou o retrato público que desenha de si mesmo, do que os poemas que escolhe para serem da “sua vida”, mesmo quando não o foram. Principalmente quando não o foram.» [No Abrupto.]
Não-notícia.
Os jornais noticiaram que o ministro Freitas do Amaral, dos Estrangeiros, está solidário com os ministros Campos e Cunha, das Finanças, e Mário Lino, das Obras Públicas. É uma notícia esclarecedora. Hobbes anuncia que está solidário com Calvin. Os pinguins anunciam que estão solidários com a Antárctida. Gonçalo Mendes da Maia manda dizer que está solidário com D. Afonso Henriques. Álvaro de Campos recebeu provas de solidariedade de Alberto Caeiro. Xitãozinho está solidário com Xororó. E Marisa Cruz está solidária com João Vieira Pinto.
Legal e legítimo, 2.
Escreve o A.A. Oliveira, por mail, acerca deste assunto das reformas & salários de ministros:
«Não é legal nem muito menos legítimo. Como pode ser legal a atribuição de um privilégio que viola o Direito e a Justiça? É que a norma escrita pode ser iníqua; logo, ilegal. Está nos manuais. Sobre questão, ler a bíblia “Normas Constitucionais”, de Otto Bashoff, o grande jurista alemão e juiz do Tribunal Constitucional da RFA.»
Anestesia.
(Actualizado) Ou o país anda completamente anestesiado ou o retrato que dele sai nos jornais está mal traçado. A história da reforma acumulada com salário do ministro das Finanças, mais a história das reformas acumuladas com salário do ministro das Obras Públicas, passam em branco. Não defendo que sejam fritos.
A ideia base, segundo compreendi, é a seguinte: os senhores ministros têm essa acumulação por legal e legítima. Mas ser membro do governo e adoptar medidas difíceis como as que estão decididas agora, são coisas sérias e não dependem de pareceres jurídicos. Ao contrário do que diz o ministro das Finanças (que não admite que se levantem «questões morais» a propósito da sua situação, no que tem alguma razão), dependem também de pareceres éticos. A política, além de um pouco de verdade, precisa de um pouco disso, ou nunca entenderemos os apelos ao patriotismo e ao sacrifício em nome da correcção do défice, por exemplo (eu não o entendo, por exemplo, neste quadro). Não se trata de pedir o regresso da moral & dos valores, com vozes arrebitadíssimas, histéricas. O problema, neste caso, não é dos ministros. Eles trataram da vidinha, para usar a expressão portuguesa (e de «forma legal & legítima», segundo parece). O problema é que José Sócrates (e o PS) precisa de explicar melhor como pretende falar de «justiça social», daqui em diante, e manejar o conceito de «direitos adquiridos».
Junho 04, 2005
Revista de Blogs. Eurocentrismo.
«A mesma gente que criou o conceito, não a prática, de eurocentrismo também inventou essa bobagem racista de diversidade. Carga positiva sobre um conceito destrutivo.» [No Saudade do Presidente Figueiredo.]
Revista de blogs. Sms.
«Ainda a outra mão descia por ela abaixo, ao ritmo desgovernado da fantasia, gosto mesmo de ti, miúda, quando o telemóvel tocou. Sem abrir os olhos, ela lambeu os dedos molhados e usou o indicador para atender a chamada, antecipando a voz dele, anasalada e sem ponta de graça. Não devias ter telefonado, adiantou-se-lhe». [No Controversa Maresia.]
Rititi.
Ela escreve bem. Há alguns tempos, os blogs femininos do Brasil eram um dos poucos lugares onde mulheres escreviam bem em português: destemidos, vibrando, eufóricos, libertados. Depois, vieram blogs portugueses com mulheres dentro, e escrevendo muito bem. Notava-se. E O Livro da Rititi, apresentado hoje (pela Carla; edição Oficina do Livro) é um exemplo de boa escrita. De bom tom. De alguém que escreve com aquilo tudo. Se alguém me perguntar o que é aquilo tudo, eu não sei. Mas está lá.
Junho 03, 2005
Achavam que era a brincar?
Não, era mesmo verdade. As estações de Correios vendem os livros de Paulo Coelho. Aí está uma tarefa para Luís Nazaré: repor alguma qualidade nas escolhas dos expositores de «outros produtos» dos Correios portugueses.
Ganja.
«O ministro da Cultura, Gilberto Gil, parou de fumar maconha aos 50 anos. A revelação fez mais pela causa da ganja no Brasil do que qualquer campanha meia-bomba ou apologia musical. O último disco realmente bom de Gil saiu em 1992, exatamente o ano em que largou o baseado. Parabolicamará. Ê-ê, mundo dá volta, camará. Longe da erva, ladeira abaixo.» [No Alto Volta.]
A boa notícia.
Serão publicados em Portugal, e em colecção especial, todos os livros da série Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán (pela Asa).
Já estão publicados As Termas, Os Mares do Sul, Os Pássaros de Banguecoque, O Prémio, Quinteto de Buenos Aires (na Caminho), Assassinato no Comité Central (Dom Quixote) e Tatuagem (A Regra do Jogo). Assim, em português aparecerão títulos como La Soledad del Manager, El Hermano Pequeño, La Rosa de Alejandría, Asesinato en Prado del Rey, El Delantero Centro fue Asesinado al Atardecer, El Laberinto Griego ou El Hombre de Mi Vida.
Não.
O presidente da UE ameaça demitir-se caso lhe digam que não no referendo de 10 de Julho. Se é assim, não.
O presidente do Benfica ameaça demitir-se se não lhe derem 16,5 milhões de euros.
Legal e legítimo.
A questão não está em saber se é legal a posição do ministro Luís Campos e Cunha ou, até, se é legítimo, e ainda, se «no futuro» esta situação vai deixar de ser possível. Toda a gente sabe qual é a questão.
O sitemeter.
«Se o contador do sitemeter ultrapassar as 200.000 visitas até à meia-noite de quinta-feira (às 00:00 horas de hoje, quinta-feira, registava 199.522 visitas), ofereço um DVD e um livro ao primeiro e segundo leitor, respectivamente, que me mandar um mail após as badaladas da meia-noite de quinta-feira (00:00 horas de sexta).» Carlos McGuffin, no Contra a Corrente.
Revista de blogs. O Estado.
«Além disso, o estado tem a tendência a crescer; você dá um direito qualquer à besta cretina do seu síndico e no dia seguinte ele está gritando em alemão, dizendo que Hitler fez muita coisa certa e entrando na sua casa para confiscar a pornografia.» Alexandre Soares Silva.
Correspondência geral. Feira do Livro.
Sobre a Feira do Livro escreve, por mail, a Helena CM: «Também gosto da feira. E, certamente, não foi o vento frio do fim da tarde de sábado que este ano me causou alguma estranheza. Que faz naquele espaço uma tenda da Igreja Portuguesa de Cientologia, na qual são efectuados testes grátis ao stress? As farturas, os gelados e os cafés, compreendo, mas isto? Haverá por aí alguma explicação?»
Correspondência geral. Futebol.
Nuno Maltez, por mail: «As pessoas andam pelas ruas a gritar "somos campeões" porque, de facto, são perdedores. (...) Sou do Benfica e a minha vida, alegrias e tristezas e conquistas e etc, em nada muda com esta vitória. Parabéns aos jogadores, etc. Uns ganham dinheiro, outros um confortozinho, um bom passatempo. A derradeira e madrugadora coroação dos jogadores, num estádio que é ribombo e trovão, é, mais do que festa, uma espécie de ritual religioso. (...) De resto, a pseudo-contenda intelectual vs. pessoa que gosta de futebol é uma estupidez. Que haja mais e melhor futebol, e menos programas de merda na tv. A conversa do investimento na ciência e tecnologia já tresanda há muito tempo, e é uma boa desculpa para que se cante mais um fadinho, que se fique a ver navios, nem que seja mais um. Quem quer fazer, e sabe como, há-de fazê-lo.»
Maio 31, 2005
Paul Lapin.
O Nuno foi aos Correios e descobriu que se vendem, ao balcão, livros de Paulo Coelho. Deve ser por isso que o governo vai mandar instaurar um inquérito à gestão e a alguns negócios da administração de Horta e Costa.
PS: Paul Lapin é o nome de um alquimista com duzentos e tal anos, que aparece nas páginas do novo livro de Jô Soares, Crimes na Academia Brasileira de Letras.
Cada vez mais.
A ideia de pagar cada vez mais impostos, cada vez mais, não é agradável. E não é justa.
Cabala loura.
«Também há quem lhe chame cabala. Não tenho água em casa. Não tenho comentários no blogue. Não tenho marido, namorado ou, sequer, amante. Aposto que há uma lógica qualquer em tudo isto.» No Blogue de uma Loura.
Richard Zimler.
Goa ou O Guardião da Aurora: isto é uma boa notícia, o novo livro de Richard Zimler. Lançamento esta quarta-feira em Lisboa (edição Gótica).
Maio 30, 2005
São duas coisas.
A propósito de uma discussão aqui e ali sobre o papel do futebol no Portugalinho, o seguinte: subordinar a agenda dos telejornais ao futebol parece-me uma excentricidade de subdesenvolvidos (já aqui escrevi o suficiente, até quando o meu clube ganhava, ganhava, ganhava); preencher a abertura dos telejornais com a final da Taça ao mesmo tempo que andamos à procura de notícias sobre o «não» em França, é consequência desse subdesenvolvimento; fazer horas e horas de directo na televisão com manifestações de rua em que toda a gente diz a mesma coisa, somos os maiores, somos campeões, só queremos Lisboa a arder, ninguém pára o SLB, etc., etc., nem sequer posso atribuir ao subdesenvolvimento mas à estupidez; delirar quando um cabecilha de um clube diz uma palavrinha, dependurado sobre o microfone, devia ser classificado como crime. Mas garanto uma coisa: desprezar o futebol e fazer campanha contra, com aquele ar muito superior de quem apenas se ocupa com as superiores questões da botânica ou da teologia, devia ser considerado sintoma de analfabetismo, de cretinice intelectual e de problema sexual ainda mais grave do que a disfunção eréctil. E é uma coisa muito vista, muito. Já não pega.
Futebol em campo pelado.
Ler os últimos textos do Ivan no Memória Inventada.
(E há um dado: esses textos, A Bola no Olival, estão reunidos aqui.)
Feira do livro.
Sim, a feira do livro tem aquele rasto de poeira e de frio ao fim da tarde. Mas eu gosto. Lamento muito, mas eu gosto.
PS. Será que amanhã, quando termina o mês e o prazo, ele vai entregar o manuscrito prometido?
O problema da área. O cantinho do hooligan.
No Bicho-Carpinteiro, José Medeiros Ferreira diz que é preciso «dar algum sentido colectivo a um tipo de jogo [do Benfica] demasiado virado para a cobrança de faltas à entrada da área». Mas, vendo bem os últimos jogos do glorioso e os últimos golos de Simão, não há razões para isso, meu caro: o Benfica tem estado demasiado virado para a cobrança de faltas dentro da área.
Consequências graves, 2.
A ideia de que «países como a China, EUA, Índia e Brasil estão a avançar «num ritmo cada vez mais intenso» e que a Europa ficou para trás por causa do «não» francês (defendida pelo pai da República) pode significar que o sonho de grandeza política da Europa, esse sim, feito desta maneira, pode não ser o escolhido pelos europeus. Ou por uma margem significativa de europeus. Ou até por uma margem de europeus.
(No Fora do Mundo, uma explicação sucinta: de como este «não francês» está longe de significar uma derrota da Europa; em cinco linhas.)
Internet (2).
Sobre esse post anterior, a Tatiana Bandeira (Mulherzices) cita um amigo: «Há-de chegar o dia em que ao abrimos um pote de maionese saltará de dentro um popup.»
Consequências graves.
O pai da República diz que o «não» vai ter consequências graves. Uma coisa que aprendemos nos últimos trinta anos é que as consequências podem ser graves mas não tão graves como isso.
Maio 29, 2005
Internet.
A proliferação de sites com efeitos sonoros e com flash, animação & pantomineirices, está ameaçar-nos a todos. Daqui a uns tempos estaremos com saudade do velho html na sua versão mais simples.
Marquês de Borba
Fábio Danesi (contista brasileiro muito bom, excelente blogger) descobriu o Marquês de Borba, de João Portugal Ramos, em São Paulo. Tem mais na lista, Fábio, tem mais.
O fim da Europa.
Mas a ideia de que a vitória do «não» em França significa o fim da Europa tem os seus aspectos agradáveis. Imaginemos alguns deles a emigrar para o Uzebequistão. Ou para a Venezuela.
UE-Mercosul
Que a ideia de relançar as negociações entre a UE e o Mercosul, para criar um mercado comum de milhões e milhões de consumidores, não seja recebida com foguetes e aplausos tão evidentes. Por mim, de acordo; em frente; sempre achei exagerado o preço do pão de queijo na Europa. Mas as implicações desse mercado comum serão tão radicais e profundas que teremos manifestações de rua pela França e Alemanha, e mais exigência sobre os centros de decisão. Talvez por isso, aquele pequeno tom introduzido na cimeira ibérica acerca do valor político desta iniciativa seja uma contrapartida apenas. O grande continente político euro-latino-americano pode vir a ser a utopia do ressentimento. Mas o que acontecerá aos subsídios isso queria eu saber.
Madeira.
O único senão desta ideia e deste comentário é que o dinheiro já não circula pela Madeira como antigamente. Basta uma conversa com empresários ou «fornecedores de serviços» para perceber que a ilha, contra todas as expectativas, está quase rodeada pelo deserto.
Chantagem.
O tom com que se comenta a hipótese de vitória do «não» em França é o de «pânico total». Essa onda de pânico (alimentada por 80% da imprensa e por 100% dos políticos do bloco central) levaria muitos eleitores a votar, imediatamente, não. Trata-se de chantagem pura.
O artigo de Vasco Pulido Valente no Público de hoje toca na ferida em dois aspectos: os franceses tencionam votar este domingo contra a "Constituição europeia" pelas más razões; os portugueses estão a ser industriados para votarem sim porque não se morde a mão que nos dá de comer. Na verdade, o nosso voto é irrelevante. O «sim», no nosso caso, vai ser redundante.
Concordo inteiramente com João Miranda: se se verificar que a França vota «não» e se isso for um «obstáculo à construção europeia», então que expulsem a França em vez de repetirem referendos até que os franceses se decidam a votar «sim».
Maio 28, 2005
Correcção política.
«Se me deixassem provavelmente não teria amigos. Teria DVDs, livros, uma varanda com vista sobre Lisboa e vultos inúteis em momentos de sobriedade. Felizmente, há pessoas que insistem em falar comigo e que só raramente me insultam.» No Classe Média.
Maio 27, 2005
Da natureza dos posts.
«Não posto porque estou sem computador (no momento estou postando mentalmente, deitado na cama com um romance aberto no peito).» Alexandre Soares Silva.
Maio 23, 2005
A marquesa saiu às cinco horas.
Variações deliciosas sobre um tema clássico, o de Valéry. Reescrever a frase «a marquesa saiu às cinco horas» através de Paulo Mendes Campos, através do Flabbergasted.
Newsweek.
A Newsweek pediu desculpas; a sua reportagem sobre Guantánamo continha uma falsidade. Os debates que se criam em redor de uma notícia falsa, em Portugal, garantem, à imprensa que a divulga, uma impunidade razoável. E é razoável porque ninguém atribui importância aos factos propriamente ditos. Eis como se desvaloriza um debate. Obrigado, Expresso.
Nós, europeus. Imprensa.
A ter em atenção este protesto sobre a falta de pluralismo na cobertura do referendo. (Via Blasfémias/Gabriel Silva)
Maio 22, 2005
Blogs.
Mais boa companhia: o Melancómico (do Nuno Costa Santos) e o Olha que Não (de Filipe Nunes e Mariana Vieira da Silva)
Pátio Bagatela Mix: saiu para comprar charutos e nunca mais voltou.
Lurdes Mateus, 35 anos, bibliotecária, que nos fala de Torres Vedras: «Eu conheci o meu marido na caixa de comentários do Barnabé.»
Futebola, 2.
Texto de Maurício Neves, publicado pela Fal, no Drops da Fal:
«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»
Há vida para além do défice.
O presidente Sampaio, em defesa do Estado e do «estado das coisas», admite que há vida para além do défice. Pois, se há vida nas ilhas Spitzberg. Extraordinário como se fazem estas descobertas. Há vida na Antárctida.
Este domingo.
Não acredito. Sei que a produtividade vai aumentar e que os índices de auto-estima nacional vão chegar a alturas impensáveis. A estupidez tem direito a abertura televisiva e tudo. Há dois anos, em conversa de ocasião, o primeiro-ministro de então lamentava-se: que era necessária uma vitória do Benfica. Por isso, não acredito que se decidisse hoje o campeonato. Todos esperamos a vasta alegria de sete milhões e meio de portugueses de todas as classes e corporações. Parabéns sinceros.
(Ah, o que é o ressentimento de um hooligan!)
Chandler.
De cada vez que leio O Imenso Adeus, de Raymond Chandler (The Long Goodbye), fico preso naqueles primeiros cinco ou seis capítulos durante os quais Marlowe bebe gimlets com Terry Lennox no Victor's Bar. A primeira frase, na tradução de Mário Henrique Leiria começa por «a primeira que vi Terry Lennox», mas no original é «the first time I sat my eyes on Terry Lennox». Podem crer que o livro mudou muito desde que soube isso.
Alberto Mussa.

Li o livro de repente, O Enigma de Qaf (Record, Brasil), mas só agora o conheci, a Alberto. O riso de um libanês brasileiro, personagem fantástico. É uma pena não estar publicada em Portugal, esta história de magias.
Fernando Campos.
O romance histórico no seu melhor. O novo livro, escrito sobre a figura de Gonçalo Mendes da Maia, é uma reinvenção portuguesa da linguagem do romance histórico. Tem passagens de uma beleza cheia de desvario. Leiam, leiam.
Optimismo.
O problema é que, para os optimistas, o texto de António Barreto no Público de hoje até faz sentido. E, mesmo para os pessimistas, o texto de Vasco Pulido Valente anda muito perto da verdade. Há momentos em que estas opiniões coincidem, e isso não é bom. Dias difíceis, dias difíceis.
Maio 21, 2005
Não.
O Portugalinho ficou muito surpreendido com a posição de Pacheco Pereira acerca do referendo sobre o tratado. Apetece escrever: nós, Europeus, temos dúvidas ou discordamos. Ser europeu é isto mesmo, não se submeter à chantagem. Não. Um não cheio de dúvidas diferente dos que dizem não porque só têm certezas.
Fim de campeonato.
Este ano não devia existir primeiro classificado. Tudo começava em segundo. E não me importava de ver o meu clube em terceiro (em quarto, queria eu dizer). Há castigos que vêm por bem. Escrevo isto por sí acaso.
Maio 09, 2005
Maio 08, 2005
Linguagem, a verdadeira.
No Brasil, o governo (através da subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos) lançou uma cartilha sobre o verdadeiro modo de falar correcto «que reúne 96 palavras, expressões e piadas consideradas pejorativas e que revelam generalizações e discriminações contra pessoas ou grupos sociais». Acaba de ser publicada. Cuidado.
Cito do Último Segundo: «Na cartilha, foram incluídas expressões como "a coisa ficou preta", "farinha do mesmo saco”, “maria vai com as outras”, e palavras como veado, burro, aidético, sapatão, gilete, baianada, ladrão, judiar e até comunista. Alguns exemplos são inesperados: não se deve chamar de "palhaço" uma pessoa pouco séria ou de "barbeiro" o motorista inábil ou que comete infrações, porque os termos ofenderiam os profissionais dessas áreas.» (Via Radamanto)
Não perder.
O texto de João Lobo Antunes no Mil Folhas do Público, sobre Steiner; o artigo de Nuno Crato no Expresso (secção de Opinião).
Maio 07, 2005
Esclarecimento.
Mais estranho ainda é que eu tenha gritado «Pinilla!» na última semana e «vambora» nos últimos dias. Os meus amigos do Sporting emudecem. Ou a vida mudou ou o hooliganismo já não é como antigamente.
Enfim.
Uma das coisas mais estranhas. Durante o último ano fui dado como conselheiro cultural, vice-cônsul, empresário, «o nosso homem em Havana», creio que negociante de droga, parceiro de várias parcerias e parceiras. Não fui nada disso; vivi do meu trabalho. Não vale a pena explicar. Infelizmente, para eles não fui namorado de Meg Ryan nem vencedor do Euromilhões. Os filhos da puta são sempre filhos da puta, só pensam o pior.
Abril 24, 2005
Longe.
Agradecimentos sinceros são devidos a muitos amigos da blogosfera pelas suas referências à publicação de Longe de Manaus. Nomeadamente ao Adufe, Babugem, Blasfémias, Rua da Judiaria, O Mundo Perfeito, Janela para o Rio, Ideias Soltas, Quartzo, Feldspato & Mica, Seta Despedida, Miniscente, Blogame Mucho, Fogotabrase, Bloguítica, Amor & Ócio ou Silsmaria e O Vilacondense, se não esqueci algum. À blogosfera o abraço que pertence à blogosfera.
Abril 16, 2005
A montanha para lá de El Martial.

El Martial, Ushuaia.

Subo pela montanha. Ao fim de algumas horas
sento-me numa rocha mais alta para ver
a claridade do vale: pontes que atravessam ravinas,
animais solitários que procuram um caminho,
sinais perdidos nas penumbras.
Daqui vejo como a poesia
foi desaparecendo do mundo. Ou como
o seu sentido mudou – o poeta
devia interpretar as meteorologias, prever
as tempestades, não dar voz às coisas
do mundo nem às pequenas glórias.
Se houvesse uma obrigação digna e perfeita
seria esta: subir pela montanha,
esgotar as suas forças, contemplar o vale.
Águas negras.

Lapataia, Ushuaia.

Parecem mortas, as águas de Lapataia,
o verdadeiro fim do mundo. Os caminhantes
chegam e emudecem, é esse o seu dever.
Silêncio absoluto diante das águas: só
o absoluto silêncio lhes dá ou devolve
a vida, ilumina as árvores dos diques,
a humidade incolor sobre as ervas,
as chuvas de cada dia que desaparece.
Parecem mortas e profundas, escuras,
negras. Dali em diante o mar é uma promessa
através do canal. Águas negras, águas
de nenhum mistério, de nenhum nome.
Abril 15, 2005
Neva em Ushuaia
Neva em Ushuaia por alguns instantes. São os primeiros
sinais do Outono, vindos de El Martial ao fim da tarde.
Os poetas locais compõem os versos adequados à circunstância
– o Diário del fin del Mundo publicará depois sonetos, odes,
vilancetes e até uma milonga irregular sobre a brancura
que emudece diante do canal. Para isso serve a poesia,
que é mais útil nas pequenas cidades: ilustra os museus, os jardins,
estátuas de almirantes, exploradores, viajantes da Antárctida,
almocreves heróicos que atravessaram o estreito de Magalhães
para chegarem a Ushuaia. Neva em Ushuaia e comovo-me
nas ruas molhadas diante das livrarias e das lojas de tabacos,
e digo o nome dos meus filhos, Maria, Manuel, Francisco,
subo as escadarias, vejo a neve diante dos museus, das portas,
vejo os caminhantes que se abrigam nos cafés e olham
com surpresa a primeira neve do Outono. Mudo os meus versos
e empobreço-os, tocados pela primeira neve, a primeira neve
do Outono que cai sobre o fim do mundo, cai sobre a baía,
cai sobre o glaciar, cai sobre a mudez mais fria da pedra,
sobre as montanhas escuras, e nada resta do primeiro verso,
nada fica da primeira palavra, como uma ventania do sul.
A poesia contemplativa, a Sudoeste


Canal Beagle, Argentina/Chile.
A poesia, contemplativa, não tem culpa
destes acontecimentos ocasionais:
um barco encalhado na enseada
entre árvores que envelheceram,
a cor das florestas, o frio do canal,
as montanhas do Chile, um caminhante
que atravessa o campo, cambaleando.
A cor das florestas é um acontecimento:
mudará no dia seguinte
como o vento que, ao longe, arrasta
a neve sobre os telhados de Puerto Williams.
Tudo é acontecimento para a poesia
contemplativa, tudo é uma
mudança extraordinária, tempestade,
uma meteorologia desconhecida.
Abril 05, 2005
Beagle. Ushuaia.

Os mares do sul são assim, cinzentos, cobertos de espuma negra, reflexos cinza que vêm das montanhas, escarpas que descem sobre o mar, esverdeadas. Um aeroporto deslocado sobre uma língua de terra e rocha. O Beagle navegando por entre algas, o jovem Charles Darwin à proa, no barco. Os ventos da Antárctida, cabos estendidos ao longo do cais, nuvens que cobrem os cumes, ao longe. Tudo fica com ar de fantasma ao fim da tarde: pára de chover, o vento acabou de repente, acendem-se as luzes dos navios; uma sensação sem estranheza num mundo estranho. Terra incognita.
Puerto Madero, Buenos Aires.

Puerto Madero é uma tarde de domingo. Viagens de táxi. O frio.
Afinal, o Boca perdeu por 2-0. Havia um relato de futebol num aparelho de rádio lá ao fundo.
Abril 04, 2005
Boca, Buenos Aires. Caminito.

Aviões que partem de madrugada, despedidas de Buenos Aires. Uma cidade demasiado bela para se esquecer uma palavra apenas. Uma que fosse.
Abril 01, 2005
Aqui está o jornal onde gostava de trabalhar.
Em Ushuaia, no sul-sul-sul da Argentina, há um jornal que tem este título que nunca vou esquecer: Diario del Fin del Mundo.
Março 22, 2005
Reconversão.
Depois de tantos protestos no mail, insisto: estava para dar os parabéns aos meus amigos sportinguistas. E insisto mais, ainda: dou os parabéns aos meus amigos sportinguistas.
Futebol para todos, até para os coxos.
Eu estava capaz de dar os parabéns ao Sporting. Mas jogaram os dois tão mal, e o Sporting nem assim foi capaz de golear, que hesito um pouco. Mas dou, sim, dou os parabéns.
P.S. - O CANTINHO DO HOOLIGAN (Ah, claro). Aquele árbitro, João Ferreira, era genial. As expulsões erradas d os dois jogadores do FC Porto foram apenas um pormenor.
Indignação. Lá como cá.
Na Cadena Ser, de Espanha, que sintonizo ao acaso, ouço esta coisa portuguesa: «A seguir ao futebol, a indignação é o desporto mais popular entre nós.»
Os crimes.
As televisões e as rádios têm andado em regime de euforia perpétua. Há mais crimes para lá da Amadora, evidentemente, mas no domingo passado, às oito da manhã, a rádio encostava o presidente da Câmara da Amadora à parede; sim, como é que se justifica esta desordem nas ruas, esta insegurança nos bairros? Como é que a polícia, tão atacada na semana anterior por desacatos da sua espécie, é tão abandonada pelo poder e tem tanta falta de meios? E o governo, que não aparece? E o ministro, que não ministra? E os sindicatos, tão prestáveis? Eu sei que o caso dos dois agentes da polícia assassinados na madrugada de domingo é grave. Mas desde as oito da manhã de domingo já contei mais seis assassinatos. E esta ideia de que «a autoridade do Estado é posta em causa» pelo «crime da Amadora», é tão absurda como as indignações que se acumulam até não terem mais sentido nenhum.
As coisas que passam.
Nos últimos dois meses, a política foi muito previsível. Aconteceu o que tinha de acontecer. Santana foi mesmo Santana, o país converteu-se ao anti-Santanismo em todas as províncias, Sócrates foi um pouco mais do que inteligente, sim. Mas o espectáculo é triste. Alguns editoriais, pescados da imprensa, aqui e ali, são tão vulgares e ainda tão mais previsíveis. Na imprensa (como na blogosfera exclusivamente política) há dois tipos de comportamento igualmente previsíveis -- ou o patrulhamento ideológico, em regime de permanência, severo, autoritário e arrogante (mesmo quando está cheio de erros factuais e de erros ortográficos); ou a sedução pelo inimigo, muito declarada nestes últimos tempos. O inimigo vai-se tornando muito apetecível; ou porque não se cala, ou porque não fala.
Só por isto, acho uma pena não haver menos mulheres no governo.
«Não é justo nem razoável que persistam enviesamentos masculinocêntricos tão acentuados na selecção das questões políticas agendáveis». Tinha perdido este fragmento da declaração do presidente da República. Obrigado ao Ilídio Martins.
Março 19, 2005
Os verdadeiros trabalhos de Sócrates.
O dr. Soares dá quatro anos de vida a este governo. Mas, para isso, «tem de ganhar as autárquicas e as presidenciais». De contrário, diz o pai da democracia, «começa a patinar». O governo, não o pai da democracia.
Março 13, 2005
A Última Flor do Lácio. Questões de Língua.
Pela Vera F. chego ao blog Blue Everest e, por este, ao Arukutipa. O Arukutipa criou um debate em torno da lusofobia («Lusofobia: afecção de origem conhecida ainda que de difícil definição, caracterizada por um profundo estado de abatimento moral ou físico.»), neste caso relativa à apatia («curiosa apatia», como escreve o Blue Everest) com que no Parlamento Europeu se reage à marginalização da Língua Portuguesa. Rubem de Carvalho já escreveu sobre o assunto.
O que me parece é que a diplomacia portuguesa acatou o princípio de que Portugal é um país periférico e marginal. Que eu diga isso em relação a vários assuntos, compreende-se -- mas a questão da nossa língua é outra coisa. E o papel da nossa diplomacia ou dos nossos representantes em Estrasburgo não é o de acatar e cumprir esse papel, mas o de bater o pé; o de, com toda a força, bater o pé.
Escreve o Blue Everest: «Anda o Instituto Camões a gastar fortunas para defender - e apoiar aqueles que defendem - em tantos países pelo mundo fora a nossa língua e cultura e em Bruxelas não se fez ouvir um protesto à altura deste ideal e das despesas feitas? Curiosa apatia.»
Eles não querem o nosso défice? Pois que aceitem a nossa Língua.
Livro Aberto.
Esta semana, o Livro Aberto (ainda se pode ver de madrugada a repetição na RTP-N e na madrugada de quinta na 2:) tem Fernando António Almeida como convidado. O Fernando António é um divulgador excelente de história portuguesa -- história local, história regional, lendas portuguesas, autores portugueses. É um free lance que vive dos seus livros (está neste momento a escrever uma biografia de Fernão Mendes Pinto), e isso faz com que me mereça ainda mais respeito. Desta vez escreveu um livro sobre Vidas Maravilhosas de Santos (edição na Teorema) a partir de um texto do século XIII. É um grande divertimento.
Misoginia.
Grande parte das críticas das mulheres socialistas à composição do governo são absurdas, nomeadamente a acusação de misoginia. Há a questão das quotas, da paridade, da igualdade, da competência. Tudo junto, talvez o assunto mereça vingança. Há uma peça de Aristófanes sobre isso mesmo; quererão seguir-lhe o método e o conselho?
Sayd Bahodine Majrouh.
Os poemas (landay) são recolhidos por Sayd Bahodine Majrouh, traduzidos por Ana Hatherly. O livro chama-se O Suicídio e o Canto (A Voz Secreta das Mulheres Afegãs), publicado pela Cavalo de Ferro. Momentos de beleza pura.
Gotam.
Uma pessoa não devia confessar tão abertamente a sua ignorância (quando escrevi, na altura, que não tinha lido a Recherche, levei alguns mails de raspanete -- corri a ler a tradução de Pedro Tamen, fechado em casa algumas noites; nem por isso a minha vida mudou substancialmente). Mas sempre me fez confusão aquela peça dos Gotam Project chamada «El capitalismo foráneo». De facto, a Argentina não pode queixar-se «del capitalismo domestico», aquele que depenou o país.
Março 12, 2005
Lê Cróniques du Matãn.

O blog da Ana Albergaria, o Crónicas Matinais, já chegou aos dois anos de idade. Entre Paris e a pátria.
Gabo.
Hoje, numa revista portuguesa, o jornalista fala umas seis vezes de Gabo num artigo sobre Gabriel García Márquez. Tanta familiaridade com García Márquez faz suspeitar que não interessa ele ser bom ou mau escritor, criticável ou acima de qualquer crítica. Do género: é Gabo e pronto, é dos nossos, nada mais a dizer.
Revista de Blogs. Quem sabe?
«Os portugueses parecem ser todos inteligentes, cultos, perfeitamente alfabetizados, e lindos e charmosos em minhas fantasias. O único defeito talvez seja que vivem falando de política, e da nossa política. Não que não seja ok falar de política, ou importante, yadda yadda, é que no Brasil isso é feito, geralmente, por gente bem nojentinha e nojentamente - não tomam banho, se reúnem todos os dias num certo lugar aqui do Brasil, particularmente da cidade de São Paulo e competem pra ver quem fede mais. Eu desejo quase todos os dias (e noites) ter nascido com habilidades pra física ou matemática. O pessoal de exatas pode não parecer muito cool, mas parecem tomar banho.» Ieda, no Fabulosa & Inútil.
Março 11, 2005
Brasil. Uma aventura no Leblon.
A imprensa bem comportada diz que não quer falar do caso Chico Buarque (fotografado com uma senhora nas ondas do Leblon) por respeito ao combatente contra a ditadura e ao papel desempenhado na vida cultural brasileira. É injusto. Chico Buarque tem todo o direito a navegar como quiser nas ondas do Leblon sem ser prejudicado pela sua respeitável biografia.
O Cantinho do Hooligan.
Afinal, não há muito mais comentários. O resultado fala por si e é quase histórico. Já não se fala apenas da incapacidade quase permanente de a equipa marcar golos ou de alinhar um jogo com sujeito, predicado & complemento directo -- trata-se da inabilidade que demonstram em campo. É uma humilhação merecida, não um escândalo; este FC Porto é uma fraude. Mérito absoluto do Nacional. Como eu gosto de dizer em futebol: «Vai buscar.» E é assim.
Bingo.
Excelente resultado do Nacional. Uma vergonha absoluta. Mais comentários a seguir, antes da síncope.
Março 04, 2005
The battle for clarity of language.
Christopher Hitchens: «Here again, the most persuasive evidence is the evidence that looks us in the face. In Iraq, Muslim militants place bombs in the mosques of those Muslims they regard as heretics. In Afghanistan and Pakistan, too, the Salafi and Wahhabi extremists commit murder against Muslims they deem unclean or unorthodox. And in the West, there are non-Muslims who excuse such atrocities as "resistance." These are often the same as those who hailed what they thought of as the "street." I don't think they should be indicted for hate crimes, but they should be made to understand that what they say is hateful and criminal, as well as sectarian. The battle for clarity of language is a part of this larger contest, and it is time for the opponents of terror and bigotry to become very much less apologetic and defensive on this score.»
Março 03, 2005
Revista de Blogs. Tamanho não é documento.
«Fomos a um casamento an-to-ló-gi-co em Ilha Bela, coisa de filme, padre super-star, metade do elenco fixo da revista Caras em lamê doirado, bolo de muitos andares, as mais belas flores na igreja, noiva linda, parecendo noiva de filme, noivo chorando piedosamente os 45 minutos da cerimônia, comida deliciosa - quando perguntada se queria carne ou peixe, eu disse pro garçom: "Meu filho, olha bem o meu tamanho, eu quero carne e peixe."» No Drops da Fal.
O problema da identidade nacional.
«Portugal» foi a palavra mais pesquisada na Internet em 2004. Não admira.
Venenos.
Primeiro, o SG Filtro. Agora, o molho inglês. As auctoridades sanitarias não conseguiram provar a presença de venenos suplementares. Não há maneira de nos conseguirem envenenar definitivamente a vida.
Brasileiros.
O Pedro Mexia escreveu uma crónica no Diário de Notícias sobre a sua descoberta da literatura brasileira. E, de facto, eles escrevem muito melhor. Dêem-me um romance português dos últimos anos que chegue ao desplante de Rubem Fonseca, Tabajara Ruas, Patrícia Melo, Bernardo Carvalho, Assis Brasil ou J. Gilberto Noll. Sim, ainda há os que citam Chico Buarque ou o último do Verissimo.
Licor de ananás.
Eu sou do tempo em que existia o velho Licor de Maracujá do Ezequiel, glória de São Miguel. Dizem-me que vai regressar e alimento essa esperança. Acho que comprei as últimas garrafas da velha geração de Maracujá do Ezequiel em insuspeitas mercearias da Ribeira Grande e de Ponte Delgada. Hoje, no entanto, provei o Licor de Ananás A. Arruda, da Fajã de Baixo. Uma revelação. Excelente para o cálice; magnífico para cocktails, quando vier a Primavera.
Adenda: Por falar em bebidas extintas, coube-me provar (e, com o Joel e o Nuno CS, exterminá-la) uma das últimas garrafas de Aguardente de Nêspera de São Carlos, ilha Terceira. Se houver uma garrafa ainda resistente, sou candidato.
Beirute, Damasco, Cairo.
O Al-Ahram escreve de Beirute, sobre Beirute, de Damasco, e dá conta dos tempos que se aproximam no próprio Egipto. Sinais.
Revista de Blogs. Um problema de epistemologia geral.
«A nostalgia pelas mamas do antigamente configura-se em duas modalidades. A primeira, é a modalidade daquelas/es que celebram o natural em detrimento da artificialidade do silicone. A segunda, é a modalidade de quem não esquece a forma das mamas idas.» Bruno Sena Martins no Avatares de um Desejo. {link para o texto}
Março 02, 2005
Revista de Blogs. National Gallery online.
«Termino com a notícia mais bela do mundo. A National Gallery está neste momento a exibir "Caravaggio: The Final Years", uma aparentemente espectacular exibição dos quadros deste menino. Vale a pena ler qualquer coisa sobre o esforço negocial que envolveu a concentração de tanta obra-prima - normalmente dispersa pelas sete partidas - num mesmo espaço em determinado momento. Vale a pena mas eu agora não encontro o link do artigo. O que interessa é que esta exposição (menos um quadrito ou outro) já esteve em Nápoles, onde o sucesso foi, como se costuma dizer, retumbante. Tão retumbante que: "In Naples last November the show was so popular that a man who was supposed to be under house arrest was caught waiting in the queue. The curators graciously sent him a catalogue." Se isto não é lindo não sei o que o seja.» maradona, no A Causa Foi Modificada.
O modelo nórdico.
Acerca do modelo nórdico, ultimamente tão discutido e cobiçado, o Sob a Estrela do Norte (Täällä Pohjantahden Alla) discute o tema. Indicações úteis.
Revista de Blogs. Do mundo literário.
«A avaliar pelos convites que recebo, só em Lisboa, exceptuando o mês de Agosto e a semana do Natal, fazem-se três lançamentos por dia. Nos meses de Abril e Outubro o número tende a duplicar. Ou seja: mais de mil lançamentos por ano. Porque não há só os autores «consagrados», os «reconhecidos», os «mediáticos», os «light», os «novos», os «novíssimos», os «urbanóides», os «do Partido», os «descamisados», os «malditos», os «marginais», os «tardo-Dada», as «socialites-escritoras», os «laterais», os «colunistas», as «senhorecas», os «jornalistas», os «psicoterapeutas», os «académicos», os «S/M», os «políticos», as «feministas», as «professoras», os «autarcas», as «escritoras do Graal», os «gay off the record», os «palopianos», os «dissidentes», os «brigadistas», os «fedorentos radical-chic», etc. Há também os outros. Nas variantes em pauta, onde está «escritor», pode-se pôr poeta. Agora o lançamento tornou-se uma pulsão colectiva.» Eduardo Pitta, no Da Literatura {link para o texto}.
O mistério, 3.
Mas a questão é também outra. A inevitabilidade de Cavaco é um assunto melindroso – é necessário distinguir as saudades de Cavaco da ideia de ter um Cavaco candidato à presidência da República.
O mistério, 2.
Há aqui muitos exercícios sobre lógica política: Cavaco é o candidato que pode unir e dar a vitória ao centro-direita. Problema de lógica política para os que acham que se tratou de uma vitória absoluta da esquerda: o que garante a inevitabilidade de Cavaco num país que votou generosamente no centro-esquerda? Resposta: precisamente, a característica flutuante de um país muito temperamental. Eu acho isso uma qualidade; ela poupou-nos vários disparates, independentemente de os sociólogos explicarem a teoria do centro eleitoral.
O mistério.
Há um mistério que se adensa: o mistério de Cavaco. Eduardo Prado Coelho escrevia ontem, no Público, uma crónica em que anunciava ou fazia supor a inevitabilidade do sucesso de uma candidatura de Cavaco Silva nas presidenciais. Esta inevitabilidade, ou este grau de inevitabilidade, é também outro dos mistérios da política portuguesa (do género: partimos para a campanha eleitoral convencidos da inevitabilidade da vitória de Sócrates). O que é inevitável é inevitável porque queremos que seja assim?
Beirute, 2.
Carlos Sousa de Almeida e Pedro Matos Soares (do blog A Foz), nos comentários ao texto anterior, sugerem outros links. Também Rui Curado silva, do Klepsidra, trata o assunto.
Março 01, 2005
Beirute.
Não tenho visto muitos comentários sobre a situação no Líbano. Mas quando vejo aquelas imagens sei que se trata de uma mudança radical no Médio Oriente.
Revista da Imprensa. Beirute.
«Electricity is in the air. Beirut is a sea of excitement, and activity and turmoil. The word "revolution" is on many lips.» Daily Star/Beirut
Revista de blogs. Um negão.
«Os portugas jovens que agora começam a aparecer (o Brasil está na moda mesmo) são amassados, assediados, queridos pelo mulherio cansado de tanto músculo desorientado, tanto peito raspado, tanta meninice pitbulizada... Parece que não amadurecem nunca e os que amadurecem ou pintam o cabelo, ou se escondem atrás dos rolexes dourados e dos sapatos cor de cócó diarreia. Honrosas excepções. Todos meus amigos. E um bom negão. Um bom negão não tem as mariquices dos restantes, concedo.» No SushiLeblon.
Revista de blogs. Playboy.
«O catolicismo das portuguesas leva-as a recusar a hipótese de se despirem para uma revista. O catolicismo das brasileiras leva-as a pousar nuas para a Playboy com um crucifixo ao peito.» No Voz do Deserto.
Revista de Blogs. A vida toda.
«Depois do amor já não voltamos a ser livres. Ficamo-nos pela solidão.» No Classe Média.
O discurso do Estado. Primeira lição.
O presidente Lula, discursando no Espírito Santo, mencionou «um alto companheiro, de uma função muito importante» do seu governo que o teria alertado «sobre a ocorrência de corrupção em privatizações feitas no governo de Fernando Henrique Cardoso». Se puderem, vão à edição de sábado de há três semanas, do Estado de São Paulo, onde Marcelo Rubens Paiva escreve uma carta de Lula «ao companheiro deus».
PS - Essa crónica de Rubens Paiva é muito boa. A terminar, Lula pede ao «companheiro deus» que interceda por Tevez, o novo atacante do Corinthians, apesar de ele ser argentino. Mas há a suspeita de que o «companheiro deus» possa ser do Palmeiras.
Serviço público no Brasil.
O meu correspondente em São Paulo, Gonçalo Soares, lembra que «a rede Bandeirantes faz serviço público de televisão» para portugueses. Para além de generosos resumos semanais do campeonato português no canal aberto (às segundas-feiras na Bandsports, disponível para quem tem DirecTV, a mesma que retransmite a RTP) costuma transmitir em diferido jogos integrais, normalmente com um dos «grandes». Ontem, por exemplo, a Band transmitiu em directo o Porto-Benfica. É evidente que há o risco de ouvir os comentários de Sílvio Luiz, «o mais burro dos comentadores em actividade no hemisfério Sul». Mas enfim, é serviço público.
O cantinho do hooligan.
Sim senhor. Estavam à espera, não era?
O Luís Carmelo pode, pois, descansar: o seu Benfica não perdeu.
Revista de blogs. Estaturas.
«Neste momento só há uma ideia que me atormenta: António Vitorino, a eminência parda do PS e do futuro governo; Marques Mendes, provável dirigente dos social-democratas. Valha-nos Deus! A altura destes homens.» João Pedro George, no Esplanar.
Um novo alfarrabista.

Na estação do Cais do Sodré, naquela banca de livros do passeio defronte, encontrei alguns exemplares soltos de Rex Stout. Stout é um autor mal traduzido para português (com excepção notável dos que passaram pela mão de Fernanda Pinto Rodrigues, uma senhora que merecia distinção & louvor pelo seu longo e silencioso trabalho de tradução, de várias décadas) e muito apreciado pelas idiossincrasias dos seus personagens. Comprei os que me faltavam, os que perdi em mudanças & outras perdas e até uns que estavam em melhor estado do que os meus. No dia seguinte, ao sair do comboio, o alfarrabista veio ter comigo: «Olhe, como o senhor andava atrás dos livros do Stout, fui à procura e encontrei-lhe mais alguns.» Aí está um serviço que muitas livrarias não têm e não querem.
Fusões.
O Insurgente abriu as portas. O Intermitente, do Miguel Noronha, fechou-as. O Insurgente é um blog onde também escrevem André A. Amaral, do Causa Liberal, Superflumina, O Observador, Picuinhices e o regressado Valete Fratres. Ao pé disto, a forma como se vai dividir ou fragmentar a Lusomundo é uma brincadeira. Longa vida para o novo blog.
Aniversário. Março é um bom mês.

O Blasfémias festeja hoje o seu primeiro aniversário. A eles todos, parabéns -- e as saudações para um blog que se tornou mais do que uma leitura diária.
Correspondência do exterior.
«His model for Portugal was "Nordic democracy" -- a society combining efficient capitalist enterprise with generous social services. [...] The disconnect between Socrates' vision and Portugal's reality is a symptom of the severe weakness of the country's economy that places strict limits upon the ability of any government -- whether left or right -- to generate renewal.» Portugal's New Political Cycle: The Root Problems Persist
Lúcia.
Os americanos descobrem uma nova heroína: «10-year-old girl named Lucia dos Santos.» Estamos feitos.
Fevereiro 28, 2005
Hollywood
Bono indicado para a presidência do Banco Mundial, substituindo James Wolfensohn. Naturalmente, vem no Los Angeles Times.
Adenda: não é uma notícia do Los Angeles Times: é uma proposta do próprio jornal.
Rilke.
Em Caminhos de Floresta, Heidegger gasta páginas e páginas com uns poemas de Rilke. Lêem-se com muita dificuldade a menos que se tivessem lido também todas as páginas anteriores (cerca de trezentas). Nessa altura estaríamos suficientemente familiarizados com o texto de Heidegger -- e Rilke não teria importância nenhuma. Mesmo assim, para Heidegger, não tem importância nenhuma.
Uma linha.
Um blog é isto. Muitas vezes, um instrumento narcísico. Depois, vamos simplificando tudo, simplificando até ficar uma linha apenas. Estou na contagem decrescente.
Fevereiro 27, 2005
O Assunto Proibido (Brasil)

Sim, há um assunto proibido sempre que falo nele no Brasil. Olavo de Carvalho. O reaccionário, anti-comunista, anti-nazi, aquela escrita cheia de agressividade, as obsessões de Olavo de Carvalho, o cristianismo de direita, etc, etc. Sim, é um assunto proibido. Alguém fala de Olavo e alguém diz «é assunto chato». Não é. Eu leio as colunas de Olavo de Carvalho (no Globo, no Zero Hora). Alexandre Soares Silva fala sobre o assunto proibido.
Suspeita torpe.
No Expresso desta semana pode ler-se (nem cito a coluna, nem cito...) que Santana Lopes percebeu que tinha de sair de cena, com esta adenda: ou alguém lho fez ver. Isto traz água no bico. É a frase mais importante do semanário. Um sinal de que o Expresso também sabe. Aí está um mistério para o Paulo Gorjão. Do género: alguém o convenceu.
Revista de Blogs. Spm/Tpm
«Quando chega o dia propriamente dito, rebolamo-nos que nem croquetes fotofóbicos, afogamo-nos em trifenes num quarto escuro e entregamo-nos às cãibras, essas guinadas simpáticas que mais parecem pontapés certeiros de Deus Nosso Senhor, apostado em relembrar-nos a cada vinte e oito dias que a mancha do pecado original a nós se deve.» No Controversa Maresia.
Fontes seguras.
Vital Moreira cita a primeira página do Expresso de ontem a propósito da notícia que dá António Costa e Vitorino como certos no governo, construída com base em fontes anónimas ou, pelo menos, «sem revelar as suas fontes de informação». Sugiro, mesmo assim, que se leiam as primeiras seis ou sete páginas do Expresso e se enumerem as «fontes anónimas» citadas em notícias do jornal. Ao mesmo tempo, sugiro também uma visita ao «Livro de Estilo» do Público (disponível na página do jornal, online) sobre o uso que se deve ou pode fazer de fontes anónimas. E se compare, evidentemente.
Revista de blogs. David Lodge em Florianópolis.
«Nenhum leitor mentalmente sadio compraria autores como Greimas, Kristeva, Lacan ou Saussure. Forçado pelos professores, principalmente na pós-graduação, o coitado do aluno tem de gastar parte de sua bolsa adquirindo essas enfermidades gálicas. Aqui, de cambulhada, ganham também todos os participantes do ciclo do livro: gráficos, distribuidores, livreiros, etc. [Depois] não esqueçamos os interesses do turismo. Em Florianópolis, para facilitar o "intercâmbio" acadêmico, uma agência se instalou no prédio da própria reitoria. Cada congresso de Literatura Comparada ou Semiótica em Tóquio, Helsinki ou Amsterdã é uma festa para a indústria do turismo. Ganham as agências, as companhias aéreas, a indústria hoteleira, a restauração local, afinal literatura e gastronomia sempre constituíram boa parceria.» No Janer Cristaldo.
AzorAir.
O Nuno Barata critica o Instituto Nacional de Aviação Civil por não ter autorizado a Air Luxor a voar para os Açores. Parece-me, de facto, haver gato escondido com rabo de fora -- e um atropelo às leis comunitárias sobre concorrência, também suponho (a propósito, a SATA teve lucros da ordem dos 3 milhões). Portanto, de acordo com o Nuno.
Mas eu tenho uma pergunta muito mais prática: há alguma razão (objectiva ou metafísica, tanto faz) para que os voos de Lisboa para Angra, da TAP ou da SATA, partam invariavelmente com atraso?
Liberdade.

A rua é a Galvão Bueno, na Liberdade, em São Paulo. De quase todas as vezes que passei lá, ao domingo, encontrei este cavalheiro segurando no estandarte com propaganda religiosa em várias línguas («Visite a Igreja Batista»), do chinês ao italiano, do hebraico ao japonês e ao russo. Nunca fotografei, mas encontrei a imagem no blog do Rogério. Quem passou no Bairro da Liberdade lembra-se dele. Um ar de perfeito absurdo no meio de bancas de yakissoba e telefones de contrabando.
Mudar as estatísticas.
No Brasil, o governo Lula, depois de ter sido surpreendido pelo estudo do IBGE (o instituto local de estatísticas económico-sociais), que arrumou de vez com o programa Fome Zero, determinou que os números & estatísticas sejam servidos ao palácio do Planalto, que só depois os liberará, ou não, para conhecimento público.
Em Portugal isso não acontece, mas é preciso fazer alguma coisa acerca dos números. Por exemplo: «o défice». Quando há uma discussão sobre «o défice», ninguém se entende. O diálogo é quase sempre este: «Ah, mas esse não é o défice real...» «Bom, mas esse número ainda não é definitivo porque...» Ou: «Esse número está viciado.» Isso acontece com todo & qualquer número: emprego, desemprego, colocação de professores, exportações, número de galinhas abatidas, sardinhas consumidas no São João, golos invalidados ao Salgueiros, tudo. Há sempre alguém que duvida dos números; com ou sem razão. Mas, geralmente, com o argumento de quem forneceu esses números os viciou antes. Era bom que houvesse números com a antiga grandeza da velha aritmética: um número é um número.
Reposição.
A TSF passou uma bela reportagem sobre África -- realizada por um excelente repórter, aliás, José Carlos Barreto. E uma magnífica entrevistada: uma mulher, Estefânia Anacoreta, que nos anos sessenta partiu para Angola com mensagens (de noivas, mães, pais, namoradas, familiares) registadas num pequeno gravador e destinadas aos soldados em combate «no mato». Uma pequena nota, no entanto, que pessoalmente tenho de fazer: quando a Grande Reportagem passou a revista semanal (com o JN e o DN), em Dezembro de 2003, esta história foi capa -- foi escrita por João Pombeiro e é um texto antológico. As coisas que se escrevem às vezes passam depressa.
Surpresas.
Estava escrito que não seria um moderado a conseguir um acordo de paz em Israel. Não é uma constatação totalmente feliz. Sharon foi o homem que começou a desmantelar os colonatos do Sinai para que fosse possível o acordo com o Egipto. Ele começará a retirar de Gaza. Resta saber quem começará a retirada da Cisjordânia, apesar das bombas dos covardes.
Fevereiro 26, 2005
Depois da efeméride.

«Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!»
Cesário Verde
Revista de blogs. Dinheiro mal gasto.
«I spent a lot of money on alcohol, women and fast cars. The rest I just wasted. George Best» No Hauptwege und Nebenwege.
Revista de blogs. Orientalismo.
«Há tempos eu quero discutir a questão do rego baixo das japonesas, ou como ficar de cócoras sem que o famigerado cofrinho apareça, mas vou esperar pra fazer um documentário mais completo, com fotos e dados estatísticos.» No De Cabeça para Baixo.
Visitação
Jornalistas visitam Aviz à procura de uma explicação para a existência da aldeia gaulesa, o único concelho que escapa à onda rosa & laranja. Parece que alguns ficaram nostálgicos. Podem mudar-se.
Fevereiro 24, 2005
Provavelmente, há coisas piores.
O biógrafo de Assis Chateaubriand (Chatô, o Rei do Brasil, Companhia das Letras -- um monumento sobre a história do Brasil) e de Olga Benário, o jornalista Fernando Morais está a preparar uma biografia do escritor Paulo Coelho. Muitos ainda vão surpreender-se com o rocker e com o autor de canções de Elis Regina.
Um pequeno nome mais.
Marques Mendes era Marques Mendes. Ficava-lhe bem. Agora é Luís Marques Mendes. Ficou maior, o nome.
Mozambique Blues

O nome de Ricardo Rangel está ligado ao de Moçambique: é um dos seus melhores fotógrafos. O José Flávio informa sobre o lançamento do livro Pão Nosso de Cada Noite, onde se reúne uma parte (muito pequena, certamente) do trabalho de Rangel. A esta foto, o Zé Flávio chamou-lhe Major Araújo Blues. Rangel tem oitenta anos.
Revista de Blogs. A Desfaçatez.
«Ele há coisas que, mesmo quando mudam, não mudam. Esse plumitivo assanhado que é o senhor dr. Luís Delgado disse que era preciso dizer que o senhor dr. Durão Barroso, quando primeiro-ministro, governou mal e mentiu. É isto a puta da desfaçatez. Não estar calado.» Nicky Fiorentino, no Albergue dos Danados.
Fevereiro 23, 2005
Samba de roda.
Quando o FC Porto se porta assim, ouço o disco de Mart'nália. Sempre dá para cantarolar aquela parte em que ela diz: «você é a intrépida trupe», etc., etc.
Notas do Brasil, 1
A eleição daquele sujeitinho, Severino Cavalcantti, para a presidência da Câmara dos Deputados, foi a última grande partida que o PT pregou a si mesmo. A grande bandeira da campanha de Cavalcantti foi o aumento do salário dos deputados (de 12.840 para R$ 21.500, num país com R$ 275 de salário mínimo). Mas por detrás dessa enormidade, o PT vai ainda ter de dar palmadinhas nas costas a um pernambucano («Eu sou como Lula, sou pernambucano como Lula.») reaccionário, ignorante e com um cadastro cheio de delitos. Com a morte do prefeito Celso Daniel por explicar, com o fantasma de Waldomiro Diniz perseguindo José Dirceu e o partido, com a derrota nas eleições municipais e com o novo avião presidencial a ter de fazer escala em Natal numa viagem para a Europa, está a ser um ano nada negligenciável. Evidentemente que isto é a caricatura; a verdade é muito mais cómica.
Adenda: Ver os textos de Villas-Boas Correia, no No Mínimo.
Bush, 2.

Sim, está certo. Mal consiga pôr a foto online, eu mostro o bloquista a beber uma bela Bush ambrée (ele gostou, note-se). Ah, mafarrico, está por dias a tua honra. Uma Bush!
Vidas de santos.
Seja como for, embora não seja assunto meu, não posso deixar de recomendar a leitura do livro organizado por Fernando António Almeida, Vidas Maravilhosas dos Santos (editorial Teorema): trata-se de recuperar uma hagiografia do século XII sobre alguns santos da igreja católica. As narrações são muito boas e o prefácio de FAA é divertido. Causa-me impressão a quantidade de santos que lutam por todos os meios contra o mafarrico, alguns deles causando males fatais (inclusive separando homens e mulheres) mas, felizmente, alguns são diabretes simpáticos.
Adenda: O Rafael Luiz Reinehr (um gaúcho de Santa Maria, Rio Grande do Sul, e que mantém o Simplicíssimo) diz, nos comentários, que estas bobagens cristãs não o comovem. É por isso mesmo, Rafa, é por isso mesmo.
A vida como ela é.
Luís Paixão Martins, o responsável pelo marketing do PS, foi ouvido pela TSF sobre a campanha eleitoral socialista. Foi uma das entrevistas mais importantes depois da vitória eleitoral de domingo passado porque dá razão aos pessimistas que diziam que o país estava cansado e queria regressar à normalidade. Ou seja, que as pessoas normais queriam uma vida normal. Uma vida normal é uma coisa simples – professores colocados a horas, ordem nas ruas, telenovela antes e depois do telejornal, futebol ao fim-de-semana, juros baixos, telemóveis baratos e férias no Algarve. Não são precisas nem muita sensibilidade política nem muita perspicácia de sociólogo para compreender esse desejo de mediocridade.
Há um lado da democracia que se deixa fascinar por esse desejo de mediocridade simpática – é necessário compreendê-lo. Com isso se ganham eleições e se seguram governos. António Guterres teve essa sensibilidade medíocre no início do seu segundo mandato, quando mencionou telemóveis e férias no Algarve. Eram metáforas aceitáveis. Medíocres mas aceitáveis. As pessoas aceitam endividar-se razoavelmente desde que o perigo não seja escandaloso; preferem a mediocridade ao combate pela excelência; os eleitores não gostam de ser incomodados. Compreende-se.
Luís Paixão Martins diz também que a alusão de Santana Lopes a uma suposta orientação sexual de Sócrates funcionou contra o candidato do PSD. Também se compreende – não apenas porque a alusão foi vergonhosa e indecente, mas porque “as pessoas normais” se estão nas tintas para o domínio privado dos outros desde que não pretendam impor-lhes padrões ou desde que esses modelos não prejudiquem o desempenho de funções públicas. Santana, que representa a figura do cafajeste infantil, foi perdoado nas suas extravagâncias privadas; eram um assunto pessoal. Mas quando se viu que esse comportamento também traduzia a sua incapacidade de se portar com decência como figura do Estado, então a reacção mudou.
O momento mais glorioso chega quando o estudo de marketing “descobre” que os portugueses são pouco sensíveis às “grandes reformas” que possam colocar em risco um valor como a estabilidade. As pessoas normais gostam de uma vida normal, de um emprego, de um carro em prestações baixas e de sardinhas pelo São João.
Um político, em campanha, que decida não prometer nada além da vidinha – tem a eleição garantida. Defendi essa ideia várias vezes nesta coluna. Fui criticado por isso. Chegou a altura de defender as minhas posições e de reabastecer o meu ego. Obrigado, Luís Paixão Martins. De certo modo, obrigado José Sócrates. Eu explico: as pessoas gostam de uma vida decente e de poucos incómodos. As reformas são um incómodo. Durante a campanha, foi proibido contar a verdade.
Muitas vezes, os nossos políticos e melhores intelectuais falam de um país que não existe senão a imaginação ou na longínqua Suécia. Já agora, têm sido os contribuintes suecos ou alemães, por exemplo, a pagar essa estabilidade lusitana. Aí está um problema com que o engenheiro Sócrates terá de lidar. Ou isso ou telemóveis e férias no Algarve.
Sim, isto é uma boa notícia.
Quando ando em Lisboa a pé vejo que a cidade se transformou numa espécie de expositor permanente, uma plataforma publicitária onde todos os espaços foram ocupados por ecrãs, painéis, outdoors, cartazes, o que quiserem. Em muitos casos trata-se apenas de poluição visual. A Câmara achou que devia retirar alguns deles -- sim, isto é uma boa notícia. Mas devia existir um limite legal que impedisse a cidade de ser um outdoor.
Fevereiro 22, 2005
Bush.
Sim, é verdade. Eu tenho essa fotografia do bloquista com uma Bush entre as mãos. Não entre os dedos, não. Entre as mãos, sorrindo.
Guillermo.
Muitos livros depois, muitos filmes depois. Muitas tardes de Havana depois. Muitas caixas de charutos depois. Morreu Guillermo Cabrera Infante. Também chove em Havana, onde ele gostaria de ver a chuva.
Chuva em Aviz.
Na realidade, se forem ver ao mapa eleitoral que resultou das eleições de domingo, só Aviz escapa à onda maioritária, rosa & laranja. É um verdadeiro marco geodésico.
Revelação.
Se ainda não leram O Livro dos Homens Sem Luz (edição Temas e Debates), de João Tordo, estão a tempo. São quatro novelas num livro novo.
Habituem-se.
António Vitorino reagiu daquela maneira na noite das eleições, afirmando que com Sócrates o governo não se faz na comunicação social nem para a comunicação social. Aquele “habituem-se” já fez levantarem-se algumas críticas. Era de esperar. Os média estão mal habituados depois de Guterres e de Santana. Alguns jornalistas, em defesa da corporação, já chamaram arrogante a Vitorino. Fizeram mal. Os jornalistas merecem levar para trás. É o seu papel. Deve ser por isso, suponho, que os jornais já noticiaram que Vitorino ia fazer parte do novo governo.
A tralha. Ideias antigas.
Uma das preocupações naturais nestas circunstâncias tem a ver com o futuro do PSD. A generalidade dos seus eleitores (não dos seus militantes) entendeu três coisas fundamentais que vale a pena enumerar. Santana é o símbolo da geração rasca do partido, o ponto mais alto da degradação a que o partido poderia ter chegado; a culpa pelo desaire não é apenas de Santana – mas do próprio partido que, maravilhado diante da possibilidade de tê-lo ao comando, lhe entregou tudo, lhe confiou tudo e não deu ouvidos aos avisos de gente experiente e séria; finalmente, os eleitores do PSD perceberam que não têm de estar preocupados com o PSD – ou seja, que o PSD merece o que lhe aconteceu, que os presidentes das distritais do partido merecem o desastre, que não cairão tão cedo noutra armadilha populista e que se estão nas tintas para o PSD. O facto de se estarem nas tintas para o PSD representa, bem vistas as coisas, um sinal de maioridade do eleitorado, que espera pelo fim da tralha santanista.
Fevereiro 08, 2005
SHARM EL-SHEIK. Já vimos estas imagens de outras vezes, mas há sempre uma esperança. Sempre todas as esperanças. Em Sharm El-Sheik já vi outras reuniões parecidas. Mas não retirarei um milímetro sobre a esperança, se bem que nem todas as notícias sejam tranquilizadoras.
Fevereiro 06, 2005
NOTAS SOBRE O BRASIL. O Luís Carmelo tem dado conta das suas perplexidades acerca do Brasil de Lula. Ah, meu caro Luís, o país do Carnaval...
DANAÇÃO. Um dos blogs que merece visita nestes tempos de excesso de frases é o Albergue dos Danados.
ESTADO. Esta afirmação de Medina Carreira devia fazer-nos pensar mais do que o habitual: 56% do eleitorado depende do Estado. Ou seja, os partidos fazem promessas que não podem cumprir.
O texto de Medina Carreira é imprescindível.
TOLERÂNCIA E OPINIÃO. Um padre fez hoje, numa homilia transmitida pela rádio (Antena Um), afirmações sobre qual não deveria ser o voto dos católicos. Longe de mim entrar na discussão, que não me diz respeito. Mas a reacção imediata de jornalistas e líderes políticos, dizendo que a Igreja não tinha nada que se meter no assunto (aborto, casamento de homossexuais, etc.) já me parece despropositada. 1) Por que é que a Igreja não pode meter-se no assunto?; 2) se a Igreja é contra o casamento dos homossexuais, contra a eutanásia e contra o aborto, por que é que não pode dizê-lo abertamente?; 3) se as posições da Igreja Católica são claras nesses domínios por que não poderá um padre dizer aos seus fiéis que vote de acordo com elas (ainda que o eleitor vá votar de acordo com a sua consciência, suponho eu)?
HAARETZ. Israel decidiu banir de vez as hesder yeshivot, ou seja, as unidades religiosas do exército regular. Boa notícia.
O PROBLEMA DA MORAL. O país ficou moralista, mas vai ficar mais durante os próximos quinze dias; não se trata de moral sexual. Aparecem, vindos de todo o lado, sacerdotes & freiras brandindo o dedinho indicador, mostrando como se deve fazer propaganda eleitoral, até onde se podem insultar o país e as instituições (salvaguardando algumas, naturalmente), de que comportamentos sexuais se pode falar e o que se deve omitir, o que é um boato e o que é uma insinuação. Ah, país de inquisidores e de polícias sem farda, de frades gordos e de virgens ressentidas, gente mal amada que gosta de coisas banais.
LINKS. Sobre traduções, legendagem, dobragem & outros links, ver o Legendas & Etcaetera e o Estroboscópio.
Fevereiro 05, 2005
ELE NÃO TEM A NOÇÃO. «José Sócrates pediu hoje aos jovens para não usarem o voto como mero instrumento de protesto contra o Governo PSD/CDS-PP, mas façam uma escolha consciente no PS.» É pedir demais. Sócrates tem de escolher uma coisa ou outra.
PAPÃO DA DIREITA. Não, não me parece que Francisco Louçã seja «o papão da direita». É apenas o candidato a papa da esquerda. Vê-se por aquele olhar.
HÁ UMA DIFERENÇA. Santana Lopes quer Cadilhe como vice-primeiro-ministro. Eu quero a Margo Timmins a cantar ali no terraço. Quero ir com a Mel Lisboa comprar livros (de epistemologia geral) em segunda mão nos alfarrabistas do Flamengo. Sempre quis o José Mourinho a treinar o FC Porto. Quero regressar ao século XVIII para escrever o Tristram Shandy antes do Sterne.
HÁ EXACTAMENTE UM ANO, NO AVIZ: O FIM DO CARNAVAL LUSITANO, FINALMENTE. O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.
Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto. [JN]
SAFIRE. Vale a pena ler «How to Read a Column», o texto com que William Safire se despede da sua coluna do The New York Times. Um resumo:
«1. Beware the pundit's device of using a quotation from a liberal opposition figure to make a conservative case, and vice versa. Righties love to quote John F. Kennedy on life's unfairness; lefties love to quote Ronald Reagan. [...] 2. Never look for the story in the lede. [...] 3. Do not be taken in by “insiderisms”. [...] 4. When infuriated by an outrageous column, do not be suckered into responding with an abusive e-mail. [...] 5. Don't fall for the "snapper" device. To give an aimless harangue the illusion of shapeliness, some of us begin (forget "lede") with a historical allusion or revealing anecdote, then wander around for 600 words before concluding by harking back to an event or quotation in the opening graph. [...] 6. Be wary of admissions of minor error. [...] 7. Watch for repayment of favors. Stewart Alsop jocularly advised a novice columnist: "Never compromise your journalistic integrity – except for a revealing anecdote." [...] 8. Cast aside any column about two subjects. It means the pundit chickened out on the hard decision about what to write about that day. [...] 9. Cherchez la source. Ingest no column (or opinionated reporting labeled "analysis") without asking: Cui bono? [...] 10. Resist swaydo-intellectual writing. Only the hifalutin trap themselves into "whomever" and only the tort bar uses the Latin for "who benefits?" [...] 11. Do not be suckered by the unexpected. Pundits sometimes slip a knuckleball into their series of curveballs: for variety's sake, they turn on comrades in ideological arms, inducing apostasy-admirers to gush "Ooh, that's so unpredictable." Such pushmi-pullyu advocacy is permissible for Clintonian liberals or libertarian conservatives but is too often the mark of the too-cute contrarian. [...] 12. Scorn personal exchanges between columnists. Observers presuming to be participants in debate remove the reader from the reality of controversy; theirs is merely a photo of a painting of a statue, or a towel-throwing contest between fight managers.»
BOATOS. A questão dos boatos é cómica, agora -- não diz muito, mas revela um carácter. O problema é que toda a gente está contra os boatos, procurando saber qual é o último que está a correr.
REVISTA DE BLOGS. Questões gerais de rima: «PEDE-SE ELEVAÇÃO: Nos debates, nos jornais, nos blogues. Se não conseguirem a elevação tentem uma contracção isométrica ou uma genuflexão. Se ainda assim não conseguirem nada, tentem uma erecção.» Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
MENCIONEMOS ISTO. O parágrafo primeiro do ponto sexto do regulamento do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, publicado no Jornal de Letras, menciona a consignação de mensões honrosas.
Adenda [actualização]: O cartaz do PP em Coimbra insere-se nesta onda, suponho. Já tivemos um secretário de Estado da Educação que desculpava os seus erros ortográficos com a falta de um corrector no windows, ou lá o que é.
Fevereiro 04, 2005
CAMPANHA. Se fôssemos todos honestos em matéria política, já tinha parecido estranho que a esquerda não tivesse falado das questões fracturantes. Mas não falou. Usa, agora, o mesmo argumento que a direita usava há um ou dois anos: «Essas questões não são importantes nem essenciais para o povo português.» Tomem nota.
BLASFÉMIA MESMO. «Louçã pode ser o novo Lula», leio a ameaça no Blasfémias. Demagogo por demagogo, prefiro aquele que é capaz de rir.
PUDOR. Noto algum pudor na blogosfera. Compreensível. Santana Lopes ganhou mesmo o debate -- se é que um debate daqueles se ganha de alguma maneira.
Fevereiro 03, 2005
VIDAS PRIVADAS, 4. Escreve o Jorge Leite, por email: «Private faces in public places/ are nicer and wiser/ than public faces in private places.»
Fevereiro 02, 2005
VIDA PRIVADA, 3. Os moralistas têm vida curta entre nós; não só são gente de mau aspecto como se trata de pessoas cheias de inveja. Os portugueses são sarcásticos, quando se trata de moral. Na verdade, padres, juízes, beatas envilecidas, fuinhas de toda a espécie, são pouco populares na nossa literatura.
VIDA PRIVADA, 2. A vida privada não nos interessa realmente. Gostamos de imaginá-la, porque somos perversos, maldosos e humanos. Até admito que gostamos de conhecê-la. Mas achamos que, não ultrapassando a lei geral, não deve prejudicar a vida pública de ninguém.
VIDA PRIVADA. Mostrar em público a própria vida privada é coisa de quem não tem vida privada. E merece todos os castigos.
REVISTA DE BLOGS. Conhecer Borges: «Não gosto de literatura, odeio escrever, nunca vou ao cinema - não sei como tudo isso se juntou. No começo de 82 fui fazer uns biscates em Buenos Aires e li nos classificados que procuravam alguém para auxiliar um velho. Achei gozado o que pediam no anúncio: “Dá-se preferência a quem não goste de filmes.” Fui ver. Parece que em Buenos Aires são poucos os que não apreciam perder tempo no escuro do cinema. Cheguei lá; a mulher dele - que no começo pensei ser a secretária - , uma japonesa, me recebeu. Fui levado à sala dele. Idoso mesmo, uns oitenta e tantos, por aí. E cego. Achei gozado um cego numa sala cheia de livros.» No Blog de Papel.
Fevereiro 01, 2005
TODOS OS PROFESSORES DEVIAM LER ESTE LIVRO. «Eu diria que a nossa era é a da irreverência. As causas desta transformação fundamental são as da revolução política, da sublevação social (a célebre "rebelião das massas" de Ortega y Gasset), do cepticismo obrigatório nas ciências. A admiração, para evitar falar de reverência, passou de moda. Somos viciados na inveja, na difamação, no rebaixamento. Os nossos ídolos devem exibir cabeças de barro. Os louvores são principalmente dirigidos aos atletas, às estrelas pop, aos milionários ou aos reis do crime. A celebridade, que satura a nossa vida mediática, é o contrário da fama. Usar uma réplica da camisola do deus do futebol ou imitar o penteado do cantor da moda está nos antípodas da condição de discípulo. Correspondentemente, a noção de sábio roça o risível. A consciência é populista e igualitária, ou finge sê-lo. Qualquer tendência manifesta para uma elite, para essa aristocracia do intelecto que era uma evidência para Max Weber, não está longe de ser proscrita pela democratização do sistema de consumo de massas (ainda que esta democratização comporte, inquestionavelmente, emancipações, sinceridades e esperanças de primeira ordem). O exercício da reverência está a regressar às suas origens longínquas na esfera religiosa e ritual. Nas relações mundanas, a nota prevalecente, muitas vezes fortemente americana, é a da impertinência e a da contestação. Os "monumentos de um intelecto que não envelhece", talvez até os nossos cérebros, estão cobertos de grafiti.»
George Steiner, As Lições dos Mestres [Lessons of the Masters].
Tradução de Rui Pires Cabral. Edição portuguesa da Gradiva.
REVISTA DE BLOGS. Ler e viver, ou assim: «Sabe aquelas expressões do tipo "Fulano fechou o livro e foi viver" ou "Sicrana está lendo menos e vivendo mais", que você adora usar? Elas não têm comprovação científica.* Não existe nenhum relato sobre perda das funções vitais ou morte cerebral durante o ato de ler, mesmo quando se trata de um livro do Carlinhos Brown irlandês. Ninguém sai da vida para entrar numa estória do Guimarães Rosa. Mais: "viver", verbo ao qual você talvez acrescente uma exclamação, é coisa de gentinha -- algo que amebas e planárias fazem tão bem quanto os seres humanos, não raro melhor. Como dizia aquele personagem de Villiers de l'Isle Adam: "Viver? Os criados farão isso por nós."» no Pura Goiaba. [Texto completo.]
REVISTA DE BLOGS. Uma anomalia: «Ser moderado é um risco acrescido. Em vez de se levar porrada de um lado, leva-se de dois. Umas vezes leva-se porrada da esquerda, outras da direita. A esquerda e a direita desprezam e odeiam os moderados, precisamente pela sua ausência de comprometimento com a sua visão.Os moderados são o seu terreno de caça. [...] Os moderados são uma anomalia que, em devido tempo, será erradicada.» No Bloguítica.
REVISTA DE BLOGS. Uma fronteira civilizacional: «O mínimo que se pode dizer sobre as várias referências veladas de Santana Lopes, em comícios e fora deles, a esses boatos, tentando utilizá-los em proveito próprio, é que se abriu um precedente grave e que uma fronteira, quase civilizacional, se quebrou.» No O País Relativo.
DARFUR. Não vale a pena esconder a notícia só para manter a ilusão de que se tinha razão:
«A Comissão de Inquérito das Nações Unidas, encarregada de analisar os acontecimentos na região do Darfur, no Sudão, onde morreram 70 mil pessoas às mãos das milícias apoiadas pelo governo sudanês, concluiu que não houve genocídio. Para estes peritos, que investigaram o assunto durante quatro meses, pode apenas falar-se em crimes contra a humanidade e crimes de guerra, acções que não são menos graves ou odiosas que um genocídio.»O problema, neste como em outros casos, é o bombardeio de números, frequentemente inflacionados pelas ONG que vivem do negócio da dor e da exploração do sofrimento. E também a definição do que é genocídio.
A FARSA. Caro MacGuffin, o problema não é o decreto de que as eleições no Iraque são uma farsa. É o desejo de que elas fossem uma farsa, assim, a olho nu, e de que houvesse atentados por todo o lado. O que acontece, pura e simplesmente, é que a realidade não cabe nas previsões, por exemplo, do enviado da RTP a Bagdad. Como sempre, ultrapassa-a. Há, naquele gesto de levantar o dedo e de o mostrar tingido (up yours), uma novidade desconhecida naquelas paragens. Up yours, americanos. Up yours, europeus. Up yours. Não interessa. As imagens das filas de eleitores, no Iraque como em Ramallah, mostra que alguma coisa tem de acontecer ali.
DA LITERATURA. Não percam o Da Literatura. Para quem pensa que tudo vem arrumadinho nos caderninhos e suplementos, o blog de Eduardo Pitta, Valter Hugo Mãe, Jorge Melícias, João Paulo Sousa e Pedro Sena-Lino vale a pena.
NUNO IS WATCHING YOU. O magnífico Nuno Guerreiro espreita-nos da Califórnia. O Rua da Judiaria inagurou o seu serviço de rastreio de posts, com o Janelas da Judiaria.
REVISTA DE BLOGS. Through the looking glass: «É perturbador ver a nossa vida ao contrário exibida num episódio de uma série de televisão que, de cómica, passa assim a dramática e as lições mostradas desse modo são sempre muito mais reveladoras, como quem se olha ao espelho e se vê de costas.» No O Essencial e o Acessório.
REVISTA DE BLOGS. Frio polar e a sorte do vento: «Única solução possível para evitar a cabrona da onda de vento polar que até os pintelhinhos congela: mentir, mentir, mentir!» No Rititi.
MAIS BRASIL, LITERATURA. No Gávea podem ler-se entrevistas com Milton Hatoum e com Luiz Antônio Assis Brasil. Este último lançará em Portugal, daqui a duas semanas, A Margem Imóvel do Rio (Ambar; a edição brasileira é da LPM). É um excelente romance, outro Brasil (o de Assis Brasil -- mas também o de Tabajara Ruas ou Erico Verissimo), o do Rio Grande do Sul. Milton Hatoum é o autor de Dois Irmãos e de Relatos de um Certo Oriente -- o cenário dos árabes e libaneses na Amazónia (a edição portuguesa é da Cotovia -- no Brasil, na Companhia das Letras).
MART'NÁLIA. Este post vai ao cuidado do Ivan. Tra-se de outro texto de Paulo Roberto Pires sobre uma das minhas sambistas de eleição, Mart'nália. O seu último disco, Ao Vivo, tem esta canção de Caetano Veloso em homenagem a Mart'nália: «Você é a Festa da Penha/ A Feira de São Cristóvão/ É a Pedra do Sal/ Você é a Intrépida Trupe,/ A Lona de Guadalupe/ Você é o Leme e o Pontal.» Samba é pop.
NOTAS DO BRASIL. Texto de Paulo Roberto Pires sobre a figura de Larry Rohter, o correspondente do The New York Times no Brasil. O bloco de samba A Impensa que eu Gamo, formado por jornalistas, acaba de lhe dedicar uma canção.
REVISTA DE BLOGS. Do uso dos bons argumentos em política: «Variações sobre o mesmo tema: espero ansiosamente pelo próximo debate - Louçã versus Santana. Sendo público que Santana Lopes é pai de uma catrefada de filhos, Louçã terá de pensar num argumento de jeito para calar o seu oponente.» No Bomba Inteligente.
REVISTA DE BLOGS. Uma vida e outra: «Ela se curva em reverência, acha tudo muito bonito, aquelas cores todas são escassas na região, sabe como é. Ela retribui com cheiros, os doces, os cítricos, os amadeirados, os florais. Não há destas coisas nas bandas dele, sabe como é. Diz que eles não se misturam, é bom não, os cheiros, assim como as cores. Mas eles reinventam, eles se expõem, eles se mesclam. Ele estende a mão, ela segura, e não larga mais por nada nesta (e nem na outra) vida.» No Bagaceiras e Afins.
AS IMAGENS. As de Mário Pires, no Retorta.
As de Adriana Oliveira no O Tempo e o Deserto e a sua presença no Travelling Journal (a que chego também através do Mário).
TV BAGDAD. Os editoriais do enviado da RTP a Bagdad fazem muito sucesso. Se a realidade os desmente de alguma maneira (por exemplo, a peça que assinou para o Expresso de sábado passado), o remédio é o seu autor insistir neles até que os acontecimentos sejam apenas um pano de fundo, dispensável. Agora compreende-se.
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Olhá lá, ó Zé Flávio. Nem preciso de dizer mais nada depois daquele golo do Vitória de Setúbal.
EL EQUIPO PERDIÓ EL LIDERATO TRAS CAER CON ESTRÉPITO EN CASA. El Oporto destituye a Víctor Fernández. Serviço público.
Janeiro 31, 2005
PASÁRGADA. «E quando eu estiver mais triste/ mas triste de não ter jeito/ quando de noite me der vontade de me matar/ -- lá sou amigo do rei -- / terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. / Vou-me embora pra Pasárgada.» O Bruno Fraga Braz deixou Os Outros de Nós e foi para Pasárgada. Entre Portugal, Espanha e o Brasil.
REVISTA DE BLOGS: Matemática geral: «Um projéctil é lançado verticalmente de baixo para cima. Admite que a sua altitude h (em metros), t segundos após ter sido lançado, é dada pela expressão
h(t)=100t-5t^2i) Determina h(2).
ii) Resolve a equação h(t)=0
iii) Qual o significado dos valores obtidos anteriormente no contexto apresentado?
iv) (para alunos do 12ºano) Qual a velocidade do projéctil, dois segundos após o lançamento?» No Vizir, um blog a acompanhar.
SEM MARGENS DE ERRO. Enquanto não se sabe se Santana Lopes vai, ou não, processar as empresas de sondagens, preparemo-nos para a quinzena definitiva com o Margens de Erro, de Pedro Magalhães. Ele mostra como se lêem sondagens.
E VAI PIORAR, 2. Exactamente como escreve o Pedro: «Na linguagem política, conhecia a expressão “mama” (mais ou menos sinónimo de “tacho”). Agora, foi introduzido o termo «colo”. Creio que, pelo andar da carruagem, nesta campanha ainda alguém vai dizer “pichota”.»
E VAI PIORAR. Isto é apenas uma amostra. Vai piorar. Mas não me parece bem que haja gente surpreendida -- frases como estas, arrancadas de «um comício feminino» com o primeiro-ministro, não são excertos de campanha. São produto de um desvario qualquer; obra do desespero, provavelmente. Mas não surpreendem. É o portuguesinho na sua mais brilhante actuação, piscando o olho, malandro, arrastando alarvidades. Daqui em diante, se o candidato terminasse os seus discursos com slogans do género «força na verga!», mesmo assim não havia razão para surpresas.
BIBLIOFILIA. O José Pacheco Pereira menciona uma exposição de postais e fotografias da Biblioteca Pública de Braga (de Ana Carneiro) sobre esse tema, bibliofilia. Chamo a atenção para um nome essencial: Henrique Barreto Nunes. O Henrique fez, na Biblioteca Pública de Braga e em todos os lugares onde esteve, um trabalho absolutamente notável, muitas vezes sem os meios que devia ter. Se eu precisar de ajuda para me lembrar de um título, de uma edição, de uma linha de um livro desde o século XIX até hoje, de uma localização de um documento -- sei que posso recorrer a um dos nossos melhores bibliómanos e bibliófilos. Naquela lista enorme de cavalheiros e damas que foram agraciados com tantas comendas de mérito cultural & oficial, eu gostaria de ver o nome de Henrique Barreto Nunes. Não é que ele precise. Apenas iria honrar e reabilitar um pouquinho a lista. Ele é um dos últimos cavalheiros dos livros. Um conhecedor insuspeito -- ou seja, acima de toda a suspeita. É uma pena não se dar por ele.
NOTAS DO BRASIL. O The New York Times publicou uma peça sobre o alarme, dado por organismos públicos brasileiros, sobre a ameaça da obesidade (o tal relatório que enfureceu o governo e os responsáveis do Fome Zero). A notícia foi assinada por Larry Rhoter (o tal que foi expulso do Brasil por ter publicado uma peça sobre Lula & a bebida). O Globo, entretanto, salvou a honra do país: a fotografia que ilustra o texto de Larry, no NYT, não é de três brasileiras -- mas de três senhoras da República Checa de férias em Copacabana. O texto do NYT está correcto; mas as fotos das checas são o argumento patriótico. De facto, qualquer um vê que aquelas senhoras não têm a saborosa gordurinha brasileira, epa.
GALERIA DE RETRATOS. A hipótese de haver eleições a 20 de Fevereiro é francamente positiva. Talvez a torrente de asneiras termine ou diminua um pouco.
NOTAS DO BRASIL. Diogo Mainardi escreveu uma crónica sobre Jorge Furtado. Este, indignado, ameaça processar não só Mainardi como todos aqueles que transcreverem a mesma crónica. O link da crónica está aí.
Nota: O Fabio Danesi Rossi informa, no FDR, que Furtado é um dos mais recentes protegidos do governo brasileiro («O Jorge Furtado, aliás, acabou de receber 700 mil do Banco do Brasil para fazer um curta-metragem louvando o povo brasileiro. Pra quem recebe tanto dinheiro público, não deve ser difícil louvá-lo.»)
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Ah, assim eu gosto. O FC Porto perde e eu regresso ao blog. Sem ressentimentos.
Adenda (maior do que o post): hoje, o FC Porto não perdeu apenas o jogo – provavelmente perdeu a corrida para o campeonato. Mas não faz mal. Há muito tempo que não via o FCP jogar assim, tão mal. Aliás, nem quando perdíamos jogávamos tão mal, falhando 60% dos passes e envergonhando o azul-e-branco. A única coisa a registar foi a entrada de Cláudio. De resto, hão-de explicar-me como é que o balneário do FCP reage a uma série de expulsões desta natureza. Não, não estou a culpar os árbitros – estou a dizer que os jogadores entram em campo sem perceber o que estão ali a fazer.
Janeiro 17, 2005
DOIS POEMAS COM SEIS ANOS.
O primeiro som devora-o a noite, mas fica para sempre
— por ter sido a primeira das coisas comuns. Aquele
minuto, nunca o repetes. Vagamente o lembrarás mais tarde,
porque é frequente falar-se do mistério da vida. Já o esqueceste,
muitas vezes choveu sobre ele e sobre nós, os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre. Chamas-lhe revelação,
ao gesto que abre os braços, o primeiro olhar que se ama
lentamente, nele cabe o silêncio anterior, as coisas que estremecem
só de terem um nome, uma sombra, um modo de adormecer.
A partir daí, do primeiro som, tudo recomeça enquanto o dia
se não curva; repousando, agora, ela perfuma a vida. Haverá outra
maneira de descrever todas as coisas que nascem assim — mas
esta basta, é a mais simples. A mais amada das coisas cede
o seu lugar por esse minuto, esse som, o gesto que abre os braços.
Enquanto chove, miudinha e fria, a chuva de Janeiro,
seguro ao colo a minha filha. Ela olha vagamente a luz
esplêndida, arrebatada. Sente-se essa emoção, tão
pequena. O tempo passa e esquece, não o sente,
adormecida e encostada ao peito, um sopro seria agora
uma ventania inútil enquanto digo versos em silêncio,
grato pelo milagre de a ver perfeita. É outra coisa comum,
esta perfeição — os olhos, as mãos, a boca, um leve
perfume que há-de ficar na camisinha de flanela,
esvoaçando de Janeiro a Janeiro, afastando o medo
do Inverno (esse mal que vem entre as roseiras frias
e mais nuas do mês). Ninfinha que há-de rir, assim a vejo
em sonhos, trémula, a cabeça posando sobre a mão,
inclinada sobre a tarde, desajeitada e tão agora nascida.
Janeiro 08, 2005
«Declina o dia,
as canas dobram-se à aragem de nordeste.
Morrerás num crepúsculo destes
quando a tempestade ruge e as penas caem,
e caem as tâmaras e as lágrimas.»
José Agostinho Baptista
Janeiro 07, 2005
LIVRARIA BUCHHOLZ. José Leal Loureiro (A Regra do Jogo, lembram-se?) é o novo director da Buchholz. Ele acha que «pré-falência [é] uma expressão demasiado violenta» e anuncia que a livraria está a preparar «um reforço de capital, e está a tentar incrementar as vendas e reduzir alguns custos, com vista a voltar a funcionar em pleno». Muito bem.
FORNICAÇÃO. Fawzan Al-Fawzan, professor na universidade Al-Imam, na Arábia Saudita, tem uma explicação para a ocorrência do maremoto asiático:
«We know that at these resorts, which unfortunately exist in Islamic and other countries in South Asia, and especially at Christmas, fornication and sexual perversion of all kinds are rampant. The fact that it happened at this particular time is a sign from Allah. It happened at Christmas, when fornicators and corrupt people from all over the world come to commit fornication and sexual perversion. That's when this tragedy took place, striking them all and destroyed everything. It turned the land into wasteland, where only the cries of the ravens are heard. I say this is a great sign and punishment on which Muslims should reflect.»
Janeiro 06, 2005
Janeiro 05, 2005
POLÍTICA GERAL. A declaração do presidente da República sobre as grandes dificuldades que se aproximam traz água no bico. Ou bem que as eleições se fazem para clarificar e calar o ressentimento ou então é melhor ficar toda a gente a discutir pactos de regime e a metafísica do bloco central.
LUX. Convidar o dr. Pôncio e a Margaria Rebelo Pinto para as listas de deputados elegíveis é uma espécie de anúncio de um cruzeiro pelas Caraíbas. Evidentemente que não funcionaria. A Margarida (declaração de interesse, como faz Pacheco Pereira no Abrupto: é minha amiga) e fez bem em recusar; não tem jeito para a política e nunca lhe vi um comentário sobre o assunto. Já quanto a Pôncio Monteiro, e como se viu, o destino escreve torto por linhas habitualmente tortas.
BUCHHOLZ, 2. Acredito que só os amigos da Buchholz, ou seja, os seus clientes, aqueles que passaram pelas suas escadas, estantes, livros empilhados, desorganização, maus tratos, labirintos, três andares, inutilidades & raridades, pequenas maravilhas, achados, prazos de entrega, presenças do Assis Pacheco, poderão decidir o destino da livraria. Pessoalmente, penso que o encerramento da Buchholz, se vier a confirmar-se, constitui uma perda para a geografia cultural de Lisboa. O mercado é fatal e uma livraria também funciona no interior dessa maquinaria. Simplesmente, acho que os seus clientes podem fazer um esforço suplementar.
BUCHHOLZ. Este texto poderia estar no site da livraria Buchholz (que está em remodelação) e teria todo o gosto em publicá-lo. Infelizmente, antecede esse texto (divulgado por Pedro Tamen, de quem o recebo) o seguinte aviso: A Livraria Buchholz, lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural encontra-se em situação de pré-falência. E este pedido de um grupo de amigos: «Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando. Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.»
A Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos. A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.
No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável.
Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis, na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça. A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura, e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.
POLÍTICA GERAL. Não percebo o espanto gerado pelo caso Pôncio Monteiro. Mas compreendo a gargalhada.
LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 9. Ora, o pagamento dos direitos de comodato aos autores, pelo empréstimo de livros nas bibliotecas públicas portuguesas, como já escrevi antes, é um problema a encarar. De qualquer modo, o regime actual não é desconfortável e a moratória pedida pelo Estado português (através do Instituto do Livro), até 2012, é uma coisa sensata e com a qual estou absolutamente de acordo. Até porque as bibliotecas públicas têm contribuído, de forma notável e incansável, para a divulgação das obras dos autores portugueses. E, também, para a sua venda.
LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 8. O Jorge Vaz Nande, de A Peste, acha que a pergunta deixada por Luís Carmelo, «se levada às últimas consequências», põe em causa «a responsabilidade dos autores no progresso cultural»; se bem me recordo, o Luís questionava a circulação de fotocópias e o que isso significava de dano em matéria de direitos de autor. Ora, a responsabilidade dos autores não se perde ao reivindicar o justo pagamento pelos seus direitos. É disso que ele vive – e não de subsídios do Estado. «We, authors» – mais uma vez. Há autores que ganham a vida (apenas ou também) com aquilo que escrevem; não é justo que lhe sejam negados os direitos sobre os seus textos. Os autores contribuem ou não para o progresso cultural – isso é com cada um – mas não é justo que o seu trabalho não seja pago. Sobre esta matéria devemos ser claros. Ou se pensa no autor como um funcionário do Estado (ou de uma autarquia, de um instituto, de uma escola), sujeito ao regime geral do funcionalismo público ou ao regime particular do contrato que assina, ou como um sujeito independente que, de facto, vive do produto do seu trabalho. A liberdade de um autor deve estar, em princípio, nas tintas para o progresso cultural. A literatura não tem nada a ver com a cidadania, os mecanismos de regulação da sociedade, as comendas do 10 de Junho ou a auto-estima dos seus concidadãos. Eu sou um «trabalhador independente»: não tenho horário de trabalho, não tenho 13º mês nem «regalias sociais» senão as que obtenho com o meu trabalho. Não vale a pena enumerar.
O J.V.N., em A Peste, enuncia várias vezes o princípio dos «direitos morais» de um autor, e eu compreendo do que se trata. Mas, de facto, falamos de outra coisa. Toda a gente acha que fulano, autor do texto x, tem direitos morais sobre o seu texto x; porque foi o seu autor. Assim, diremos que fulano é autor do texto x. Os direitos morais consagram a autoria propriamente dita, a integridade da obra, a sua textualidade, o direito a ser citado como autor, a impossibilidade de a obra ser alterada sem o seu acordo, etc. Mas deve consagrar-se outro direito: que ninguém ganhe um cêntimo com a utlização do texto x sem autorização ou acordo do autor de x. É claro que há esse outro argumento: a literatura (a escrita, o que quiserem) é uma arte pobre, um negócio pobre. Pode ser. Mas tem um valor.
Por exemplo, também compreendo a preocupação do Rui Manuel Amaral, no Quartzo, Feldspato & Mica quando diz que «os grandes beneficiados serão todos os Dan Browns e Margaridas Rebelo Pinto deste pequeno mundo». Mas não vejo que a retribuição de direitos de autor ao Dan Brown ou à Margarida seja uma injustiça ou que isso beneficie apenas «aqueles que menos precisam de compensações desta natureza». Eu sei que o Rui não escreveu a palavra «apenas»; mas muitos gostariam de a ver lá escrita para significar que só esse género de autores pode ser beneficiado.
Adenda: Posso contar uma história que não é estranha a muitos. Acho comovente que, um dia, a pessoa que estava a paginar um livro, tenha ficado chocada com o valor pago ao seu autor. Esse valor era aproximadamente 1/3 do valor que essa pessoa receberia para paginá-la. Honestamente, achou que era uma injustiça. Mesmo estando a contribuir para o progresso cultural da sociedade, naturalmente.
LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 7. O Jorge Marmelo chama a atenção para dois pormenores nesta questão, ambos do ponto de vista dos autores e um deles esquecido. O Jorge, nas suas intervenções que conheço foi uma das pessoas que sempre afirmou que os autores não devem ter um «tratamento de favor», mas recorda:
«Lembras-te de ter sido criada uma taxa sobre a venda de fotocopiadoras destinada, dizia-se, a compensar os autores pela reprodução das suas obras? Conheces alguém que tenha recebido um tostão? Chegou a ser aplicada? Ou conheces, por exemplo, algum jornalista que receba os direitos de autor resultantes da venda de artigos seus pela entidade patronal, não só a particulares, mas a outras publicações e "sites"? Já se sabe que as leis que nos protegem podem até ser muito avançadas e justas, mas os resultados são, normalmente nulos, como sucederá provavelmente com a taxa das bibliotecas. Já a eliminação do benefício fiscal de que beneficiamos terá efeitos imediatos. Limpinho.»Limpinho, de facto. Talvez isto acrescente um pouco à pergunta do Luís Carmelo, que tem toda a razão de ser.
Janeiro 04, 2005
«E o que dizer das fotocópias que fazem dos nossos livros (refiro-me aos ensaios e sobretudo àqueles que aparecem permanentemente nas bibliografias em licenciaturas e mestrados?»
Janeiro 03, 2005
REFORMA DO ENSINO, 2. Mais notas sobre o tema lançado pelo Ademar Ferreira dos Santos, no Abnóxio. Por exemplo, no Ar Fresco. E o sinal de conforto do À Espera dos Bárbaros. Entretanto, Vital Moreira informa sobre a publicação de um blog sobre ensino superior, com a contribuição de outros bloggers portugueses.
EMPRÉSTIMO DE LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 5. Por email, João Branco entra na discussão sobre o tema «pagamento de direitos de autor ao empréstimo de obras em bibliotecas».
«A questão aqui vai mais longe do que a responsabilidade ou não dos autores em colaborar com a cultura, ou o ressarcimento destes compensar ou não. A questão aqui é "os limites do direito de restrição de cópia" (não acho que o termo "direito de autor" seja correctamente aplicadohoje em dia, excepto se considerarmos coisas como direitos morais à integridade das peças). Como consumidor (também sou autor, mas isso são outras contas) penso que os direitos de cópia terminam na primeira transacção comercial. Não há lugar a pagamentos em qualquer transacção posterior - incluindo o emprestimo público de uma obra que foi comprada. Obviamente aos detentores do direito de cópia (quão poucas vezes são estes os autores) interessa-lhes aumentar os "direitos dos autores" à custa dos direitos dos consumidores. Esses interesses podem existir e até os considero legítimos, mas porque devem eles sobrepor-se aos interesses do público?»A resposta segue.
REFORMA DO ENSINO. Outros blogs citaram também este post. Recomendo bastante este começo, de Ademar Ferreira dos Santos (são três posts com o mesmo título, «Uma certa escroqueria universitária»). E este, também do Ademar. No Abnóxio.
Janeiro 02, 2005
A VIAGEM DE IAQUB, 4. Em Manaus, o Rio Negro assustara-o: os únicos rios que vira, em sonhos certamente, tinham sido os rios da Mesopotâmia, e nenhum era tão grandioso, tão frio, tão profundo e tão escuro como aquele que o barco segue de Belém para Santarém, de Santarém para Óbidos, de Óbidos para Juruti e Itacoatiara, de Itacoatiara até às águas sujas de Manaus, onde Iaqub chegara em Dezembro de 1894, numa manhã de domingo em que os sinos tocavam às primeiras horas da manhã e se aproximava o Natal dos cristãos. Mal descera do barco em São Luís do Maranhão, apenas o tempo de passear pelas ruas do porto. Quando passara ao largo de Alcântara, falaram-lhe de Belém como a última fronteira, e Iaqub imaginou que daí em diante as florestas à beira da água haviam de parecer-lhe os pomares ao longo dos rios do paraíso, as margens do Tigre e do Eufrates, com as suas cheias imensas de onde tinham vindo os profetas e continuavam a chegar a fruta, os carregamentos de armas, de seda e de retratos vendidos no mercado de Beirute. Mas nada o assustou como as margens dos rios do Acre, cheios de sombras e de animais despedaçados.
A VIAGEM DE IAQUB, 3. Como seria Manaus nesse ano de 1894, quando Iaqub desceu do barco, no Rio Negro, e viu as obras das ruas, a lama dos pátios, tão diferentes de Beirute, tão diferentes de Marselha, onde esteve duas semanas à espera de barco para o ou-tro lado do mar? Devia ser um desgosto grande e uma dor sem nome, porque a Serra de Contamana, a fronteira com o Peru, tinha o perfil negro da maldição lançada sobre todos os homens solitários que se atrevem a enfrentá-la ao fim do dia.
A VIAGEM DE IAQUB, 2. Ele próprio só pôde reconstituir essa viagem de Iaqub Youssef, o libanês, quando descobriu que no interior da caixinha, em papéis sujos, havia muitas anotações manuscritas, numa letra minúscula e cheia de erros de ortografia em português que demorou a entender. Durante um mês, praticamente, juntou os papéis, folhas avulsas arrancadas a cadernos improváveis, com linhas quase desaparecidas ou apenas amarelecidas pela humidade, salpicadas de café, manchadas de cinza, cheirando às florestas e a fumo de cigarro – havia números, geralmente preços de café, de cachaça, de açúcar, de sal, de quinquilharias, brinquedos que seriam vendidos nas aldeias do Itucumã, do Acre ou do Rio Negro depois, sabão que sobrevivia às travessias dos rios.
A VIAGEM DE IAQUB, 1. A história dessa caixa é estranha, longa, demora a contar, mas ele conhecia-a através de Iaqub, o vendedor de quinquilharia que saiu de Beirute em Julho de 1893 e que dois anos depois, em Setembro de 1895, chegaria à Serra de Contamana subindo o Juruá, o mais pequeno dos rios. Para quem nunca esteve na Amazónia, é difícil imaginar como se chega quase à nascente do Juruá-Mirim, tanto mais que o rio nunca foi muito navegável. Não era rio de pesca, não era rio de gente, sobretudo na época das chuvas, de Outubro a Maio, e só se chegava a ele saltando de rio em rio, de igarapé em igarapé, de colina em colina, sobrevivendo aos ataques dos índios, às alucinações, aos animais desconhecidos e às febres.
AS RESTRIÇÕES ALIMENTARES. Não poder comer isto ou aquilo é um limite civilizacional. Mas também é uma de duas coisas: uma marca distintiva e um sinal de arrogância. Mas podemos escolher, é sempre esse o caminho.
Dezembro 31, 2004
O PERIGO DA DEVASTAÇÃO. As imagens continuam a chegar. Vídeoamadores. Repórteres da desgraça. Vidas salvas e vidas perdidas. Ao pé disso, as histórias dos primeiros dias são um pesadelo, porque limitavam os danos. As regiões finalmente abertas aos jornalistas, às visitas da imprensa, ao olhar da ajuda humanitária, revelam um mundo que parecia subterrâneo até então: províncias isoladas por décadas de terror político, de isolamento e de escuridão. Falamos tantas vezes desses lugares -- nunca os tínhamos visto. Penso na China, por exemplo; e em se alguma vez teremos oportunidade de ver os territórios devastados por barragens, tufões, terramotos, incêndios, terra-queimada do Estado, Tibete, o que for. Ao pé disso, as notícias dos primeiros dias são um pesadelo, porque não só limitavam os danos como também escondiam a geografia.
RETORTA, 3 ANOS. Na altura em que faz 3 anos a Retorta V3 inicia o seu caminho. Aí está: com nova versão, abandonando a plataforma Typepad, em espaço próprio.
EMPRÉSTIMO DE LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 4. O J.V.N., de A Peste, lembra, e bem, que os autores não devem recusar «uma posição de responsabilidade no progresso cultural». Eu acho isso bem. Mas, isso lembra-me outra questão, justamente: a dos benefícios fiscais para autores. O deputado do CDS/PP acha presente na Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, diz que o Estado não pode abdicar dessa contribuição fiduciária, e não me parece mal, tal como havia dito o deputado do PSD («O Governo tomou esta posição devido ao estado em que o país se encontra e não por menosprezo das comunidades cultural e intelectual»); mas o seu argumento («o benefício fiscal não é a única maneira de incentivar os criadores») é que me parece muito perigoso. Justamente porque isso leva água no bico, ou seja, abre a porta a subsídios e «outros apoios» (sinecuras, avenças, pedinchice, cargos) do Estado. Se o autor (we, authors, exactamente, como dizia Johnson) vive do seu trabalho (como é o meu caso), não vejo razão para ser beneficiado com base em outros privilégios que não esses. Um autor não pode incluir nas suas despesas, para efeitos fiscais, nem computador, nem lápis ou papel, nem trabalhos de investigação. Como dizia um anterior director-geral dos impostos, há uns anos, «que é que vocês querem mais? lápis e papel são coisas baratas...» Ora, a responsabilidade social dos autores, que me perdoem, não pode ser usada pelo Estado em benefício próprio. Eu quero que o Estado se meta na sua vida, que já é trabalho suficiente.
A DEVASTAÇÃO HUMANA. O Nuno Guerreiro acompanhou as peripécias da recusa de ajuda israelita por parte das autoridades do Sri Lanka, e em especial o habitual arrazoado do al-Quds al-Arabi, de Londres.
Nota: O L'Osservatore Romano não perdeu a oportunidade, como também é normal, para a habitual sacanice. Cito do Rua da Judiaria:
«Numa completa inversão da verdade, o diário oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, criticou fortemente (!?!) Israel na sua edição de terça-feira (link para ficheiro .pdf), acusando o governo de Jerusalém de ter “recusado um pedido de ajuda humanitária efectuado pelo Sri Lanka” (ver também Catholic World News : L'Osservatore raps Israel for declining disaster relief). O jornal católico corrigiria o erro, mas sem nunca o admitir verdadeiramente, na sua edição de quarta-feira (ver L'Osservatore Romano 29-12-2004, formato .pdf).»
REVISTA DE BLOGS. No Brasil, rir de tudo: «A retórica pão-pão queijo-queijo da guerra contra o terror não vai pegar tão cedo por estas bandas. Pode explodir uma bomba na esquina que a gente faz piada. Duvidam? Vejam o que se lê num parachoque de caminhão hoje em dia:
Aqui é como o World Trade Center. Só entra avião.Não dá. Aqui, Bin Laden cai no samba e Bush se lambuza no forrobodó.» No Alto Volta
EMPRÉSTIMO DE LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 3. Não concordando com os termos usados pela Associação dos Bibliotecários (ver notícia no JN), que fala de consequências «catastróficas», a posição adoptada pelo IPLB parece-me ponderada, ao «solicitar uma moratória da decisão até 2012», data a partir da qual o Estado terá de pagar essa conta de direitos de autor -- e não os utilizadores das bibliotecas. Outra questão é saber quem cobra os direitos de autor dos livros a adquirir pelo IPLB depois de 2012.
EMPRÉSTIMO DE LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR, 2. O J.V.N. coloca as coisas com muita clareza (ver as suas conclusões ao post sobre o assunto):
«Ou seja, o problema colocado pela União Europeia não tem solução. A menos, claro, que o Estado assuma, sem oneração suplementar dos utentes, o pagamento dos direitos de comodato aos autores. O problema que se colocará então será o de um braço-de-ferro entre as instituições, que tentarão acordar ao mínimo a indemnização (art. 2º do Decreto-Lei-"O proprietário do estabelecimento que coloca à disposição do público o original ou as cópias da obra é responsável pelo pagamento da remuneração, a qual, na falta de acordo, será fixada por via arbitral, nos termos da lei"), e os autores, que lutarão pela ampliação desta, mas submetidos ao triste dilema de que, quanto maior for o pagamento de direitos de autor, menor será a aquisição de novas obras. Ou seja, o desenlace será mais desfavorável então aos pequenos autores, que perderão nas vendas e não recuperarão em direitos de autor, pois as suas obras serão as menos requisitadas.»Mas a questão tem um peso ideológico claro: ou se tratam os autores como «parte das biliotecas» ou se lhes concede receber os direitos sobre aquilo que, de facto, são: autores.
EMPRÉSTIMO DE LIVROS NAS BIBLIOTECAS. DIREITOS DE AUTOR. Sobre este assunto, ler o post de Jorge Vaz Nande no A Peste, onde tenta conciliar «a defesa do frágil direito do autor quanto à sua obra e, segundo, uma tendencial diminuição do custo do acesso à cultura. Enquanto autor, parece-me justo que receba uma compensação pelo empréstimo que da minha obra é feito; enquanto cidadão, parece-me que pagar para poder requisitar um livro numa biblioteca pública é uma absoluta contradição da própria razão de ser desta.»
Parece-me que se trata de um debate ideológico importante.
Dezembro 30, 2004
DE FACTO. De facto, aí está uma boa pergunta. Portugal foi, no biénio que felizmente acaba, o país onde mais vi representantes do poder (dos vários poderes, do Estado às corporações) mencionarem o seu «direito à indignação». Mas este caso, o da candidatura de Luís Filipe Menezes, que L.R. trata no Blasfémias, não tem provocado indignações: se Luís Filipe Menezes é candidato por Braga e já disse que não sai da Câmara de Vila Nova de Gaia, não dará o caso de os eleitores do círculo de Braga, votantes do PSD, se perguntarem para que serve o seu voto?
ÁSIA-PACÍFICO. O bom FBP, zelando pela sanidade geográfica do Aviz (Aliquando bonus dormitat Homerus) acha estranho que eu me tivesse referido à tragédia asiática como tendo ocorrido na zona Ásia-Pacífico. Mil perdões. Fui induzido em erro por mim próprio. Mencionei Aceh, Sumatra, e os meus meridianos deslocaram-se. Obrigado, FBP.
APPLE/MAC. O Miguel Tomar Nogueira (Origem do Amor) chama a minha atenção para a página da Apple (não a portuguesa, evidentemente). Os links comerciais foram substituídos por links relacionados com a tragédia na Ásia -- organizações humanitárias como a American Red Cross International Response Fund, Direct Relief International International Assistance Fund, Médecins Sans Frontières International Tsunami Emergency Appeal, Oxfam Asian Earthquake & Tsunami Fund, Sarvodaya Relief Fund for Tsunami Tragedy, ou a Unicef South Asia Tsunami Relief Efforts.
Dezembro 29, 2004
COM ATRASO. Estar fora da Pátria tem estes inconvenientes, mas com o atraso de dois dias recordo as câmaras da televisão a entrevistar turistas portugueses (certamente gente famosa), perguntando-lhes se iam anular as férias na Tailândia ou adiá-las para Março. Nessa altura, a contabilidade ia em 30 mil mortos. Perguntas de merda. Gente de merda.
P.S. - Não, eu não discuto a grandeza ou a existência de D-us por causa da tragédia asiática. Não desvalorizo os seus sinais nem os considero uma ameaça. O que a tragédia me sugere é isto: nada. Nada a não ser a desolação e a morte e a necessidade de actuar rapidamente.
O RESSENTIMENTO EM 2004. O ressentimento tem voz. E não é uma imagem decente. «Soberba dá-se nos abruptos incontinentes, traidores por feitio e natureza, que sempre se venderam por uma sacola de 30 dinheiros. É o pecado dos sem-vergonha, sem pátria e sem coluna.» Vem assinado.
REVISTA DE BLOGS. A Aula de Alemão: «Seríamos talvez os únicos desalinhados, quem discutia a Carta ao Pai, de Kafka, Luiz Pacheco ou Nietzsche, e quem ouvia Velvet Underground, Sonic Youth ou Joy Division. Eu achava que ele era intelectual, e sabia-o perdido. Sempre achei isto das minhas almas gémeas, não sei se por ser naïf ou presumida. Um dia, estávamos perdidos de bêbados à uma da tarde e ele estava sentado no chão, e gritou: Gosto das tuas ancas. Tens ancas de mulher. Pode parecer mentira, mas éramos tão frágeis, tão tímidos, trocávamos roupa e bonés e muitas vezes andávamos de mãos dadas a fazer disparates pela escola, mas sem sentido das proporções, da mediania. Quis salvá-lo, ou perder-me com ele. Depende do ponto de vista. Assim, levei-o para a primeira carteira, na primeira fila. Falávamos menos, escrevíamo-nos muito mais. Um dia, na aula de alemão, passei longos minutos a observá-lo, e ele tão perto de mim, tão lá e tão fora. Não sei como, creio que disse o seu nome, ele olhou-me e eu preguei-lhe um beijo na boca à frente da Frau Fernandes.» No Diotima.
Dezembro 28, 2004
A BARBÁRIE DAS COISAS NATURAIS. Uma coisa é determo-nos diante da barbárie de que o género humano é capaz. Outra é observar como a barbárie das coisas naturais nos deixa mudos. A indignação contra os elementos está fora de moda e fora de causa. Mas existe. A cada imagem que chega pela televisão, existe, sim.
SONTAG. O que eu mais gostava em Susan Sontag (1933-2004) era o facto de conseguir atrair leitores para a discussão. Excessiva, muitas vezes espalhafatosa. Eu não concordava com metade das opiniões que Sontag publicava e multiplicava, nem gostei de O Amante do Vulcão (Quetzal); preferia Na América, que desenhava um território e uma fronteira. Estive uma vez na mesma mesa, durante uma feira do livro: era impossível discordar daquela mulher que falava, falava, falava, e em que se descortinavam convicções muito brutais e também muito sinceras. Por isso não compreendi algumas das posições políticas que adoptou, mas compreendo a cosmogonia, ou seja, o conjunto de factores que a levou a ser como era, ainda que idênticos factores tivessem produzido seres e opções completamente diferentes. Enfim, era encantadora. Muitos, que a conheceram melhor, diziam que era uma chata e que tinha uma tentação disciplinadora a que não eram estranhas as suas raízes familiares, o não me custa a acreditar.
BIOGRAFIAS PARA O FIM DE ANO, 2. O Manolo Piriz, por email, corrige uma «informação incorreta sobre a construção de Brasília», que está no post logo aqui abaixo:
«Na realidade, é de Lúcio Costa o projeto do Plano Piloto da cidade. Ao Niemeyer coube a elaboração dos projetos arquitetônicos de grande parte dos principais edifícios, assim como: os palácios da Alvorada, da Justiça e do Planalto; da Catedral, do Teatro Nacional, da Universidade de Brasília e do Memorial JK.»
Dezembro 26, 2004
BIOGRAFIAS PARA O FIM DE ANO. O Jorge Marmelo chamou a atenção para esta série de biografias de brasileiros ilustres; vêm no Pura Goiaba:
«Oscar Niemeyer, ilusionista, é um escultor que passou a vida fingindo, com sucesso, ser arquiteto. Acredita que a casa perfeita é totalmente inabitável pelo ser humano, coisa desprezível que só serve para macular a beleza dos seus desenhos (vale o mesmo para Brasília, cidade perfeita projetada por ele e imune a qualquer coisa que cheire vagamente a humanidade). Odeia a natureza e acha que mato só existe para ser desbastado e coberto de concreto. Ama bigodes gigantes e rampas, parafilias pouco estudadas pela ciência. Quando não está fazendo rabisquinhos, seu passatempo é assinar abaixo-assinados que não lê: apenas confere se Saramago e Chico Buarque também assinaram. É careca e chato. É também elo perdido com o período jurássico, prova de que vaso ruim não quebra e muso da marchinha "a pipa do Niemeyer não sobe mais".»
A FOLHA ERROU. A Folha de São Paulo deu em manchete, na passada quinta-feira, que ia ser um fim-de-semana cheio de chuva. A edição metropolitana arrancava, inclusive, com uma foto de Ipanema (ena!, a Folha!, com uma foto do Rio!) debaixo de chuva. Procurei várias vezes a secção «A Folha Errou» para ver se o jornal se retratava. Nada. Até agora, um sol de praia abrasador.
AS IMAGENS. Eu tinha um preconceito anti-indonésio; acho que quase todos os portugueses tinham. Venci-o quando estive lá. As imagens que nos chegam devolvem-me lugares que conheci na região e uma sensação de desgraça que não tem a ver com nada conhecido.
Dezembro 24, 2004
REVISTA DE BLOGS. Semântica e Música: «A semântica da musicalidade é como o Natal: só se vê uma vez por ano e só se se for da religião correcta.» [...] «O meu sonho era vicentino, cognitivo e omnisciente.» No The Galarzas.
SOB CÉUS ESTRANHOS. (A NOITE, O QUE É?) Ficamos com pouco, depois de um ano inteiro: poeira, o coração sempre no fim da tarde, insectos, colibris, o sabor da cerveja, não ter endereço. O coração no fim da tarde é uma imagem que transporto todos os dias. A poeira também. E alguns nomes novos: vagalume, sonambulismo, domingo de praia, nadar a meio da noite, livros, café da manhã.
PACTO DE REGIME. A ideia de que tem de haver um pacto de regime soa a trapaça. Soa a armadilha. O pacto de regime serve para aprovar contas-fantasma, leis irrepreensíveis mas quase sempre inadequadas, relatórios que não relatam nada. Só é admissível um pacto de regime para matéria constitucional.
BIBLIOGRAFIA DE FINAL DE ANO. Dois livros acabados de ler: O Silêncio de um Homem Só, de Manuel Jorge Marmelo (edição Campo das Letras), e O Opositor, de Luis Fernando Verissimo (edição Objetiva). O M.J.M., já o disse várias vezes, é um narrador muito subestimado, injustamente subestimado; estes contos são muito bons e merecem encontrar leitores -- a sua língua ecoa por corredores de festa e de euforia, tanto como por horas de absoluta preciosidade, como se às vezes aparecesse um verso a quebrar a ideia de prosa. Mais uma vez, um bom livro do Jorge. Quanto a O Opositor, de Verissimo, tem a marca do delírio, o que não admira, um vez que apanha Manaus vista do céu; é pena os personagens aparecerem deslocados, como se fossem arrancados a outro lugar do mapa. Mas Verissimo tem um problema: quem delira com as suas crónicas, contos e textos curtos, dificilmente deixará de lembrar todo esse manancial, acrescido, ainda, do peso dos livros do outro Verissimo, o Erico, seu pai. É um peso injusto, mas fatal.
PS - Devo uma explicação pública sobre o blog do Manuel Jorge Marmelo. Só uma incrível distracção me levou a não o incluir na lista dos meus blogs do ano. Está já feita a rectificação.
CORRESPONDÊNCIA DA AMÉRICA LATINA. «A capital do Uruguai, Montevidéu, onde vive 40% da população do país, terá um monumento à diversidade sexual no seu bairro histórico, resolveu por unanimidade a Junta Departamental, órgão legislativo comunitário.» Notícia aqui.
UMA TEMPORADA NOS TRÓPICOS. Os meus filhos, rapazes, chegam hoje de Portugal. A irmã mais nova vai esperá-los ao aeroporto; pelo entusiasmo, acho que está convencida de que vêm eles mesmos aos comandos do avião.
CORRESPONDÊNCIA DO BRASIL. Resumo da história: uma semana antes da segunda volta das eleições municipais, o publicitário Duda Mendonça (conselheiro particular de Lula; responsável pela campanha, marketing e crê-se que ideologia do PT; responsável pela campanha de Marta Suplicy em São Paulo; proprietário da agência de publicidade que canaliza mais contratos vindos do governo, de Brasília ou de empresas estatais) foi preso num recinto de brigas de galos (rinha de galos, aqui), ilegais no Brasil. Telefonou a Lula e ao ministro da Justiça, mas ninguém pôde fazer nada – as lutas de galo são ilegais e ele estava lá. Marta Suplicy, entretanto, perdeu. O PT, pelo meio, não ficou bem visto. Um mês e meio depois, a notícia continua: dois dos polícias (Polícia Federal) que participaram na detenção de Duda Mendonça (e de mais um dirigente do PT, que também estava lá), foram afastados do Rio de Janeiro para um município do interior. Quanto ao responsável da delegacia que coordenou a actuação policial, foi agora demitido de funções sem explicação. «Permanece na delegacia», diz a Polícia Federal; mas foi demitido um mês e meio depois.
CORRESPONDÊNCIA DO BRASIL. Depois do falhanço do Fome Zero, o Brasil descobre que o grande problema é a obesidade dos cidadãos. Foi manchete em todos os jornais e o governo está preocupado. Desconfio que se trata do lobby das academias de ginástica, perdão, de malhação.
Dezembro 23, 2004
MEMÓRIA. O Rui continua a publicar, no Companhia de Moçambique algumas imagens de João dos Santos Rufino, sobre a capital da antiga colónia. Esta é a fotografia da Sinagoga de Lourenço Marques.
«A Sinagóga», em João dos Santos Rufino, Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique, vol. III («Lourenço Marques. Aspectos da cidade, vida comercial, praia da Polana, etc.»), Lourenço Marques, 1929.
OS SONHADORES E A POLÍTICA. Actualização do post «Sonhos», de anteontem, no texto do JN.
P.S. E uma rectificação: como acentuaram alguns leitores, os subscritores do texto do Público não era da FEUP mas da FEP. A FEUP é a Faculdade de Engenharia; a de economia é a FEP.
Dezembro 22, 2004
BLOGS DO ANO. Não tenho. Os deste ano, salvo duas ou três excepções, já estavam na minha lista do ano passado. Gostamos de quem gostamos mesmo e de quem nos confronta, de quem nos acompanha e de quem nos abandona – ou porque lhes sentimos a falta ou porque não abdicamos da sua companhia. São estes os meus blogs preferidos (vão por ordem alfabética):
PORTUGAL
Os laços principais
A Causa foi Modificada
A Praia
Blasfémias
Contra-a-Corrente
Fora do Mundo (P.M.)
Homem a Dias
Rua da Judiaria
Voz do Deserto
A biblioteca de eleição
Abrupto
Amor-e-Ócio
Apenas um Pouco Tarde
Babugem
Blog dos Marretas
Blogame Mucho
Bomba Inteligente
Companhia de Moçambique
Desesperada Esperança
Grande Loja do Queijo Limiano
Klepsydra
Jaquinzinhos
Mar Salgado
Ma-Schamba
Memória Inventada
Periférica
Portugal dos Pequeninos
Rititi
Seta Despedida
Superflumina
Tradução Simultânea
BRASIL
Os laços principais
Alexandre Soares Silva
Blógico
Diário de Lisboa
FDR
Pura Goiaba
Radamanto
Saudade do presidente Figueiredo
As afinidades de eleição
A Mente.Capta
Drops da Fal
Hormoniosas
Fabulosa & Inútil
Letra Miúda
Megeras Magérrimas
Miss Veen
O Caderno Lilás
Paulinho Assunção
Perto do Coração Selvagem
Sub-Rosa
Vertigem
DIOGO MAINARDI. Como prometi oferecer o livro, percorri metade da cidade, de livraria em livraria. Em Salvador, o livro de Mainardi está esgotado. A senhora da Siciliano segredou-me, às escondidas: «Amanhã vêm mais oitenta, mas posso lhe guardar um.»
BIRMINGHAM, PARTE DOIS. O Fernando Albino, do No Quinto dos Impérios, chama a minha atenção para alguns desenvolvimentos sobre a matéria do post anterior. «A peça», diz F.A., «foi retirada mas parece que irá ser transferida para Londres. Para o Royal Court mais precisamente. A comunidade artística está, como é óbvio, bastante preocupada com este precedente perigosíssimo e hoje de manhã, no programa «Breakfast», da BBC, o director do Royal Court manifestou-se convicto de que a peça seria mesmo levada a cena por uma questão de princípio.»
MULTICULTURALISMO E LEI DA BLASFÉMIA. Aqui está um exemplo para reflectir. Membros da comunidade sikh de Birmingham (cerca de 400 pessoas) «tentaram invadir, sábado, o teatro durante a exibição da peça ["Behzti" ("Desonra")], causando danos materiais de milhares de euros e ferindo três polícias». O texto do jornal refere que «a comunidade sikh, dá grande importância à honra pública», o que explica que a autora do texto, Gurpreet Kaur Bhatti, de origem indiana, tenha recebido «ameaças de morte e de rapto e foi forçada a sair de casa». Um membro da comunidade declarou-se satisfeito por «termos exercido os nossos direitos democráticos ao protesto». O director do teatro de Birmingham diz que, «infelizmente, os líderes da comunidade [sikh] foram incapazes de nos garantir que não haveria uma repetição das acções ilegais e violentas que presenciámos. É-nos agora claro que não podemos garantir a segurança dos nossos espectadores. Portanto, com muita relutância, decidimos acabar com a exibição da peça por razões puramente de segurança.» É a blasfémia, é a blasfémia.
Dezembro 20, 2004
REVISTA DE BLOGS. Cinema e propaganda: «Eu pagaria dez pau para qualquer filme brasileiro que tivesse Aldine Müller, mas não quero ser obrigado a financiar (enfie aqui qualquer atriz que não seja Aldine Müller), muito menos acharia importante esse filme. E me dizem que os franceses financiam seu cinema, que é aquela maravilha que conhecemos, apesar da dor nas costas. Mudem para França. O cinema só é importante para candidatos a Goebbels. As gentes que defendem a importância do cinema acreditam que guerras culturais podem ser vencidas. Não podem, todos perdem em guerras culturais, e no mínimo perdem tempo. Só pessoas muito inocentes ou muito condicionadas a não pensar podem achar que a propaganda é estratégica e que ela só pode ser combatida com mais propaganda. Ao mundo moderno, o merecido desprezo.» No Saudades do Presidente Figueiredo.
OBRIGADO. Caro McGuffin: só me resta agradecer a distinção. E esperar pelo próximo encontro no Fialho, naturalmente, até para discutir essa nota de rodapé (5) ao teu texto. Parece-me francamente discutível estar a sugerir vitualhas não provadas.
SONHOS. Retomando o comentário de João Miranda sobre o manifesto de uns jovens da FEUP. Não fiquei muito sensibilizado com o texto, mas parece-me desventura minha. A ideia de transportar os sonhadores para a política, que pode ser generosa, acaba por provocar depressões e abandonos prematuros da actividade. Para a política seria desejável ter gente dedicada e competente, capaz de tomar decisões que, pelo menos, não prejudiquem os cidadãos. A ideia de que os sonhadores vêm do nada puro, destinados a grandes coisas, saídos da faculdade e prontos a meter os grunhos na ordem, parece-me delicada. A quantidade de sonhadores que causou catástrofes enche várias páginas. Mas enfim, talvez seja uma questão linguística, não sei.
LEITORES DE BLOGS. Os jornalistas do Público lêem blogs. Depois do Substrato, o bom Arqueoblogo, também plagiado, descobriu essa verdade elementar.
LIBERDADE RELIGIOSA, 2. Sobre o post de ontem, escreve Carlos Pereira da Cruz, por mail: «Creio que o proselitismo religioso (cristão, muçulmano...) está fortemente controlado por leis do estado turco, com as leis da UE talvez isso tenha que desaparecer... ou não, porque penso que ainda subsistem anacronismos (?) legais em países como a Grécia, em que o BI identifica a religião do portador e em que só cristãos ortodoxos podem ser funcionários públicos.»
A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO. O Rui Ângelo Araújo publicou no blog da Periférica um texto intitulado «O futuro da Língua Portuguesa». É um bom texto, cheio de sensatez (coisa que tem faltado) e de pistas para o debate.
Dezembro 19, 2004
EXACTAMENTE. Sem moralismos políticos, António Barreto faz algumas perguntas que os eleitores deviam fazer. Já não me interessam ideias gerais; gostava de saber coisas concretas. «Já é tempo de compreenderem que a sociedade mudou e que o voto tribal é cada vez menos importante.»
ISTO SIM, É UMA NOVIDADE. Já houve coisas piores, eu sei. Mas se isto é verdade, não vejo razões para não estarmos autorizados a rir da Pátria, a bem-amada. Via Grande Loja.
PAPAI NOEL... Esta notícia é estranha. Lida a imprensa de referência, no entanto, só falam do que não interessa. Disto, nem uma linha. Nem uma referência, sequer no órgão oficial do Benfica. Falta de respeito pelo interesse público.
FASHION MALL. Soube, pela Vogue americana, que finalmente será banida umas das piores criações contemporâneas: os sapatos pontiagudos. Como se diria no Brasil, são definitivamente sinal de cafonice. Mais: os saltos altos estão definitivamente out. Também são um bocadinho cafonas, sim. E então com aquele terminal pontiagudo...
LIBERDADE RELIGIOSA. Muita gente vai achar estranho, mas «Turkey's imams predict more freedom of worship – thanks to the EU». Mais:
«Mullahs have no chance to write and deliver impassioned speeches to the faithful at Friday prayers because the Chief Mufti of Istanbul faxes out the sermon, which must be delivered in identical form across the country. Yet this tight grip on religion jars with Western, and EU, concepts of religious freedom. As a result, Turkey's Islamists believe that membership will allow them greater freedom to worship as they like. "In Turkey there are higher powers that answer to Jewish and American controllers which do not allow the government to grant us these freedoms. We have been controlled for far too long."»A reportagem vem no Telegraph, onde podemos escutar o imã Muzzaffer Gecgel:
«Turkish people in my position want to be in Europe because it will mean greater liberty for us.»Esta ideia de «greater liberty for us» tem que se lhe diga. Quanto aos «impassioned speeches to the faithful at Friday», idem.
MEMÓRIA DE MOÇAMBIQUE. O Rui, do Companhia de Moçambique, tem vindo a publicar algumas das melhores imagens de José dos Santos Rufino, «comerciante estabelecido na papelaria e livraria A Portuguêsa, na Rua Consiglieri Pedroso da baixa de Lourenço Marques» que «foi o editor do mais extensivo levantamento fotográfico realizado na colónia até aos anos quarenta». Recomendo muito uma visita para ver essas imagens (em 1929 Rufino publicou, em 10 volumes, os Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique).
Dezembro 18, 2004
HIPHOPCONDRIA. Pois é, caro Paulo. Ainda um dia destes falávamos sobre o que é e o que não é política, a propósito do que é a esfera privada da vida dos políticos -- e, inclusivamente, sobre o que, da esfera privada, resulta ter uma dimensão política. E, tendo uma dimensão política, tem sempre, necessariamente, uma dimensão pública. Ora, o que me parece que te irritou nessa história publicada pelo Expresso foi, antes de mais, o facto de ter sido publicada pelo Expresso. Soa a vendetta. Acho que sim, é bem provável -- mas é bom que aprendam que até os canais de fuga de informação do gabinete do primeiro-ministro têm de ser credíveis ou não tão falseáveis. Mas essa história, que a Grande Loja publicara, que corria por todos os bares da capital e que provocava alguma risota (justificada, diga-se de passagem), é inequivocamente uma história política. Não só por complicar a vida do trânsito em NY ou em S. Bento -- mas também porque prova que não basta ser primeiro-ministro, é necessário parecê-lo. O poder tem um preço; é, provavelmente, uma lei aborrecida e disparatada para certas almas. Mas o facto é que tem um preço: o da privacidade, o da imagem pública, o da vida afectiva que aparece nas revistas (se o visado foi palerma ao ponto de a expor nas revistas), o das preferências futebolísticas ou o da hipocondria, por exemplo. Entre outros. Quem não quer ser ridicularizado não pode, de facto, fazer figuras ridículas.
Eu defendo o direito dos políticos à vida privada, mas não acho decente tentar privatizar a sua vida pública, ou seja, tentar diluir na esfera do privado aquilo que é exposto em público. O episódio da ambulância é apenas um. Vir falar de facadas nas costas e de direito ao sossego parece-me, depois destas histórias, um exagero.
MÁ ONDA. Esta história, sobre plágio jornalístico, é má onda. Sobretudo se a autora do plágio escreveu, depois de se ter esquecido de citar o blog Substrato, que "o jornal Público não é um veículo publicitário de blogs".
REVISTA DE BLOGS, 2. Questões literárias: «Gosto mais de reler Eça que de reler Camilo mas acho que emprestava mais depressa o meu carro a Camilo.» No Blogame Mucho.
ARQUITECTURA. O A Barriga de um Arquitecto faz um ano. É um blog com muito bom gosto e com fontes muito úteis. Parabéns.
REVISTA DE BLOGS, 1: Papai Noel: «No Shopping do bairro judaico tem renas, neve, trono, o Papi Noel e uma insólita princesa com vestido cor de rosa ao lado dele, acho que para quebrar um pouco a cristandade fora de lugar. Eu, toda encantada: - olha a princesa, que linda, oiiiii. O Papi Noel moreno, bondoso que só, olhando pra minha amiga: oooiii, linda. Numa festa de aniversário infantil, decorado com motivos natalinos, o Papi Noel de uns 25 anos para a minha amiga, dona da festa, mãe do pimpolho: se precisar de ajuda é só me chamar. E no Megasupermercado, o Papi Noel de zóio verde olhou pra ruiva sem pestanejar as pestanas e sem mexer um fio da barba longa: já fez seu pedido?» No Hormoniosas.
COMO FAZER UMA NOTÍCIA. O P.M.F., do Blasfémias, comenta esta notícia da TSF. Bom, isso explica-se. O jornalista aproxima-se de, imaginemos, Marisa Cruz, e pergunta-lhe: «Admite jogar a ponta-de-lança do Boavista?» A D. Marisa Cruz responde: «Não afasto hipótese nenhuma nem admito nada, mas o João Pinto vai marcar, isso garanto.» O título da notícia seria, possivelmente, «Marisa Cruz não afasta hipótese de jogar com João Pinto contra o Penafiel.» Outra ideia é esta: o jornalista aproxima-se de, imaginemos, um director do Benfica e pergunta-lhe: «Acha que a actuação do árbitro foi irregular, reveladora do mau estado da arbitragem em Portugal e de que é preciso avançar com as investigações do Apito Dourado?» Resposta: «Sim.» O título poderia ser «Direcção do Benfica acha que foi vítima do Apito Dourado». As hipóteses são muitas, mas só se espera que a sandice não cresça.
Dezembro 17, 2004
UMA PEQUENA QUESTÃO. Para os que pensam sobre a adesão turca à UE:
«Advocates of the European Union as a fully fledged superpower predicted yesterday that the addition of Turkey's military might would make it a true global player. Ankara's forces are greater than those of France and Britain combined, with 514,000 men under arms and 380,000 in reserve, plus a robust air force with American fighters. A Nato official described the forces as "very experienced and well-trained", hardened by years of battles against Kurdish guerrillas.»Ler mais aqui.
SAMBINHA. Caro Ivan: sei que estás à espera da Ópera do Malandro em Lisboa, mas olha que em São Paulo vão actuar juntos Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola, o malandro a sério e o cavalheiro sorridente. Ainda estás a tempo de reconsiderares. E tem mais: o acompanhamento dos dois será da Velha Guarda. Por curiosidade, Paulinho vai cantar «Argumento» e «Coração Leviano»; Zeca vai começar com «Deixa a Vida me Levar» e «Verdade»; está prometido que vão cantar juntos «Recado» e «No Pagode do Vavá», mas a surpresa maior está reservada para o final -- quando cantarem «Nervos de Aço», de Lupicínio Rodrigues. Pensa bem.
AGENDA. Mário Cláudio, Prémio Pessoa 2004. Amanhã no Livro Aberto, RTP-N, às 23.00horas. Repete no domingo à 01.00h. RTP-1 também emite a entrevista.
EU, COMOVIDO A OESTE. Obrigado, bom Ricardo, pelo prémio do Babugem.
P.S. - Mas isso não é desculpa para não teres aparecido no grande almoço da convenção liberal em Évora. Tão liberal, já agora, que este senhor transportava um exemplar da última edição da Socialist Review (ah, o que eu esperei por um pretexto para poder dizer isto...).
O MUNDO É MUITO TARDE. O F.N.V., do Mar Salgado, publicou ontem um texto que nos devia fazer pensar em qualquer coisa. «Despede-te (chora) do dia que passou, não esperes nada do dia de amanhã (se quiserem o original em latim vão a Horácio, Odes, I, II, 8)». Li o texto hoje de manhã e senti o arrepio que se sente quando o mundo todo aparece tarde demais. Depois, vi que o Rui Baptista teve a mesma reacção. Aprende-se tarde demais. Não temos o tempo a nosso favor, ao contrário do que diz aquela canção antiga dos Rolling Stones. É verdade, Filipe, nascemos dentro da jaula.
JOSÉ GIL. O livro de José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir (edição Relógio d'Água) é uma soma de diagnósticos, um retrato dos traumas, dos medos, das oportunidades perdidas, das desistências. A experiência de Portugal pode ser uma sensação deprimente, tendo em conta a actualidade do livro e o facto de escrever, já, sobre o consulado de Santana Lopes. Admito que seja necessário pensar desta maneira para se poder sobreviver.
ISTO SIM. Meu bom amigo: fiquei, como toda a gente, deliciado com o estudo sobre a frequência lexical nos blogs. Inequivocamente, nunca mencionamos o que é importante, essa é que é essa.
PRONTO. Moacyr Scliar acha que os portugueses são os responsáveis pela chegada da melancolia aos trópicos. Passei a noite a ver «E.R.» («Serviço de Urgência» em Portugal); depois um episódio longínquo de «The West Wing», de que amanhã vou assistir ao primeiro episódio da nova temporada»; um debate interminável sobre a última jornada no campeonato brasileiro sem perceber se o Santos vai ser campeão ou se pode ser ultrapassado pelo Atlético (mas descobri que o Flamengo não desce, o que abalou um pouco a minha fé na justiça divina); o zapping levou-me ao «CSI Miami» e a uma estranha discussão acerca da separação de Caetano e Paula Lavigne (o que reacendeu em mim a fé na interminável justiça divina, não sei explicar porquê). Terminei a ler o livro de José Gil sobre o infeliz destino português dos últimos anos. Ó Moacyr, sinceramente. Não acho que tenhas razão, coisa nenhuma.
Dezembro 16, 2004
CORRESPONDÊNCIA DO BRASIL, 2. Cineastas, actores, jornalistas, autores & pessoal afim, criticam a criação da Ancinav, Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, uma espécie de central de controle da programação televisiva, dos roteiros/guiões de cinema, etc. Arnaldo Jabor, ex-lulista: «A Ancinav saiu da cabeça de alguns intelectuais que deviam estar plantando milho e comendo capim. Como eles não conseguiram ter um programa político para o País, resolveram fiscalizar a cultura, o cinema, os artistas e a televisão.» Roberto Damatta, o sociólogo: «Esse decreto vai contra tudo, quer regular o que não se regula, a criatividade. É quase surrealista ter um ministro que já foi censurado e agora quer acabar com a liberdade de expressão.»
Por outro lado, o projecto para a criação do CFJ (Conselho Federal de Jornalismo), um instituto pensado com o objectivo de «controlar e disciplinar a actividade jornalística», foi rejeitado na Câmara de Deputados. O líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, promete voltar à carga para o ano.
Duas boas notícias juntas.
P.S. - Alguns leitores do Aviz protestaram por ter chamado medíocre à Isto É, que escolheu o ministro José Dirceu como a figura do ano. Bom. Eu acrescento: duas vezes medíocre. Para «figura da comunicação social» a revista escolheu Luis Gushiken, encarregado da propaganda do Planalto -- no seu currículo está a cumplicidade na alteração ao texto de uma entrevista de Gilberto Gil no site da presidência, de modo a torná-la mais ortodoxa e favorável a instrumentos de censura; está também o entusiasmo colocado na expulsão do correspondente do The New York Times, Larry Rhoter. Como figura do ano, a Isto É Gente escolheu Marta Suplicy. Portanto, duas vezes medíocre talvez seja pouco, sim.
CORRESPONDÊNCIA DO BRASIL, 1. Os sindicatos foram autorizados por Lula a anunciar o aumento do salário mínimo para 300 reais, o que corresponde a um aumento de cerca de 9,5%. Para cumprir a promessa eleitoral, o governo teria de esticar até aos 62,5%.
VAMOS ENTRAR EM CAMPANHA ELEITORAL. Por isso, aqui fica o conselho do Contos Licenciosos um blog brasileiro que, infelizmente, não é actualizado há um tempo:
Em épocas eleitorais sinto saudade do tempo em que "apelar para a ignorância" significava abandonar a discussão verbal e partir para as vias de fato. Hoje em dia a porrada é uma atitude muito mais inteligente do que o debate. Os ignorantes ganharam voz e cátedra, são muitos e não se cansam; "te pego na saída" é quase sempre a resposta mais sensata.
Dezembro 15, 2004
REVISTA DE BLOGS, 6. Problemas com a literatura: «Junior, dotado de um ou nenhum charme [...] mandou constantes bilhetinhos e flertes e emails para a Literatura, a moça mais alta da pequena cidade, não sendo, é claro, correspondido, da forma mais cruel e sem coração das coisas que não acontecem à humanidade, nem mesmo a Junior. [...] Junior não só obrigou Literatura a se casar com ele - drogada, em Las Vegas, com Gordo Elvis - como deixou ela por anos e anos dormindo no quartinho de empregada e a traindo inúmeras e confessas vezes. Junior, entre os amigos, ainda diria o quanto era apaixonado por Literatura, que era o motivo de sua vida, mas vez ou outra saía com garotas, muito especiais, com fome de tudo, fome de música, de sol, de brisa, de alegria, de amor, de vida e, vez ou outra, de empadinhas, e Junior abandonaria prontamente a Literatura para requentar croquetes e risoles e coxinhas para suas amadas famintas.» Ieda Marcondes, no Fabulosa e Inútil.
REVISTA DE BLOGS, 5. É a vida: «Se eu contar a oficina de redação que dei agora cedo, ninguém vai acreditar. Coisa de filme. Sabe aqueles filmes dos anos 70, as criancinhas meio bocós superando limites? Era isso, mas sem a parte da superação de limites. São os futuros médicos desse país, uns galalaus lindos de 17 anos, bronzeados, sarados, dirigindo caminhonetes maiores que minha cozinha (muito maiores) e eu juro por deus, eles não conseguem juntar duas frases que façam sentido. Ai caceta.» No Drops da Fal.
REVISTA DE BLOGS, 4. Mistérios do roque brasileiro, ou uma pequena homenagem à inocência perdida dos Kid Abelha (& os Abóboras Selvagens): «Tira essa bermuda, que eu quero você sério. Salvo engano meu, foi Rubem Braga que, ao ouvir essa música, perguntou como é que um sujeito sem bermuda podia parecer sério. Faz sentido. Nos anos 80, o conceito de seriedade transmitido pelo roque nacional era tão elástico que abrangia homens pelados da cintura para baixo -provavelmente de blusinha de marinheiro, à Pato Donald, ou camisa do Olaria- e o lirifmo tranfgreffivo daf letraf do Cafufa (é!). Ou seja, correspondia exatamente à cara do país. Ou, ou, ou, ou, nada mudou. (Pelo menos as letras permitiam variações interessantes do tipo "tira essa bermuda e faz cara de guitarra", como cantávamos no colégio. A time of innocence, a time of confidences. Long ago it must be.)» No Pura Goiaba.
REVISTA DE BLOGS, 3. Brinquedo novo: «Você decide que já é hora de ter um vibrador. Transpassada a emblemática barreira dos trinta anos, você já pode encarar com naturalidade essa vontade que lhe assalta há tempos. Afinal, é adulta, vacinada, independente e ninguém vai fuçar nas suas gavetas. Se você ainda não tem trinta e ainda assim resolveu satisfazer esse impulso, parabéns, você é inteligente, sabida e precoce para assuntos de vibrador. Se você está sem namorado, a hora é essa, já que não precisa se preocupar com o que o dito iria achar e, afinal, é a fase ideal para se divertir sozinha, já que tá difícil de se divertir acompanhada, né amiga? Se você está com namorado, mas ele é meio conservador, a hora também é essa porque namorado conservador ninguém merece e você deve estar precisando se divertir mais. Se você finalmente está com um namorado resolvido e depravado o suficiente para não só apoiar a compra, mas ter idéias ótimas para novas brincadeiras, a hora definitivamente é essa.» No Megeras Magérrimas.
REVISTA DE BLOGS, 2. Portugal no Brasil: «Pelo menos em Satolep onde a colonia portuguesa é grande, faz parte da tradição comer bacalhau. Eu como adoro esse bichinho fedorento e esturricado, aproveito a desculpa sempre. Certa vez fui visitar amigos no Paraná e eles encomendaram um bacalhau num restaurante de Maringá chamado Casa Portuguesa (alou pessoal de Maringá, vão lá ver se eu tô mentindo!). Eu comi meia tonelada e dei graças a deus por conhecer gente que me amasse tanto e conhecesse tão bons restaurantes. Meses mais tarde, fui acometida por uma vontade incontida de comer novamente aquele bacalhau. Quem diz que eu acho? Aquele bacalhau com natas, batata, cebola, aquela coisa cremosa e suave, com aquele gostinho... ah,sim, sim, sim, eu precisava desesperadamente de comer aquele bacalhau. Resolvi tentar fazer por conta própria, assim, a esmo, e ver se Nossa Senhora de Fátima me ajudava. E ajudou. Depois fiz a receita para D. Maria (portuguesa legítima, vizinha da Vó Nininha, que faz o melhor caldo verde do mundo) e ela disse que estava "perfeito, ó pá!"» No Megeras Magérrimas.
REVISTA DE BLOGS. Blogs e livros, 1: «Uma vez uma página de blog andava por uma floresta quando topou com uma página de livro. As duas se estranharam no começo, mas logo pintou um clima e a primeira perguntou: «- Quem é você?» E a outra: «- Eu sou você, amanhã.» Nota: esta parábola teve o patrocínio da vodka Orloff. E se você não se lembra do slogan não é porque não tem idade para isso - é porque bebeu demais.» Blogs e livros, 1: «Depois de atravessar oceanos e montanhas, de enfrentar tigres e tempestades, de passar, durante meses, sede, fome, frio e calor, o jornalista chegou finalmente à cabana do homem mais sábio do mundo.«- Mestre! Suplico que me ajude!» «-Pergunte qualquer coisa, e obterá a resposta.» O jornalista ajoelhou-se, perguntando com voz trêmula: «- Blog é literatura?» «- Ora, vá pra puta que pariu.» No Blog de Papel.
RUBEM. E É BEM FEITO. São 64 contos. Sessenta e quatro. E de Rubem Fonseca – escolhidos por ele próprio a partir dos seus livros. Acaba de sair. E é bem feito para todos nós ser ele o melhor contista de língua portuguesa.
Dezembro 14, 2004
REVISTA DE BLOGUES: «A coligação e o desejo: Interessante dinâmica evolutiva nos conservadores valores da direita. Primeiro o sexo e depois, talvez, o casamento.»
«Fome de bola: Esta noite, em Madrid, Figo, Ronaldo, Zidane e outras estrelas jogam contra a pobreza. Não se sabe quem alinhará pelo lado da pobreza, mas espera-se que se bata com galhardia.» No A Loira Não Gosta de Mim.
O MUNDO OCIDENTAL. BREVE PASSEIO SOBRE O DESCRÉDITO. O Superflumina dá conta de algumas parvoíces «politicamente correctas» mais recentes (uma equipa de hóquei que é excluída porque é superior às outras, a substituição australiana de «Happy Christmas» por «Happy Holidays», etc). A amostra é suficiente; aguardem, aguardem.
DIÁRIO DE FLORIPA. O que fazem uma paulista e um português em Florianópolis? O que quiserem. A Maura Paoletti e o Jorge (que enfrentam os dissabores da burocracia luso-basileira, e que muito podem contar sobre ela) casaram naquela doçura da ilha de Santa Catarina. Agora e sempre -- foi há quase um mês, de resto. As boas notícias devem guardar-se durante um tempo, para que o mundo não se surpreenda. Mas o Diário de Lisboa ainda não é o Diário de Floripa.
MA-SCHAMBA. O José Flávio consegue aquilo que era inimaginável: manter um blog português assente em Moçambique. Invejo-o bastante e já falámos nisso, precisamente no Maputo. O Ma-Schamba já cumpriu um ano de vida; não é uma proeza, para quem conhece o José Flávio. Ele prova que, às vezes, só se pode mesmo ser assim fora de Portugal. Acrescentaria muito mais: que conhece Moçambique como poucos e que o facto de estar longe da ditosa Pátria (que também já representou com muito proveito para todos nós) lhe favorece as fúrias e lhe permite uma certa tranquilidade. Desalinhado como é, como foi e como, provavelmente, será, o Ma-Schamba já entrou nas nossas leituras, faz parte do nosso mapa.
E HÁ MAIS. Não percebo como a Lei da Blasfémia pode proibir a repetição de imagens como as que se viram em Londres por altura da fatwa, onde, ao lado do Speaker's Corner, havia ilustres membros de comunidades religiosas a queimar livros. Não há imagem mais absurda: estar ao lado do Speaker's Corner a queimar livros. E haver uma polícia para defender a liberdade dos cavalheiros que queimam livros à luz do dia, em Londres.
BLASFÉMIA. Vital Moreira comenta no Causa Nossa a questão da lei da blasfémia. Repito o que escrevi há cerca de duas semanas sobre o assunto:
«A ideia de uma lei anti-blasfémia, proposta pelo ministro holandês da justiça, Piet Hein Donner, é apenas mais um começo e mais um (péssimo) sinal. Imaginemos uma lei dessa natureza e uma comissão estatal encarregada de avaliar as «blasfémias». Ou, pior, uma comissão inter-religiosa. Ou, ainda pior, uma comissão religiosa. Havia de ser bonito, havia.»Vital Moreira coloca o problema a partir de um outro ângulo: os direitos dos não-crentes. A ideia é justíssima, e compreende-se bem o ponto de vista de VM, mas acho que seria bom que a discussão não chegasse a esse ponto. Pobres dos europeus se se põem a discutir a ideia de blasfémia, como se não tivesse chegado tudo o que aconteceu antes do século XIX. Bastaria, claro, aquilo que é mais raro nestes momentos, o bom senso que parece estar a faltar tanto na Holanda, como na Inglaterra e na Alemanha (que ponderou, e não sei se mantém a proposta, de um «feriado islâmico» para «compensar» os «feriados cristãos»). A ideia, toda a gente percebe, é a de tentar acalmar o monstro com a estratégia habitual: não enfureçamos o monstro para que o monstro não nos ataque ou incomode. A Europa abdicaria, assim, da ideia de liberdade de expressão em nome de uma covardia -- nomeadamente a covardia do Estado que se mostra incapaz de defender a liberdade dos cidadãos. O primeiro e mais desagradável erro vem da própria designação por que está a ser conhecida a tentativa de legislar sobre isso: «Lei da blasfémia». Esse anacronismo civilizacional dá bem ideia da rendição de que a Europa é capaz, não em nome do pluralismo mas da efectiva perseguição à liberdade de expressão.
P.S. - A propósito dos Versículos Satânicos, que VM também cita sobre a matéria, seria bom reler o que se escreveu na imprensa europeia na altura em que o ayatollah iraniano decretou a fatwa. Já aqui citei a opinião de John Le Carré. Na verdade, a fatwa de Khomeiny só passou a ser realmente insuportável a partir do momento em que os europeus acharam que ela era discutível como matéria intelectual. Ou seja, que podia não ser considerada do domínio do absurdo. Ela foi um sinal evidente. Ansbury Park veio logo a seguir.
FUSOS. Caríssimo Marujo: neste momento, o Brasil tem três fusos horários. O que para a digníssima e minha diária Folha são oito da manhã, são para mim apenas (ou ainda) sete. Desraçados que estão no Acre, por exemplo, encostados à Serra de Contamana, que têm uma hora a mais para saber o resultado dos jogos...
P.S. - Ah, cacheados...
Dezembro 13, 2004
FICAR TUDO NA MESMA. Caro Manuel: o problema, que fique bem claro, não é o receio pela investigação; é, como sabe, o zunzum que se seguirá quando se perceber que algumas das acusações podem não ter pernas para os cem metros obstáculos. Isso, sim, eu temo. Imaginemos que um telefonema, um simples telefonema, do sr. x para o sr. y (tudo gente obscura, naturalmente...), se dilui numa conversa sobre banalidades...
REVISTA DE BLOGUES: «A futebolização da vida política é um facto. Sampaio, há cinco meses, era um "presidente sério e ponderado", agora é um "banana excitado". Lendo alguns blogues, em revista por aí, é o que se conclui. A futebolização exprime-se não na crítica, mas nas desconsiderações de carácter pessoal bem como no processo de intenções ( quem não se lembra de um certo presidente de clube que até sabia o que o fiscal de linha X comia ao pequeno almoço e que daí deduzia um sem número de corolários?). Ou seja, se me favoreces ou aos meus, portaste-te bem; se não, és um vendido, ou na melhor das hipóteses, um chalupa. Confesso que esta infecção me preocupa.» FNV, no Mar Salgado.
DEVE DE. UM ESCLARECIMENTO. O excelente Abel Barros Baptista esclarece as dúvidas sobre a expressão «deve de», usada ultimamente por um detentor de cargo público demissionário:
«O "deve de" carece de contexto para ser condenado. "Às súplicas e às mágoas/ Tua alma de mulher deve de palpitar." (Machado de Assis, Poesias Completas) Explica o Aurélio: «Seguido da preposição 'de' e de um verbo no infinitivo, indica probabilidade, suposição.» E o Pessoa, na «Defesa e Ilustração da Língua Portuguesa», esclarece que o verbo «dever» tem dois sentidos, o de obrigação e o de probabilidade. Curiosamente, o exemplo que oferece é rigorosamente oposto ao sentido do Aurélio (A Língua Portuguesa, Assírio & Alvim, pp. 61-62). Mas aconselha a supressão da preposição em caso de dúvida.»Aí está como se deve ter cuidado com a língua. Obrigado, Abel.
SABRINA SATO (TRABALHOS DO CORRESPONDENTE NO BRASIL). A edição deste mês (oh, arcanjos do pudor!) da Playboy brasileira é mais oriental, muito nissei, e não faz esquecer Luiza Thomé, como se sabe. Sabrina Sato pode encher de despeito e furor as ruas do Bairro Liberdade, em São Paulo (ah, sim, ao contrário de Mel Lisboa, que frequentava os sebos -- alfarrabistas -- do Flamengo), mas a heroína do «Pânico na TV» não deixa de ter os seus admiradores. Tutty Vasquez bem pode repetir o que dizia de Juliana Paes: é curta de tronco. Dapieve bem prega que ela é repeteca e que isso lhe provoca uma afasia erótica: «A alourada Sabrina, portanto, é o próprio imaginário japa.» Desventuras de uma japonesa nos trópicos.
CONTRA A CORRENTE. Olhá lá, ó Carlos: que tenhas mudado o template não acho mal (podes incluir o meu voto nos sins, a propósito, mas está a custar a habituar-me), mas, sinceramente, não precisavas de ser tão simpático.
Dezembro 12, 2004
AS ESCOLHAS DO ANO. Só passaria pela cabeça da medíocre Isto É: José Dirceu é considerado o brasileiro do ano na capa da revista.
VIRGENS MARIAS. Leio em alguns blogs notas de espanto moral e político sobre a demissão do governo; parecem-me desnecessários e muito atribulados na sua argumentação. Poucos a tinham previsto, naturalmente, mas não é uma decisão despropositada. Até acho que não é de levar a mal.
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Ao intervalo, a ESPN Brasil fez o favor de passar um resumo do FC Porto-Chelsea, o que soube bem, mas os comentadores do SportTV2, que transmitiu o Once Caldas-FC Porto, foram excelentes: parciais e entusiásticos, defenderam o seu time. Que era o FC Porto, naturalmente. Mesmo de madrugada -- aqui eram sete da manhã. Depois, quando Pedro Emanuel rematou, foi uma espécie de alívio. Eu sei que não é justo, mas nada me deu mais prazer, naquele instante, do que o ar martirizado do guarda-redes colombiano. São coisas do futebol. Sei que não é uma novidade no nosso currículo, mas, enfim: somos, de novo, campeões do mundo. Deixem-me escrever outra vez: campeões do mundo.
ADENDA. Vendo os títulos da imprensa portuguesa online, reparo no provincianismo de sinal contrário, que contrasta com a brasileira, a inglesa, a italiana e até, oh! pasme-se, a francesa: em quase todo o lugar, o FC Porto é anunciado como o campeão do mundo, excepto na pobrezinha representação portuguesa. Ah, se fosse outro clube qualquer...
Dezembro 11, 2004
O CANTINHO DO HOOLIGAN (MUITO RAPIDAMENTE). Sim, o país rejubila com a inclusão de Pinto da Costa no rol dos arguidos do Apito Dourado. Nada contra. Mas há uma coisa que me inquieta e, suponho eu, com alguma razão: dada a natureza das acusações (das que já são conhecidas e circulam na roda-vivas da imprensa), temo bastante que a coisa vá parecer ridícula daqui a uns meses. E que tudo fique na mesma.
SAMPAIO. [Actualizado] Eu sabia que seria assim. À hora a que eu atravessava o Atlântico, Sampaio falou -- só li o discurso agora. Que pena. Imagino a figura de um homem que tem dificuldade em justificar a sua própria sombra. Não se trata de indecisão, clareza: trata-se de Jorge Sampaio. Não foi mau. Não foi espantoso. Lá foi. Quod erat demonstrandum.
Adenda: Escrevi há três dias: "Para um liberal à moda antiga a estabilidade não é um valor absoluto e é preferível haver clarificação do que este ressentimento flutuante. Não que elas não sejam imprescindíveis, mas Sampaio errará se não explicar com clareza, ao menos desta vez, por que precisamos de eleições. Nem precisa de pôr o dedinho esticado, professoral. Bastam meia dúzia de frases." Acho que Sampaio perdeu uma oportunidade de ser claro, embora se percebesse bastante bem o que queria dizer. O que é uma pena, porque nestas circunstâncias não estamos em condições de ir à procura da metáfora do Presidente, mas de saber por ele o que o levou a agir como agiu, independentemente da nossa opinião. Por isso me parece tão natural que o governo corra para a frente e aproveite a onda. Acho que nem toda a gente percebeu que o discurso de Sampaio abriu as portas aos fantasmas que aí vêm.
Dezembro 10, 2004
PEDRO MEXIA. «Já podes. Nessa sala escura/ quase se confundia o negrume/ os contornos a respiração,/ o corpo contra os móveis./ Um movimento aquático,/ sem relógios/ risos abafados,/ comunidade invisível/ o fegante,/ na fronteira da infância./ Este jogo, há muitos anos./ Não me encontraram/ e eu não encontrei ninguém.»
Pedro Mexia, Vida Oculta (Relógio d'Água)
PEDRO CANAIS. Um romance histórico nem parece coisa destes dias, mas Pedro Canais consegue escrever um, de 600 páginas: A Lenda de Martim Regos (Oficina do Livro). Muito bom.
PARTIR (A NOITE O QUE É?). O nómada é aquele que não tem casa ou aquele que está cansado de andar, de madrugada, por estradas que levam a lugares onde nunca fica mais do que um dia, ou nem isso? Os amigos estão com gripe faringites, tonturas; ouvem-se vozes ao telefone, a qualquer hora do dia. Tenho livros no porta-bagagens do carro, jornais espalhados, telefonemas por fazer. É isso, um nómada?
LUZES, 2. As de Hannukah, no entanto, acendem-se durante estes dias. Às vezes é bom reconhecer o milagre da sorte, o milagre que acontece por acaso. Inscrito na ordem das coisas. Sem razão.
LUZES. Coisa extraordinária. Aviz, a vila, tem umas iluminações natalícias dependuradas no edifício da Câmara. De resto, só uma luz a brilhar no castelo, bem lá no alto: uma estrela de David. Seis pontas. Intermitente.
DEVE DE, 2. Escreve a Joana, por email:
«Sou leitora do seu Blog e, fã do "cantinho do hooligan"! (até me admira que "ele" hoje não tenha escrito...). Não me lembro de ter ouvido ou lido um tal espanto perante essa expressão que promete cristalizar-se nos nossos usos e costumes. Ainda bem que o ouvi hoje. Eu propria senti um arrepio de horror quando a ouvi no parlamento da boca do Primeiro-ministro. Que mais faltará? Ah... é verdade! Já fui corrigida, por gente bem falante, quando disse o simples, normal e pacífico "como deve ser".»Escreve também o Júlio Lopes da Costa:
«Deixe-os dar pontapés na gramática, saltar por cima da ortografia toda. Eles são assim. Eu fiquei perplexo, sim, mas não acho que tenha especiais razões para isso uma vez que as meninas da RTP, aquelas repórteres sem qualificação, dizem coisas extraordinárias e ninguém as ensina a conjugar verbos e pôr os complementos directos no sítio. Portanto deixe-os andar à solta que ninguém se importa. Eu sei, até, que o "deve de" não tem importância nenhuma, eu sei; a minha mulher diz-me que é da bílis, mas estes senhores irritam-me. Tenho saudades de um primeiro-ministro capaz, é verdade, mas também gostava que ele lesse qualquer coisa para além da "Tv Guia".»
DESERÇÃO. Escreve a Maria Perry, por mail:
«Eu não concordo com o Francisco que Durão tenha desertado. Ele seguiu a vida dele, depois de ter feito um bom trabalho para o país. Fala-se muita da herança pesada que ele deixou, mas afinal que herança pesada é esta? Santana Lopes? Mas este tem apoio de quase todo o conselho nacional do PSD! O grande problema, que se revela agora, é que o PSD é um partido inerte e sem brio, que não vai à luta e não se importa de perder as eleições porque os seus membros estão mais preocupados com as suas vidinhas do que com o futuro do país. Não tem nada a haver (é haver ou ver?) com a falta de tempo, serem vítimas da conjuntura, etc. A "lealdade" ao chefe aqui é uma enorme deslealdade ao eleitorado, porque não nos oferece uma alternativa viável. Mas as pessoas insistem em culpar Durão Barroso por tudo em vez de denunciar a mediocridade existente no PSD. (Já parece aquela história da pesada herança do colonialismo, 30 anos depois ainda serve de justificação.) O PSD vai conhecer a maior derrota de sempre porque só assim é que há esperança de nos livrarmos de Santana. E se o PS souber governar, então dificilmente o PSD voltará ao poder porque agora perdeu o nosso voto de confiança. Está escrito nas estrelas...»
Dezembro 08, 2004
DEVE DE. Na televisão vejo os acordes finais da discussão sobre o Orçamento, no parlamento. E ouço alguém a sustentar, do alto da tribuna, que qualquer coisa «deve de ser». «...deve de ser»? Já nada surpreende.
E AINDA HÁ TEMPO? José Pacheco Pereira terá razão:
«É muito simples perceber a diferença entre lógicas pessoais e partidárias e o interesse nacional. Aqueles que esperam (mais do que isso,desejam) que Santana Lopes concorra a eleições, as perca e depois, vulnerável, possa perder o partido, seguem uma estrita lógica pessoal e de grupo partidário. A esses pouco importa que Sócrates e o PS possam governar quatro anos, ou que Santana Lopes ferido possa arrastar o PSD para uma vendetta colectiva. Quem pensa na situação nacional tem urgência.»Mas não lhe vale de nada. Não há tempo. A tragédia (lê-se nos clássicos, vê-se em Shakespeare), a partir de certa altura, adquire uma velocidade que não pode ser travada; nessas circunstâncias, nenhum autor sério chamou os deuses para intervir. As coisas limitaram-se a acontecer como estava escrito nas estrelas.
AINDA A QUESTÃO DO LIBERAL À MODA ANTIGA E, PORTANTO, DA IDEIA DE CONSULTAR O POVO QUANDO NÃO HÁ MESMO OUTRO REMÉDIO. Pois, de facto há essa questão acerca da promessa, do promitente e do compromisso. E do promissor que prometeu e nos comprometeu a todos. A verdade é que isto ainda agora começou, Caro Filipe. Primeiro, Durão Barroso esteve a salvo na sua caminhada europeia; por razões puramente estratégicas, evidentemente; não convinha, por vários motivos, tratar de desertor um homem que tinha desertado de facto. Segundo, o Presidente estava a salvo no seu novelo de interpretações sobre a vontade de povo; por razões puramente estratégicas, evidentemente; não convinha molestar um homem que ia entregar o poder ao novo promitente, apesar de estar a fazer um favor claríssimo à esquerda, esperando que ela se recompusesse e aparecesse; terceiro, Cavaco Silva estava a salvo da sanha desertificadora do novo promitente, por razões puramente estratégicas, evidentemente; não convinha atrapalhar o caminho ao patriarca.
Todas estas coisas se desmoronam: Durão Barroso declara em Bruxelas que não tem nada a ver com a cacofonia que deixou em Lisboa, o que é uma hipocrisia lamentável num homem que sonhava regressar à Pátria para ser presidente (nem pense). O presidente, por motivos certamente inacessíveis, mas não despropositados, cansou-se do novo promitente e achou que tinha chegado a hora de dizer uma coisa que fosse. Cavaco? Ah, Cavaco apenas disse que não queria ter nada a ver com os pantomineiros -- e não tem -- o que lhe valeu admoestações daqueles pobres espíritos que não compreendem que o que está em causa não são fundos para as autarquias, nomeações para as direcções-gerais e rapaziada nos ministérios; que isso é o menos.
SENDO ASSIM. Por motivos sérios -- nomadismo, vício, etc. -- entro num cybercafé. Cavalheiros circunspectos lêem o correio electrónico, duas adolescentes teclam no MSN, rapazes combatem em jogos online, um blogger ali ao fundo. Os rapazes excitam-se com os jogos de guerra e a agudização do combate, e desatam numa onda de palavrões. O meu dicionário, que é razoável, enriquece-se, sobretudo porque eles falam alto. Ao fim de meia-hora levanto-me e vou fumar um cigarro; aproveito para perguntar ao encarregado da loja se não pode dizer àqueles palermas para falarem mais baixo. Ele responde-me que é um espaço público. Eu digo-lhe que sei o que é um espaço público mas que gritar que «foda-se lá a gaja, maizó caralho» não me parece um exemplo acertado. Ele promete fazer qualquer coisa e eu vou à porta, que dá para a rua, fumar um cigarro. Um pai leva as duas filhas (sete, oito, nove anos?) ao cybercafé e ouve a conversa. Parece-me que ficou apreensivo e olha lá para dentro, mas o rapaz da loja murmura qualquer coisa sobre «pessoas que não compreendem o que é um espaço público» nem o espírito rebelde dos adolescentes que de vez em quando gritam foda-se. O pai olha para mim, e, apesar do meu ar perplexo, vejo que acaba por concordar com o energúmeno: claro, é preciso perceber isso, os miúdos diante do computador dizem sempre um caralho de vez em quando, pá, isto é assim mesmo, não tem mal nenhum, foda-se. Sinto-me um reaccionário num cybercafé de bairro de classe média. A classe da classe média já mudou, foda-se. Melhor, a tolerância e a pedagogia foderam-na. Estamos fodidos. Desculpem lá.
Dezembro 06, 2004
SAIR (A NOITE O QUE É?). A tentação de sair é grande. Não, não é sair da blogosfera. É mais andar pela praia, que é uma coisa acessível, fácil, deixar pegadas para a poeira varrer logo depois.
MÁRIO CLÁUDIO. O romance de Mário Cláudio, Gémeos (Dom Quixote) é uma viagem alucinante sobre como se pode entrar num quadro e viver dentro dele. A sua melancolia toca a amargura, como um texto clássico, difícil, maduro, sem ceder numa única página à tentação de explicar a forma como chegou até aí.
INSTABILIDADE. Paulo, peço desculpa pela insistência, mas há aí um problema, que é o da indeterminação da própria vida. Dito assim há-de parecer estranho, mas é simples: as eleições não são marcadas para conseguir maiorias absolutas; a propósito desses receios vindos dos sectores soaristas, convinha relembrar o debate sobre as maiorias, aliás, no tempo de Cavaco -- quando as maiorias eram consideradas inimigas do regime demcrático. Ora, o presidente não pode marcar eleições tendo em conta a sua intuição sobre qual vai ser a vontade do eleitorado; tal como não pode evitá-las só por suspeitar que o eleitorado não vai dar maioria absoluta a nenhum partido. Eu compreendo que a dissolução «teria sido mais adequada no momento em que potenciasse a emergência de um quadro de estabilidade governativa e parlamentar». Ora, isso pode dar origem a impasses fatais. A ideia defendida por Mário Mesquita vem no sentido que o Paulo defende (e, valha a verdade, tem defendido), eu sei, mas daria origem a raciocínios muito criticáveis -- por exemplo, pedir que o Presidente esperasse pela realização das Novas Fronteiras, ou que Santana reúna a sua «equipa ideal» (como, perversamente, pedia Ângelo Correia, e olha quem).
É claro que a discussão ainda agora começou. Por exemplo: existe a hipótese de Santana Lopes ludibriar todas as previsões da imprensa e obter maioria.
Dezembro 05, 2004
UMA VEZ POR OUTRA. Claro que sim. Mas não me lembro de ver ninguém, há quatro meses, a dizer que a decisão de não convocar eleições favorecia a esquerda (julgo que o FNV e eu falámos do assunto), o que valeu algumas piadas. Portanto, agora que vejo a ideia repetida por aí, não me importo de dizer: sim, uma vez por outra gosto de ter razão. Depois de ler a entrevista de Durão na revista do Expresso, é que não posso deixar de dizer que, à distância, tudo isto tem um sabor perverso: José Manuel Barroso lixou tudo, evidentemente, também para destruir a carreirinha de Santana Lopes.
UMA VEZ POR OUTRA. Claro que sim. Mas não me lembro de ver ninguém, há quatro meses, a dizer que a decisão de não convocar eleições favorecia a esquerda (julgo que o FNV e eu falámos do assunto), o que valeu algumas piadas. Portanto, agora que vejo a ideia repetida por aí, não me importo de dizer: sim, uma vez por outra gosto de ter razão. Depois de ler a entrevista de Durão na revista do Expresso, é que não posso deixar de dizer que, à distância, tudo isto tem um sabor perverso: José Manuel Barroso lixou tudo, evidentemente, também para destruir a carreirinha de Santana Lopes.
ÉVORA. Tudo, às mesas Fialho, estava bem -- sob o comando do magnífico anfitrião (não menciono a ementa, mas acredito que podemos contar com boas fugas de informação). Foi, enfim, uma verdadeira convenção liberal.
POR ESTA NÃO SE ESPERAVA, COITADA DA AL-JAZEERA. O Tehran Times acaba de informar o seu estimado público: a Al-Jazeera é criação da multinacional sionista. Cito:
«Of course, the Zionists were not pleased at the idea because they believe that increased proximity between the Islamic world and the West is not in their interests. And that is why they founded the Al-Jazeera network to tarnish the image of true Islam.»
Dezembro 02, 2004
UM LIBERAL À MODA ANTIGA. Ontem, Paulo Portas começou a pedir contas aos que tinham criticado a coligação e o governo. Eles deverão assumir as suas responsabilidades sobre uma eventual derrota da direita nas próximas eleeições. O que me lembra as conversas deste Verão com FNV, evidentemente. Como o Filipe Nunes Vicente e eu não deixámos de notar, a decisão de Sampaio em pleno Verão «obrigaria a dar a palavra ao povo». Essa seria a decisão de um liberal à moda antiga. Com atraso, fragilizados por quatro meses de gerrilha, os portugueses vão a votos. Vão reparar (impossível, impossível...) a asneira deixada por Durão Barroso, a quem não se poderá perdoar tão cedo.
LIBERDADE DE IMPRENSA. José Mourinho tinha pedido que os tribunais retirassem do mercado o livro de Joel Neto (José Mourinho. O Vencedor, publicado pela Dom Quixote). É uma velha mania. Hoje de manhã, o tribunal decide não apenas a favor de Joel Neto como, além do mais, passa um raspanete ao treinador do Chelsea. Alguém com bom-senso.
Dezembro 01, 2004
A VIDA COM NÓDOAS. O Carlos escreve: «Ao contrário de muitos, não me sinto contente. Ao contrário de outros, não me sinto triste.» É exactamente isso. «E a vida é feita de nódoas.» Nem mais. A questão é que uma nódoa do «nosso lado» é mais triste. Um resto de decência devia ter tocado grande parte dos nossos amigos, antes de se porem a calcular perdas e ganhos. A principal perda é a da decência de governar, e isso estava garantido há pouco mais de quatro meses. Nós éramos os derrotados antes da derrota de Santana.
DELÍRIO NOS ARES. Compreendo a loucura que toma conta de certas pessoas, em determinadas circunstâncias. Por exemplo, um comissário de bordo da TAP, farto de passageiros, que começou ontem a apregoar, enquanto empurrava o carrinho de duty free: «Chá, café, laranjada! Chocolate, línguas-de-sogra, vendas a bordo!»
LIÇÃO ESTUDADA. O C.Loureiro, no Blasfémias nota um interessante cenário: tanto o PSD como o PS estão a «estudar os dossiers» e a preparar-se para eleições. O que prova a inanidade em que ambos estavam até agora?
ELEIÇÕES, AFINAL. Caro Paulo: quod erat demonstrandum.
Novembro 30, 2004
OS COMPAGNONS DE ROUTE E O DESERTO À VOLTA. Há muito tempo que a esquerda não admirava desta maneira (e durante tanto tempo) tanta gente de direita. Compreende-se, embora Freitas do Amaral deixasse de ser importante há muito tempo, para qualquer dos lados. Agora, é o ataque a Cavaco, convidado para «o jantar». Esta operação tem um inspirador e armador: Mário Soares. O «gajo», Cavaco, agora é útil. Por isso é tão irritante essa conversa mole, barata, sobre a «magistratura de influência», os «senadores da República», as «velhas glórias». Diante do vazio do deserto (apregoado e criado por Soares), até as ruínas parecem brilhar com um esplendor raro. A doutrina, basicamente, assenta sobre o ressentimento diante dos «tempos modernos» e não há que negar-lhe uma certa razão, vista a mediocridade actual, o nível baixo por que se alinha a rapaziada. Mas, lá atrás, não consegue esconder a sua tentação: conquistar um lugar na eternidade. Uma estátua vê-se mais claramente no meio do deserto.
ELEIÇÕES, TALVEZ, 2. E mais: se o presidente convocar eleições apenas nessas circunstâncias, saltará à vista a jogatana preparatória que conduziu a essa decisão. Ou seja, que se andou a perder tempo para beneficiar um dos lados do tabuleiro. Os eleitores compreendem a natureza da realpolitik, mas também percebem quando fazem deles gato-sapato e quem foi beneficiado com a batota. Isto aconteceu exactamente antes da queda de Guterres, quando Durão Barroso não se decidia a pedir eleições antecipadas ou a chumbar o orçamento, posições incompreensíveis se tivermos em conta a natureza do seu discurso de então. Sócrates, percebe-se, não quer eleições já -- mas pede o fim do governo. Não sei como se há-de conciliar uma coisa com a outra.
ELEIÇÕES, TALVEZ NÃO. Caro Paulo Gorjão: compreendo este argumento e os outros que enumera acerca da hipótese de eleições antecipadas, nomeadamente quando escreve: «Duvido que Jorge Sampaio queira dissolver de imediato o Parlamento. Do seu ponto de vista e da perspectiva do PS não há nenhuma urgência em derrubar Santana Lopes.» E também compreendo este princípio geral: «Não é apenas o PS (ou parte dele) que não deseja -- ainda -- eleições antecipadas. Há também uma parte significativa do PSD que não tem pressa e que deseja que o Governo bata bem fundo.» A questão é que é exactamente isso que me preocupa. Porque foi ponderando razões semelhantes que o presidente não convocou eleições quando as devia ter convocado. O problema é que, com toda a probabilidade, Santana teria ganho a Ferro, eu sei.
O que me preocupa é que seja necessário esperar pela realização das Novas Fronteiras, ou da reorganização do PCP, ou do congresso do BE, ou de uma candidatura contra Santana Lopes dentro do PSD, para decidir se convoca ou não eleições. Esse argumento é tão «bom» como o que diz que não deve haver eleições porque a execução orçamental ficava em águas duodecimais. Compreendo a natureza prática e estratégica desses argumentos. Que só provam (também) que Jorge Sampaio, quando decide uma coisa, decide também o seu contrário.
AL-MANAR EM FRANÇA, PARTE TRÊS. A Radio France Internationale fala sobre o mesmo assunto:
Hier, François Hollande, le premier secrétaire du parti socialiste, a écrit au CSA pour lui demander les raisons qui l’ont conduit à autoriser cette chaîne qui : «diffuse en boucle durant des heures des clips incitant les enfants à la haine et au martyre». [...] Dans certains épisodes diffusés pendant le Ramadan 2003, on pouvait voir un rabbin faire égorger un enfant chrétien afin de fabriquer du pain azyme confectionné à partir de son sang. La cassette est vite arrivée sur le bureau du Premier ministre Jean-Pierre Raffarin et le CSA a alors demandé au Conseil d’Etat de se prononcer afin d’empêcher Eutelsat, société française, de distribuer la chaîne sur l’Europe. Seulement voilà, après plusieurs mois d’instruction, le Conseil d’Etat a jugé que le seul moyen de contrôler la chaîne, c’était paradoxalement de la faire conventionner par le CSA. Cela permettra demain à Al Manar d’être distribuée sur le câble, Canalsatellite ou TPS. [...] Mohammed Haïda, président d’Al Manar, a affirmé au Figaro qu’il ne prévoyait pas de modifications substantielles de ses programmes.
AL-MANAR EM FRANÇA, PARTE DOIS. É o artigo de Sylvain Attal no Liberation: «Bienvenue sur Al-Manar, chaîne judéophobe». Uma passagem:
La chaîne de télévision libanaise du Hezbollah était déjà accessible via le satellite Arabsat. Elle sera bientôt disponible sur les opérateurs câble et satellite tels que CanalSatellite ou TPS, au même titre (par exemple) que LCI, Planète ou Pink TV. A moins qu'elle ne soit proposée gratuitement...
Le CSA l'a voulu. En effet, en échange d'un engagement de pure forme et dont la réalité de l'exécution sera de facto invérifiable, Al-Manar, qui avait tant choqué le gouvernement français pour avoir diffusé, lors du ramadan 2003, le feuilleton antisémite Al-Shatat («Diaspora»), inspiré des Protocoles des sages de Sion, se voit intronisé dans notre paysage audiovisuel national. Les leçons à tirer de ce revirement sont multiples. La première est qu'il s'agit d'une nouvelle mesure d'apaisement en direction des promoteurs du terrorisme, qu'il s'agisse d'enlèvements ou d'opérations-suicides. [...] Contentons-nous de constater le sort de nos otages depuis que la France a mis à profit ses «bonnes relations avec le monde arabe», y compris avec des mouvements comme le Hezbollah, que Paris s'obstine à ne considérer que comme un «mouvement politique et spirituel disposant de députés au Parlement libanais». Le Hezbollah est tout cela, mais c'est aujourd'hui surtout une organisation dont, notamment à travers sa chaîne de télévision, le fonds de commerce est l'apologie des opérations-suicides contre les civils israéliens, considérés comme des combattants. «Le mérite [de ces opérations] est de nous redonner espoir, disait le 8 avril 2004 sur Al-Manar, l'un des principaux dirigeants des Frères musulmans. Une nation qui n'excelle pas dans l'industrie de la mort ne mérite pas de vivre.»
Todo o texto aqui.
Novembro 29, 2004
BRASIL. Há uma lógica perversa nisto tudo: Lula ganha eleições pela esquerda, com promessas de virar o país do avesso e de fazer reformas amplamente prometidas pela propaganda eleitoral do PT. Não fez nada disso. O novo governo, além de prolongar e alargar o poder do ministro Palocci, retira autoridade a Dirceu e consubstancia uma aliança com Sarney e o pior do PMDB e antigos apoiantes de Collor. Por um lado, a direita devia acusá-lo de demagogia pura e simples (e, a Palocci, processá-lo por apropriação indevida e abusiva do programa do PSDB e do governo de FHC); mas por outro lado (ou: por este caminho), é provável que Lula não seja reeleito em 2006.
ELEIÇÕES. O Paulo Gorjão constrói um cenário para a não realização de eleições. A questão, no entanto, parece-me simples: erradamente, o presidente da República não convocou eleições antecipadas quando o deveria ter feito (continuo a dizer que isso beneficiou o PS). Provou-se que o governo de Santana Lopes não é o governo dos que votaram PSD e elegeram Durão Barroso (como, aliás, algumas almas escreveram logo). Neste momento, o governo não tem -- sem desculpas adicionais -- margem de manobra para falar de estabilidade; o «caso Henrique Chaves» não se enquadra no retrato de uma demissão pura e simples; pelo contrário, é o culminar de um processo de «desmoralização» e de perdas sucessivas de autoridade por parte do próprio governo.
Novembro 26, 2004
MADRUGAR. Não. Acordar às seis e meia da manhã, ver o resto da lua em cima do Douro, a Foz ali ao lado, um frio dos diabos -- é bom; o meu médico diria que era saudável, que um pequeno-almoço a sério é fundamental (ah!, estas frases...) e que só se deve fumar o primeiro cigarro lá pelas onze. Mas também não é bom. Nada bom.
Novembro 25, 2004
NUNO JÚDICE. «Foi nisto que acreditei durante alguns anos em que a questão da morte me pareceu fazer parte dos problemas que apenas atormentam a burguesia, que os inventa para alienar os explorados da sua realidade, e da necessidade de romper as cadeias da opressão. Foi isto que aprendi na leitura de Politzer; e só mais tarde descobri que o conceito de alienação, afinal, era um falso instrumento que a leitura dos manuscritos de Marx, de mil oitocentos e quarenta e quatro, desmascarou por completo. Afinal, Marx também tivera a sua fase idealista, e esse idealismo não era incompatível com a Revolução que o Manifesto Comunista de quarenta e sete vinha propor. Podia, por isso, pôr de parte todos os pormenores de uma realidade que envolvia o meu tio-bisavô, o criminoso José Cravo, Marta, que se chamava Júlia, o patrão, a explicadora de francês, a noiva, enfim, todos os protagonistas de um conflito que pouco mais é do que uma gota de água no vasto pano de fundo em que proletariado, campesinato e burguesia se afrontavam no campo de batalha da luta de classes.»
Nuno Júdice, O Anjo da Tempestade. (Dom Quixote)
ESCLARECIMENTO. Meu caro Carlos: espero que no próximo dia 5 estas coisas, e estas, e estas ainda, sejam devidamente esclarecidas. E logo nas entradas.
ORGÂNICOS, 2. Continua a escrever-se sobre «a questão Pedro Mexia» e o seu artigo no DN. Ora, não faltava mais nada que se exigisse ao Pedro, ou a quem for, algum tipo de «lealdade orgânica» (os termos são adaptados do texto do José Bourbon Ribeiro no O Acidental) que se possa confundir com «defender a asneira até à inanição». O mal não é exclusivo da direita, longe disso -- e os principais exemplos até vêm da esquerda, com a histórica «lealdade orgânica» dos intelectuais ao comunismo e a outras «frentes de combate». Simplesmente, os orgânicos de que muitas vezes se rodeia nunca são grande exemplos. Era bom que, de vez em quando -- sem exageros, evidentemente, não convém dar muita trela a intelectuais -- olhasse sem «preocupações orgânicas» para os textos e os combates de gente como o Pedro Mexia. A menos que os sacerdotes só leiam os Actos dos Apóstolos, evidentemente.
O ESTADO ESCLARECIDO, 2. Escrevi outro dia: «O ministro Henrique Chaves recebeu uma delegação de um clube de futebol que foi queixar-se das arbitragens [...]» Parece que, afinal, o ministro se recusou a ver o DVD de queixas que a delegação futebolística lhe levava. Isso é bom. Só que, à saída da audiência ministerial, a delegação mencionara que tinha falado das arbitragens com o ministro. Portanto, mentiu descaradamente à frente do ministério. Há gente com quem não convém o sr. ministro meter-se.
Juan Rulfo
DO USO DAS METÁFORAS, 2. O Seta Despedida está (na sua Comunidade de Leitores) a fazer a leitura de um livro fundador, Pedro Páramo, de Juan Rulfo: «Quanto mais nos envolvemos numa obra, mais angústia sentimos. Começamos a interpretar, e isso é uma atitude defensiva que pouco tem a ver com o prazer. Seguiu-se alguma polémica mais ou menos apaixonada, com outras pessoas a defenderem entusiasticamente a possibilidade do prazer intelectual. E, lá para o fim da reunião, houve mesmo alguém, inequívoco leitor voraz, que sentiu a necessidade urgente de confessar que em toda a vida só tinha conseguido retirar prazer da leitura de dois livros.» Acontece que Pedro Páramo não pode ser lido do ponto de vista dos modelos de interpretação ocidentais. Nem se pode discutir se aqueles mortos estão mortos ou se os mortos são metáforas, estando lá em vez de outra coisa qualquer. Acontece que aqueles mortos estão mortos. Quando se diz que os anjos cantam queremos dizer que eles, de facto, estão a cantar. É um ruído assustador, o de certos livros.
DO USO DAS METÁFORAS. «Quando se diz que os anjos cantam, é isso que se quer dizer – que eles cantam.» [Alexandre Soares Silva]
ORGÂNICOS. Pedro Mexia escreveu um texto no DN, na secção «Geração de 70». José Bourbon Ribeiro discorda e, portanto, chamou aos da Geração de 70 «velhos rabugentos sem identidade nem lealdade orgânica». Ora, ser um velho rabujento ou um tipo sem lealdade orgânica só me parece ser um elogio.
DE TODA A VIDA LEVAREI. Os encontros, naturalmente. Uma pessoa passa uma parte da vida (até substancial, reconheço) a embirrar com pessoas que não conhece. Depois, um dia, passa horas a conversar. E fica-se muito próximo. Isto é desconcertante. Não merecíamos.
Novembro 24, 2004
TRIGO LIMPO. O primeiro-ministro, na televisão, disse a certa altura que era um «realista-optimista». Há muito tempo que não ouvia uma contradição tão flagrante, dadas as circunstâncias.
No restante, quem estava convencido, ficou convencido. O que traduz, bem vistas as coisas, a diferença entre o mundo em que as pessoas vivem e o mundo em que as pessoas andam.
REESCREVER A HISTÓRIA. Um grupo de advogados gregos decidiu processar a Warner e Oliver Stone «for suggesting Alexander the Great was bisexual».
EUROCÉPTICO. Eu, que sou europeu convicto, também sou eurocéptico. Faço um certo esforço para compreender a natureza deste referendo e cada vez lhe vejo menos utilidade, a não ser do ponto de vista formal. Ele servirá para legitimar o que já não pode voltar atrás. Portanto, de céptico vou a pessimista – e, salvo erro, a antipatriota. Mas a verdade é que já está escrito.
O ESTADO ESCLARECIDO. O ministro Henrique Chaves recebeu uma delegação de um clube de futebol que foi queixar-se das arbitragens ou lá o que é e, portanto, esclarecer o Estado sobre tão elevado e importante assunto. O ministro Daniel Sanches recebeu a mesma delegação de um clube de futebol que foi esclarecer o Estado sobre a forma como se organizou a segurança num jogo de futebol, e creio que pedir satisfações ao ministro sobre umas declarações de há umas semanas. A isto chegámos.
Novembro 23, 2004
JUCA CHAVES. Juca Chaves regressa à actividade. Menestrel, jogral, vândalo, vagabundo, judeu errante de todos os maus humores – eu sou um admirador de Juca Chaves. Desta vez, Juca está no bar do Fasano (o Baretto), um hotel chique (chiquíssimo) bem no centro de São Paulo. Já o vi actuar no ruído do Rio («Juca Chaves, o Menestrel Carioca», não era?) entre malandros e desalinhados. À sua volta, Juca semeou uma vasta «legião de desafectos», mas o seu riso malcriado e fescenino, que brincou às escondidas com a ditadura e com a pequena moral democrática, permanece e ecoa como uma ameaça. Qualquer um pode ser atingido. Ele inventou a stand-up comedy brasileira, de facto. No ano passado, em Setembro, não cheguei a ver o seu show no Teatro Anne Frank, A Hebraica, onde ia apresentar modinhas, serestas e trovas tradicionais, mas tenho uma gravação de «Que Saudade» e «A Cúmplice», que anda perdida mas hei-de encontrar no meio de LPs cheios de pó. Mas descansem: neste show do Fasano ele só vai cantar.
A GEOGRAFIA DA CIVILIZAÇÃO. Como se sabe, a geografia é uma ciência reaccionária (apud David Landes). Concordo. Só assim se explica que os dois graus que estão lá fora me obriguem a pensar nos trópicos e nos Verões eternos. As temperaturas «moderadas» fizeram-se para que se possa trabalhar à mesma hora a que outras civilizações preguiçam e se dedicam à sesta, à contemplação, ao sexo e às leituras perniciosas. Só assim se explica, igualmente, que se gaste uma noite a ver o dr. Santana Lopes na televisão, em vez de estar dependurado numa varanda a ouvir Van Morrison a cantar «Wasted Years» ou, vá lá, The Kings of Convenience.
DESAMOR. Um dos livros mais deliciosos da temporada é uma pequena preciosidade de um jovem escritor de Leiria, António Gregório (edição da Ambar). Segundo Gregório, o desamor é tão kitsch como o amor. Recomendo bastante.
VALTER HUGO MÃE. Ou me engano muito (o que acontece muitas vezes, quando se está sob a influência dos deuses da leitura sôfrega) ou o romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe (edição Temas e Debates), é uma das maravilhas deste final de ano. Se tivesse sido publicado nos anos setenta seria mais uma vítima do realismo mágico latino-americano; hoje, é uma fenda no meio do céu. Uma ventania.
Novembro 22, 2004
HÁ RAZÕES SÉRIAS. O presidente Sampaio vetou a central de informações com base nas dificuldades financeiras do País. Que vergonha.
CAUSA NOSSA. Um ano de Causa Nossa deve festejar-se. Discordando de algumas das suas posições e opiniões, ou concordando com algumas delas, há no Causa um interlocutor e um índice de civilização que fazem falta ao universo dos blogs portugueses. Parabéns. Sinceros.
Novembro 21, 2004
BRASIL. Limpeza. Saída de Carlos Lessa, o dinossaurus brasiliensis que estava à frente do BNDES e que dizia que as críticas à sua actuação eram como se a «turma do Fluminense» assobiasse o Flamengo; de Cássio Casseb, do Banco do Brasil, que também esteve envolvido na compra, em nome do BB, de ingressos para o concerto de angariação de fundos para o PT; do secretário de imprensa, Ricardo Kotsho, que um dia destes defenderia a expulsão de todos os correspondentes estrangeiros que enviassem notícias desfavoráveis a Lula ou ao PT, e que, de alguma forma também esteve envolvido no processo de censura do texto de Gilberto Gil no site da presidência, de modo a torná-la mais «conforme» à ortodoxia; e do assessor especial Frei Betto, o génio cujos deírios merecem antologia.
DAS QUESTÕES ESTRATÉGICAS. Li o relatório da AACS sobre o caso Marcelo. Não foi a montanha a parir um rato; foi a montanha, propriamente dita, que se transformou num rato. Uma pena. Porque o caso Marcelo configurava, de facto, um acto de censura deliberado – só que o relatório da AACS o desvalorizou quase totalmente ao tentar encontrar, a partir dele, os sinais de uma conspiração geral e planeada. Não existe esse plano: é tudo ad hoc, é tudo conforme as conveniências, tudo medíocre. Tudo a ficar pelo caminho.
CONSPIRAÇÃO. Dia 5, ao que parece, é o dia da grande conspiração. Private joke, naturalmente.
[E nunca menos do que isto.]
QUESTÕES DE SEGURANÇA. Muita gente me pergunta se é seguro viver no Brasil; ou, de outra forma, se não há problemas de segurança no Brasil, se podem ir de férias para o Brasil. Depois, pergunto-lhes se é seguro viver em Beja, por exemplo.
POIS. O Superflumina escreve sobre a autorização para que o canal de televisão do Hezbollah, Al-Manar, seja emitido em França por cabo. Os responsáveis do canal comprometeram-se a aceitar as determinações do Conseil Supérieur de l'Audiovisuel (CSA) sobre anti-semitismo, apelo à violência, etc. (ou seja, «à ne pas inciter à la haine, à la violence ou à la discrimination pour des raisons de race, de sexe, de religion ou de nationalité»). A vida tem um preço, como se sabe, nomeadamente a dos reféns franceses raptados por amigos do Hezbollah.
Novembro 20, 2004
SEJA SAUDÁVEL, 3. O bom Ricardo Oliveira, por mail:
«Eu até percebo que pessoas que sempre fumaram a vida toda se sintam ofendidas com esta nova lei. (Uma das cenas mais deprimentes a que já assisti foi ver a minha mãe, num Aeroporto qualquer, a querer fumar um cigarro e ter que o fazer num cantinho escondido, juntamente com outros dois criminosos). A verdade é que a vossa indignação, para os não-fumadores (entre os quais eu me incluo), faz tanto sentido como reagirem a uma eventual “Proibição de bater nas pessoas” com um “Claro, não podemos... E qualquer dia nem cuspir podemos. Vêm polícias que nos obrigam a respeitar as pessoas, a não as incomodar. Vai haver agentes que nos impedem de insultar um gajo qualquer...” Garanto-lhe, como filho e irmão de fumadores, que não há nada mais incomodativo do que levar com o fumo de um cigarro. Nem que isso fizesse bem à saúde, quanto mais!...»Caro Ricardo: eu não costumo andar por aí, pelas ruas, pelos estádios de futebol e pelos autocarros suburbanos, a bater nas pessoas. E não me lamento por existir uma lei que me proíba de exercitar os dotes pugilísticos à solta e à vontade. Também não fumo em hospitais nem em escolas. Até me vanglorio, hoje com dúvidas sérias, de na redacção da Grande Reportagem ter sido decretado o fim do tabaco porque havia uma designer grávida (foram os jornalistas, quase todos fumadores, que o decidiram por unanimidade) -- e vínhamos todos intoxicar-nos para o corredor, junto de um cinzeiro que colocámos lá. Também não fumo onde me dizem ser proibido fumar. Nem nos aeroportos nem em casa de amigos não-fumadores (confesso que, neste último caso, me escuso a ir, porque são geralmente pessoas muito impositivas e chatas de aturar). Mas não aceito que me criminalizem e me metam numa «sala de chuto». O que está a acontecer é a crescente criminalização do acto de puxar por um cigarro ou um charuto, em nome de uma moral certamente duvidosa e com certeza hipócrita. A TAP abriu um concurso de pessoal onde dava preferência a não-fumadores; acho isso uma criminalização absurda e ilegal; tenho ouvido falar pouco disso e o sindicato indígena não se manifestou.
Proibir o tabaco em bares e restaurantes é perseguir um dos locais de convivialidade onde, até agora, não havia conflitos de maior; basta existir uma área livre de fumadores e uma área de fumadores onde, depois de jantar, as pessoas possam fumar um charuto ou um cigarro e beber um álcool com o café. Um fumador não é um ser alienígena que está sempre a fumar, mas tem direito a fumar o seu cigarro, a saborear o seu charuto, e a não ser criminalizado por isso. Eu sei que a cocaína é mais clean em matéria de drogas, mas sinusites antigas impedem-me de tentar, lamento; prefiro que me deixem acender um charuto depois de jantar com amigos que não se importam que eu fume. E prefiro chamar palermas (como já escrevi no JN desta quinta-feira) aos autores desta proposta de lei. E, se quer saber, Caro Ricardo, a «nossa» indignação (falo pela minha) para os não fumadores, é o que menos me importa. Ou somos seres civilizados, ou não. Isso começa por uma palavra tão simples como liberdade. Por que será que tantos têm tanto medo dela?
Novembro 19, 2004
BLASFÉMIA,2. Sim, a verdade é que eu penso que as questões religiosas não devem impor-se ou sobrepor-se às questões civis. São do domínio pessoal, da «comunidade de crentes», do meu minyan. Somos nós que estamos no mundo; Deus não se aproxima desta atmosfera.
QUEM É IRSHAD MANJI? «Ma mère m’a dit que l’imam de sa mosquée a consacré quatre sermons consécutifs à mon livre. Les larmes aux yeux, elle l’a entendu dire que j’étais une Oussama Ben Laden, que j’étais aussi horrible que lui.» Et d’enchaîner : «On dit que je ne suis pas légitime parce que je suis lesbienne, parce que je suis jeune, parce que j’ai les cheveux hérissés, parce que je suis une femme.» Ler mais aqui.
BLASFÉMIA. A ideia de uma lei anti-blasfémia, proposta pelo ministro holandês da justiça, Piet Hein Donner, é apenas mais um começo e mais um (péssimo)sinal. Imaginemos uma lei dessa natureza e uma comissão estatal encarregada de avaliar as «blasfémias». Ou, pior, uma comissão inter-religiosa. Ou, ainda pior, uma comissão religiosa. Havia de ser bonito, havia.
SEJA SAUDÁVEL, 2. Deve desconfiar-se da ironia indignada. Nos telejornais foi pouco menos do que abjecta a indignaçãozinha espantada das jornalistas que assinaram peças sobre o últimos dos escândalos descobertos em Portugal: um entre cada cinco médicos é fumador, o que dá a bonita percentagem de 23%, creio. Uma vergonha, sugeria a voz da jornalista, uma vergonha. Abriu a caça ao médico-fumador. Daqui a uns tempos abrirá a caça ao médico em geral; aos médicos que comem fritos e têm colesterol no sangue, aos que jogam sueca e gostam de cozido à portuguesa, aos que ingerem carbo-hidratos e não são monogâmicos, aos que já fumaram um charuto ou lêem a imprensa da Suazilândia. Os médicos têm de dar o exemplo; não podem ultrapassar os 120 km/h nas auto-estradas nem preencher o boletim do totoloto. Daqui a pouco vão vigiar os professores que lêem o Código DaVinci ou a Playboy. Depois virão os bancários que jogam ao Monopólio. Cuidado. Eles vigiam de qualquer lugar, de todos os lugares. E a sua voz é imensa, poderosa, cheia de moral, de princípios, de segurança, de rigor, de saúde e de certezas. Eu, se pudesse, processava-os a todos, a esses vigilantes encartados; por cada inflexão acusatória, por cada ironia estúpida e cruel e filha da puta e sacristã -- e fazia-o em nome da sociedade, da liberdade dos cidadãos, contra o Estado, os moralistas, os cretinos e os polícias que ninguém encomendou. Cuidado. Há vigilantes por todo o lado.
SEJA SAUDÁVEL, 1. O dr. Luís Filipe Pereira, de braço dado com o presidente da câmara da Tavira, ameaçam ir passar férias ao reino do Butão (aproveitando uma informação do Blasfémias).
DE DEGRAU EM DEGRAU. O Público diz que o Dr. Soares está preocupado e que «só ainda não houve "aventuras militares" devido à integração de Portugal na União Europeia». O que o ex-presidente afirmou foi: «A integração na União Europeia defende-nos de aventuras militares, mas só uma consciência cívica nacional evitará outros perigos.» De qualquer forma, embora a citação correcta seja mais morigerada, pode dizer-se que, de degrau em degrau, o Dr. Soares atinge formas de catastrofismo cada vez mais puro.
VIDINHA. Passei metade da vida a odiar chávenas de café quentes, a «bica escaldada» ou a «bica em chávena escaldada». Finalmente, consegui hoje de manhã pedir um café «em chávena fria». Foram necessárias décadas para assumir este gesto anti-patriótico.
Novembro 18, 2004
OS DEMÔNIOS INTERIORES. «Quando eu morrer, espalhem o boato que eu “lutei contra os meus demônios interiores” (é assim que vocês têm que falar, anotem) e nem sempre venci - mas que lutei com todas as forças, num espetáculo ao mesmo tempo trágico e algum outro adjetivo qualquer que vocês podem escolher. Digam que eu era alcoólatra (I wish!), que ficava de mau humor quando bebia e ficava xingando os meus amigos, mas quando eles tentavam bater em mim eu dizia que “não acreditava em violência”, levantava com uma cara arrogante e tentava cuspir na pessoa, errava e acertava na minha própria camisa, e saía cambaleando bar afora. [...] Oh escritores de boina, quando estiverem ganhando um prêmio do Pen Club ou algo assim, e por acaso notarem Katie Holmes na platéia, digam a ela que eu a amo, que eu a amo. E que eu não seria canalha com ela, nunca. Que eu lutei contra meus demônios interiores e venci, saindo mais forte e mais sábio, pero com o coração cheio de ternura. Digam a ela que tudo que falam de mim é mentira! E se ela disser que nem sabe quem sou eu, comecem a mentir, a mentir barbaramente. Digam que Ian Fleming me conheceu no Cassino do Estoril e, “coincidentemente” (façam as aspas com os dedos), criou James Bond no mês seguinte.» Alexandre Soares Silva
E ler ainda este texto, uma receita para fazer um inferno a vida dos escritores mais hirsutos e ficar com a vida estragada por causa disso -- e deles.
RI-TE, RI-TE. «Mais tarde ou mais cedo, esmagarão todos os vícios, proibir-nos-ão mesmo as mais solitárias derivas. Seremos belos e saudáveis. Obrigar-nos-ão a usar aparelhos nos dentes. [...] Serão proibidas ideias com mais de 10% de gordura. Falstaff será internado numa clínica da qual não mais sairá. O grande negócio clandestino será o do sal. Existirão normas apertadas para o conteúdo dos livros e do cinema. Os grandes escândalos do futuro dirão respeito a figuras públicas apanhadas a fumar na casa de banho. [...] Cardiologistas serão futuros ministros da Justiça, nutricionistas ocuparão a pasta das Finanças.» À Espera dos Bárbaros.
Novembro 17, 2004
LITERATURA EM SÃO PAULO. De São Paulo, o bom Ilídio Soares chama a atenção para a realização dos «Encontros de Interrogação», o nome do «evento literário» que será realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro. Cerca de cem poetas, prosadores, críticos e jornalistas estarão presentes, participando dos debates em mesas temáticas. Escreve o Ilídio: «Sabe quem virá para esse encontro? Veja só: Claudia Roquette-Pinto,Wilson Bueno, Horácio Costa, Carlos Ávila, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Aleixo, Sebastião Nunes, Glauco Mattoso, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção... para citar poucos nomes... enfim, só a fina fauna e flora da nossa literatura atual ... o Itaú Cultural distribuirá uma revista dedicada especialmente ao encontro, e produzirá um livro e um DVD com depoimentos de todos os autores participantes.»
O Itaú, acrescento eu, é um banco comercial brasileiro. Já em Portugal...
PRIMEIRA REPUÚBLICA. Luís Bonifácio colocou na rede um novo blog, Cartas Portuguesas. O objectivo é «apresentar uma perspectiva da 1ª República através da correspondência recebida por duas figuras do mesmo regime, General José Augusto de Simas Machado e Coronel Raimundo Enes Meira». Uma ideia excelente. Há cartas de Afonso Costa, António José de Almeida, Alexandre Braga, João Soares, Egas Moniz ou Homem-Cristo, entre outros. Vale a pena.
UM POEMA DE LÊDO IVO POR CAUSA DO TEMPO QUE CORRE.
Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e adiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.
[...]
Lêdo Ivo
ANÚNCIO, 1. Compravas um carro em segunda mão a esta gente? Confiavas? Confiavas em alguém que engana deliberadamente, como se a única grande arte fosse «aparecer bem» no retrato?
Isto não tem a ver com sondagens, popularidade, inaugurações, «trabalho feito», levantar «o astral», discursos épicos, influência, negócios. Tem a ver com decência. E também com o seu contrário, a falta de decência. Também não tem a ver com costumes, valores, ordem nas ruas e paz no lar, essas patetices. Tem a ver com decência. E a pergunta mantém-se: compravas um carro em segunda mão a esta gente? Eu tomaria cuidado.
O PRIMADO DA LEI, QUANDO É PRECISO. A patetice a que se refere o Gabriel Silva a propósito dos horários das lojas do Porto lembra que devemos pensar no valor e no significado das leis. Parece que na Câmara do Porto há uma proposta para autorizar a abertura do «comércio» entre as 06.00 e as 24.00. Apareceram vozes a protestar; o vereador Rui Sá diz que «a estratégia deveria passar pela concepção de planos integrados», o PS acha que é preciso ouvir as «estruturas sindicais e associação de comerciantes»; a associação comercial acha que bastaria um dia por semana, e «com animação cultural»; o resto é ridículo demais para ser citado. Ora, por que razão há-de tudo ser regulado até à exaustão? Um dia por semana? Não seria melhor autorizar a abertura das lojas entre as 06:00 e as 24:00 e exigir que as leis fossem, apenas, rigorosamente cumpridas -- as laborais e as que fossem chamadas a intervir? E que quem não cumprisse a lei geral fosse punido? De cada vez que alguém fala da reabilitação do «comércio tradicional» do Porto, apetece rir.
A MISÉRIA DO PODER. Santana Castilho chamou a atenção para o problema no Público: a ministra descansou os paizinhos e os alunos, como se não fosse preciso virem a apresentar atestados médicos (como aconteceu em Guimarães) -- não, não se preocupem, os exames nacionais não vão alterar as coisas, não vão seleccionar, não vale a pena protestarem já, as Associações de Pais podem descansar. Não vão ser exames, no fundo. Então, para que servem? São, ou não são necessários? São, ou não são úteis? Sim, são necessários e úteis, mas alguém arranjará maneira de eles «não contarem tanto», de a avaliação não ser feita. O que incomoda no poder pequenino e envergonhado é exactamente isto: não ser exercido senão a medo, pelas costas, ao engano. O exercício do poder deixou de ser uma coisa nobre e séria; acossado pelas tele-sondagens, é apenas um retrato da sua miséria, da tagarelice. Governar é fazer escolhas.
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA. Leitura de poemas de José Agostinho Baptista no Porto. Madeirenses, portuenses, açorianos de Pontevedra, lisboetas, um bar cheio de gente.
Novembro 14, 2004
GONÇALO M. TAVARES. Já está em distribuição (edição Círculo de Leitores) o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, que este ano ganhou o prémio LER/Millenium. Recomendo muito.
CONCUPISCÊNCIA. Não, Ricardo, não. Ainda não li nenhuma das reportagens ou artigos de fundo deste mês.
REGRESSO À PÁTRIA, OU O CANTINHO DO HOOLIGAN. Choque térmico à chegada à Pátria; mas quando passo pelos senhores do SEF já sinto a mudança no ar: um arzinho de pequena depressão futebolística. Nem me atrevo a dizer mais. A pouco e pouco, as coisas compõem-se.
Novembro 12, 2004
LUIZA TOMÉ. Está bem, está bem. O link é este. Ah, concupiscência! Chamo a atenção, no entanto, para as reportagens e artigos de fundo da edição deste mês (os ensaios dedicados a Keila Siqueira e Juliana Knust não estão incluídos nesta categoria, evidentemente).
CONGRESSO DA DEMOCRACIA. A ideia de promover um congresso é inteiramente legítima. Eu já participei em vários e aproximadamente 52,4% da blogosfera já andou em muitos mais; congressos, colóquios, conferências, espectáculos, solilóquios, palestras, o que quiserem. Mas a designação de «congresso da democracia» parece-me francamente feliniana.
TER RAZÃO. O Rui Curado Silva escreve: «Espero sinceramente que o Aviz e o Nuno Guerreiro tenham razão.» [em relação a Arafat] Eu espero sinceramente que o Rui tenha razão quando espera que nós (o Nuno e eu) tenhamos razão.
PS - Ontem, pela televisão vi imagens de colonos judeus na Cisjordânia festejando a morte de Arafat. Nada me pareceu, na circunstância, mais abjecto. Lembrei-me das palavras de Rabin depois do massacre de duas dezenas de pessoas na gruta de Hebron: «Ele [o assassino, um judeu] lançou o opróbrio sobre todos nós.» O Nuno Guerreiro citava, ontem, esta passagem dos Provérbios: "Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem quando tropeçar se regozije o teu coração, para que o Senhor não o veja, e o desgoste" [ 24:17,18 ]
FUROR. Está a fazer furor a nova edição da Playboy brasileira com Luiza Tomé. O natural pudor bloguístico do circunspecto Aviz impõe que a reprodução da capa seja deste tamanho. No entanto, o importante é isto: se bem que o entusiasmo dos leitores da revista não se compare ao que rodeou o lançamento da «edição Juliana Paes», aliás catalogada como «edição especial» (mais cara e tudo...), acontece que Luiza Tomé, 40 anos, não dissimulou nada nestas fotos. «Na linguagem da cafajestagem que só pensa em futebol e mulher, isto é, na nossa linguagem», como escreve Arthur Dapieve, não há botox nem filtros. Se o pudor me impede de escrever sobre o assunto, cito o Dapieve: «Os efeitos da idade e da maternidade são perceptíveis entre rendas, capas e botas pretas. Os bonitos seios têm um caimento natural. Melhor do que dois balões de gás despersonalizados na mesa de operações, creio. É tudo dela, de sua vida, de sua história, bem como os pêlos fartos, aqui ó pros modismos depilatórios.» The girl next door, portanto.
CONSTITUIÇÃO EUROPEIA. OS PROBLEMAS DE UM DESCRENTE. Há um problema com o referendo, eu compreendo. A questão é que, seja qual for o resultado do referendo, as coisas não podem mudar. Imaginemos que «à populaça», insensível aos apelos dos seus esclarecidos líderes, lhe dá para votar no «não». O que acontece a seguir? Nada. Faz-se outra Constituição? Na «questão europeia» (este texto tem mais aspas do que o costume) há um regime de desconfiança absoluto. Que «a populaça» desconfie de Bruxelas e Estrasburgo, não me parece novidade por aí além. O que me parece preocupante é o nível de desconfiança que Bruxelas e Estrasburgo nutrem pelos europeus.
SEM FALSO ANTIPATROTISMO. Já escrevi várias vezes sobre a literatura brasileira contemporânea e sobre as boas surpresas que vou tendo; sobretudo comparando com o que se escreve em Portugal. Mas a mecânica dos prémios literários brasileiros revela outras surpresas, igualmente muito positivas: a agitação em redor do Jabuti e do Portugal Telecom, por exemplo, não tem nada a ver com o secretismo dos prémios portugueses. Nestes prémios há (tal como acontece em Inglaterra e em alguns casos franceses) listas de seleccionados e de finalistas, uma disputa mais séria. Alguns amigos brasileiros falam-me sempre «dos miseráveis lóbis», como em todo o lado; eu até concedo -- mas acho preferível «os miseráveis lóbis» à existência soturna e solitária «do miserável lóbi».
PRÉMIO PORTUGAL TELECOM/BRASIL. A edição de O Globo de hoje dá todo o destaque da capa do 2º Caderno à entrega do prémio Portugal Telecom (anteontem, em São Paulo; ver referência no Gávea)a Paulo Henriques Britto, com o livro Macau (edição Companhia das Letras); é a primeira vez que um prémio desta natureza e deste valor (R$100.000, ou seja, 35.000 euros) vai para um livro de poesia. Em segundo lugar ficou o livro de Sérgio Sant'Anna, O Voo da Madrugada (Companhia das Letras no Brasil, Cotovia em Portugal) e em terceiro A Margem Imóvel do Rio, de Luiz Antônio Assis Brasil (edição LP&M). Ambos excelentes (talvez o de Assis Brasil seja publicado pela Ambar em Portugal). Ora, já quanto ao Prémio Portugal Telecom/Portugal.
SOBRE A QUESTÃO VAN GOGH. Se o caso Salman Rushdie tivesse acontecido nos últimos dois anos, teríamos milhares de intelectuais e de frequentadores do Fórum TSF a dizer que era bem feito (além de John Le Carré, que manteria as mesmas razões). Se a destruição dos Budas das montanhas do Afeganistão tivesse ocorrido nos últimos dois anos, teríamos talvez os mesmos milhares a inventar uma desculpa consentânea com o «multiculturalismo longe de casa» (excepto Agustina Bessa-Luís, que manteria as mesmas razões). O caso Van Gogh não implica o Islão inteiro (e sim o fundamentalismo islâmico, seja lá o que isso for); mas implica as sociedades ocidentais. Há uns anos, Diogo Pires Aurélio publicou um livro sobre a matéria, tolerar o intolerável (Um Fio de Nada. Ensaio sobre a Tolerância, edição Cosmos -- que recomendo vivamente). A Economist fala do assunto:
«[...] how far should liberal societies tolerate the intolerant? [...] After the Van Gogh murder, calls for Europe's open societies to be more aggressive towards Islamic radicals can only get louder. “Militant Islamism is only a tiny force in Europe”, wrote the conservative Frankfurter Allgemeine Zeitung, “yet it is dangerous, because many societies on this continent have elevated their defencelessness into a virtue.” Yet the risk is that, rather than the intolerant learning tolerance, the tolerant become intolerant too.»
Citação via Diplomacia Pública.
Novembro 11, 2004
O PRESIDENTE PORTUGUÊS ALVO DE CHANTAGEM. (O NOVO BEST-SELLER DE SIDNEY SHELDON) A pedido, aqui vai um extracto de Are You Afraid of the Dark? (sigo a edição brasileira da Record, Quem tem Medo de Escuro?):
«Numa tela de computador apareceu um mapa-múndi cheio de linhas e símbolos. Enquanto falava, Tanner mexeu num botão, e o foco do mapa ficou mudando até iluminar Portugal.
– Os vales agrícolas de Portugal – disse Tanner – são alimentados por rios vindos de Espanha para o Atlântico. Imagine só o que aconteceria com Portugal se continuasse a chover até que os vales fossem inundados.
Tanner apertou um botão e apareceu num enorme ecrã a imagem de um palácio cor-de-rosa com guardas cerimoniais em posição de sentido enquanto os seus belos e luxuriantes jardins brilhavam ao sol.
– Este é o palácio presidencial.
A imagem mudou para uma sala de jantar, onde uma família estava a tomar o café da manhã.
– Esse é o presidente de Portugal com a mulher e os dois filhos. Quando eles falarem, será em português, mas você ouvirá em inglês. Eu tenho dezenas de nanocâmaras e microfones no palácio. O presidente não sabe, mas seu chefe de segurança trabalha para mim.
Um auxiliar estava a falar com o presidente:
– Às onze da manhã o senhor tem uma reunião na embaixada e um discurso num sindicato. À uma da tarde almoço no museu. Esta noite teremos um jantar de Estado.
O telefone tocou na mesa do café da manhã. O presidente atendeu.
– Alô?
E a voz de Tanner, instantaneamente traduzida do inglês para o português, disse:
– Sr. Presidente?
O presidente levou um susto.
– Quem é? – perguntou, e sua voz foi imediatamente traduzida do português para o inglês, para Tanner.
– Um amigo.
– Quem… como conseguiu o meu número particular?
– Isso não é importante. Quero que ouça atentamente. Eu amo o seu país e não gostaria de vê-lo destruído. Se não quiser que tempestades terríveis o apaguem do mapa, deve me mandar dois bilhões de dólares em ouro. Se não estiver interessado agora, eu ligo dentro de três dias.
Na tela eles viram o presidente bater o telefone. Ele disse à esposa:
– Algum maluco conseguiu o número de telefone. Parece que escapou de um asilo.
Tanner se virou para Pauline.
– Isso foi gravado há três dias. Agora deixe-me mostrar a conversa que nós tivemos ontem.
Uma imagem do enorme palácio cor-de-rosa e seus lindos jardins surgiu de novo, mas dessa vez caía uma chuva forte, e o céu estava cheio de trovões e iluminado por raios.
Tanner apertou um botão e a cena da televisão mudou para o escritório do presidente. Ele estava sentado a uma mesa de reuniões, com meia dúzia de assessores, todos falando ao mesmo tempo. O rosto do presidente estava sério.
O telefone em sua escrivaninha tocou.
– Agora – riu Tanner.
O presidente atendeu apreensivo.
– Alô.
– Bom dia, senhor presidente. Como…?
– Você está destruindo o meu país! Arruinou as colheitas. Os campos estão destruídos. Os povoados estão sendo –Ele parou e respirou fundo. – Quanto tempo isso vai continuar? – Havia histeria na voz do presidente.
– Até eu receber os dois bilhões de dólares.
Eles viram o presidente trincar os dentes e fechar os olhos um momento.
– E então você vai parar com as tempestades?
– Vou.
– Como quer que o valor seja entregue?
Tanner desligou a televisão.
– Está vendo como é fácil? Nós já temos o dinheiro.»
ARAFAT. Sobre Yasser Arafat, escrevi no Jornal de Notícias de hoje. Não tenho muito mais a acrescentar. A não ser que todos esperamos que Israel e um futuro (tão breve quanto possível) estado palestiniano democrático possam coexistir, mesmo de costas voltadas um para o outro.
Não, não vou chorar lágrimas de crocodilo. Não vou deixar de reconhecer o seu papel no Médio Oriente e na chamada “causa palestiniana”. É provável que seja um herói. Mas não vou tecer um elogio fúnebre. Se os palestinianos ainda não têm um país independente devem-no também a ele, que desfez acordos e mentiu descaradamente sobre os seus próprios planos, autorizando comandos suicidas formados por adolescentes e treino militar às crianças de Gaza. Se ainda há israelitas que se opõem à constituição de um estado palestiniano (e são muito poucos) devem-no muito a ele, que autorizou e mandou executar civis com a frieza de um “grande líder”, condenando massacres em inglês e incentivando-os em árabe. Não aceito a encomenda de um Arafat transformado em anjo – desenho que, repetidamente, as televisões vão pintar durante as semanas mais próximas e que os jornais vão reter em colunas laudatórias, rendidas diante da morte do “grande estadista”.
Quem já viu destroços de autocarros israelitas e pedaços de corpos retirados de restaurantes destruídos à bomba em ruas de Jerusalém pode, sem dúvida, calar a voz e respeitar a dor dos que choram Arafat – e perguntar-se sobre os dias que vêm. Mas não fará mais do que isso.
Eu vi a pizaria Sbarro, de Jerusalém, destruída por uma bomba da Fatah. Vi os jovens que dançavam na discoteca Dolphinarium, em Telavive, dias antes de ser destruída por um suicida recrutado pela Fatah e enviado pelo Hamas. Vi o restaurante perto de Haifa (a cidade da tolerância) onde centenas de judeus celebravam a sua Páscoa, e que os militantes da Fatah não hesitaram em destruir à bomba. Lembro-me de Itzhak Rabin confiar em Arafat depois dos acordos de Camp David – e de Arafat ter voltado atrás. Vi o pequeno mercado ao lado da Jaffa Road, em Jerusalém, semeado de corpos depois de um ataque organizado por militantes do Hamas que Arafat libertara dias antes. Ouvi Ehud Barak, em Jerusalém, falar com optimismo depois dos acordos de Oslo que Arafat rasgou depois de apertar a mão ao primeiro-ministro de Israel – abrindo as portas à vitória eleitoral de Ariel Sharon e da ala direita do Likud, um festim para os extremistas do Hamas e da Jihad.
Quem viu esses destroços sabe que um estado palestiniano democrático seria impossível com Arafat. E, por isso, dificilmente chorará a sua morte. É doloroso escrever isso: não chorar a sua morte. Mas a verdade é que, tendo o dever de respeitar o vazio da morte, temos também o dever de não a usar para esconder as feridas abertas. Arafat não se transformou apenas numa peça dispensável – transformou-se num obstáculo à paz e à criação de um estado palestiniano democrático, arrastando o seu povo para uma guerra de fanáticos alimentada pelos ditadores da região. Ao mesmo tempo, criou um regime de terror nos média palestinianos, acumulou uma fortuna pessoal que ultrapassa de longe os 300 milhões de dólares (segundo a “Forbes”) – grande parte dela desviada dos cofres da Autoridade Palestiniana –, autorizou execuções sumárias e fuzilamentos regulares, apoiou-se em líderes religiosos que pregavam nas mesquitas de Gaza sobre o dever de matar judeus, transformou a Autoridade Palestiniana num aparelho corrupto e voraz.
É forçoso reconhecer que desaparece um líder e uma figura histórica. Mas o reconhecimento do facto não implica que se seja desleal para com a memória e as suas mágoas.
Novembro 09, 2004
SHELDON. Sidney Sheldon diz que o seu novo livro (Are You Afraid of the Dark?) decorre em algumas cidades como «Berlin, Paris, Denver, New York, San Sebastian, Madrid, Barcelona, London, Zurich, Tokyo and Portugal». (entrevista no The Mistery Guild).
CIMEIRA (OU O CANTINHO DO HOOLIGAN). Cimeira em Salvador, Bahia – entre o Aviz e o Não Esperem Nada de Mim , num restaurante cheio de promessas gastronómicas. Estranhei a melancolia do Joel, recebendo sms portugueses com novidades do Estádio do Dragão, mas percebi porque bebeu aquele Remy Martin final: uma digestão de três pratos daqueles não era fácil, não foi nada fácil. Alguém tinha de pagar.
Novembro 08, 2004
PARÁ, BRASIL. Num município do Pará (Norte do Brasil), o tribunal eleitoral regional impediu uma mulher de se candidatar à prefeitura. Motivo: ela vive com a ex-prefeita e a lei brasileira impede os cônjuges de se sucederem nas prefeituras. A candidata impedida de ser candidata é militante do PFL (direita) e o seu caso acaba por criar um precedente jurídico importante ao reconhecer como casamento a união de facto entre duas pessoas do mesmo sexo. Numa entrevista à Veja ela assume a sua relação com a outra mulher («Você quer saber se eu sou lésbica, é?», pergunta ela ao jornalista. «A senhora é lésbica?», responde, perguntando, o jornalista). Recomendo atenção a este caso, mesmo passando-se no Pará.
MAU CLIMA. Parece que o mais recente livro de Sidney Sheldon constrói uma teia na qual um chantagista ameaça o presidente da República de Portugal com uma mudança brusca e catastrófica no clima do país. Vou ler. Tenho esperança.
Novembro 05, 2004
O PRECONCEITO GROSSEIRO. Luís F. Marinho, por mail, pergunta qual é o preconceito grosseiro que eu referia abaixo (post «Demónio Americano»). É muito comum; tanto, que escapa a quem os produz no meio de comentários aparentemente banais sobre a América. Arthur Dapieve, no Globo de hoje, por exemplo, fala de «a minha América» para dizer que ela não lhe foi roubada por um voto sequer. Mas a maior parte dos comentários sobre o «horror da América», por exemplo, tem endereço errado, como já hoje foi escrito no Blasfémias. A guerra sem tréguas aos fumadores, o processo Anita Hill, etc. etc., são obra dos democratas, que impediram Bill Clinton de fumar um charuto sequer. A ideia de que os americanos são todos isto ou todos aquilo é muito semelhante «à visão do português» no Brasil, por exemplo -- todos seríamos donos de padarias e choraríamos a ouvir fadinho e a beber vinho verde (ou todos votaríamos Santana Lopes). Essa visão do americano reproduz o olhar provinciano de quem só conhece (e mal) os cantos da sua casa. Pessoalmente, acho um assunto desinteressante.
MANOEL DE OLIVEIRA. «Manoel de Oliveira, 95, foi homenageado nesta quinta-feira, durante entrega dos prêmios da 28ª Mostra BR de Cinema, no teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, com o prêmio Humanidade, criado para homenagear cineastas pelo conjunto de sua obra.» Folha de São Paulo.
Eu sei que a frase de Manoel de Oliveira vai merecer muitos comentários em Portugal: «São tantos os prêmios que recebi em São Paulo que estou a pensar vir morar para aqui.»
BASHEVIS SINGER. Joseph Epstein sobre os livros de Isaac Bashevis Singer, no The Weekly Standard. (Obrigado pelo link, ao Alexandre Soares Silva.)
O DEMÓNIO AMERICANO. Assim como os países árabes do Médio Oriente precisam da existência de Israel para prolongarem a vida dos seus regimes tal como os conhecemos (assim se explicando, também, a ideia de que tivessem falhado as negociações para a um estado palestiniano democrático) parte da esquerda festeja a eleição de Bush porque não pode viver sem o seu demónio americano. Algumas das reacções à vitória de Bush só podem ser explicadas por um preconceito grosseiro que mistura tudo no mesmo saco. O ideal seria o mundo ser muito certinho, modelado de acordo com as paredes do cérebro. Mas não é.
VALETE FRATRES. Acabou o Valete Fratres!. Trata-se de uma outra perda para a blogosfera, depois da recente saída de cena do Janela Indiscreta. O Valete era um lugar de referência para a direita.
FUTILIDADES PARA FIM-DE-SEMANA. A edição de O Globo de hoje tem sinais portugueses. Primeiro, a revista RioShow, das sextas-feiras, é dedicada ao Cadeg, no bairro de Benfica, Rio (é o bairro, hélas!, onde fica o presídio carioca que mais problemas tem gerado nos últimos tempos). Seja como for, o Cadeg (Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara), na Rua 16 é o sitio, diz O Globo, «onde rola a melhor comida portuguesa da cidade». É necessariamente um exagero (dada a existência do Antiquarius, até por isso) – mas a reportagem chama a atenção para os bolinhos de bacalhau (R$ 17, o que é muito caro), pão «caseiro», sardinhas assadas (R$ 3, adequado), bacalhoada (R$ 50, caríssimo). Parece que também há concertinas minhotas. A reportagem é de Luciana Fróes, nada mau e leva o título «Portugal é logo ali» (no sumário da revista é escolhido o título «Uma festa muito ‘gira’», e na primeira página do jornal é «Festa vespertina à moda da terrinha» – tudo portuguesinho como dantes).
Depois, nota para outra peça em que se anuncia que o Vinho do Porto é que está na moda, mesmo. Os brasileiros descobriram o Porto Branco seco. Informações adicionais: no Zuka, um bar do Leblon, Marina Hirsh e Ana Carolina Gayoso preparam-no com um twist de laranja, gelado e simples ou com gelo, com tónica e hortelã; no Clube Chocolate, no Fashion Mall, é servido em taça de martini, com jabuticaba e gengibre, ou ainda acompanhado de maracujá, limão (não o limão brasileiro, mas o europeu – que aqui se designa de siciliano) e água tónica, e ainda com maçã verde e tangerina.
Mais dicas: Há pouco falei do Antiquarius – que usa o Vinho do Porto num prato como o Bacalhau à Dona Antónia (homenagem à Ferreirinha); no Traîteurs de France (na zona da Gávea), há Vinho do Porto num mignon de carneiro; na pizaria Stavaganze (limite de Botafogo), há uma piza com queijo de cabra, azeite balsâmico, figo grelhado e Porto; no Joanne Bistrot et Boulangerie (em Ipanema) o Porto está nas sobremesas – figo grelhado com Porto e sorvete de nata e ainda petit gâteau de chocolate com calda de Porto rubi.
Desculpem o tom mais leve do post. Mas eu acho deliciosa esta descoberta. Se os brasileiros fizessem com o Porto aquilo que já fizeram com a cachaça 51, seria um sucesso.
Novembro 03, 2004
TVE. A meio da madrugada, procurando emissões daqui e dali, dei com a TVE internacional. Um comentador referia-se a «el Bush» e ao «senador Kerry». Também foi por causa disso.
JANELA INDISCRETA. O fim do Janela Indiscreta é uma má notícia para a blogosfera. «Um blog pode ser um filme?», pergunta-se no seu último post. Talvez. O Janela Indiscreta permitiu-o.
PRIMEIROS DERROTADOS DAS ELEIÇÕES. Naturalmente, a imprensa – e a ideia de que tem todo o poder e toda a autoridade do seu lado. Pode continuar a reivindicar a autoridade, mas o seu poder sofreu um duro revés. A verdade é que isso não tem significado substancial; a opinião da imprensa não tem de ir a votos ou de sujeitar-se a sondagens, como se sabe – os seus editoriais não são referendáveis. O problema é quando a imprensa acredita na vantagem do seu voto sobre o voto dos eleitores. Hoje ficou também provado que não é a imprensa a fazer presidentes, embora possa fabricá-los com grande eficácia.
De resto, para já, não há grandes lições a tirar das eleições americanas, salvo a vantagem indesmentível de Bush no «voto popular».
Novembro 02, 2004
CINEMA NA ANTÁRCTIDA. O mundo está ocupadíssimo com Bush & Kerry e admito que tem razão. Mas aprecio a grandeza desta gente: a Argentina acaba de anunciar que vai abrir – em 2005 – a primeira sala de cinema na Antárctida, o pólo que agora me está mais próximo:
«O Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais e a Chancelaria decidiram unir forças para construir um espaço dedicado à projecção de filmes que abrirá suas portas em Fevereiro na base argentina Jubany. A sala, que terá 50 poltronas e contará com um pequeno espaço de recepção, banheiro e vestiário, funcionará na ilha 25 de Maio, onde também há bases do Brasil, Chile, China, Coreia do Sul, Polónia, Rússia e Uruguai.»
EUA, 2. Concordo com o João Miranda. Esta ideia de que todos temos o direito de votar nos EUA parece-me estapafúrdia. Não por lhe faltarem argumentos (como o facto de a política externa americana influenciar a vida de todos nós), mas porque – em extremo – parte do princípio de que os outros não têm capacidade para se auto-governar. A quantidade de «especialistas em América» gerados nos últimos anos só se explica pela paixão que a América desperta, julgo eu. Paixão descontrolada e paixão de ódio. Admito – já o escrevi abaixo – que a eleição de Kerry é melhor para as relações entre os EUA e a Europa (e que no resto não mudará grande coisa). Mas acho despropositada a ideia de os jornais (como o The Guardian) incentivarem directamente (por mail) os eleitores americanos a votarem num dos candidatos. E também penso que os jornais que tomam partido publicamente por Kerry ou por Bush (não acho mal) deviam fazer o mesmo nas eleições portuguesas e serem tão claros nas suas opções domésticas quanto o são no momento em que dão lições de política aos americanos. Isso eu achava bem.
Vivo grande parte do tempo noutro país, noutro hemisfério, acompanho as suas experiências eleitorais, as suas escolhas, as suas paixões, os seus disparates – mas não me passa pela cabeça dar-lhes lições. Falo quando sou convidado, ouvem-me, riem, tento compreender, mas não acho que todos tenhamos autorização para votar onde eles votam, quando eles votam. Também não creio que a Europa seja o centro do mundo.
EUA. O mundo espera coisas importantes da América e tem votado em Kerry com largueza de argumentos e de ressentimento. Eu acho que a eleição de Kerry poderá ser melhor para o relacionamento entre os EUA e a Europa mas duvido que mude substancialmente as suas políticas para o Médio Oriente e para a própria América. Alterará o clima de crispação e de ressentimento. Não me parece pouco.
Não sou americano – e não sei como votaria se fosse americano. Assusta-me a «esperança» depositada em Kerry (também receio o apelo de capitulação diante do terrorismo) e espero pelo dia em que tudo o que se disse de Bush se venha a dizer, de novo, de Kerry – caso seja eleito hoje.
Novembro 01, 2004
Outubro 31, 2004
BRASIL. A prefeitura de São Paulo decretou que os funcionários municipais teriam «tolerância de ponto» na sexta-feira passada, antevéspera das eleições. Como terça-feira é feriado e segunda é «ponte», haveria menos votantes nas eleições de hoje. Mas as imagens dos «pedágios» para o litoral paulista eram estarrecedoras: estavam vazias na sexta à noite, apesar da promessa de domingo cheio de sol.
Em São Paulo, as pesquisas do Ibope e da Datafolha davam 54% para Serra e 46% para a prefeita Marta Suplicy.
Mais notas em dia de eleição municipal em 43 cidades brasileiras: 1) Luizianne Lins, a marxista esotérica do PT de Fortaleza, estava na frente com 57% dos votos, e deve ser eleita; 2) Paulo Maluf, controlado pela justiça, declara mais uma vez o apoio a Marta Suplicy em São Paulo; 3) o ex-governador evangélico do RJ, Anthony Garotinho(e marido da actual governadora Rosinha Mateus) deixa em Campos um rasto de irregularidades, agressões, notas de banco e sermões cheios de ameaças; 4) PPS pode ganhar em Porto Alegre contra o candidato do PT; 5) Em Curitiba, o candidato do PSDB vai à frente, mas o candidato do PT está a 8 pontos na sondagem do Ibope; em Salvador, derrota catastrófica do PFL e da geração de ACM; curiosidade mórbida: em Passo Fundo, terra-natal de Scolari, o PDT ficou em primeiro lugar, seguido do PPS e do PT.
|
|
| |
|
|
|
|
|
|
RECADO. Ivan: a praia estava boa. Tenho pena que o Sr. Fernão de Noronha, apesar de financiador da expedição do «nosso» Vespucci, não tivesse a oportunidade de chegar à sua ilha. Mas garanto que ela está lá.
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Dizem-me que o FC Porto está a fazer uma carreira fantástica, cheia de alegrias e bons resultados. Não acredito. Alguém anda a enganar-me.
SÃO PAULO, MARTA. O blog do Marcelo Tas tem um texto certeiro sobre Marta Suplicy e tenho pena de o ter descoberto só agora, depois de o ouvir num debate na TVE; o texto chama-se «Porque a Marta irrita», mas não é anti-Marta. Vale a pena (não tem link directo):
«Não tem nada a ver com o que dizem dela: arrogância, argentino, assertividade... Aliás, penso que para alguém ser prefeito de São Paulo, a megalópole mais inesperada, caótica e sensacional do planeta, tem que ter nariz empinado mesmo, ser meio louco, tudo isso... Tirando o argentino, é claro. [...] Apesar de reconhecer o excelente governo da Marta, ela me irrita por causa do seu partido, o PT. Que se julga acima do bem e do mal. Esse é o problema dele, o PT, desde criancinha. [...] Me irrita no PT o que já me irritou no movimento gay. Há alguns anos, talvez até mais de uma década, se você falasse mal de viados, era taxado de nazista. [...] Os petistas fazem isso até hoje. Olham torto para pessoas que não botam uma camiseta vermelha e saem por aí em bando agredindo tucanos. Pensam: um dia eles evoluem e ficam como a gente, o Zé Genoíno, ou o Mercadante... [...] Não sou o Duda Mendonça, mas por favor me ouçam. O brasileiro está cansado de receber ordens e aguentar gente com ares de superioridade. Aliás, vocês já se esqueceram seus tontos, o FHC e os tucanos perderam para vocês por conta disso. Agora, só porque vocês estão no "puuderrr", são assim com o ACM, querem devolver na mesma moeda? O índice de rejeição não é dela, mas da duplinha que simboliza a militância gay tardia do PT: Mercadante e Zé Genoíno (o ruim de voto). Se eu fosse a Marta, fazia que nem a Luizianne, tirava o PT da minha campanha. [...] E uma dica pro candidato Serra, para o post ficar equilibrado. Pare de falar que o governo de Marta foi ruim, porque não foi. E você, Marta, pare de falar que o governo Alkmin (PSDB) é ruim, porque não é. Muito pelo contrário. Temos sorte. Não precisarmos baixar o nível como no Rio e na maioria dos estados do Brasil. São Paulo tem o luxo de ter dois governos decentes, no município e no estado. E dois candidatos decentes a prefeito. Vamos celebrar este fato fazendo uma campanha igualmente decente! Vocês não precisam e não merecem baixar o nível, cacilda!»
Outubro 29, 2004
RUA DA JUDIARIA, NOSSA RUA. מזל טוב Conheço o Nuno Guerreiro há bastantes anos, antes de ele ter ido para fora, para Nova Iorque e para Los Angeles. Em Portugal, como jornalista, foi um excelente repórter. Como correspondente nos EUA (inclusive para a Grande Reportagem de há uns anos) revelou uma atenção e um rigor extraordinários. O seu blog Rua da Judiaria é mais do que uma referência na blogosfera; é o site onde encontramos parte da nossa memória. Faz agora um ano, um ano inteirinho. O Nuno merece mais do que um abraço. O trabalho do Rua da Judiaria é notável; com a serenidade dos justos -- e dos que sabem que não é o volume da voz que marca o caminho da verdade, mas o seu tom --, a tranquilidade daqueles a quem invejamos a inteligência, a minúcia, a paciência, a delicadeza, o Rua da Judiaria é o blog judaico português por excelência. Uma das histórias que o Nuno e eu partilhamos é, sem dúvida, a do rabino que exprimia toda a inquietação que toma conta de nós quando escrevemos, quando lemos, quando olhamos na direcção do Muro: «Não perguntes o caminho a quem o conhece pois, de contrário, não te poderás perder.»
Uns dias sem net, fora de casa, impediram-me que saudasse mais cedo o Rua da Judiaria.
UTOPIAS, 4. Talvez, caro F.B.P., talvez. O problema é que, nessas utopias, a presença da religião confere-lhes um aspecto ainda mais assustador. No caso das utopias sem religião, o caminho para o terror é muito mais rápido.
UTOPIAS, 3. Mail do F.B.P. sobre os dois pequenos textos aí em baixo:
«Não me parece que as 'utopias' de Campanella e de Bacon possam ser consideradas do séc. XVI se foram escritas e publicadas… no séc. XVII. Também não me parece razoável dizer que assentam na religião. Nem sequer no caso da Utopia de Thomas More (há que lê-la considerando a República platónica, o Moriae Encomium erasmiano e alguns opúsculos de Damião de Góis). O sentido que dá a utopia não supõe a religião; pelo contrário contende ou nega a religião. As 'utopias' milenaristas, totalitárias, não assentam na religião: negam a religião porque esta obviamente foi sempre o seu mais formidável adversário. Depois de Feuerbach, Marx e Engels o caso muda de figura: as desgraças do séc. XX, e nisso tem toda razão, devem-se a esses utópicos que recusavam a 'utopia' porque queriam ser 'científicos', ou seja, resultam em grande parte da negação de Deus. Em suma as utopias de que fala são perversões imanentistas da religião (valdenses, dolcinianos, joaquimitas, anabaptistas e outras formas de milenarismo), o mesmo sucedendo nas suas versões ateias ou pagãs (marxismo, nazismo, fascismo, new wave, etc.; aqui poderia incluir-se a mundividência light em que assenta o politicamente correcto).»
MORTE NO ESTÁDIO. A morte de Sérginho, futebolista do São Caetano, em pleno Morumbi, no jogo contra o São Paulo, em todas as primeiras páginas. A discussão que regressa: parada cardíaca, desfribilhador, pronto-socorro, ambulância no túnel do balneário, Féher. Foi em noite de eclipse total da lua. Na mesma noite morreu também (parada cardíaca), no pavilhão do Sport Recife, o treinador da equipa de vólei. Desporto está perigoso.
Outubro 25, 2004
Outubro 23, 2004
UTOPIAS, 2. As utopias do século XVI (More, Campanella e Bacon, por exemplo) assentam na religião e no poder absoluto do Estado – e no bem comum que não admitia adversativas. Não deixaram de ser. Nunca poderiam ser de outra maneira. Tomando o destino da economia, do comércio ou da educação sob a orientação do Estado, tudo o resto era também determinado pelo Estado. De Campanella a Mao, as utopias foram sempre fanáticas, totalitárias e engendraram mais crimes do que se imaginava; rapidamente, as utopias transformaram os homens em inimigos de si próprios em nome de uma austeridade impossível e de outras mentiras piedosas. Podem ter sido admiráveis no desenho da felicidade – mas a felicidade de todos era de uma uniformidade assustadora, sem riso, sem vícios, sem complexidade. Poderíamos dizer que, da mesma forma como é útil ler Montaigne, o mundo também precisa de ler um pouco de Rabelais.
UTOPIAS, 1. Leio um texto do Bruno Alves sobre a tristeza do dr. Soares em relação ao fim das utopias. Reconheço que é um pouco difícil, para várias gerações, admitir que o tempo das utopias conduziu aos campos da morte por todo o lado, de Calvino a Lenine e Pol Pot. O problema das eutopias é que já lá estavam escritas as suas sombras e os seus dias de terror: o homem construído e perfeito, a cidade como uma estrutura inexpugnável e terrível, vigiada por gerontes ou sábios, por iluminados ou marechais; já lá estava a obrigatoriedade das orações a uma hora certa, as directrizes sobre a vida sexual e sobre a educação das crianças, a questão alimentar, as determinações sobbre o trabalho e a maneira de tratar os velhos. Somos capazes de enquadrar a idade das utopias (o sonho de um mundo perfeito que contrastava com a desgraça na Europa), mas os seus textos são execráveis. A esta distância, assustadores. Há uma outra perspectiva, naturalmente: a da leitura da utopia como um mundo de possibilidades. Infelizmente, as possibilidades não são aceitáveis à luz do que sabemos hoje sobre o seu destino histórico e sobre o destino dos homens que sofreram essas utopias. O mundo anda a precisar de ler um pouco de Montaigne.
Outubro 22, 2004
MARTA SUPLICY SEM DUDA. Esta notícia (e as relacionadas) é curiosa. Mas vale a pena. Esta, relacionada com o novo cabo eleitoral de Marta Suplicy, também vale a pena.
Entretanto, depois da entrada velada de Lula na campanha, do apoio de Paulo Maluf, Fleury e Faria de Sá, as sondagens de amanhã (Datafolha) dão dez pontos de vantagem a Serra sobre Marta. Outras prefeituras em destaque nos próximos dias: Curitiba, Porto Alegre e Salvador.
FUTEBOL PORTUGUÊS EM SÃO PAULO. Gonçalo Soares, o correspondente do Aviz em São Paulo, dá conta do interesse português em Robinho. Desta vez, foi Casagrande que falou de Robinho para o Benfica. Na semana passada, Robinho era dado como negociável para o FC Porto:
«Ontem, durante a transmissão do São Paulo-Santos, ouvi Walter Casagrande, ex-jogador do Porto e comentador da Globo, dizer que se encontravam no Estádio do Morumbi representantes do Benfica para observar Robinho. O craque santista, a quem já chamam Robson Arantes do Nascimento, é tido como uma das maiores promessas do futebol brasileiro a par de Kaká e Diego. Com este último, aliás, formou nos últimos dois anos a mais terrível dupla do futebol sul-americano, conquistando para o Santos um campeonato brasileiro, um vice e uma presença na final da Libertadores em que perdeu com o Boca. Perante isto só posso concluir que o Casagrande se enganou. Os representantes do Benfica não foram ver o Robinho, que até nem jogou. Robinho não serve para o Benfica. Como não serviram Romário, Deco, Maniche e sabe-se lá quantos mais. Do Santos só interessam ao Benfica jogadores do calibre de um Paulo Almeida ou de um Alcides. O Robinho é que não.»
Outubro 21, 2004
CABALA, 2. Gomes da Silva: «As cabalas existem independentemente da vontade subjectiva de as constituir.» A frase é genial. Eu agradecia que deixassem de falar do que não percebem, mas, já que se usa a palavra cabala, ao menos um pouco de pudor.
Seja como for, a frase é genial: os elementos, a poeira das partículas, as correntes de ar, tudo isso, podem ajudar a constituir uma cabala. Basta juntar uma declaração aqui, uma declaração ali -- e temos uma cabala. Há dois géneros de pessoas que andam à volta das teorias da conspiração: os que as produzem, e que, em certas circunstâncias, podem ser gente com um razoável sentido de humor e uma imaginação prodigiosa (ou ridícula); e os que temem toda e qualquer conspiração, toda e qualquer ameaça. Uma legenda da Caras pode ser o terrível sinal de que alguém brinca com a idoneidade da pulseirinha do senhor doutor; um advérbio contrapontístico numa crónica «de quotidiano» pode disparar um alarme na honorabilidade de um cavalheiro; um título mal lido (coisa que ocorre frequentemente) acaba por ser o sinal de uma conspiração contra a honorabilidade da administração pública. É quase um estalinismo na via pública: a suspeita permanente, a esquizofrenia da popularidade. Não interessa que o Expresso, o Público e o prof. Marcelo não tenham vontade de constituir ou de produzir um efeito; interessa que ele se constituiu, que ele aproveitou as oscilações dos elementos, a direcção das partículas. Veja-se como é perigoso existir no meio disso. Existir, sequer.
CABALA. Se a coligação não funcionou nas ilhas e se um dia destes se anunciar que os partidos da mesma irão concorrer separadamente, o que se dirá? Que a cabala do Expresso, do Público e do prof. Marcelo, afinal, era mais do que uma hipótese malévola (como na Cabala, afinal)? Estamos para ver.
ILDO LOBO. N KA TEN PALAVRA PAM DISCREVI PERDA DE ILDO. Morreu Ildo Lobo. Para quem conhecia a sua música (e a sua presença, a solo ou a bordo de Os Tubarões), é mais do que uma música que deixa de dançar no céu do Mindelo. José Luís Tavares enviou-me este poema, escrito ontem, em homenagem a Ildo.
Jovem herança de luz. Quando, no fundo
poço, a manhã antiguidade úmbria. Profundo
— esse aroma de fuligem, seu amoroso surdir.
Então, mundo é esse enigmático nome a vir,
exaurindo a incomovível placidez dos serrados.
Por si move; qual se deus, brisa ou sina.
Gravidade súbita amorenando a tez hialina,
pela hora em que pelos roucos valados
solidão é essa névoa tão sem peso, sua
lembrada altura sublinha que toda
a vida é ida; ou só ondeação da usura
por esse escalavrado trilho, rio que estua
neste estremunhado grito quase toada,
relembrando que só a morte é lonjura pura.
José Luís Tavares
20 de Outubro de 2004
Outubro 20, 2004
EU E O FUTEBOL, OU CONFISSÕES DE UM HOOLIGAN. O Hugo Jorge escreve, por mail, sobre os meus pequenos textos acerca do Benfica-Porto deste fim-de-semana:
«[...]Confesso que sempre apreciei o seu trabalho e, sobretudo, a sua crítica - incisiva, por vezes mordaz, mas sempre sensata. Mas quando chegamos ao futebol, transformamo-nos. Estranho desporto este, que ora nos une, ora nos separa. Podíamos discutir se foi ou não golo, se houve ou não penáltis, quem mereceu ou não ganhar. Custa-lhe assim tanto compreender o desejo de ganhar, o sentir-se prejudicado quando se dá tanto (como não se via os jogadores do Benfica, há anos)? Mas não devemos entrar por aí. Será mais importante discutir toda a envolvência. Porque continua o país a falar de paz no futebol (você mesmo o fez nos seus escritos públicos) e, depois, pouco se contribui para isso? Não se podem tolerar as afirmações e as atitudes de L.F. Vieira. Então e as de P. Costa, ao chamar assassinos aos benfiquistas? Não acha que a sua postura e aquilo que escreve, enquanto figura pública que é, contribuem para manter a fogueira acesa? Poderá dizer-me que foram outros que a acenderam, que escreveu num blog privado, que escreve com paixão (e aí, como sabemos, falta por vezes a razão). Dificilmente concordará comigo, mas gostava que pensasse. Porque assim, com o que escreveu, ataca o populismo de LFV mas branqueia o de PC. E, mais grave, alimenta-os, dá-lhes força e espaço para continuarem a delapidar aquilo que devia ser uma festa.»
Na passada quarta-feira (há uma semana), o Brasil jogou com a Colômbia e empatou a zero. Foi um jogo sofrível mas o Brasil jogou melhor e atacou como devia. As imagens da televisão mostraram com clareza que a bola, depois de chutada por um avançado brasileiro (esqueci quem era), entrou e bateu no chão, 59 centímetros para lá da linha de golo, na baliza dos colombianos. O árbitro não validou o golo. Houve protestos, naturalmente. Mas a maior parte dos protestos no estádio Rei Pelé, em Maceió-AL, foi contra os jogadores do Brasil, que não conseguiram marcar golo depois de tanto chuveirinho, de tantas jogadas de Ronaldinho Gaúcho e de Ronaldinho Nazário, de tantas oportunidades. Até ao dia seguinte, quando a grande imprensa e desinteressou do assunto, ninguém tinha pedido o massacre dos colombianos (que fizeram uma festa e tanto no próprio estádio), a defenestração do árbitro, o incêndio da bandeira colombiana ou uma investigação sobre o passado amoroso do treinador do país vizinho. Era futebol. Ficou um sentimento de injustiça, mas, de facto, o Brasil não tinha marcado golos que se vissem claramente. Leonan Penna dizia, com justiça: «Bola na trave é bola mal chutada.» E não tem mais. É mesmo.
O Benfica-FC Porto foi em tudo diferente. Mas eu sou um hooligan de trazer por casa. Acho que a frase de glória num jogo de futebol é «vai buscar!» («na peida!» também é usado, sim), gosto de brincar com os meus adversários e de dizer que a águia do Benfica já se transformou na galinha de Carnide. Eles chamam-me «da tripa». Aprecio muito a humilhação depois das derrotas; acho que fortalece o carácter. Aprecio ainda mais a alegria depois das vitórias, evidentemente; acho que fortalece o espírito. Não tenho nada contra quem ganha ao Benfica; acho que cumpre a sua função. Acredito que estas pequenas vilanias não contribuem para a paz social, tal como não criam desacatos nas ruas. Muitas vezes, é com amigos do Benfica que vejo os jogos do Benfica. Às vezes, eles vêem os jogos do Porto ao meu lado. Eu torço pelos adversários do Benfica. Eles torcem pelos adversários do Porto. Eu compreendo-os, e espero que me compreendam. Recebi mensagens SMS de apoio ao Celtic no dia da final de Sevilha. Alguns amigos declararam-se monegascos do coração durante a manhã do dia em que o Porto cilindrou o Mónaco. Eu fui holandês durante o PSV-Benfica. No dia do Anderlecht-Benfica senti-me sócio dos belgas desde a infância. Não tenho culpa. É um problema com que tenho de lidar. De cada vez que Baía deixa entrar um golo, o meu telefone enche-se de mensagens de amigos benfiquistas, festejando. Um deles envia-me mensagens com os nomes dos jogadores que – nesse dia – marcarão contra o Porto. Já chegaram a acertar. Já ganhei apostas. É uma vergonha. No último domingo fui presenteado com 30 garrafas de cerveja Skol.
Não sei quem é Luís Filipe Vieira (a não ser que tem negócios, que faz dieta – jantei várias vezes a poucos metros da mesa dele – e que não aprecio as suas piadas), mas pareceu-me a Dona Pombinha da telenovela (ainda se lembram?, perseguindo os adúlteros e fechando bares), abanando a cabeça e levantando o dedinho – e achei indigno que o cavalheiro tentasse fazer revelações sobre a vida conjugal de Pinto da Costa. Essas coisas não se fazem. Nunca. Mesmo que o Benfica esteja a pontos de ser derrotado por penaltis na taça Uefa. O resto – não me interessa. Gosto que o FC Porto ganhe e que o Benfica perca – sobretudo quando se invoca o passado, a grandiosidade do Benfica, a tradição, o número de adeptos, os lugares no estádio e a águia que desce sobre o relvado, «o Benfica é grande». Gosto mesmo muito. No Brasil gostava que o Palmeiras e o Flamengo descessem de divisão. E em Inglaterra nada me dá mais gozo do que uma derrota do Manchester. Eu sou um hooligan de trazer por casa. Não acho que tenha de apoiar o Benfica só porque defronta um clube «de fora». O Benfica é que é «de fora». Os meus amigos de verdade que pensam o mesmo sobre o Porto continuam a ser meus amigos de verdade. É só futebol. O resto – não me interessa. Um dia, um primeiro-ministro disse-me que era preferível que o Benfica ganhasse o campeonato para que a moral do país levantasse; passei a defender o direito à depressão colectiva. É irracional. Não encontro explicação. Eu sou um hooligan de trazer por casa. Gosto de ir ao Estádio do Dragão comprar camisolas para os meus filhos (um deles quase amua quando o Porto empata; tento dizer-lhe que é a vida, mas não adianta). Invento anedotas sobre o Benfica. Colecciono golos do Benfica que nunca entraram na baliza (como aquele do Belenenses, lembram-se?). Acho que os hooligans de verdade deviam ser presos e condenados a nunca mais poderem ver um jogo de futebol, nem da III Divisão. Irritam-me as multidões a festejar campeonatos – quaisquer multidões, sobretudo quando as televisões transmitem. Irritam-me as maratonas televisivas antes e depois dos jogos, acho que são impróprias para gente civilizada, para pessoas sensatas e para o jornalismo em geral. Não sei se gosto de discutir penaltis ou foras-de-jogo. Não gosto, seguramente, do «dirigismo desportivo»; acho-o geralmente triste, abjecto e pobre. Sempre o disse. Sempre o escrevi. E é isto o meu futebol. Ver jogos, gostar, escolher um adversário, recusar-me a explicar.
Adenda: Sim, hoje os dois golos do PSG entraram mesmo na baliza do Porto. E que ricos golos, que mereciam um aplauso para Pauleta, o renegado. É assim a vida.
Adenda 2: Por exemplo, ir ver o Benfica com Luís Nazaré.
RÉGUA, 2. Sobre as viagens em redor da Régua (ver texto abaixo), recomendo uma vista de olhos sobre o blog de Ricardo Figueira, o Blog de Fotografia.
POSSIDÓNIO CACHAPA. No blog do Possidónio Cachapa, autor do livro A Materna Doçura (primeira edição na Assírio & Alvim, nova edição na Oficina do Livro) está esta chamada de atenção. Vale a pena ir lá.
O que me lembra uma conferência de imprensa do actual primeiro-ministro, há uns anos, quando alertava a rapaziada dos jornais para uma «cabala» (ah, este termo...) que estava a ser dirigida contra a sua vida política. Como prova, exibiu um pequeno cartão, que lhe teriam enviado, e onde estava escrito o seguinte: «Cuidado com os rapazes.» Aviso malvado, «cabala» à vista, manobra fescenina. Não, nada disso: era apenas o cartão promocional do livro Cuidado com os Rapazes, de Alface (edição Assírio & Alvim).
Outubro 19, 2004
FORTALEZA, CEARÁ. O meu correspondente em São Paulo, o atento Gonçalo Soares, chama a atenção para a pequena local da secção Radar, da Veja desta semana a propósito do caso de Luizianne Lins (O Globo publicava uma foto da audiência que, finalmente, Luizianne teve com o presidente Lula -- além da indicação de que tinha comido 670 grs. de comida mineira, por ter perdido o avião para Fortaleza):
«Companheiros mas nem tanto. José Dirceu tem dito a interlocutores mais próximos que não vai mexer uma palha para ajudar a campanha da petista Luizianne Lins no segundo turno em Fortaleza.»Comenta o Gonçalo: «A soberba de Dirceu já valeu alguns constrangimentos a Lula (Waldomiro Diniz foi apenas um deles). Pelo que as últimas sondagens mostram está prestes a presentear o presidente com mais um, com sotaque Cearense.» Felizmente para Lula que as sondagens continuam a favorecer Luizianne.
Já agora, o Gonçalo informa ainda que a RTPi, afinal, pode ser vista em São Paulo, através da DirecTV, no canal 659. «Lá continuamos a assistir às novelas da TVI, ao Prof. José Hermano Saraiva e ás notícias das comunidades Lusas na Venezuela e no Canadá. E aos noticiários. Todos, incluíndo Açores e Madeira. E ao futebol. Luís Filipe Vieira incluído.»
Outubro 18, 2004
BRASIL, MARTA SUPLICY. Afinal, Marta Suplicy, candidata do PT em São Paulo, «negou sentir constrangimento em receber apoio de [Paulo] Maluf, Faria de Sá e do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que integrou a tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor de Melo».
DIÁRIO DE LISBOA EM FLORIPA. A Maura Paoletti festeja um ano do seu blog, Diário de Lisboa. O blog começou em Lisboa, continuou em São Paulo (sobre as copas das árvores de Higienópolis) e está agora em Florianópolis (SC). De lá, a Maura continua a prestar atenção ao que acontece em Portugal e ao que cruza os ares luso-brasileiros. Aí está mais uma razão para novo jantar mineiro em Sampa, não?
MÁRIO FILHO. Que eu me lembre, a primeira pessoa a escrever decentemente sobre Mário Filho em Portugal foi Fernando Sobral (na Ler), a propósito da edição do Sapo de Arubinha. Em poucas palavras, Mário Filho era irmão de Nelson Rodrigues e um jornalista esportivo notável. Ao contrário de Nelson, que era tricolor (Fluminense), Mário Filho era rubro-negro. O Maracanã foi ideia sua -- e é o seu nome que dá nome ao estádio; a placa está lá: «Estádio Mário Filho». Um dos seus ódios de estimação era o Vasco e o seu sonho era que o Vasco perdesse com o Fla, com um golo marcado no minuto noventa e um, com a mão, em off-side e precedido de falta (com o árbitro a ver tudo se possível). Ora aí está uma ideia para nós, que apreciamos o clube da Dona Pombinha.
RÉGUA. No Blogame Mucho, o Besugo escreve sobre a Régua. A Régua é uma das vilas da minha infância e da minha adolescência. A Rua dos Camilos, a Rua da Ferreirinha, a livraria onde parava João Araújo Correia, a livraria onde íamos em peregrinação comprar romances dos anos quarenta a preço dos anos quarenta, a linha que seguia até ao Pocinho, a linha que subia até Chaves. Nunca percebi como foi possível destruir-se a Régua. Não digo destruir a paisagem da minha infância e da minha adolescência -- digo mesmo destruir a paisagem daquela maneira.
McCARTHY. Isto é um problema entre mim e o Ivan, mas a verdade é que eu devo um público pedido de desculpas a Benny McCarthy: sim, ele está a jogar muito bem.
AVARIAS. O facto de o clube da Dona Pombinha ter o sistema de som da sua sala de imprensa avariado merecia uma inspecção da Direcção-Geral dos Espectáculos. Tanto investimento por causa do Euro e depois é isto.
MAS HÁ OUTRA RAZÃO. Há outra razão, sim. Ao ler a imprensa desportiva não podemos senão ficar contentes. O negócio ainda está a correr-lhes bem; mas a perpectiva de ficar com seis milhões e meio (eu insisto sempre neste e meio) de portugueses deprimidos está a prejudicar-lhes o discernimento. Basta ler A Bola, essa lanterna do clube da Dona Pombinha.
Adenda: Soube pelo LR (que não é pessoa para imprecisões) nuns comentários do Blasfémias, que afinal são oito milhões de benfiquistas -- e não seis milhões e meio. Caro LR, eu proponho mesmo que o clube da Dona Pombinha passe a ter oito milhões e meio de adeptos. Avarentos é que nunca.
BENFICA-PORTO OU O REGRESSO DE DONA POMBINHA. O que mais me impressionou foi ver aquele homenzinho que parece que agora dirige o Benfica a puxar dos galões para defender a família tradicional e os bons costumes. Ainda o teremos arcebispo.
Só pude ver as imagens do Benfica-Porto hoje de manhã, às nove (jornal da tarde da SIC Internacional). Os protestos dos benfiquistas foram manifestamente exagerados e o FC Porto ganhou.
Outubro 17, 2004
ANTI-AMERICANISMO PRIMÁRIO. Tornei-me anti-americano primário: soube que Cat Stevens, aliás Yussuf Islam, acaba de gravar um novo disco na sequência da onda de popularidade adquirida depois de ter sido proibido de entrar nos EUA. É uma nova versão de «Father & Son» com o irlandês Ronan Keating. Os serviços de fronteiras e a Administração americana deviam ser obrigados a ouvir «Father & Son» até à exaustão. E «Moonshadow» e «Morning has broken», e aquela tralha toda.
BRASIL, ELEIÇÕES. A Folha de São Paulo de amanhã, domingo, publicará uma nova pesquisa (da Datafolha; as do Ibope para São Paulo ficaram definitivamente descredibilizadas, pelo menos até 30 de Outubro, depois do falhanço do primeiro turno), em que José Serra continua à frente com uma vantagem de cerca de 12 pontos.
O debate televisivo entre os dois candidatos, Marta Suplicy (PT) e José Serra (PSDB), teve «aspectos paulistanos», sim -- mas notava-se que estava ali em jogo a polarização PT/PSDB que tomou conta do país (arrumando, pelo menos para já, com a hegemonia dos partidos da velha república, o PMDB e o PFL). Um dos pormenores do debate: a importância dos números invocados durante o debate. Percentagens, milhões de reais, quilómetros de asfalto, tudo; hoje, a Folha analisa os números à lupa e dá a vitória aparente a Serra, que teria manipulado menos. Mas o confronto é mortal. Se Serra ganhar, pode ver inviabilizada a candidatura presidencial em 2006 (há os candidatos Tasso Jereissati e Alckmin, do PSDB); se Marta perder, o PT vê cair um bastião fundamental (o PT perdeu lugares simbólicos no ABC paulista) e o governo terá de lhe arrajnar um ministério. A vida não é fácil.
A declaração de apoio de Paulo Maluf (e de Orestes Quércia) ao PT, constitui -- para o eleitor de «classe média», uma espécie de beijo da morte a Marta Suplicy. Mas não se sabe se Serra agradece os ataques de Maluf. Uma coisa é certa: o PT vai interceder e acabar com a comissão de inquérito à lavagem de dinheiro e outras aventuras criminais de Maluf. Tudo tem um preço.
Luizianne Lins, a candidata do PT em Fortaleza que o PT hostilizou -- e que se declarou «marxista-esotérica» -- já conta com o apoio de Lula e do próprio PC do B. Luizianne vai à frente nas sondagens e provavelmente vai bater o candidato do PFL. É uma derrota para os cubanos do PT, Dirceu e Genoíno. O Ceará, que já tinha eleito Deborah Soft para a vereação de Fortaleza, terá agora uma marxista-esotérica na prefeitura. Foi a parte «esotérica» que arrasou com Genoíno, Lula, Dirceu, Ciro Gomes e a rapaziada machista do Planalto.
BRASIL, DIA DO PROFESSOR. Dia 15 foi «o Dia do Professor» no Brasil. A burocracia petista inventou-lhes (são dos trabalhadores especializados mais mal pagos, em termos comparativos) um elogio, num anúncio: são professores, muito bem -- mas isso é uma coisa à moda antiga; eles são é «técnicos de inserção social».
A PÁTRIA. À distância, sigo pelos jornais e pela SIC Internacional (já não há RTPi nos canais de cabo e satélite brasileiros) os acontecimentos da Pátria, a bem amada. Há uma enorme quantidade de repetições, tantas que não se distingue aquilo que é comédia daquilo que passa por ser tragédia. Os meus amigos dizem-me que não devia ser pessimista ou, pelo menos, escrever sobre «o que está mal». Ou ser tão «negativo» em relação às notícias. Não sou. Fora da Pátria há coisas bem piores, alarmantes, desprezíveis, injustiças que se multiplicam, coisas ridículas. Como em todo o lado. Mas tenho em relação a ela a mesma sensação que toma conta de mim quando aparecem aqueles convidados do Herman Sic ou do Jerry Springer; nunca sei se hei-de rir ou se hei-de ficar envergonhado diante da exibição do pequeno género humano. Às vezes rio. De outras vezes fico envergonhado.
FERNANDO SABINO. No Gávea, evocação de Fernando Sabino. Eu diverti-me muito a ler Sabino -- e a experimentar a sua alegria, a sua erudição e os seus receios. E aquele elogio da generosidade que ele nunca escreveu -- por isso mesmo.
Outubro 14, 2004
BRASIL-COLÔMBIA. O alagoano Zagallo foi a Alagoas para que a selecção brasileira enfrentasse a Colômbia no estádio Rei Pelé. O Brasil atacou, atacou, atacou, ronaldinhogauchou, ronaldinhou, e nada. Terminou a zero com um golo mal anulado ao Brasil. É o regresso ao Zagallo das melodias de sempre.
IMPRENSA. Outro dos meus correspondentes em São Paulo, o Gonçalo Soares, relembra uma local da secção Radar, da Veja:
«Subproduto da Kroll. São quatro os jornalistas investigados pela Polícia Federal na chamada Operação Gutenberg, isto é, aquela destinada a pegar profissionais de imprensa envolvidos em venda ou engavetamento de reportagens. A Gutenberg surgiu como um subproduto do caso Kroll – isto é, ao investigar as ramificações do caso a PF deu de cara com indícios de histórias esquisitas envolvendo jornalistas.»E faz a pergunta: «E se houvesse operações destas em Portugal?»
BLOGS NO BRASIL. ALEX INAGAKI. O Alex Inagaki, de São Paulo, esclarece sobre o link do blog retirado do ar por decisão judicial (ver texto mais abaixo, «Alerta Vermelho»). Eu citava o exemplo de um blog que tinha sido obrigado a mudar de nome (e que tinha merecido um post anterior no Aviz), o Amarula com Sucrilhos, «que, devido a pressões exercidas pela empresa que produz o licor Amarula, foi rebatizado para Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados, e encontra-se atualmente numa URL quilométrica. O Alex Inagaki escreveu entretanto um post sobre «as conseqüências que advirão do caso Imprensa Marrom», e que pode encontrar-se neste link, e que convém ler.
Nem de propósito, o Observatório da Imprensa brasileiro acaba de publicar um texto útil sobre as implicações legais que podem retirar-se deste episódio (o «quadro legal» é o brasileiro).
Outubro 12, 2004
DITADO POPULAR. Quando, em política, se abdica de uma certa ideia de decência em nome da política – nunca se completa o mandato.
OPTIMISMO. Diogo Mainardi fala do assunto na sua crónica desta semana, na Veja, mas não se trata de «ficção»: o documento existe mesmo, o que prova que a insanidade não tem limites – e atribui a um programa de humor, por exemplo (ao «Casseta e Planeta», da Globo), ou às suas próprias crónicas, o défice de auto-estima e a falta de optimismo no cidadão brasileiro. Um estudo desses faz inveja a muita gente em Portugal. Escondam-no do Sr. Ministro.
ESQUECIMENTO DESASTROSO. Esqueci-me de mencionar o brilhante desempenho da selecção do Lichtenstein, essa equipa de todos nós. Fui apanhado pela notícia em pleno voo, creio que perto do equador. Uma pessoa, acometida de tanto júbilo, até se esquece. Depois, vi o Santos-São Paulo e passou-me.
A TAP. Eu gosto da TAP. Ao contrário da maioria dos portugueses, esses desmancha-prazeres anti-patrióticos e sem sentido de auto-estima, eu gosto da TAP. Mas não suporto aqueles chapéus das senhoras funcionárias; deviam ser dispensadas de usá-los. Também não gosto daquelas senhoras, chefes de cabina (suponho eu), que falam com voz afectada e que não sorriem a ninguém; os aviões e o resto do pessoal deviam ser dispensados de aturá-las. Eu sei que um avião é um autocarro do ar, mas enfim, há um resto de simpatia que fica bem por cima das nuvens. Estes protestos são um resto de provincianismo, eu sei.
Outubro 10, 2004
BRASIL, CE. No Brasil, a campanha eleitoral prepara-se para a sua quinzena definitiva. Mas cresce a minha admiração por Luizianne Lins, candidata do PT de Fortaleza (em primeiro lugar porque não penso ir a Fortaleza). Desprezada pelo partido e pelos três chefes orgânicos, Dirceu (ministro da Casa Civil), Genoíno (presidente do PT) e Lula, que apoiaram o candidato do PC do B e lhe chamaram «aventureira» -- conseguiu chegar ao segundo turno, contra o PFL. Os repórteres perguntaram-lhe se esperava ajuda de Lula e do PT: «Se não atrapalharem já é bom.» O ar incomodado de Dirceu e de Genoíno, os cubanos do PT, já é uma imagem agradável. Vagamente, Luizianne menciona o machismo do partido e a arrogância de Genoíno. Seja como for. Há quem imagine Dirceu e Genoíno torcendo, em Brasília, por uma vitória do PFL.
Adenda: nos jornais deste fim-de-semana, Luizianne define-se como marxista, mas nada de ortodoxias. «Como uma marxista-esotérica.»
As declarações de ACM à Folha de anteontem mereciam entrar numa antologia: perdendo em Salvador (como tudo o confirma) para o PDT, ele vê (e com razão) aí uma intervenção do PT e do Planalto, e ameaça retirar o seu apoio a Lula. É mais um coronel que se vai. Aliás, três coronéis que se vão: ACM, Sarney (derrotado em toda a linha no Maranhão e no Amapá) e Garotinho (com o PMDB -- e o PT -- cilindrado no Rio). Se Luizianne disputar Fortaleza no risco, Genoíno e Dirceu serão dois sargentos deprimidos.
Outubro 09, 2004
ESTA VOZ É QUASE O VENTO.
Quando penso neles,
há um livro que abre as suas páginas.
Uma persiana desce,
o pássaro das lezírias parte para longe das
palavras.
Há palavras que matam.
Há um livro onde os amigos vivem para
sempre,
emoldurados pela luz cega das orquídeas.
Há dez mandamentos sobre a evocação dos
seus dias.
Há um martelo que golpeia os cravos da sua
cruz,
um machado de pedra negra que reflecte a sua
mágoa.
Quando penso neles,
parece que chove.
Chove sempre nas praças vazias e é domingo
outra vez.
Então
os cães dormem nas quintas ao abandono.
Todos partiram.
Só os amigos me esperam do outro lado do céu.
Quando penso neles,
há um rasto de ternura sobre a neve e sobre a lava,
há um anel de aço que aperta a garganta,
as suas cordas de som,
e a neblina é mais densa.
Há um cântico, um segredo que recomeça nas
vogais do nome, e já não é nada.
José Agostinho Baptista, Esta Voz é Quase o Vento
Assírio & Alvim, 2004
BRASIL. O personagem pode não ter importância, mas a Folha de São Paulo de hoje transcreve as declarações do candidato derrotado do PDT às eleições de São Paulo: «O PT com poder demais faz mal ao Brasil. Esse é o principal problema. Temos medo do PT com poder demais.»
Entretanto, o Tribunal Eleitoral multou Lula pelo seu discurso de apoio a Marta Suplicy na campanha do primeiro turno. Eu agradecia que levassem esses juízes para a Madeira de cada vez que o dr. Jardim saísse do Palácio Vigia.
LIBERDADE. É evidente que está em causa a liberdade de expressão, ao contrário do que escreveram (nos jornais) e disseram (na rádio) hoje os especialistas em «politiquinha» e que justificam tudo com a hipótese de se tratar de mais uma traquinice do Marcelo. Pessoalmente, estou-me bem nas tintas para as traquinices do Marcelo – tão reconhecíveis (um piscar de olho, um sorriso, uma frase), tão evidentes. Seria bom que assentássemos no seguinte: a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa (como sabemos hoje, a demissão foi a sua reacção à proposta de amenização das críticas ao governo e de mudança do formato do programa) não faz senão agravar o que já de si era grave – as declarações do ministro.
Estou-me bem nas tintas para saber se MRS quer ser candidato a presidente da República ou a provedor da Santa Casa. E não acho significativo que MRS escolha o silêncio para castigar ou penalizar o governo. Isso interessa os especialistas em «politiquinha» – e até pode interessar o próprio Marcelo. Agora, o que eu acho significativo é que todas as coisas que se passaram estavam já inscritas nas palavras do ministro.
MRS pode ter-se demitido porque não estava para aturar a sugestão para amenizar as críticas. Quem pode, pode – e demitiu-se. Pacheco Pereira não aceitou um cargo. Outros fizeram o que puderam. O que é grave é a ideia de que qualquer crítica, por menor que seja (ao decreto da «ponte» da passada segunda-feira, à ida de Paulo Portas ao carnaval de uma amiga, às gravatas de um director-geral, ou, por displicência, a aspectos essenciais da governação) sejam entendidas como «destilar ódio ao PSD». Isso é que eu acho inaceitável. Tal como acho inaceitável (não, não por razões «operativas» ou para dar conta de um «descontrole» do governo) que, a cada crítica e a cada despacho de uma agência de notícias, se responda com conferências de imprensa e comunicados oficiais. Isso é coisa de quem depende absolutamente das primeiras páginas e não se defende onde essas coisas devem ser defendidas: no Parlamento, no governo, nos ministérios.
Tratar toda a «opinião desfavorável» como uma ameaça iminente é uma coisa desprezível que retira toda a dignidade à ideia de governar; como se não fosse possível governar sem as primeiras páginas e sem o beneplácito dos comentadores encartados ou fortuitos. Esta dependência orgânica é que é desprezível – não me interessa que Marcelo se tivesse demitido e vestido a pele de vítima. Isso é assunto dele, dos que adoram «factos políticos» e dos que acham que a política é apenas o jogo do Monopólio. Assunto meu é o da liberdade, porque sou cidadão. E assunto meu é, também, a forma como as autoridades reagem às críticas. Podem não revelar outra coisa – mas revelam um carácter.
POR EXEMPLO. A ler os textos de C.A. Amorim: «Qual a importância do Caso Marcelo?» e «Agora a sério», no Blasfémias.
Outubro 08, 2004
AUTO-ESTIMA, OPTIMISMO, PATRIOTISMO. Sócrates não vai precisar de se esforçar muito, o pão cai do céu. O romance português atravessa um momento de grande nível. Descontos na fonte. Praxes nas universidades e institutos politécnicos. Quinta das Celebridades. Festejemos os paralímpicos. Sangue na estrada e miséria no lar. Jerónimo de Sousa. Street racing. Gomes da Silva. Ruas esventradas, túneis, poeira arrastada pelo vento. Vitalidade da economia. Reformas estruturais. Reformas douradas. Reformas garantidas. Colocações de professores. Colocações em bancos. Iliteracia e inumeracia. Pontes, feriados. Tolerância de ponto, tolerância de opinião. Saldos e rebajas. Alberto João Jardim. O povo na rua. Outlets. O povo grita «assassino! assassino!». Escutas telefónicas. Gravações ilegais. Nossa Senhora do Caravaggio. Estudantes nas praxes, portões das universidades, batinas. Working boys. Romagens do 5 de Outubro. Iliteracia outra vez. Papagaios. Mandar calar. Vindimas e auto-estradas. Auto-estima.
Outubro 07, 2004
NOBEL. Elfriede Jelinek, dramaturga austríaca, é o Nobel da literatura deste ano. Às vezes, fico contente quando o Nobel é atribuído a um nome desconhecido; essa sensação de ignorância é agradável e permite que ainda se possa ler um livro insuspeitado até aí. Como não pode ser Philip Roth, então que seja para um desconhecido. É uma maneira de dizer, evidentemente.
DELITO DE OPINIÃO. Provavelmente, o «caso Marcelo Rebelo de Sousa» configura uma espécie de «delito de opinião». Não é todos os dias que uma vítima (e vitimizada) de um processo de «delito de opinião» é recebida pelo presidente da República. No caso de MRS há muitos factores implicados (governo, grupos de média, acções na bolsa, amizades, relações -- coisas que nos ultrapassam), certamente. Mas quem já viveu um processo semelhante muda de repente a sua ideia do mundo.
Adenda: A ideia de transformar MRS em mártir parece-me, por outro lado, uma ideia completamente estapafúrdia e despropositada. A gestão da agenda e dos timings é um pormenor muito importante.
Adenda 2: Quanto valia Marcelo?
Adenda 3: No dia 7 de Setembro, escrevi a propósito das críticas do presidente brasileiro ao correspondente do The New York Times, Larry Rhoter, que já antes enfrentara a ameaça de expulsão do Brasil por ter publicado um artigo. Desta vez, Larry tinha publicado no seu jornal um texto em que dava conta das críticas da imprensa brasileira ao projecto de constituição de um órgão feito, também, para fiscalizar e punir «desvios éticos» dos jornalistas. As críticas do aparelho petista eram fortes, agressivas e injustas -- nos dois casos. E escrevi: «Santana Lopes gostaria muito, gostaria. Mas não pode.» Quem vive da imprensa é devorado por ela. E quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. E, já agora, gostaria muito de ver o novo projecto de alteração da lei de imprensa que anda por aí. Ver por ver, evidentemente.
PUBICIDADE ENGANOSA. No Gávea, blog sobre literatura brasileira, encontrarão textos sobre Verissimo, Caio Fernando Abreu, Rubem Fonseca, Luana Piovani em strip-tease involuntário na Academia Brasileira de Letras, Paulo Francis, Gregório de Mattos, edição actual, links para escritores, o negócio das Bíblias brasileiras, enfim, o que vai acontecendo.
DE REPENTE. De repente, muitos amigos meus -- aqui, na blogosfera, e fora dela -- começaram a tratar o professor Marcelo como um ex-professor Marcelo. Como o defunto professor Marcelo. Ah, mas isto ainda agora começou.
PROIBIÇÕES E PATERNALISMO. O reitor da Universidade Católica não quer mudar o horário das discotecas por ter vontade de proibir seja o que for; não me parece pessoa para isso. Ele quer que se mude o horário das discotecas porque -- como mais de meio mundo no universo da pedagogia e da educação -- acha que se devem proteger os meninos e as meninas. Os estudantes estão, portanto, indefesos diante do ataque da sociedade e não há melhor maneira de os pôr a salvo do que impedir que elas e eles sejam cativados pelo mal que anda cá fora, à solta.
Evidentemente que responsabilizá-los pelo mau aproveitamento escolar está fora de causa; é muito pouco popular e não está na moda.
Como dizia o presidente de uma associação académica (creio que de Coimbra, para não variar), logo uma semana depois de ter sido eleito, «nas actuais condições» não se pode exigir que um estudante complete o curso no tempo regulamentar. Ora, o que se deve exigir é que um estudante complete o curso no tempo regulamentar, exactamente -- ou então que vá à sua vida. O reitor da Católica não fez mais do que autorizar este género de coisas.
Outubro 06, 2004
REPÓRTER. Na televisão, passou há pouco uma reportagem sobre a escola de Colares que o Correio da Manhã escolhera para a primeira página de ontem. Apesar de ter duas versões dos factos, a repórter optou apenas por uma delas (ai se o contraditório pega!), de modo que os alunos foram entrevistados, falou-se de um regulamento sobre o qual existem (também) duas versões mas de que não soubemos nada e, finalmente, a repórter inquirindo o professor e director da escola sobre os códigos de disciplina com voz malcriada. O tom manteve-se durante toda a reportagem; o professor estava no banco dos réus. A repórter passou de jornalista a polícia. Em imagens de arquivo, algumas alunas queixavam-se de que não podiam fumar dentro da escola e de que não podiam dizer palavrões. A repórter achava estranho que os alunos tivessem de tratar a «Dona Rosa» por «Dona Rosa» em vez de «senhora contínua». A solidariedade com a «rebeldia». A disciplina escolar como o pior dos males. Passou na televisão.
REALPOLITIK. OU BUSINESS AS USUAL. Portanto, a TVI pesou bem os pratos da balança; viu para que lado se inclinavam mais – e decidiu em conformidade, livrando-se de Marcelo Rebelo de Sousa. Não há almoços grátis. Perdão, não se trata de almoços. Já não é preciso contraditório.
O CONTTRADITÓRIO. [Actualizado] Vai uma grande algazarra pelos corredores do PSD e, imagino, pelas redacções, sobre o apelo do ministro Gomes da Silva «em defesa do contraditório» no «caso Marcelo Rebelo de Sousa». Acho absolutamente estapafúrdio. Toda a gente sabe (é uma maneira de dizer) que, «do ponto de vista legal», Marcelo Rebelo de Sousa podia falar durante vinte e quatro horas seguidas na TVI. E se houvesse obstáculos legais, ninguém ousaria pôr em causa a autonomia da programação televisiva; olha quem – a televisão faz muita falta em vésperas de eleições e em momentos de crise.
Sim, podemos perguntar (com o dedo levantado) se é normal haver um comentador político que ocupe 45 minutos de tempo de televisão, aos domingos, a dizer o que acha sobre a vida em geral. Não é. Mas, sinceramente, não se pode fazer nada: Marcelo Rebelo de Sousa veio da TSF, onde ocupava uma hora a fazer o mesmo, dando notas, atribuindo classificações, eleito como «o professor». Não estão em causa os seus dotes – as suas habilidades ou a sua seriedade, a sua argúcia, as armadilhas que estende, as alfinetadas, os sorrisos, os segredos e, sobretudo, a sua notável intuição, invejável e indisputável até agora. É esse o seu trabalho. MRS é, nessa qualidade televisiva, um entertainer; ou seja, para a TVI funciona como um entertainer, ocupa 45 minutos de antena, faz subir as audiências – tem o seu preço. Contraditório? Não. Havia «contraditório» quando Santana Lopes respondia em tempo real na RTP – e, mesmo assim, a TVI esperava que Santana e Sócrates falassem.
Eu percebo, toda a gente percebe, que a ideia de um «contraditório» é justa e decente. Mas já era justa e decente quando MRS era comentador da TSF num congresso do PSD, minutos antes de descer à terra para ser eleito líder do PSD. Eu acho, repito, justa e decente a ideia de um «contraditório», seja no que for, onde for. Também acho que devia existir um «contraditório» quando Miguel Sousa Tavares fala às terças-feiras e expõe as suas convicções. E que devia existir um «contraditório» de cada vez que Alberto João Jardim fala na Madeira e é citado ou louvado pela imprensa que o governo regional paga. Para a TVI, numa perspectiva aceitável do seu ponto de vista, MRS não precisa de «contraditório» para ser um sucesso de audiências (de contrário não se explicava que o Jornal Nacional do último domingo tivesse apenas uma notícia e tudo o resto fosse ocupado com MRS).
Eu percebo o “contraditório”, finalmente, quando as pessoas falam em nome da decência, que é um valor como qualquer outro – mas que eu prefiro citar quando se fala de politicazinha. Só que, ao escolherem o seu melhor ar escandalizado quando vêm protestar contra “a barafunda em que isto está” (depois de a terem causado e de a terem autorizado), o melhor é sorrir e passar adiante. Lembram-se da polémica à volta do «Acorrentados»? Há muito tempo que, na Assembleia da República, não se ouvia tanta gente pedir ordem nas ruas, moralidade na escola, disciplina no lar, fim do massacre das classes médias. E porquê? Porque muitos cavalheiros do parlamento eram cúmplices na situação.
O que o dr. Gomes da Silva (ou, por interposta pessoa, o dr. Santana Lopes ou alguém por ele) teme não é a decência, acho eu e faço-lhe esse favor; mas o que ele quer, realmente, não é o «contraditório» (contraditório entre quem? entre dois militantes do PSD?) e talvez não seja a censura pura e simples. O que o dr. Gomes da Silva quer é que julguemos que decretar uma ponte no dia 4 de Outubro foi uma medida justa, administrativamente aceitável e politicamente louvável. Não é, não foi. Foi outra trapalhada do governo. E merece ficar, pois, com o seu melhor ar de trapalhada indecente.
MALDADE BRASILEIRA. Uma forma como qualquer outra de dizer as coisas:
«não quero acirrar as desavenças com os nacionalistas, mas a que atribuir o grande sucesso do brasil nas paraolimpíadas?
se mandassem duplas como cláudio assis e o hector babenco, os arnaldos antunes e jabor, inocêncio oliveira e acm, sarneys, petistas, tribalistas e o fã-clube da marilena chauí, ela mesma e o leandro konder, por exemplo, com certeza o brasil dispararia no quadro de medalhas, especialmente em modalidades como a bocha da paralisia cerebral.»
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO. «The Ultimate Literary Conspiracy Theory: as peças de William Shakespeare na verdade foram escritas por Thomas Pynchon.» Aí está.
Outubro 05, 2004
DEPOIS DE LER UM ENSAIO SOBRE LITERATURA PORTUGUESA ESCRITO POR UM ENSAÍSTA HIRSUTO E VENERANDO. Depois disso tudo respirar. Encontrar qualquer coisa para ler. Passei pelo Nove de Copas, uma descoberta recente e inocente.
«às vezes me ajuda a escrever se eu pensar nos maiores desejos. são desejos em forma de festa, são grandes bolhas de sabão da infância. a gente tinha um brinquedo que era um fazedor de bolha de sabão com o aro do tamanho de um disco mesmo. e ele formava bolhas longas, em forma de pão de cachorro quente. todas coloridas. são assim esses desejos.»
UM HAI KAI DE IEDA MARCONDES. Ieda mantém um blog que leva o nome Fabulosa & Inútil.
«Sinto terrivelmente pelo desgosto momentâneo e passageiro do garoto que me pediu em namoro e eu não aceitei, há algum tempo. Enquanto lembro, toco a música tema de La Dolce Vita usando barulhinhos da boca, dentes, língua, saliva, a sinfonia toda, e mexo o dedão do pé, de acordo, é claro.»
REGULAMENTAR A TELEVISÃO. O Paulo Gorjão adverte para o papel secundário de Gomes da Silva no caso das críticas a Marcelo: que tudo vem do gabinete do primeiro-ministro. Ó Paulo, tal como tudo vinha de Aristóteles. De certeza. O que confirma tudo o que sabemos sobre a esquizofrenia actual.
ALERTA VERMELHO. Ora aí está uma notícia sobre «comentários perigosos». O Alexandre Inagaki, do blog brasileiro Pensar Enlouquece. Pense Nisso. conta como outro blog (que está aí na lista de links), o Imprensa Marrom, foi obrigado a sair da net. Não é a primeira vez que isto acontece no Brasil -- já antes, como escrevi aqui, um blog foi obrigado a mudar de nome porque uma empresa achava que o seu nome [o do blog] era parecido com o da corporação, uma empresa (sul-africana!) de ervas medicinais e xaropes. Escreve o Alexandre:
«Mergulhamos, oficialmente, no território das incertezas. A partir desse precedente, sou obrigado a fazer alguns questionamentos sobre a natureza de meu blog. Até que ponto posso emitir as minhas opiniões sem que algum melindrado ameace tirá-lo do ar por algum critério subjetivo? Chegará o tempo em que necessitaremos de consultoria jurídica prévia para a publicação de um post? Vale a pena permitir a publicação de comentários, ou será mais prudente limitar a interação do meu blog? Devo me limitar a escrever sobre o cardápio do meu café da manhã e as cólicas do meu cachorrinho?»Fernando Gouveia, responsável pelo Imprensa Marrom, esclarece que esta é a primeira acção judicial promovida contra um blog por causa de comentário.
O TELEPONTO, 2. Golpe para os críticos da esquerda moderna: ainda segundo o Público desta manhã, foi a direcção de Ferro Rodrigues que comprou o teleponto para o PS. Ferro era de esquerda?, perguntam-se os repórteres que exultaram com o assunto.
REGULAMENTAR A TELEVISÃO. A ideia de que o ministro dos assuntos parlamentares está indignado com Marcelo Rebelo de Sousa parece-me muito útil e instrutiva. Parece que é por causa da avaliação que MRS fez da «ponte» de ontem, 4 de Outubro. Há, no entanto, um pormenor ameaçador: «O Executivo», diz o Público, «irá apresentar em breve as novas regras para a futura entidade reguladora da comunicação social […]» Acrescentando que o PSD defende «o princípio do contraditório» mesmo em comentários políticos – que é (desculpe-me, Miguel Relvas), de facto, estapafúrdio. Uma pessoa é livre de comentar o que lhe der na real gana.
É evidente que ninguém de bom-senso irá ligar à «defesa do princípio do contraditório», mas isso dará pano para mangas – e é, claramente, um caso de tentativa censória.
Ao pé da notícia da proibição da mini-saia na escola de Colares ou da Quinta das Celebridades, isto sim, é um escândalo. Porque é que o ministro Gomes da Silva não se limita a perorar contra MRS?
MINI-SAIA. A notícia do Correio da Manhã sobre a proibição da mini-saia numa escola de Colares é tudo menos um fait-divers. Há uma questão de fundo: a da liberdade, evidentemente. E há a medida tomada pelo director da escola: proibir (cito o Correio da Manhã) «mini-saia, calções, chinelos, decotes ou dizer palavrões». Jorge Bacelar Gouveia diz que «um regulamento deste tipo é inconstitucional», e eu admito que haja uma discussão a realizar – e admito que a interpretação esteja correcta. Seja, pois, inconstitucional.
Ilustremos com um caso norueguês: o de Grimstad, onde a direcção de uma escola resolveu mandar fabricar t-shirts para os seus alunos – em especial para as suas alunas, está bom de ver. São t-shirts largas, de algodão de boa qualidade, cor de laranja e que descem um pouco abaixo da cintura. As t-shirts de Grimstad visavam, antes de mais [dizia a direcção da escola], fazer com que os alunos «se concentrem principalmente nos ensinamentos do professor». A imprensa protestou: as t-shirts de Grimstad eram a “burqa” norueguesa. A Comissão para a Igualdade entre os Sexos também protestou e acusou os professores de Grimstad de fomentarem a discriminação. É um exagero, provavelmente. Mas compreendo que não se possa, com toda a honestidade, ensinar equações de segundo grau, falar sobre o teatro de Ibsen ou os primórdios da literatura norueguesa, com tanto umbigo à mostra. Sou, portanto, um censor? Não sei. Mas tenho uma dúvida: eu, que me regozijo com os umbigos, acho normal que um professor se sinta perturbado com as glândulas sobressaltadas de uma adolescente que recita Shakespeare (acho difícil, porque os clássicos são cada vez menos conhecidos na escola). Pretender anular a sexualidade onde ela está à mostra é um esforço hipócrita tão grande como pedir a alguém que se excite com um retrato da madre Teresa.
Há tempos, um jornal português fez campanha em defesa de um professor que ia para as aulas de t-shirt, calções e sandálias. Parece que alguém do ministério lhe teria mandado um recado (do género: «Ó homem, é melhor vestir coisa mais apropriada.») Ergueu-se um coro de protestos contra o ministério fascista – que um professor pode vestir-se como quiser. Os alunos chamaram um regalo ao uniforme do professor e colavam-lhe papéis nas costas.
Chegados a este ponto, não sei o que as pessoas pensam sobre a escola. É certo que seria ridículo vestir a rapaziada de sargentos da GNR, mas ter em cada adolescente uma Lara Croft (está bem, uma Eva Mendes) pode ser um impedimento para falar de Camões ou da química dos elementos. Se um homem tem estas dúvidas, é um padreca empedernido; se olha para os umbigos, é um tarado diabólico. Decidam-se.
Bacelar Gouveia (citado pelo Correio da Manhã)) acha que o regulamento disciplinar da escola de Colares «põe em causa a liberdade pessoal, a liberdade de apresentação». Eu também acho. Mas não me parece muito mal que isso aconteça numa escola.
A questão não está, sequer, em que se discuta se o regulamento é exagerado ou não. Mas este coro de críticas unânimes parece-me que requer discussão. A unanimidade geralmente é burra. E cega.
ELEIÇÕES MUNICIPAIS DO BRASIL. Não resisto a publicar o cartaz de Deborah Soft (aliás Edivânia Matias Ferreira), a nova vereadora de Fortaleza:
Mais imagens de candidatos e da sua campanha eleitoral pode ser vista neste site, sugerido pelo Gonçalo Soares.
BRASIL, ELEIÇÕES. CRISE DO CORONELISMO. O Gonçalo Soares escreve de São Paulo com um interessante comentário sobre as eleições municipais brasileiras. O destaque vai todo para os resultados de Fortaleza, que bem pode constituir um amargo de boca para os ortodoxos do Planalto, nomeadamente o ministro Dirceu, que participou activamente na campanha do PC. Explicações para depois. Escreve o Gonçalo:
«A propósito das eleições municipais, não foi só em Salvador que se assistiu a um rude golpe no coronelismo. Também em Fortaleza deu "zebra". Contra todas as expectativas a candidata do PT, uma outsider que corria por fora, á revelia da direcção nacional do partido (Lula incluído), que preferiu apoiar o candidato do PC do B que parecia melhor nas sondagens, não só o deixou a ver navios para o segundo turno, como também deixou de fora os candidatos apoiados pelos pesos-pesados locais: o senador Tasso Jereissati e o Ministro Ciro Gomes. É por estas e por outras (leia-se Marta Suplicy) que ninguém vai convencer o Lula a apoiar quem quer que seja no segundo turno. Já o afirmou hoje, em declarações reproduzidas na Folha de São Paulo.»Acrescento que outro caso é o do Maranhão, onde o candidato de Sarney também não passa ao segundo turno. Ou seja, Sarney, Garotinho e ACM estão em risco de ter perdido bastante. Curiosamente, o PT perdeu votos na sua zona histórica, ou seja, o ABC paulista.
Outubro 04, 2004
O TELEPONTO. Depois da RTP, também a SIC achou graça ao teleponto de Sócrates; e lá mostrou, com graçolas (a televisão portuguesa está cada vez mais cheia delas, à falta de talento), o choque tecnológico do congresso do PS. Está encontrado, nas televisões, o mínimo denominador comum da esquerda moderna: o teleponto. Abriu a caça.
AINDA BRASIL. APLICAÇÃO NA ESCOLA. A Folha de São Paulo de hoje esclarece que a série «O Sítio do Picapau Amarelo» deixa de ser gravada em Novembro: «Serão colocadas reprises no ar. A Globo diz que as crianças do programa têm de estudar para as provas de fim de ano da escola.»
BRASIL. Os resultados não deixam dúvidas: o PT subiu conforme o previsto, ultrapassando as expectativas em alguns pontos (como o «saco de gatos» PMDB) e raramente desmentindo os seus objectivos. De destacar, ainda, a reeleição (à primeira volta) de César Maia no Rio de Janeiro; as suas declarações esta manhã (na TV Globo) podem indicar estarmos no final do «ciclo populista» que catapultou os Garotinhos para o governo do estado. Os cariocas aprenderam a lição. No entanto, outro dos sinais importantes destas eleições ocorre (insisto) na Bahia onde se confirma o «segundo turno» entre o PFL (do senador Magalhães, o ACM) e o PDT; a confirmar-se a vitória do PDT (que foi o mais votado ontem, com 43%, contra 21% do PFL), com o apoio da restante oposição do Estado, isso pode significar que ACM perde a prefeitura da cidade, embora possa voltar a jantar com Lula, não se livrando da discussão sobre a sua expulsão do partido. São Paulo será o barómetro para outros voos e uma eventual vitória de José Serra pode, para a pequena política, contribuir em muito para a bipolarização do sistema partidário brasileiro. Ao contrário do que se passa noutros países, a polarização entre PT e PSDB (que é o segundo partido mais votado nas eleições, apesar de essa votação não corresponder a número de mandatos e prefeituras) só pode ser, neste contexto, um sinal de vitalidade e de amadurecimento.
PONTE. A ideia de decretar uma ponte (na função pública) que permita aos portugueses prepararem-se para as romagens do 5 de Outubro, parece-me inteiramente justificada. Os portugueses preparar-se-ão convenientemente, a fim de no dia seguinte ouvir o sr. Presidente da República e as várias autoridades municipais discretear sobre o legado republicano de 1910.
Decretar pontes não faz parte, acho eu, da ideia que temos de uma administração decente. Pessoalmente, a ponte impede-me afazeres, tarefas e trabalhos. Mas a Pátria, caramba!, pode esperar até dia 6.
ELEIÇÕES EM SÃO PAULO. A derrota do PT em São Paulo na primeira volta das municipais, a consumar-se (escrevo quando estão apurados cerca de 80 por cento dos resultados e a vantagem de José Serra é de 43 para 35%), constituiria uma severa derrota para o aparelho do partido e para a ala esquerda do governo. Marta Suplicy dramatizou os resultados da capital paulista: dar um voto a Serra e ao PSDB significaria um aviso sério a Lula e à sua reeleição em 2006. Lula resistiu quanto pôde – mas acabou por envolver-se na campanha de Marta Suplicy numa altura em que as suas declarações se tinham radicalizado, sobretudo graças à influência de Favre (aliás, a ainda prefeita foi castigada pela forma como envolveu o ex-marido, o senador Eduardo Suplicy no saco de gatos de São Paulo) e à tentativa de cativar-não-cativar os votos de Paulo Maluf para a segunda volta. Os dados estão agora lançados para essa segunda volta: saber se o PT vai continuar a prometer a Paulo Maluf que abrandará a CPI sobre a lavagem de dinheiro (depois de ter feito negócios com o PTB), ou saber até que ponto a política de silêncio absoluto de Serra o pode beneficiar. Mas, sinceramente, ainda é cedo demais.
Outra nota: a confusão que pode resultar dos votos da Bahia. A confirmarem-se os resultados, salvo alguma reviravolta na política de alianças (que pode ocorrer, se o PT apoiar o César Borges, do PFL), é um rude golpe no coronelismo e no grupo de Antônio Carlos Magalhães.
No «meu município» baiano, o mais divertido é existirem candidatos com nomes assim: Evanildo da Polícia Rodoviária (do PFL), Marito do Ferro Velho (do PRP), Binho do Tiéte (PP), A. Baixinho (também candidato a vereador pelo PP), Jorge Boca d'Ouro (PMN), Carlucho (PSB) e Chapiscado (PTC).
Outra nota: «Em Fortaleza», no Ceará, escreve a Folha de São Paulo, «a candidata do PTN, Edivânia Matias Ferreira, 21, mais conhecida como a striper Deborah Soft, deve levar uma das 41 vagas de vereador. Com 78,19% das urnas apuradas, ela está no grupo dos dez candidatos mais votados, aparecendo com quase 9.000 votos. Estudante de administração, a pernambucana Deborah Soft trabalha como striper desde os 14 anos, ao lado do marido, que também é seu empresário e advogado, o mineiro Jonas Ferraz.»
Aqui está a foto da Cicciolina cearense, como lhe chama a Folha, verdadeiro exemplo do poder local:
Outubro 03, 2004
MAR SALGADO. O facto de o Filipe Nunes Vicente regressar à escrita no Mar Salgado só nos pode deixar contentes. E logo com um texto assim:
«ISTO ASSIM NÃO É VIVER: Dizia-me ela com uma certeza cósmica: perdi quatro anos da minha vida. Isto porque demorou muito tempo a fazer o luto, como dizem os psis. É curiosa esta nossa ideia de que a vida é um investimento a rentabilizar. Também já a propósito de casamentos infelizes ouvi frases destas, o intervalo temporal do desperdício variando em função do rancor pós-conjugal. Mas Séneca, que inventou a fotografia, explicava que só podemos estar seguros do nosso passado. [...] Claro que um estóico da velha cepa diria aos moços e moças que como nunca sabemos quando a corrida acaba nem como decorre, todas as horas são valiosas, todas são irrepetíveis. Não me parece que fosse ouvido: há muito que dividimos a vida em duas: a que vale a pena e a que é um desperdício. Como poderia ser de outro modo se legiões de aldrabões licenciados nos convencem todos os dias que o nosso sofrimento deveria ter sido evitado?»Eu sei que nesta altura de Bush vs Kerry, de crimes no Algarve e de caça ao Sócrates, queriam mais. Mas leiam, leiam.
TRICOLOR. A propósito do textos sobre os times de futebol, a Silvia Chueire (que, no Brasil, mantém o blog Eugenia in the Meadow), tricolor, pó-de-arroz até ao fim, torcedora fluminense, junta-se ao lamento «por um time que tem Romário e o Animal jogando». E recomenda outro hino (esta sugestão vai também para o Ivan): «Quanto aos hinos (não ouvi os Cds a que se refere) recomendo que quando puder ouça o mais belo hino de futebol do Brasil, o hino do América futebol Clube (do Rio). Aliás, time de torcedores famosos e que foi o segundo time de muita gente boa.» Garanto que vou ouvir.
QUARTZO. Estes dias de ausência impediram que festejasse o aniversário do Quarzto, Feldspato & Mica, como devia. Mesmo com atraso, fica a saudação.
DEPOIS DE SUKKOT. Tu fazes o vento soprar e a chuva cair. A Festa das Cabanas, Sukkot, é uma das mais belas lições sobre a saída e a travessia do deserto, evocando a fragilidade e a luz negra do céu – de onde apenas se deviam ver as estrelas. Manter ao longo dos séculos a tradição da festa de Sukkot é um milagre admirável. Relembro sempre o capítulo VI de Errata, de George Steiner, sobre este milagre da sobrevivência. Nenhuma outra festa do calendário judaico me comove tanto como Sukkot, tirando talvez Tu b'Shvat, o dia das árvores.
ASSUNTOS ANTIGOS, 3. Outra história é a das corridas ilegais a alta velocidade dos carros de Palmela ou da Ponte Vasco da Gama. Correndo o risco da acusação de «umbiguismo», a Grande Reportagem publicou, em Dezembro de 2003, uma história sobre essas corridas. Havia ali matéria para procedimento criminal, mas não era nada que não se soubesse e que as autoridades desconhecessem (o mesmo jornalista já tinha feito um trabalho sobre o mesmo assunto para a SIC Notícias). Não foi feito nada para prevenir o que aconteceu, de facto, em Palmela. Nessa altura já tinha havido acidentes.
De resto, esta ideia do homicídio voluntário ou involuntário praticado pelos condutores dos carros, se não fossem as causas dramáticas que antecedem a discussão «meramente jurídica», daria vontade de sorrir com alguma amargura. Todas as semanas se realizam corridas dessas, em qualquer lugar do país, em qualquer zona da Grande Lisboa, mesmo dentro da cidade – com apostas conhecidas e disputadas. São matéria para filme, sem dúvida: a alta velocidade, o fumo dos motores, os ruídos, o suor, o risco. Eu sei. Seria fascinante, até, se eu gostasse. Mas, lendo num jornal de há dias, a queixa de um empresário de «tuning» sobre «as repercussões negativas» que isto terá no seu negócio, apetecia-me que a lei tivesse sido cumprida há mais tempo.
OS TIMES (DE FUTEBOL). O Ivan escreveu um curioso texto sobre os seus times brasileiros, mencionando a dificuldade de escolha. Compreendo-o bem. Eu simpatizei com o Vasco, mas depois do primeiro jogo em S. Januário e das patifarias do cartola que dirige o clube, desisti. Era pouco depois do tempo em que Jardel era assobiado no estádio, mesmo quando só se sentava no banco (Scolari foi lá buscá-lo depois para o Grémio e foi o que se soube). Houve uma altura em que simpatizava com o Grêmio, justamente – acho que era mais por causa de Porto Alegre e por aquela divisa sentada no pórtico do Estádio Olímpio: para onde fores o Grêmio te acompanhará. Mas a literatura não tem nada a ver com o futebol. Sempre soube que era anti-Flamengo, isso sim. A maior parte dos meus amigos do Rio são tricolores e falam do Fluminense e das glórias «pó-de-arroz» com um tal brilho nos olhos que fico com inveja. Mas, tal como o Ivan, arrepiei-me com a hipótese de torcer por um time onde jogavam o Roger, o Romário e o Animal. Vivendo em Salvador, achei que o melhor era dividir-me entre os dois times da cidade, o Vitória e o Bahia; o Bahia na segunda divisão, o Vitória caindo para o fim da tabela do brasileirão. O problema é que o hino do Vitória era cantado pela Daniela Mercury (além de jogar lá o Vampeta) e o do Bahia pelo quarteto clássico (Caetano, Bethânia, Gil e Gal). A vida não tem sido fácil.
Quanto aos hinos, a versão do hino do Botafogo (sobre quem o Sérgio Augusto acaba de publicar um livro, Botafogo — Entre o Céu e o Inferno, edição Ediouro) pelo Zeca Pagodinho é uma boa amostra para quem gosta de samba, sim (e com o tom de malandragem imposta pelo próprio Pagodinho) — mas eu volto a sugerir a versão de Ed Motta (e Beth Carvalho). Além disso, nesse CD referido pelo Ivan há três hinos a distinguir: o do Vasco (Paulinho da Viola e Los Hermanos, muito bom), o do Atlético Mineiro (Tianastácia e Rogério Flausino, dos Jota Quest, uma trapalhada roqueira com graça) e o do São Paulo (outra trapalhada que quase destrói um dos melhores hinos, com os Capital Inicial e os Ira!). Ah, é verdadde: a narração do golo de Roberto Dinamite que abre a versão de Paulinho da Viola é a mesma da de Ed Motta.
REVISTA DA IMPRENSA. Frequentemente, aparecem umas almas, chocadas, chorando «o desaparecimento dos valores» e pedindo o regresso «das grandes figuras» (Churchill!, ah, De Gaulle, ah!, Delors, ah!) e dos homens bons. Eu compreendo a angústia e às vezes partilho dela – mas, num último instante, desisto. Há ali uma tentação do desprezo a que é preciso fugir a todo o custo. A impossibilidade de se dar com o presente é uma das forças que mais tem produzido pequenos ditadores.
ASSUNTOS ANTIGOS, 2. À distância, o caso de Portimão e o espaço que garantiu em qualquer dos canais da televisão portuguesa parece confirmar tudo aquilo que os pessimistas de lei já tinham dito, escrito e pressentido nos últimos anos da Pátria: é de esperar sempre o pior porque o pior acontece sempre. Claro que pensamos que é sempre possível ter jornalistas que não façam perguntas idiotas e editores que arrisquem a sua posição honrada, mas isso é um esforço desnecessário e despropositado. A forma como as televisões lidaram com a tragédia ronda o abjecto, mas o abjecto estava lá, mesmo. [Estas observações são feitas com muito atraso, depois de José Pacheco Pereira ter escrito sobre o assunto no Público e no Abrupto, mas não vem mal nenhum ao mundo. ] O abjecto estava lá. Na rua, no povo, na indignação encenada diante das câmaras. Esse espaço de gritaria à frente da televisão (toda a gente que fez reportagem em directo sabe que as pessoas se transfiguram quando vêem um câmara ou um microfone) retira toda a dignidade à própria indignação. Alguns pensam que vale a pena relativizar e prestar atenção ao contexto. Eu penso que aquilo é o que é. O que me assustou francamente, naquelas transmissões a que assisti sobre o assunto, não foi sequer esse universo abjecto reunido à minha frente, aos gritos, procurando um lugar no apedrejamento, mas o facto de (em relação a este caso de Portimão como em relação a outros casos semelhantes de que a televisão se apropriou) se ter esgotado o lugar da dor. Não o do espectáculo do sofrimento, mas o lugar da dor, aquele silêncio que nenhuma poeira consegue incomodar.
ASSUNTOS ANTIGOS, 1. O texto de O Independente desta semana sobre a autoridade de Santana Lopes é «deslumbrante». A ideia de um primeiro-ministro chamar os seus ministros para lhes dizer que só ele tem autoridade já é obtusa; a de alguém conseguir que alguém escreva que o primeiro-ministro pensa mesmo aquilo, então, é notável.
Outubro 02, 2004
SÓCRATES. A vitória de Sócrates escandalizou muita gente -- à esquerda (muito mais) e à direita (com sorrisos tímidos). Uma das críticas fundamentais é a que designa «o novo líder» como «homem de plástico», «homem de marketing»; a outra designa-o como não tendo muita intimidade com «a esquerda». Estas coisas ficam na cabeça dos jornalistas da tevê. A repórter da RTP mostrou o teleponto de Sócrates durante um discurso no congresso com a alegria pacóvia de ter feito uma descoberta essencial e desatou a perguntar aos congressistas se não tinham ficado alarmados com a ideia; na imprensa, propriamente dita, procede-se a uma «caça ao adjectivo» para ver quando é que Sócrates diz alguma coisa «menos de esquerda».
Tudo aponta para uma nova paranóia: fazer prova de que se é de esquerda. Para Manuel Alegre (que estava com Soares quando ele meteu o socialismo na gaveta) isso resolve-se assinalando, de cinco em cinco minutos, que se é de esquerda. Como se fosse uma vantagem enorme.
AS COLOCAÇÕES. O assunto é velho, eu sei, mas o jornal A Semana, de Cabo Verde, dizia na sua última edição que «lá, na metrópole, parece que houve problemas com a colocação de professores». Uma pessoa pode sorrir às escondidas antes que descubram em nós um complexo colonial. Mas a nota terminava oferecendo os préstimos de Cabo Verde e o seu know-how.
PASSAGEM POR CABO VERDE. O problema é que uma passagem no Mindelo, por pequena que seja, deixa coisas atrás, nuvens de poeira, música, cerveja, conversas. Foi ainda mais difícil regressar ao blog por causa disso. A ideia de que as trapalhadas continuam na Pátria, então, deram o empurrão final e decisivo. E voltar, para quê? Para ver se ainda tenho raízes.
EU, À DIREITA. Numa livraria de Lisboa, uma senhora aproxima-se, olha-me pela esquerda e, depois, pela direita – e desata a rir: «Olha, que engraçado. Eu julgava que o senhor andava sempre de fato e gravata, muito composto e penteado. Como é de direita...» Tentei explicar ambas as coisas, e desenganá-la, mas não consegui.
REGRESSO. Regresso oficial à blogosfera depois de uma quinzena de relações cortadas. Aos poucos se verá.
Setembro 28, 2004
PASSAGEM. Mindelo, Cabo Verde. Quase um oásis servido de mar. Quem esteve no deserto sabe a que me refiro.
Moças que não conseguem calar banalidades em voz alta para serem ouvidas num avião («os aviões da TAP não caem», «por isso é que em África as pessoas são mais descontraídas», «não percebo como é que alguém consegue comer isto») – e franceses ruidosos ao pequeno-almoço. Coisas insuportáveis como outras quaisquer.
Setembro 27, 2004
LITERATURA. Encontrei escrita esta frase num muro de uma estrada da ilha de São Vicente, Cabo Verde: «Roubei ao mundo a melhor namorada que havia.»
Setembro 15, 2004
Setembro 13, 2004
ARGENTINA. O João MF perguntava-se outro dia: «Alguém sabe o que se passa na Argentina?» Não era uma pergunta transcendente e tinha a ver com uma pesquisa do Google. Ora, essa é, curiosamente, uma das perguntas mais pertinentes para quem queira entender o tipo de futuro que está reservado aos países do Sul da América. Eu, que gosto de Buenos Aires (e do River Plate), acho que o que se passa actualmente na Argentina é bem capaz de ser uma lição para aprender devagar. Será a «solução Kirchner» um regresso ao passado?
A mitomania e a mania da grandeza das classes tradicionalmente ligadas ao poder (e o «mau governo»), mataram uma parte da Argentina do nosso tempo. Tomás Eloy Martínez, o autor de Santa Evita, um romance sobre Eva Péron e o seu mundo de fantasmas, chamava a atenção para isso há tempos, numa entrevista ao El Pais: «A classe governante com a sua confiança em que o Fundo Monetário Internacional ajudaria sempre a Argentina, perguntava-se: “Como é que vão recusar estender-nos a mão? Somos argentinos, somos importantes.” A revelação mais atroz produziu-se quando veio a queda da Argentina e ninguém se interessou.»
Há uma passagem fabulosa de um dos autores do século XIX, Domingo Augusto Sarmiento: «O mal que marca a República Argentina é a extensão. O deserto rodeia-a por todos lados e insinua-se-lhe nas entranhas.»
AGUALUSA. A ler, na edição da Época deste sábado (link ainda não disponível), a entrevista de José Eduardo Agualusa a propósito do lançamento do seu livro O Vendedor de Passados (publicado no Brasil pela Gryphus) -- sobre José Saramago: «Não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida.»
Setembro 12, 2004
O QUE É A LITERATURA. Houve, este ano, alguma polémica silenciosa à volta da atribuição do prémio máximo Jabuti, o mais conhecido e mobilizador dos prémios literários do Brasil (o segundo, actualmente, parece ser o Portugal Telecom Brasil). Na categoria de ficção, o prémio foi para Budapeste, de Chico Buarque, que ficara em terceiro lugar na lista, atrás de Mongólia, de Bernardo Carvalho (o vencedor, de facto, nessa categoria), e de A Margem Imóvel do Rio, de Luiz Antônio Assis Brasil. De facto, como se compreende que um livro que fica em terceiro lugar na lista de ficção, ganhe depois o prémio máximo? Explicação simples: primeiro, o júri, com inteira liberdade, dá os seus prémios (ao Mongólia, de Bernardo Carvalho, a Poesia Reunida, de Alexei Bueno, a O Voo da Madrugada, de Sérgio Sant'anna, etc.); depois, com idêntica liberdade, a CLB (Câmara Brasileira do Livro, uma espécie de APEL e UEP) elege aqueles que lhe parecem ser os livros que mais podem mexer com o mercado e animar as livrarias. Digamos que se trata de uma ordem suplementar da literatura; mas o jogo é claro e trata-se de uma decisão honesta. Nem sempre é bom para um livro (como acontece com Budapeste), evidentemente, mas ninguém pode acusar a CLB de falcatrua. E toda a gente percebe.
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Regresso ao mundo do futebol pelo pior dos motivos, perfeitamente acessório. O Joel Neto publicou um livro sobre José Mourinho (José Mourinho, o vencedor. De Setúbal a Stamford Bridge. Dom Quixote); o ex-treinador do FC Porto tentou impedir que o livro chegasse às livrarias. Confesso que, na altura, não percebi bem porquê. Hoje, ao ler quatro parágrafos dispersos ao longo do livro, percebo. Se houvesse biografias não-autorizadas, como as de Joel Neto, sobre figuras populares que pensam ser delas o reino dos céus, talvez houvesse mais decência em Portugal.
Quando escrevo «decência» não escrevo «bom comportamento»; um bom cafajeste é uma coisa digna de se ver.
Setembro 10, 2004
SAMPAIO. Há, agora, uma estranha unanimidade sobre o final de mandato de Jorge Sampaio -- o que causa alguma perplexidade. Durante cinco ou seis anos, Jorge Sampaio disse e fez exactamente o que disse e fez no «final de mandato». O seu discurso, cheio de ditirambos, não mudou muito (curiosamente, tornou-se mais claro nos últimos tempos), elegendo termos como «muito complexa», «preocupação», «admito que», enfim, coisas que se poderiam dizer sobre epistemologia, futebol, touradas de Barrancos (uma das suas intervenções, como hão-de recordar-se), etc., etc. Há exactamente quatro anos, o presidente Sampaio falava sobre o ensino da mesma forma que hoje fala; não vejo onde está a decepção dos que agora tremem de indignação. O dr. Sampaio manifestou sempre um desejo absurdo de consensos a todo o custo -- com o seu discurso sobre a inocência perfeita da cidadania e as suas irritações sempre que lhe perguntavam alguma coisa, como se todos os portugueses tivessem de participar nessa construção grandiloquente de um País homogéneo, perfeito, penteado, adjectivado, adverbiado, com ar saudável (mas de lágrima fácil), ilustrado e com boas maneiras à mesa. Na altura da sua reeleição, os milhares de cidadãos que se recusaram a sair de casa para votar não o fizeram para acompanhar um jogo de futebol, para irem à praia, para assistirem ao Big Brother ou para seguirem as aventuras da Marinha de guerra portuguesa: fizeram-no porque tanto se lhes dava que Sampaio ganhasse com 60 ou 40 por cento, desde que ganhasse e não interrompesse a modorra confortável da Nação -- e foi reencaminhado para Belém, com loas e alívio generalizado; ele tinha calcorreado o País, dizendo que teríamos de ser optimistas -- isso era o suficiente. Uma mensagem de optimismo fica sempre bem, excepto para os que sabem que ela não vale absolutamente nada.
Mas o que incomoda é esta unanimidade recente, que faz desconfiar de qualquer coisa, e que parece querer fazer esquecer os tempos em que toda e qualquer crítica (um reparo, um discordância) a Sampaio eram vistas pela sua base eleitoral como uma afronta à instituição. O que estava escondido em Jorge Sampaio que agora desiludiu os seus eleitores? Suponho que nada. Sampaio foi sempre muito transparente, muito previsível, nas suas qualidades e nos seus defeitos; os ditirambos discursivos serviam apenas para esconder essa qualidade, ou a falta de outras.
SHAARE TIKVAH. Encerram-se as comemorações do primeiro centenário da Sinagoga Shareh Tikvah, na Av. ALexandre Herculano, em Lisboa. Ver a evocação de Nuno Guerreiro, no Rua da Judiaria.
BARNABÉ. Parabéns ao Barnabé, outro dos lugares de referência na blogosfera portuguesa, e que comemora um ano de existência.
DER UNTERGANG. «É arrepiante», escreve Helena Ferro Gouveia, no Público de ontem, «ouvir [Bruno] Ganz recriar a pronúncia austríaca e a dicção teatral característica do “Führer”. O actor consegue mesmo nalgumas cenas quase inspirar simpatia ao espectador, sem no entanto relativizar a desumanidade, a megalomania, a demagogia e a demência do ditador.» O filme é Der Untergang, de Oliver Hirschbiegel, actualmente em exibição na Alemanha – e, pelo que li na crítica alemã (no Frankfurter Allgemeine), parece ser um bom filme. Mas parece-me estranho o último parágrafo do texto do Público: «Escudando-se no rigor histórico, sem recorrer ao instrumentário hollywoodesco, Der Untergang é um filme sólido cuja força reside em não fazer juízos de moral.» Não fazer juízos de moral? Não fazer juízos de moral é o que dá força ao filme?
POPULISMO DE UM LIBERAL À MODA ANTIGA. Se é verdade que, ao gastar 100 euros em compras, o Estado cobra 19; que ao lucrar 100 euros, o Estado enriquece 33; e que, ao ganhar 100 euros, o Estado fica com 50 – há aqui um problema qualquer, não sei qual.
PORTUGAL DE CARA NOVA. A primeira página do Segundo Caderno de O Globo sobre a exposição no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
Setembro 09, 2004
FOZ CÔA. Seguindo à distância o ruído das televisões (das duas a que tenho acesso) em torno dos acontecimentos de Freixo de Numão e as reuniões de multidões à volta do tribunal de Vila Nova de Foz Côa, vejo uma situação surreal. Não que o que aconteceu não tivesse acontecido -- e não me atrevo a tirar substância aos factos. Desde a minha infância, que foi vivida aí, que casos desses aconteciam todos os anos, várias vezes por mês, em jogos de futebol (no velho campo pelado de Foz Côa tanto como nos de Touça, Sebadelhe, etc., etc.), em romarias, ajuntamentos de domingo. O que aconteceria à realidade se não existisse, finalmente, a televisão?
INDEPENDÊNCIA. O Estado de São Paulo diz que «o Presidente quer maior cooperação com Portugal», referindo Santana Lopes, que aliás não identifica na sua primeira página, com o primeiro-ministro de olhar triste e abandonado. O herói do Dia da Independência era Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze na Olimpíada de Atenas: ele é o símbolo de todas as conspirações detectadas e inventadas contra o Brasil.
ONTEM. Ontem, à tarde, na sinagoga Mekor Haim, no Porto, o rabino Shlomo Moshe Amar presidiu a uma cerimónia inédita e muito especial: 'hachnasat Sefer Torah', a entrega da Sefer Torah. A comunidade marrana de Portugal tem a sua casa, sempre a teve.
PORTUGAL. Vejo o Portugal-Estónia na ESPN, com bons comentários. A RTP-i deixará não um mas os dois principais pacotes de cabo & satélite no Brasil (além da Sky, também a Net), sendo substituída pela SICi já a partir de 16 de Setembro. O que vai acontecer à Superliga, isso preocupa-me.
Setembro 07, 2004
GÁVEA. O Gávea é um blog de portugueses sobre literatura brasileira. Sugestões podem ser encaminhadas à vontade.
POPULISTA BOM, POPULISTA MAU. O João Miranda, no Blasfémias, resume assim o encontro de hoje entre Santana Lopes e Lula, em pleno Dia da Independência e em plena onda de patrocínio oficial ao «patriotismo brasileiro». Não sei se era preciso mais um empurrão para o «patriotismo brasileiro» actual, mas, como todos eles, arrasta consigo uma série de incongruências. O novo «caso Larry Rhoter» vem nesse sentido (Larry é criticado oficialmente pelo governo por se limitar a reproduzir as críticas que no Brasil têm sido feitas ao projecto de lei sobre a imprensa, quase unânimes na imprensa). Santana Lopes gostaria muito, gostaria. Mas não pode.
ESQUECIMENTO. Dias sem blog, esquecimento pela certa. Não assinalei o primeiro aniversário da Grande Loja, sem dúvida uma das boas referências portuguesas. Ficam as saudações, sinceras.
LARRY AGAIN. Larry Rhoter, o correspondente do The New York Times no Brasil de novo na mira do governo, desta vez por causa de uma peça sobre o estapafúrdio projecto de regulação da imprensa que o governo queria fazer aprovar no Congresso. Rohter teve o seu visto de permanência no Brasil cancelado há uns meses, depois de publicar um texto no NYT sobre «os problemas de Lula com a bebida»; felizmente, alguém chamou Lula à razão (crê-se que o ministro da Justiça, Thomaz Bastos). Desta vez, o caso «tem antecedentes» e pode ser mais absurdo.
O BRASIL E A CPLP. O Paulo Gorjão notou um interesse do presidente brasileiro na sua política africana, nomeadamente na cooperação com Moçambique. «Até que ponto», pergunta o Paulo, «Lisboa e Brasília serão parceiros ou rivais (ou as duas coisas) no espaço geográfico dos PALOP? A resposta a esta questão prévia ajudaria a clarificar qual deverá ser o papel a desempenhar pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no âmbito da política externa portuguesa.» Ora, o Brasil está interessado qb na CPLP; a aproximação sucessiva que o Itamaraty e o Planalto fazem a África, mesmo que tenha como ponto de partida as escalas da CPLP (S. Tomé, Cabo Verde…), tem a ver com outra ambição mais larga das actuais autoridades de Brasília e com a sua tentativa de colocar o Brasil na cena diplomática internacional. A CPLP é uma escala. O objectivo do Brasil, ao perdoar a dívida de Moçambique, do Gabão, de Cabo Verde, ao prestar homenagem à ditadura do Gabão ou ao visitar a Síria, a Líbia, mesmo ao tentar estabelecer pontes mais sérias com a China, é precisamente esse e não pode desligar-se da tentativa de assumir a liderança dos países do sul da América, promovendo o Mercosul contra a Alca, cedendo à mesa das negociações em matérias sensíveis da balança comercial com a Argentina (a «guerra dos electrodomésticos», por exemplo, terminou com uma aparente derrota comercial brasileira mas com um incremento do seu peso político no cone sul), assumindo a pacificação do Haiti – com uma das metas à vista: caçar votos para obter um lugar fixo no Conselho de Segurança da ONU.
Quanto à CPLP, seria tema para muita outra conversa.
CRISTÃOS. Num texto publicado na semana passada na Folha de São Paulo, Olavo de Carvalho chamava a atenção para um fenómeno curioso: o número de vítimas mortais, em todo o mundo, resultante das perseguições a cristãos em países muçulmanos.
CONTINUA A CONVERSA ANIMADA. A ideia de que não vale a pena discutir o anti-semitismo (primário ou secundário) nestas condições, parece-me justa. Sobretudo quando se verificam duas coisas: 1) dualidade de critérios; 2) ignorância sobre aquilo de que se fala. Por exemplo: quando se fala de judeus, fala-se de quê? Quando se escreve sobre judaísmo, fala-se de quê (de religião?, de cultura, de associações judaicas?)?
Primo Levi: «Nestas coisas nunca se experimenta a sensação de nos deixarem em paz.»
Por outro lado, em matéria de discussão sobre o Médio Oriente, uma coisa é certa: enquanto não existir um estado palestiniano, nada feito. Um estado palestiniano democrático, onde as pessoas se ocupem dos seus negócios, das suas vidas, das suas escolas – e deixar de existir «a Palestina», uma plataforma para que as ditaduras do mundo árabe possam manter todos os álibis e sublinhar todas as desculpas para apoiarem o terrorismo ali ou noutros lugares. Esse estado não existe desde 1948 porque os estados árabes da região não quiseram. Duvido que ainda hoje o queiram, com clareza.
Setembro 06, 2004
REGRESSO. Regresso ao blog a meio de um «fim-de-semana grande» no Brasil, o da Independência; é o «feriadão». Todas as grandes imagens que encontro nas televisões e nos jornais que leio vêm da Rússia e não vale a pena repetir a comoção. Mas, como de costume, recomendo a leitura de uma reportagem de Martin Adler publicada na série mensal da Grande Reportagem, há três anos. Na altura, andámos à volta com a peça de Martin e com as suas fabulosas fotografias; tinha ocorrido há semanas o massacre do teatro de Moscovo. E demos capa ao assunto. Aliás, toda a capa. E escolhemos um título: «Lembras-te de Grozny?» Martin Adler tinha entrevistado, na altura e dois anos antes, em Grozny, vários cidadãos árabes. E publicara um nome: al-Qaeda. Uns meses antes, estivera na Etiópia, também em serviço para a GR. E uns meses depois partiu para Bali. Soma absurda de coincidências.
Agosto 25, 2004
PASTÉIS DE BELÉM. Não resisto a dizer isto: já fui ao Habib's comer um pastel de Belém. Tal como a Maura esclarece no seu blog, o Habib's é a maior rede de fast food de tom árabe do mundo, e nasceu no Brasil como criação do Sr. Saraiva, um português. Na altura do Euro'2004, o Habib's lançou a promoção do pastel de Belém com um cartaz belíssimo que descrevia o pastel, falava do aspecto cremoso, da massa crocante, e do preço: «Uma piada.» Pois o pastel de Belém já se tornou moda no Brasil graças ao Habib's. E, de facto, custa 20 cêntimos de euro, quer dizer, 80 centavos de real.
P.S. - Ah, e comprei a edição da Playboy com a Mel Lisboa na capa. Na capa.
OBIKWELU, 3. O meu caro Filipe Nunes Vicente comenta a questão levantando um problema adicional:
«A tentativa oposta, a da adopção sem reservas da vitória de Obikwelu como uma “vitória nossa” é também uma posição nacionalista e xenófoba. Um anfitrião acolhedor não retira os louros à proeza que o hóspede alcança sob o seu tecto. Um país que foi escolhido e que acolheu, deixa que os frutos desse enlace cresçam sem impor o seu papel de terra fértil. A cobrança do sucesso de um emigrante, apresentando a factura da nova nacionalidade não passa de um requentado sonho de superioridade sobre o estrangeiro. O que perguntavam a Montesquieu quando trouxe o seu estrangeiro imaginário a Paris – “como se pode ser Persa?” – exprime a ruptura entre o território e o (novo) indivíduo. Essas reconstruções podem ser, como sabemos, fatais.»
P.S. - Caríssimo Filipe: toda a razão. Outra história: quando José Saramago obteve o prémio Nobel da Literatura houve uma pequena discussão, nem por isso muito surda, sobre a titularidade do prémio. Toda a gente dizia que o prémio era para Portugal e, por extensão, para a Língua Portuguesa. Na altura, discordei o suficiente para que o próprio Saramago repetisse que não, que o prémio era de todos os portugueses. Mantenho que não é. É de José Saramago; foi ele que escreveu. A questão aqui é diferente, mas os princípios gerais mantêm-se; Obikwelu correu. Por isso, além dos argumentos que invoca, tem toda a razão nessa cautela que manda apresentar. Daí ser importante o debate sobre nações, nacionalidade e nacionalismo proposto pelo Paulo Gorjão.
OBIKWELU, 3. Do Brasil, Gonçalo Soares também escreve sobre o mesmo assunto:
«A propósito de Obikwelu, acho que ele pertencia a uma selecção Nigeriana de juvenis, tendo-se escapulido aquando de um qualquer torneio em Portugal, e aí sim, descoberto por alguém do Belenenses a trabalhar nas obras. Também no Brasil existem naturalizados nas Olimpíadas. Só nesta há pelo menos um ex-ucraniano e um ex-argentino (!) na canoagem. O vencedor do ouro olímpico em Moscovo/1980 foi um brasileiro nascido (e criado) na Suécia e que ainda hoje não fala muito melhor que o Obikwelu. E os canadenses ex-Jamaicanos dos 100 metros (Ben Johnson, por exemplo)? E a Marlene Otey que agora é Eslovena? E o nosso vício de polemizar e emitir opinião sobre o que quer que seja?»
OBIKWELU, 2. Por mail, José Serra comenta a questão da nacionalidade a propósito do caso de Francis Obikwelu.
«Um pequeno comentário a propósito da recente “questão da nacionalidade” do nigeriano naturalizado português, Francisco Obikwelu. Somos um país sui generis, que se debate há séculos(?) com a própria identidade (quando deixará Portugal de ser adolescente?). Agora, por ocasião da vitória do Francis(co) Obikwelu, regressam antigas questões identitárias: o que é isso de ser português? Pode um nigeriano, naturalizado, reclamar-se o direito de competir pela nossa bandeira? E, tendo vencido, será que o sentimos realmente “nosso”, um portuga de pleno título (e, com a escassez de vitórias, um herói lusitano)? E se tivesse perdido, ou melhor, se nada tivesse ganho, como o trataríamos? Reparo com surpresa que a Europa, que jaz adormecida nos seus cotovelos, não pôs em causa o facto de Obikwelu ser o novo recordista europeu dos 100m. Não é um problema para a Europa. Por que será para Portugal? Ou melhor, para alguns portugueses? É o velho tema da pátria a que se pertence. A este propósito, recordo Teixeira de Pascoaes e «A arte de ser português», Vitorino Nemésio e a Açorianidade; lá fora, recordo Leopold Senghor e a Negritude. Haverá, porventura, uma lusitaniedade que possa ser critério de aceitação, ou não, de Francisco Obikwelu e da sua medalha de prata? […] A Pátria é a medalha de prata do Francisco Obikwelu. Porquê? Não só porque é naturalizado português (como o mágico Deco do nosso contentamento! E , espera-se, do Derlei), mas também, e sobretudo, porque TRABALHA EM PORTUGAL (apesar de frequentar a pista de alto rendimento de Madrid ou Barcelona, não tenho bem a certeza). Ou como dizia George Steiner em Barbárie da Ignorância (Fim de Século, 2004,p. 39): “O que eu digo é que a minha pátria é onde posso trabalhar. Seja em que país for, contanto que me dêem uma mesa de trabalho. Chego a Pequim, como professor convidado e, durante cinco minutos, passo por um enorme susto: a máquina de escrever tinha muito poucos caracteres, o cheiro era inenarrável, etc. E disse para comigo: ‘Que vieste tu fazer para este degredo?’ Entra um estudante que me pergunta que livro deve procurar para preparar o seminário: esqueci-me de onde estava! Faziam-me perguntas boas, eram estudantes bons e eu disse para comigo: ‘Mas sim, sabes perfeitamente o que tens a fazer aqui!’ A Pátria está onde nos deixam trabalhar.” Foi o que o Francis encontrou entre nós. Francisco, bem-vindo. És dos nossos! Obrigado pela medalha. Oxalá te acolhamos como mereces.»
RTP INTERNACIONAL PERDE ANTENAS. No Brasil, a Sky, o mais importante fornecedor de televisão por cabo e satélite, acaba de anunciar que a RTPi deixa de figurar no seu pacote de programas. A partir de agora e durante um mês apenas, a RTPi continuará a ocupar o seu lugar habitual no canal 86, com a SIC a ser deslocada para o canal 149. A partir de 16 de Setembro, a RTPi desaparece completamente e a SIC ocupará o seu lugar no canal 86. A Sky avisa, no entanto, que a Superliga de futebol vai ter programação especial.
Agosto 23, 2004
PORTUGUÊS LEGÍTIMO, POR EXEMPLO. Um dia, em Porto Alegre, durante a rodagem do documentário Avenida Brasil, entrevistei um vendedor de cuias de chimarrão, na rua (aliás, na esquina com a Praça Montevidéu); o nome dele era Schneidermann, e perguntei-lhe a origem. Resposta: «Tche... Origem? Mãe italiana, pai alemão, sou brasileiro legítimo.»
Nem de propósito, encontrei este adesivo brasileiro bem a propósito.
OBIKWELU. O fenómeno Obikwelu despertou um debatezinho (ainda) sobre o que é a condição nacional. Parece-me que esse debate faz falta depois da onda patriótica de Junho passado. [A propósito, o Paulo acha que as suas razões não são muito divergentes das minhas; nem as minhas das suas, está claro.] Mas seria bom fazer o levantamento das dúvidas que se levantam pela imprensa e nos blogs sobre o portuguesismo desta vitória, e que me parecem patetas e patéticos. Mas a minha surpresa maior veio quando, hoje, me mencionaram, de novo, a qualidade de «português legítimo», ou seja, sanguineamente irrepreensível. Não sei o que isso seja; nesse caso, se alguma vez essa ideia voltasse ao discurso oficial, eu gostaria de ser sanguineamente repreensível e que me retirassem compulsivamente a nacionalidade.
Depois, há outro debate, «muito pedagógico» (como agora se diz...): a ideia de hospitalidade. A Maura Paoletti tem vários exemplos publicados no seu blog (certamente pouco comoventes) dos tempos em que viveu em Portugal. Mas há mais, na blogosfera e fora dela. Quando, há tempos, mencionei aqui a expressão «pois tu foste estrangeiro» a propósito da forma como são recebidos muitos emigrantes em Portugal, a citação bíblica significa um imperativo moral muito elevado. Não deve ser interpretada apenas no interior de uma condição cívica. É um dever moral, o da hospitalidade. E o nacionalismo raramente foi produtivo, inteligente ou justo.
P.S. - Obikwelu escolheu ser português, o que devia ser discutido também. É claro que Derlei vai ser português mais tarde ou mais cedo; mas aí, como assinalei, há outros interesses envolvidos.
ANTI-SEMITISMO SECUNDÁRIO, 2. Eu compreendo (com alguma ginástica, mas compreendo) aqueles que tendem a desvalorizar os ataques anti-judaicos na Europa e a juntá-los à lista de «ataques racistas»; mas não me parece uma posição séria. Ser judeu não é pertencer a uma raça; e esse argumento é definitivo. Depois das imagens do último ataque a um centro cultural judaico, em Paris, as suásticas desenhadas na parede não parecem ser apenas racistas. E o que me parece cada vez mais coincidente é o arrazoado anti-judaico que vem de gente de esquerda e de gente de direita. E que, independentemente da origem, é abjecto na mesma.
A imagem mais triste vinha precisamente na primeira página do The Guardian há uns meses, e foi reproduzida em alguns jornais portugueses; a legenda dizia «manifestações contra a invasão do Iraque» e a foto era de uma jovem quem empunhava um cartaz onde estava escrito «Kill the Jews». Mas não devemos deixar que um facto atrapalhe esses arrazoados, não é?
EMIGRANTES E PORTUGUESES. Já vão longe os tempos em que a selecção nacional de futebol tinha um treinador que achava que havia «portugueses legítimos» e «os outros». Depois, gerou-se a «questão Deco» em torno da bandeira das quinas e das cores da camisola. Agora, Obikwelu. A minha opinião sobre o assunto já foi publicada várias vezes, quer aqui quer noutros lugares. E sobre a política de emigração já escrevi qb.
É evidente que futebolistas não são emigrantes. Mas há uma questão curiosa sobre Obikwelu que acaba de ser colocada pelo Paulo Gorjão:
«Deixo aqui uma perguntinha para algumas pessoas que hoje estarão a celebrar orgulhosamente a medalha de prata de um português na final de 100 metros, nos Jogos Olímpicos de Atenas. Na actual moldura legal, que apenas permite a entrada de cinco mil e tal imigrantes por ano, será que alguma vez Francis Obikwelu teria tido hipótese de vir para Portugal e, mais tarde, de se naturalizar português?»Obikwelu não veio para ser atleta olímpico português; veio trabalhar nas obras num país considerado «um dos menos receptivos a acolherem cidadãos emigrantes». Por isso, quando vejo almas justas e vozes sensatas reclamar esta «vitória portuguesa em Atenas», também sorrio como o Paulo, embora por razões um pouco diferentes.
Agosto 22, 2004
UNIÃO. O Duarte festeja. «Bruxelas aprova farinheira de Estremoz», como noticia o Expresso. Seria interessante saber o que mudou nos hábitos alimentares dos portugueses depois da entrada na União. É um assunto e tanto. O tamanho e a distância entre os dentes dos garfos, por exemplo, chegaram mesmo a mudar? Foi positiva a proibição das colheres de pau nas cozinhas dos restaurantes? E as tábuas de cozinha, terão de ser de material sintético? Os espanhóis continuam a comer os pequenos linguados que antes se encontravam também em Portugal? O Português Suave mudou para Português, toda a gente sabe -- haverá aí alguém com ciência e paciência suficiente para fazer uma lista dessas leis e novos hábitos?
PREOCUPAÇÕES DO HOOLIGAN. Tanto eu como o J. Flávio estávamos preocupados, sim. O João esclarece que o Duarte esclarece (e ninguém melhor do que ele...) que a bola se mantém na RTPi. Portanto, de vez em quando lá teremos futebol pátrio com fusos horários pelo meio. Canal 86, com quatro horas de diferença.
COMO SILVA, POR EXEMPLO. A seguir a Obikwelu, Silva é o mais português dos nomes. Com ou sem medalha.
FRANCIS. [Actualizado] Mesmo que tivesses ficado em último hoje à noite. Mesmo assim. Mesmo que tivesses acabado com os sapatos rotos, não te queixarias. Mesmo assim e de qualquer maneira. Há coisas que nos devolvem a pequena garantia de que o esforço vale a pena. Francis Obikwelu é um nome absolutamente assim. Português, até.
INDICAÇÕES SOBRE ORTOGRAFIA. O Pedro Ornelas publicou um bom conjunto de observações sobre os dicionários e a ortografia. Vale a pena dar lá um salto. Já agora, e aproveitando o lamiré do Pedro, que tal pensarmos que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa vai entrar em vigor, segundo tudo leva a crer depois da cimeira da CPLP em São Tomé?
O ANTI-SEMITISMO SECUNDÁRIO. Um cemitério judaico vandalizado não vale nada. Há tantas coisas vandalizadas, estradas, casas, memórias, bibliotecas cheias de proibições, passeios estropiados, jardins, aldeias de África, borboletas que não completam um dia de vida. Um cemitério judaico não vale nada. Uma pedra não vale nada, é certo. As coisas têm sempre uma justificação, como se sabe -- uma coisa por causa de outra, há minorias mais rendíveis do que outras, racismos com outra origem que são sempre mais funestos. A vida não vale grande coisa. A memória é um desperdício.
Há muito tempo que não falava do assunto. Há muito tempo que tinha prometido a mim mesmo assistir ao espectáculo e à desonestidade. O riso e o silêncio andam juntos. O estímulo da barbárie ajuda a desculpar outras barbáries, a justificar os vandalismos, a estabelecer uma espécie de doutrina comparativa sobre o sofrimento. Batem em judeus? Que importância tem comparado com o sofrimento que anda em toda a parte? E quando são vandalizados cemitérios cristãos na Indonésia? E quando os muçulmanos são dizimados na Índia, em Gujarat? A barbárie diante do silêncio. Chegam mensagens curiosas: a televisão israelita acaba de transmitir um documentário sobre o sofrimento palestiniano. É preciso chegar a esta minha hipocrisia de invocar isto para poder falar daquilo? Onde está alguém a vigiar a linguagem, as equivalências morais, a superioridade do sofrimento, o que é relativo no Kosovo e no Sudão, na Índia e no Peru? Nada é relativo. Quando falo disto falo de outra linguagem, não quero ganhar um voto que seja. Nas tintas. Falo do que não tem equivalência moral. Sim, têm razão, não é anti-semitismo primário; secundário, convenhamos. De segundo nível.
Lamento pobretanas, este. Lamento indigente, sofrível, medíocre. Só um lamento ao lado do riso e do silêncio; a ironia gasta-se muitas vezes. Façam como quiserem: um cemitério judeu não vale nada. Nada. Aliás, quando invoco a imagem do cemitério judaico invoco todos os cemitérios em que isto se transformou. Não quero ganhar um voto, um milímetro do mapa. Mas compreendo aqueles que não aceitam ser esmagados de novo, uma outra vez, uma pequena vez que seja. Silêncio e riso.
RECEITA DE CARIL. A Diotima («...aus Lissabon...») provoca-nos com a sua receita de caril:
«Está na altura de afogar as gambinhas naquele repasto - ah, e era vê-las deliciadas de se afogarem naquele mar das índias, as putinhas saborosas. Coloca-se o sal, esse condimento que alegra as veias, e deixa-se estar. As gambinhas atingem o seu pico sexual aos 15 minutos. [...] Como tudo tem o seu tempo, como na vida, eu fumo um cigarro e encho o copo antes de preparar a faca que tirará a vida a um molho viçoso de coentros. Estes servirão de gargantilha para o meu caril.»
PRECIOSISMOS? A Maura, apesar de se ter mudado para o Brasil (e de flirtar no eixo São Paulo/Florianópolis) continua sempre atenta às coisas de Portugal. Desta vez apanhou esta, saída do conglomerado de reportagens da RTP: «Os dois irmãos que morreram afogados na Praia de Pedrógão eram da mesma família.»
CAVALEIRO DE OLIVEIRA. Para explicar algumas coisas portuguesas (e da sua fermosa estrivaria) eu recomendo a leitura de um texto do Cavaleiro de Oliveira, publicado há tempos pela Frenesi, traduzido e preparado por Jorge Pires: Discurso Patético Sobre as Calamidades Presentes Sucedidas em Portugal, na sequência dos acontecimentos de 1775. É claro que o Cavaleiro de Oliveira (Francisco Xavier de Oliveira, 1702-1783)foi queimado em efígie como herético, mas isso é um pormenor.
A ilustração é de João Abel Manta.
DUALIDADE? Caro Gabriel: se fosse ao contrário, uma parte do céu cairia com estrondo. Não é novidade.
A PARVOÍCE. [Actualizado] Pergunto-me muitas vezes sobre o que leva gente de esquerda e gente de direita (reparem que não escrevo «a esquerda» ou «a direita»; não vá o diabo tecê-las) a dizerem exactamente as mesmas coisas quando, «na blogosfera», revelam o seu anti-semitismo. E acho que é a parvoíce mesmo. Nem conseguem ser agressivos; só mentecaptos.
É evidente que há outra razão para isso tudo: a ignorância que, normalmente, arrasta consigo a arrogância. Recomendo os posts de Nuno Guerreiro no seu blog (sobre o anti-semitismo em França e as citações do Not a Fish).
Não vale a pena, por isso, demonizarem a linguagem e os textos do Crónicas Matinais, onde a Ana Albergaria tem vindo a dar exemplos -- desde há mais de um ano -- sobre a matéria.
PORTUGUESES, 2. Cláudio Versiani é um fotógrafo brasileiro (e esteve nos bons tempos do Correio Braziliense) que vive actualmente em Nova Iorque (para onde voltou depois de uns meses em Portugal) e que está atento à vida dos portugueses no Brasil. Graças a ele li hoje esta notícia no Estado de São Paulo: «A portuguesa Elizabete Sardinha mede 1,62 metro, pesa 57 quilos e tem 30 anos. Está longe dos padrões exigidos pela moda, mas nesta sexta-feira realizou o sonho de desfilar na passarela. Ela ganhou o concurso de beleza do presídio de mulheres Talavera Bruce (TB), na zona oeste, onde cumpre pena de quatro anos por tráfico de drogas. Elizabete, que nasceu em Coimbra e fazia um curso de esteticista em Portugal, concorreu com outras 16 companheiras presidiárias.» O jornal acrescenta que «como prêmio, a portuguesa ganhou uma calça jeans, um ventilador e um kit com produtos de beleza».
[Na foto, Elizabete Sardinha está acompanhada por Vera Loyola, a senhora que os jornais dizem ser a socialite do Rio, seja lá o que isso for.]
Nem de propósito, acabo de ler um texto do Cláudio, no blog de Ricardo Noblat; geralmente, o Cláudio escreve sobre Nova Iorque e os EUA, uma vez que vive lá. Desta vez, retoma um assunto muito comum aos brasileiros que vivem no exterior: «Essa historia ilustra um sentimento que nós, brasileiros, terceiro-mundistas temos. Ou pelo menos a maioria de nós. Bom é Paris ou Nova York. Mas a realidade é sempre diferente. Morar em Nova York é muito legal, mas legal mesmo é morar no país da gente.» O que lembra Jobim quando colocou a hipótese de regressar ao Rio (ele vivia nos EUA). «Você vai regressar?» «É. Eu sei, eu sei. Nova Iorque é bom, mas é uma merda. O Brasil é uma merda, mas é bom.»
PORTUGUESES. Quando oiço aqueles senhores de dedo espetado evocando a glória de termos sido portugueses, eu também penso nestes. Graças a eles, ainda temos alguma cor.
Agosto 21, 2004
TIAGO VERDIAL. Esta história eu gostava de escrever, a de Tiago Verdial, «espião português» ao serviço da Kroll, implicada em vigilância e escutas ilegais à Telecom Italia, presidente do Banco do Brasil, L. Gushiken (actual ministro da presidência de Lula, na altura ligado a um dos grupos que disputavam a Embratel), e que incluiram «flagrante» de uma reunião entre conspiradores para tomar o poder na mesma Embratel em Lisboa (no Ritz, creio). Este foi um dos blogs mais visitados durante a semana da prisão de Verdial. Os argumentos são os do costume («Tiago está sendo acusado de crimes que ele nem poderia, nem conseguiria cometer, mesmo que tivesse essa intenção ou algum interesse. Ele é o famoso peixe pequeno, geralmente quem acaba sendo crucificado em historias desse tipo. Não é rico e não tem essa vida glamurosa de espião que já começou a ser retratada em toda a mídia, sempre morou de aluguel e nem tem carro.»), mas a história que circula em vários lugares é complexa o suficiente para ser bem contada.
IMPRENSA. A discussão brasileira sobre a liberdade de imprensa e a noção de autoridade & vigilância merece atenção. Ricardo A. Setti contribui.
Agosto 20, 2004
CASA PIA. Sobre o caso, alguns pontos de vista deste blog merecem atenção.
QUESTÕES DE IMPRENSA. O pessoal continua na senda das grandes vitórias. No Brasil, segue a questão da liberdade de imprensa. Leituras avulsas: na Primeira Leitura, no blog do ex-ministro (é do PT, portanto) Cristovam Buarque, Guilherme Fiúza no No Mínimo, de Hélio Schwartsman no Folha de São Paulo, e agora de Luis Fernando Verissimo, no Globo. Cuidado com as canetas, rapaziada.
E MENSAGENS PARA OS VIAJANTES. Os que andam de lugar em lugar, de cidade em cidade, de ilha em ilha.
LEITURAS DISPERSAS. Outro blog que vale a pena ler – uma espécie de diário, mesmo, com gastronomia incluída (uma variante de caril muito apetitosa) – é o Diotima.
Agosto 14, 2004
CLOSED FOR THE LONG SEASON.
«So I belonged no further to the work.
I gathered cups and folded up the cloth
And went. But they still kept their ease
Spread out, grateful, under the trees.»
{Seamus Heaney}
O PAÍS É UMA COISA ESTRANHA. STEINER: «Estamos perante variantes, glosas. Uma vez mais e sempre, gostaria de compreender qual vai ser a nova metáfora da esperança, a nova estética da esperança. É possível que tenhamos de percorrer túneis extremamente sombrios até que a confiança da imaginação se recomponha.» {Barbárie da Ignorância}
RÁDIO. O Blasfémias (A.A.A.) evoca um dos momentos mais abjectos da rádio deste ano, com a participação de um idiota chamado Mário Alberto. Na altura, neste blog e no Homem a Dias houve protestos -- mas sem indignação, calma. O pessoal achou graça ao inimputável.
Agosto 12, 2004
POEMAS. Descubro um livro, A Palavra Exuberante, de Zetho Cunha Gonçalves (edição Parceria A.M. Pereira), um pequeno conjunto de poemas cheios de África — ignorados até agora, o que é uma pena. Algumas surpresas:
«Terra? As queimadas da infância,/ as velhas árvores ardendo,/ castiçais na noite.»
«Música? Lembra-me uma coisa/ muito antiga, onde ninguém toca,/ com receio de quebrar o encanto do ar.»
«Os barris de vinho/ cortados ao meio/ —selhas/ onde crescem/ as açucenas.»
Agosto 11, 2004
TÁXIS. Escreve a Cláudia, por mail, sobre a história que aqui contei há dias sobre uma história de táxis no aeroporto:
«Acabei de ler a sua história sobre taxis. Toda a gente tem uma e todas são igualmente angustiantes. Só não se percebe porque é que não existiu ainda uma regulamentação séria daquela actividade. Ou ainda, milagre dos milagres, uma iniciativa de auto-regulamentação.
Houve um taxista que me tentou atropelar depois de ter que "fazer um serviço de merda" comigo às 3 da manhã, da Lapa para o Bairro Alto. Passou o percurso inteiro a dizer palavrões, e chegando ao destino, arrancou mal eu tinha tirado a segunda perna do carro. Estava eu a tentar equilibrar-me quando o criminoso arrancou violentamente para a frente, ganhando espaço, para depois pôr a marcha atrás a toda a velocidade. Uma amiga que estava comigo empurra-me para fora da estrada, evitando que eu fosse atropelada. Isto ultrapassa a falta de respeito pelo outro, isto é um atentado físico.
Esta é a minha pior história. Entre outros episódios já me pediram para eu me juntar ao célebre slogan enquanto conduzir beba (ó menina, beba uma cervejinha comigo), já tive que andar a pé para ir buscar trocos ("eh pá então dá-me uma nota de 20 euros?"), já suportei ofensas repetidas por ter de apanhar taxis do aeroporto para a Av. dos EUA, onde a minha família mora. Já tive que decifrar mapas de ruas, suportar os cigarros de taxistas que se passeiam com cinco autocolantes a dizer "proibido fumar". Já me disseram que pôr cinto de segurança era uma ofensa (os palavrões que eu oiço, esses, não são ofensa), já fui transportada por pessoas de idade avançada e sem reflexos para conduzir. Eu tenho muito medo de andar de taxi em Lisboa...»
Agosto 10, 2004
ANDA TUDO LIGADO. O Billy Shears, do Aifai, recorda aquele momento em que, no palco de The Last Waltz, a homenagem aos The Band, Robbie Robertson se refere a Van Morrison: «Van, the Man!» Isso lembrou-me o festival de Derry, há uns anos (em 1994), quando Van Morrison deu um concerto muito, muito bom (eu ia a escrever «memorável», mas isso diz-se tanto...). No dia seguinte, em Dublin, o The Irish Times, rompendo com a sua circunspecção e gritando com uma voz de fazer inveja a Robbie Robertson, publica uma manchete impressionante: «Van, the Poet.» Mais nada («...e mai nada...»). «Van, the Poet» era uma manchete ousada, sim. E quantos jornais portugues escolheriam uma semelhante?
ACORDO ORTOGRÁFICO DE REGIME. De resto, o Acordo Ortográfico vai parecer-se muito com estes acordos de regime, com a diferença de que não se sabe muito bem o que significa um acordo de regime em matéria como a justiça, por exemplo. Parece que o que está em causa, ou subjacente à oferta de pacto de regime, são questões do código penal e do código de processo penal -- e não a justiça propriamente dita. Sobre os códigos, espera-se que o Parlamento trate do assunto e rapidamente, para se acabar o regime de queixinhas. Sobre a justiça (ou a Justiça), espera-se que a lei seja respeitada e que os «seus agentes» trabalhem de acordo com as regras. Isso é que era um grande acordo de regime.
Tudo isso será certamente impossibilitado pela forma como a investigação policial é analisada em directo, como os processos vão parar às mesas das redacções, como os telefonemas privados são tornados públicos, como a promiscuidade e as regras de favor são protegidas. Nada de escândalo; é assim há anos. Por isso, o verdadeiro acordo de regime era esse: obrigar a cumprir a lei e haver gente decente a cumpri-la.
ORTOGRAFIA ALEMÃ. O João Miranda, do Blasfémias, chama a atenção para este texto do Público: alguns jornais regressarão à antiga ortografia alemã dado que a adopção das normas da reforma de há oito anos está a causar problemas: «A introdução das regras confundiu os alemães de tal maneira que os pais passaram a escrever de modo diferente dos filhos, as crianças de modo diferente dos autores cujos trabalhos são lidos na escola e os autores de modo diferente dos jornais e revistas em que os seus trabalhos são publicados.» Este é um assunto que nos devia preocupar um nadinha, uma vez que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (de que o actual primeiro-ministro foi, na altura, um entusiasta) foi já aprovado e na última cimeira da CPLP, em São Tomé, se voltou ao assunto no sentido de apressar a sua entrada em vigor. É um assunto para retomar.
P.S. - O assunto não é novo, de resto: o Frankfurter Allgemeine Zeitung já tinha abandonado a nova ortografia. É o meu jornal.

ORTOGRAFIA, GRAMÁTICA. Sim, caro Pedro Ornelas, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Lindley Cintra e Celso Cunha (a «grande» ou a «pequena») é, de facto, exemplar. A nossa melhor gramática. (Imagens das capas das edições portuguesa, João Sá da Costa, e brasileira, Nova Fronteira.)
P.S. - O Pedro ficou com a expressão «classe educada», que eu usei várias vezes, «atravessada». Não é caso para isso. O próprio Pedro dá resposta à questão no seu post de hoje («uma 'classe educada', numa quantidade e qualidade que não tem qualquer comparação com a de há 30 anos»). O grande problema da «classe educada» é a sua demissão e desresponsabilização -- como se nada fosse com ela. Já um dia escrevi aqui sobre a «responsabilidade social dos ricos»; talvez um dia fale sobre a «responsabilidade social das 'elites cultas'», mas é também a elas que se aplica o meu texto de ontem sobre Sam Shepard.
ALEGRES IRONIAS. Ler o post «Alegre», de Duarte Moral, no Golpes de Vista, sobre Manuel Alegre como «apóstolo da esquerda».
Agosto 09, 2004
HOOLIGAN DE MANHÃ CEDO. Às vezes, de manhã cedo chegam as boas notícias. Há coisas que recomendam Victor Fernandez, não tenho dúvidas.
BOTAFOGO. O excelente Nuno Lima – que, se não é alvinegro, adepto do Botafogo mesmo, é um dos melhores portistas a norte do Equador – ficou surpreendido com a minha referência ao hino do fogão estragado pelo Zeca Pagodinho. E enviou-me, em mp3, a versão anterior, de Beth Carvalho e do grande Ed Motta, e onde consta a narração de outro golo de Garrincha.
DARFUR. «The situation in Darfur is not an American issue. It is not a European issue or an African issue. [...] The cruel irony in all of this is that the world has been down this road before, in both Somalia and Rwanda.» Não se trata de indignação.
ORTOGRAFIA & SAM SHEPARD. O que eu queria dizer com os textos sobre ortografia e o Português está escrito de outra maneira por Sam Shepard em «O Pedaço do Muro de Berlim», uma das histórias de O Grande Sonho do Paraíso: um miúdo do secundário (sétimo nível, nos EUA) pede ao pai que lhe conte coisas sobre os anos oitenta para a disciplina de estudos sociais. A princípio, o pai não se lembra («Diz que a coisa mais importante dos anos oitenta era ter sido quando ele conheceu a minha mãe e quando eu e a minha irmã nascemos. Quando lhe digo que não é permitido falar de assuntos pessoais, ele diz: e para além disso o que é que há?»), «que nem se consegue lembrar de ter vivido durante a década de oitenta». Mas depois a irmã fala do Muro de Berlim. Ele, o estudante do sétimo nivel, pergunta «como é que ela sabe essas coisas» e «ela diz que é porque estava lá». E apresenta «um pedaço de cimento pintado mais ou menos do tamanho de um cheeseburger». «Isso é um pedaço do Muro do Berlim», diz ela. O pai fica excitadíssimo com a recordação de Berlim e mete-a num saco plástico, transparente, ata-o com fita cola, etiqueta-o com «marcador preto Magic Marker, como se fosse uma espécie de rótulo de museu ou coisa do género». «É completamente doido», lembra o estudante. «Como é que se pode esperar que eu saiba a resposta? Eu ainda nem sequer tinha nascido quando aquilo aconteceu.» O pedaço de Muro de Berlim «é apenas um pedaço de cimento», diz ele. «Não o percas», pede-lhe a irmã. «Como é que posso perder? Tem um rótulo», responde ao sair de casa.
E é isso que a discussão sobre o Português evoca neste momento, uma ligação à história da nossa vida. Não apenas um rótulo, uma regra, uma norma, uma perseguição. Mais uma delicadeza para com o passado e as letras que foram escritas antes de cada um de nós as escrevermos, uma a uma.
ALIÁS (O CANTINHO DO HOOLIGAN NÃO PERDOA). Em relação ao texto anterior, esqueci um ponto. Outro dos meus discos deste Verão é a série de hinos dos times brasileiros publicada pela Placar: o fantástico hino do São Paulo (pelos Capital Inicial e Ira! -- nunca vi tanta trapalhada, mas o hino sobrevive), o do Flamengo (Herbert Vianna e Gabriel O Pensador), Bahia (Caetano, Gilberto Gil, Bethânia e Gal), Botafogo (por Zeca Pagodinho, mas lembrando um golo de Garrincha em gravação da época -- é o preferido dos meus filhos), Vasco (Paulinho da Viola e Los Hermanos -- com os sons iniciais lembrando um golo de Roberto Dinamite), Santos (Arnaldo Antunes), Atlético Mineiro (que rock! -- Tianastácia e Rogério Flausino, dos Jota Quest), Palmeiras (Branco Mello, dos Titãs, Simoninha e Igor Cavalera, dos Sepultura), Cruzeiro (Samuel Rosa, dos Skank), do Vitória Bahia (Daniela Mercury, mas era escusado) por exemplo. A versão do hino do Corinthians é demasiado hip-hop & soul, com Negra Li, Paula Lima, Rappin Hood e Xis. Há ainda os do Fortaleza (Fagner) e do Goiás (Zezé di Camargo, o sertanejo petista).
Portanto, depois de chamar a atenção para Telemann ou Van Morrison, eu tinha de estragar tudo, não é?
Agosto 08, 2004
MÚSICA A GOSTO. Ora aí está o Aifai, um blog de «música e pouco mais», entre o barroco e a pop, falando de Telemann, Boismortier (sim, Joseph Bodin de Boismortier, concertos para cinco flautas) ou The Kings of Convenience («Winning a Battle, Losing the War», «Summer on the Westhill»...), Van Morrison, Nick Drake ou Brad Mehldau. Blog para frequentar. Além do mais, fiquei contente por saber que Billy Shears ouve com essa frequência «Whinin Boy Moan», de Van Morrison («Well let the whinin boy moan/ If you don’t know how to do it yourself/ Let the whinin boy moan...»). É uma das minhas preferidas, embora o meu Van Morrison deste Verão seja um regresso ao Too Long in Exile só para me lembrar de J. L. Hooker em «Gloria» e «Wasted Years». Vícios.
P.S. - Já agora, Boismortier (1691-1755) é um dos músicos de eleição do meu computador. Pouco conhecido, recomendo (até para fazer concorrência ao Aifai), Suites, Sonatas & Concerto for Viola da Gamba, os fantásticos Seis Concertos for Cinco Flautas (eu tenho uma edição da Naxos, suponho que haverá melhores) e as Sérénades chez Marie Leczinska, de que apenas tenho o volume 2.

CORMAC MCCARTHY. Está finalmente publicado em português o romance de Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue (ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste)(Relógio d'Água), traduzido por Paulo Faria.
VIAGENS DE DEPUTADOS. Declaradamente contra a nova lei que permite aos deputados desdobrarem os seus bilhetes de avião de classe executiva em dois de turística, a fim de levarem um familiar. Absolutamente contra.
GRAVAÇÕES. «Tudo se dilui para que as verdades se confundam com as mentiras», relembra o bem informado A Grande Loja. Mas foi assim desde o princípio do processo -- e teria de ser assim, considerado o que estava em jogo no processo da Casa Pia. À medida que se multiplicavam as detenções, os interrogatórios, as notícias, o próprio processo transformou-se num Benfica-Sporting, cheio de profissões de fé e de questões de convicção. Também teria de ser. Caso as gravações sejam publicadas -- o que, nesta altura, é de somenos importância para o nível de abjecção que já se conhece ao processo --, os jornais ou as televisões que o fizerem terão de indicar com clareza o modo como as obtiveram e como assumem a sua colaboração no crime. Caso se confirme que as gravações que circulam em Lisboa são uma «selecção apertada dos “momentos mais quentes” das conversas entre o jornalista do Correio da Manhã e vários dos seus interlocutores», também estamos perante outro indício importante. O Jornal de Notícias de hoje dá conta da opinião de Germano Marques da Silva, que pensa que «a divulgação dos conteúdos é serviço público, como uma forma de defesa da democracia», com o argumento de que «se as fontes devem ser protegidas, a manipulação também deve ser evitada; precisamos de saber o que aconteceu neste caso». Simplesmente, a divulgação dos «momentos mais quentes» e não da totalidade das gravações obtidas por Octávio Lopes, constituirá uma forma de manipulação. Tudo isto já estava escrito.
Agosto 07, 2004
BRASIL, PORTUGAL. Um estudante brasileiro vai processar o governo português por ter sido impedido de entrar no País, é uma notícia da Folha de São Paulo de ontem. O goiano Wesdras Ribeiro Xavier diz que foi humilhado no SEF do aeroporto de Lisboa. Segundo a Folha, não há razão aparente para lhe ter sido negado o direito de entrar em Portugal -- o cidadão brasileiro é estudante, tinha dinheiro consigo, cartão de crédito e telefonemas para fazer. A ideia dele era passar uns dias em Lisboa e seguir para Londres, onde tem família. Acontece que a família goiana de Wesdras tem alguma importância no país (o pai é deputado) e advogados. É um caso a seguir com muita atenção.
TÁXI. Cheguei a Lisboa de cadeira de rodas. Um taxista guarda-me as malas no carro e dou um endereço, perto do Marquês de Pombal -- acrescentando que a seguir quero ir ao Campo Grande. «Ó amigo, isso é que não pode ser. Está na minha hora de almoço e o almoço é sagrado. E além do mais, não estou para fazer serviços de merda. Porque é que me havia de tocar isto a mim?» Os utilizadores dos táxis do aeroporto da Portela estão permanentemente diante do Muro das Lamentações, expiando culpas que desconhecem. Mas, diante daquela lógica irrefutável, rendi-me. Entre ser recebido assim ou a ouvir o fórum da TSF, fiquei com a impressão de que as coisas são como são.
VERÃO PORTUGUÊS. Ainda não tinha estado em Portugal desde que Santana Lopes é primeiro-ministro. Está calor.
P.S. - Mas há sempre boas notícias...
ORTOGRAFIA, CAIXA DO CORREIO, 4. Paulo Jorge Santos publicou, no O Céu Sobre Lisboa, de Pedro Ornelas, um interessante texto sobre a mesma matéria.
«Na minha Faculdade, com pontuais excepções, os alunos só escrevem na altura de exames. Alguns alunos chegam ao 3º ano sem terem nunca realizado um único trabalho escrito. Alguém me explica como é possível melhorar o domínio da língua portuguesa desta maneira?»
Veja-se, também, o texto de Pedro Ornelas sobre o assunto.
E um esclarecimento: eu, quanto à norma, acho que deve ser definida; mas escrever é outra coisa completamente diferente. Só esta precisão.
ORTOGRAFIA, CAIXA DO CORREIO, 3. O Rui Oliveira, do blog Superflumina, enviou um mail sobre esta mesma questão:
«Estou obviamente de acordo consigo sobre a importância da ortografia. Não é apenas uma obsessão, mas uma necessidade, não apenas para uma maior legibilidade da comunicação (que não passa apenas por aí), mas porque obriga a um rigor que também faz falta no resto. Como ex-professor do secundário, sei dar o devido valor às questões ortográficas e também os erros que os meus alunos davam. Mas, o pior do que os erros, era a atitude com que encaravam o assunto. Para eles, a preocupação com a ortografia era coisa do passado, pois eu até compreendia o que eles queriam dizer. Esta despreocupação alargava-se depois a tudo quanto faziam nos testes escritos e depois achavam que eu era demasiado rigoroso a dar as notas. Tudo o que desse trabalho, era banido. Todavia, o que me afligia mais como professor era a confrangedora capacidade que eles tinham para produzir textos, neste caso, escritos. Tentei, dentro dos limites do programa, trabalhar a expressão escrita, mas os anos de facilitismo do Ensino Básico não permitem muito êxito nesta matéria. Por isso, penso que a mudança de programa era absolutamente necessária, mas penso que está mal realizada. A minha análise do programa actual do Secundário está em curso, mas queria falar ainda com ex-colegas que tenham dado este ano o 10.º ano e ver os manuais (embora através das críticas que o Francisco já fez a alguns - e com as quais concordo - não me deixem muitas experanças). Também tenho dúvidas que os professores estejam muito preparados para a tarefa.
Quanto ao ensino de literatura, já disse no meu blog que havia literatura a mais nos programas, sobretudo pela maneira como acabava de ser dada (não querendo generalizar demais, o facto é que a maioria dos alunos não fixavam muito daquilo que lhes era ministrado): a poesia medieval (Galego-Portuguesa e Cancioneiro Geral) é um caso para esquecer. Também dado no 10.º ano o que se poderia esperar, especialmente de uma poética com condições de produção e recepção tão específicas que, por vezes, alguns professores também não conhecem muito bem (tenho histórias pessoais interessantes a este respeito); dos Lusíadas conhece-se os episódios dados (Consílio dos Deuses, Inês de Castro, Partidas das Naus, etc.) mas não a obra inteira... Aliás, dar lírica de Camões no 10.º ano, frequentemente, é bastante frustante pois os alunos desconhecem completamente a época... e alguns professores também não conheciam muito da tradição em que Camões se integrava, como por exemplo o petrarquismo (só sabem generalidades, nunca leram Petrarca, nem Garcilaso)..
- de Os Maias, exactamente a mesma coisa, conhece-se os episódios mas não se compreende a crítica social feita por Eça porque os alunos não conhecem o Portugal do séc. XIX.
- do Fernando Pessoa e heterónimos decorava-se o que o professor diz e depois tenta-se acertar o que se sabe com aquilo que foi dito pelo professor. E de muitos outros (Cesário, Garrett, Vieira, etc.) ainda se poderia dizer mais.
Mas isto de maneira nenhuma quer dizer que a literatura deveria desaparecer ou ser metida à pressão nos programas do Secundário na disciplina de Português. Tentar separar língua e literatura no ensino é perfeitamente artificial. Será impossível dominar bem a língua se não se tiver contacto com aqueles autores que mais puxaram pelos limites e potenciaram ao máximo essa língua. [...]Quanto ao novo programa de Português para o Secundário, como acima disse, não o conheço em profundidade, mas a leitura rápida deixa-me muito desconfiado, por exemplo, quanto ao conceito que os autores terão de "tipo de texto". A bibliografia, por exemplo no capítulo "Funcionamento da Língua", para um programa deste tipo, ignora quase completamente autores germânicos e anglo-saxónicos (apenas 1 destes últimos), faz apenas referência a autores francófonos e portugueses.
Eu tenho um curso LLM/Português e Francês, mas aprendi, em matéria de linguística (geral e de texto) a apreciar imenso os autores alemães, levando-me a aprender alemão (que ainda não domino muito bem) para poder ler mais e melhor o que há por aí. Ignorar quem (os alemães) praticamente criou a linguística de texto não me parece muito bom caminho ou será, uma vez mais, a nossa crónica dependência de tudo o que vem de França e derivados? Ou incapacidade dos autores em procurarem mais além? É pena que estes problemas não sejam seriamente debatidos por quem tem responsabilidades na Educação, pois estão sempre presos ou a teorias ou a interesses corporativos. Peço desculpa pelo comprimento da mensagem e espero que continue a abordar estes assuntos. Pela minha parte também o tentarei fazer.»
Agosto 06, 2004
ORTOGRAFIA, CAIXA DE CORREIO, 2. O José Flávio P. Teixeira, de Moçambique (onde mantém o Ma-Schamba), comenta também por mail a questão do Português:
«Apreciável polémica essa, a ortográfica. Eu faço erros ortográficos, o que é algo tão pouco assumido como a impotência sexual – estou a sair do armário. Ainda assim, escrevo sem corrector, nunca o instalei. Serão poucos, mas estão lá. Mas esse não é o problema. O ensino que tive foi o pós-25 de Abril, 4.ª classe em 1974. O que me faltou aprender foi sintaxe. Ao reler o que escrevo até tremo. E nisso não estarei sozinho, há por aí muito teclado que ainda vai pior. E disso pouco se fala. E como sintaxe é a inteligência aqui é que vai o mal, diz o leigo nessas coisas.
Não percebo isso de Os Maias. O livro é giríssimo e tem algum sexo, até incesto, e é cinematográfico, ou seja imaginável. Que mais se pode pedir? A Cidade e as Serras é uma chatice para o seculo XXI (além de que as serras já arderam todas; para quê imaginar as suas belezas?). No meu 11º ano, como já tinha lido Os Maias foi só relê-los e brilhar. Isto vem a propósito do que era também obrigatório, aqueles clássicos que francamente: nem li as Viagens na Minha Terra, meu Deus que absurdo (só lá cheguei nas antropologices de olhar os românticos e etc.), nem os Herculanos (O Bobo e Eurico, o Presbítero - li-os depois e são uns pastéis, ainda para mais para quem passou pelo Walter Scott ou até Feval e Dumas na puberdade) nem mais qualquer coisa que havia. Deu para dispensar. Pois aquela primeira parte do programa, "coisas técnicas", ninguém ligava, nem nós nem a stôra, devido ao primado da literatura. E com este primado há tanta gente que nem cartas oficiais sabe escrever. Maldito primado. Lá na escola nunca li Os Lusíadas (excepto aquelas primeiras páginas do 9º ano). Surpreende-me que se discuta a pertinência de Os Lusíadas no ensino liceal. Será que se estudam mesmo, ou se continua com o singelo início, só para estar no programa? Voltar atrás. A ortografia é grave. Mas pior é não ensinar a sintaxe. Acho eu, mísero antropólogo.
Ah, isso de ler os brasileiros sim. Sim. Sim.»
ORTOGRAFIA, CAIXA DE CORREIO, 1. O Mário Filipe Pires, do Retorta, por mail, comenta a questão ortográfica (que, para mim, de resto, é mais vasta do que a ortografia; diz respeito à expressão em Português):
«Tenho acompanhado a troca de correio acerca da ortografia e do português com bastante interesse. Devo o meu gosto pela leitura a dois factores, a existência de um numero razoável de livros em casa dos meus pais, e um professor de português, que conseguiu interessar toda uma turma nas questões da lingua e dos textos. Refiro ainda que no Liceu Pedro V de 1975 isto não é um feito menor. Infelizmente já não me lembro do seu nome, mas ainda me recordo que já teria pelo menos umas cinco décadas de vida, e que trajava quase sempre casaco, laço e colete, o que naquelas circunstâncias seria meio caminho andado para ser catalogado como fascista.
Utilizando apenas o seu entusiasmo e os livros do programa da altura, conseguiu cativar uma turma inteira, que nas suas aulas prestava realmente atenção ao que ele dizia. Com ele os livros não eram letra morta. Foi também o único com quem insistimos em almoçar no final do ano lectivo. É um facto para mim que o português dos clássicos é algo que deve ser visitado regularmente, mesmo que já seja necessário existirem notas explicativas para termos ou frases. Sem conhecer bons exemplos e diversos estilos narrativos empobrecemos a nossa escrita e fala. Ninguém escreve hoje com o estilo de Eça de Queirós ou Gil Vicente, mas o facto é que continuamos a retirar prazer da leitura dos seus textos. Independentemente disso, quando se ganha o hábito da leitura, mesmo que estas sejam inicialmente menos interessantes, tenho esperança que se vá desenvolvendo um crivo crítico em cada pessoa. Quanto ao ensino do português o assunto é complexo, mas aquelas mudanças do acordo ortográfico não foram inocentes e levantam muitas questões em termos de ensino inicial.»
O FILME DE MOORE. COM DESCULPAS AO RUI. O Rui Miguel Curado Silva (um dos meus académicos de eleição, um dos animadores do Klepsidra) enviou um mail sobre a nota que aqui deixei a propósito do Farenheit 9/11, de Moore. Infelizmente, azares vários fizeram com que lhe perdesse o rasto (ao mail) durante alguns dias -- aqui está agora.
«As duas linhas que dedicou ao novo filme de Moore entraram numa cadeia de copy-paste do link do texto em que Kopel aponta 59 falsidades ao filme de Moore, e o pior é que me parece que ninguém leu esse texto e ninguém viu o filme. Eu vi o filme e quando comecei a ler o texto de Kopel estava convencido que ia ali encontrar a denúncia de maroscas do Moore (o que não me espantaria). Comecei a ler e desatei a rir. Aquilo é fraquito. A falsidade que me deu mais vontade de rir é o facto de ser falsidade Moore dizer que Flint é a sua home town (apesar de ter de facto vivido em Flint). Mesmo que as 59 falsidades de Kopel fossem todas verdade (eu verifiquei que algumas estavam erradas, outras são juízos de valor subjectivos, outras ainda demonstram que Kopel não percebeu certas partes do filme) nenhuma delas chega aos calcanhares de falsidades e de situações graves que Moore aponta à administração Bush e que nem o próprio Kopel desmente: a ligação da família Bush à família saudita, as relações entre o antigo regime de Saddam e Reagan, as relações recentes entre os talibãs e empresas texanas ligadas a Cheeney e a grupos económicos da família Bush, etc. O filme é falível, como todos os filmes, como os nossos blogues, como todos os livros que se tem escrito sobre o assunto. Estamos a falar de um filme e não de um documento oficial que deve ser rigoroso como: uma constituição, um texto jurídico, um artigo científico ou um relatório sobre armas de destruição em massa. O que eu acho estranho é que se seja tão rigoroso com Moore e se seja tão complacente com falsidades bem mais graves escritas em documentos oficiais, esses sim que não deveriam cometer erros nem falsidades, como os relatórios sobre armas de destruição em massa emitidos pela administração Bush. Aqui recomendo a leitura do último livro de Hans Blix (Irak: les armes introuvables) onde são apontadas muito mais do que 59 falsidades à administração Bush só no capítulo das armas de destruição em massa. Acho estranho todo este súbito rigor em relação a Moore (que produz um filme intencionalmente de espectáculo) num país que transmite astrólogas todos os dias na estatal RTP, que tem um primeiro-ministro que vai à bruxa, que tem nas páginas brancas um numero de serviço de horóscopo ao lado do número do despertar e da meteorologia e dos números de emergências, cujos jornais sérios dedicam às vezes 5 a 6 páginas de treta astrológica nas suas revistas de fim de semana, etc. Li as criticas ao filme de Moore noutros países onde o estilo de Moore é avaliado com a ponderação correcta: boa denúncia com uma dose de macacada. Ou seja, fazer rir para não chorar com assuntos graves. Só aqui em Portugal é que se é muito sisudo com Moore e leva-se na macacada Durão a afirmar que viu as provas das armas de destruição em massa no Iraque, coisa que nem Hans Blix viu. Deveríamos ter sido sisudos era com Durão Barroso.»
Agosto 05, 2004
ORTOGRAFIA, UM REGRESSO. O Pedro Ornelas continua, no seu blog, a tratar do problema da ortografia; a dado passo, num dos comentários ao seu texto, achou que eu pertenço também ao grupo de pessoas que assumem «posições histéricas e impensadas». «Parece», escreve o Pedro, «que quando se chega às questões da língua viramos todos fascistas.» Eu não comento esse pedacinho, mas ficou-me uma ligeira amargura. Quanto ao resto, vejamos: eu não defendo, como o Pedro sabe – e leu os meus textos durante alguns anos, no O Independente, com um cuidado que lhe agradeço, corrigindo algumas vezes certos disparates –, que exista uma «norma absoluta» da língua. Estaríamos a escrever como el-rei D. Afonso II, o Gordo, que, por acaso, não escrevia. Também não defendo que em cada português deva existir um especialista em questões ortográficas ou sintácticas, citando Rodrigues Lapa (a sua Estilística foi profundamente moderna para o tempo, questionando a norma e defendendo a evolução pelo uso, conceito que não era apenas filológico; a citação de Cândido de Figueiredo que o Pedro faz no seu blog já vinha no mesmo sentido) ou, digamos, Lindley Cintra. Mas defendo que deve existir, nessa matéria, um certo grau de exigência, na escola como na vida pública. E penso que, de facto, o défice de contacto com os clássicos da nossa língua (na escola, na biblioteca de família – sobretudo entre os 14 e os 18 anos) diminui as possibilidades de se escrever melhor. Escrever melhor não é escrever de acordo com a norma; daí que eu concorde perfeitamente, e sem objecções, com a apreciação do Pedro em relação a autores inesperados, como Leonardo Ferraz de Carvalho (outro autor que me surpreendeu, também na área da economia, foi Rogério Martins, que no Público assinou algumas crónicas «literárias»).
Penso que é um dislate meter Os Lusíadas à força nos programas escolares antes do 11º ano (mas não é mal nenhum falar da sua existência antes); tal como é dislate semelhante escolher Os Maias, de Eça, em vez de A Cidade e as Serras, por exemplo (a propósito, escolher o Memorial do Convento não é a mesma coisa?). Não é por acaso que no Brasil Os Maias foram objecto de adaptação televisiva – enquanto que em Portugal, onde o livro foi de leitura obrigatória, não se fez nada disso. Em 1989, num estudo encomendado pela Ler sobre os hábitos de leitura, com preocupações um pouco mais vastas do que as habituais linhas sobre «quantos livros se lêem por ano» (e realizado pela Marktest), chegámos à conclusão de que 82% dos alunos que tinham Os Maias como «leitura obrigatória», pura e simplesmente não o tinham lido. Enviámos (na altura eu dirigia a Ler) o estudo ao Ministério da Educação e manifestámos a nossa preocupação: não era a altura de mudar a agulha? Ou seja: se 82% dos estudantes que deviam ler Os Maias não o liam, porque achavam o livro «chato», «pesado», «comprido», «difícil», não estaríamos a tempo de evitar que crescesse a rejeição a Eça, e se tentasse A Cidade e as Serras (ou A Relíquia, essa obra-prima do humor e da tentação) ou a leitura de alguns contos de Eça? O Ministério da Educação, na secção do ensino do Português, estava ocupado com outras questões.
A minha questão com «o ensino da literatura», ou a prática da leitura de clássicos na escola, não está ligada unicamente ao «ensino da língua»; a leitura desses clássicos não é apenas importante para o contacto com a Língua – é fundamental para o contacto com a História. A questão, caro Pedro, é mais vasta: é a de defender que o Português seja uma disciplina central para as «humanidades», tal como a Matemática o é para as «ciências».
De resto, sobre a reforma do ensino do Português no ensino básico e secundário, não me parece que um aluno do 9º ano esteja em condições de compreender a complexidade formal (estética) e «histórico-cultural» de Os Lusíadas se as aulas de História não acompanharem esse esforço. Mas já me parece que a obra seja mencionada apenas aos alunos do 12º da área de «humanidades». Na altura do «escândalo camoniano» (creio que em 2000) escrevi que o assunto dava matéria para várias hipocrisias: o nacionalismo literário, aliás, respondia cheio de feridas e de amarguras – estão a abandonar o Camões. Mas o nosso Camões estava já abandonado há muito tempo. Na universidade tive a surpresa de perceber, quando frequentei uma cadeira intitulada «Estudos Camonianos» (1981, creio), que metade dos meus colegas não identificava textos marcantes da lírica e que nunca tinha ouvido mais do que uma frase sobre «a malandrice» do Canto Nono.
O Pedro acha que, «para não variar», também lamento o que eu designei como a «euforia da linguística teórica nas universidades e escolas secundárias». Mas não foi isso que aconteceu em França, na Espanha ou na Alemanha e nos EUA? Eu fui professor de «linguística teórica» na universidade; podia dar-me ao luxo de passar um mês a comentar a frase «John hit the ball» retirada das Estruturas Sintácticas, mas sempre achei que nas escolas secundárias não era esse trabalho que facilitava a aprendizagem da Língua ou o conhecimento e o contacto com o melhor de que a nossa Língua foi capaz. Aliás, acho que, nessa matéria, a redução à «linguística da frase» não foi um grande contributo. Tema para outra conversa. Mas continuo sem perceber – problema meu – como pode a leitura de maus textos contribuir para a melhoria da nossa «competência linguística».
O Pedro acha que invoquei «os argumentos do costume» para falar «da decadência da escrita em português». Sinceramente, não acho isso mal. Escrevi isto: «Um ensino do Português com tons mais permissivos, preguiçosos e envergonhados não há-de produzir bons falantes da nossa língua, nem bons leitores dos textos da nossa língua, nem sequer gente capaz de escrever – com clareza e rapidez – uma frase decente.» Está à vista. Escrevi que «a “classe educada” portuguesa abdicou […] de pensar e de ser exigente» e que isso tem reflexos na maneira como se lida com o Português. Está à vista. Temos um secretário de Estado da Educação que justifica os seus erros ortográficos com a falta de corrector apropriado no computador. Como se dissesse: «Isso não tem importância. Que é um erro ortográfico?»
Há aqui um mal-entendido. Eu não me importo que Mia Couto escreva em Português daquela maneira; posso não gostar. Mas nem me escandaliza, nem acho que – nas actuais circunstâncias – nós possamos reivindicar a propriedade da Língua. Até acho que é uma pena não se ler nas nossas escolas mais literatura brasileira, de Machado a Rubem Fonseca. Teríamos muito a desenferrujar. Muito.
Sim, talvez não fosse correcta a minha referência ao Dicionário da Academia – aí, o Pedro chamou-me à pedra e fez bem. Aliás, sobre os dicionários, o Pedro tem a posição que julgo correcta (ele dá o exemplo do trabalho da Longman, que é exemplar). No resto, longe de qualquer frase minha ironizar sobre a leitura de Os Cinco (aquela gastronomia adolescente de Os Cinco e o Circo sempre me fascinou) ou de qualquer outro género. Acho, justamente, que a nossa literatura tem um défice nesse capítulo; o «sistema literário português» continua muito reticente em relação ao «romance de aventuras», à «novela policial», etc. – porque gosta de uma «literatura muito literária», muito voltada para si mesma, muito debruçada sobre a própria escrita. Uma das razões é esta: falta-lhe muita leitura dos clássicos. Se o «sistema literário» tivesse aprendido a lição dos clássicos, não eram tão aborrecidos os romances portugueses contemporâneos, nem alguma poesia tão convencidinha da vida. Machado, Camilo, Sterne (o Tristram Shandy, sim), Swift, Cesário, Sá de Miranda, a fantástica poesia do barroco, por exemplo.
Em suma, caro Pedro, eu não defendo que os mestres andem de luneta apontada, à cata de discordâncias. Mas suponho que tenho o direito de exigir que no Telejornal não me apareçam erros ortográficos nos rodapés e de pedir o favor de controlar de alguma maneira a aberração das mensagens SMS em todos os programas de televisão popular. Se eu pedir que qualquer estudante do 12º ano possa fazer os exercícios recomendados por Mendes Silva no seu Português Contemporâneo (o livro está publicado pela Teorema e pelo Círculo de Leitores), também acho que não é pedir muito.
Agosto 04, 2004
OPINIÕES MAIORITÁRIAS. William Hazlitt tinha uma frase admirável que vale a pena recuperar: «Aqueles que rejeitam tudo a que falta uma perfeição imaginária, fazem-no não por superior capacidade de gosto ou largueza de intelecto, mas para destruir, reduzir e limitar todos os prazeres e opiniões que não sejam as suas.» No século XVIII, depois da Revolução Francesa, de Burke e de Madame de Staël, Hazlitt foi condenado por não ser um pensador e um crítico maioritário. Hazlitt seria hoje crucificado. Os tempos vão para as opiniões maioritárias. Aproveitemos o Agosto português.
Agosto 02, 2004
TELEVISÃO. Os argumentos de Eduardo Cintra Torres em relação à série Os Maias produzida no Brasil e exibida pela SIC merecem ser lidos. Quando há dias escrevia aqui sobre a demissão das elites em relação à televisão, à língua e à cultura, também falava disso.
MÉDIO ORIENTE. Não deixar de ler a entrevista com Yoram Yovell, psicanalista israelita, na Veja de ontem. Na mesma área, noutra orientação, veja-se a entrevista com Mohammed Dahlan, antigo homem forte da segurança palestiniana, afastado por Arafat, no Al-Watan, do Kuwait, reproduzida pelo Al-Bawaba.
DARFUR, UMA REVISTA DA IMPRENSA. «Darfur resolution splits Arab press. Newspapers in the Arab world are divided in their reactions to the UN Security Council resolution calling on Sudan to act against militia attacks in the western Darfur region.»
Agosto 01, 2004
HOMEM A DIAS. O Alberto Gonçalves é uma das pessoas simultaneamente mais discretas e cultas (ligação que não devia ser surpresa) que conheci – e é por isso com um mea culpa (pelo atraso) e com alegria (pela sua insistência) que lhe envio um abraço de parabéns pelo primeiro aniversário do Homem a Dias. É um blog corajoso. Infelizmente, o Alberto não escreve nele com a frequência de outros tempos, mas é a vida. Shalom.
Julho 30, 2004
DE MOÇAMBIQUE. O José Flávio, português em Moçambique, com um texto no limite, sobre o fio da navalha, a ler sem dúvida nenhuma.
OLAVO BILAC. «Onde estão elas, as flores de antanho?», perguntava-se Brás Cubas através de Machado de Assis. Lembro-me sempre de Bilac e do seu poema sobre a Língua Portuguesa. Não nos faz mal um pouco de parnasianismo.
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela ...
Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»
E em que Camões chorou, no exílio amargo
O génio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac, 1865-1918. Poeta brasileiro.
ORTOGRAFIA, A ALEGRIA DE LER. O Pedro Ornelas regressa ao Aviz (onde há sempre um lugar) para os nossos diálogos sobre a ortografia:
Caro Francisco: Nada me leva a crer que se escrevesse melhor português em 1993, 1973, 1953 ou 1753... nem que se escrevesse pior. Mas de uma coisa estou certo: cada vez há mais gente a saber escrever, bem ou mal. E isso poderá, eventualmente, explicar que hoje se escreva pior. Mas sou céptico a esse respeito. Já os romanos se lamentavam do avacalhamento do latim - que deu, entre outras coisas, nesta coisa que nós falamos e escrevemos.
Outra coisa de que tenho a certeza é que a ortografia portuguesa está cheia de incongruências e omissões. É mais complicada, por exemplo, que a ortografia do espanhol ou do italiano. Há intermináveis e inconclusivas discussões sobre o uso do hífen ou das maiúsculas, por exemplo. Seria bastante útil, quanto a mim, que a reforma de 1990 entrasse em vigor. Disseram-me ontem que se abriu essa possibilidade por a CPLP ter acordado que não seria obrigatória a ratificação por todos os estados-membros. Espero que seja verdade.
Quanto à importância do ensino do português, confesso que não sei o que dizer. Não percebo nada de didáctica da língua. No entanto, parece-me que só aprende a escrever bem quem gosta de ler. Logo, fomentar o gosto pela leitura será a melhor maneira de fazer com que as pessoas escrevam bem. E não me parece que isso tenha de passar necessariamente pela leitura dos clássicos. Eu sempre fui um aluno medíocre a Português, a disciplina sempre me pareceu uma seca, e no entanto tinha uma facilidade acima da média em exprimir-me por escrito. Porquê? Suponho que foi por ter tido a sorte de ter uns pais cultos, que liam umas coisas, e eu fui lendo o que havia lá por casa – os livros dos Cinco, o Moby Dick, as Selecções do Reader's Digest, o Último Moicano, eu sei lá. Mas do Camilo só li um livrinho da colecção RTP (Maria Moisés), do Eça só me lembro do Crime do Padre Amaro por causa das sugestões eróticas, depois li o Álvaro de Campos no final da adolescência, e pouco mais. Ah, também me lembro dos livrinhos do Rómulo de Carvalho, de que devorei avidamente a colecção toda, mas isso não conta. Continuei a ter más notas a Português porque não tinha pachorra para ler o que me mandavam - ninguém avaliava se eu escrevia mais ou menos bem, mas sim se conhecia a intriga dos Maias ou o que fosse obrigatório ler. E, no entanto, sempre me disseram que eu escrevia bem, desde a escola primária à faculdade e aos jornais. O que será mais importante, conhecer bem a literatura portuguesa ou saber ler e escrever bem? Era bom discutir-se isto sem histerias e preconceitos à Vasco Graça Moura contra os pobres linguistas.
Sobre o Dicionário da Academia: acho que pouca gente percebeu a importância do projecto e o Malaca Casteleiro talvez não se tenha sabido explicar. Foi, simplesmente, a primeira tentativa de fazer um dicionário em que as palavras que lá figuram não estão por acaso, porque alguém se lembrou que existiam, mas sim porque são de facto utilizadas – um conjunto de palavras representativo do português tal como é falado hoje em dia. Tanto quanto sei, o primeiro dicionário no mundo feito com este critério foi o Oxford English Dictionary, elaborado entre 1884 e 1928 com a contribuição de milhares de voluntários. Hoje em dia, as grandes editoras britânicas de dicionários, como a Longman ou a Collins, trabalham a partir de corpora, ou seja, grandes quantidades de textos, recolhidos nos mais diversos tipos de publicações e através de entrevistas, de onde é extraída uma amostra representativa das palavras mais utilizadas. Uma especialista em lexicologia da Faculdade de Letras falou-me de alguns problemas com o Dicionário da Academia, nomeadamente um certo secretismo em torno da sua elaboração e o facto de não terem sido publicados artigos teóricos à medida que o projecto ia avançando, como seria normal. Infelizmente, o que passou para a opinião pública não foi a enorme importância do projecto e a melhor ou pior forma como foi elaborado, mas as reacções à inclusão de palavras «impróprias», à exclusão de palavras caídas em desuso e à tentativa de normalização ortográfica de estrangeirismos.
Quanto aos revisores que o Francisco cita, não tenho o prazer de conhecer nenhum deles. Mas pelas minhas mãos já passaram textos de muita gente, incluindo um tal de Francisco José Viegas, o João Bénard da Costa, o Vasco Pulido Valente, só para citar alguns dos melhores. Quanto aos piores, abstenho-me. Como se nota, fui revisor no O Independente. Agora, há um caso que me dá que pensar: o Leonardo Ferraz de Carvalho foi um dos cronistas que maior prazer me deu. Escrevia maravilhosamente, na minha modesta opinião. Mas os textos dele vinham sempre com erros, lapsos, distracções, incongruências. E, no entanto, quem me dera algum dia conseguir escrever daquela maneira. Trocava já a minha competência ortográfica por aquele maravilhoso dom de escrita.
Julho 29, 2004
HAVERÁ UMA SOLUÇÃO LIBERAL PARA A PAZ PERPÉTUA? O Causa Liberal interroga-se, em dois textos, sobre a tentação humanitária de intervir no Sudão. São dois textos com inquietações legítimas e, portanto, mencionáveis.
«Nota: a cartada humanitária é – exagerar o problema, meter-se nos assuntos dos outros e criar ainda mais problemas à pacificação local, disfarçar outros factores geo-estratégicos em jogo, até que a situação se agrava mais do que seria na sua ausência e tornando o intervencionismo "inevitável" para todos.»
«Quanto ao Sudão, aos poucos, devagar devagarinho, vai crescendo o "consenso" para uma nova emergência. Mais um motivo para justificar que a ONU ou a "comunidade internacional" actuem para promover um qualquer bem e impedir um qualquer mal, que "não sei quem" destrua "não sei quem" por causa de "não sei o quê", ou ainda pior, que alguém impeça a chegada de ajuda humanitária decidida por um qualquer burocrata a precisar de ser promovido para um órgão internacional.»
«Por exemplo o Kosovo. Existe quem fique orgulhoso por uma paz só se manter com as armas e que mal estas retirem, os problemas retomem exactamente onde estavam ou provavelmente ainda pior. Nos Balcãs, tentam o mesmo há centenas de anos, foi lá que a Europa começou a ser destruída.»
Admito com facilidade este tipo de inquietações. Mesmo sendo verdade que a barbárie do Kosovo não terá fim nas próximas décadas, o que me assusta é a fragilidade dos mortos indefesos do Sudão só porque não são árabes ou muçulmanos ou são uma pequena peça desagradável na região. Assustam-me os campos de concentração onde ninguém pode vislumbrar, creio, uma ideia de «pacificação local». Tal como me assustavam os massacres no Kosovo, cuja forma de «pacificação local» seria a eliminação sucessiva e contínua de alguns milhões de europeus que a Europa se mostrou incapaz de defender.
Há países em que uma intervenção militar estabeleceria um mínimo de civilização, de tal modo estão entregues à barbárie e à «pacificação local». Mas esta ideia é de uma vastíssima falta de propósito, reconheço.
ORTOGRAFIA, UMA RESPOSTA. Caro Pedro Ornelas: «o que eu disse, e mantenho» (ah, esta expressão retirada dos jornais…) é que os portugueses letrados são relapsos quando se trata de defender um mínimo de inteligência e de delicadeza para a sua e nossa Língua. O Pedro sabe, por várias razões não apenas profissionais, que se perderam alguns hábitos – o de verificar a ortografia segundo os dicionários e o velho prontuário do Bergström, o de observar as regras do hífen e do que, esse malfadado que relativo, o de perguntar, o de esclarecer dúvidas, o de não facilitar. Tenho um ponto a meu favor: todos os revisores que trabalharam comigo, sem excepção, aqui e ali, a quem eu sempre dei poderes excepcionais em hora de fecho de edição (de jornal e de revista) e a quem nunca subtraí influência na hora de confrontar os jornalistas com um erro que fosse. Eles lembram-se.
Li muitos textos impublicáveis, sim; e fui, além de editor, revisor. Tenho esse ponto a meu favor (e testemunhas): não traí a autoridade da Língua. Simplesmente, entendo que o relativismo em torno da ortografia é um passo para todo o género de relativismos. A facilidade com que se desculpam erros ortográficos desencanta-me, tal como acho altamente irregular que tenha sido nomeado secretário de Estado da Educação alguém que desculpa os seus erros próprios ortográficos com a falta de corrector adequado no computador – o que significa retirar toda e qualquer autoridade ao cargo e à função específica. Ou seja: não podemos permitir que um alto dignitário do Estado esteja à espera do corrector ortográfico para redigir um decreto, a menos que coloquemos um revisor atrás de cada caneta ou teclado.
Eu não penso que hoje a situação seja mais desgraçada do que há vinte anos, ou que Portugal seja mais atingido pelo vírus do mau português do que, digamos, a Islândia com a febre do mau islandês. O que eu sustento, com provas – programas escolares, compêndios autorizados e vistos pelo Ministério da Educação, teorias expostas em seminários destinados a professores perplexos, erros ortográficos quase abjectos em manuais escolares do secundário, artigos de professores lamentando-se da situação em que vivem e em que acusam claramente os responsáveis políticos e ideológicos – é que ninguém se importa; ninguém, ou seja, quem se devia importar. E sustento que isso se deve à falta de leitura de bom português nas escolas, à decadência do estudo dos autores clássicos da nossa língua, à falta de palmatória adequada nas televisões (sobretudo na televisão do Estado) quando passam legendas e rodapés que assassinam todas as regras, à permissividade bacoca das elites em relação ao ensino do Português e à qualidade do ensino da literatura. Por exemplo.
Esta opinião não é dominante e nunca será dominante. Seria impossível. Não julgo que estejam a assassinar o Português, como se bradava há anos – mas alguma coisa está a empobrecê-lo. Pois se já o dr. Balsemão se queixava em 1973…
PS,1 – Sobre o Dicionário da Academia. Caro Pedro, nenhuma dúvida em relação à sua importância. O que eu me interrogo é se alguns modismos de ocasião (parte deles entretanto desaparecidos) merecem figurar como exemplos dominantes.
PS, 2 – Eu indicava ao Pedro uma série de revisores ou «preparadores de textos», com quem tive a sorte de trabalhar e de aprender (Ayala Monteiro, Leal Ferreira, João Assis, Constantino Romão, Elsa Rocha, José Imaginário, Rita Bento…), e que poderiam contar muitas histórias sobre o uso do Português por gente ilustre. É isso, justamente, que nos devia deixar ainda mais preocupados.
Julho 27, 2004
ORTOGRAFIA, UM RASPANETE. Do Pedro Ornelas recebo um mail sobre o assunto ortográfico. Responderei depois, caro Pedro.
Estas questões da linguística são, de facto, um diálogo de surdos entre meia dúzia (ou devo escrever meia-dúzia para não ser insultado?) de pessoas com formação na matéria contra uma data de pessoas que acham que sabem tudo sobre o assunto. Sem querer alongar-me na matéria, o que você diz do Dicionário da Academia, por exemplo, é simplesmente insultuoso. Por muitos defeitos que o DA tenha, vergonhoso era não termos em Portugal um dicionário feito em termos minimamente científicos, quando os ingleses, por exemplo, já o têm há perto de um século. O DA é um esforço meritório, pelo menos, um princípio. Presumo que o Francisco quando fala de 'linguajar' refere-se à inclusão no DA de expressões correntes do português moderno, colhidas da linguagem oral. Pergunto-me o que dirá o Francisco dos dicionários ingleses, regularmente actualizados de modo a incluírem toda a espécie de neologismos, 'palavrões', etc., que, quer se queira quer não, fazem parte de todas as línguas - talvez não de um registo 'culto', e daí nem sempre.
Eu fui revisor durante vários anos, li milhares de textos escritos pelas mais diversas pessoas, e a conclusão a que cheguei é que não há diferenças significativas, quanto à observância das normas ortográficas e gramaticais, entre um jovem estagiário de 20 anos e um jornalista experimentado com 60. Qualquer pessoa que tenha passado pelo mesmo trabalho lhe dirá o mesmo - se não fossem os revisores, conhecidíssimos cronistas e escritores portugueses seriam crucificados pelos seus deslizes, enquanto muitos jovens jornalistas passariam sem uma gralha.
Só para exemplificar como este não é um problema de agora, recordo uma passagem livro do José António Saraiva sobre o Expresso, em que ele conta como, na primeira metade dos anos 1970, o Pinto Balsemão revia pessoalmente muitos textos do jornal e se lamentava de 'como os jornalistas de hoje escrevem mal' - o que mostra que não era obrigando a dividir as orações dos Lusíadas que se fazia com que as pessoas não dessem erros.
Tanto quanto me vou apercebendo, creio que o problema do desconhecimento da ortografia não é um mal português, tal como as listas de espera nos hospitais não o são, e muitos outros males que nos afligem. E penso que intelectuais como o Francisco têm a responsabilidade de serem mais ponderados naquilo que dizem, e não alinharem pelo mais elementar senso comum.
Se, de facto, como diz o José Vítor Malheiros, aparecem gralhas nos sítios mais insuspeitos, isso deve-se, não a qualquer decadência no uso da língua portuguesa, mas à displicência dos responsáveis de agências de publicidade e empresas ao não contratarem serviços de profissionais para corrigirem possíveis erros. O Francisco, que já dirigiu várias publicações, sabe tão bem como eu, creio, que nenhuma publicação dispensa revisores qualificados - e isto é verdade em qualquer parte do mundo. Nada de histerias, por favor, e mais ponderação.
DAVID JUSTINO. A Grande Loja lançou hoje um repto a David Justino, ex-ministro da Educação: para que escreva sobre a sua experiência no Ministério. Pessoalmente, considero que David Justino foi um dos melhores ministros da educação dos últimos anos. Ao conntrário do que se pensava, conhecia bem demais o mundo dos professores, as suas dificuldades, os seus acessos de pedagogês e de euforia -- e sabia que o ensino não dizia apenas respeito aos professores. De resto, tinha um projecto, defendeu-o enquanto pôde, tinha uma «visão da escola», teve a coragem de não alinhar com banalidades sobre educação e pedagogia, reabilitou algumas palavras, como competência, exigência, esforço e selecção. Foi, por isso, um solitário no Ministério.
BOM GOLPE DE VISTA. «A esquerda do PS. Hoje na televisão vi uma peça sobre a reunião de ontem da Comissão Nacional do PS. Segundo o jornalista, no final o porta-voz da esquerda do PS foi Jorge Lacão. Estamos, então, conversados.» [Duarte Moral, no Golpes de Vista]
MOORE. Através de O Intermitente, aqui está um bom texto de Dave Kopel sobre Fahrenheit 9/11, bem como um providencial resumo a ser enviado a críticos de cinema.
HÁ UM ANO. «Portugal é dos países com maior percentagem de floresta ardida de todos os países da Europa. Comparando com a área da Amazónia, os incêndios portugueses representam uma situação mais alarmante do que a que se vive no Brasil. Será isto uma catástrofe?» {Sexta-feira, 1 de Agosto de 2003}
O GOLO DE ADRIANO NO CANTINHO DO HOOLIGAN. Ainda Gonçalo Soares, mas com outra matéria completamente diferente, pergunta se «o golo do Adriano no último minuto da final conta a Argentina mereceria um post no mínimo laudatório» (já agora, a Folha de São Paulo de hoje publica uma reportagem sobre amigos de Adriano, «o Pipoca» em miúdo, na favela carioca de Vila Cruzeiro -- uma região controlada por traficantes do Comando Vermelho, um dos gangs em combate no Rio --; há mesmo um muro na favela com a imagem de Adriano e vem na primeira página do jornal).
O golo do Adriano tem a marca de um sopro súbito de inspiração. Não apenas por se tratar da Argentina, mas sobretudo porque os argentinos, durante toda a semana, brincaram com a «selecção B» do Brasil. «Vai buscar!», eu ouvi Adriano dizer, sim.
ESPIÕES, 2. O leitor Gonçalo Soares, por email, esclarece: «O português Tiago Verdial detido por espionagem ao serviço da Kroll tem 30 anos e se encontra no Brasil desde 1975. O sotaque com que fala dissipa qualquer dúvida: só é português no papel.»
ESPIÕES NO BRASIL. O Rui Batista dá destaque a esta notícia com bastante relevância: «Espião português pode responder por ao menos seis crimes.» Bom, o Tiago Verdial é apenas um funcionário da Kroll envolvido no célebre caso da espionagem entre empresas do ramo telefónico e sócios rivais da Brasil Telecom (nomeadamente o Banco Opportunity e a Telecom Italia). No meio são apanhados um ministro (Gushiken) e várias personalidades. Não é a primeira vez que isso acontece; há anos rebentou outro escândalo igual quando se tratou de primeira fase de privatização das redes telefónicas fixas (a espionagem chegava a monitorar reuniões nos gabinetes ministeriais de Brasília). Mas, em certa medida, esta história de «arapongas» levantou o ânimo brasileiro: a tão desconsiderada Polícia Federal conseguiu apanhar a Kroll (a maior empresa de segurança e espionagem do mundo) no deslize.
ORTOGRAFIA. [Actualizado] José Vítor Malheiros, autor do texto «Ortografia» do Público desta manhã, tem toda a razão. A televisão (nomeadamente a televisão pública, infelizmente), usa e abusa de erros em legendas e rodapés. Mesmo na comunicação institucional das empresas os erros ortográficos são vulgares. Nos manuais escolares, já aqui em tempos se fez uma relação desses erros. Durante muito tempo, os linguistas acharam que isso não tinha importância -- porque «desde que se comunicasse», o problema estaria resolvido. Temo muito que estejamos a formar uma pequena geração de analfabetos e de gente desinteressada. Em tempos escrevi no Aviz que isso se deve, também, ao facto de «a “classe educada” portuguesa ter abdicado de si mesma e ter abdicado de pensar e de ser exigente. Baixou o nível de exigência nas escolas, aceita sem pestanejar as idiossincrasias de uns cavalheiros que se permitiram gastar milhares de contos para elaborar um dicionário da Academia que rejeita valores e tesouros da nossa língua para passar a ser um saco onde cabe todo o linguajar, desinteressa-se dos resultados do ensino da Matemática e do Português, tornou-se vulgar e medíocre, acha que Bach é uma excrescência inútil, que não vale a pena ler Cesário ou Camilo às criancinhas».
Temos nas mãos uma geração de líderes se contenta em falar e escrever mal o Português, em se desculpar do seu défice de conhecimentos e em parecer muito moderna e contente.
Convém relembrar que, há uns anos, em plena euforia da linguística teórica nas universidades e escolas secundárias se criou a ideia de que a “língua escrita” era secundaríssima. Passava-se todo um trimestre (ou mesmo um semestre) explorando, com êxtase e delírio, as virtualidades técnicas de uma frase como “O João joga à bola”. O que era importante era a “língua oral”, ou seja, a língua tal & qual se fala – e havia mesmo rumores contra os exemplos fornecidos pelas gramáticas mais sérias (como a de Lindley Cintra e Celso Cunha, vale a pena dizer) para explicar o funcionamento da nossa língua. Que não: que aquilo era literatura e que a literatura não tinha nada a ver com a “nossa língua”, ou seja, a língua tal & qual se fala. O resultado parece mais ou menos evidente, e convém, neste caso, generalizá-los – para que se discuta, de uma vez por todas, o problema do ensino do Português e da literatura portuguesa nas nossas escolas. Parece que os estudos existentes já deram o alarme e fornecem números sinistros sobre iliteracia real, analfabetismo prático e fenómenos parecidos. Mas nada interrompe a tranquilidade dos técnicos e especialistas na matéria. Sobretudo porque qualquer medida mais drástica há-de acabar por gerar conflitos insanáveis na sagrada confraria que, nesta matéria, tem dominado o Ministério da Educação. Não é admissível que não tenham sido tomadas, até hoje, medidas sérias para evitar que, no futuro mais próximo, a nossa língua se transforme numa velharia obsoleta e sem regras. Um ensino do Português com tons mais permissivos, preguiçosos e envergonhados não há-de produzir bons falantes da nossa língua, nem bons leitores dos textos da nossa língua, nem sequer gente capaz de escrever – com clareza e rapidez – uma frase decente. O Ministério da Educação devia pensar nisso, com urgência, e as televisões deviam ser vigiadas de perto para não ser possível aparecerem legendas com erros ortográficos na nossa língua.
A EUROPA E O SUDÃO. Escreve Teresa de Sousa no Público de hoje sobre a irrelevância europeia e a sua inactividade na crise do Sudão: «De crise internacional em crise internacional, o padrão de comportamento da União teima a não se alterar. Demasiadas vezes, as suas belas declarações (como, provavelmente, a de hoje) não são mais do que um consenso mínimo possível entre os seus membros, que as torna quase imediatamente irrelevantes. Resta-lhe sempre a alternativa de despejar dinheiro sobre os problemas, na ânsia quase sempre vã de fazê-los desaparecer. Poucas vezes age e quando age é, normalmente, tarde demais ou com menos meios do que os necessários.»
Sobre a questão da inactividade, Teresa de Sousa poderia ter dado o exemplo de Perejil; dada a inabilidade e impotência europeias, foi Colin Powell quem se desfez em telefonemas para Rabat, Madrid e Bruxelas. Sobre a ideia de «despejar dinheiro sobre os problemas», a lista é longa.
DARFUR, A RAIVA QUE NOS DÁ. [Actualizado.] Uma citação simples do texto de Samantha Walker («Cerca de 30 mil pessoas foram já assassinadas, e perto de milhão e meio foram vítimas de limpeza étnica, afastados das suas aldeias e terras de cultivo. Centenas de milhar foram encurraladas em campos de concentração, patrulhados por milícias janjaweed, apoiadas pelo governo, que violam mulheres e matam os homens que tentam sair em busca de comida para as suas famílias. Outros vagueiam pela região sem alimentos nem água. Entretanto, Khartoum tem bloqueado e manipulado a ajuda alimentar internacional.») pelo Nuno Guerreiro, daria para tecer muitas considerações sobre o papel da ONU na questão das «crises humanitárias». Daria para falar do Ruanda, da Eritreia e da Etiópia – e da responsabilidade de países europeus no incremento do número de vítimas. «Quem se lembra dos arménios?», lembrava Hitler (relembra o Nuno, justamente), quando justificava a solução final. Quem se lembra dos sudaneses? Aliás, quem – na altura – se lembrou dos curdos atacados por Saddam e dos massacres de Ali, «o Químico» sobre a população iraquiana? Quem se recorda dos cinco mil mortos no estado indiano de Gujarat (em Godhra, perto de Ayodhya), onde cem mil muçulmanos foram deslocados para campos de concentração?
Há uns meses (Abril), transcrevi no Aviz uma entrevista (publicada na Folha de São Paulo) em que Bernard Lewis chamava a atenção para a questão do Sudão e para a hipocrisia europeia:
O problema palestiniano é apenas um entre os vários que vemos ao longo das fronteiras do mundo islâmico, como o Kosovo, Bósnia, Tchechénia, Caxemira, Sudão ou Timor. Todos esses pontos são manifestações de um mesmo grande problema entre o Islão e o não-Islão.
- Por que a questão palestiniana recebe mais atenção?
- Por duas razões. A primeira é que Israel é uma democracia, então os média podem entrar e sair, fazer o seu trabalho livremente. Israel é o país com a terceira maior presença de jornalistas em todo o mundo, atrás apenas dos EUA e de Inglaterra. A segunda razão é que os judeus estão envolvidos. E judeus são notícia. A vantagem da questão palestiniana é que os agravos podem contar com uma resposta imediata na Europa. Quando lutam contra os cristãos, aí é mais delicado. Não podem esperar que os cristãos se juntem a eles. Houve recentemente um ataque terrível no oeste do Sudão, mas ninguém lhe deu a mínima atenção.
As declarações de ontem do ministro holandês dos Estrangeiros, em nome da UE (sublinho o «em nome da UE porque é suposto ser em nosso nome) confirmam a ideia de que, para não ferir o monstro, se cede à monstruosidade. A UE sabe que, atacando a fundo a questão sudanesa, encontra no fio da meada a al-Qaeda (ver as peças dos enviados da Grande Reportagem à Etiópia, Martin Adler, e ao Sudão, Vincent Dudant – há três anos), o fundamentalismo islâmico, o poder das milícias armadas por senhores da guerra e da droga (como na Etiópia e na Eritreia). E, tal como se a ONU se recusou a condenar o nazi de Harare, recusa-se a condenar os bandidos de Khartoum.
Regressando ao post anterior, desta manhã, sobre a ajuda humanitária a enviar para o Sudão, é necessário lembrar que nenhuma dessa ajuda chegará ao seu destino: ela será desviada pelos militares, desviada pelos funcionários do regime, vendida nas ruas de Khartoum, retida pela burocracia do pobre Estado sudanês e enviada para as tribos fiéis. A UE salvará a honra, chorará convenientemente, a imprensa lamentará, e a ONU poderá ajudar a enterrar os mortos. A raiva que nos dá.
P.S. - O Paulo Gorjão põe, evidentemente, o dedo na ferida: «Sejamos claros. Goste-se ou não da idéia, à Esquerda e à Direita, a situação sudanesa só se poderá resolver com a queda do regime autoritário e com a imposição de um regime democrático.» Por mim, nas tintas. À esquerda e à direita.
Ler também o texto do blog Nós e os Outros (neste como em outros assuntos), igualmente recomendada pelo Paulo.
A RAIVA QUE ME DÁ. Eu, que gosto profundamente do Porto, subscrevo a carta que Gabriel Silva, no Blasfémias enviou a S.Exa. o Senhor Primeiro-Ministro sobre a peregrina ideia de vir aborrecer a cidade com inutilidades. O Porto nunca requereu o favor de uma esmola para ser visitado pelos cortesãos e pelas cortesãs. Escreve o Gabriel: «Saiba vexa que eu não estou disposto a que a minha cidade sirva para passeios fotogénicos, retratos enquadrados no velho casario, passeatas ostensivas de veículos oficiais a alta velocidade, interrupções de trânsito injustificadas, reforço de medidas policiais com prejuízo da vida urbana normal, já de si difícil, entre outros actos típicos de quando a corte se desloca do sofá para outros poleiros, perdoe-se-me a franqueza.»
Julho 26, 2004
O CANTINHO DO HOOLIGAN, MAS JÁ COM ATRASO. Esqueci-me, entre tantas notas & reflexões autorizadas & solenes, de referir a opinião curiosa de Rafael Azevedo, do blog brasileiro Blógico (uma das minhas leituras) sobre o Euro 2004:
Pobre Portugal. E a Grécia é a nova Itália, um pouco pior em tudo. Lembra a azzurra tanto na feiúra de seu futebol quando na absoluta mediocridade de seus jogadores, mas consegue ser ainda pior em tudo. Nenhuma jogada bonita, nenhum drible - simplesmente onze jogadores a se defenderem como podem, para marcar um golzinho num erro tolo do adversário.
Ok, é um estilo de jogo. E ganharam, não há o que discutir. That's football. Por que é mesmo que eu me interesso tanto por um jogo tão estúpido? Beh. Mas que Portugal merecia ter ganho essa, isso merecia. Assim como nós vamos ficar pra sempre "merecendo" ter ganho a Copa de 50. E isso vai ser muito ruim para o futebol. Quando finalmente se achava que a Europa, com Portugal, também era capaz de jogar um futebol bonito e entertaining como o brasileiro, acontece isso. Agora dá-lhe mais quatro anos de times na retranca.
QUESTÕES DE POUCA CARIDADE. O ministro dos estrangeiros da Holanda (em nome da UE) declarou-se contra as sanções ao Sudão. Há uma razão profunda, evidentemente: as sanções só iriam agravar a situação do país e tornar mais calamitosa a tragédia humanitária. Evidentemente que isso acontece depois de a Rússia, a China, o Paquistão e a Argélia se terem manifestado contra a hipótese, na ONU. A ideia é que a UE «envie auxílio para a problemática região, de modo a criar uma situação onde todos os refugiados possam ganhar a sua vida e sentirem-se em segurança quando resolverem voltar a casa», como diz o ministro holandês. A noção de «enviar auxílio» coloca questões muito pertinentes: quem distribui esse auxílio?; quem recebe esse auxílio?; como voltarão os refugiados a casa e como se sentirão em segurança, se as milícias continuam (ver notícias de hoje) a actuar livremente?
O ABRAÇO PARA O CARLOS OU A SORTE EM LIMA. Sim, Carlos, eu sei que houve ali sorte. Talvez o Brasil não tivesse merecido ganhar, com os dois golos marcados no fim de cada parte (eu vi o Diego sobretudo, já vestido de azul e branco) sobre uma Argentina que fez uma grande parte do jogo. Que se há-de fazer?
POIS É, POIS É. Ponto 1: «O Papa Pio XI já referiu a existência de uma "verdadeira conspiração do silêncio" sobre os crimes do comunismo em grande parte da imprensa mundial, juntamente com uma "propaganda diabólica" em favor de ideias e estilos de vida anti-cristãos.»; Ponto 2: «Há uma constatação óbvia: a imprensa é judeofílica!»; ponto 3, entre vários: «Órgãos de comunicação social pertencendo a grupos judaicos ou ao seu serviço, alguns exemplos: Frankfurter Allgemeine Zeitung, fundado e financiado pelos Rotschild, Lambert e Rockefeller, Christian Science Monitor, New York Herald Tribune, Boston Evening Transcript, Readers Digest, Berlingske Tidende, Die Zeit, Le Monde, Le Figaro, L’Express, Corriere della Sera, La Stampa, Journal de Genève, The Sunday Times, Radio Luxemburg, Le Nouvel Observateur, The Economist, Financial Times, The Observer, The Guardian, Daily Mirror, The Times, Expresso, SIC, TV Globo, Agência Reuters…» Nem o dr. Balsemão escapa. Este é um exemplo do delírio anti-semita de direita, num texto intitulado «A imprensa, os judeus, o rebanho de Panurgo».
(Obrigado ao F., por me ter feito chegar o link e por ter lembrado No Passion Spent, Essays 1978-1995, de George Steiner, a este infeliz propósito).
Julho 24, 2004
A NOITE, O QUE É?, 46. A noite demora a chegar, quando me levanto de madrugada para escrever, trabalhar, pequenas anotações meteorológicas, gotas de água na erva, ruídos de carros que passam na estrada. A madrugada substitui a noite, quando fico desperto pelas horas mais escuras. Cheiro de terra molhada, cheiro de café pela noite dentro, mosquitos que vagueiam, em ondas, depois substituídos pelas borboletas da madrugada. E também madeira salgada do salitre, ouriços, a costa africana, romances do século XIX, opúsculos sobre a ocupação da terra, postais ilustrados comprados numa feira, o vento de ontem à noite, arrancando as folhas da amendoeira, faíscas no céu, alguma coisa cheia de descrições, sistemas solares, azulejos. Acordo cedo, pés no chão morno, restos de chuva; vejo isso todos os dias, todas as manhãs, enquanto não vem a noite seguinte, esperando. Para isso serve a noite, para esperar.
PAULO FRANCIS. De vez em quando abro as crónicas de Paulo Francis que coleccionei por um ou dois anos; mas há um exercício curioso de fazer: um dia, o senador Eduardo Suplicy, do PT, conseguiu que um tribunal impedisse Paulo Francis de escrever o seu nome e de comentá-lo na coluna que mantinha no Estado de São Paulo. Mais tarde, Suplicy caiu em si e pediu desculpa. O exercício consiste em descobrir como é que Paulo Francis se referia a Suplicy sem o citar, sem o evocar, sem provocar de leve uma única alusão.
UM PROGRAMA CHEIO DE CORAGEM. João Miranda, no Blasfémias (ver post «Orgasmo múltiplo»), num notável trabalho de pesquisa, adianta que a palavra incentivo aparece 32 vezes no programa do Governo; estímulo aparece 17; estimular, 10; incentivando, 13; etc., etc. Podemos começar a organizar a nova gramática dos próximos meses.
ISSO É QUE ERA BOM. Dos textos que encontro na imprensa sobre as intenções de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia, há uma que me faz pensar várias vezes antes de começar a rir: «Contudo, devemos igualmente poder mostrar aos contribuintes que o dinheiro que confiam à Europa é gasto de forma prudente.»


LUIZ ANTÔNIO ASSIS BRASIL. Sim, também era um dos finalistas do Jabuti; Luiz Antônio Assis Brasil, gaúcho de Porto Alegre com ascendência açoriana tem um livro publicado em Portugal, O Pintor de Retratos (edição portuguesa Ambar, edição brasileira na LP&M), a história de um retratista (a óleo) que vive, na passagem do século, o confronto com a fotografia (e Nadar) e com a guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Creio que em breve será publicado A Margem Imóvel do Rio (edição brasileira da LP&M), uma história fantástica passada no século passado, entre o Rio de Janeiro (apenas uma pequena parte) e o Rio Grande do sul, quando o cronista do Imperador parte para investigar um chamado Francisco Silva, a quem D. Pedro teria prometido o barão de Serra Grande; a viagem é espantosa, os Franciscos Silvas multiplicam-se na serra gaúcha e nas profundezas do pampa -- é um desenho do Brasil que merece ser visto.
DEVEMOS CITAR OS GRANDES CLÁSSICOS. Não é por nada; é que vão directos ao assunto e já têm tudo escrito:
«-Tomara que ela não apareça hoje, senão vou ficar perturbado.
-Quem é?
-Se Pero Vaz Caminha a tivesse encontrado, teria escrito de outra maneira: "Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu, as tais coxas grossas, torneadas, terminando no bumbum em pêra, espantosamente roliço, convidativo como aquele sorriso. Ah, sim, descobrimos também uma terra".»
{No blog brasileiro Bricabraque.}
Julho 23, 2004
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Zagallo diz hoje, na imprensa, que a responsabilidade e a pressão do jogo de domingo (Brasil-Argentina) está toda do lado de Marcelo Bielsa, que está no fio da navalha. Basicamente, a técnica é pré-scolariana: «Nosso objectivo na Copa América já foi alcançado. [...] A ansiedade está com eles.» Percebe-se o argumento, mas se tivessem visto mesmo Sorín a arrancar pelo relvado, lá em Lima, dariam um puxão de orelhas a Luis Fabiano por ainda não ter marcado. É certo que esta equipa é o Brasil-B, e que a grande meta é o Mundial de 2006, mas isso deixa qualquer um frustrado. Antes da decisão sobre o Mundial de 2002, a Copa América também foi cinzenta para o Brasil e muitos jogadores evitaram participar (foi aí que começou o folhetim Romário, aliás). Mas quem viu os jogos anteriores com «o escrete das estrelas» também não fica muito aliviado -- Ronaldo não é sempre rasteirado pelos argentinos no Mineirão, não é?
[No domingo, mando-te um abraço, Carlos.]
SE FOSSE POSSÍVEL UM SOM. Se fosse possível um som seria este. Por causa da respiração, do eco. Só um som.
BERNARDO, SÉRGIO. O Jabuti deste ano foi (na categoria de ficção) para dois autores e dois livros a reter: Bernardo Carvalho, com Mongólia, e para Sérgio Sant'anna, com O Voo da Madrugada (ambos da Companhia das Letras no Brasil, Livros Cotovia em Portugal). Os dois livros já tinham recebido o Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte de São Paulo.
«Foi chamado de Ocidental por nômades que não conseguiam dizer o seu nome quando viajou pelos confins da Mongólia. Fazia tempo que eu não ouvia falar dele, até ler a reportagem no jornal. Voltou da China há cinco anos e largou a carreira diplomática. Sua volta intempestiva coincidiu com a eclosão da crise da pneumonia atípica na Ásia, o que pode ter servido de explicação para alguns, mas não para mim. O jornal diz que ele morreu num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha de seqüestradores, quando ia pagar o resgate do filho menor no morro do Pavãozinho. Pela idade do garoto, só pode ser o que nasceu em Xangai, logo antes de voltarem para o Brasil, quando ele decidiu mudar de vida sem dar satisfações a ninguém. Ao que parece, também saiu de casa em sigilo, terça-feira de manhã, para pagar o resgate. Não avisou ninguém, muito menos a polícia. Seguiu à risca as ordens dos seqüestradores. Os policiais o seguiram assim mesmo, sem que ele percebesse. O menino foi salvo, mas ele morreu no local. Tinha quarenta e dois anos. Ninguém vai ser responsabilizado, é claro. A polícia alega que ele foi imprudente. Liguei para um diplomata do Itamaraty que vive em Varsóvia e que o conhecia desde pequeno. Eram amigos de infância. Estava muito abalado. Decidira pegar o primeiro avião para o Brasil, que partia de Frankfurt naquela mesma noite.»
Bernardo Carvalho, Mongólia.
«Se alguma coisa digna de registro aconteceu em minha vida dura e insípida foi estar entre os passageiros daquele vôo extra, de Boa Vista para São Paulo. Antes de tudo, devo explicar as circunstâncias, talvez fortuitas - mas que depois me pareceram pertencer a uma cadeia de fatos necessariamente interligados -, que me levaram a estar entre os seus poucos passageiros, pois tinha bilhete marcado para as nove horas da manhã seguinte.Eu estava no quarto de hotel e, apesar de haver tomado dois comprimidos das amostras que carregava comigo, não conseguia dormir, por causa do som infernal que vinha da boate em frente, atravessando a janela e a cortina fechadas, misturando-se às vibrações do velho e empoeirado condicionador de ar. As músicas, em fitas que se sucediam sem interrupção, eram dessas gravadas especialmente para se dançar em discotecas vagabundas, as mesmas tocadas nas piores rádios em toda parte, e mal se distinguiam umas das outras.»
Sérgio Sant'anna, O Voo da Madrugada.
Julho 22, 2004
PÁTRIA, PORTANTO. As notícias que chegam da pátria são absurdas. Suspeito que não é apenas o Verão, a silly season.
MAIS PROSA DO CADERNO LILÁS. «Província de Okinawa, 1946. Marlon Brando e uma casa de chá ao luar de agosto. E logo ali a Polinésia. E logo depois os trópicos. Abacaxis, bananas, representações diplomáticas. E tomei o café absorvida pela atmosfera de dia seguinte. É esse o seu trabalho? ele perguntou, virando as páginas do álbum do Japão. Mas me interrogando com os olhos escuros, os cabelos meio caídos sobre a testa, a cicatriz no lado esquerdo do rosto. O que mais eu poderia falar sobre o meu trabalho, que já não estivesse ali, em todas aquelas fotos, colagens e desenhos? Eu não sou o que eu faço. Eu sou outra coisa.» {Texto de Karim Blair.}
PROSA CAÓTICA. «Os armazéns, as docas, o arsenal da marinha e a inspetoria da alfândega. Brazil: estava escrito acima, encimado por um telhado que caía em declive, 1892, a Companhia Docas de Santos estabelecida no Valongo, 14 km de cais acostável hoje. A armadora britânica de Lamport & Holt . Dezesseis navios fundeados na barra, 39 sendo esperados nas próximas 48 horas, 28 atracados no porto público, três nos terminais, o som alto de uma música techno, os cachorros pouco ferozes e muito famintos, as sobrancelhas erguidas, as digitais cheias de tinta aplainadas nos papéis. Ele encostou em um container e deixou que a brisa quente da baía entrasse & naufragasse pelos seus cabelos. Passou a mão no pescoço e acendeu um cigarro. O carregamento de banana e de café, as moscas e os cargueiros do píer 45. Levantei a cabeça: os adeuses aos adeuses pequenos, que acontecem nas noites e nos cargueiros, entre as peças de prata das pulseiras, entre diafragmas que se abrem e fecham em segundos, em papéis propositadamente envelhecidos mais tarde no laboratório. Perfumes de gardênia, boleros de satã, um poema de Pound misturado às ondulações marinhas, e os olhos dele percorreram o mapeamento dos insetos que aqui habitam, verificando toda a sua exatidão.» {Texto de Karim Blair, também citado no Prosa Caótica, de Maira Parula}
BRASIL-ARGENTINA NO DOMINGO. A vitória de ontem, contra o Uruguai, não foi justa nem injusta: aconteceu apenas aquilo que era previsível, uma vitória tangencial. Para quem viu o Brasil-Argentina ou o Chile-Brasil de há mês e meio, houve uma «descida de produção»; e não tem a ver com a ausência dos Ronaldos ou de outras estrelas -- mas da confirmação deste futebolinho das «melodias de sempre», que já tinha sido o da Copa de 1998, em França, comandado por Zagallo. Desta vez, Parreira e Zagallo não conseguiram a magia de outras épocas. Eu sei que a Copa América não é assim tão importante. Mas, caramba, a Argentina é a Argentina (desculpa, Carlos), e neste momento joga um futebol muito superior.
PÓ. A Maura Paoletti diz que «as edições novas dos livros de Monteiro Lobato e os programas novos do Sítio do Pica-Pau Amarelo não têm mais menções ao pó de perlimpimpim por causa das associações politicamente incorretas com a cocaína». É outra das revoluções culturais contemporâneas.
Julho 21, 2004
AUTÁRQUICAS DE LISBOA. O Miguel Silva, no Viva Espanha! (e fazendo eco de um texto do Irreflexões e do Diario Digital), relembra uma peça publicada na Grande Reportagem sobre irregularidades no apuramento dos resultados nas últimas autárquicas de Lisboa. Na altura, eu era director da revista, sim, e os dados por nós apresentados na reportagem eram seguros -- e são ainda hoje correctos. Nunca foram desmentidos. E nunca foram contestados por quem devia (seria bom que se explicassem os motivos). Há quem diga que nessa noite eleitoral foi tomada uma das mais perversas decisões familiares que afectaram a democracia portuguesa nos últimos anos -- e, já agora, a vida do PS. Ponto final, e definitivo. Pela minha parte.
SUDÃO, DARFUR. Há cerca de três anos, a Grande Reportagem, era eu director, publicou uma história de várias páginas (com direito a capa) sobre os crimes cometidos no Darfur, Sudão. Desde essa altura que acho ignóbil a posição da imprensa em relação a «crises humanitárias» (como o são desde há décadas as da Etiópia e da Eritreia): crianças raptadas e vendidas para a al-Qaeda, mulheres violadas, raptos em série, etc. Mais, muito mais: desaparecimento em massa de aldeias cujos habitantes foram assassinados por milícias árabes e muçulmanas, conhecimento da situação por parte das Nações Unidas e dos seus departamentos (para além das ONG que financia generosamente e cujos resultados são desconhecidos -- excepto o seu cada vez maior poder financeiro), denúncias permanentes da guerra religiosa movida à população cristã (como há anos aos falasha da Etiópia). Finalmente, alguma atenção ao caso, dado que já estão cansados de breaking news de cada vez que uma arma dispara no Iraque. Há vítimas e vítimas. No caso do Sudão, tal como no do Ruanda (e como, será no Zimbabwe, quando a «linha da frente» deixar de apoiar o nazi de Harare) só dez anos depois, ou mais, a ONU revelará a «real dimensão da tragédia», num dos seus relatórios contemporizadores, antes de aceitar que a Síria, Cuba, a Líbia ou talvez o Paquistão presidam à comissão de direitos humanos como moeda de troca. A «real dimensão da tragédia» está ali, em dois milhões de mortos contados no ano passado.
JUVENTUDE, 3. A Maria João Correia de Oliveira, também por mail, acrescenta um pormenor:
«Há poucos dias, um canal de televisão noticiava que, no IPO de Lisboa, há médicos (gente boa e humana) que prolongam o internamento de idosos com o objectivo de lhes proporcionar uma alimentação mais cuidada. Isto dói.»
JUVENTUDE, 2. Nuno Carrilho comenta, por mail, o post que vai abaixo. Transcrevo uma passagem (o Nuno tem um blog):
«Uma outra associação e talvez mais pertinente que a da juventude é a do caso das mulheres associarem-se às criancinhas e aos idosos; realmente as mulheres estão indefesas como as crianças e os velhos? Eu tenho a certeza que não, e que os idosos são das pessoas mais desprezadas da nossa sociedae mas mudar a mentalidade de um povo que é por demais evidente é conservador é uma obra herculiana ou mesmo impossivel... os países nórdicos nesses aspectos estão mto a frente de nós, nos países mediterraneos. Nem se preservaram os fortes laços de socialização familiar onde os mais velhos eram vistos como pedras fundamentais na orgânica familiar e na preservação, não da dita "cultura" mas do respeito pelo próximo, nem que seja da família. De pequenos passos se faz uma mudança de atitude).»

MARIO SAA E OS JUDEUS. José Pacheco Pereira refere no Abrupto este texto de Mário Saa (e publica a imagem da capa, que transcrevo) como «um dos poucos textos anti-semitas publicados em Portugal no século XX». Ainda não há um levantamento do anti-semitismo português mais recente, ou seja, do século XX (no século XXI, de 2001 para cá, há bastantes amostras, algumas delas na blogosfera). Mas o texto de Mário Saa, A Invasão dos Judeus, é uma preciosidade. Há, aliás, vários textos de Saa sobre o assunto. Tenho uma edição comprada, imagine-se, em Díli (há ano e meio), que li no avião. A biblioteca de Mário Saa está montada a poucos quilómetros de Aviz, na freguesia do Ervedal, e o seu espólio pode consultar-se. Também aí, há uma relativamente subtil amostra de anti-semitismo.
Julho 20, 2004
JUVENTUDE. Parece que uma das linhas de acção dos governos portugueses é, sempre, a da protecção à juventude. Parece-me um exagero e um abuso. Esta ideia de proteger a juventude é despropositada – não há nada mais protegido, nas sociedades actuais, do que a juventude. No caso português, então, a avalanche de jovens que enche os jornais, as televisões (onde qualquer pivot de notícias com mais de 45 anos parece um absurdo nacional, como se fosse um escândalo aparecer na pantalha um cavalheiro com ar sério e conhecimento do mundo), as ruas, os estádios, os casos de polícia, as claques dos partidos, desmente qualquer necessidade de protecção. Pelo contrário, os velhos merecem protecção. Uma sociedade é tanto mais civilizada quanto mais protegidos estão os seus velhos – das intempéries, das doenças, do abandono dos filhos, da falta de transporte, da falta de alegria. Numa das minhas primeiras viagens na Suécia fiquei espantado quando o revisor de um comboio pediu (com ar de ser uma ordem) a um rapaz que cedesse o seu lugar a uma senhora de idade. E o aspecto dos velhos comoveu-me. Nunca gostei muito de dizer «terceira idade» depois dessa viagem – lembrei-me dos velhos do meu país, escondidos nos fundos, esquecidos nos hospitais. Anos depois, quando o Instituto da Juventude pôs no ar uma série de anúncios de televisão, idiotas e estapafúrdios, sobre jovens «que não fumam», a irritação subiu de tom; num deles, uma «jovem» frequenta lojas de roupa, esplanadas, anda de metro, somos informados de que «gosta de moda» (que é isso?) – e não fuma.
Não; esta ideia da «protecção à juventude» parece-me coisa para mentecaptos. A juventude precisa de gramática, de boas maneiras, de exercício físico, de leitura, de levantar cedo e de liberdade. E precisa de uma escola que não a trate como indigente ou diminuída intelectualmente. Os velhos, sim, precisam de apoio. Eles não são um mercado potencial, como os «jovens»; por isso mesmo os «jovens» não precisam de ministérios, protecção estatal e choraminguice. Mas os velhos sim, precisam de ser bem tratados. Precisam de ser ouvidos e de serem lembrados, de uma vida feliz e, também, de uma morte feliz.
Subjacente, existe outra ideia: a de que os velhos não têm nada para ser valorizado a não ser participar no «Praça da Alegria» e aparecer esporadicamente nos telejornais como vítimas de maus tratos em lugares miseráveis. Este contentamento do país que festeja com alarvidade os seus jovens escritores, jovens pintores, jovens «jotas, jovens estrelas de televisão, jovens vândalos, jovens idiotas e jovens analfabetos só nos devia envergonhar enquanto os velhos não forem, sequer, mencionados.
GOVERNO. Um liberal à moda antiga sente-se um pouco perdido na lista (elenco, como lhe chamam na imprensa) de ministérios do novo governo. Não há «ramificação da vida» que lhe escape: da criança ao mar, passando pela agricultura e pelo turismo, pela família, pelas comunidades portuguesas – não vejo (tirando a «terceira idade», que é uma ideia desprezada pelas novas gerações que exercem o poder, que exaltam a juventude, a juventude, a juventude…) muitas diferenças em relação àqueles governos de países que acabam de se tornar independentes, onde tudo parece ser um campo fértil para que o Estado intervenha, regule, esclareça, proíba ou esbanje. E não falta, nas designações adoptadas, um curioso tom politicamente correcto. Se este governo tivesse saído de eleições, não teria tantos ministérios.
MEDICINA GERAL. O meu médico de estimação (e de verdade, embora eu seja um seu paciente relapso) comemora o seu primeiro aniversário na blogosfera. Merece comemoração.
Julho 19, 2004
MURO. O Nuno Guerreiro esclarece um ponto importante acerca do muro de segurança entre Israel e os territórios palestinianos; por exemplo, a existência de uma barreira espanhola em Ceuta: «A barreira espanhola – ou o “muro de Ceuta” – tem agora oito metros de altura e custou 60 milhões de euros, com a sua construção a ser custeada parcialmente com fundos comunitários.» Não se conhece a opinião de Javier Solana. O Nuno acrescenta mais alguns países que instalaram barreiras semelhantes – não com o apoio de fundos comunitários europeus, evidentemente.
Julho 18, 2004
MAIS ANIVERSÁRIOS. O Desesperada Esperança, do Bruno Alves, faz anos. O Luís Carmelo também festeja um ano do Miniscente -- e hoje, talvez pelo Verão europeu, lembrou-se de Paramaribo. Não me fica muito longe; e a estrada que segue de S. José de Macapá para o Oiapoque (do Chuí ao Oiapoque...) bem merece a lembrança. O Suriname, esse, merece a visita.
Julho 17, 2004

ORNABI, SÃO PAULO. A Ornabi, não sei se ainda existe, mas devia existir. Organização Nacional de Bibliotecas, um sebo (alfarrabista) impressionante, cheio de salas a cheirar a pó, no centro de São Paulo (Sala Fernando Pessoa, Sala Ruy Barbosa, Sala Luís de Camões, etc.) A Ornabi foi fundada e mantida por um português (creio que de S. João da Madeira) que gostava de livros. Nas poucas vezes que lá entrei (nunca se sai de lá sem um livro debaixo do braço), reparei no seu olhar – vigilante, cioso dos livros que tinha reunido, quase cheio de pena pelos que iam saindo, irritado por terem escolhido aquela edição (perguntou-me três vezes, com um olhar triste, se eu estava mesmo interessado naquele Corção que encontrara fora do lugar, e só então desistiu). Não sei se recebeu alguma comenda portuguesa pelo 10 de Junho, como o pessoal do futebol ou do espectáculo, mas São Paulo também ficava mais portuguesa, em parte, por causa da Ornabi.
Isto vem a propósito do texto do Os Outros de Nós, citado abaixo, mas também lembro essa livraria do aeroporto: durante alguns meses, o meu voo de ligação levava-me a esperar algumas horas da madrugada em Guarulhos – e a LaSelva acompanhava-me as horas de espera com as novidades em cima da banca, noite fora. Gosto muito das livrarias de aeroporto; no Brasil, as de São Paulo, Salvador e Porto Alegre são razoáveis para a exigência do viajante devorador (as do Rio desceram de qualidade, não se percebe porquê) – e a de Porto Alegre tem uma secção gaúcha muito interessante (infelizmente, ao lado da loja de chocolates, o que traduz uma situação de concorrência desleal). Fanático, como sou, da Saraiva.com, que entrega livros em dois dias com embalagem especial e cuidados de expedição, reservo-me sempre para os sebos, aqui e ali. E, se bem que o Os Outros de Nós fale do ar clean de grande parte das livrarias de São Paulo, quase nunca resisto a duas: à Cultura, evidentemente, na Paulista – porque não é preciso procurar muito, o que às vezes é uma vantagem; e à do shopping de Higienópolis, por duas razões: os empregados, habituados à clientela dos arredores, são simpáticos, conhecem os frequentadores e os seus hábitos (sim, tem alguma judaica nas prateleiras) e, pormenor a não desprezar, a vinte metros há o melhor petit gâteau de chocolate das redondezas.
DE UM LADO E DO OUTRO DO MAR. A comunidade luso-brasileira de blogs alarga-se. Já tinha referido vários, como o Diário de Lisboa, o Estrada do Coco, o Sushi/Leblon, entre outros -- junta-se agora o Outros de Nós:
«Aquela livraria improvável sempre me fascinou. A cidade tem muitas outras, embora em São Paulo proliferem as livrarias assépticas e modernistas. Não são melhores, nem piores. Mas como nunca achei o livro um objecto moderno, desconcentra-me o snob minimalismo de algumas delas.»Merece visita.
NERUDA, 2. Escreve o António Cruz, por email: «Fiquei admirado quando no seu post sobre o Neruda reconheceu que a sua pouca simpatia pelo poeta se funda num preconceito. Fico sempre espantado quando vejo alguém reconhecer que tem um preconceito. Um preconceito, por definição, não é uma coisa que deveria envergonhar? O Francisco vai-me desculpar, mas não ficaria mais espantado se alguém confessasse "eu não gosto disto, mas isso é porque sou parvo". Eu suponho que fica sempre bem reconhecer as fraquezas e até admiro essa coragem. Eu que sempre aprendi que ter preconceitos é mau, evitaria dizer que os tenho, ainda que os tenha. Mas não seria melhor que tentasse afastar o preconceito quando escreve e sobretudo quando faz um juízo acerca de alguém? Ou, reconhecendo em si tal preconceito, nem sequer escrever?»
Talvez não. O meu preconceito sobre Neruda é menor e por isso escrevi que reconheço nele «poemas que rondam o magistral, o génio, por vezes o absoluto» (no Canto Geral a sequência de Machu Pichu, por exemplo, é única). Mas não o venero como um dos meus poetas. Acontece que nesta matéria dos aniversários, muito grata à cultura comemorativa, existe uma tendência para tomar a parte pelo todo e ignorar o conjunto; glorificando-se o poeta, glorifica-se a obra e, glorificando-se o poeta e a sua obra, como uma coisa só, toma-se como uma única coisa aquilo que não devia ser confundido. Assim, Neruda tem «poemas que rondam o magistral, o génio, por vezes o absoluto», mas não concordo nem me associo à homenagem política que pretende ser caucionada pela qualidade desses poemas, misturando loas a Estaline com descrições das fronteiras do Chile; e, se quer que lhe diga, sem ofensa pessoal, alguns poemas escritos sob influência da paixão pelo «Pai dos povos» são, de facto, uma boa merda. O conjunto não é lá muito notável, em termos comemorativos e geralmente leva tudo de arrastão. Quanto a calar-me: bom, não tinha pensado nisso.
VANTAGENS E DESVANTAGENS. A vantagem do céptico é que raramente alimenta esperanças infundadas. A desvantagem é que também raramente se sente obrigado a prestar vassalagem às suas paixões. Os liberais à moda antiga são cépticos.
MANIA. O Brasil fez um mau arranque e perdeu no Perú. Carlos Alberto Parreira,o treinador (que sorri, ao canto da boca, sempre que se lhe fala de Scolari -- com Zagallo ao lado, numa autêntica dupla das «melodias de sempre») declara que «acabou o tempo das experiências». Já é mania dos treinadores brasileiros.
Julho 15, 2004
CRUZES. O Cruzes Canhoto decidiu interromper o seu blog. A sua despedida (necessariamente transitória) tem um tom de amargura e de bom-humor, o que prova que nos entendemos para lá do bem e do mal: «Se antes eu dizia que emigrava se PSL chegasse ao poder, hoje hesitaria muito antes de dizer que antes um tiro na cabeça que ver Avelino Ferreira Torres como primeiro-ministro.» Espero que volte.
Julho 14, 2004
LEMBRANÇA AOS EVANGELIZADORES. «Devemos apoiar tudo o que o inimigo combate, e combater tudo o que o inimigo apoia.» [Mao TseTung, em 1939; Obras Escolhidas, T.II] Hoje seria um tal barafunda que o velho Mao faria como António Vitorino.
REPETIÇÃO. Escrevi outro dia que a decisão do presidente da República «não foi uma vitória de ninguém em especial» (inesperadamente é uma vitória do PS, sim, porque isto escreve-se por linhas tortuosas) Mais: «Um liberal à moda antiga não pode ficar contente. Um liberal à moda antiga, ou seja, alguém que preza a liberdade.» Mantenho e insisto.
TANTA ELOQUÊNCIA. Eu começaria por cobrar as promessas: quem vai cumprir a promessa de partir para o exílio, agora que Santana Lopes é primeiro-ministro? Eu, que já escrevi o que escrevi sobre Santana Lopes, gostaria de os ver, cabisbaixos, partindo para o exílio – envergonhados com a Pátria, meia dúzia de livros debaixo do braço, de olhos fechados. Tanta eloquência, tanta. Prometem intervenção cívica, desalojar Sampaio de Belém; há dois anos novinhos em folha cheios de possibilidades – a campanha eleitoral permanente vai começar.
Julho 13, 2004
NERUDA. Tenho pouca simpatia por Neruda, mas é um preconceito que reconheço. Há poemas seus que rondam o magistral, o génio, por vezes o absoluto. Há outros que são profundamente menores e que eram uma espécie de cartilha militante, com ditirambos de carácter; sobre este último aspecto, escreveu Borges[*] no Aleph, quando se ri de uma obra intitulada Canto Augural (e que é o Canto Geral, de Neruda), imitação de Whitman com tempero comunista – nomeadamente Estaline, que era profundamente admirado pelo poeta. Borges detestava Neruda e tudo o que ele significava: o comunismo, o lirismo cheio de imagens da natureza, o pan-nacionalismo sul-americano e a tentativa de representar em verso a geografia da grande terra da América. Há mesmo um fragmento do Aleph em que Borges nos obriga à gargalhada: «[Carlos Argentino Daneri, ou seja, Neruda] em 1941 já tinha despachado uns hectares do estado do Queensland, mais de um quilómetro do curso do Ob, um gasómetro a norte de Veracruz, as principais casas de comércio da paróquia de Concepción, a quinta de Mariana Cambaceres de Alvear, na rua Once de Setiembre, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos não longe do conhecido aquário de Brighton.» Mas eu gosto profundamente de «As alturas de Machu Pichu», o melhor do Canto Geral. A poesia «de amor» de Neruda nunca me pareceu ter esse brilho celeste e acredito que foi sobrevalorizado pelas condições políticas da sua sobrevivência.
[*] – Ainda Borges sobre Neruda: «Julgo que ele é um homem muito ruim. Escreveu um livro acerca dos tiranos da América do Sul, e depois teve várias estrofes contra os Estados Unidos. Agora sabe que são tolices. E não teve uma única palavra contra Perón. Isso devido ao facto de ele ter um processo em tribunal, em Buenos Aires, como me foi mais tarde explicado, e não queria correr riscos. E assim, quando se esperava que ele escrevesse alto e bom som, cheio de nobre indignação, afinal nem uma palavra ele pronunciou contra Perón. Estava casado com uma senhora argentina e sabia que muitos amigos dele tinham sido presos.»
PORTUGAL, VELHA PÁTRIA. A serem verdade, as declarações de António Vitorino são notáveis. E não se afastam muito da teoria do pântano, expressa por António Guterres, ou da prática de Durão Barroso: «Há coisas que com humildade reconheço que, ou não sei, ou não tenho a motivação para fazer.» Portugal não nos merece. A lista de emigrados e de estrangeirados continua a crescer. Compreende-se.
GOVERNO. Uma das vantagens é esta: acabou o prazo para justificações. O governo não tem, a partir de agora, legitimidade para regressar ao tema da «fuga de Guterres» e ao descalabro das contas publicas. E vem em plena silly season.
NOTAS. O Público diz que a média de resultados dos exames nacionais baixou na maioria das disciplinas «em comparação com o ano anterior». O problema com que a escola se defrontava não era o das notas -- mas o da aprendizagem. Sobretudo a Português e a Matemática. Recordo um debate, logo depois da vitória do PSD nas eleições de há dois anos, em que o deputado Guilherme Silva dizia não compreender como é que Portugal indexava tantos gastos para a Educação quando os resultados eram tão medíocres. Deu vontade de rir. Porque toda a gente sabe que os resultados não melhoram só porque há uma maioria de direita. Os resultados escolares não melhoram porque a maioria o decreta do Parlamento. Não melhoram pelas intrínsecas e públicas qualidades de qualquer ministro da educação mais popular e apoiado pela imprensa ou pelo partido. Por isso, o ministro da educação nunca foi popular no partido.

MADEIRENSES NO EXÍLIO. O livro de Ferreira Fernandes sobre a diáspora madeirense depois da perseguição religiosa aos presbiterianos, Madeirenses Errantes (edição Oficina do Livro), é seguramente um dos livros do ano. Em meados do século dezanove (tudo teria começado na década de quarenta) muitos madeirenses escaparam à sua ilha e passaram para as Caraíbas, atravessaram as Américas, chegaram ao Havai, no Pacífico. E se a Inquisição tinha sido abolida há anos, a verdade é que, na origem desta fuga, esteve a perseguição religiosa – eles eram protestantes, ou pelo menos tinham acabado de converter-se ao protestantismo. É uma história espantosa, essa, de madeirenses perdidos no mundo. As pequenas narrativas sobre a família Mendes, de Trinidad, são dignas de serem lidas e relidas -- desde Alfie Mendes, um dos escritores mais importantes da zona (juntamente com V.S. Naipaul ou Derek Walcott, ao que dizem os manuais), até Sam Mendes, o realizador premiado com o Oscar (e ignorante o suficiente para desconhecer a história da sua família: «Derek Walcott told someone that Alfie Mendes' grandson was doing great things in London», escrevia o The Guardian em Fevereiro de 2000). Depois, a chegada dos protestantes madeirenses a Nova Iorque, a sua partida para o Illinois (e o encontro com Abraham Lincoln). Se puderem, leiam. É absolutamente brilhante: os inquisidores madeirenses ardem nestas páginas (o bispo D. Teodoro Faria pediu desculpa aos presbiterianos século e meio depois), reconstituem mais um período de fogueiras religiosas. E deliciem-se com o rum Fernandes, de Trinidad, uma das criações madeirenses em Trinidad & Tobago (uma das grandes aquisições da Baccardi, já agora...).
ELEIÇÕES EM SÃO PAULO. A Folha de São Paulo mostrava na edição do fim-de-semana as transformações por que passava a fotografia de Marta Suplicy antes de ser impressa nos cartazes. Lado a lado, uma fotografia de ontem -- e a do cartaz. Marta Suplicy, que reclamava o regresso da luta de classes nas eleições para a prefeitura de São Paulo, parece a Xuxa. Igualzinha.
Julho 10, 2004
ATÉ QUE ENFIM. Eu sabia que não resistiam. Nuno Costa Santos, Alexandre Borges, Filipe Nunes, João Pedro George e Rui Branco estão juntos num blog -- e até que enfim.
OXALÁ. Oxalá me engane (por causa do País, etc.), mas não foi uma vitória de ninguém em especial. Um liberal à moda antiga não pode ficar contente. Um liberal à moda antiga, ou seja, alquém que preza a liberdade.
Julho 07, 2004
UM ANO. Mais tarde ou mais cedo fazemos todos um ano. Agora é o Ivan Nunes e o A Praia. Saudações luso-brasileiras de cá para lá e vice-versa.
DIÁRIO DE LISBOA. A Maura regressou ao Brasil onde continua, mas agora a partir de um bairro bonito de São Paulo, o seu Diário de Lisboa; se antes era o olhar sobre Portugal de uma brasileira que vivia em Lisboa, agora pouco se perdeu desse olhar, lendo a imprensa portuguesa à distância. Não deixa de ser gratificante saber da sua atenção.
Julho 06, 2004
A VIDA QUE AGORA TE COMEÇA. [Para o Rui, do Companhia de Moçambique] Alfazema ou rosmaninho, amêndoa, flor de giesta, castanheiro, um dia ela reconhecerá esses perfumes, e talvez o do mar, o da terra, o dos pinheiros, de olhos abertos, de olhos fechados. Desaparecem de nós muitas coisas menos o nome que hoje te começa, ou te prolonga, ou te fica mais perto do coração.
Julho 05, 2004
ENTREVISTA. A entrevista de Santana Lopes (na RTP1) terminou com um tom épico, quando se mencionou a peça de fait-divers do El Mundo em que era tratado como um Don Juan lisboeta (ah, moralistas, exultai!). É por isso que Santana Lopes gostaria muito de ter eleições.
PRAIA. Tal como acontece com o Ivan e quase pelas mesmas razões, de repente um cansaço enorme tomou conta de tudo naquele momento em que o miúdo Ronaldo chutou para as bancadas. Era muito futebol, era pouco futebol? Não, as bandeiras podiam continuar nas janelas, nos carros -- mas esta unanimidade pura, patriótica, nacionalista, heróis do mar nobre povo contra os canhões chutar, somos os maisores, tudo isso continua a ser um excesso apesar dos melhores momentos. Não agradeço ao Charisteas aquele golpe oportuno na nossa baliza, não -- porque aquele futebol de merda é futebol de merda mesmo quando se está do lado da «filosofia» de Scolari («ganhar é preciso/, jogar/ não é preciso»). Mas o pontapé para as nuvens de Ronaldo, que só poderia ter remissão no disparo de Ricardo Carvalho, como uma absolvição, anunciava o fim. Tal como o Ivan, lamentavelmente para mim, não me sinto patriota com as quinas e a esfera armilar e o verde e o vermelho -- tenho as minhas pátrias, sim, mas noutro lugar. Não sou patriota de uma pátria em que o presidente da República chora enquanto malbarata a Ordem do Infante, ou lá o que é. Gosto daqueles golos de Maniche («Vai buscar!»), sim. Mas futebol é futebol -- aquelas horas de emissão, as repórteres a mandar beijinhos aos rapazes «que estão em Alcochete», os editoriais de A Bola sobre a pátria e a remissão dos pecados através do futebol só me provocam repulsa, tal como me provocavam antes. E o que havia a dizer já está dito: Portugal portou-se bem, em geral, as raparigas festejaram, com a pele à mostra. Mas isso era futebol. Futebol mesmo, pátria em chuteiras. O resto já não é. Medalhas da pátria, lágrimas avulsas, isso não. Isso é tudo avulso.
PADRÕES ESTRANHOS. «Detecto no ar padrões estranhos... E não sei porquê passei a irritar-me facilmente, tipo alergia, quando oiço ou leio a palavra "consensos"; cheira-me sempre a mofo embrulhado num misto de bolas de naftalina por cima, tipo continuidade mal-disfarçada; numa decisão ausente, a ausência da decisão; malditas traças.» O A Formiga de Langton faz um ano de invenção na blogosfera. Muitas vezes vamos lá para ter um retrato do mundo visto de cima. Do céu. Do que flutua.
POLÍTICA PURA. O Paulo Gorjão acaba de cumprir um ano de vida na blogosfera. Uma das coisas que se procura no Bloguítica, e se encontra, é opinião clara; mas, como acontece com os melhores espíritos, existem também dúvidas metódicas, informação séria, irritações. É um dos blogues que leio para estar informado (o outro, por razões diferentes e extra-territoriais, é o dos Marretas). Uma ressalva: tenho saudades dos tempos em que o Paulo se dedicava também a questões de política internacional pura. Para quem não saiba, o Paulo Gorjão é especialista em matérias que em Portugal são muito ignoradas, como a zona Ásia-Pacífico, sobre a qual tem escrito vários artigos na imprensa indonésia ou australiana, por exemplo. Parabéns, Paulo.
E AGORA, UMA COISA COMPLETAMENTE DIFERENTE. Bom, já me esquecia deste pormenor: amanhã, segunda-feira, o regresso à vidinha.
O CANTINHO DO HOOLIGAN. Sim, os gregos ganharam a taça. Observações de passagem e sem carácter definitivo: 1) acho que Portugal fez um bom campeonato (quando escrevo bom isso quer dizer, de facto, bom); 2) há jogadores que desiludiram, mas é a vida; 3) houve outros que não me importo de festejar, como Maniche, Ricardo Carvalho, Cristiano Ronaldo, Rui Costa ou Miguel -- mas nenhum goleador «de raiz»; 4) Scolari ainda tem de explicar por que razão andou durante um ano e meio a jogar mal, por que manteve Pauleta em campo, e o que o levou de facto a mudar a equipa depois do primeiro jogo com a Grécia. Agora, espero que deitem contas à vida.
Julho 04, 2004
QUE LINDA, A ESTABILIDADE. Há, pelo país fora – blogosfera incluída, naturalmente – uma gritaria descomunal a pedir estabilidade. Não compreendo porquê e não vejo grande vantagem nesta estabilidade. Eu sei que a esquerda pede eleições (e como o Causa Nossa me nomeou na categoria de blog de direita, tenho de ser mais cuidadoso) e, como já escrevi, essa é a sua condição. Ai da esquerda se não pedisse eleições nesta circunstância (refiro-me ao PS – o Bloco e o PCP podem pedir eleições em regime de permanência). Seria uma vergonha se Ferro Rodrigues hesitasse um dia que fosse na exigência de eleições antecipadas depois de o primeiro-ministro anunciar que iria pedir a demissão. Muitos dos meus amigos de direita insinuam casos anteriores, um historial de nomeações e de ascensões ao cargo de primeiro-ministro sem ser através de eleições. Muitos dos meus amigos de esquerda pedem eleições no pressuposto de que, sem elas, não haverá legitimidade democrática que abençoe qualquer primeiro-ministro, o que me lembra a aparição da Eng.ª Pintasilgo, vinda do Além, falando da maior crise de que há memória – a senhora está com amnésia, mas compreende-se (de resto, pedir estabilidade através de eleições, e pedir legitimidade através de operações de rua é coisa que eu não entendo). Eu compreendo que há legalidade constitucional e legitimidade democrática, e que são coisas diferentes. Daí que Sampaio (qualquer coisa de positivo, finalmente, como diria o PC) tenha de tomar uma opção – e, por favor, que a tome sem multiplicar advérbios e adjectivos e sem pregar sermões de duvidosa moralidade. Que a tome, a justifique e seja rápido (a final do Euro é já hoje).
As eleições não assustam ninguém de bom senso e que saiba o preço da conquista do poder. É apenas disso que se trata. As coisas, nessa medida, são muito simples: 1) Durão Barroso aceita o cargo europeu; 2) Fez bem aceitar e não se compreende o coro que, agora, desvaloriza o cargo; 3) Ao abandonar o governo, Barroso sabia que a convocação de eleições era uma das hipóteses, tanto mais que o resultado das europeias tinha deixado o seu governo – e o seu partido, e a sua coligação – em situação muito fragilizada; 4) Volto a insistir num ponto (ver abaixo o post «Bom Motivo, Mau Motivo»): um governo de Santana Lopes será um governo do PSD, mas não será um governo do mesmo partido – será inteiramente diferente. Ou seja, um eventual governo de Santana Lopes não seria o governo nascido do quadro eleitoral anterior – a prova está na reacção de Manuela Ferreira Leite, por exemplo. Santana Lopes formaria um governo do PSD, mas com base num programa inteiramente diferente daquele que o «quadro parlamentar actual» validou, aprovou e defendeu.
De resto, mantenho que Santana Lopes gostaria muito de ir a eleições. E, salvo erro, essa hipótese assusta cada vez mais o PS.
O pedido de estabilidade parece-me, nestas circunstâncias, absurdo. Justificava-se, sim, se Durão Barroso fosse primeiro-ministro e a gritaria se mantivesse nas ruas. Demitido Durão Barroso, e nas actuais circunstâncias políticas, a realização de eleições não é nada absurda. E vão ter resultados muito surpreendentes.
O país não precisa de estabilidade: precisa de clarificação. Seria importante saber se o PS multiplicaria a criação de fundações dependentes dos dinheiros públicos, o que propõe para a função pública, como vai lidar com as metas impostas pela União em relação ao défice, o que vai propor em matéria de endividamento das autarquias e do sector público, com que dinheiro pensa fomentar a política de investigação e do ensino superior, que política vai seguir quanto às propinas, o que pensa da rede de transportes e da armazenagem de clientela em institutos e departamentos estatais. Tal como é importante saber como vai ser, exactamente, a sua política externa, embora isso me importe menos do que saber o que pensa sobre a reforma do ensino ou os programas de ensino do Português, ou o que vai fazer acerca do endividamento das regiões autónomas. Coisas concretas. A banalização doentia da contestação e do discurso rezinga exige, agora, posições claras e confronto. Se isto acontece apenas dois anos depois de eleições legislativas, a culpa é de quem deixou a situação chegar a este ponto, sendo que a saída de Barroso é apenas um pretexto. O país não precisa de estabilidade – precisa de respiração e de alívio, e de corrigir erros e de tomar fôlego: está crispado e desconfiado, inquinado por falsos debates e pela vulgaridade dos seus políticos. Eleições não resolvem isso, toda a gente sabe – mas ajuda a eliminar uma série de dúvidas.
PS - Uma nota final. José Pacheco Pereira resumiu bem a situação quando diz que o populismo serve, sobretudo, para fazer desaparecer o centro político: «Um dos efeitos induzidos do populismo é a deserção do centro político. Porque é difícil, porque dá trabalho, porque não dá votos, porque não brilha na televisão...» E quando conclui que estamos na luta entre o Bloco de Esquerda e o Bloco de Direita. Mas acho que não basta tirar essa conclusão, lançados os dados como estão. Como Pacheco Pereira, também penso que Durão Barroso deitou fora dois anos, entregando-os a Santana Lopes.
Julho 03, 2004
MOORE. Pior do que o populismo da alarvidade pura, que não esconde que é populista e aldrabão, só o populismo de uma alarvidade totalmente mascarada, que recebe o aplauso daqueles que só sabem pensar com os holofotes à beira dos olhos, como se tudo fosse espectáculo. O texto de Christopher Hitchens é muito justo para com o personagem: o menos que lhe chama é desonesto e demagógico. Michael Moore sabe para quem trabalha: para o terceiro mundo da inteligência ou para quem não precisa, sequer, de inteligência e se contenta com banalidades. De tempos a tempos há subprodutos assim. Já vi coisas piores na capa da Newsweek.
CRISE. A Eng.ª Lurdes Pintasilgo disse, diante das câmaras de televisão, que esta era a maior crise (política, suponho) vivida em Portugal depois de Abril de 1974. O género humano tem sempre novidades para nos oferecer, e gratuitamente.
O PENALTI DE POSTIGA. Sobre o penálti de Helder Postiga, o Daniel Rodrigues (entre a Alemanha e Portugal, e que agora tem um blog), enviou um curioso mail: «Após ler um dos poucos comentários à forma prodigiosa como Hélder Postiga marcou o seu penalti, lembro que num jogo de sub-21, não posso precisar qual, o ex-jogador do Futebol Clube do Porto tfez uma coisa exactamente igual. Antes de marcar, vendo como os jogadores ingleses estavam a humilhar o Ricardo, rematando sempre para o centro da baliza, pedi, no meu intímo, que naquele momento era audível, que ele marcasse outro assim. Um penálti que deixa o estádio em suspenso, o coração a bater demasiado e o guarda-redes prostrado, frustrado por não conseguir levantar-se a tempo para ir ao outro lado buscar a bola. É cruel. É a tortura que mostra a superioridade de alguém sobre o outro, tal como arrancar unhas, ou espetar agulhas. James irá certamente acordar muitas vezes durante a noite, a ver a bola passar ao seu lado. Neste caso, não se pode dizer "nem a viu". O jogador do Totenham deu a oportunidade a James de não precisar de ir buscar a bola lá dentro, para confirmar que foi batido... Como no Matrix, ele esteve simultaneamente a defender e, de lado, a assistir ao passe-remate. Quando este momento infindável terminou, uma amiga disse-me: "Este golo foi para ti!" Eu sabia que o Postiga não me ia decepcionar. É um daqueles lances nos faz sonhar...»
DIZES BEM, DIZES BEM... O Alfides, do Lacrimosa tem o bom hábito de terminar os seus posts com uma frase em latim. Sobre a festança do Euro na televisão escolheu uma bem apropriada: «Puer es; nec te quicquam, nisi ludere oportet; lude.»
CALISTO ELÓI. O André Cunha de Vasconcellos publica no seu A Torto e a Direito uma pequena lembrança sobre Durão Barroso, citando Calisto Elói, o velho Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, o de A Queda de um Anjo. Há livros que devíamos ler antes de serem reescritos pela realidade, como lembrava a certa altura o bom Brás Cubas, de Machado de Assis, na suas Memórias Póstumas.
SOPHIA, 2. Por mail, FBP envia-me um poema de Sophia. Sem saber, recuo muitos anos. Foi o poema [«Meditação do Duque de Gandia sobre a Morte de Isabel de Portugal»] que, há vinte e quatro anos escolhi para um trabalho universitário. É dos mais belos poemas de Sophia (vem em Mar Novo, de 1958). Obrigado, FBP.
Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
CRIANÇAS. Vi, na televisão, uma reportagem sobre o stress das crianças durante o Euro. Um psicólogo explicava que os adultos dão largas à sua agressividade e que isso pode prejudicar as crianças, digamos que «provocar um trauma»; além disso, a febre futebolística pode também levar a desilusões: as crianças pensam que é só ganhar, só ganhar. Esta história dos traumas é absolutamente ridícula, dado que tudo provoca traumas e que tudo pode constituir um perigo para as crianças -- no fundo é um ramo extremamente prometedor no exigente ramo de negócio da psiquiatria. De seguida, a reportagem falava com crianças, à procura de traumas e de medos: «E então se Portugal perder a final? Ficas triste?» Pergunta diabólica, não? Resposta da criança: «Não.» «Não?» «Não.» Bom, a repórter não ficou convencida; apenas derrotada e cheia de stress. Mas o psicólogo garantia que era perigoso. Um raio que os parta.
Esta ideia de que as crianças devem ser protegidas de todas as emoções (sobretudo das que vivem mais intensamente) é uma doença hilariante dos profissionais do sector e da imprensa que adora traumas em cabeça de página. No início do ano, as crianças sofrem do stress do início do ano escolar. O stress do Natal vem a seguir. O stress das notas de final de período escolar aparece depois. E o stress das férias faz a sua aparição nesta altura. Se pudesse haver um mundo em que todas as emoções pudessem ser controladas directamente dos consultórios dos psicólogos, esse mundo protegeria as crianças até ao limite, poupando-as à alegria, à desilusão e às lágrimas. E o mundo seria tão perfeito que qualquer abalo teria um peso insuportável; as crianças não conheceriam a dor da derrota nem a euforia histérica da comemoração. Seriam ensinadas a pensar que não havia impostos, exames finais, horários de refeições, trabalhos escolares e que as caixas de Multibanco fornecem dinheiro livremente. Alguém explicaria que excesso e ausência seriam pecados terminais. Esta gente transforma o mundo num precipício.

BRANDO. Sim, ele era o actor. Ele era a respiração do actor, aquele que fazia parecer todos os outros apenas estrelas de plástico, pechisbeque. Ele era a voz, a pausa, o olhar, o meu actor.

Poema
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua ecsrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
O quadrado da janela
O briho verde de Vésper
O arco de oiro de Agosto
O arco da ceifeira sobre o campo
A indecisa mão do pedinte
São minha biografia e tornam-se o meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
Sophia de Mello Breyner Andresen [1919 - 2004]
Geografia, 1967

Instante
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio
Sophia de Mello Breyner Andresen [1919 - 2004]
Livro Sexto, 1962

O Anjo
O Anjo que em meu redor passa e me espia,
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me cantando no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen [6 de Novembro de 1919 - 2 de Julho de 2004]
Dia do Mar, 1947
Julho 02, 2004

"
SOPHIA. Nesta circunstância, que é a da morte, nenhuma palavra é melhor do que as da própria Sophia. Eu recordo os primeiros versos lidos, os muros brancos, o mar, o azul do mar, as coisas elementares que só percebi que eram elementares depois de as ter lido nos seus poemas. E, nessa altura, eram as coisas mais belas que tinha encontrado. Mesmo com o passar do tempo, os seus poemas nunca perderam -- em qualquer momento -- o brilho dessa beleza designada com os nomes mais intensos. A falar verdade, só na sua poesia algumas palavras deixavam de ser fáceis ou vulgares. Como ela dizia: «As palavras às vezes coincidiam com os seus significados, e depois deixam de coincidir, e voltam a coincidir outra vez.»
Julho 01, 2004
O CANTINHO DO HOOLIGAN, OUTRA VEZ. Ao lado delas, de resto, estava um grupo de jornalistas locais, incomodados com a festa. Naquele desprezo notei uma tristeza imensa, como se tivessem dado conta de que eram incapazes de compreender o Verão todo. Todo ele.
E tive uma pena imensa daqueles desgraçados incapazes de rir, de mudar de roupa, de desabotoar a camisa, de alargar o planisfério, de abandonar o ar cansado e canalha. Não podia chamar-lhes «coitados» senão com a sensação de que a pobreza de espírito se manifesta de muitas maneiras.
O CANTINHO DO HOOLIGAN COM TENDÊNCIAS SOCIOLÓGICAS. Ao ver a Pátria – onde já vi o último jogo – vestida de bandeiras, não achei despropositado (o problema é mesmo a bandeira...). Agora, acho é que há uma revolução cultural importante a decorrer: basta ver o público feminino a torcer pelo futebol. Atrevidas, não? Acabei de ouvir um grupo de raparigas estivais, no passeio da Duque de Loulé, a cantar a canção de Nelly Furtado com a alteração do refrão: «Come-me à força...» (Por favor, Bruno, vem em minha defesa!)
HOLANDESES, PRONTO [O CANTINHO DO ULTRA-HOOLIGAN]. Figo sorriu – foi a grande novidade do Euro 2004. De resto, a Holanda – que seria uma selecção simpática – viu o jogo pelas lentes de Davids: com um sorriso amarelo. E no golo de Cristiano Ronaldo nada me deu mais prazer (nada mesmo, tirando o golo propriamente dito) do que ver Davids lá dentro, encolhido e derrotado. Vai buscar. Eu gosto desta frase quando Portugal ganha: vai buscar. Imagino ao que ia na cabeça de Maniche depois de marcar aquele golo de antologia: «Vai buscar!» O «vai buscar!» é, no fundo, a essência do futebol. «Toma!» Manguito e meio. Dir-me-ão que tudo vai do talento dos jogadores, a quem compete saber que estão ali para jogar e fazer em noventa minutos aquilo que a um dinossauro levaria anos. Às vezes, eu temi. Portugal necessitava de 25 passes para fazer chegar a bola à área holandesa, perdendo-a no quarto final, o que não é a melhor forma de obter golos na primeira meia-hora, como se sabe, mas enfim. De resto, ainda me hão-de explicar porque razão os avançados portugueses caem na área adversária, tropeçando ou escorregando. Veja-se o replay dos 24 minutos da primeira parte, depois de uma arrancada magistral de Figo: Deco e Pauleta sentaram-se porquê? E já agora vão ao replay do minuto 34: Pauleta (o mais distraído avançado do Euro) chuta em desequilíbrio depois do passe monumental de Maniche por que razão? Troquem as chuteiras, meninos. Os portugueses já aprenderam – a essência do futebol é essa frase gloriosa: «Vai buscar. Toma.» Com aquele brilho que o Maniche leva nos olhos.
Junho 30, 2004
CONSPIRAÇÃO. Sim, há a nossa indignação e o esbanjamento ético correspondente. A quantidade de virgens ofendidas e escandalizadas com o actual processo político é realmente cansativa, perorando sobre moral, abandonados que estamos, coisa vil que são os princípios. Já o sabíamos de há muito. Durão faltou às promessas -- à promessa de cumprir o mandato. Isso é de uma clareza mais do que lapidar. Mas, para lá de tudo isso, que nos fornece um capital de indignação muito para lá do suficiente, e da hipótese de Santana Lopes ir a primeiro-ministro, que nos preenche vários parágrafos entre a pilhéria e a apreensão, há uma realidade muito mais prática que também ocupa espaço: o que vai mesmo acontecer? Nessa matéria, confesso, suponho que Santana prefere eleições. É o seu campo aberto preferido, liberta-o da cumplicidade do presidente, da desconfiança do seu eleitorado, da artilharia da oposição. Por isso, sendo evidente para qualquer pessoa que a esquerda deve exigir eleições quanto antes (seria uma vergonha que o não fizesse), poderíamos especular sobre isso: eu acho que Santana prefere ir a eleições, caso seja designado presidente do PSD amanhã à noite. Pode perder, sim, arrastando consigo a vingança que lhe foi dedicada por Durão Barroso (deixar-lhe o partido e uma hipótese de governo); mas, em campanha, Santana estará como peixe na água, sacudindo do capote a «tralha barrosista» (o rigor orçamental, a ditadura das Finanças), fazendo as tropelias que entender, desafiando Ferro Rodrigues, nomeando adversários. Esse é um ponto.
Ele sabe que, se aceitar as exigências de Sampaio e dos «pilares do regime» (desde as regras de bom-comportameno orçamental até à ideia de morigeração geral), acabará o Santana Lopes como Santana Lopes gosta de vender Santana Lopes. Deixar que o Presidente lhe diga como deve ser tratada a economia, como deve falar sobre a Justiça ou sobre a iliteracia, sobre a «opção atlantista» (que tema!, que tema!) ou sobre os costumes em geral, parece-me que significa abdicar de coisas bastantes.
Junho 27, 2004
O GÉNIO ESTÁ ONDE? O Ilídio Martins, com quem costumo concordar em muitas coisas, tremeu de pânico com o penálti marcado pelo Helder Postiga. E não foi o único: «O que me ia matando foi aquele penálti do Postiga. Não, não achei nada genial. O que eu achei é que Postiga arriscou muito, talvez demasiado. O que estaria a dizer-se agora de Postiga caso tivesse falhado e o falhanço tivesse ditado a eliminação de Portugal?» Acontece que o penálti, assim marcado, com esse ar de folha-seca, à Djalminha, foi a gargalhada que humilhou os ingleses definitivamente. Esse penalti, mais o sorriso do Cristiano Ronaldo depois de marcar o seu, mais o de Ricardo, empurraram os ingleses para o fundo das primeiras páginas. E isso é que foi delicioso. O futebol é assim. E se Garrincha não tem feito aqueles dribles durante a sua vida inteira? E se Didi tivesse sido mais correcto? E se Cubillas não usasse o peito do pé esquerdo para ajeitar a bola antes de a trocar para o direito -- como uma mania -- diante da irritação dos adversários? Provavelmente, se Postiga tivesse falhado, estaríamos todos a pensar que tinha sido infantil, sim. Acho que sim. Mas, como marcou, hoje rimos do James, e do Vassel, e do Owen, e do Beckham, e do Cole, e do Scholes, e do The Sun ou do Daily Mirror. E do Tottenham, já agora. E, assim, o golo de Postiga arrasou a potência da treta que era o futebol inglês em selecção nacional: engolidos pelo miúdo que preferiu uma folha-seca, um «vai buscar!» sem pestanejar. Não houve nenhuma imagem que mais me divertisse nesse jogo: a de James, vendo a bola passar-lhe ao lado. Eu, se fosse um dos patetas que escreveu aquelas coisas no Mirror e no Sun, escondia-me sempre que visse passar Postiga a caminho dos treinos no Tottenham.
FINLÂNDIA. O Sob a Estrela do Norte é um blog português feito na Finlândia. Há uns dias, publicou uma fotografia de Kilpisjärvi, e desapareceu «para contemplação». Reconheço que é uma boa hipótese. Estive na Finlândia durante uns tempos, e é um dos cenários mais espantosos do Grande Norte. Nestes dias de Euro ouvem-se lêem-se alarvidades de todo o género: uma delas, quando se comenta o jogo da Dinamarca ou da Suécia, diz respeito à frieza dos nórdicos (os finlandeses não são propriamente nórdicos) -- «gente sem emoções», dizia ontem um energúmeno futeboleiro na rádio. Ninguém pode viver «sem emoções» diante do sol da meia-noite (não, não é o meu «espírito contemplativo» a falar) ou da aurora boreal de Outubro. Durante esses tempos de Helsínquia, corria quase à universidade para ler os jornais portugueses que chegavam: o Expresso (que tinha um correspondente local, o Pedro Oliveira, com quem fiz uma viagem gelada, verdadeiramente gelada, pela Carélia) e o Jornal de Notícias. Uma senhora da sala de leitura, ao fim de uns dias, punha de parte o JN, como se dissesse «este já tem cliente», e entregava-mo com uma piada em finlandês que eu nunca percebia -- mas ria bastante. Compreendo o autor do Sob a Estrela do Norte, ao abandonar-se à luz de Kilpisjärvi. Sem querer, em terras de calor, recordo Rovaniemi -- a cidade do Círculo Polar que os nazis destruiram e Alvar Aalto reconstruiu --, Muonio, Kautokeino, Kuopio, as estradas silenciosas da Lapónia, mas também aquela neblina tardia sobre a Mannerheim, as páginas incompreensíveis do Helsingin Sanomat (que tinha publicidade em toda a primeira página excepto no cabeçalho), o Parque Sibelius (e a Casa Finlandia, de Alvar Aalto) e até as tardes em que se procurava um pouco de silêncio na Temppeliaukio (uma das mais belas igrejas de Helsínquia, escavada na rocha). Sim, dizer que eles são frios é de uma banalidade estonteante.
COMENTADORES. Não sei quem disse aos comentadores desportivos (ou seja, de futebol) que a sua função é, durante os jogos, substituírem o treinador e fazerem substituições por ele, de controle remoto na mão. Geralmente, dá asneira. Ao ver o Portugal-Inglaterra na SportTv brasileira, o comentador dizia: «Bom, Ricardo tem fama de defender penaltis, mas desta vez ainda não vimos nada disso...» Pimba: dois segundos depois Ricardo defendia o pontapé de Vassel (na verdade, desde o intervalo que um deles pedia a entrada de Rui Costa...). Na televisão portuguesa há uma enorme quantidade de substituições que Scolari devia ter feito durante cada jogo e, salvo erro, devia ter convocado outra equipa completamente diferente. O brasileiro Leonam Penna gostava de futebol efectivamente jogado. Um dia, a meio de um jogo, perguntaram-lhe o que achava daqueles remates à trave. Está quase lá, hã, Leonam? Imagino o que diriam sumidades como Diamantino Miranda, Pedro Gomes, Gabriel Alves e outros. Ele limitou-se a responder: «Bom. Bola na trave é bola mal chutada.»
VOX POPULI. José Pacheco Pereira tem razão por motivos inteiramente desvalorizados na discussão em torno da nomeação de Santana Lopes. Ou seja: a nomeação de Santana Lopes significa a escolha, por parte do PSD, de quem melhor poderá ganhar as próximas eleições legislativas – incluindo se forem «as antecipadas», a muito curto prazo. O PSD das províncias sempre achou graça a Santana Lopes: o rapaz tem jeito, palavra, ousadia e bom porte. Se as eleições internas no PSD fossem abertas a esse PSD das grandes províncias, Santana Lopes teria arrebatado o partido há muito. O país das grandes províncias ou respeita um professor ou aceita deixar-se seduzir por um sedutor.
António José Teixeira tinha toda a razão quando, na SIC-Notícias, também dizia que esse (o de Santana Lopes) seria um governo inteiramente diferente, o que não deve fazer-nos pensar nas melhores razões. Em relação ao post anterior: sim, seria um governo saído do mesmo «quadro parlamentar», mas «o quadro parlamentar» é que seria outro, assim de repente.

















