de existir, uma pessoa tem de pagar todos os meses a existência."
Iosif Brodskii
"Aussitôt que l'idée du Déluge se fut rassise..." A. Rimbaud
Na única vez que fui ao Louvre (que é um sítio onde uma pessoa que é pessoa deve ir), a visita seguiu-se a uma noite em que tinha estado numa discoteca com alguns companheiros de viagem e posteriormente regressado ao hotel a pé pelas ruas de Paris (continuo a não gostar de discotecas, mais os seus djs programadores e barmen curadores, mas acho que não há suficiente literatura sobre o ar livre nocturno das cidades). O que eu sei é que papei o maior número de quadrinhos possíveis, com curiosidade de atleta e resistência de intelectual comprometido, seguido pela raiva ensonada dos pés macerados dos compagnons de route. Juventude...Este lied de Schubert ("Der Neugierige") é pouco célebre e pouco interpretado, mas é definitivamente o meu favorito de todos os que conheço do compositor. O seu poema é extremamente ingénuo, mas a encenação musical é tão justa que é quase possível ouvir a voz do rio que ele descreve.
Não me parece que Peter Pears lhe faça muita justiça, mas talvez dê para partilhar o gosto...
Escrevi um argumento de cinema a partir desta canção.
Quando eu abandonava o cinema no fim da exibição do filme "El cant dels ocells", um senhor protestava na bilheteira por não ter ouvido nenhum canto nem visto nenhum pássaro. Aquele título refere-se a uma belíssima melodia catalã de inspiração religiosa, que foi popularizada pelo violoncelista Pau Casals, e que é ouvida no filme no momento em que os reis magos se põe a adorar o Messias recém-nascido.
O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.