Continuando a olhar a campanha eleitoral através das janelas que se abrem no mundo dos blogues, vale a pena parar um bocadinhos nos 3 mega-blogues colectivos criados especificamente para este período eleitoral. O Simplex é um blog de apoio ao Partido Socialista que reúne gente do partido mas também muitos independentes: “homens e mulheres, jovens e menos jovens, gente consagrada e por consagrar, gente divertida e sisuda, oriunda das mais diversas áreas profissionais e políticas, sem outra afinidade que não uma declaração de voto comum: nas próximas eleições legislativas vamos todos votar no Partido Socialista”.
Há depois o Jamais, e apoio ao PSD, que se define pelo popular Jamais do ministro Lino, “Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista”.
E há ainda o Rua Direita, que apoia o CDS e que afirma “Esta rua não é uma federação dos bloggers do CDS devidamente apadrinhada por dirigentes do CDS. É uma rua de eleitores que aqui chega por vontade própria. Aliás, a maior parte de nós não tem sequer qualquer ligação institucional ao CDS e apresenta-se pela primeira vez na blogosfera como votante neste partido”.
Ora bem: os 3 blogues, que reúnem nomes relevantes, de João Gonçalves a Inez Dentinho, de Eduardo Pitta a Pacheco Pereira, de Miguel Vale de Almeida a Vasco Graça Moura, de Leonel Moura a Paulo Rangel, enfim – nomes que obviamente enriquecem qualquer blog ou site ou mesmo jornal... pois bem, estes nome acabam asfixiados pelo sectarismo a que os blogues não conseguem resistir.
Na verdade, lê-se com gosto o Eduardo Pitta no seu blog Da Literatura, onde escreve muito sobre politica. Mas o mesmo texto, integrado no blog colectivo, perde força, relevância e interesse.
Se as ideias destes blogues era apenas ocupar espaço mediático e marcar o dia a dia da campanha, tudo bem – mas se a ideia era ir mais longe, promover o amplo debate das grandes questões que diferenciam os partidos, promover um diálogo rico entre esquerda e direita, então paciência: o processo não passa pelos blogues de apoio a este ou aquele partido ou candidato.
Ontem, no blog Rua Direita, Francisco de Almeida fazia o balanço dos debates na televisão e escrevia: “Fico preocupado com a aparente ausência de rumo para o futuro deste país. Os mais importantes candidatos ao cargo parecem não conseguir delinear uma estratégia clara que permita a Portugal romper com o distanciamento face aos congéneres Europeus, e entrar decisivamente na Europa do século XXI”.
Ora, eu fico preocupado é quando entro num blog e em vez de pessoas encontro chavões e frases-feitas. Assim, mais vale entregar isso mesmo aos partidos, e deixar o debate correr onde ele corre melhor: entre blogues que nasceram independentes de qualquer timming eleitoral. Aliás, essa é a natureza da blogoesfera – e assim será, em Outubro, logo que esta maratona termine. E faltam 11 dias para as eleições.
Daqui até ao dia 27 dificilmente esta Janela se abrirá a outros temas que não a politica, tanto mais que, em plena campanha, há no mundo dos blogues espaço para reflexões relacionadas com o momento, porém laterais aos espaços de campanha. Vamos olhar alguns desses olhares laterais, que incluem noticias, ou pelo menos rumores, como este que encontro no blog de José Paulo Fafe: “CORRE POR aí que PS e PSD dispõem de sondagens bastante credíveis que dão uma vantagem de cerca de 7 pontos de José Sócrates sobre Manuela Ferreira Leite (...) ... Mas nem uns nem outros estariam muito interessados em "tirá-las da gaveta": os social-democratas porque os números são mais do que desalentadores; e os socialistas porque já aprenderam a "lição das europeias", quando um exagerado optimismo baseado em sondagens (...) levou a que muito do seu eleitorado ficasse em casa e outros resolvessem dar uma "ajuda" ao Bloco de Esquerda. Citando o dr. Portas, "cautelas e caldos de galinha(...)"...
Fica por confirmar. Confirmado está o interesse dos eleitores pelos debates televisivos, quase sempre e quase todos acima do milhão de espectadores. Sofia Loureiro dos Santos, no blog Defender o Quadrado, também achou este serie de debates “muitíssimo interessantes. (...) Houve uma grande atenção aos debates, o que demonstra que as pessoas estão interessadas e preocupadas com o desfecho destas eleições, (...) que há um regresso à disputa ideológica entre direita e esquerda tendo todos os protagonistas procurado explorar e acentuar os pontos de divergência. Outro aspecto muito importante que esteve presente em toda a pré-campanha, antecedendo até estes meses eleitorais, foi a discussão da honestidade, do carácter, da seriedade e da credibilidade política dos líderes partidários e da forma como os seus partidos se posicionam em termos éticos”.
O problema agora é que a ética fica em geral á porta da campanha eleitoral. Paulo Gorjão no seu Vox Pop lembra aos eleitores para não se esquecerem de levar “garrafa de oxigénio”. “Manuela Ferreira Leite desvalorizou o optimismo manifestado por José Sócrates com os mais recentes indicadores económicos, considerando que “estamos todos debaixo de água, mas ele entende que é igual morrer afogado a 12 metros de profundidade ou a 13 metros. Para mim não é tudo igual. Não quero é morrer afogada.” Enfim, o que dizer disto? Não há muito para dizer. Vão ser 12 dias divertidos. Pouco sérios, mas divertidos. Afinal, já se sabe há muito tempo que em tempo de guerra a verdade é a primeira vítima”.
Saindo então da verdade para o espectáculo, palavra a Nuno Dias da Silva que observou no seu blog a estreia do Gato fedorento em campanha entrevistando José Sócrates na SIC: “Na conversa com Ricardo Araújo Pereira, (...) Sócrates marcou pontos, sabendo ele que estava a ser visto por uma audiência mais ampla do que a que assistiu aos debates e, mais importante, por um eleitorado mais jovem, muitos deles que votam pela primeira vez, e que necessitam de ser convencidos. O estilo cool e sem gravata também ajudou. Irrepreensível, dizemos. Porreiro, pá!”. Hoje à noite, é a líder do PSD que responde às perguntas do Gato Fedorento. E faltam 12 dias para as eleições
Campanha eleitoral na estrada, o arranque foi dado oficialmente depois do encontro na TV entre Sócrates e Ferreira Leite. Um debate a que a esmagadora maioria dos comentadores não atribui vencido ou vencedor, porque os dois líderes conseguiram prestações equilibradas, uma ou outra gaffe, nada de especial. Ainda assim, consigo encontrar notas e sublinhados no mundo dos blogues que vale a pena trazer à Janela.
Por exemplo, Maria João Marques, no Insurgente, repara que “Sócrates não gosta nada da maledicência nem daqueles políticos que passam o tempo a criticar os outros. (...). Foi por isso que passou todo o debate (...) a criticar e maldizer as propostas reais ou inventadas do PSD”.
Nuno Dias da Cilva, no Civilização do Espectáculo, prefere olhar Manuela Ferreira Leite, a quem chamou de Padeira de Aljubarrota: “protagonizou um dos momentos mais vivos no debate de ontem, com consequente eco na imprensa espanhola,(...). E nem se pode invocar que foi apenas o jornal dos socialistas em Espanha que pegou no assunto. O periódico da direita do país vizinho foi até mais contundente e a declaração de que «Portugal não é uma província de Espanha» é uma das notícias mais lidas no «El Mundo». Proponho que a primeira visita oficial de Ferreira Leite ao exterior, depois de eleita, como «deseja» e «espera», seja a Espanha para fazer as pazes com os empresários e o poder político espanhol”.
Sobre este tema, Carlos Manuel Castro no Câmara de Comuns escreve “que a líder do PPD é de um vazio político atroz, quando disse que Portugal não era província de Espanha e que os espanhóis se queriam aproveitar de fundos comunitários´para fazer o TGV. Como se o mesmo não se aplicasse a Portugal, beneficiando de patrocínio europeu para as redes transfronteiriças”.
No fundo, e afinal, onde se vê ou analisa o debate de sábado é mesmo nos pormenores, nas nuances que tudo mudam. Afonso Azevedo Neves, no 31 da Armada, repara neste pormenor interessantíssimo: “Sócrates quando irritado perde sempre a razão, Manuela Ferreira Leite quando irritada ganha a razão que não consegue fazer passar quando se esforça por se manter calma”.
Daniel Oliveira, no Arrastão, prefere olhar o tema pelo lado da estratégia e não hesita na vitória de Sócrates neste confronto: “Sócrates usou neste debate a mesma estratégia que aplicou aos anteriores: passar ao ataque e ser oposição à oposição, usando os programas dos outros. (...) A estratégia põe os opositores à defesa, que é sempre a pior forma de estar num debate. E, perante as dificuldades oratórias e políticas de Ferreira Leite, garantiu uma vitória sem discussão. Mas uma coisa é ganhar debates, outra é ganhar as pessoas. E quando Sócrates concentra nos opositores, nos seus programas e no seu passado, está, ele próprio, a diminuir os seus últimos quatro anos de governo. A sua estratégia dá vitórias mas não mobiliza. Dificilmente convence indecisos”.
No fim, como no princípio, sem ser Daniel, poucos ousam atribuir uma vitória clara. Paulo Pinto Mascarenhas acaba por fazer uma boa síntese: “Estão de igual para igual. Esperava mais de Sócrates que, como diziam os especialistas, tem jeito para isto. Mas o jeito não está a dar para ganhar”. E faltam 13 dias para as eleições.
Os ouvintes mais fieis, e com melhor memória, talvez se lembrem do destaque que aqui fiz ao blog “A Pente fino”, um espaço criado por um série de amigos, a maioria a viver fora daqui, na Holanda, ligados á economia a e à gestão, e cujo trabalho no blog era ler os jornais e descobrir os erros factuais que eram mais do que muitos: estatísticos, matemáticos, de lógica, de relação, eles eram os cata-erros da imprensa, e muitos jornais se irritavam com aqueles posts atentos.
Pois bem: contrariando a lógica, ou talvez não, um dos dinamizadores do blog, Miguel carvalho, justamente a residir na Holanda, decidiu xsair do Pente Fino e criar o blog “Fado Positivo”. É o meu destaque da semana por ser, no mínimo, inusitado nesta fase do campeonato.
Declaração de Miguel Carvalho a abertura de Fado Positivo: Farto do bota-abaixismo.
Farto dos maus agoiros, o derrotismo e os fatalismos. Farto do discurso do coitadinho. Farto do discurso político vigente da desgraça iminente, apenas interrompido durante os anitos em que se está no poder. Farto da táctica política do "quanto pior, melhor" Farto duma imprensa que vasculha entre relatórios gigantescos até encontrar uma nota de rodapé com uma má notícia, e que apresenta os dados no modo mais sensacionalista possível. Farto duma opinião pública que considera que qualquer má notícia é 100% objectiva e qualquer boa notícia é uma manipulação do governo. Farto do "dantes é que era", o "isto está cada vez pior" e o "só neste país". Farto dos velhos do Restelo. Este blogue é optimista. Ponto final”
E a ideia é só essa: ver o copo meio-cheio e trazer todos os dias boas noticias: o próprio Miguel reconhece que ao “Escolher a melhor notícia de cada relatório”, vai dar “uma visão deturpada da realidade (admito-o frontalmente, algo que ninguém faz), mas se o pior dos piores é aceite como informação válida, porque não poderá ser o melhor dos melhores?”
E lá estão as noticias:
Portugal com terceira maior dinâmica de constituição de novas empresas
Portugal melhora em todos os aspectos mais fracos do ambiente para negócios
Défice da balança comercial diminui em 1700 milhões de euros, exportações crescem 17,5%
Comércio a retalho cresce acima da média europeia
Eurostat destaca crescimento português em investigação como o terceiro maior em toda a UE
No fundo, Miguel Carvalho contraria a lógica normal da imprensa, destacar o que está mal, e prova que em cada relatório, estudo ou sondagem, também se podem encontrar bos noticias.
Claro que já houve quem se interrogasse sobre a razão pela qual agora ele se apaixonou pelo lado bom da vida, dando a entender obscuras intenções policias, mas o autor não se encolhe na explicação: “Em Portugal ver o copo meio vazio é considerado imparcial e objectivo. Ver o copo meio cheio é manipulação da verdade. Pensem se isso fará sentido”
Realmente, faz pouco. E o blog fado positivo, que podem encontrar em fadopositivo.blogs.sapo.pt, só por ter esse outro olhar, essa originalidade, merece ser o meu destaque desta semana. E já só faltam 16 dias para as eleições...
É incontornável a politica e as politicas. Mas lá está: o mundo dos bloges às vezes reserva-nos surpresas que estão para lá da espuma dos dias, daquela ligeireza com que se olha um debate ou uma frase de um candidato. Foi isso que hoje encontrei no blog Vox Pop, de Paulo Gorjão. Sob o titulo “Crónica de uma Derrota Anunciada”, escreve ele: “A memória é um bem precioso e muitas vezes oferece outros ângulos de observação para os factos presentes. (...) Valerá a pena, porventura, olhar para as eleições federais alemãs de Setembro de 2002. A CDU/CSU, liderada por Edmund Stoiber, elegeu como temas de campanha [1] o desempenho económico do Governo, [2] os impostos, e, [3] os valores familiares. No final, ainda que a margem não fosse muito grande, a verdade é que a CDU/CSU perdeu para o SPD liderado por Gerhard Schroeder. Importa lembrar que Schroeder não era propriamente alguém com uma vida modelar. Casado quatro vezes e com três divórcios no currículo, o líder do SPD não era um politico cuja crença religiosa fosse uma das suas marcas. Mais. Schroeder não era (...) conhecido por ser alguém sem mácula de um ponto de vista ético e moral. Começa a soar a familiar?
Por cá, em Setembro de 2009, Manuela Ferreira Leite elegeu como temas de campanha [1] o desempenho económico do Governo, [2] os impostos, e, [3] os valores familiares. Tudo embrulhado no pacote da Verdade. Por cá, tal como na Alemanha em 2002, temos um primeiro-ministro divorciado, que não é conhecido por ser um pessoa religiosa e que de um ponto de vista ético e moral deixa, aparentemente, algo a desejar. Stoiber perdeu as eleições”
Este paralelismo que Paulo Gorjão convoca dá que pensar. Como também dão que pensar as palavras de Pedro Marques Lopes no blog União de Facto, a propósito da ida de Manuela Ferreira Leite à Madeira: “Aparentemente, a Dra Ferreira Leite não estava contente com a estratégia da “asfixia democrática” e resolveu destruí-la. Só assim se podem compreender as suas espantosas declarações durante a visita à Madeira. Fez bem. Essa conversa pateta já tinha sido utilizada pelos socialistas ao tempo de Cavaco Silva e teve os resultados conhecidos. Claro está que havia outras maneiras de rasgar uma campanha...”.
Ora bem: num post e noutro, o que importa é sublinhar que há sempre paralelos e comparações por fazer, e que a memória conta quando se trata de pensar em política neste domínio.
Assim vai continuar a ser nas próximas semanas, até às eleições. E ainda que tenha regressado só esta semana, sou tentado a partilhar as palavras de Manuel Jorge Marmelo no seu blog: “Noto, com certo pesar, que tenho dedicado uma atenção excessiva às coisas da política, ou, o que é pior, à politiquice pura. Sendo verdade que circulam por aí, em tempo de campanhas eleitorais, personagens particularmente lamentáveis e irritantes, não é menos penoso constatar que me deixo arrastar para esse lodo e perco tempo, por pouco que seja, com tão tristes figurinhas. Tentarei, por isso, ter mão nisto”. Amanhã, sexta, com a escolha da semana, seguramente que trei também mão nisso. Faltam 17 dias para as eleições.
Era um dos debates mais esperados desta ronda televisiva – o imparável Louçã frente ao feroz José Sócrates. E bom, se o líder do PS podia, até ontem, dizer que a blogoesfera era um bando de inimigos, hoje é melhor que se cale: a vitória foi-lhe entregue praticamente por unanimidade. E talvez o resumo, sem elogios nem adjectivos, esteja neste post de Rodrigo Moita de Deus: “Sócrates foi inteligente. Louçã, habituado a discutir o programa dos outros, não estava preparado para discutir o seu próprio programa. Sócrates, durante meia hora, fez de Louçã candidato a primeiro-ministro. Pior. Louçã imaginou-se no lugar”.
Resultado final, segundo Paulo Pinto Mascarenhas no ABC do PPM: “José Sócrates ganhou este debate ao centro, não sei se o perdeu à esquerda. Mas remeteu Louçã para os chavões bloquistas anticapitalistas e ainda terminou a atacar Manuela Ferreira Leite”.
No Delito de Opinião, Carlos Barbosa de Oliveira revela a estratégia do actual primeiro-ministro: “Parece claro que Sócrates ganhou pontos e roubou votos ao adversário. Mas não só… ao afirmar-se social democrata - o que não é novidade para ninguém - piscou o olho aos eleitores do PSD que não se revêem em MFL e sabem que se ela ganhar teremos um governo que fará todos os portugueses sentirem saudades de Sócrates”.
Inesperadamente, até Pedro Santana Lopes veio ao terreiro no seu blog reconhecer a vitória do socialista: “José Sócrates ganhou bem, tendo conduzido eficientemente o debate e não tendo tido qualquer pejo em continuar a "socar" o seu adversário onde ele se revelou mais frágil. Foi interessante de ver como o "feitiço foi virado contra o feiticeiro". Há muito tempo que digo e escrevo isto mesmo. Era preciso perguntar aos que só atacam, por aquilo que verdadeiramente defendem. José Sócrates fê-lo muito bem”.
Outras ideias soltas, Carlos Santos no Câmara de Comuns: “Não foi só vencer. Foi vencer o mais temível dos adversários. A demagogia é sempre difícil de derrotar. Mas quando é derrotada, é a democracia que ganha”.
Destoando ligeiramente, José Medeiros Ferreira no Bicho Carpinteiro acho que o jogo foi diferente: “Houve uma tendência mútua neste frente a frente entre José Sócrates e Francisco Lousã em jogar para o empate. Curiosamente foi o líder do BE quem mais se ressentiu da falta de «parlamento» no debate”.
E até consegui encontrar quem tenha dado a vitória a Louçã, o blog Atributos: “Sócrates, nervoso, só se defende. A culpa de tudo o que de mau acontece em Portugal é de todos, da crise internacional, mas nunca dele. (...) Louçã ataca, sorri e marca pontos”
E timidamente, no Arrastão, Daniel Oliveira preferiu notar que, a seguir ao debate, nas televisões, “os comentadores de direita têm quase o esclusivo da análise de um debate fundamental para o eleitorado de esquerda”.
Mas até pela timidez de Daniel horas passadas sobre o debate, parece claro que José Sócrates ganhou sem mácula o debate que potencialmente poderia perder. Faltam 18 dias para as eleiç
O mundo dos blogues vira-se para a campanha eleitoral, em rigor o que mexe na campanha, que são apesar de tudo os debates televisivos. O modelo dos debates é o que se conhece, e acabamos por ir compondo o puzzle das opiniões e propostas apenas se conseguirmos ver todos os confrontos. Rui Bebiano, por exemplo, no blog Terceira Noite, deve ter adormecido no encontro entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, que chamou de “aborrecido pseudo-debate televisivo”. Zé Neves, no Cinco Dias, achou que especificamente este debate à esquerda “trouxe à cena um novo eleitor”, “uma nova diferença, uma terceira margem”.
Nessa terceira margem está Francisco Louçã, que Joana Carvalho Dias, no Hole Horror, descreve: “é um desses talentos falantes com qualquer coisa de mecânico e automático que parece só precisar que se insira uma moedinha para termos o benefício de um discurso empolgado e retórico”.
A respeito dos partidos de oposição, inteligente a nota de Sérgio de Almeida Correia no Delito de Opinião sobre o debate de ontem: "Todos os votos nos partidos de oposição serão votos contra o eng.º Sócrates", dizia Paulo Portas a certo passo do debate com Jerónimo de Sousa. Disso não tenho quaisquer dúvidas. E também não será difícil dizer que os não votos dos abstencionistas, mais os brancos e os nulos, também não serão votos a favor do eng.º Sócrates. Mais difícil é saber quantos desses votos serão apostas na governabilidade, na estabilidade do país e no interesse nacional. A demagogia tem muita força”.
Manuela Ferreira Leite, que vimos no domingo confrontar-se com Francisco Louçã, vai ganhando experiência para o confronto final com Sócrates. Para já, João Moreira Pinto critica a líder do PSD no 31 da Armada: “A estratégia da verdade de Manuela Ferreira Leite pode até colar contra Sócrates. A seriedade contra a trapacice num País de trapaceiros ganha pela hipocrisia de um povo. Mas adiante. Quando estiver frente-a-frente com outros líderes partidários, MFL terá que fazer mais que mostrar-se séria”.
Já Paulo Portas, escreve, “tem apresentado soluções e apontado a fuga ao estadismo reinante, sem meias-medidas, sem pudores”. Ao vê-lo ontem com Jerónimo de Sousa, João Gonçalves fala do líder do PCP: “Quando vejo o bonzinho Jerónimo, tenho saudades do dr. Cunhal. Na televisão”.
A Sócrates, todos reconhecem o talento para estes debates, para a rectórica, para o frente a frente. Tomás Vasques, no hoje há conquilhas, prefere citar Miguel Esteves Cardoso;: “Veja-se o debate de José Sócrates com Paulo Portas. Admiram-se; entendem-se; são inteligentes. São os dois melhores políticos que temos. O PSD está em obras e seria feio falar dele neste momento difícil”.
Com o seu apurado sentido de observação, Helena Matos vê, no Blasfémias, os debates de forma particular: “uma espécie de jogo xadrez entre os partidos que não estão na campanha para ser governo. Assim para o PCP a perder terreno para o BE é muito conveniente concluir que Ferreira Leite se saiu melhor que Louçã. Já o Bloco a sonhar em ser 3ª força política transformou o debate Sócrates-Jerónimo num massacre para este último. Quanto ao PP a disputar terreno ao PSD achará certamente que Manuela Ferreira Leite perdeu com Louçã e que perderá com todos”. Faltam 19 dias para as eleições.
Terei de começar por confessar que não cumpri o prometido. Ou seja, li blogues durante o mês de Agosto. Tinha feito aqui a promessa solene de umas férias longe da blogoesfera, mas o mês foi quente e não resisti a uma ou outra espreitadela.
Aos poucos, foram nascendo blogues de apoio aos diversos candidatos às duas próximas eleições, o ambiente aqueceu com as polémicas que foram criadas, cada entrevista na televisão de um Sócrates ou de uma Manuela Ferreira Leite dava sempre peno para mangas – e isto sem esquecer que esse é o titulo da crónica matinal de João Gobern – bom, tudo isto para me justificar: sim, eu continuei a ler blogues mesmo estando com a Janela fechada para férias.
Traduz esta falta de cumprimento de uma promessa algum sinal? Acho que sim. Acho que traduz a ideia óbvia: não substituindo a opinião dos jornais e mesmo das rádios e televisões, a verdade é que a plataforma blog é mais um patamar claramente definido no universo da informação. Isto significa que começa a ser corrente dizer, quando queremos falar do mundo dos média, frases do tipo “depois de ver as televisões, ouvir as rádios, ler os jornais e os blogues, cheguei à conclusão de que….” E por aí fora.
Nessa medida, tal como em férias não desligo o rádio nem deixo de ler jornais, também não fazia sentido deixar de ler blogues. Tanto mais que o Verão ia ser quente, e está a ser quente.
Mas agora volto à tarefa curricular de olhar o mundo dos blogues com um sentido profissional, ver como reflectem os temas de cada dia, e não faltará assunto nos próximos tempos. Se tivesse recomeçado na semana passada, teria tido várias crónicas com a mesma protagonista, Manuela Moura Guedes, cuja suspensão do seu programa na TVI marca de tal forma a campanha eleitoral que, no universo da blogoesfera, há momentos em que parece que nem sequer haverá urnas para depositar votos a 27 de Setembro..
Bom, mas como recomeço hoje, do passado apenas recupero para o presente o momento deste Agosto em que repentinamente um blog se tornou noticia de primeira página: foi quando o blog 31 da Armada decidiu trocar, nos Paços do Conselho de Lisboa, a bandeira da cidade pela bandeira monárquica… Com direito a vídeo, a um comunicado que começava “Daqui posto de comando do Movimento do 31 da Armada” e depois se explicava afirmando que “Há 99 anos atrás, no dia 5 de Outubro, um punhado de homens, contra a vontade da maioria dos Portugueses, tinha feito a mesmíssima coisa proclamando assim a república. O resto do país ficou a saber por telegrama”. Desta vez foi diferente e soube pela net, pela Lusa, pelos jornais, pelas rádios, pela televisão. Lá está: como posso eu passar umas férias sem blogues, se mesmo assim eles me entram pela casa dentro num qualquer Telejornal. A conclusão é só uma: há janelas que se abrem e nunca mais se fecham
Quando for para o ar o genérico que fecha esta Janela Indiscreta, podem ter uma certeza: não vou ler um único blog, a não ser talvez o meu, quando publicar textos e quiser ver se não ficaram erros ou gralhas penduradas, dizia, não vou ler um único blog, sejam jamais ou simplex, rua direita ou Santana Lopes, seja 31 da Armada ou Bicho carpinteiro, seja quem for, seja o que for.
Vou desligar por um mês, pela primeira vez desde que esta crónica começou, na primavera de 2006. É certo que vou de férias num mês que não vai ser tranquilo, nem sequer pacifico, no mundo dos blogues: a política está na ordem do dia, discutem-se governos, planos de crise, autarquias, partidos, maiorias relativas e absolutas. Por arrasto – ou por arrastão, para citar mais um nome de blog – debatem-se e confrontam-se as diferenças entre esquerda e direita, entre estado solidário e estado menos que zero, discutem-se os nomes dos candidatos, as carreiras, o que disseram, o que fizeram. Ajustam-se contas e fazem-se contas. José Sócrates disse esta semana, depois de um encontro com bloggers em Lisboa - de resto objecto de crónica aqui à Janela, - José Sócrates disse então que “os blogues constituem um novo espaço que se abre à democracia política e cívica”, reconhecendo a importância que há anos desvalorizou. A mudança diz algo sobre o que se está a passar: aos poucos, os bloggers ganham dimensão na influência que têm sobre os media clássicos, têm espaço de agenda, contribuem para a agenda dos noticiários. Nessa medida, mesmo que um blog seja lido diariamente por 500 pessoas, ele pode marcar a actualidade porque essas 500 pessoas fazem parte da elite que depois desmultiplica a informação e a opinião pelos canais que chegam a milhões de pessoas.
Este ano, mais do que nos últimos, a batalha dos votos passa pelos blogues.
A Janela vai fechar descansada, para voltar fresca em Setembro e acompanhar o mês mais quente – se querem um conselho, façam o que eu não vou fazer: naveguem pelos simplex e pelos complexes, pelos jamais e pelos toujours, andam na rua direita e na rua esquerda. Mas andem por aí, como o outro...
Porque, na verdade, quanto mais opiniões e factos soubermos, melhor decidiremos as opções que teremos de tomar. E a democracia, sendo o pior dos sistemas se exceptuarmos todos os outros, chama mesmo por nós neste ano de tantas decisões.
Se houvesse um titulo para a crónica de hoje, esse titulo teria de incluir a palavra desconfiança. Porque é disso que se trata quando em Portugal se fala de justiça, de politica, de educação, agofa também de saúde: a desconfiança supera qualquer crédito ou convicçãO.
No caso dos doentes que ficaram cegos após uma intervenção no Hospital de Santa Maria, a O Ministério Público (MP) abriu um inquérito-crime. O processo foi distribuído à 6.ª secção do DIAP de Lisboa, que "é especializada na matéria", e que é chefiado pela procuradora-geral adjunta Maria José Morgado.
A noticia, o que provoca nos blogues que leio? Desconfiança. Escreve Rodrigo Moita de Deus sob o titulo “A Justiça é cega”: “Estou mais descansado. Vão ser 4 anos de investigação, oito manchetes a revelar perigosas conspirações com “os grandes laboratórios”, nove denúncias sobre "corrupção" dos médicos, 12 reportagens sobre "o submundo das farmácias" e 17 entrevistas da própria. No fim do julgamento, que vai durar outros 6 anos, não há condenações. É nessa altura que vamos descobrir que os doentes cegaram-se a si próprios”.
No mesmo sentido escreve o blog O penico: “quanto a inquéritos todos sabemos para que servem e a cegueira ninguém a tirar já a estes doentes. Haverá indemnizações? Para quando? Responsabilização, dificilmente. A culpa só não morre solteira neste Estado de Direito (?) se não envolver a arraia miúda. Sabemos”. No blog atributos adivinha o relatório final, “um acidente infeliz”.
Como se vê, do que falo é de um total descrédito nas instituições que investigam julgam, apuram factos. Até também no jornalismo, a ver pelo texto de JFD no blog Câmara de Comuns: “O Jornalismo em Portugal tem-me deixado bastante desiludido. (...) O que se passou? o que se passará? Não sei se o mal é meu, (...) mas parece-me que o que vejo e leio apenas é a transcrição do que alguém disse. Nada mais, nada menos. (...) Onde está a investigação? Onde está a indignação?”.
No blog Lóbi do Chá, José Costa Silva inclina a desconfiança para o poder da indústria farmacêutica: “Qualquer chafarica, por mais insignificante que seja, vai fazer triliões de euros até este post estar concluído. Não custa assim tanto imaginar, portanto, que as lutas dentro da indústria, sobretudo em períodos de crise, podem resultar em gripes e sabotagens. É levemente conspirativo, bem sei, mas o negócio da droga não é para brincadeiras. E a gente não acredita em bruxas, mas…”
O exemplo de Santa Maria é um, o caso de Joana Amaral Dias deixou meio mundo a desconfiar do PS e do Bloco e de Louçã, e não resisto a deixar aqui um outro para fechar o dia. No fim-de-semana passado, Manuela Ferreira Leite faltou ao comício de Alberto João Jardim na Madeira alegando uma gripe – uma gripe das clássicas. Mas logo reapareceu em plena forma. Emídio Fernando, no correio preto, desconfia: “Manuela Ferreira Leite curou-se rapidamente da maleita que a apoquentava. Bastou terminar o comício do Chão da Lagoa. Nem a aspirina, da Bayer, é assim tão eficiente”.
E é neste clima de desconfiança por tudo e por nada, de tudo e de todos, que avançamos para Agosto, o tal mês que antigamente era de silly season...