Terça-feira, Novembro 16, 2004

reconstituição de um crime - II

Quiaios, 1995. Durante uma batida nocturna ao javali, um homem matou a tiro um animal que, uma vez perto dele, não conseguiu identificar. Desconfiando que de algo de invulgar se tratasse, resolveu levá-lo a quem percebia do assunto. O indigente animal foi identificado, foi determinado o seu sexo e alvitrada a sua idade. Era uma fêmea de Lince-Ibérico, com as tetas bem desenvolvidas, sinal de aleitação, e, consequentemente, sinal de uma ninhada do felino mais ameaçado do mundo que foi condenada a morrer à fome por uma batida nocturna ao javali.

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

reconstituição de um crime

Manhã de Outono nos Pirinéus franceses. Uma fina e fresca neblina brinda as primeiras horas do dia, também saudadas por um coro de pássaros chilreantes. Canela e sua filha iniciam a jorna em busca do pequeno-almoço, sem saber que não longe dali, um grupo de homens armados preparava o seu destino. Este grupo seguia determinado, acicatando os seus cães para que estes encontrassem um rasto, um sinal, uma presença recente e selvagem para abater. De repente, os cães sobressaltados desatam a correr e a ladrar, encurralando Canela, que por estar acompanhada pela cria não pôde fugir. Ao avistar a mancha castanha e peluda, os caçadores empunharam as suas armas, disparando cruelmente até que se fechasse aquela boca ameaçadora, até que parasse de se defender a si e à sua cria no expoente máximo da sua maternidade, até que o seu corpo maciço e pesado tombasse com estrondo no chão, até expulsar à força do chumbo toda a vida de dentro dela…

Canela era o último urso-pardo fêmea originário dos Pirinéus franceses, último testemunho genético desta população. Resta agora uma cria órfã, com poucas possibilidades de sobreviver sozinha, e alguns adultos introduzidos oriundos de outras cordilheiras da Europa.

Há dias em que perco toda a paciência

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

a menina dança?

Num passado não muito distante, se um italiano do sul fosse mordido por uma aranha grande e peluda, conhecida como tarântula, a única forma de evitar a morte certa seria dar início de pronto a uma dança frenética que só teria fim com a perda de consciência.
A dança ainda hoje existe e dá pelo nome de... tarantella. Quanto à tarântula italiana sabe-se hoje que não é mortal, salvo raras excepções, talvez aquelas em que o mordido não tenha dançado a tarantella até à inconsciência.

Quinta-feira, Setembro 30, 2004

cálculo de bois quadrados

Corria o ano de 1872 quando Silvestre Bernardo Lima, inspirado nas obras do agrónomo francês Lecouteux, resolve calcular a área cultivada em Portugal através do número de cabeças de gado de trabalho. Considerou que um boi de trabalho seria o suficiente para arar 6 hectares de terreno, o que a multiplicar pelo número de cabeças de gado - 327 625, segundo o Recenseamento Geral de Gados de 1870 - resulta em 1 963 896 hectares de cultivo. Este é apenas um pequeno contributo para que estas simplicidades engenhosas não sejam esquecidas.

P.S.- Para um grande contributo, ver "Dois séculos da floresta em Portugal", de Maria Carlo Radich e A. A. Monteiro Alves

Sexta-feira, Setembro 10, 2004

O orgulho nos recordes

É incontornável. Quando algo constitui um recorde, é motivo de orgulho e satisfação. E às vezes lá acontece orgulhar-mo-nos de autênticas parvoíces, que nos prejudicam mais do que benificiam.
Tanto orgulho que temos na maior mancha contínua e pura de pinhal bravo da europa, da maior plantação monoespecífica de eucalipto no mundo, do maior lago artificial da europa, da eclusa mais alta da europa... Tantos símbolos de destruição do nosso património natural que subvertemos, para nos orgulharmos assim destes gloriosos recordes, que nada mais demonstram senão uma incapacidade de compreender o verdadeiro significado de desenvolvimento sustentável.

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

nascimento

vejam aqui o blog do núcleo do centro da Liga para a Protecção da Natureza, acabadinho de nascer.

Quarta-feira, Setembro 08, 2004

orquídeas ibéricas

aqui está uma porta para o mundo fantástico das orquídeas selvagens da península ibérica.

natureza minimalista

A natureza apenas precisa de tempo... o acaso faz o resto.

Segunda-feira, Agosto 30, 2004

Relatos açoreanos III- Os invasores vestem cores garridas

A hortência e a cana-roca são duas das muitas plantas levadas para os Açores pelo colonizador humano, para que este pudesse enfeitar o seu novo lar. As comunidades vegetais destas ilhas tinham então milhões de anos de interacção evolutiva, e o aparecimento de novas e competitivas plantas rompeu o milenar equilíbrio. Estas plantas transformaram-se em invasoras e infestantes, empurrando os conquistadores do acaso e do tempo para as zonas mais recônditas da ilha.
Hoje, a cana-roca, a hortência, o agapanto... recobrem uma área infinita no finito chão micaelense, invadindo também os postais e os livros e os bonecos e todo o tipo de lembranças para turista levar para casa um símbolo da terra que visitou.

Terça-feira, Agosto 17, 2004

Relatos açoreanos II- As ilhas, o acaso e o tempo

Desde que uma ilha é formada, e o solo nu inicia o seu contacto com os ventos, as ondas e as correntes, as tão imprevisíveis como poderosas forças do acaso iniciam o seu labor colonizador do virgem chão. É então, por mero acaso, e ao longo de milhões e milhões de anos, que sucessivamente vão chegando às ilhas seres viajantes, uns na forma de propágulo (sementes, esporos...), outros como indivíduos adultos (plantas, aves, troncos com insectos ou répteis...), trazidos por tempestades, correntes, ventos ou brisas. Muitas destas espécies atingem a ilha numa altura em que as condições para a sua sobrevivência não estão reunidas; outras, menos exigentes, sobrevivem no novo e hostil meio, transformando-o, tornando-o por acaso menos hostil para outras que virão, também por acaso, ter à ilha. Surgem então comunidades únicas, que à custa do isolamento geográfico, e no decorrer do tempo geológico, evoluem tornando-se ainda mais únicas, espécies e comunidades exclusivas desses pequenos paraísos insulares. São precisamente estes paraísos únicos que muito sofrem nas mãos de um colonizador implacável, que não actua por acaso mas com objectivos definidos. Objectivos de sobrevivência num novo mundo, de fazer de um mundo estranho a sua casa, levando pedaços da casa anterior, de criar riqueza numa terra nunca antes explorada; são todos objectivos decentes no mundo dos homens, perfeitamente compreensíveis e até naturais. Só não é decente, compreensível e natural que esta colonização se dê sem respeito pelos primeiros colonizadores, aqueles que, por acaso, surgiram na ilha e sobreviveram, evoluíram, interagiram, formando um ecossistema único e equilibrado, mas, no entanto, frágil.

Relatos açoreanos (Saídas de campo #2)

Em dez dias de Açores (Terceira e São Miguel) pude observar as seguintes espécies:

Peixes: salema, sargo, taínha, bodião, piça-d'el-rei, pombeta, judia, peixe-porco, moreia-preta, moreia-pintada, veja, peixe-balão, solha, e muitos outros que os meus (poucos) conhecimentos em ictiologia não foram suficientes para identificar.
Aves: melro, estorninho-malhado, pombo-torcaz-dos-Açores, ferfolha, canário-da-terra, pisco-de-peito-ruivo, pardal-comum, avezinha-de-nossa-senhora, tentilhão-dos-Açores, garça-branca-pequena, rola-do-mar, gaivina, chilreta, cagarra, queimado ou milhafre.
Mamíferos: golfinho-comum, golfinho-pintado, morcego-dos-Açores.


Terça-feira, Agosto 03, 2004

Férias

O Rubisco está em pausa para férias. Espero não ver nada semelhante a um computador nos próximos dias, mas suspeito que irei encontrar muitos motivos para rubiscar, e para esses o meu bloco de notas não me vai deixar mal. Até já