de existir, uma pessoa tem de pagar todos os meses a existência."
Iosif Brodskii
"Aussitôt que l'idée du Déluge se fut rassise..." A. Rimbaud
Na única vez que fui ao Louvre (que é um sítio onde uma pessoa que é pessoa deve ir), a visita seguiu-se a uma noite em que tinha estado numa discoteca com alguns companheiros de viagem e posteriormente regressado ao hotel a pé pelas ruas de Paris (continuo a não gostar de discotecas, mais os seus djs programadores e barmen curadores, mas acho que não há suficiente literatura sobre o ar livre nocturno das cidades). O que eu sei é que papei o maior número de quadrinhos possíveis, com curiosidade de atleta e resistência de intelectual comprometido, seguido pela raiva ensonada dos pés macerados dos compagnons de route. Juventude...Este lied de Schubert ("Der Neugierige") é pouco célebre e pouco interpretado, mas é definitivamente o meu favorito de todos os que conheço do compositor. O seu poema é extremamente ingénuo, mas a encenação musical é tão justa que é quase possível ouvir a voz do rio que ele descreve.
Não me parece que Peter Pears lhe faça muita justiça, mas talvez dê para partilhar o gosto...
Escrevi um argumento de cinema a partir desta canção.
Quando eu abandonava o cinema no fim da exibição do filme "El cant dels ocells", um senhor protestava na bilheteira por não ter ouvido nenhum canto nem visto nenhum pássaro. Aquele título refere-se a uma belíssima melodia catalã de inspiração religiosa, que foi popularizada pelo violoncelista Pau Casals, e que é ouvida no filme no momento em que os reis magos se põe a adorar o Messias recém-nascido.
O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.
Não gosto tantoNa miragem fata morgana, a linha do horizonte (o fim ou o princípio) tende a desaparecer. No seu lugar, o movimento humano toma o aspecto de uma ilusão onírica, suspensa, desfocada e rutilante.
"Fata morgana" - Werner Herzog (1971)Encontrei no YouTube esta maluqueira feita a partir de um excerto de um dos textos sobre o sol de Georges Bataille...
O romance "O idiota" é uma invulgar comédia. Não porque faça rir o seu leitor (de modo algum pretende ser uma comédia de facto), mas porque investiga todas as modalidades de ironia que resultam do embate entre o absoluto (as personagens do idiota e de Rogójin) e a relativização social na qual esse absoluto tem de progredir.