Vale a pena ler este artigo de João Cardoso Rosas no i: «O neoliberalismo acabou por afectar também a esquerda democrática. Em termos políticos, esta nunca conseguiu marcar a diferença de um modo claro, continuando o programa neoliberal de privatizações, desregulamentação e distanciamento face ao ideal redistributivo (neste caso, a esquerda deixou de falar de igualdade para passar a usar a linguagem mais suave da "inclusão"). Do ponto de vista ideológico, a esquerda democrática criou a "terceira via", o "novo centro", ou mesmo "a nossa via" do PS português. Mas tudo isso não passou de um expediente para fazer de conta que não tinha aderido, de facto, aos aspectos essenciais do neoliberalismo».Tenho algumas discordâncias, sobretudo com a parte final do artigo: não creio que se possa falar apenas de neoliberalismo no passado. Infelizmente, esta questão não depende tanto da verdade e validade das teorias que estão associadas a este movimento intelectual e político, mas mais do seu poder. O neoliberalismo está inscrito em instituições políticas e dispositivos intelectuais poderosos na condução das políticas públicas. De departamentos de economia e gestão até think-tanks e fundações com amplos recursos, passando por bancos centrais, agências de regulação, instituições internacionais, meios de comunicação social ou grupos de interesse poderosos. A viscosidade de uma ideologia elitista que se tornou senso comum da época e a estrutura de constragimentos criada pela actual configuração da economia global têm de ser consideradas.
De qualquer forma, é de assinalar que a expressão neoliberalismo, que até há pouco tempo era proscrita em certos meios, está hoje muito mais difundida. Já passou o tempo em que era considerada um mero slogan de extrema-esquerda. Ainda bem. As palavras são importantes. A discussão pública acompanha assim a melhor discussão crítica. Este livro colectivo, que será em breve lançado, promete ser um excelente contributo para uma mais profunda compreensão do neoliberalismo como projecto intelectual e político. Podem, por enquanto, ler excertos e uma versão do posfácio.






















Emmanuel Saez





