Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O manifesto dos 28

Vital Moreira, sobre o manifesto dos 28,hoje no Público, defende que a única questão relevante consiste em saber "(...) se as infra-estruturas de transportes são ou não essenciais.(...)". Defende que essa uma opção de natureza exclusivamente política, baseada em (puros) juízos políticos.Entende o eurodeputado que basta um político dizer se é essencial, ou não.

Por uma vez na vida, eu sou capaz de entender a natureza do devaneio.

O estrito critério da essencialidade, desprovido de qualquer racionalidade económica é o que faz as mulheres entrarem em qualquer sapataria.
Alguém duvida que quando olhamos para aquele que pode bem ser o nosso 20º par de sapatos, estamos cegas da vertigem do "agora é que vai ser", "estes são perfeitos", e "com estes calçados, fico tal e qual a raínha Rania"?

Pura essencialidade, nenhuma racionalidade, para descobrirmos afinal que não são os sapatos que fazem a elegância. Melhor fora que fizessemos dieta e exercício.

Todavia, Vital Moreira está a sugerir-nos algo mais audaz: que simplesmente vamos ao banco, levantemos as poupanças de uma vida, hipotequemos qualquer bem que ainda tenhamos e vamos desvairadamente comprar todas as jóias que conseguirmos.

E não é que me falte imaginação: da Avenida da Liberdade até à Cartier do Chiado,seria toda uma essencialidade de bom-gosto, elegância e distinção.

Confesso no entanto que a perspectiva de ser o meu filho a pagar-me a mensalidade no lar de idosos ( em redor dos mil euros mês)entre os 70 e os 90 anos ( vaso ruim não quebra), me parece obscena.

A essencialidade vai ter de esperar, os diamantes H. Winston também.

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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

96 milhões de razões

Ao que parece, Cissokho pode já não ir para o Milan por 15 milhões de euros por causa de um dente do siso - o qual poderia causar problemas ao jogador com as inerentes paragens nos períodos de treino, com reflexos na competição.
Cristiano Ronaldo foi vendido ao Real Madrid por 96 milhões de euros.
Estes dois acontecimentos deixam boquiabertos os adeptos de futebol e chocados os que não simpatizam com o desporto e com o futebol em particular.

Convinha que se percebesse definitivamente que o futebol é uma indústria. Uma indústria, que exceptuando os negócios ilegais, se revela como pujante e uma das mais lucrativas do mundo.
E como tal deve ser encarado: deve ser regido por leis que o regulem, assumindo que se trata de um negócio lucrativo e altamente competitivo, em que as regras da concorrência devem ser preservadas sob pena de a verdade desportiva ser irremediavelmente comprometida.

Exemplificando: suponhamos que um clube de futebol resolve ter um plantel de 50 elementos. 25 usa na sua equipa e os restantes coloca-os a "rodar" em clubes considerados "amigos". Primeira consequência: uns clubes vão ser beneficiados e outros prejudicados porque disporão de atletas mais capazes. Segunda consequência: quando quem empresta defronta o clube de menor dimensão, os atletas emprestados geralmente não jogam ou jogam com as consequências que se conhecem, para regressarem em força com os clubes rivais.

Há poucos dias Emanuel Medeiros, CEO português da poderosa European Professional Football Leagues dava-nos conta, em conferência, das questões que ao mais alto nível, justamente o das ligas europeias de futebol, preocupam os clubes: justo retorno dos direitos de autor ou de marca dos clubes pelo lucro que geram, direitos televisivos negociados em bloco por associações de clubes com os media, adopção de mecanismos que assegurem a verdadeira concorrência e competitividade entre clubes.
Por exemplo, a adopção de um número máximo de atletas por plantel, para evitar situações como a descrita que ocorrem por todo o lado e que são uma das formas de introduzir distorções graves na concorrência e na verdade desportiva.

Por esta altura muitos dirão que o futebol é a paixão e a emoção. Tudo isso é verdade.
Todavia, tal não constitui uma novidade, há muito que o marketing e as vendas, descobriram que só vende o que mexe com as nossa emoções.
Se escolhemos entre sabonetes Nívea ou Palmolive é por um mecanismo emocional e nem por isso as grandes superficies comerciais deixam de ser fiscalizadas para aferir do cumprimento da Lei da Concorrência.

A Lei da Concorrência não serve para saber como é que nós distinguimos entre Nívea e Palmolive. Serve para garantir que os sabonetes são sabonetes como diz na embalagem, que existem diferentes marcas no mercado, que competem entre si, que são produzidos por diferentes fabricantes, que os grandes comerciantes não fazem stock do produto, que não especulam com os preços, que as grandes superfícies não acabam com os pequenos comerciantes através das vendas com prejuízo, ou que não incorrem em situações de abuso de posição dominante, evitando ainda a cartelização, conluios ou oligopólios.
Assim actuando defendem a livre concorrência e o interesse dos consumidores.

Não há nada de emocional na recusa em adquirir o passe de um atleta por causa de um simples dente do siso em mau estado. Nem é por razões passionais que se pagam 96 milhões de euros por um passe de um atleta.

O futebol é um negócio lucrativo que usa os meios necessários para rentabilizar o seu produto. Que o seu produto seja o entretenimento, a paixão e a emoção dos adeptos é apenas uma circunstância, determinante, mas uma circunstância.

O futebol, como os sabonetes, compra-se e vende-se. Deve estar sujeito a regras que zelem pela verdadeira e sã concorrência, por muitas razões.

Estou a lembrar-me de 96 milhões delas.

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Tudo é Física... ou não!?



Faço aqui um brevíssimo comentário, apenas, a esta afirmação do Paracelsus, aposta a um post do Alexandre: «Tudo é Física. Tudo o que não é Física não é.»
Sendo uma convicção hoje muito generalizada valerá talvez a pena criticá-la, Afinal, se há coisa que a nossa hoje tão incompreendida tradição cristã nos ensinou foi a questionarmos racional e profundamente aquilo em que acreditamos.
Assim, nada tendo contra pôr-se a física em letra grande, antes pelo contrário, deixo somente no ar a pergunta: Admitindo que «tudo é Física e que tudo o que não é Física não é», que coisa é esse «tudo» de que aqui se fala? E, sendo ele físico, onde se encontra e que qualidades tem?

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Terça-feira, 16 de Junho de 2009

II. Simpatia e cultura

Mas a tese da simpatia tem outro vício maior que o da incompletude. É o da demagogia, quando se transforma em imperativo. A simpatia é sempre mais fácil de defender retoricamente. Se eu digo que simpatizo com um povo, é mais natural que ele me agradeça, concorde comigo e me diga que o compreendi profundamente. Os que não pertencem a esse povo não me podem atacar pelos meus maus fígados e portanto toda a discussão se passa em meu favor. Passo por simpático, em suma, e pessoas simpáticas nunca podem ser atacadas numa discussão superficial.

Condição de êxito da simpatia pura é por isso sempre a superficialidade intelectual e espiritual.

O problema é que esta superficialidade só obtém emoções fortes, não com o aprofundamento, mas com a intensificação. Cada vez se tem de aumentar o encómio até que se chega ao ridículo da idolatria.

A nossa época é useira e vezeira nisto. O elogio arrasta-se pelas vielas do exagero. As culturas chinesa, turca, árabe, bororó, hinuíta são profundas, ricas, extraordinárias, únicas, essenciais, inultrapassáveis, devemos-lhes tudo. E como tudo é tão extraordinário, e devemos tudo a tantos, senão a todos ou quase, ficamos sem saber a quem pagar dívidas. A ideia talvez seja essa, a de não termos de pagar dívida nenhuma. A de não nos obrigarmos igualmente pelo discurso.

Se eu disser que uma cultura que desconheço é maravilhosa, ninguém me sindica. Fica bem, não significa nada, é apenas um flatus uocis. Se o digo é apenas porque quero ocupar espaço pelo meu discurso, quero marcar a minha presença. Não profiro afirmações com sentido, pela pura e simples razão que não estudei nada sobre o tema de que falo.

Por isso uma visão equilibrada da simpatia como componente da compreensão leva-nos a uma visão matizada do seu papel. Há casos em que é importante, outros em que não tem papel nenhum. E há sobretudo casos na prática comum em que é apenas uma forma de evitar a responsabilidade e a sindicância, de seguir o caminho mais fácil... e de ocupar lugar.


Alexandre Brandão da Veiga

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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

I. Simpatia e cultura


Uma observação de Pierre Grimal fez-me pensar: afirma ele que apenas é possível haver compreensão histórica caso exista alguma simpatia. Poucos os afirmam de modo tão expresso. E a verdade é que na compreensão de outras culturas esta é uma premissa tanto mais forte quanto menos é enunciada.

Mas poderia ainda ser mais estendido. A simpatia é essencial para a compreensão em geral, não apenas das culturas. Só se decide a estudar répteis quem sente alguma simpatia por eles, minerais quem sente essa simpatia, e assim por diante.

O problema deste argumento é que tem partes verdadeiras e partes falsas e é difícil determinar em que partes erra e em que partes acerta.

Vejamos. Quando vemos uma grande parte dos estudos profundos sobre as mais variadas matérias, a simpatia pode assumir um papel fundamental. Poincaré, um imenso matemático, compreende a geometria com base nos movimentos musculares que formam a nossa percepção do espaço. Einstein imagina-se a cavalgar um feixe de luz. Curtius vive a Idade Média latina positivamente e pode por isso daí retirar um pano de fundo que modifica fundamentalmente o modo de ver comum das continuidades históricas na Europa.

Estes movimentos de simpatia mostram que a simpatia não é irrelevante na compreensão profunda de certas realidades. Mas não é nem condição necessária e muito menos suficiente.

Quando Ortega põe a nu a massa, fá-lo com base no desprezo e isso fá-lo discernir no homem contemporâneo aspectos que poucos conseguiram enunciar. Os maiores símbolos da modernidade são os seus maiores detractores. Baudelaire, Nietzsche e, em certo sentido, Freud contribuem para criar um modelo de homem que não é o seu paradigma e que desprezam. Maistre dissecou como poucos os não ditos da Revolução Francesa a que tanto se opunha. Tocqueville não abdica de ser aristocrata e no seu desprezo pela democracia, mostra as suas grandezas e os seus poderes. Os estudos árabes na Europa (no fundo a grande base da erudição científica sobre a cultura árabe até aos nossos dias) são realizados por homens que têm um profundo desprezo por essa cultura. As origens da antropologia são realizadas por homens com mentalidade colonial e na melhor das hipóteses condescendência pelas culturas primitivas (a mentalidade colonial é em grande medida criação da antropologia, e os movimentos da antropologia posteriores sobretudo à segunda guerra mundial são por isso também em grande medida revolta edipiana contras os pais fundadores, como é costume - e pouco observado).

A simpatia pode assim ser forma de lucidez, mas igualmente o desprezo o pode ser. A tese da simpatia é por isso incompleta, caso tivesse a pretensão de ser universal.

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Domingo, 14 de Junho de 2009

Against all odds

Neste filme sobre desporto, o enredo é fácil de contar: um corredor mais velho, cheio de mazelas, pobre, dobrado pela vida, busca em si a vontade de competir, a raça que o fez campeão. Usa umas roupas em frangalhos e uns ténis velhos. Assistimos em silêncio àquela luta contra as probabilidades, contra outros corredores mais jovens e com mais meios.
Com um esforço anónimo, e quase sobre humano, o corredor da nossa história lá consegue fazer os mínimos para ir aos jogos olímpicos.
Nós, no cinema ou em casa vibramos com aquela vitória improvável, arrancada a ferros, " against all odds".
Conseguiu o primeiro passo, sem o qual nada seria possivel. Agora vai ter de treinar-se, correr a maratona todos os dias até ao dia da prova.
Foi isso que o PSD conseguiu: os mínimos olímpicos.

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Três Conselhos para a Crise... :)

Apesar de a história ser um nadinha brejeira e já muito conhecida, não resisto a contá-la aqui.
É a história de um passarinho que, desde que nascera, era muito irrequieto. No ninho, junto a seus irmãos, estava sempre a protestar, querendo sempre imediatamente ter aquilo por que deveria ainda esperar.
Assim, ainda antes do tempo, decidiu que era capaz de voar. E sempre que os seus pais chegavam, trazendo comida para todos, logo o passarito, comendo e refilando, insistia que já sabia voar, que tinha direito a sair do ninho, que não percebia porque é que não o deixavam partir… e por aí a fora.
Tendo seus pais – que já não o podiam ouvir – ido buscar mais comida, desobedeceu expressamente às suas ordens e, não ouvindo também os conselhos dos irmãos, decidiu, repontando sempre, abandonar o ninho, deste modo mostrando a todos que, de facto, conseguia voar.
Afoito, subiu até ao topo do ninho, de onde se atirou, resoluto, para o espaço vazio. Abriu, então, o mais que podia as suas asas e, enquanto tentava batê-las, como via seus pais fazerem, estatelou-se violentamente no meio do chão. Magoado, começou imediatamente a respingar, sem perceber o perigo em que se encontrava.
Uma vaca que por ali pastava, porém, ouviu-o, e vendo que ali perto estava uma raposa (que, no entanto, ainda não o tinha visto), percebeu o risco em que o passarinho se achava, pelo que disfarçadamente se deslocou até junto dele, deixando cair por sobre a sua cabeça uma pesada bosta, com a qual o escondeu.
O passarinho, com a asa e o orgulho feridos e coberto pelo imenso excremento da vaca, barafustava agora ainda com mais força: «Onde é que isto já se viu? Não é que esta vaca maluca resolve deitar-me esta bosta para cima? Não me faltava mesmo mais nada! Raios partam a vaca»; etc.
Replicando, lá foi furando o bovino esterco, que por completo o envolvia, até que, conseguindo fazer nele um buraco, pôs o seu bico de fora e assim melhor se fez ouvir: «É inacreditável. Onde é que isto já se viu. Esta vaca é maluca», etc.
Quem o ouviu, porém, foi a raposa, que prontamente ali se dirigiu, puxando o passarinho pelo bico e engolindo-o de uma só vez.
São, assim, três as conclusões que se podem tirar desta breve história e que aqui deixamos como sugestões para nos guiarem nesta crise:

1. Nem todos os que te põem na merda são teus inimigos.
2. Nem todos os que te tiram da merda são teus amigos.
3. E quando estiveres na merda o melhor é não refilares.

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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O exemplo


Confesso que sou daqueles que desenvolveu um certo cepticismo e mesmo cinismo em relação às celebrações do Dia de Portugal. O risco é que se transformem numa exaltação acrítica do passado como forma de compensar o presente... Por vezes, quase me parecia estar a assistir a um foclore de Estado. Mudei de opinião ao ouvir o discurso de António Barreto. Vale a pena celebrar o 10 de Junho se ele nos oferece uma tal uma oportunidade para reflectir sobre a nossa identidade e a forma de a concretizar hoje! A ler:

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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Três notas sobre as eleições de ontem...

Em diálogo com o post do Carlos Jalali, deixo aqui três notas, interligadas, sobre as eleições de ontem:

1. A primeira nota é para dizer que todas as sondagens se enganaram. Ninguém, no entanto, parece pôr-se seriamente esta questão. Mas ela é importante. E é tanto mais importante quando é um facto que, por um lado, todas as sondagens se enganaram num mesmo sentido e, por outro, ninguém duvida que elas condicionam e influenciam as dinâmicas eleitorais. A conclusão é clara e deve ser enfrentada: há interesses económicos, não declarados nem conhecidos, que condicionam objectivamente a escolha da governação política que é feita pelos cidadãos. Dir-me-ão que é assim há muito tempo. Concedo. Mas prefiro perguntar por quanto tempo mais assim será. Porque o acto de puro ilusionismo que faz com que, findo o acto eleitoral de ontem, se mantenha uma plêiade de comentadores-políticos e de políticos-comentadores a discutir sobre umas novas sondagens, para além de irresponsável é, neste momento, estúpido, pois que, numa altura de crise, como inequivocamente é a que vivemos, a realidade inevitavelmente se imporá.

2. Dito isto, a segunda nota tem a ver com o sentido muito claro de mudança indicado pelas eleições de ontem (falo agora, portanto, da realidade, e não de sondagens). Em primeiro lugar porque o PSD ganhou as eleições com 5% de vantagem sobre o PS, cenário que desde que Manuela Ferreira Leite se tornou líder do PSD foi considerado por todos como absolutamente impossível. Até anteontem, o mais que a ciência da opinião concedeu ao PSD foi um empate técnico, embora sempre com uma vitória do PS. E, na verdade, não se enganaram. Em rigor, quiseram enganar-nos. Tarefa que, aliás, continuam, porquanto analisam agora as legislativas à luz de inúmeras virtualidades a partir das quais voltam a condenar inexoravelmente o PSD e Ferreira Leite. Mas a realidade é bem outra. Porque a própria tese que o PS tem querido vender aos portugueses relativamente às legislativas – a da necessidade de uma governabilidade estável e credível neste tempo de crise – se voltou agora inevitavelmente contra si. Porque a dita esquerda teve apenas mais 6% dos votos do que o centro (PSD) e a direita (CDS). Porque, além disso, o MEP, que é desta mesma área política, se tornou no sexto partido português, com cerca de 1,5% dos votos, o que é um facto assinalável. Porque estes 4% de diferença são facilmente ultrapassáveis, sobretudo na medida em que estas três forças políticas podem unir-se (de vários modos) e criar a possibilidade de uma governação séria e estável, sendo que entre o PS, o PCP e o BE não há qualquer hipótese de consenso sério e/ou estável.

3. A última nota é a mais subjectiva, mas digna de reflexão. Porque ela foi registada, em impressivas imagens, mas não a vi ainda em nenhum lado reflectida em ideias, juízos e raciocínios. E bem merece reflexão. Falo do descalabro da gestão comunicacional do PS na noite das eleições. Se há coisa em que o PS e o governo se têm mostrado eficazes é em termos de comunicação. Até aqui, com efeito, nada falhou. As sondagens, aliás, confirmavam abundantemente que as pessoas acreditavam nessa pretensa realidade que lhes era comunicada pelo PS. A realidade, no entanto, mostrou ser outra. Ora, os militantes do PS, ao que parece, acreditavam piamente nessa verdade que lhes era comunicada pelos seus líderes. Daí o desânimo expresso pela sala sempre vazia; a tristeza e a incompreensão que não permitiram qualquer reacção; a irritação anormalmente patente na cara de José Sócrates; e, sobretudo, o completo desnorte de toda a equipa de comunicação que deixou que tudo isto acontecesse à vista de todos e começou mesmo a desmontar o cenário do PS ao mesmo tempo que o PSD erguia a realidade da sua vitória. Um pouco antes, com o cenário ainda por trás, mas com vários operários já prontos para desmontá-lo, Sócrates garantia ainda que nada, mas mesmo nada, vai mudar. Não percebeu, portanto, que tudo mudou. E é por isso que me parece, francamente, que, independentemente do que continuem a dizer as sondagens, as próximas legislativas irão ser ganhas por Manuela Ferreira Leite e pelo PSD.

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Uma nova revista do social

Está aí uma nova revista do social, a juntar à Caras, Vip, Flash ou Nova Gente.

Também trará gente gira, com boa pinta e boa imprensa. Para uma leitura leve e despreocupada, a quem não se exige rigor: puro entretenimento e boas fotos.

Chama-se " Sondagens & Palpites" e saíu ontem para as bancas.

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Xutos & Pontapés

Ser fã dos Xutos & Pontapés, é:

Dar um Xuto na Manuela Moura Guedes.
Dar um pontapé na música " Sem eira, nem beira".

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Domingo, 7 de Junho de 2009

Cinco questões para esta noite

Cinco aspectos a seguir esta noite:

1. Quem tem mais votos? As sondagens apontam para um resultado muito próximo entre PS e PSD, um cenário que há um mês atrás parecia improvável.

Uma vitória do PSD seria um feito assinalável, mas será que auguraria um resultado semelhante para as legislativas dentro de 3-4 meses? Pondo o meu ‘pescoço na linha’, diria que não: o PS perdeu todas as eleições políticas nacionais a que concorreu desde as legislativas de 2005 (primeiro as autárquicas, depois as presidenciais), e mesmo assim liderou sempre nas intenções de voto para as legislativas. Suspeito que mais uma derrota não alterará esse cenário.

2. A abstenção vai subir? A resposta é quase certamente sim – até agora, a tendência tem sido de aumento da abstenção em todas as eleições europeias, tanto na UE em geral como em Portugal. A nível europeu, todas as eleições europeias desde 1979 têm resultado numa abstenção superior à da eleição anterior. Em Portugal, isso é verdade para praticamente todas as eleições – a excepção, se tivermos em conta os níveis de participação oficiais, foram as europeias de 1999, em que a abstenção baixou de 64,5 por cento nas europeias de 1994 para 60,1 por cento em 1999. Contudo, mesma esta excepção é em larga medida ‘artificial’, resultando da limpeza dos cadernos eleitorais em 1998 – um processo que naturalmente reduz a abstenção. A questão mais interessante é saber quanto vai subir a abstenção. Suspeito que iremos quebrar a barreira dos 70 por cento pela primeira vez desde o 25 de Abril.

3. Quanto vale a esquerda? As sondagens para as legislativas ao longo dos últimos 1-2 anos têm apontado para uma votação conjunta do BE e da CDU de aproximadamente 20 por cento. Mesmo tendo em conta a elevada abstenção, as Europeias vão ser vistas como um teste do que vale a esquerda do PS. A confirmar-se uma subida da esquerda (que pode ser facilitada por um aumento da abstenção se estes partidos demonstrarem uma capacidade de mobilização superior à das demais formações, algo que parece ser plausível, pelo menos no caso da CDU – em 2004, a participação eleitoral nos distritos de Évora e Beja foi substancialmente superior à média nacional), suspeito que o debate em torno de cenários coligacionais à esquerda para 2009-2014 irá acentuar-se.

4. Quanto vale o CDS? As sondagens têm sido pouco generosas para com o CDS (um sentimento que o CDS tem reciprocado…) Um fraco resultado eleitoral nas Europeias poderá facilitar a mobilidade de potenciais eleitores CDS para outros partidos nas legislativas e, neste momento, abundam partidos para aproveitar essa mobilidade: o PSD, claro, mas também o MEP (que procura o eleitorado ‘democrata-cristão’ do CDS) ou o PNR à direita (e neste caso, o enfoque que o CDS deu na sua campanha aos temas da segurança e da imigração, ou a sua defesa explícita do não ao alargamento à Turquia, sugerem que está ciente do risco PNR). O CDS já esteve em situações pouco favoráveis antes: nas Europeias de 1999, p.ex., começou a campanha com níveis muito baixos na intenção de voto e – apesar do colapso da ‘nova AD’ e em pleno caso Moderna – conseguiu contrariar as sondagens, obtendo 8,2 por cento do voto. Mas estar sistematicamente no limite é um risco, e poderá não ser fácil ao CDS recuperar se as sondagens se confirmarem.

5. Quanto valem os novos partidos? Algumas sondagens têm apontado para uma subida dos outros partidos, e os novos partidos/‘movimentos' – MEP e MMS – esperam tirar proveito desta tendência. Um bom resultado nas europeias será um importante ‘sinal’ para potenciais eleitores destes partidos que, nas legislativas, um voto neles não será um voto desperdiçado. A outra questão é ver distribuição do voto entre MMS e MEP, e se um destes sobressai como o mais viável dos ‘novos partidos’ – creio que tal é bastante provável e, nesse caso, suspeito que a campanha de um dos novos partidos poderá ter inadvertidamente ajudado o outro.

Já agora, um aspecto bónus:

6. Quanto vale o Libertas na Europa? A resposta parece ser ‘muito pouco’, tendo em conta os resultados já disponíveis. Na Holanda, onde o Libertas esperava um bom resultado, obteve apenas 0,3 por cento do voto, e nenhum mandato; mesmo o seu líder Declan Ganley está longe de ter a sua eleição assegurada na Irlanda, embora os votos contados até agora sejam superiores ao esperado. O insucesso do ‘primeiro partido pan-europeu’ representa a irrelevância deste tipo de partidos? Creio que não – aliás, suspeito que o Libertas obteria menos votos se não se apresentasse como um partido pan-europeu.

E por fim: vou acompanhar e comentar os resultados das europeias em directo aqui, a partir das 19h.

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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Afinal, há humor político

Há duas semanas atrás, escrevia que não há bom humor político em Portugal. Tendo visto este blog, baseado nos tempos de antena dos partidos para as Europeias, começo a pensar que talvez tenha que rever a minha opinião. É profano, potencialmente ofensivo e... não está nada mau. Embora neste caso eu seja parcial - claramente, basta uma referência a Marx para me conquistar.

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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Praça pública



Afinal ainda pode haver esperança de que não vá para a frente mais uma intervenção idiossincrática. Pode assinar uma petição e estar atento ao desenrolar dos acontecimentos.
Junto à discussão exemplos de bom e de mau arranjo. Note-se, no mau exemplo, o pormenor da "deslocalização do elemento estatuário": aqui também se deve ter falado de "eixos" e de "percursos". No bom exemplo, note-se a diferença que as árvores fazem.

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Terça-feira, 2 de Junho de 2009

A morte em directo...



Tem-se falado muito de um avião da Air France que caiu algures no oceano Atlântico com 228 pessoas a bordo. Não sei se é só impressão minha, mas sinto na experiência pública desta notícia algo diferente relativamente a muitas outras que, de vez em quando, lá surgem, sobre quedas de aviões e as consequentes mortes de quem lá ia.
Para além da tragédia da morte aparentemente despropositada de um grupo grande e heterogéneo de pessoas, bem como do medo instintivo que tolhe, pelo menos no meu caso, aquele que se imagina preso a um corpo em acelerada, prolongada e desesperada queda livre, há aqui algo que me parece ser diferente, nomeadamente a absoluta estranheza da morte, que, enquanto tal (isto é, absoluta e estranha), tão arredada anda das consciências.
Com efeito, não há aqui reportagens em directo, tentativas de salvamento, companhias de seguros… na verdade, há apenas nada! Somente a perplexidade de um avião que, pura e simplesmente, desapareceu na vastidão de um oceano. Não se sabe onde caiu, nem quando caiu, ou porque caiu... A nossa crença numa eficácia objectiva de um controle tecnológico extensível, desde o espaço, a toda a terra, foi desfeita.
Há um vazio que, de repente, se nos impõe. E é isto, talvez, esta inexplicabilidade desta morte, a ausência de qualquer contacto com ela, que a torna mais silenciosa, mais funda e, estranha e intimamente, mais nossa. Há uma calma que paira sobre todos os esforços de reconhecimento do local, uma certa aceitação da tragédia, tão atípica nas coberturas dos telejornais.
Foi isso que ressaltou em mim nas serenas mas comovidas palavras de Lula da Silva, presidente operário do Brasil e representante político da esquerda brasileira, quando disse, ainda ontem, qualquer coisa como isto: «É uma tristeza, uma dor imensa. Mas nada mais podemos fazer, a não ser rezar pelas famílias dos que morreram e pedir a Deus que uma tragédia destas não volte a acontecer.»

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Post emprestado e de resposta: Uma falsa boa ideia

O João Marques de Almeida escreveu um artigo no Diário Económico em que critica um ponto importante do meu artigo no I e que também publiquei aqui. Teve a atenção de me o enviar e espero que não se importem que o reproduza no blog. Continuo a não concordar com o João mas reconheço a importância dos argumentos que ele apresenta e procurarei responder a eles noutro post (e quando tiver um pouco mais de tempo...).

"Miguel Poiares Maduro escreveu um excelente ensaio no jornal "I", sobre as eleições europeias. Por isso, felicito-o. Concordo com dois argumentos do ensaio: a legitimidade política e democrática da União em geral e da Comissão em particular são fundamentais; e as discussões sobre as políticas devem sobrepor-se aos debates institucionais.

Discordo, no entanto, de um ponto fundamental: a transformação da Comissão num "governo europeu". É fundamental distinguir a politização da partidarização da Comissão. A primeira é desejável e inevitável. Por exemplo, o Presidente da Comissão deve ser um político com passado democrático nacional e não apenas um alto funcionário burocrata, como era a regra até meados dos anos de 1990. Além disso, é positivo que as famílias políticas apoiem os seus membros para a liderança da Comissão. Mas o apoio não é o mesmo que ser um candidato de uma família política. A Comissão não pode apoiar-se num programa partidário.

Em primeiro lugar, os Comissários são indigitados pelos governos nacionais e não pelos partidos políticos europeus. O que significa que são da cor política desses governos, e nem sempre da família política do Presidente. O resultado será inevitavelmente uma Comissão multipartidária. Em segundo lugar, a Comissão não é apenas uma instituição política, também é um órgão quase-judicial que avalia de um modo objectivo o respeito pelas regras comunitárias. Essa imparcialidade seria afectada se a Comissão tivesse uma forte identidade partidária. Por fim, no Parlamento Europeu, é quase impossível uma família política alcançar a maioria absoluta. Seria muito difícil, para uma Comissão partidarizada, construir os consensos necessários para alcançar votações positivas. Ou seja, estaríamos perante o risco de paralisia legislativa.

Julgo que a visão errada da natureza da Comissão resulta de dois problemas com o argumento de Miguel Poiares Maduro. Em primeiro lugar, não consegue escapar ao modelo do Estado para discutir a democracia europeia. Por isso, identifica a legitimidade democrática com maiorias partidárias e com governos. Em segundo lugar, desvaloriza a importância dos interesses nacionais. A crescente natureza ideológica dos votos no Parlamento conta apenas metade da história. A outra metade são as decisões do Conselho, as quais obedecem sobretudo aos interesses nacionais. E são precisamente os governos nacionais que não querem que a Comissão se torne num "governo europeu". Ora, como reconhece o Miguel Poiares Maduro, eles representam democraticamente os cidadãos nacionais. Foram as democracias europeias que escolheram que a Comissão não fosse um "governo europeu". Enquanto se mantiver essa escolha, fazer o contrário não seria democrático. "
João Marques de Almeida

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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Dietrich Bonhoeffer 1906-1945: Une biographie Ferdinand Schlingensiepen Salvator (25 octobre 2005)


Um livro sobre o ambiente rarefeito da igreja protestante e das dificuldades que teve durante o nazismo, decorrentes da sua eclesiologia. Um homem comovente pela sua profunda procura de veracidade pessoal e das dificuldades e sofrimentos decorrentes de uma eclesiologia do livre exame, com todas as suas grandezas e fragilidades. E mais um entre os muito exemplos da origem do ecumenismo e como a II Guerra mundial contribuiu para ele.

Poucas biografias são simultaneamente tão comoventes e tão sinalizadoras de desperdício. Uma imensa figura moral e sem heroísmo fácil, uma imensa figura religiosa, mas sustentada numa teologia sobretudo problemática. Encontramos em Dietrich Bonhoeffer o paradoxo de Lutero, que Lutero iniciou, e que se vê com o século XX desenvolvido às últimas consequências. O dito livre exame redunda em cesaropapismo e não em mais liberdade eclesial. Mais dependência perante as variações do século e não mais liberdade individual. E no entanto, gera personagens que, exactamente pela sua solidão, se tornam em certo sentido mais heróicas.

Em nome da liberdade muita tirania foi criada, seja o regime puritano inglês, seja o Terror, seja o bolchevique. Em nome da liberdade diluíram-se estruturas que a poderiam garantir. Nada sai de graça nesta vida. Não é a valia do livre exame que está aqui em causa, mas conhecer-se os riscos do mesmo. Uma eclesiologia homeopática na sua consistência permite a apropriação da igreja pelo poder civil. Não separa a igreja e o Estado, permite a absorção da primeira pelo segundo. Nesse sentido, os nazis continuaram a política da Kulturkampf de Bismarck.

Dietrich Bonhoeffer não conseguiu sair das suas primeiras premissas. Observou com nostalgia a vida monástica católica e tentou mimá-la. Mas não conseguiu perceber que o cenobitismo apenas ganha consistência quando integrado numa igreja maior. A sua equação era impossível. Um dos muitos pioneiros do ecumenismo não poude, assim, como muitos do lado católico e ortodoxo, dar o passo seguinte. O de que a desunião dos cristãos é a principal ferida do cristianismo, mais que as jornalísticas inquisições e cruzadas, perseguições calvinistas e puritanismos não conformistas. Mas, tendo pago um preço grande por esse facto, não merece qualquer desprezo e muito menos condescendência. Bem pelo contrário: inspira-nos um profundo respeito.


1) http://www.arts.uwaterloo.ca/~diebon06/index.html
2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Dietrich_Bonhoeffer
3) http://www.sociedadebonhoeffer.hpg.ig.com.br/olegado.htm
4) http://ovelhaperdida.wordpress.com/2007/12/13/poema-de-dietrich-bonhoeffer/
5) http://www.pensador.info/autor/Dietrich_Bonhoeffer/
6) http://www.ushmm.org/museum/exhibit/online/bonhoeffer/





Alexandre Brandão da Veiga

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Perdoai-lhes, Senhor

Por todo o lado vejo e leio que a campanha eleitoral para as eleições europeias está a ser "fraca", que não se debatem temas europeus.

Gostava de perceber exactamente qual é a questão. Se quem o diz e escreve acha que os candidatos nada sabem sobre o tema, ou se sabendo, dele não querem falar.

Relativamente aos candidatos dos dois maiores partidos, Paulo Rangel e Vital Moreira, e embora este último não seja o candidato da minha preferência, não tenho quaisquer dúvidas de que ambos são pessoas muitissimo bem preparadas do ponto de vista dos conhecimentos sobre a área.
Rigorosamente creio que são, sob esse prisma,das pessoas mais bem preparadas que temos tido como candidatos ao PE. Ou alguém acha que o Dr. Mário Soares sabia mais de direito europeu e comunitário e dominava melhor os dossiers?

Aliás, gostava de saber quantos, de entre os que os criticam, já leram os livros de ambos. Se se quiserem dar à maçada, talvez encontrem neles bastantes temas de debate e discussão que poderiam lançar e até talvez confrontar os candidatos com incoerências ou insuficiências.

Se ainda fossemos a tempo, gostaria de propor às campanhas do PS e PSD uma acção conjunta: reunir todos os jornalistas, comentadores, cronistas e opinion makers descontentes com a campanha num amplo anfiteatro, para duas intervenções( quatro horas cada) sobre direito europeu. O candidato Paulo Rangel faria a intervenção da manhã, das 9.00 às 13.00. O candidato Vital Moreira falaria das 14.00 às 18.00.

Duas aulas de direito europeu puro e duro. Os presentes manter-se-iam calados, não fariam comentários, nem perguntas, não haveria fait-divers.

Veríamos nesse dia os verdadeiros cultores de política e direito europeus.

PS - Os telemóveis ficavam guardados à entrada e devolvidos no final da sessão. Nada de mensagens, nem twitter, nem email, nem facebook.

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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Abel e Caim

Pelo menos desde Abel e Caim, sabemos todos que não há guerras tão letais como as guerras fraticidas.

Ninguém escreverá nada sobre Dias Loureiro e o BPN como escrevem hoje Vasco Pulido Valente e Miguel Júdice no jornal Público de hoje.
Os restantes escribas podem baixar a pena.

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O descapotável

Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a febre revolucionária de esquerda estava ao rubro. Muitos portugueses, saídos de uma ditadura de direita, sonhavam com a patine de uma ditadura do proletariado. O ódio ao capital e aos capitalistas, se já existia, ganhou corpo nessa altura e perdurou até hoje.
Muitos filhos família ainda conservavam alguns sinais recentes de abastança, aventurando-se a sair de casa com o carro, cabelos ao vento. Os comentários variavam, mas não destoavam entre o “burguês” e o “reaccionário”. A resposta vinha então, na cartilha politicamente correcta de então: “- Ando a descapitalizar os meus pais”.
Portugal continua um país pobre, descapitalizado, que cultiva o ódio aos ricos, olha de lado quem cria riqueza, não encoraja os empreendedores, não celebra a iniciativa privada. Muitos olham o Estado como o providenciador natural, alguns até esperam que o Estado lhes faça a riqueza.
Portugal tem hoje 2 milhões de pobres e ainda não percebeu que estaria bem melhor se tivesse 2 milhões de ricos. A riqueza não deve ser motivo de vergonha para um país, só a pobreza o é.
35 anos depois, discute-se a possibilidade de criminalizar o enriquecimento ilícito. Admito que seja um caminho possível para combate ao flagelo da corrupção, mas fico com a impressão de que se trata apenas da criminalização do enriquecimento.
O ilícito aqui vai só à boleia.

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.