Em diálogo com o post do Carlos Jalali, deixo aqui três notas, interligadas, sobre as eleições de ontem:
1. A primeira nota é para dizer que todas as sondagens se enganaram. Ninguém, no entanto, parece pôr-se seriamente esta questão. Mas ela é importante. E é tanto mais importante quando é um facto que, por um lado, todas as sondagens se enganaram num mesmo sentido e, por outro, ninguém duvida que elas condicionam e influenciam as dinâmicas eleitorais. A conclusão é clara e deve ser enfrentada: há interesses económicos, não declarados nem conhecidos, que condicionam objectivamente a escolha da governação política que é feita pelos cidadãos. Dir-me-ão que é assim há muito tempo. Concedo. Mas prefiro perguntar por quanto tempo mais assim será. Porque o acto de puro ilusionismo que faz com que, findo o acto eleitoral de ontem, se mantenha uma plêiade de comentadores-políticos e de políticos-comentadores a discutir sobre umas novas sondagens, para além de irresponsável é, neste momento, estúpido, pois que, numa altura de crise, como inequivocamente é a que vivemos, a realidade inevitavelmente se imporá.
2. Dito isto, a segunda nota tem a ver com o sentido muito claro de mudança indicado pelas eleições de ontem (falo agora, portanto, da realidade, e não de sondagens). Em primeiro lugar porque o PSD ganhou as eleições com 5% de vantagem sobre o PS, cenário que desde que Manuela Ferreira Leite se tornou líder do PSD foi considerado por todos como absolutamente impossível. Até anteontem, o mais que a ciência da opinião concedeu ao PSD foi um empate técnico, embora sempre com uma vitória do PS. E, na verdade, não se enganaram. Em rigor, quiseram enganar-nos. Tarefa que, aliás, continuam, porquanto analisam agora as legislativas à luz de inúmeras virtualidades a partir das quais voltam a condenar inexoravelmente o PSD e Ferreira Leite. Mas a realidade é bem outra. Porque a própria tese que o PS tem querido vender aos portugueses relativamente às legislativas – a da necessidade de uma governabilidade estável e credível neste tempo de crise – se voltou agora inevitavelmente contra si. Porque a dita esquerda teve apenas mais 6% dos votos do que o centro (PSD) e a direita (CDS). Porque, além disso, o MEP, que é desta mesma área política, se tornou no sexto partido português, com cerca de 1,5% dos votos, o que é um facto assinalável. Porque estes 4% de diferença são facilmente ultrapassáveis, sobretudo na medida em que estas três forças políticas podem unir-se (de vários modos) e criar a possibilidade de uma governação séria e estável, sendo que entre o PS, o PCP e o BE não há qualquer hipótese de consenso sério e/ou estável.
3. A última nota é a mais subjectiva, mas digna de reflexão. Porque ela foi registada, em impressivas imagens, mas não a vi ainda em nenhum lado reflectida em ideias, juízos e raciocínios. E bem merece reflexão. Falo do descalabro da gestão comunicacional do PS na noite das eleições. Se há coisa em que o PS e o governo se têm mostrado eficazes é em termos de comunicação. Até aqui, com efeito, nada falhou. As sondagens, aliás, confirmavam abundantemente que as pessoas acreditavam nessa pretensa realidade que lhes era comunicada pelo PS. A realidade, no entanto, mostrou ser outra. Ora, os militantes do PS, ao que parece, acreditavam piamente nessa verdade que lhes era comunicada pelos seus líderes. Daí o desânimo expresso pela sala sempre vazia; a tristeza e a incompreensão que não permitiram qualquer reacção; a irritação anormalmente patente na cara de José Sócrates; e, sobretudo, o completo desnorte de toda a equipa de comunicação que deixou que tudo isto acontecesse à vista de todos e começou mesmo a desmontar o cenário do PS ao mesmo tempo que o PSD erguia a realidade da sua vitória. Um pouco antes, com o cenário ainda por trás, mas com vários operários já prontos para desmontá-lo, Sócrates garantia ainda que nada, mas mesmo nada, vai mudar. Não percebeu, portanto, que tudo mudou. E é por isso que me parece, francamente, que, independentemente do que continuem a dizer as sondagens, as próximas legislativas irão ser ganhas por Manuela Ferreira Leite e pelo PSD.