19.5.09

GAFES. Por regra, as gafes dos governantes são politicamente refrescantes e humanamente saudáveis. Mas considerar o episódio em que o vice-presidente de Obama revela um esconderijo secreto como mais uma gafe, como vi quem considerasse, é querer reduzir a um fait divers o que não é um fait divers. A revelação de Joe Biden foi irresponsabilidade pura, ponto final. Aliás, não foi a primeira vez que as suas gafes demonstraram parcos conhecimentos de matérias que tinha obrigação de conhecer melhor ou a escassa importância que atribui a assuntos realmente importantes.

ADVOGADOS. Provavelmente a revelação do século e a mais importante descoberta depois da pólvora: existem «indícios de que alguns advogados ou alguns escritórios são quase especialistas em ajudar certos clientes a praticar determinado tipo de delitos, sobretudo na área do delito económico», diz o bastonário da Ordem dos Advogados.

MARGARIDA REBELO PINTO. E isso quer dizer que o livro é bom?

POLICIAL. O romance de espionagem, o policial e a ficção científica são, como diz Mário Santos, subgéneros literários?

15.5.09

PRAGMATISMO. Como então expliquei, votei em Obama essencialmente por acreditar que ele se renderia ao pragmatismo, cada vez mais a minha «ideologia» política. Não me espanta, portanto, que Obama decida não divulgar as fotografias da tropa americana a torturar prisioneiros, que pondere manter presos indefinidamente suspeitos de terrorismo, ou que retome os tribunais militares de excepção criados pelo seu antecessor. Por regra, as coisas são mais complicadas do que parecem, e as boas intenções não chegam para resolver os problemas. É bom, portanto, que se perceba o que o ódio a Bush não deixou enxergar.

14.5.09

SAL A MAIS. Alertado por Alberto Gonçalves, cujas prosas na Sábado e no DN integram a dose semanal de leituras que nunca dispenso, fui ler o texto que o deputado Jorge Almeida publicou num jornal da minha terra onde defendeu a famosa lei que prevê a redução do sal no pão. (O restante está aqui.)

OBAMA. A avaliar pela ausência de reacções a esta notícia, o presidente Obama continua em estado de graça. Fosse George W. Bush a proibir a divulgação de fotografias de abusos cometidos pela tropa americana sobre prisioneiros, e teríamos caso. Como se vê, a importância das coisas varia consoante o lado de que se está.

13.5.09

OS DEPUTADOS QUE TEMOS. Homem entre os 40 e os 50 anos; qualificações preferencialmente na área do Direito; estatuto económico e social privilegiado; filiado no partido que representa há largos anos e pelo qual espera ser reeleito; profissional da política cujo principal objectivo é manter-se nela a todo o custo. Eis o retrato-robot do deputado português traçado pela investigadora Conceição Pequito Teixeira num estudo agora publicado que dá conta esta notícia.

Somos um país de euroanalfabetos, gente divorciada da sua história, da sua língua e da sua cultura, e sem qualquer interesse em mudar esse estado de coisas.

12.5.09

RIDÍCULO. Como já vi escrito, dizer-se que o Magalhães pode causar miopia, e ainda fazer disso notícia, é um exagero — e traz, obviamente, água no bico. Então os écrans dos computadores não fazem, de um modo geral, mal à vista? É só o Magalhães que pode causar miopia, ou são os srs. da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia que não conseguem ver além do nariz? É que, assim, ainda me vão convencer que existe uma «campanha negra» contra o primeiro-ministro, como Sócrates já garantiu. Uma «campanha negra», no caso, devido à ignorância, porque me custa a crer que estejamos diante um diagnóstico meramente político.

Ora aqui está uma questão que merecia uma tese de doutoramento.

Mais um drama na blogosfera.

8.5.09

OS LIVROS DA MINHA VIDA. Partilhei, em tempos, breves momentos com uma boa alma que me jurou ter lido O Velho e o Mar uma dezena de vezes. Pelo entusiasmo com que me falou do livro, e de Hemingway de um modo geral, nunca me passou pela cabeça que estivesse a exagerar. Como ainda não tinha lido o livro em questão, fiquei, naturalmente, curioso, pelo que tratei de o ler logo que tive oportunidade. Já não me lembro bem dos detalhes, mas lembro-me que só não o abandonei logo às primeiras páginas porque uma espécie de campainha me lembrava a todo o instante a dezena de vezes que a boa alma o tinha lido, e convenhamos que um livro que alguém leu uma dezena de vezes merece um esforço. Embora se trate de um caso fora do comum, não foi a primeira vez que deparei com um entusiasta invulgar de um livro. O tempo foi-me habituando a ouvir maravilhas de livros que abandonei a meio (ou terminei a custo), e já não me surpreende que vulgarizem títulos (ou autores) que são, para mim, referência. Mas o tempo também me foi ensinando que há livros (e autores) sobre os quais nunca vi duas opiniões. Poucos, é um facto, mas há. Eça de Queirós e Cardoso Pires, para só falar de portugueses, são autores de quem nunca vi dizer mal. Por que será? Como julgo evidente, porque Eça e Cardoso Pires foram de tal modo excepcionais que nem mesmo os menos entusiastas das suas obras se atrevem a dizer mal. Não por razões de politicamente correcto, no caso literariamente correcto, mas porque lhes reconhecem qualidades difíceis de encontrar nos seus pares. Afinal, se não é bom o que eles nos deixaram, é bom o quê? Sim, já ouço para aí dizer que tudo isto é relativo. Desconfio, no entanto, que é o mesmo «relativismo ignorante» de que ainda há pouco falava Miguel Esteves Cardoso, que pretende tornar igual o que não é igual, e bom aquilo que é mau. O mesmo «relativismo ignorante» que mais não é que uma forma de cobardia, pois assim nos furtamos a dizer o que pensamos (se é que pensamos alguma coisa) e julgamos ficar de bem com Deus e com o Diabo, como se ficar de bem com um não implicasse ficar de mal com o outro.

6.5.09

NOVAS TECNOLOGIAS. Fartíssimo de ouvir falar do Twitter e do Facebook, do Hi5 e do MySpace, decidi despender uns minutos a inscrever-me nestes serviços. Passei, portanto, a estar no Twitter, no Facebook, no Hi5 e no Linkedin. Em poucas palavras, passei, ao que me dizem, a existir. Continuo, porém, tal como comecei: ainda não vislumbrei que mais-valias tudo isto possa trazer a quem, como eu, já tem um site e um blogue. Pode ser que me engane (enganei-me quando aqui escrevi, no primeiro post, que não vislumbrava a diferença entre um blogue e um site pessoal), mas estas redes sociais (julgo que é assim que se designam) são brinquedos que se esgotam uma vez esgotada a curiosidade, e não resistem ao tempo. Os próximos minutos que despenderei com estes serviços serão, portanto, destinados a «desinscrever-me», caso seja possível «desinscrever-me». Que os meus amigos reais e virtuais me desculpem.

BLOGOSFERA REGIONAL. É verdade que os blogues já mudaram os media, sobretudo a imprensa tradicional, mas ainda estão longe de chegar onde seria desejável que chegassem o mais rapidamente possível: à província, onde os media regionais raramente fazem o que deviam. Uma recente reportagem do Público dava conta que as coisas começam, finalmente, a mudar, pois aí se dizia que começam a surgir cada vez mais blogues regionais, e que já há blogues regionais incómodos aos poderes locais. Por aquilo que se tem visto, notam-se pouco. Mas é um começo que se saúda.

5.5.09

UM FILME DEMASIADO VISTO. Pelo caminho que as coisas estão a levar, um dia destes Dias Loureiro ainda vai jurar que nunca ouviu falar do Banco Português de Negócios. Pior: a Justiça, que já nos habituou a nada esperar dela, especialmente quando se mete com quem pode defender-se, acreditará naquilo que lhe disserem, ou será impotente para demonstrar o que suspeita. Talvez ainda pior: o caso BPN ainda vai terminar com o ex-ministro a pedir uma indemnização ao Estado, e o Estado a dar-lha.

1.5.09

EUROPEIAS. Ouvi que a campanha para as Europeias vai servir, sobretudo, para discutir assuntos caseiros, e para avaliar o desempenho do Governo e da Oposição. Também ouvi que apenas uma percentagem muito baixa de portugueses tenciona votar nas Europeias, projecção que constituirá um recorde caso se confirme. Ora, a cumprirem-se as previsões, não será a ausência de debate sobre a Europa que provoca o desinteresse pelas Europeias? O mais curioso é que tudo indicia que a maioria dos portugueses não sabe o que é a Europa — como funciona, que poderes tem, qual é a função dos parlamentares. Quando seria de esperar que as Europeias constituíssem um momento para se discutir a Europa, os nossos candidatos a deputados (e parece que não só os nossos) discutem tudo menos a Europa. Mentiria se dissesse que isto foi, para mim, uma surpresa. Aliás, não me surpreenderia que alguns dos nossos candidatos a deputados não soubessem que funções os esperam caso sejam eleitos.

COMO É? Ou as mulheres quenianas não estão a ver bem a dimensão da coisa, ou só poder haver por lá produção em que a paragem de uma semana faz, de facto, diferença.

30.4.09

VALHA-ME NOSSA SENHORA. Como a recente entrevista à SIC mais uma vez demonstrou, Manuela Ferreira Leite é um desastre como líder do PSD. A senhora é séria, parece competente e será boa pessoa — mas não tem vida para aquilo. Bem podem Pacheco Pereira e João Gonçalves fazer os possíveis e os impossíveis para demonstrar que não é assim que a senhora não vai lá. Por culpa própria, não vale a pena arranjar bodes expiatórios.

DO JORNALISMO. Então não será relevante saber-se que Fernanda Câncio é namorada de Sócrates quando a jornalista exprime, em público, o que pensa acerca do primeiro-ministro?

OBAMA. O presidente americano cumpriu, nos primeiros 100 dias de governo, 27 promessas, mantém a promessa de cumprir mais sete, quebrou seis, adiou três, e trabalha em 63. Todos os pormenores no Obameter.

28.4.09

ALDRABICES. A deputada Ana Gomes resolveu candidatar-se ao Parlamento Europeu e, em simultâneo, à Câmara de Sintra, tarefas que diz assumir «sem falsidade» e «com total transparência». Porque nunca acumulou cargos políticos, diz ela, e porque a lei não o permite, digo eu, Ana Gomes abandonará a Europa caso seja eleita em Sintra. Aqui chegados, pergunta a ilustre: «Será possível mais honestidade e transparência?» De facto, a ideia das duas candidaturas em simultâneo é clara como água. Se não for eleita para um cargo, poderá ser eleita para outro, pois quem se candidata a dois cargos sempre terá mais possibilidades de ser eleito do que quem se candidata, apenas, a um. Isto, presume-se, porque não há uma terceira ou quarta eleições a que a senhora possa candidatar-se, naturalmente à luz do mesmo princípio — e sem dúvida em nome da Pátria. Dizer-se, como já ouvi quem dissesse, que estamos perante uma «duplicidade enganosa», ou que Ana Gomes é uma «falsa candidata», só por maldade. Resta saber se a «honestidade» e a «transparência» são, por si só, motivos para se votar nela, pois uma aldrabice honestamente assumida não deixa de ser uma aldrabice.

Fini

24.4.09

SURPRESAS. El cantor de tango, do argentino Tomás Eloy Martínez, é um livro que descobri por acaso numa estante reservada à ficção em espanhol de uma livraria que visito uma vez por semana, onde também já descobri dois livros de Borges (El informe de Brodie e El Aleph) e um de Carpentier (El reino de este mundo). Tal como outros que também encontrei por acaso e de que pouco ou nada sabia, El cantor foi uma agradável surpresa. Uma pesquisa no Google revelou-me que Martínez está longe de ser um desconhecido, pois tem publicada uma vasta obra, ao que parece digna de aplauso. Foi, no entanto, bom lê-lo sem nada saber dele. É que as expectativas foram, assim, nenhumas, e sei bem no que dão expectativas, mesmo expectativas moderadas. Como nada sabia da obra e do autor, tudo de bom que fui descobrindo no livro foi lucro. Espero que o «estado de graça» se mantenha para o próximo (Purgatorio), que acaba de me chegar graças aos serviços dos suspeitos do costume.

23.4.09

Agora a Administração Obama está a utilizar os serviços de inteligência para fins políticos. A divulgação parcial de relatórios da CIA sobre os métodos de interrogação aplicados a terroristas é um grave erro político e estratégico, e que coloca em perigo a segurança nacional dos Estados Unidos. Além de desmoralizar os operativos dos serviços secretos que lutam contra a Al-Qaeda, fornece informações relevantes aos terroristas, que deste modo ficam a conhecer o modus operandi dos americanos.

Ora aqui está uma notícia importante.

22.4.09

VERGONHOSO. Mesmo sabendo-se quem manda na televisão pública, que naturalmente causa embaraços aos jornalistas da casa sempre que têm entre mãos matéria que não agrada ao Governo, custa aceitar que se façam afirmações como a que fez Manuela Moura Guedes a propósito da entrevista do primeiro-ministro à RTP, cuja forma como foi conduzida considerou «vergonhosa». E vergonhosa porquê? Estarei a ver mal, ou não vi nada que se aproximasse, sequer, de tal coisa. Pelo contrário: a pertinência de algumas perguntas levou a que o primeiro-ministro por várias vezes se irritasse com os entrevistadores, e a ninguém terá passado despercebida a agressividade com que Sócrates reagiu a algumas questões que lhe foram colocadas. As perguntas de Judite de Sousa e José Alberto Carvalho podiam ser outras e o formato diferente? Podiam. Mas as questões que se impunham foram colocadas, e isso é que importa. Além disso, quem é Manuela Moura Guedes para questionar o modelo de jornalismo praticado por quem quer que seja? Acaso será recomendável o modelo por ela seguido no Jornal Nacional? Não, a minha ideia não é defender o primeiro-ministro no «caso Freeport», nem me refiro, apenas, ao «caso Freeport». Falo porque me custa ver gente sempre tão crítica dos media elogiar o «jornalismo» da TVI, porque o «jornalismo» da TVI lhes serve os interesses do momento.

TORTURA. Nunca tive a mais leve simpatia por Dick Cheney, mas ele tem razão neste ponto. Se a administração Obama achou por bem divulgar os relatórios onde constam os métodos de interrogatório utilizados pela CIA em suspeitos de terrorismo (estou para ver se foi uma boa ideia), por que não divulgar também os relatórios onde se dá conta do aparente sucesso desses métodos? Não, não sou a favor da tortura. Mas deixe-se que cada um ajuíze com todos os dados e não apenas com os dados que convêm a uma das partes.

21.4.09

ANGLICISMOS. Tinha-se passado a crónica de Nobre-Correia no DN de 18 Abril, mas ainda vou a tempo de citar uma passagem que diz o seguinte: «(...) quando se procura ler hoje um diário ou um semanário português "grande público", é indispensável armar-se de um bom dicionário de inglês para tentar compreender o que querem dizer os site, online, lay-off, play-off, franchising, outlet, offshore, lifting, share, target, outdoor e outros deliciosos termos perfeitamente desconhecidos para a grande maioria da população...» Embora também eu a eles recorra com mais frequência do que seria desejável, subscrevo o que diz Nobre-Correia.

O ENGODO. Se bem me lembro, construíram-se estádios de futebol porque os estádios de futebol eram necessários para o Euro2004. Agora, pondera-se fazer o Mundial porque o Mundial seria, segundo alguns, uma forma de rentabilizar as infra-estruturas já existentes, a grande maioria construídas (ou remodeladas) por causa do Euro2004. (O restante está aqui.)

20.4.09

ATERRADOR. O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (MP) diz que a acção penal exclui «os mais poderosos e influentes», que há quem queira «transformar o MP num corpo amorfo de funcionários ou comissários políticos obedientes», que há «falta de energia investigatória» no MP, que o MP está sem capacidade e motivação para «exercer de forma plena a acção penal», e que o MP persiste num processo penal que «embaraça o objectivo de descoberta da verdade material (...) em favor de uma teia de formalismos, de escapatórias e incongruências que comprometem a realização duma Justiça célere e compreensível». Como resultado de tudo isto, conclui João Palma, está «cada vez mais enraizada nos cidadãos» a ideia de que existem «margens de impunidade na sociedade portuguesa». Nada, como se vê, que um cidadão medianamente informado já não tivesse percebido, mas é bom que seja alguém que sabe do que fala a confirmar o que se diz ou é publicado. E o que se diz ou é publicado é, para o cidadão comum, aterrador, pois para o cidadão comum não há «escapatórias» ou «incongruências» que lhe valham caso a Justiça lhe caia em cima. (Ver, também, a crónica de António Barreto no Público de domingo disponível aqui.)

17.4.09

INCOMPATÍVEL. A ser verdade que mantém uma relação pessoal com o primeiro-ministro, parece-me do senso comum que Fernanda Câncio devia abster-se de opinar sobre o «caso Freeport». A questão não é ter, ou não ter, o direito de se pronunciar sobre o caso, ou sobre outro caso qualquer. A questão é que ninguém acredita que ela esteja em condições de, sobre esta matéria, emitir uma opinião com um mínimo de distanciamento e/ou isenção, mesmo que o consiga. A gente ouve com curiosidade o que ela tem para dizer sobre o assunto, mas o interesse esgota-se aí. Tratando-se de uma jornalista, como tal em posição privilegiada para ver o que, na minha opinião, se afigura óbvio, é pena que não vá por aí.

MISTÉRIO. O que se passa com A Origem das Espécies? Acabou?

15.4.09

EBOOKS, DE NOVO. O facto de existirem, ou não, livros para os leitores de eBooks constitui, na minha opinião, uma falsa questão. Há anos que utilizo maquinetas de leitura digital (nunca sei como as hei-de designar), e nunca comprei um só livro para lá pôr. A circunstância não me impediu, contudo, de lá colocar umas dezenas, que os há aos milhares, de borla, na internet. O facto de uma marca disponibilizar, online, centenas de livros a pataco, é-me indiferente. Qualquer livro gratuito disponível na internet pode ser instalado em qualquer modelo existente (quando não é possível é fácil de converter), e quando se trata de abrir os cordões à bolsa prefiro o livro em papel. A primeira função de um leitor de eBooks nunca foi, para mim, ler livros, mas textos tirados da internet que, depois, leio quando e onde me apetecer sem necessitar de computador ou de impressora. Resumindo, o leitor de eBooks nunca foi uma alternativa ao livro em papel (apesar de ter lido alguns em formato digital), mas um meio que me simplifica outras leituras. Estou, aliás, convencido de que não sou, nesta matéria, um caso isolado, e não me espantaria que o meu caso fosse a regra. Sim, os livros em papel podem, a prazo, desaparecer, como (quase) desapareceram os LPs e, não tarda, os CDs. Mas não penso que os novos suportes ponham em causa o futuro do livro, como o desaparecimento dos LPs e dos CDs não pôs em causa o futuro da música (se calhar o consumo até aumentou). E isso, para mim, é que conta.

13.4.09

ALFARRABISTAS. Mais uma incursão num alfarrabista, mais duas pérolas praticamente de borla. Falo de Jean Genet in Tangier, de Mohamed Choukri (na imagem), e Amyntas, de André Gide, dois livrinhos (82 páginas o primeiro e 159 o segundo) que se despacham em dois tempos — e que li com prazer imoderado. Isto para dizer que compro cada vez menos livros em primeira mão. Graças aos alfarrabistas e aos serviços da Amazon (e empresas associadas), praticamente já só compro livros usados. Além do preço, mais barato na generalidade dos casos, os livros usados têm, geralmente, encantos que os novos não têm. Anotações e sublinhados, por exemplo, que são, quase sempre, mais-valias que nem as nódoas tornam menos interessantes.

O QUE PARECE. Dizer-se que a vénia de Obama ao rei Abdullah na cimeira do G20 foi uma manifestação de subserviência é, obviamente, um exagero. Pior: é um exagero maldoso. Mas que o gesto foi infeliz, não há dúvida que foi. Como se viu na viagem à Europa, onde Obama foi bem-sucedido, essencialmente, pelo charme que por lá derramou, a imagem é (quase) tão importante como o resto.

DÉJÀ VU. Ana Gomes volta a atacar com a ordinarice.

10.4.09

MUDAR PARA QUE TUDO FIQUE NA MESMA. O que mudou na política externa americana com a eleição de Obama? Guantánamo era para fechar, e continua aberto. Obama diz que os detidos na base afegã de Bagram não têm direitos constitucionais, e ninguém diz nada. As tropas no Iraque eram para regressar, mas vão lá permanecer, pelo menos, até 2011. O Afeganistão mobilizou mais 17 mil soldados (e mais quatro mil nas próximas semanas), e a indignação que isto causaria no tempo de Bush tornou-se, agora, motivo de aplauso. Obama vai pedir ao Congresso mais 83,4 mil milhões de dólares para as guerras do Iraque e Afeganistão, e todos acham normal. Hillary foi à China e avisou que a questão dos direitos humanos não lhe atrapalharia a agenda, e ninguém disse nada. Em que difere, afinal, a política externa de Obama da administração anterior? Além da cosmética, difere, essencialmente, em três pontos: os EUA de Obama estenderam a mão ao Irão, e o Irão respondeu com um manguito; os EUA de Obama tentaram reaproximar-se da Rússia, e a Rússia intimou os americanos a não meterem o nariz na Moldávia; os EUA de Obama dizem que estamos numa nova era em matéria de política externa, e a Coreia do Norte responde com um míssil capaz de atingir o Alasca. Infelizmente, os factos servem de pouco quando não se quer ver.

Jornalista que tem relação de carácter pessoal com político X encontra-se numa situação de conflito de interesses quando defende político X em coluna de opinião.

Esboço para um retrato de mordomo

9.4.09

MAIS DO MESMO. O «renovador comunista» Cipriano Justo escreveu, no Público, que estamos a assistir a uma espécie de «calafetagem do capitalismo, na expectativa de que, lá para diante, o sol volte a brilhar». Partindo do pressuposto que isto é mesmo assim, não estaremos perante a admissão do falhanço do comunismo, incluindo o «comunismo renovado», que não é capaz de apresentar uma alternativa credível? Não, há alternativa, garante o dirigente da Renovação Comunista, infelizmente inviável de momento devido, segundo ele, à «fragmentação do campo socialista». Não fosse a «fragmentação», garante o «renovador», e o «campo socialista» seria capaz de «promover as formações económicas pública e quase-pública à condição de eixo estruturante do desenvolvimento social». Traduzido em português que se entenda, quer isto dizer o quê? Quer dizer que nem de uma alternativa puramente retórica são estes pândegos capazes.

GENÉRICOS. Não é verdade que nos EUA a receita médica é passada por princípio activo, como diz José Manuel Fernandes no Público de hoje. O médico passa a receita com a indicação expressa do nome do medicamento, e cabe ao farmacêutico perguntar ao freguês se quer o medicamento receitado ou um genérico.

SEI LÁ. E para quando uma versão do livro de Margarida Rebelo Pinto acompanhada de um chequezinho?

7.4.09

DESESPERO. Avisado de que o primeiro-ministro resolveu apresentar uma queixa-crime contra o jornalista João Miguel Tavares por causa de uma crónica no DN, fui, sem demora, reler a dita. E que vi eu que justifique uma queixa-crime? Ou estarei a ver mal, ou não há ali nada que se aproxime, sequer, de matéria susceptível de procedimento criminal. Para não ir mais longe, parece-me que o primeiro-ministro foi mal aconselhado — e se precipitou. Por mais que se tente ver a questão doutra maneira, o gesto evidencia alguém que, em desespero, perdeu o Norte, e desatou a disparar sobre quem não devia. Não fosse grave, não se tornasse, mesmo que involuntariamente, uma forma de condicionar a opinião dos jornais, e estaríamos perante um caso meramente ridículo. Como não é assim, resta-me desejar que o tiro lhe saia pela culatra.

3.4.09

PROSA DE VIAGENS. A propósito de O Velho Expresso da Patagónia, que o Nuno acaba de traduzir e cujo original li há meia dúzia de anos, e do Encontro de Literatura em Viagem, onde me dizem que o autor vai estar presente, gostaria de dizer o seguinte: é uma pena que o Francisco não escreva (e publique) mais prosa de viagens. As crónicas que ele escreve para a Volta ao Mundo são, desde há muito, a única razão que ainda me leva a comprar a revista, cada vez mais difícil de distinguir de um mero catálogo de viagens. O Francisco é dos poucos que relata a experiência pessoal da viagem (o que viu, o que sentiu, o que leu sobre os locais que visitou), a única que realmente me interessa. A maioria dos prosadores do género — e não me refiro, apenas, aos prosadores portugueses — limita-se a escrevinhar meia dúzia de parágrafos a introduzir dezenas de páginas de enciclopédia, e para enciclopédia basta-me a dita. Infelizmente, foram muitas as decepções para me atrever a dizer que sei do que falo, e quem está a par da literatura de viagens sabe que não exagero.

PAULO MOURA. Só agora descobri o Repórter à Solta, de Paulo Moura, jornalista do Público. Aproveito a ocasião para dizer que as crónicas dele são, quase sempre, uma delícia, como a que hoje publica.

1.4.09

PORNOGRAFIA II. É um facto que só uma minoria se interessa por arte, provavelmente uma minoria muito reduzida. Só essa minoria estará, portanto, em condições de distinguir um Picasso de um habilidoso, um Schönberg de um chico-esperto, ou um Eça de uma «besta célere». Não é assim? (O restante está aqui.)

«A produção legislativa [da Assembleia da República] é intensa, extensa e má. Toda e qualquer lei padece de três nefastas características: muitas regras, inúmeras excepções e um ilimitado poder discricionário conferido a quem as aplica. As excepções destinam-se a favorecer os amigos e o poder discricionário é um estímulo à corrupção.» (...) «Quando políticos da estirpe de Avelino Ferreira Torres confiam na justiça, quando Fátima Felgueiras confia na justiça, quem mais nela pode confiar?»

31.3.09

PRESSÕES OU TALVEZ NÃO. Toda a gente já percebeu que as alegadas pressões de que estarão a ser alvo os procuradores que investigam o «caso Freeport», e que o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público promete revelar a seu tempo, vão dar em nada. Pior: servirão, apenas, para introduzir ainda mais ruído num caso onde o ruído é mais que muito. É que é duvidoso, para começar, que João Palma tenha provas do que diz, e mesmo tendo-as ninguém acredita que, chegada a hora da verdade, se atreva a chamar os bois pelos nomes. Aliás, o procurador-geral da República já veio negar a existência de pressões sobre os procuradores, e aproveitou a ocasião para mandar um recado: «fracassarão» quaisquer manobras que visem criar suspeição e desacreditar a investigação, disse Pinto Monteiro. Disse mais: «os magistrados titulares do processo expressa e pessoalmente reconheceram» não existir «qualquer pressão ou intimidação que os atinja ou impeça de exercerem a sua missão com completa e total serenidade, autonomia e segurança». Como se vê, alguém está enganado (ou a enganar-nos) nesta história das pressões. O que vale é que já estamos de tal modo habituados a que isto seja assim que estranharíamos caso fosse doutra maneira.

TIRO NO PORTA-AVIÕES. Alberto João Jardim tem pouca autoridade para falar de democracia, nomeadamente da ausência de democracia, mas foi certeiro quando disse, sobre o «caso Freeport», que Sócrates já teria sido substituído caso fosse primeiro-ministro de um «país democrático». Por mais que se exija ou implore, a Justiça não fará, no caso do outlet de Alcochete, mais nada do que já fez (que foi nada), e quanto à celeridade do processo escusado será dizer que mais vale esperar sentado. Como há muito se percebeu, o caso vai arrastar-se eternamente, pelo que o primeiro-ministro ficará, pelo menos enquanto estiver em funções, sob a suspeita de ter praticado actos que não devia ter praticado. Não é agradável, sobretudo no caso de estar inocente, mas quem se mete a exercer cargos políticos sabe ao que vai. Pior é o País suspeitar que o primeiro-ministro que temos é corrupto e a Justiça ser incapaz de confirmar a suspeita ou desmenti-la de forma inequívoca.

SUPERSTIÇÃO. Só espero que não comecem, agora, a espalhar alhos no balneário.

30.3.09

DESVARIOS. Oh dona Maria João Avillez, e que tal acabar com os apoios do Estado à ópera, ao teatro dito independente, e ao cinema que ninguém vê? Afinal, por que motivo gastar tantos milhões de euros em actividades que só interessam a meia dúzia de gatos-pingados? Não estaremos perante os mesmíssimos «desvarios megalómanos» de que fala quando fala das «linhas de ferro no Douro»?

Assino por baixo, por cima, e pelos lados.

27.3.09

REPÚBLICA PORTUGUESA DA VENEZUELA. É normal encerrar-se uma linha férrea sem que os utentes sejam previamente avisados? A julgar por aquilo que se viu, parece que é normal. Mas a razão invocada pela secretária de Estado dos Transportes (um relatório tê-la-á alertado para um problema de segurança nas linhas do Corgo e do Tâmega) não me convence. Pior: chega a parecer-me uma provocação. Se é verdade que foram encerradas por causa de um relatório (conhecido na última terça), como se explica a existência, no dia seguinte, de um plano alternativo a funcionar em pleno de molde a colmatar a ausência dos comboios? Como é evidente, a história não está bem contada. As coisas levam o seu tempo a fazer-se, e não se responde de um dia para o outro a uma situação como aquela que terá apontado o relatório. Como não há milagres, torna-se claro que tudo isto foi cozinhado há largo tempo e às escondidas das populações servidas por aquelas ferrovias, naturalmente procurando evitar-se protestos sempre desagradáveis. Estranho, por isso, que praticamente ninguém se indignasse com o que me parece um precedente que pode sair-nos caro. Imagine-se que o Governo decide, à socapa, encerrar, de um dia para o outro, a auto-estrada que liga o Porto a Lisboa, e que os utentes tomam conhecimento da medida no próprio dia em que a decisão entrou em vigor e descobrem, como não bastasse, que houve um reforço de comboios e autocarros entre as duas localidades, isto é, a existência de um plano alternativo. Não estaríamos agora a dizer que nem um país do terceiro mundo se atreveria a tanto?

26.3.09

JUSTIÇA, DISSE ELA. Só um ingénuo empedernido terá ficado surpreendido com a absolvição de Ferreira Torres pelos seis crimes que lhe foram imputados, e certamente que nem um ingénuo empedernido terá ficado surpreendido que o ex-autarca do Marco de Canaveses tenha dito, mal foi conhecida a sentença, que foi «perseguido» pelo Ministério Público. Mas já me parece demasiado que a presidente do colectivo de juízes que absolveu o sujeito nos tenha feito o imenso favor de explicar que a decisão foi tomada com base em «prova produzida» na sala de audiência «e não no que se diz lá fora», e que não tenha resistido à tentação de nos dizer que «a justiça popular é uma coisa bem diferente da aplicação da justiça pelos tribunais». Demasiado porque o «recado» da sra. juíza me parece despropositado, e porque, à excepção de Ferreira Torres e dela própria, duvido que haja um só português que ache justa a sentença. Quanto a Ferreira Torres, que naturalmente aproveitou a ocasião para disparar em todas as direcções e nos lembrar que é candidato à presidência da Câmara do Marco (ele pode ser tudo mas não é burro), ainda há-de chegar a Presidente da República.

25.3.09

POUCA VERGONHA. Será que os mandarins da bola têm a noção do que andam para aí a dizer? Ter-lhes-á passado pelas cabeças que a gravidade do que afirmam pode causar danos maiores? Fui só eu que ouvi, ou já há quem tenha sido ameaçado de morte? Estão à espera que alguém dê um tiro em alguém para perceberem que deitar gasolina na fogueira pode acabar em tragédia? Quanto custa, já agora, chamar «ladrão» a um árbitro? É que, a avaliar pelo que se tem visto, é de borla, ou quase de borla. E quando resolvem eles dar-se ao respeito, queixando-se nos tribunais de quem os calunia e recusando desempenhar funções enquanto os não respeitarem? As coisas chegaram a um ponto em já não há árbitros sérios, muito menos competentes, e ainda menos as duas coisas.

O melodrama do leão

24.3.09

DA INCOMPETÊNCIA. Os sites dos jornais portugueses vão-se modernizando, mas continuam cheios de erros. No novíssimo DN, a opinião desapareceu em parte incerta. No Expresso, há textos que apenas se podem ler parcialmente. No Público, há páginas e páginas que só se lêem em formato gráfico, e a pesquisa é sofrível. Nada disto se vê nos congéneres ingleses, espanhóis ou franceses. Por que será?