Tio Rei tem uma filha atriz. Pois é. Hoje, tem peça de teatro. Vou deixá-los por algum tempo. Na volta, cuidamos de salvar o mundo. Até lá.
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COLUNISTAS |
Tio Rei tem uma filha atriz. Pois é. Hoje, tem peça de teatro. Vou deixá-los por algum tempo. Na volta, cuidamos de salvar o mundo. Até lá.


A Confecom, a tal Conferência Nacional de Comunicação, que reuniu esquerdistas das mais variadas tonalidades e até algumas empresas interessadas em usar esses bocós como instrumentos para vencer disputas comerciais, terminou ontem. Tratou-se de um verdadeiro show de horrores, conforme o esperado. As propostas aprovadas, que serão tornadas projetos de lei, buscam instituir a ditadura de esquerda na “mídia”. Vale dizer: eles ainda não estão contentes: exigem mais submissão.
As propostas aprovadas submeteriam o jornalismo a um verdadeiro tribunal partidário. E isso não é força de expressão, não. Deve ser entendido literalmente. Os valentes querem criar uma estrovenga que atenderia pelo nome de Observatório Nacional de Mídia e Direitos Humanos. Seu trabalho seria monitorar a “mídia”, com ênfase nas questões ligadas a racismo, diversidade sexual, deficientes, crianças, adolescentes, idosos, movimentos sociais, comunidades indígenas e quilombolas. Só isso.
Parece bacana? É a velha tara dos esquerdistas. Acreditam que os indivíduos não têm discernimento e capacidade de julgar o que vêem, ouvem ou lêem. É necessário que exista uma entidade para fazer a justa interpretação. Vamos a um exemplo aplicado: um comitê como esse certamente consideraria preconceituoso e atentatório ao “movimento social” exibir a imagem em que o MST destrói milhares de pés de laranja numa fazenda invadida.
A Federação Nacional dos Jornalistas, um aparelho do PT coalhado de gente que nunca pisou numa redação, conseguiu aprovar por consenso a criação do Conselho Nacional de Jornalismo, que fiscalizaria os jornalistas pra evitar — e punir, claro! — os desvios éticos. Sim, você entendeu: a ética dos profissionais seria avaliada por um tribunal petista.
É pouco? Para eles, é. Seria também criado um Código de Ética — por quem? Certamente pelos aparelhos da CUT e do PT — que orientaria as punições. Esse código, naturalmente, seria orientado pelo respeito àquilo que as esquerdas consideram a “diversidade”. Os valentes querem ainda que o diploma de jornalista volte a ser obrigatório, o que já foi derrubado pelo STF. E exigem que metade da programação das TVs pagas seja composta de “conteúdo nacional”. Mas há tanto “conteúdo nacional” assim? Eles resolvem o problema: o estado financiaria a “produção regional” — “de qualidade”, evidentemente.
Haveria ainda medidas contra o suposto monopólio da mídia — que têm um único endereço: atingir a Rede Globo. Nesse caso, os “empresários” que participaram daquela porcaria se juntaram aos esquerdistas: já que não conseguem competir com quem é mais competente, apelam ao cartório, coisa típica de estados fascistas, em que os piores triunfam porque são amigos do rei.
Sovietes da mídia
Mas isso ainda não diz tudo. Foi aprovada também uma proposta para a criação de “mecanismos” que servirão para garantir a “participação popular no controle da mídia”. Sim, leitor, eles querem que a vida financeira das empresas de comunicação esteja submetida a seu controle, bem como o conteúdo da programação. Seria, assim, um “soviete da mídia”. Aquele censor cheio de reumatismo da ditadura militar e aquela censora com dores nas varizes seriam substituídos pelos Remelentos & Mafaldinhas do partido.
Tudo isso vai virar projeto de lei. Hoje, não passariam no Congresso. No futuro, não se sabe. Se querem saber como essa gente quer a imprensa, olhem para a Venezuela, a Bolívia, o Equador e a Argentina.
Sujeição voluntária
A julgar pelo que se vê por aí, antes mesmo que a ditadura petista seja oficialmente instituída na imprensa, já se deu a rendição. Rendição? Não! Trata-se de sujeição voluntária, levada a efeito pelos esbirros do partido infiltrados nas redações e pelos bobos.
Com algumas exceções, as empresas de comunicação estão botando a corda à volta do próprio pescoço ao ceder à patrulha e ao não denunciar com a devida firmeza as ameaças óbvias à liberdade de expressão. Em vez disso, há hoje uma penca de gente ocupada unicamente em provar para os petistas que não serve à “oposição”. Servir à oposição significa noticiar qualquer coisa que não seja do interesse do PT e que possa, eventualmente, beneficiar o “outro lado”. Além desses inocentes, há, é claro, os infiltrados mesmo, cujo trabalho é difamar os adversários do “partido”, protegendo a legenda da sanha dos “reacionários”.
Teoria conspiratória? Uma ova! A evidência está naquilo que se lê, se vê e se ouve. A existência da Conferência, suas propostas, o patrocínio oficial ao evento, tudo demonstra a escalada do governo e das esquerdas contra a liberdade de expressão.
Em discurso recente, Lula, que inventou a Confecom junto com Franklin Martins, saudou a liberdade de imprensa. Essa hipocrisia faz parte do jogo. Para todos os efeitos, os esforços para submeter o setor à vontade do PT não partem dele, mas da “sociedade”, dos “movimentos sociais”, das ONGs que lutam “pela cidadania” — todas elas franjas de uma mesma coisa: “o partido”.
No ano que vem, não duvidem, também a liberdade de imprensa estará nas urnas. Franklin Martins, o cardeal Richelieu de Lula e candidato a Jdanov de Dilma, está à espreita. Ele tentou criar uma TV para concorrer com a “imprensa burguesa”. Naufragou.
Só lhe resta tentar destruir a imprensa burguesa, o que fazia parte de seus planos, membro que era do MR-8, quando tinha uma arma na mão e as mesmas idéias torpes na cabeça.


A homepage de agora, passados alguns minutos das 15h, da Folha Online é matéria que interessa à ciência. Toda ela está pautada pelo PT, de cabo a rabo — isto é, da voz oficial do “Planalto” (seja ela quem for) a José Dirceu.
A Folha Online, aliás, tem como uma de suas missões, suponho, amplificar o que escreve José Dirceu em seu blog, que ninguém lê. Dia sim, dia não — ou dia também —, há ao menos um texto resumindo o que pensa o ex-ministro e deputado cassado sobre a política. Trata-se de um verdadeiro “Diário de Dirceu”. Hoje, ele diz que Minas não perdoará Serra por Aécio ter desistido.
Como os petistas achassem Aécio um adversário bem mais difícil, eles o elogiavam e elogiam, em contraste com Serra, o adversário fácil, permanentemente atacado. É uma lógica que deve ser saboreada com os quatro cascos no chão.
É uma evidência do jornalismo rendido a um ente de razão, a um partido, de modo miserável. A rigor, nem jornalismo é porque não há apuração, mas apenas registro do “que se diz por aí”. Os delírios vão se sucedendo. O novo é que Aécio, não querendo para ele a vaga, pode impor Itamar Franco como vice na chapa de Serra. Pode impor? Pode mesmo?
Celebra-se o que seria uma verdadeira orgia da traição, em que se dá como certo que, não tendo conseguido viabilizar a sua candidatura, o caminho certo de Aécio — e, parece, alguns consideram também o caminho ético — é trair. Nisso, como em tudo mais, esse tipo de jornalismo concorda com José Dirceu. A diferença entre o que vai na Folha Online e os blogs que servem a Franklin Martins é só de linguagem: o subjornalismo oficialista é mais engraçado.
Nem mesmo aquela idéia de equilíbrio, que costuma esconder tantos desequilíbrios, está presente desta vez. Não há um “outro lado” dizendo que as coisas podem não ser bem assim. Há só um lado.
José Dirceu edita a Folha Online.
Retomo a questão da impensa no próximo post.


- PESQUISAS E OS DADOS DA LÓGICA;
- DE TONTOS E VIGARISTAS — HOJE E EM 2005. OU: É GRAMSCI, IDIOTA!;
- AS RAZÕES DE AÉCIO E O FUTURO;
- EM NOTA, SERRA REFORÇA CHAMADO À UNIÃO, PRESENTE EM CARTA DE AÉCIO;
- LÁ VAI A MINHA MUSA METER O PÉ NA ENCHENTE;
- AS ANÁLISES DE NÃO-SEI-QUEM;
- Comentários;
- CARTA NÃO FECHA AS PORTAS PARA VICE DE SERRA E TOCA NUM ASPECTO ESSENCIAL;
- A CARTA DE AÉCIO;
- A DECISÃO DE AÉCIO E DOIS CENÁRIOS PARA ASSUSTAR PETISTAS;
- Aécio desiste de concorrer à Presidência;
- OS RICOS E O ÓBVIO;
- EM COPENHAGUE, LULA COBRA OS RICOS;
- CABEÇA DE BACALHAU, ENTERRO DE ANÃO E CHARGISTA QUE NÃO É DE ESQUERDA


Leitor, muito cuidado para não perder detalhes. No texto que segue, há também uma espécie de roteiro sobre como ler a realidade política. Acompanhem.
Os astrólogos consultam o desenho do céu para antever ocorrências; outros lêem cartas; alguns jogam búzios, há quem consiga ver a verdade até na borra do café — todas essas sabedorias são milenares. Consigo antever o mundo com razoável dose de acerto jogando apenas os dados da lógica. E o que eles me dizem? Que a decisão de Aécio Neves, de retirar a sua pré-candidatura, poderia ser bastante positiva para Serra — e, em si, é mesmo —, mas também será usada como peça da oposição numa espécie de inferno lógico em que ele vai entrar — ou melhor: em que será posto. É isto: astrólogos prevêem inferno astral. Eu prevejo “Inferno Lógico”. Por quê?
Vocês já sabem que o Vox Populi, instituto mineiro, deve divulgar uma pesquisa no fim de semana — provavelmente, numa revista semanal. Os pesquisadores foram a campo já no dia seguinte à exibição do programa do PT na TV. Não sei quando devem ter terminado o levantamento, mas é bem possível que tenha se estendido, sei lá, até terça ou quarta-feira. Consulto o arquivo e noto que a última pesquisa do Datafolha foi publicada no dia 17 de agosto — quatro meses ontem. O mês e o ano estão no fim. Se o Datafolha já não tem pronta uma pesquisa, está nos finalmentes. Domingo é dia 20. Depois é semana de Natal, e aí já será 2010. Se o Datafolha não publicar os seus números no domingo, publicará quando? É tudo muito elementar.
Os institutos saíram a campo com o programa político do PT fresquinho na memória dos eleitores. Especialistas sabem que isso sempre interfere nos resultados. Mais: as pesquisas são feitas em meio a uma série de enchentes que atingem São Paulo — com o esforço concentrado de setores políticos e da imprensa (do subjornalismo, então, nem se diga) — para atribuir a responsabilidade primeiro a Kassab e depois a Serra. Assim, leitores, há aí um dado de circunstância, que vai se somar a outro que é da natureza do processo.
A circunstância
Este escriba duvida, jogando apenas os dados da lógica, que esses fatores não interfiram na pesquisas. Um concorre para dar pontos a Dilma, outro concorre para tirar pontos de Serra. E, creio é o que vai acontecer.
A natureza do processo
Dilma tem aparecido nas pesquisas na faixa dos 17%, menos da metade do que é atribuído a Serra. Trata-se de UM NÚMERO IMPOSSÍVEL DE SUSTENTAR!!! Ela tem de subir, não é possível! Com ou sem programa político. Olhem que não sou daquela igreja, como sabem, mas não a considero uma candidata tão ruim — pensando os dados da equação, sem juízo de valor — para ter tão pouco. Ou alguém imagina que o tucano manterá indefinidamente esse latifúndio de vantagem? Assim, creio, no domingo, os petistas podem estar soltando rojões, TENDO ALGO MAIS A COMEMORAR ALÉM DAS ENCHENTES. Sim, eles estão comemorando!!! Agora vamos ligar essas minhas antevisões com os eventos desta quinta-feira.
Os eventos da quinta
O governador Aécio Neves anunciou que a retirada de sua pré-candidatura, mas se disse disposto a atender ao chamamento do partido para tarefas em seu estado e no país. Pois bem. Cumprindo-se as antevisões de meus dados lógicos, alguém se lembrará de especular se a eventual diminuição da diferença entre Serra e Dilma — que é fatal que aconteça — não poderia levar o governador de São Paulo a desistir, o que implicaria que talvez Aécio deva voltar ao jogo etc. Se a primeira parte do que me indicam os dados da lógica se cumprir, a segunda parte vem como conseqüência necessária. E assim vão se construindo as realidades e as leituras políticas.
Dilma não é uma candidata tão ruim que encerre o ano com menos da metade dos votos de seu principal oponente. Não é próprio do jogo. Só para que se faça uma comparação: em dezembro de 2005, Serra tinha 36% das intenções de voto, e Lula 29%. O candidato acabou sendo Alckmin, que, àquela altura, tinha 22%, contra 30% do petista. Rachado, o PSDB fez bobagens em penca. Deu no que deu.
Vai se unir agora?


Mais de uma vez já falei sobre o teórico comunista italiano Antônio Gramsci. Seu conceito de “hegemonia” está na raiz de tudo o que se vê na esquerda contemporânea — notem que não empreguei o adjetivo “moderna” porque a palavra costuma estar associada a uma idéia de valor positivo. Nesse sentido, ou se é moderno ou se é de esquerda. Adiante.
Gramsci desenvolveu o conceito de “hegemonia”: um partido — na verdade, “o” partido, que ele chamava de “Moderno Príncipe” — tem de fazer a guerra de valores na sociedade que quer transformar. Mais do que transformar: na sociedade que pretende subjugar e, na prática, substituir. O autor não propõe as coisas nesses termos, é claro, porque ele faz a sua construção totalitária parecer um avanço humanista — como todo totalitário. E essa guerra implica tornar seus valores influentes, de modo que, com o passar do tempo, os indivíduos não consigam mais pensar fora dos seus parâmetros, fora de suas necessidades, fora de suas formulações. O “Moderno Príncipe” torna-se, assim, um “imperativo categórico”.
E como se opera essa guerra? Como toda guerra: por meio de soldados. Só que, nesse caso, são os soldados da ideologia. Numa primeira fase, o trabalho fica mesmo a cargo da militância. À medida que a hegemonia vai se estabelecendo, mesmo os que não estão a serviço da causa se tornam seus vogais. Porque, como está dito, já não se consegue pensar fora daquela metafísica influente.
Peguem os jornais de hoje: fica-se com a impressão de que aconteceu uma grande tragédia na pré-candidatura de José Serra: afinal, Aécio desistiu! Parece um delírio coletivo. Sim, há os militantes do governismo, que sabem muito bem o nome do que praticam. Mas também há os que são simplesmente tontos. Em alguns casos, chega-se ao acinte — e nem estou muito certo do que seja algo deliberado. QUEM ESTÁ PAUTANDO A REPERCUSSÃO DO FATO, DO COMEÇO AO FIM, É O PT.
Até a tese estúpida de que o Palácio ficou satisfeito porque considerava Aécio um candidato mais difícil foi ressuscitada. ESTA MESMA VERSÃO, POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, FOI VENDIDA À IMPRENSA EM 2005, só que Geraldo Alckmin substituía Aécio. E MUITOS BOBOS E BOBAS A COMPRARAM. Não vou citar nomes por gentileza. Mas a Internet está aí. Pesquisem. Havia tanto sentido na plantação do governo, que o resultado foi este (sempre com números do Datafolha):
Dezembro de 2005 — pela primeira vez, Serra ficava à frente de Lula, com 36% das intenções de voto, contra 29%. Alckmin aparecia com 22%, e Lula com 36%
FATO - Serra era alvo de intenso bombardeio dentro do próprio PSDB.
Fevereiro de 2006 - Serra aparecia com 34%, e Lula com 33%. Alckmin aparecia com 20%, e Lula com 36%
FATO - Alguns tucanos e boa parte da imprensa, pautada pelo PT, os mesmos de agora, diziam que o Planalto temia mais Alckmin do que Serra. O bombardeio continuava. Serra desiste.
Março de 2006 — Alckmin aparecia com 23%, e Lula com 42%.
Maio de 2006 — Lula chegou a 45%, e Alckmin ficou com 22%.
De súbito, os manés do “potencial de crescimento” e do “temer mais quem tem menos votos” desapareceram, sumiram, escafederam-se. Não! Não estou dizendo que Serra teria vencido se tivesse sido o candidato. Estou dizendo que a tese era, como é, furada, mentirosa, vigarista mesmo. Não obstante, é comprada com a desfaçatez dos abduzidos.
A situação é de tal sorte absurda que se deu mais atenção à versão do PT para a desistência de Aécio do que à do próprio governador de Minas. Um trecho essencial de sua carta, que fala sobre a tentativa de dividir o país — publiquei a íntegra ontem, vejam lá — foi ignorada.
PERGUNTA - E que cenário, então, poderia ser positivo para Serra? Existirá algum? O PT, naturalmente, diz que não. Mais: elogiando Aécio Neves, deixa claro esperar, do modo indecoroso que tão bem os caracteriza, que ele traia Serra — e fazem, assim, o que seria, então, o elogio da traição. Escrevi aqui outra dia e reitero: quando a imprensa decide ser ruim, nada é tão ruim no seu próprio gênero como ela no dela.


Aécio desistiu da pré-candidatura, e quase nada se disse sobre os seus motivos porque muita gente estava empenhada em dar a versão do PT. Aécio desistiu por quê? Porque, parece-me, em primeiro lugar, sua pré-candidatura também estava murchando. Nunca deslanchou nas pesquisas de modo convincente. Poderia acontecer. Tudo pode. Mas bastava olhar os dados no detalhe para perceber que seria muito difícil. No Nordeste, por exemplo, seu desempenho era muito ruim. Arrastar a reivindicação até o ano que vem, parece-me, mais iria enfraquecê-lo do que fortalecê-lo. E ele saiu do jogo para poder continuar nele. Já chego lá. Antes, um antecedente importante.
O PMDB era parte da estratégia inicial de Aécio, bem lá atrás, quando lhe pareceu que, a partir da seção mineira do partido, ele conseguiria se lançar como uma espécie de candidato suprapartidário. Em sua retórica, mesmo e ainda na carta de ontem, esse sempre foi um dado importante. O trecho em que ele censura os que querem dividir o país combate a retórica eleitoral petista, sem dúvida, mas também ecoa aquela sua formulação do “pós-Lula”.
Mas aí entrou a notável percepção política de Lula que ainda há. Tinha popularidade o bastante para estender seu manto protetor sobre José Sarney — contra a vontade de boa parte do PT, é bom lembrar — e, assim, impedir que o partido saísse por aí em busca de oportunidades. O embate de Aécio teve de se restringir mesmo ao seu PSDB. A outra ponte que ele havia estabelecido, com o PSB — na composição para a Prefeitura de Belo Horizonte —, também não se revelou viável. Na última reunião com Ciro Gomes, o deputado ex-cearense achou, como direi?, útil atacar… José Serra, o governo FHC etc. Aécio é inteligente o bastante para saber que sua candidatura, dado o atual status, estava inviabilizada.
Mas sua carta é aberta o suficiente para, como disse, continuar no jogo, que está muito longe de um resultado. Ainda que a possibilidade de Serra desistir da disputa seja, acredito, ínfima, não pode ser de todo descartada. Creio que o governador dê o seu “sim” ou “não” em fevereiro — ele promete para março. As eleições estarão ainda muuuito longe, acreditem. Nessa hipótese — remota —, todos correriam para Aécio. Sim, o leitor já deve ter pensado: “Mas, para Serra desistir, seria preciso, então, que sua candidatura tivesse naufragado, e a de Dilma, decolado. Aécio toparia a parada?” Respondo: Aécio precisa de uma campanha nacional. Precisa ir além das montanhas de Minas, onde, com efeito, impera.
E há, é evidente, desde já, a campanha para que aceite o lugar de vice na chapa encabeçara por Serra. Se vocês notarem, a apreensão com a disputa dará lugar a um clamor partidário: “Tope o desafio; você é essencial para a vitória”. Tanto na hipótese menos provável como nesta outra, ele passou à condição daquele que recebe os apelos. É por isso que afirmo que ele sai do jogo para continuar nele. No status anterior, via seu nome patinar nas pesquisas, o que diminuía seu poder de fogo, é óbvio. Se o seu anunciado diferencial era atrair alianças, os números pouco convidativos criavam dificuldades.
É evidente que Aécio não falou em vice-presidente porque ninguém se lança candidato a esse cargo. Mas sabe que, em qualquer cenário, terá um papel vital para o PSDB. O único erro que ele não pode cometer — ERRO PARA AS SUAS PRÓPRIAS ASPÍRAÇÕES FUTURAS — é se deixar confundir com alguém que não se esforçou o bastante para apear o PT do poder. Isso reforçaria a sua condição de político regional. E ele tem credenciais para ser, com efeito, um político nacional.


O governador José Serra divulgou uma nota sobre a decisão do governador Aécio Neves:
*
O governador Aécio Neves tem todas as condições para ser o candidato do nosso partido a presidente, por seu preparo, sua experiência política, sua visão de Brasil e seu desempenho como governador eleito e reeleito de Minas Gerais.
É um homem que soma e que, ao mesmo tempo, sabe conduzir com firmeza as políticas públicas. Não é por menos que seu governo é tão bem avaliado e que a imensa maioria dos mineiros o considera credenciado para ocupar a função mais alta da República.
Não me surpreendem a grandeza e desprendimento que ele demonstra neste momento. Os termos em que ele se manifestou confirmam a afinidade de valores e as preocupações que inspiram nossa caminhada política. Faço minhas suas palavras:
“Defendemos um projeto nacional mais amplo, generoso e democrático o suficiente para abrigar diferentes correntes do pensamento nacional. E, assim, oferecer ao país uma proposta reformadora e transformadora da realidade que, inclusive, supere e ultrapasse o antagonismo entre o ‘nós e eles’, que tanto atraso tem legado ao país.”
Não somos semeadores da discórdia e do ressentimento. Nem estimuladores de disputas de brasileiros contra brasileiros, de classes contra classes, de moradores de uma região contra moradores de outra região. Trabalhamos, ambos, sempre, pela soma, não pela divisão. Somos brasileiros que apostam na construção e não no conflito.
Quero reafirmar o sentimento expresso pelo presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, no sentido da união e da convergência que nos move, de valores e ideais.
Temos o sonho de um país melhor, unido e progressista, com oportunidades iguais para todos. E é nesse sentido que vamos continuar trabalhando. Juntos.
José Serra


Outro temporal daqueles em São Paulo!
Lá vai a minha Musa da Enchente botar as polainas para se encontrar com o Marat dos Alagados.
Há uma coisa curiosa, não sei se notam. Os deputados de esquerda não se interessam pelas vítimas das enchentes de Osasco ou Guarulhos, cidades administradas pelo PT. Ele s acham que enchente é obra de uma “gestão criminosa” só em São Paulo, cidade administrada por Gilberto Kassab, que é do DEM.
E a minha musa ajuda, né? Ela tem especial sensibilidade para dar voz às vítimas das “administrações de direita”. Entendo isso.
Juro! Entendo mesmo! O povo que sofre numa cidade administrada pela esquerda, pelos “progressistas”, está cumprindo o seu papel, que é colaborar para a construção do “outro mundo possível”. Já o povo que sofre numa cidade governada por um partido considerado “conservador” está sendo mero instrumento da Dona Zelite, entenderam?
Daqui a pouco, os alagados das cidades administradas pelo PT estarão cantando, como Michael Jackson: “Ninguém liga para nós”.


“Ah, Não-sei-quem disse que a decisão de Aécio é péssima para Serra”.
Não me digam!
“Não-sei-quem” dizia isso antes de a decisão ser tomada. Diria o mesmo se tivesse acontecido o contrário — isto é, se Aécio tivesse anunciado um “vou até o fim”.
“Não-sei-quem” acha que Serra perde sempre, aconteça uma coisa ou o seu contrário.
“Não-sei-quem”, caso Serra vença a disputa, dirá: “Ih, ele está perdido! O Brasil tem tantos desafios, e como ele vai agora superar Lula?”.
“Não-sei-quem” exerce um papel na ecologia mental local: ser o anti-Serra de plantão. É uma tarefa. É o seu papel.
Aí o petralha se assanha: “E você? Não é anti-Dilma?” Não me subestime! Eu sou pela melhor solução possível contra as esquerdas. Mas sou claro. Não fico tirando onda de que vejo o mundo sem paixão.
Só que há uma diferença fundamental: quando algo é bom para aquela gente de que não gosto, digo: “É bom pra eles”. Lamento que seja, mas não torço os fatos. Porque torcer o fato é coisa de vigarista.
São diferenças sutis que fazem toda a diferença.
É importante distinguir análise política de certo tipo de análise clínica.



Basta ler a carta do governador Aécio Neves para perceber que ela abre, de modo inequívoco, a possibilidade de que venha a ser vice na chapa encabeçada por José Serra. Ou como interpretar o que segue?
Manifesto a minha renovada disposição de estar ao lado de todos e de cada um que julgar que a minha presença política possa contribuir, seja no plano nacional ou nos planos estaduais, para a defesa das nossas bandeiras.
Como esse, há outros trechos em que Aécio se diz à disposição do partido.
Gosto, em particular, de um trecho de sua carta, a saber:
Devemos estar preparados para responder à autoritária armadilha do confronto plebiscitário e ao discurso que perigosamente tenta dividir o País ao meio, entre bons e maus, entre ricos e pobres. Nossa tarefa não é dividir, é aproximar. E só aproximaremos os brasileiros uns dos outros, através da diminuição das diferenças que nos separam.
Sabem vocês que o que vai acima coincide com um ponto de vista já expresso neste blog. O país precisa de um presidente que diga que o Brasil é um só, que fale a linguagem da convergência, não a do ódio. Esse trecho da carta de Aécio é, na verdade, um bom mote de campanha.
Aí o petista se anima: “Ih, ele nem citou o nome de Serra na carta”. Claro que não! Se o governador de São Paulo ainda não se disse candidato, não seria Aécio a lançá-lo.


Leia a carta em que Aécio anuncia que não é mais pré-candidato à Presidência. Comento no post seguinte:
“Belo Horizonte, 17 de dezembro de 2009.
Presidente Sérgio Guerra,
Companheiros do PSDB,
Há alguns meses, estimulado por inúmeros companheiros e importantes lideranças da nossa sociedade, aceitei colocar meu nome à disposição do nosso partido como pré-candidato à Presidência da República.
Como parte desse processo, defendi a realização de prévias e encontros regionais que pudessem levar o PSDB a fortalecer a sua identidade e integridade partidárias.
Assim o fiz, alimentado pela crença na necessidade e possibilidade de construirmos um novo projeto para o país e um novo projeto de País.
Defendi as prévias como importante processo de revitalização da nossa prática política. Não as realizamos, como propus, seja por dificuldades operacionais de um partido de dimensão nacional, seja pela legítima opção da direção partidária pela busca de outras formas de decisão. Ainda assim, acredito que teria sido uma extraordinária oportunidade de aprofundar o debate interno, criar um sentido novo de solidariedade, comprometimento e mobilização, que nos seriam fundamentais nas circunstâncias políticas que marcarão as eleições do ano que vem.
A realização dos encontros regionais foi uma importante conquista desse processo. O reencontro e a retomada do diálogo com a nossa militância, em diversas cidades e regiões brasileiras, representaram os nossos mais valiosos momentos. A eles se somaram outros encontros, também sinalizadores dos nossos sonhos, com trabalhadores, empresários e outros setores da nossa sociedade.
Ouvindo-os e debatendo, confirmei a percepção de um País maduro para vivenciar um novo ciclo de sua história. Pronto para conquistar uma inédita e necessária convergência nacional em torno dos enormes desafios que distanciam nossas regiões umas das outras, e em torno das grandes tarefas que temos o dever de cumprir e que perpassam governos e diferentes gerações de brasileiros.
Ao apresentar o meu nome, o fiz com a convicção, partilhada por vários companheiros, de que poderia contribuir para uma construção política diferente, com um perfil de alianças mais amplo do que aquele que se insinua no horizonte de 2010. E as declarações de líderes de diversos partidos nacionais demonstraram que esse era um caminho possível, inclusive para algumas importantes legendas fora do nosso campo.
Defendemos um projeto nacional mais amplo, generoso e democrático o suficiente para abrigar diferentes correntes do pensamento nacional. E, assim, oferecer ao país uma proposta reformadora e transformadora da realidade que, inclusive, supere e ultrapasse o antagonismo entre o “nós e eles”, que tanto atraso tem legado ao País.
Devemos estar preparados para responder à autoritária armadilha do confronto plebiscitário e ao discurso que perigosamente tenta dividir o País ao meio, entre bons e maus, entre ricos e pobres. Nossa tarefa não é dividir, é aproximar. E só aproximaremos os brasileiros uns dos outros, através da diminuição das diferenças que nos separam.
O que me propunha tentar oferecer de novo ao nosso projeto, no entanto, estava irremediavelmente ligado ao tempo da política, que, como sabemos, tem dinâmica própria. E se não podemos controlá-lo, não podemos, tampouco, ser reféns dele…
Sempre tive consciência de que uma construção com essa dimensão e complexidade não poderia ser realizada às vésperas das eleições. Quando, em 28 de outubro, sinalizei o final do ano como último prazo para algumas decisões, simplesmente constatava que, a partir deste momento, o quadro eleitoral estaria começando a avançar em um ritmo e direção próprios, e a minha participação não poderia mais colaborar para a ampla convergência que buscava construir.
Durante todo esse período, atuei no sentido de buscar o fortalecimento do PSDB.
Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar, com meu esforço e minha lealdade, para a construção das bandeiras da Social Democracia Brasileira.
Busco contribuir, dessa forma, para que o PSDB e nossos aliados possam, da maneira que compreenderem mais apropriada, com serenidade e sem tensões, construir o caminho que nos levará à vitória em 2010.
No curso dessa jornada, mantive intactos e jamais me descuidei dos grandes compromissos que assumi com Minas, razão e causa a que tenho dedicado toda minha vida pública.
Ao deixar a condição de pré-candidato à Presidência da República, permito-me novas reflexões, ao lado dos mineiros, sobre o futuro.
Independente de nova missão política que porventura possa vir a receber, continuarei trabalhando para ser merecedor da confiança e das melhores esperanças dos que partilharam conosco, neste período, uma nova visão sobre o Brasil.
É meu compromisso levar adiante a defesa intransigente das reformas e inovações que juntos realizamos em Minas e que entendemos como um caminho possível também para o País. Continuarei defendendo as reformas constitucionais e da gestão pública, aguardadas há décadas; a refundação do pacto federativo, com justa distribuição de direitos e deveres; e a transformação das políticas públicas essenciais, como saúde, educação e segurança, em políticas de Estado, acima, portanto, do interesse dos governos e dos partidos.
Devo aqui muitos agradecimentos públicos.
À direção do meu partido e, em especial, ao senador Sérgio Guerra pelo equilíbrio e firmeza com que vem conduzindo esse processo.
Aos companheiros do PSDB, pelas inúmeras demonstrações de apoio e confiança.
Manifesto a minha renovada disposição de estar ao lado de todos e de cada um que julgar que a minha presença política possa contribuir, seja no plano nacional ou nos planos estaduais, para a defesa das nossas bandeiras.
Aos líderes de outras legendas partidárias, pela coragem com que emprestaram substantivo apoio não só ao meu nome, mas às novas propostas e crenças que defendemos nesse período.
Nos reencontraremos no futuro.
A tantos brasileiros, pelo respeito com que receberam nossas ideias.
E a Minas, sempre a Minas e aos mineiros, pela incomparável solidariedade.
Aécio Neves”


A antecipação do anúncio do governador Aécio Neves de que não será candidato à Presidência vem depois de duas conversas com o governador José Serra. Não há sinais de que seja uma decisão tomada sob tensão. O governador de Minas fala em facilitar as negociações. Trata-se de um bom cenário para Serra. Agora, a exemplo do que acontece com a petista Dilma Rousseff, todos saberão que o candidato do seu partido será ele, sem que precise “assumir” a candidatura. Afinal, até onde sei, Dilma participa de inaugurações e lidera a comitiva brasileira em Copenhague como “ministra de estado”, não como candidata do PT.
O que fará Aécio? Ele tem um desafio em Minas que, sem dúvida, não é pequeno: fazer seu sucessor. O PT tem dois fortes pré-candidatos: Fernando Pimentel e Patrus Ananias. O PMDB tem Hélio Costa. No PSDB, a possibilidade é lançar o vice, Antonio Augusto Anastasia. O único que poderia ser caracterizado como oposição de fato a Aécio é Patrus. Uma equação com Pimentel, desta feita, não é possível. A composição com Hélio Costa até seria possível, mas tudo depende do que fará o PMDB. Aécio tem a ampla aprovação dos mineiros, e não é impossível que consiga emplacar o nome do seu vice, mas é tarefa difícil.
E ele próprio? O consenso vai dizer que será candidato ao Senado e se esforçará para fazer seu sucessor. E, em princípio, é isso mesmo. É, mas depende. Digamos que o PSDB chegue à convenção que vai aclamar Serra candidato com o tucano numa dianteira convincente — não folgada, mas convincente —, com chances reais de vitória. Entendo que o movimento “Aécio Vice” será inevitável. Virá das chamadas “bases do partido”. E se a candidatura de Serra, àquela altura, já tiver naufragado? Aí Aécio vai assumir a sua vaga certa no Senado “em nome do bem do PSDB”. E “Aécio vice” é uma possibilidade que apavora o PT. “Mas não seria muito melhor que Serra e Aécio se entendessem desde já numa chapa conjunta?” Claro que seria. Mas a política de fato não existe no futuro do pretérito.
Há mais cenários que assustam os petistas? Há. Falo de mais um. Firma-se desde já que Aécio vai mesmo disputar o Senado, sem chances para recuo, e o DEM aceita um nome para a vice-presidência que não venha dos seus quadros. E aí alguém poderia indagar: “Por que não Marina Silva?” Difícil??? Muito difícil!!! Mas todos viram uma dobradinha explícita entre o governador e a senadora em Copenhague. O PV participa do governo ecologicamente correto de Serra — que, de fato, está convencido da chamada “causa ambientalista”. Marina daria à chapa o necessário viés utópico. E emprego o adjetivo sem qualquer ironia. Não estou defendendo nada. Apenas destaco possibilidades que apavoram bastante os petistas.
E agora?
A esta altura, haverá petistas exultando: “Ah, agora Serra vai TER DE DIZER que é candidato, e Lula vai pra cima dele”. Não tem de dizer coisa nenhuma! E duvido que dirá antes de fevereiro ou março. E se Aécio jamais tivesse se lançado? Ele seria, do mesmo modo, o candidato natural e estaria driblando, do mesmo modo, o debate precoce. Se alguma mudança houve, foi em favor de Serra, é claro. Antes, ele aparecia como aquele que era um dos pré-candidatos, mas tomando o devido cuidado para não ferir o outro. Agora, vive a situação em que o partido diz: “É você!” Todos sabem que é ele. E, por isso mesmo, ele pode articular as suas alianças sem, no entanto, tocar no assunto explicitamente. Como faz Dilma.
Ninguém cobrou ainda a ministra que se declare candidata, embora seja candidata. Serra, agora, está rigorosamente na mesma situação. Até agora, o único que se diz candidato é aquele que tem tudo para não ser: Ciro Gomes.


No Radar, de Lauro Jardim:
Aécio Neves vai anunciar daqui a pouco que está retirando sua pré-candidatura à presidêcia para deixa o caminho livre para José Serra fazer as articulações que julgar necessárias.
Hoje os dois governadores conversaram longamente por telefone, e foi durante esta conversa que Aécio comunicou sua decisão. Em seguida, o mineiro procurou o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, com quem estava reunido até há pouco.
Agora, o governador paulista não tem mais como fugir do óbvio. Serra é o candidato do PSDB à presidência. Assumindo ou não.


(leia primeiro o post abaixo)
O discurso de Lula em Copenhague deixa claro por que a reunião já é um insucesso e por que se trata, como chamei, da última missa do aquecimento global. O assunto virou, como é natural, um braço-de-ferro entre países ricos e pobres, com o grupo dos emergentes tentando ser rico o bastante para dar as cartas e pobre o bastante para se aproveitar de eventuais incentivos. E isso, bem…, isso é contra a lógica do processo e contra a natureza dos… ricos.
Afinal, o que querem os não-ricos? Que os outros se comprometam com metas severas na emissão de carbono, por conta de seu passado, enquanto emergentes como Índia e China poderiam emitir à vontade. Reparem: se isso fosse possível, seria como propor uma troca pacífica de papéis: um grupo marcaria um encontro com o declínio econômico no médio prazo, financiando o outro. E o Brasil? A sua proposta de propaganda é boa porque a maior parte das emissões atribuídas ao país vem das queimadas. A sua redução não comprometeria tanto assim o seu desenvolvimento. Mesmo São Paulo, o estado mais desenvolvido do país, tem uma emissão considerada pequena, dado o seu PIB, em razão da grande frota de carros a álcool, da quase extinção das queimadas de cana, da existência da mata atlântica — pequena, sim, mas grande caso se considere o conjunto da economia do estado. As queimadas é que minam a nossa reputação junto aos Apóstolos da Igreja do Aquecimento Global dos Santos dos Últimos Dias.
Com os ricos e com os outros emergentes, a coisa é um pouco diferente. Metas severas de redução de carbono poderiam atingir gravemente suas respectivas indústrias. É por isso que China e Índia já disseram: “Estamos fora de qualquer meta vinculativa. Isso é coisa dos ricos. E nós não somos ricos”. O Brasil aceita o compromisso porque, em princípio, a sua colaboração não atingiria uma área vital da economia. Mas e os tais “ricos”? Os governos democráticos dos EUA e da Europa desenvolvida se entregarão, assim, ao cadafalso, com o compromisso adicional de financiar os muito pobres? Esqueçam. Trata-se de uma equação sem saída. É por isso que aquele troço não anda nem vai andar.
Vai-se criar o fundo, projetos serão desenvolvidos aqui e ali, as elites gorilas dos países muito atrasados vão se aproveitar de eventuais linhas de financiamento, e tudo vai ficando por isso mesmo. Como até Al Gore já admite que há um certo resfriamento do planeta — pelo menos se consideradas as previsões mais catastrofistas —, o que vai acabar esfriando também é o debate, que assumiu, como se nota, o viés a que estava destinado.
A turma do miolo mole deve ter achado que uma causa tão nobre como “salvar o planeta” anularia diferenças e nos colocaria a todos no mesmo barco. Pois é… Não aconteceu. O debate-boca se assemelhou a qualquer outro travado, por exemplo, na Organização Mundial do Comércio. Al Gore, o garoto-propaganda da causa, está perdidaço. Resolveu ser o aiatolá do xiismo ambientalista, o mundo achou a idéia bacana e resolveu pôr, como sempre, os EUA no banco dos réus, de sorte que a resistência de Barack Obama a Copenhague já é mais clara e mais evidente do que a resistência de Bush aos Protocolos dos Sábios de Kyoto.


Da Agência Brasil. Comento no post seguinte:
Brasília - Durante discurso na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender hoje (17) a preservação do Protocolo de Quioto e cobrou que países ricos assumam compromissos para um acordo em Copenhague (Dinamarca).
“Aqui em Copenhague não há lugar para conformismo. Os países desenvolvidos devem assumir metas ambiciosas de redução de emissões à altura de suas responsabilidades históricas e do desafio que enfrentamos”, disse.
“A hora de agir é essa. O veredicto da história não poupará os que faltarem com suas responsabilidades neste momento”, acrescentou. Lula lamentou que os países com menos responsabilidades pelas emissões de gases de efeito estufa sejam as principais vítimas das alterações climáticas.
Ele lembrou que o Protocolo de Quioto estabelece a obrigatoriedade de financiamento aos países pobres e em desenvolvimento para a execução de projetos na área. Segundo o presidente, será muito difícil reforçar a capacidade de adaptação de nações mais vulneráveis sem um fluxo financeiro como “forte componente”.
“Mecanismos de mercado podem ser muito úteis, mas nunca terão a magnitude ou a previsibilidade que realmente queremos”, afirmou o presidente. “Essa conferência não é um jogo em que se podem esconder cartas na manga. Se ficarmos à espera do lance de nossos parceiros, podemos descobrir que é tarde demais. Todos seremos perdedores”, completou. Ele destacou que “a fragilidade de alguns não pode servir de pretexto para o recuo de outros”.
Segundo o presidente, não é “politicamente racional” ou “moralmente justificável” que países ricos coloquem interesses corporativos e setoriais acima do bem comum da humanidade.


Oh, um chargista que não é de esquerda!!!
Agora só falta alguém nos mostrar uma cabeça de bacalhau e a foto do enterro de um anão! Tudo isso que a gente sabe que existe, mas ninguém nunca viu.
O chargista se chama Renato, e a charge foi publicada no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto.
A propósito:
O fato de PSDB e DEM não terem ido às ruas contra o mensalão do PT — ou porque lhes faltou disposição, ou porque, como querem alguns, não têm militantes — não elimina o mau-caratismo das esquerdas, que protestam contra as sem-vergonhices de Arruda e sua turma, mas se calaram e se calam diante das sem-vergonhices da turma de Lula.
A questão é saber quem está usando duas morais: uma para os “amigos” e outra para os “inimigos”. De resto, Arruda já está fora do DEM. E José Dirceu? E José Genoino? Na prática, eles estão na direção do PT.
O COROLÁRIO MORAL DA MÁXIMA SEGUNDO A QUAL CADA PARTIDO DEVE PÔR SEUS MILITANTES NA RUA CONTRA O MENSALÃO DO OUTRO É A ADMISSÃO TÁCITA DE QUE TODOS TÊM DIREITO A UM MENSALÃO: O OUTRO QUE PROTESTE!
Sem essa! Protestar contra as sacanagens de um e silenciar diante das de outros é só mais uma… SACANAGEM!


- A LUTA DE CHAPEUZINHO VERMELHO CONTRA O LOBO MAU. OU: DE DEMOFÓBICOS E DEMOFÍLICOS;
- AS FALSAS IMAGENS DO AQUECIMENTO GLOBAL;
- A MINHA MUSA E O MARAT DOS ALAGADOS;
- ELES NÃO DESISTEM DA TENTATIVA DE CENSURAR O JORNALISMO;
- PERDEU, TERRORISTA! PERDEU, TARSO GENRO! GANHOU, ESTADO DE DIREITO! GANHARAM, LEITORES DO BLOG!;
- Reviravolta: Lula é, sim, obrigado a entregar Battisti à Itália;
- A HORA DO NOJO - O PETISTA MERCADANTE E OS OUTROS 34 APÓIAM UM GOVERNO QUE PRENDE UMA JUÍZA SÓ PORQUE ELA SEGUE A LEI;
- AHMADINEJAD DISCORDA DE ZÉ CAROÇO E TESTA MÍSSIL QUE PODE CHEGAR A ISRAEL;
- TODOS OS SENADORES QUE SE JUNTARAM A HUGO CHÁVEZ;
- Kassab e Serra provocam outro temporal em SP;
- O LIXO FEDORENTO PRODUZIDO POR JOSÉ DIRCEU;
- AINDA A VENEZUELA: QUANTO CUSTA FAZER UM SENADOR ENTENDER UM “PRINCÍPIO”?


Lembram-se de Paula Oliveira, a brasileira que disse ter sofrido um ataque de neonazistas na Suíça? Certa imprensa nativa resolveu, à época, como se diz, “bombar” o assunto, transformando o caso, a despeito das inconsistências, numa luta entre os países ricos e os países pobres. Celso Amorim, para não variar, entrou na história dizendo bobagens. Viu um ataque se xenofobia e exigiu providências, com aquele sotaque da pátria ofendida. Já se sabe que, por alguma razão, Paula inventou o ataque, a gravidez de gêmeos, o aborto… Um tribunal de Zurique a condenou ontem a pagar duas multas por falsa denúncia, num total de R$ 20,5 mil. Ela também vai arcar com as custas do processo, mas poderá permanecer no país.
Lamento este drama humano como lamento qualquer outro. A questão que me interessa é refletir um pouco sobre o papel da imprensa nessa história. Uso o caso para uma reflexão um pouco mais ampla, como verão. O que escrevi no meu primeiro texto sobre o assunto? O que segue:
“(…) os agressores não fizeram nenhuma questão de disfarçar o seu propósito, não é? A sigla de um partido político que a oposição acusa de ser racista - atenção: não se trata de um partido clandestino, neonazista, mas de uma legenda legalmente constituída - foi gravada no corpo de Paula. E se deve notar: mesmo no escuro, num ato apressado, sob o temor óbvio de serem vistos por alguém, ainda não se descuidaram da simetria, procurando distribuir com equilíbrio [em seu corpo] as marcas da selvageria. As letras obedecem a um traçado cuidadoso, firme, sem aparente variações de profundidade.
(…) Na hipótese de os agressores serem mesmo simpatizantes do Partido do Povo Suíço (SVP, sigla da legenda em alemão), esperam que isso aumente a simpatia da população pela legenda, por mais que os suíços fossem, como se diz aqui e ali, indiferentes a agressões a estrangeiros? Fazem-no para chegar ao poder por meio do terror? Mas o partido já está no poder. E governa o país segundo as regras da democracia. Aqui e ali vejo certa contraposição porque a polícia suíça não teria “confirmado” a agressão e evita falar em “xenofobia e racismo”. Bem, antes da investigação, o que se espera que a polícia faça?”
Pois bem… O mundo desabou sobre a minha cabeça. “Está apoiando os neonazistas!” “Só porque ela é brasileira, você está duvidando da história! Você é suíço por acaso?” “Ah, não quer acusar os direitistas da Suíça”… E muitas bobagens desse gênero. Eu, o que fazia — e acho que é obrigação do jornalismo (a rigor, obrigação de qualquer pessoa razoável) — era apontar aspectos da história que me pareciam inconsistentes, só isso, evitando o oba-oba, evitando a patriotada. E, como se nota, eu estava certo.
Infelizmente, a imprensa é prisioneira, hoje mais do que nunca, do pensamento politicamente correto. Está preparada para desconfiar de governos — desde que não sejam de esquerda —, mas não resiste a contar, em cada episódio que vê, narra e analisa a fábula de sempre, a fantasia corriqueira, o clichê que mais paralisa a inteligência: a luta do opressor contra o oprimido.
Se vocês notarem, boa parte das questões políticas — e até muitos dramas humanos — na televisão repetem a fábula do Chapeuzinho Vermelho. Sim, desidrate as histórias de aspectos puramente circunstanciais, e é batata: um Lobo Mau está sempre tentando enganar uma inocente Chapeuzinho, usando, para tanto, de detestáveis artimanhas. Com alguma sorte e alguma esperança, o Bem — Chapeuzinho Vermelho (especialmente se vermelho) — vai vencer o mal.
Vejam a cobertura que se faz da Barafunda de Copenhague. Todos aqueles milhares de pessoas que estão lá são boas e só desejam um mundo melhor. E estão tendo de enfrentar os lobos, que tentam usar de ardis os mais escandalosos para comer a vovozinha, a criancinha, os porquinhos e o que aparecer pela frente. E ai de quem não estiver munido desse espírito do Bem: são todos amigos do lobo. Digam-me: vocês têm uma boa hipótese para o fato de até alguém como Barack Obama — que chegou a ser canonizado — gostar menos do planeta do que este grande benemérito da humanidade chamado George Soros? Se Soros está de braços dados com Chapeuzinho, e Obama, com o Lobo, não lhes parece que algo está fora do lugar?
Eu me interesso por essas aventuras intelectuais, sem dúvida. A fantasia de que as pessoas que estão nas ruas, mobilizadas, estão sempre certas, em contraste com as pessoas erradas, sitiadas em seus palácios, vem do século 18, é fruto do Iluminismo francês e de sua revolução — que o marxismo categorizou como “burguesa”. Até ali, considerava-se que a horda representava um risco para a civilização. Huuummm… Tio Rei, em certo sentido, é pré-revolucionário (e haverá quem não perceba humor aqui… Pena!).
As melhores conquistas daquela “revolução” se deram nos momentos de inflexão, quando as massas tiveram de se recolher. É fato, não é gosto. “Ah, como você é demofóbico!”, grita o demofílico, filho do jacobinismo, do marxismo e, embora renegue, do fascismo!
Embora o Ocidente tenha dado ao homem uma vida como jamais houve — JAMAIS!!! —, ronda-nos permanentemente o espírito da rebelião das massas. Alguns sábios e cientistas resolveram ser a expressão intelectual desse espírito, conferindo à idéia do levante, que também pode se manifestar por meios pacíficos (desde que se mantenha o horizonte utópico da virada de mesa), o suposto rigor de um suposto método. A equação se torna irresistível: “povo” (o “povo”, entenda-se, é sempre a minoria militante) na rua mais a ciência — a politicamente correta ao menos.
E temos o que se vê: um formidável show de desinteligência e de burrice. Porque não se enganem: o saldo de Copenhague já está dado. Como a China, a Índia e os EUA não mudarão de posição, só restará ao escatológicos decretar o insucesso de Copenhague. Como em qualquer seita milenarista, os crentes sairão convencidos de que os não-crentes rejeitam a salvação. Nessa fábula, então, a vitória seria do Lobo Mau — ou do capeta?
Mais ou menos. Que as semelhanças estruturais não sejam uma jaula para o pensamento, né? Declarar a vitória do Lobo será a forma que os Chapeuzinhos das ONGs terão para reivindicar ainda mais recursos para manter a sua incansável luta para nos salvar.


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