Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Alegre

Quase me esquecia de Manuel Alegre...
Alguns dizem que foi um dos derrotados, mas penso que foi um dos vencedores. Acabou por, nos últimos dias, fazer campanha ao lado de Sócrates, certamente em troca de um apoio nas proximas presidenciais. Desconfio, alías, que o facto de não ter entrado nas listas servirá de reforço da ideia da sua independência perante este PS, o PS de Sócrates. Tinha, apesar de tudo, de dar alguma coisa em retorno, que foi aparecer a seu lado. Ana Jorge deverá continuar como Ministra da Saúde, como recompensa imediata, o que também não causa estranheza, visto que não fez um mau trabalho.
Mais logo começarei a abordar o tema dos Ministros que formarão governo...

Outras asfixias

Ontem chamei a atenção para este caso denunciado pelo José Costa e Silva.
Hoje foi a vez de O Jumento (de onde retirei a imagem, com a devida vénia) a denunciar o "incidente". Um e-mail na véspera das eleições com o título "Sócrates é o pior primeiro-ministro desde 1985" não pode ser coincidência, sobretudo se lermos esta notícia de hoje. Isto, sim, é asfixia.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

O melhor do possível

Copiei o título ao João Carvalho, para chegar à mesma conclusão: dentro das possiblidades, este resultado foi o melhor. Foi o melhor porque Sócrates é mau mas as alternativas ainda seriam piores, sobretudo Ferreira Leite, como muitos colegas de partido hoje disseram (Mira Amaral foi explosivo e o mais contundente); foi o melhor porque o PS não conseguiu a maioria absoluta, estando obrigado a negociar e a dialogar com os restantes partidos; foi o melhor porque a esquerda radical (e anti-tudo) não consegue fazer maioria com o PS; foi o melhor porque o CDS/PP, o único que, na minha opinião, estaria em condições de coligar-se com Sócrates, é mesmo o único (tirando o PSD, o que é bastante improvável) que pode fazer maioria com o PS.
Como ontem aqui escrevi, espero que Sócrates governe sozinho, sem se coligar, estabelecendo acordos caso a caso. Mas se tiver que se coligar, então que seja com o CDS/PP (até porque os resultados desmotivam quaisquer outros).

Discordo, portanto, com o Pedro, quando prevê um entendimento com o PSD em muitas matérias. Pode ser que sim, pois quem virá a seguir certamente será mais responsável e terá mais visão política que Ferreira Leite, mas não será a bengala de Sócrates. E escrevo isto por uma simples razão: se isso acontecer, o PSD arrisca-se, em definitivo, a definhar e a perder a sua força, quer para o PS, quer para o CDS/PP. Pois um partido que mostra ser igual ao outro, tende claramente a desaparecer. Veja-se, retiradas as devidas particularidades, o que o BE está a fazer com o PCP. O crescimento à esquerda do PS foi quase todo para o Bloco.

Antenas viradas para Belém

Amanhã, pelas 20:00.

Os pequenos partidos

Tirando Garcia Pereira e o seu MRPP (que passou a ter direito a subvenção estatal), que conseguiu 52 mil votos e 0,93%, todos os outros ficarem à quem da linha do 1%. Se a grande maioria não tem qualquer relevãncia eleitoral, já não se pode dizer o mesmo de MEP e de MMS. Apesarem de serem partidos novos, conseguiram alguma expressividade (e motivação) nas recentes Europeias, sobretudo o partido liderado por Rui Marques que, com Laurinda Alves, obteve quase 1,5% há três meses. Mas ontem não passou dos 0,45% (o,78% em Lisboa), apesar das arruadas e da muita publicidade, praticamente ao nível dos grandes.
Já o MMS viu a sua má campanha penalizada, com 0,29% (0,39% em Lisboa) e pouco mais de 16 mil votos. Muito pouco para quem ambicionava (e ambiciona) bem mais, sobretudo em Lisboa. Em Queluz, o MMS obtece 51 votos, que se traduzem em 0,38% da votação na Freguesia. Certamente que terá bem mais no próximo dia 11 de Outubro na eleição para a Junta de Freguesia...

Legislativas - Ericeira

PS: 36,61% (1457 votos)
PSD: 27,09% (1078 votos)
BE: 12,59% (501 votos)
CDS: 11,91% (474 votos)
CDU: 5,28% (210 votos)

Abs: 38,68%


(Fonte: Expresso)


Nota: mais uma vez, os resultados na Freguesia da Ericeira foram semelhantes ao total nacional. Desta vez, a excepção foram os resultados do BE e da CDU, sendo que, na Ericeira, o BE teve mais votos em detrimento dos comunistas.
À atenção dos centros de sondagem, portanto.

Legislativas - Queluz

PS: 39,50% (5337 votos)
PSD: 19,48% (2632 votos)
BE: 12,97 (1752 votos)
CDU: 11,08% (1497 votos)
CDS: 10,34% (1397 votos)

Abs: 42,30%


(Fonte: Expresso)

Domingo, 27 de Setembro de 2009

A Verdade dos números

Como o Tomás Vasques realça e bem, toda a Oposição fala numa derrota de Sócrates e do PS. Mas não faz sentido. É como dizer que o Benfica, depis de ter dado 8 ao Setúbal, perdeu com o Belenenses porque venceu "apenas" por 4...

Estado de alma

Conhecidas as projecções e os primeiros resultados, é altura de avançar com os comentários às eleições de hoje.
Como todas as sondagens da última semana mostravam - e, desta vez, não se enganaram - Sócrates acabou por ser reeleito, perdendo, como se esperava, a maioria absoluta.
Como já aqui tinha escrito, votei Sócrates. Não votei PS, porque não sou socialista, mas votei porque Sócrates acabou por ser a solução menos má e as alternativas eram piores, sobretudo do lado do PSD, onde Ferreira Leite se limitou a mostrar a sua total incapacidade e, acima de tudo, impreparação para governar um país.
Neste momento, estou convencido que se tivesse sido Passos Coelho a concorrer, teria, muito provavelmente, vencido. O meu voto, por exemplo, já não iria para Sócrates...
Um último apontamento para o governo que será formado. Se se confirmar que o PS terá mais deputados que PSD e CDS/PP juntos (o que parece pouco provável), penso que deverá governar sem se coligar com mais nenhum partido. Ver-se-á obrigado a dialogar, a negociar, a ceder, a ouvir e, acima de tudo, a tolerar a opinião dos outros. Deverá fazer acordos pontuais em questões fulcrais, deverá perceber que nem sempre tem razão e ceder perante tal evidência. Considero positivo este resultado, já que raramente soube aproveitar a maioria absoluta. Porém, se o PSD e o CDS/PP manifestarem intenções de governar coligados, o PS fica obrigado a coligar-se. A minha preferência vai para o partido de Paulo Portas, por considerá-lo o mais capaz para governar entre as escolhas possíveis, mas tal não sendo possível, por força da primeira hipótese, deverá ser o PCP e por uma simples razão: entre PCP e BE foi o que menos guerreou o PS e deverá ser o mais tolerante a um entendimento com o PS. O BE elegeu Sócrates como o inimigo e bateria o pé nas mais diversas áreas, fazendo chantagem.
Concluo, então, com os vencedores e derrotados de hoje:

Vencedores

1. Sócrates

Como já aqui tinha escrito, apesar de todas as acusações, todas as suspeições, todas as insinuações, resistiu e sobrevive, continuando como PM. Mas vence por fraqueza do adversário. Como em cima escrevi, se em vez de Ferreira Leite, o candidato do PSD tivesse sido Passos Coelho, muito provavelmente teria perdido.
Houve, todavia, vários contributos para que tivesse vencido: as gaffes de Ferreira Leite (e o sketch dos Gato Fedorento reunindo-as todas) e as suas ideias ultra-conservadoras, os debates televisivos, onde saíu-se bem e os seus adversários menos bem, a primeira página do Diário de Notícias do passado dia 18 de Setembro, a notícia do Expresso sobre o PPR de Louçã e, claro, a sua determinação.

2. Paulo Portas

Poderia dizer que foi o CDS/PP a vencer, mas o partido é, cada vez mais, de um homem só. Portas foi uma autêntica máquina nestas últimas semanas, fez a melhor campanha, apostando em questões-chave e temas centrais, fugiu às intrigas e apresentou ideias, mesmo que não concordemos com elas. O partido subiu no número de votos, capitalizando o descontentamento nas hostes laranjas e desconfiança em Ferreira Leite, aumentou a representação no Parlamento e pode mesmo vir a ser a terceira força política, estando, neste momento, "taco-a-taco" com o BE.

3. Francisco Louçã

Apontou Sócrates como o alvo a abater e apostou na perda da maioria absoluta. Conseguiu o segundo objectivo, se bem que Sócrates não saíu derrotado (no fundo, no fundo, acredito que prefira Sócrates a Ferreira Leite). O BE aumentou, em muito, o número de votos e de deputados, tendo sido, por isso, um dos vitoriosos da noite. Mas como o rosto do Bloco é Louçã (a maioria dos deputados agora eleitos pelo BE não so conheço), é ele o vencedor, tal como Portas no CDS/PP.

Derrotados

1. Ferreira Leite

Era, dos cinco líderes, a menos preparada para o cargo a que concorria. Mostrou, ao longo de quase ano e meio, que não foi talhada para ser PM nem para liderar um país, muito menos num cenário de crise internacional. O sketch dos Gato Fedorento deveria ter sido a última machadada nas suas esperanças. Aliás, ainda hoje voltou a cometer uma gaffe ("um acto eleitoral composto por 3 actos eleitorais"). Mas não só. Certamente, dentro do próprio PSD houve muita gente descontente com as retaliações (com Passos Coelho), com as listas (Preto, Lopes da Costa) e com a estratégia adoptada (e com o estratega-mor, Pacheco Pereira). E, claro, a tal notícia do DN, de que o amigo Cavaco estaria a ajudá-la.

2. Jerónimo de Sousa

Foi tenrinho demais e, por vezes, deixou-me a sensação de que não queria atacar Sócrates em demasia, antecipando uma eventual coligação. Os comunistas não apresentam ideias, mas uma ideologia, que, como é sabido, é a mesma desde sempre. E perde um pouco para o BE ao não evoluir em certas áreas e certas posições.
Perdeu votos, perdeu mandatos e força. Depois das autárquicas, penso ter chegado a altura de dar o lugar a outro.

3. Cavaco Silva

Sobre o caso das escutas e da tramói de Belém, já aqui muito escrevi e deixei bem clara a minha posição. Considero, assim, ter sido um dos derrotados desta noite. Amanhã veremos se a assumirá.

4. Como O Jumento escreveu, foram derrotados os canalhas, os pulhas, os amigos das reuniões da Aroeira e da Avenida de Roma, as corporações, os que vivem à custa das mordomias, enfim, todos aqueles que usaram meios ilegítimos para derrubar os que foram democraticamente eleitos.

5. A Comunicação Social

Perdeu e perdiria sempre, independentemente dos resultados, no sentido de que alguns orgãos se deixaram instrumentalizar por interesses obscuros e pela intriga e vingança política. Deveriam, depois de hoje, reflectir sobre o seu papel na sociedade e a forma como intervém na política.
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Correcção: o PCP acabou por ter mais um deputado do que em 2005, ao contrário do que as projecções apontavam. Não deixa de ser, porém, uma derrota (o objectivo era aumentar bastante o número de votos e deputados, capitalizando a diminuição do PS e passou para quinta força política), se bem que mais suave.

Ponto da situação

Apesar de não chegar aos números de 2005, a afluência está a ser bastante razoável, isto se tivermos em conta de que, segundo as últimas sondagens, o número de indecisos ser bastante elevado.
Chama-se, ainda, a atenção para este "incidente", denunciado pelo José Costa e Silva. Depois de se recusarem a informar os portugueses da tramóia de Belém, parece que o Expresso atrasou-se, acidentalmente, claro, no envio da newsletter que, por coincidência (claro), tem como "assunto" Sócrates ser o pior PM desde 1985...

Leituras

"(...) 1 Uma notícia é uma notícia. A obrigação primeira de um jornal é cumprir o dever de divulgar todos os factos relevantes que cheguem ao seu conhecimento. Chama-se a isto o dever de informação. Não podia, pois, o DN deixar de divulgar um facto relevantíssimo: era Fernando Lima, o principal assessor de comunicação de Cavaco Silva, quem alegando agir em nome do PR, abordara o jornal Público para que este publicasse a história das alegadas escutas/espionagem sobre Belém que o PR estaria (ou ainda estará, não se sabe) convencido existirem por parte de alguém do gabinete do primeiro-ministro.
O DN publicou a história quando dela teve conhecimento e logo que conseguiu comprovar a autenticidade do e-mail. Não esperou um minuto. Fez exactamente o mesmo uns meses antes com a divulgação de outro documento relevante: a carta rogatória da justiça inglesa sobre o caso Freeport, com referências explícitas ao primeiro-ministro, José Sócrates. Então como agora, no momento em que conhecemos a história, e confirmámos a sua autenticidade, levámo-la aos leitores. Factos são factos. E o DN foi o único jornal a avançar com a notícia do documento nesse dia (todos os outros fizeram-no 24 horas depois), o que muito agradou na altura ao PSD e desagradou ao PS.
Relembro esse outro caso apenas para que os leitores se situem melhor perante as insinuações malévolas de que o DN tem sido alvo e fiquem tranquilos quanto à linha editorial do jornal: informar sem olhar às necessidades temporais de interesses particulares.

2 Ao contrário do que foi por alguns apressadamente afirmado, a divulgação do nome de Fernando Lima não constitui uma divulgação de uma fonte jornalística.
Cito aos leitores o que diz o artigo 6 do Código Deontológico da profissão (já que os jornalistas deviam conhecê-lo melhor): “O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas.”
Só aqui já há muita matéria para reflexão, mas fica claro, pelo menos, que cada jornalista deve cuidar das suas fontes. Se há algo deontologicamente anormal neste caso é que um jornalista, depois de um contacto importante, chegue ao jornal e faça uma “acta” de uma reunião com uma “fonte” divulgando-a a terceiros e pedindo a fabricação de uma notícia a partir da Madeira…

3 Neste caso, o nosso objectivo era precisamente chegar a saber quem era a fonte da PR que falara ao Público (num processo que merecera críticas públicas e contundentes de Joaquim Vieira, Provedor dos Leitores desse mesmo jornal).
Relembro, a este propósito, um bom exemplo, e mundial. A partir de Junho de 1972, Mark Felt, importante responsável do FBI, foi o “Garganta Funda” que deu as informações aos repórteres do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, sobre o que viria ser o caso Watergate. Só em 2005, três anos antes de morrer, Felt revelou publicamente ser o “Garganta Funda” – até lá, nem Woodward nem Bernstein quebraram o sigilo. Mas, dada a relevância e a importância do caso (que acabou por destituir o Presidente Nixon), identificar a fonte de Woodward e Bernstein passou a ser um motivo de investigação de muitos outros jornais, para melhor compreender o processo. Em 25 de Junho de 1975, em editorial, o Wall Street Journal disse que Felt era o informador; em 1992, James Mann, que trabalhara no Washington Post com Woodward, mas não no caso Watergate, escreveu na revista The Atlantic Monthly que o informador era do FBI e provavelmente Mark Felt; em 1995, The Hartford Courant (maior diário do estado de Connecticut) escreveu que Felt era o “Garganta Funda” e em 2002, o San Francisco Chronicle disse o mesmo.
Ou seja, a obrigação de guardar sigilo é sempre uma relação “daquele” jornalista com a “fonte”. Essa obrigação não se estende a terceiros, mesmo que igualmente jornalistas – e sobretudo não tem sentido quando o interesse público se sobrepõe claramente ao direito (que alguns jornalistas chamam, erradamente, apenas um dever – que também o é, obviamente) de respeitar o anonimato de uma “fonte”, quando pactado.
Deixo ainda, marginalmente, para quem quiser reflectir de forma construtiva neste caso o que diz o “Estatuto do Jornalista”, que é Lei, no seu artigo 14º, nº2, alínea a). Deve o jornalista “proteger a confidencialidade das fontes de informação na medida do exigível em cada situação, tendo em conta o disposto no artigo 11.º [sobre o sigilo profissional], excepto se os tentarem usar para obter benefícios ilegítimos ou para veicular informações falsas”.
Será que não se deve pensar também neste artigo a propósito dos factos conhecidos?
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4 A divulgação do nome de Fernando Lima como fonte da notícia do Público é um facto noticioso da máxima relevância, justamente por Lima ser quem (era ou ainda) é: "só" o principal assessor de Cavaco Silva para a comunicação, um homem cujo cargo e funções são pagos com dinheiro dos contribuintes. Saber como Lima exerce a sua função, e o que faz no uso do seu tempo ao serviço do Estado, é matéria escrutinável e sindicável pelo público, principalmente quando ele aborda jornalistas para a divulgação de um facto político tão relevante quanto este.
Acho estranhíssimo, por exemplo, que um jornalista escreva isto: “Fernando Lima fez aquilo que os assessores de imprensa de Belém, de São Bento ou dos partidos (de Soares a Cavaco, de Guterres a Barroso, etc.) sempre fizeram e fazem” (José António Lima, no semanário Sol).
Pessoalmente, desconheço em absoluto esta promiscuidade. De certeza apenas por um acaso da sorte, o meu tempo de profissão (quase 30 anos) fez-se à margem desta triste realidade. Mas lamento que jornalistas convivam com ela sem se questionarem, servindo de pés de microfone à intriga e sobretudo protegendo a má-fé. Um jornalista digno desse nome não pode deixar-se manipular ou manietar através de fontes anónimas, do off envenenado.

5 As cartas (no caso e-mails) entre pessoas gozam por princípio do privilégio de sigilo. Mas há razões - e no caso são evidentes - que justificam que terceiros tenham acesso ao seu conteúdo. Mormente quando - como no caso - esse e-mail mostra como surgiu o caso das alegadas escutas ao PR, como ele foi tratado pelo seu principal assessor, como o caso foi passado para a imprensa e como esta o tratou.
Face à relevância e contornos dos assuntos tratados, a questão da quebra da confidencialidade da correspondência é justificada.
O sigilo da correspondência não é um valor absoluto e existem causas legítimas de quebra do mesmo. Todos os dias a imprensa mundial regista casos de divulgação de cartas. O facto dos destinatários do e-mail serem jornalistas não transforma o referido e-mail em mais ou menos confidencial.

6 O que foi relevante, do nosso ponto de vista, foi sentirmos que a divulgação do e-mail correspondia àquilo que nos é exigido como jornalistas.
Não podíamos deixar de publicar uma história política grave, em todas as suas vertentes, onde há vários protagonistas e intervenientes, e onde são visíveis os cruzamentos entre a política e os media. Ou vice-versa.
A tinta vertida desde então, alguma de forma tresloucada, é a prova do interesse do que noticiámos. Como jornalista, e como responsável máximo por um jornal, não conseguiria dormir tranquilo a pensar que tinha escondido dos leitores tão relevante informação.
Meter aquele documento na gaveta teria sido pactuar com a manipulação e esquecer o dever de informar e o interesse público. (...)"

(João Marcelino, ontem no Diário de Notícias)

Escrupulos (amente)

Ora, com todo o respeito, Cavaco mentiu. Quem, por exemplo, criticou (e bem) o gesto de Manuel Pinho e nada disse sobre o "fuck them" de Jardim, não pode ter o displante de dizer que tem sido isento.
Sr. Silva, tenha vergonha!

Nota: recorde-se que, no caso das acções da SLN, Cavaco já tinha afirmado não ter dado ordem de venda das acções quando o Expresso publicou uma carta assinada por ele a dar ordem de venda.

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Recomenda-se

A leitura do Imprensa Falsa.
O país precisava de algo assim.

Dia de reflexão

No meio do habitual banho de sangue (mortes, crimes, violações, etc), o Correio da Manhã (edição papel) ajuda-nos na nossa reflexão para o acto eleitoral de amanha.
Começa, desde logo, com o "caso Rui Teixeira", onde Eduardo Dâmaso, em editorial, fala em "mais um episódio de uma vingança premeditada e fria que anda a ser servida de bandeja", comparando este caso com a máfia italiana.
Mais à frente, é a coluna do Dr. Rui Rangel, que volta à carga e escreve que "o CSM pode ter lançado sobre os juízes a “gripe A”, o medo de decidir sobre certos processos, o que contamina toda a Justiça.". Ui, tanto medo.
Depois temos, por fim, a notícia de que os juízes receiam novos casos de, entenda-se (porque está entrelinhas), retaliação política.
O curioso é que, em todos estes textos, é pura e simplesmente ignorado o facto de que a decisão não foi proposta (ao contrário do que é repetidamente afirmado pelo CM) pelos vogais indicados pelo PS, mas pelo Dr. Laborinho Lúcio, antigo Ministro do PSD e indicado pelo actual Presidente (insuspeito, portanto, de fazer favores ao PS) e que teve 9 (nove!) votos a favor, dois contra e uma abstenção. Deve ser da asfixia, que não lhes permite divulgar estes factos...
Mas, pelo meio, temos ainda o alerta do perigo: a cirse vai continuar até 2011. José Mateus, "Consultor de Inteligência Competitiva" (se alguém me explicar o que isto é, agradeço), lança o medo. Falências, desemprego, crise social, etc. E a pequena notícia (numa página final, com meia dúzia de linhas enfiadas num canto escondido) de que Luís Filipe Menezes escreveu para o El País, onde defendeu o TGV e as relações com Espanha e criticou a actual política do PSD. Mas, mesmo assim, não faltou a referência oa facto do El País pertencer à Prisa (insinuando as já negadas ligações ao PSOE)...
E o CM termina com a opinião de João Pereira Coutinho, que fala no caso das escutas, se houve, se não houve, de que Lima afinal não tinha sido demitido como assessor, mas nem uma palavra ou referência à encomenda e à tramóia lançada de Belém.
Lá está, deve ser da asfixia...

Nota: salva-se a opinião de Emídio Rangel que é, mais uma vez, contundente.

As perguntas

Vale a pena ler o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso desta semana. Há muito tempo que MST não escrevia um texto tão bom, tão completo e tão assertivo. Gosto de o ler, mas esta semana adorei. Ia transcrever as melhores partes mas cheguei à conclusão de que não há excertos melhores e vale a pena ler na íntegra.
Destaco, todavia, a última pergunta que MST faz a Cavaco Silva, que vai na senda do que aqui tinha escrito sobre a probabilidade de Cavaco resignar em caso de vitória de Sócrates: "na hipótese de o PS e José Sócrates vencerem, com maioria absoluta ou simples, as eleições de depois de amanhã, como acha possível recuperar um mínimo de confiança e colaboração nas relações com esse governo?"

O negócio

Agora que se fala na vacina da Gripe A, que chegará a Portugal no próximo dia 12, convém ler este artigo do Daily Mail sobre os efeitos secundários. Uma nota: morrem mais pessoas por causa da vacina do que por causa da Gripe A!
Isto para além de recordar do negócio por detrás do medo em torno da Gripe A...

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Momento lúdico

"Um candidato do CDS-PP à Câmara Municipal de Moura (...) foi detido sexta-feira pela GNR por, alegadamente, estar a furtar palha numa herdade localizada na periferia da cidade alentejana, avançou ao DN fonte da Guarda, acrescentando que o homem, de 63 anos, foi interrogado e constituído arguido, ficando a aguardar em liberdade o desenrolar do processo.
A cabeça de lista e presidente da distrital de Beja do CDS, Sílvia Ramos, confirma o envolvimento do seu "número 3" no caso, mas diz que isso não a fará alterar a composição da lista.
"A minha decisão é simples. Somos democratas-cristãos e está explícito na Bíblia que quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Não é por meia dúzia de fardos velhos que vamos tirar a pessoa da lista, neste momento. Cabe à Justiça e a Deus julgarem o acto", diz a líder centrista em Beja.
"

Sem comentários...

Deve ser da asfixia...

Para quem nada faz em relação a este caso de evidente falta de ética jornalística ou este de clara parcialidade e manipulação, não deixa de espantar por instaurar processos contra quem ousou denunciar publicamente os casos escandalosos do PSD.
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Adenda: Inês Meneses e Fernanda Câncio também criticam esta incompreensível e gritante dualidade de critérios, acrescentando novas comparações com situações em que a Comissão da Carteira Profisisonal de Jornalistas não actuou (e aí, sim, deveria ter actuado, como nos casos da TVI ou do Público). Efectivamente, fica a nítida sensação de que actuam por critérios meramente político-partidários...

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

"Jornalismo" nacional

A Teresa Ribeiro e a Fernanda Câncio chamam a atenção para um exemplo de nojo jornalístico. Mais do que nojo, considero ser um crime, mas enfim, enquanto as pessoas gostarem disto e comprarem as revistas, continuarão assim.
Entretanto, descobri esta maravilha do jornalismo político. Este, certamente que é "amigo" do governo e de Sócrates. Aliás, desconfio que este é o tipo de jornalismo que Pacheco Pereira gosta e tanto elogia, o tal jornalismo rigoroso e isento.

Os craques do futuro

Na passada segunda-feira liguei a televisão na Benfica Tv, que transmitia, em diferido, o último jogo dos júniores, frente ao Farense. O Benfica jogava em casa e estávamos no minuto 89. Os jovens craques atacavam desesperadamente à procura do golo, via-se, claramente, que já jogavam mais com o coração do que com a cabeça e o Farense defendia como podia. Tudo indicava que o Benfica não conseguiria marcar o tão procurado golo.
3 minutos de compensação. Um remate foi embater na trave da baliza da formação argarvia. Era o último suspiro. O árbitro apitou para o final do jogo, sem o tal golo aparecer. O resultado estava feito. O comentador da Benfica Tv, resignado, lá desabafava: "e pronto, não conseguiram marcar o décimo, ficaram-se pelos 9-0". E assim terminou.

Isto é gozar com a malta

Depois de várias escolhas escandalosas para os jogos do Benfica, agora é uma ainda mais escandalosa para um jogo do Sporting. De facto, não se compreende tais decisões...

Momento lúdico

Recebida por e-mail:

"O dono de um circo colocou um anúncio no jornal, procurando um domador de leões.
Apareceram 2 pessoas: Um senhor de boa aparência, aposentado, aparentando 70 anos e umaloira espectacular de 25 anos.
O dono do circo fala com os 2 candidatos e diz:- Eu vou direito ao ponto. O meu leão é extremamente feroz e já matou os dois últimos domadores. Ou vocês são realmente bons, ou não vão durar mais que 1 minuto! Aqui está o equipamento - banquinho, chicote, pistola. Quem quer entrar primeiro?
A loira fala:- Eu vou!
E ignorando o banquinho, o chicote e a pistola entra rapidamente na jaula.
O leão ruge e começa a correr na direcção da loira.
Quando falta um metro para ela ser alcançada, a loira abre o vestido e fica nua, mostrando todo o esplendor do seu corpo.
O leão pára como se tivesse sido fulminado por um raio!
Deita-se na frente da loira e começa a lamber-lhe os pés!
Pouco a pouco, vai subindo e lambe o corpo inteiro da loira durante longos minutos!
Finalmente, deita-se de novo com a cabeça sobre os pés da loira.
O dono do circo, com o queixo caído até o chão diz:
- Eu nunca vi uma coisa assim na minha vida!
E, virando-se para o velhinho, pergunta: - Você consegue fazer a mesma coisa?
E o velho responde:
- Claro! É só tirar o leão..."

Impeachment

Sobre o chamado Belémgate, convém recordar o que escrevi no Legalices, a 21 de Agosto, sobre a possibilidade de um impeachment a Cavaco:

"(...) a Constituição da República, nos seus artigos 120º a 140º, nada estipula sobre esta matéria. Como o Dr. Pinto de Albuquerque escreve e bem, o nosso sistema político "assenta num sistema de checks and balances entre os diversos órgãos do poder estadual, prevendo a Constituição os mecanismos de fiscalização da actividade de cada órgão constitucional." Por exemplo, o Presidente pode dissolver a Assembleia da República ou demitir o Governo e exonerar o Primeiro-Ministro (art.º 133º da CRP). Mas não existe nenhum poder dos restantes órgãos de soberania em relação ao Presidente. Este não pode, por exemplo, ser demitido, como nos EUA, onde existe o procedimento de "impeachment". Pode, porém, demitir-se, estando tal situação prevista no art. 131º da CRP, perder o cargo (artº 129º da CRP) ou ser destituído do cargo pela prática de crimes no exercício de funções (artº 130º da CRP).
No caso concreto, se se verificar que o Presidente, ou seus assessores com a sua conivência, usavam o cargo para fazerem jogos políticos e minarem as relações entre Presidente e Governo, não há nada previsto na Constituição que leve à demissão ou à destituição do Presidente. Resta, por isso, que Cavaco Silva entenda demitir-se (politicamente, não lhe restará alternativa se se provar esta hipótese). (...)"

A isto posso acrescentar que o impeachment é um procedimento jurídico-constitucional, que necessita de um suporte normativo. Ora, em Portugal, não existe este procedimento, pelo que não pode ser "inventado" e caso se legislasse nesse sentido (hipótese meramente académica, neste momento), nunca teria efeitos retroactivos, ou seja, nunca se aplicaria a este caso.
Resta, pois, uma hipótese, que é renúncia do próprio Cavaco, que, tal como aqui escrevi, considero, neste momento, bastante provável (caso Sócrates vença domingo).

A Verdadeira asfixia democrática


Descoberto aqui (cliquar para ampliar).

Programas de governo do PS e do PSD para a Justiça

Análises, aqui e aqui.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

A queda de um Homem

Em Janeiro de 2006 escrevi e enviei este texto a Vital Moreira. O tema que se discutia, naquela altura, era as Eleições Presidenciais.
Perante os candidatos que se apresentaram na corrida a Belém, decidi votar em branco. Nenhum me agradava e, no texto de então, apontei as razões em relação a cada um dos candidatos. Garcia Pereira, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã representavam uma ideologia de extrema-esquerda radical, Manuel Alegre concorria para se vingar de Sócrates e da derrota nas directas do PS, Mário Soares já não tinha as condições (idade, por exemplo) para voltar a exercer o cargo e, por fim, Cavaco Silva. Cavaco acabaria por ganhar e logo na primeira volta, apesar de ter perdido (em 1996) para Jorge Sampaio, ainda no rescaldo de um governo de 10 anos que provocou muito descontentamento que levou, também, à vitória de António Guterres um ano antes frente a um dos seus ex-ministros.
Apontei, na altura, um nome que me parecia, dentro dos possíveis, o mais capaz para o cargo, com mais virtudes para as funções e que puderia exercer a mais alta magistratura da nação com brio, seriedade, lisura e sentido de estado. Freitas do Amaral acabaria por aceitar o convite de Sócrates para Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, tendo abandonado pouco tempo depois por motivos de saúde.

Cavaco, como disse, acabou por ganhar, tendo ficado Alegre em segundo e Soares em terceiro. Em relação a Cavaco, escrevi na altura que "Cavaco Silva e ao contrário do que muitos pretendem fazer crer, não será um pacificador nem colaborará ou ajudará este Governo. Basta ouvir as suas afirmações para se perceber que tentará impor as suas ideias, sobretudo as económico-financeiras, ao Governo, imiscuindo-se nas suas competências reservadas. Se este não as aceitar, teremos também um gravíssimo conflito ou, nas palavras do revoltado mas lúcido Santana Lopes, "um sarilho institucional"." Acrescentei, ainda, que "há quem diga demagogicamente que Cavaco Silva será, dos seis candidatos, aquele que melhor compreenderá e mais colaborará com este Governo. Só um distraído vai na cantiga. Se assim fosse, não diria que "o país está sem rumo" nem que iria propor ao Governo alterações à política que está a seguir."
Um ano após ter iniciado funções como Chefe de Estado, pensei que me tinha enganado redondamente. Cavaco mostrava-se cooperante com o Governo, exercia as funções com correcção e isenção, era, portanto, um bom Presidente, o tipo de Presidente que se esperava. Mas, afinal, não me tinha enganado. Quando Luís Filipe Menezes se demitiu, Ferreira Leite, sua antiga Ministra da Educação e amiga, avançou, tendo ganho por uma margem mínima. Fala-se, agora, que Cavaco e os seus assessores ajudaram a sua candidatura e à vitória nas directas do partido e a verdade é que, desde então, passámos a ter um outro Cavaco Presidente.
A "cooperação estratégica" deu lugar a uma guerra fria entre Belém e São Bento. Duas personalidades fortes e idênticas, Cavaco e Sócrates, zangaram-se, como um amuo de namorados, e passou a notar-se um crescente mal-estar entre Presidência e Governo. Mas, pior do que isto, Cavaco deixou de ser isento. Passou a ter um comportamento parcial, que, directa e objectivamente, tem ajudado Ferreira Leite. Adoptou uma gritante dualidade de critérios perante casos iguais (por exemplo, criticou os "cornos" de Manuel Pinho, mas nada disse sobre os episódios da Madeira, como a proibição da entrada de um deputado no Parlamento Regional ou o "fuck them" de Jardim), o seu discurso passou a ser praticamente idêntico ao de Ferreira Leite e muitas das suas decisões acabariam por prejudicar o Governo e/ou ajudar a líder do partido que sempre foi o seu.

Em Janeiro de 2006 tinha escrito que, indepentemente de quem viesse a ser Presidente, o Governo tinha de ser "bastante coeso, determinado e corajoso", como até então. E a verdade é que foi. Perante tantos escândalos e ataques, políticos e pessoais, Sócrates tem resistido e, muito provavelmente, acabará por continuar no cargo. E um desses ataques, sabe-se agora, foi intencionalmente congeminado para prejudicá-lo, beneficiando a sua mais directa adversária.
Um Presidente da República tem de ter, a todo o momento, um enorme sentido de estado, tem o dever de ser árbitro e isento, tem de, tal como jura na tomada de posse, cumprir e fazer cumprir a Constituição, nomeadamente preservar um bom relacionamento entre órgãos de soberania e promover a harmonia entre eles, sempre no interesse do país e dos portugueses. Cavaco, ao deixar de ser árbitro e passar a ser mais um peão no jogo político-partidário, violou (e viola) o juramento que prestou. Acresce, ainda, a gravidade da conspiração entre um seu assessor (a mando seu?) da sua Casa Civil e um jornalista para "tramarem" Sócrates, chefe de Governo. Mesmo que não tenha tido nada a ver com a tramóia (o que não parece), Cavaco não sai ileso e fica mal visto perante os portugueses, em geral, e os seus eleitores, em particular.
Não restam, pois, condições para que Cavaco Silva permaneça no cargo. Ao demitir o seu assessor, aceitando, tacitamente, que a conspiração existiu, o mal-estar entre os dois órgãos de soberania nunca mais melhorará enquanto Sócrates e Cavaco continuarem a exercer as suas funções. A "cooperação estratégica", que já não passa de uma farsa e de uma "tanga", nunca mais voltará, pelo menos enquanto um deles não abandonar o cargo.

Assim, se se confirmar a vitória de Sócrates no próximo Domingo, estou convencido que a prometida declaração de Cavaco acabará com o anúncio da renúncia ao cargo de Presidente, pois se o actual Primeiro-Ministro vencer as eleições, Cavaco saberá, emlhor que ninguém, que não tem outra saída. Se continuar, será o alvo das atenções. Certamente a imprensa, que tem sido amiga até ao momento, voltará e fará com ele o que tem feito com Sócrates, escrutiná-lo a pente-fino, começando pelas acções da SLN, passando pela viagem oficial à Turquia para a mulher fazer compras para os netos, terminando com a "encomenda" de uma notícia. E a última coisa que Cavaco quererá é terminar a sua vida política mal visto, ou melhor, ainda mais mal visto do que neste momento.
Domingo, teremos eleições legislativas, daqui a duas semanas eleições autárquicas e, desconfio, no início de 2010 teremos mais uma. Para Presidente da república.
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Adenda: nunca desejei o mal de nenhum governante ou Presidente, pois o mal deles é o nosso mal. Obviamente que não preferia que não tivesse acontecido tudo isto, mas, infelizmente, aconteceu. Passados os primeiros meses de mandato, tinha praticamente decidido votar em Cavaco em 2011. Mas depois Ferreira Leite foi eleita líder do PSD e tudo isto aconteceu...

Leituras

O Hélder que, apesar de ter saído da blogosfera, continua atento ao Mundo, chamou-me a atenção para este texto de José Niza, imperdível, sobretudo para as claques de apoio à senhora em causa. Vale a pena ler:


"Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me “estúpido”, a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.
Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.
Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.
Nessa entrevista MMG chama “estúpidos” aos seus superiores. Aliás, as palavras “estúpidos” e “estupidez” aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.
É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior (”Eu sou a Manuela Moura Guedes”!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por “ideias delirantes”, de grandeza ou de perseguição).
MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são “ignorantes”; considera-se “um alvo a abater”; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem “fretes ao governo” e de serem “cobardes”; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que “nunca fizeram a ponta de um corno na vida”; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma “porcaria”; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.
E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser “imparcial”, “equidistante”, “ponderado”, ela responde: “Então metam lá uma boneca insuflável”!
Como é que a uma pessoa que assim “pensa” e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?
Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer – e como sublinhou Mário Soares – esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.
Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado. Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.
Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.
J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR. Até aqui, nada de especialmente especial.
O que já não está bem – e é criminoso – é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.
Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: “O que parece, é”!
E eles aprenderam.

– 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: – “Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista”! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio… Não tinha. “O que eu quero é ser jornalista”! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: “Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir”. A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez – no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha – a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.

P.S.
A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.
E se eu soubesse o que sei hoje…"

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Branquinho e branqueamento do que está em causa

No "Pontos de vista" da RTPN, Augusto Branquinho, pelo PSD, e Nuno Magalhães, do CDS-PP, fogem ao tema do debate, o chamado Belémgate. Natural, já que pertencem aos partidos que apoiaram o Sr. Silva a Presidente. Dizem que se está a fugir das questões essenciais e que deveriam debater o desemprego, as ideias para o país, etc.
Nuno Magalhães ainda pode alegar esta intenção, já que Portas até tem feito uma boa campanha, mas é penoso ver o spin doctor Branquinho (um dos conselheiros de Ferreira Leite) a insistir que deveriam discutir os temas sérios. Penoso porque nos comícios do PSD, Ferreira Leite limita-se a insinuar escutas, asfixias, factos comprovadamente falsos, em vez de apresentar ideias para o país. Se quer discutir ideias, então discuta-os... nos comícios.

"Clearstream"

Em França inicou-se hoje um julgamento altamente mediático. O antigo Primeiro-Ministro Dominique de Villepin, está acusado de ter forjado e publicado um documento falso, o qual provaria que o seu adversário na corrida às presidenciais, o agora Presidente Nicolas Sarkozy, teria recebido dinheiro em negócios de armas ilícitos.
Por cá, ainda nem sequer os jornalistas acamparam à porta do Palácio de Belém à espera das declarações do Sr. Silva e a Procuradoria-Geral da República continua a dizer que não há nada para averiguar...

A asfixia democrática

Na semana passada foi noticiado que tinha havido compra de votos no PSD durante as últimas eleições directas, que elegeram Ferreira Leite por uma unha negra.
Acontece que, tirando a notícia da revista Sábado e as piadas dos Gato Fedorento, nada mais foi dito ou comentado sobre o assunto.
Gostaria de saber se, tivesse sido Sócrates a vencer as directas do PS por uma margem mínima e com uma estória de compra de votos à mistura e não Ferreira Leite, estaríamos perante tão ensurdecedor silêncio dos media.

Claro que a resposta é óbvia. Já teriam perguntado mil vezes ao PM se tinha incluído os dois candidatos a deputados nas listas como recompensa pela ajuda na obtenção dos votos, já teriam perguntado se tinha conhecimento do caso, já teriam perguntado se iria manter a confiança nos dois, etc, etc, etc.
Tal como no caso das acções da SLN do Presidente, a líder laranja tem sido (vá-se lá saber porquê) poupada pelos jornalistas e pelos comentadores de serviço.
Deve ser da asfixia democrática de que alguns falam...


(foto retirada daqui, com a devida vénia)

A História repete-se

Em 2004, um assessor do então Primeiro-Ministro Santana Lopes reunia-se com dois jornalistas para arranjar uma notícia em que envolvia o adversário directo (Sócrates) do seu chefe. O Independente largava a bomba do Freeport. Sócrates saíu chamuscado, mas sobreviveu.
Em 2008, um assessor do ainda Presidente Cavaco Silva reunia-se com um jornalista para arranjar uma notícia em que envolvia o adversário directo da amiga do seu chefe. O Público lançava a "bomba atómica" (termo utilizado pelo jornalista) das escutas a Belém. Sócrates, mais uma vez, chamuscou-se, mas sobrevive.
Muitos perguntarão porquê estes métodos. Não sei. Ou porque pensam que só assim conseguem chegar ao poder. Ou porque não têm escrúpulos para jogarem limpo e honestamente. Ou porque querem tanto o poder, que são capazes de tudo, incluindo de lançarem um golpe de estado através dos media que, por simpatia política, se deixam levar por tais métodos. Não sei. A História nos dirá, talvez, um dia...

A decisão que peca por tardia

Júdice dixit

Excelentes respostas de José Miguel Júdice ao Diário de Notícias:

"A revelação por parte do DN do e-mail trocado entre Luciano Alvarez e Tolentino Nóbrega, jornalistas dos Público, é uma violação de privacidade?
Não sei se o e-mail é privado ou se tem interesse público. Acho muito curioso que a imprensa portuguesa, que durante anos e anos não se preocupou com a revelação de escutas, agora que atinge os jornalistas, estes comecem a ficar preocupados.
Considera reprovável, do ponto de vista ético?
É deontologicamente censurável, mas, durante anos, os jornalistas aceitaram que isso fosse possível em muitas situações que não envolviam jornalistas. É como se estivessem a provar um pouco do seu remédio. Os jornalistas dão muita importância a si próprios. Eticamente, é inadmissível que os jornalistas queiram ser protegidos de uma forma que não se protegem os outros cidadãos.
A relação entre jornalista e fonte descrita no e-mail é...
… de uma gravidade extrema. E se é exemplo da forma como se faz jornalismo neste País, estou como Manuela Ferreira Leite: Não quero viver neste País. A aceitação da instrumentalização por parte do jornalista, se for verdade o que está no e-mail, é lamentável. Perguntas sugeridas por um assessor, fazer a notícia sair da Madeira...
Considera aceitável que o DN tenha divulgado o e-mail?
É importante que o Diário de Notícias tenha divulgado esta situação. E é importante que os jornalistas ponham a mão na consciência. Eu sou amigo do José Manuel Fernandes, mas a reacção do José Manuel Fernandes, que de manhã afirmou que o Público estava sob escuta e depois vem reconhecer que, afinal, não houve qualquer intrusão no sistema informático do jornal, é de uma gravidade absoluta. E nem pediu desculpa. Depois das suspeições lançadas devia de haver um pedido de desculpa ao País, a todos nós. A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo. Se é grave o que Fernando Lima, assessor do Presidente da República, fez, também é grave a comunicação social sujeitar-se a isso.
A revelação deste caso desacredita o jornalismo?
Sobretudo levanta algumas questões: será caso único? Não haverá mais fretes entre políticos e jornalistas? A partir deste caso, os jornalistas deveriam aproveitar para fazer uma reflexão, com muita coragem, para estigmatizar práticas profissionais inadmissíveis. Enquanto bastonário da Ordem dos Advogados fiz isso junto dos advogados. Acho que é essencial que assim seja em qualquer actividade.
O interesse público justifica a publicação do e-mail?
Está tudo a arrancar os cabelos porque é um jornal a fazer a outro jornal aquilo que é prática da comunicação social fazer a outras entidades não jornalísticas: publicar e revelar documentos, mesmo que protegidos pelo segredo de justiça, em nome do interesse público. Esta dupla ética não é aceitável. "

Desespero total

Só mesmo o desespero total é que pode ter levado Ferreira Leite e Paulo Rangel a acusarem Mário Soares e Manuel Alegre de serem "cúmplices da asfixia democrática"! Eu pergunto: Soares e Alegre já sabemos, mas onde estavam a Dra. Manuela e o Dr. Rangel no 25 de Abril de 1974?

RAP

Ricardo Araújo Pereira, no seu melhor:

"(...) Que graça tem estar a ganhar por três ao quarto de hora? Que sentido faz um adepto ter de pedir ao companheiro do lado que lhe ausculte o peito, a ver se o coração continua a bater? Não há um resultado tangencial que o sobressalte, um contra-ataque perigoso que o faça palpitar, uma bola na trave que o obrigue a dar sinal. O sr. Jorge Jesus e os seus pupilos têm consciência das dores musculares com que um ser humano fica quando é forçado a levantar-se de um salto oito vezes no espaço de uma hora e meia? Eu pago para ver futebol, não é para fazer aeróbica. Aviso já que vou passar a levantar-me apenas de três em três golos, uma vez que não tenho preparação física para acompanhar esta equipa. Espero em breve levantar-me por cinco vezes. Como sabem, ando há muito tempo a desejar um 15 a 0."