Obliviário

S.m./ fig.: neologismo criado para designar o local ou suporte (areia, canhenho, memória, etc) onde se regista informação destinada ao apagamento ou ao esquecimento, num processo semelhante ao erase and rewind, damnatio memoriae ou o palimpsesto. Contacto: obliviario [at] gmail.com. Twitter: http://twitter.com/obliviario

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    29 de Setembro de 2009

    Uma lembrança aos menos instruídos.

    Eu gostava de lembrar aos Ateus que foi preciso recorrer a um Papa para garantir a existência de Portugal. E embora os tempos sejam outros, o documento, chamado Bula Manifestis Probatum, lavrado em 1179, ainda é um dos tesouros dos nossos Arquivos Nacionais. Mas que digo eu? É que Católico só o é quem quer, mas parece que os Ateus, na sua sanha mobilizadora (não muito afastada de uma certa catequese) exigem o requisito da estupidez para acesso à seita. A visita de um Papa não só é um assunto de Estado, como um acontecimento da maior importância a nível diplomático. Para Católicos ou não Católicos.

    28 de Setembro de 2009

    O Limbo de Sócrates.

    A minha reacção inicial foi de espanto, face aos resultados quer do PS, quer do BE (quando ainda se pensava que este partido iria ser a 3ª força política no Parlamento), mas hoje, passado o rush da noite, o panorama é muito mais sereno. Com Sócrates absolutamente refém dos outros partidos, o Parlamento vai ser muito mais o verdadeiro centro de decisão do país. Menos autismo do Governo, porque obrigado a ouvir e a ceder, talvez (mas sublinho o talvez) Portugal deixe de ter um programa político autocrático. Mas ainda que o CDS seja, efectivamente, o vencedor desta eleições, não posso deixar de ficar preocupado com o alcance do BE. Enquanto toda a Europa vira à Direita, Portugal escolhe a esquerda radical, extremista, mísera e mesquinha que depois de morta (lembrem-se do ex-PSR) é hoje rainha, que diz repugnar o poder e viver, apenas, para a oposição. Só que Portugal não vive de oposição. O país devia regular-se por medidas englobantes e inclusivas e não por temas fracturantes. Não sou sociólogo, nem politólogo, mas julgo que uma estudo sobre o eleito-tipo do BE poderia explicar o cenário actual: do jovem rebelde, passando pelo universitário das causas, até aos intelectuais deslumbrados (e, nestas eleições, a maioria da classe docente), o voto atribuído ao Bloco de Esquerda é um voto inútil. Não serve ninguém em particular e constituiu uma espécie de enfeite da nossa Democracia pobre e diminuída que se encanta com a canção do bandido. O Louçã melífluo é como o arauto de um Evangelho que vem eliminar da face da Terra a pobreza, exclusão e a injustiça (mas Louçã, simples opositor, nada faz). É, porém, como sopa no mel para uma população iliterata, que mergulha num caldo de pobreza material e pobreza de espírito. Foi aliás outra franja desta população que respondeu ao chamamento do subsídio e ao medo de o perder, votando PS. Sócrates não perdeu, mas também não ganhou. Está no limbo. Resta saber se nos levará ao Paraíso ou ao Inferno.
    P.S. No seguimento do que referi acima sobre o BE não posso deixar de destacar o facto de o PCP/CDU esvaziar-se em detrimento daquele partido. Reconheço no Partido Comunista (e embora esteja muito distante dos seus apoios ideológicos, do presente e do passado) a coerência, a firmeza e a sinceridade política que falta ao Bloco. O PC sempre se destacou na luta pela Democracia e pelos direitos dos trabalhadores, sem cair nos maniqueísmos fracturantes com que o Bloco acena à juventude rebelde e «bem». Ao erguer-se sobre um certo eleitorado de esquerda, o Bloco ocupa um lugar que não é o do PCP e que se deixar de existir não será certamente compensado pela mistura agri-doce que tem hoje como porta-voz o Dr. Francisco Louçã, projecto de Robespierre português.

    24 de Setembro de 2009

    E a Memória, meus senhores, a Memória?




    Estas «celebrações» que recentemente se levaram a cabo em Viseu foram, na sua essência, não muito diferentes das várias que, durante o Estado Novo, se repetiram colocando a Historiografia ao serviço da ideologia do regime. Contudo, não posso deixar de questionar: numa República que despreza hoje e cada vez mais a sua História, prestes a fazer 100 anos de uma soma de ignominiosos actos, qual o interesse de saber onde nasceu o primeiro rei da nação? A pertinência de tal necessidade parecer diluir-se neste tempo estranho, em que os valores da nacionalidade apenas fazem sentido para alguns e servem para enfeitar roteiros turísticos. Eu, que sou dos que acha que não se deve meter foice em seara alheia, não sendo medievalista, nem particularmente interessado em saber onde os príncípes e os reis usaram cueiros pela primeira vez, contento-me em saber onde estão os ossos de Afonso Henriques. Nesse aspecto sou pragmático como os arqueólogos: quais documentos, quais cabaças. Há cacos, há osso? Estamos conversados. Mas conhecendo relativamente a obra de Almeida Fernandes estou à vontade para manter uma conversa sobre o assunto. Este senhor, que ganhou o lugar de historiador a pulso, nasceu em Britiande, concelho de Lamego, distrito de Viseu. Viveu o Estado Novo como cultor dos Homens e dos seus Feitos, sobretudo daqueles que lhe eram mais próximos em pensamento e em espaço. Dedicou-se à toponímia mas, tanto quanto sei e posso aquilatar da leituras dos seus trabalhos de minuciosa analítica, pouco saía de casa para perscrutar o espírito dos topónimos que dissecava no seu gabinete. A sua obra, incomensurável e de indiscutível importância para a historiografia portuguesa, é, porém, uma sucessão de críticas. E quando que refiro a críticas, não falo do processo de análise histórica e heurística. Críticas pessoais, frequentes e virulentas, a historiadores que, de alguma forma, ousaram por em causa as suas palavras. O seu tempo era o da Idade Média de tal forma que todas as suas análises redundam numa medievalização do espaço: basta consultar os verbetes que redigiu para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileiras para perceber os hiatos a nível de História da Idade Moderna e do Antigo Regime que as suas interpretações deixaram nos estudos da História Local e Regional, sobretudo nas regiões do Douro, Lamego e Viseu, para onde Almeida Fernandes dirigia o seu interesse. Ele, que se queixava da Nova História (que associava ao arqui-inimigo José Mattoso), confiava demasiado nos documentos. É na documentação que ele firma a sua interessante teoria do nascimento de Afonso Henriques. Mas toda a conjectura assenta em comparação de datas e presenças nunca verdadeiramente comprováveis. Tanto quanto sabemos dos seus trabalhos, D. Afonso Henriques até pode ter nascido na beira de uma estrada, algo que não seria estranho a uma «corte» itinerante. Podia ser entre Coimbra e Viseu, entre Viseu e Lamego, nos arredores desta cidade, no meio de uma serra ou mesmo numa aldeia da Beira Alta. Vir Almeida Fernandes, e hoje o seu genro, anunciar ao mundo um novo bezerro de ouro (que muitos foram venerar a Viseu), reivindicando mudanças nos manuais de história e na mitografia nacional é tão absurdo como inexequível. Os manuais de história já quase não existem e a Memória dos homens não se muda de um dia para o outro. Aliás, a Memória implica que eu faça esta pergunta: como é que em 900 anos, não restou um único documento que atestasse ou pudesse sugerir esta nova teoria? Como é que em vida do primeiro rei ou nas gerações imediatamente seguintes ninguém registou este dado de semelhante importância: o local do nascimento de um monarca que governou durante quase meio século, sendo a sua presença marcante na europa do século XII? Dado que Viseu não era uma aldeia nessa época, talvez o verdadeiro local onde Afonso veio ao mundo não fosse propriamente digno de um princípe e rei, de tal forma que a tradição o fez nascer em Guimarães. Em qualquer dos casos nunca se pode ignorar a Memória, por muito nebulosa ou a-histórica que ela seja - sempre nos conta algo que fica por contar...

    22 de Setembro de 2009

    Não poucas vezes a Igreja me fez sentir assim...

    Nós, os vencidos do catolicismo
    que não sabemos já donde a luz mana
    haurimos o perdido misticismo
    nos acordes dos carmina burana

    Nós é que perdemos na luta da fé
    não é que no mais fundo não creiamos
    mas não lutamos já firmes e a pé
    nem nada impomos do que duvidamos

    Já nenhum garizim nos chega agora
    depois de ouvir como a samaritana
    que em espírito e verdade é que se adora
    Deixem-me ouvir os carmina burana

    Nesta vida é que nós acreditamos
    e no homem que dizem que criaste
    se temos o que temos o jogamos
    «Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

    Ruy Belo

    («Nós os vencidos do catolicismo» é também o título de um ensaio sobre a participação/desilusão de J. Bénard da Costa como católico opositor ao Estado Novo que vale a pena ler por todas as razões, para compreender como a Igreja é composta, e felizmente, de homens que ou estão muito atrás, ou vão já muito à frente).

    20 de Setembro de 2009

    A pureza original...

    «Não, não aconselharei a viagem a Arouca. Além do mais, ainda lá não há nenhum grande centro comercial, nem nenhum hotel, embora a sua residencial seja melhor que muitos. nem nenhuma grande indústria, dessas que poluem rios e ares, embora a terra abunde como poucas em produtos agrícolas de qualidade insuperável.
    E se muitos descobrirem as maravilhas do maciço da Gralheira, quase ignorado por geógrafos e viajantes ilustres, ou fizerem como o renomado actor lisboeta que todos os Verões abanca em Arouca, é certo e seguro que dentro de breve algum mamarracho desafiará as linhas sóbrias do mosteiro, o puré de batata entrará na composição dos doces, os frangos de aviário tomarão conta das mesas, o lixo e as barracas povorão a serra da Freita ou Arada, e até o conjunto etnográfico de Moldes virará grupo de rock, ou os redactores da Rurália escreverão em economês.
    Por favor, ignorem ou evitem Arouca. (...)

    ARNALDO SARAIVA, «O Sotaque do Porto», Edições Afrontamento, 1995

    18 de Setembro de 2009

    "Um post sem título"

    Quando comecei no wordpress com O Breviário, fi-lo porque tinha necessidade de comunicar. Comunicar, neste espaço cibernético, é trocar informação, sistematizá-la e processá-la de forma crítica para uso pessoal e para fruição todos os que nos lêem. Ou seja, vir para a internet escrever trivialidades, não. Não contem comigo. Muito menos usando pseudónimos, nicknames, ou que seja. Antes de mais, jogo limpo. E depois, sim, podemos "conversar". Para denunciar, contar histórias de caracácá, ou fazer propaganda, existem outros meios e outros canais. Eu acredito nas palavras proferidas e no seu poder. Desperdiçá-las é perder tempo. E o tempo, nos dias que correm, conta-se em bites.

    17 de Setembro de 2009


    Quinta do Paço [e não "Paço da Serrana"] (c) N.R.


    Em Cinfães, depois de não sei quantas negociatas, e de não sei quantos olhos fechados, e de não sei quantos assobios para o lado, ardeu o chalet do Paço, uma das últimas residências, ainda que temporária, do explorador e africanista, Alexandre Alberto de Serpa Pinto. Desde a sua alienação pela família, nos anos 80, que a casa andava em bolandas e o recheio foi sendo depredado sem dó nem piedade, não obstante o espaço ter sido adquirido pelo Município. Em 20 anos, pensou-se em tudo e não se fez nada. Até que recentemente, o actual executivo, resolveu ceder aquilo por tuta e meia, durante 50 anos, a uma empresa imobiliária que pretende (pretendia?) transformar o local em resort turístico. Tudo nas barbas de quem diz e faz e acontece. Porquê? Porque aqui o dinheiro e os interesses falam sempre mais alto do que as convicções. Entretanto, não muito longe de Cinfães, a Câmara de Sabrosa gastou 2,5 milhões de euros a recuperar um espaço para dinamizar o nome de Miguel Torga.

    13 de Setembro de 2009

    Dez cousas deveis trazer
    Sempre frescas na memória,
    para que com muita glória,
    Possais os males vencer.
    Tempo, Modo de viver,
    A Cor, e Enfermidade,
    A Natureza, a Idade,
    A Arte, e a Região.
    Os Acidentes que dão
    E do tempo a Variedade.

    Amato Lusitano

    11 de Setembro de 2009

    "A Portugal" (no dia em que Sena regressou)

    Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
    Nem é ditosa, porque o não merece.
    Nem minha amada, porque é só madrasta.
    Nem pátria minha, porque eu não mereço
    A pouca sorte de nascido nela.

    Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
    quanto esse arroto de passadas glórias
    .
    Amigos meus mais caros tenho nela,
    saudosamente nela, mas amigos são
    por serem meus amigos, e mais nada.

    Torpe dejecto de romano império;
    babugem de invasões; salsugem porca
    de esgoto atlântico; irrisória face
    de lama, de cobiça, e de vileza,
    de mesquinhez, de fatua ignorância;
    terra de escravos, cu pró ar ouvindo
    ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
    terra de funcionários e de prostitutas,
    devotos todos do milagre, castos
    nas horas vagas de doença oculta;
    terra de heróis a peso de ouro e sangue,
    e santos com balcão de secos e molhados
    no fundo da virtude; terra triste
    à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
    cheia de afáveis para os estrangeiros
    que deixam moedas e transportam pulgas,
    oh pulgas lusitanas, pela Europa;
    terra de monumentos em que o povo
    assina a merda o seu anonimato;
    terra-museu em que se vive ainda,
    com porcos pela rua, em casas celtiberas;
    terra de poetas tão sentimentais
    que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
    terra de pedras esburgadas, secas
    como esses sentimentos de oito séculos
    de roubos e patrões, barões ou condes;
    ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
    eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
    és mais que cachorra pelo cio,
    és peste e fome e guerra e dor de coração.
    Eu te pertenço mas seres minha, não.

    Jorge de Sena

    9 de Setembro de 2009

    Valha-nos Deus que (ainda) alguém escreve e pensa assim!

    Acreditar na existência de Deus é tão natural como sentir fome, não se trata de uma invenção propositada de algum homem, pronto vamos lá agora inventar Deus para sermos escravizados por ele e para por meio dele escravizar outros, nada disso. Sempre houve e sempre haverá pessoas que acreditam na existência de Deus, e engana-se Saramago quando pensa que a Igreja Católica se aproxima de uma morte “mais do que previsível” (mais depressa morrerá ele do que cairá um só braço do corpo sagrado da Igreja). A aberração está em se ter a certeza de que Deus não existe, essa é a aberração, não obstante os dados inteligíveis que, através da lógica e da dedução, deitam por terra qualquer tentativa de se negar o inegável. A prova está em que basta dizer que o mero facto de os saramagos não conseguirem enxergar provas da existência de Deus não prova que ele não existe, e que é uma estupidez apropriar-se de meia-dúzia de ideias antagónicas mitológicas ou alegóricas encontradas nos compêndios considerados sagrados para tentar provar com elas que Deus não existe. O absurdo é exactamente esse e não as ideias ou as teorias ou as filosofias ou as teologias ou as parábolas ou as lendas em si; o absurdo é recorrer ao trabalho intelectual sincero de homens do passado e parodiar esse trabalho com o intuito de escarnecer de Deus e de todos os que depositam nele a sua fé e que entendem e reconhecem que ele/ela existe. Grandes são os paroleiros na mediocridade dos seus pensamentos.

    De O Caderno de Anti-Saramago