Sábado, Março 31, 2007

Antologia Improvável #212 - Rui Coias

São da nespereira as maiores folhas deste outono.
E vai a chuva assentando nelas ripas de lama
que prendem as larvas que dos muros foram caindo.
Podemos caminhar assim, pois seguimos o trilho na urzeira
e a espadela do remador a chapear na légua em volta.
Onde cruzarmos de uma a outra margem o vale,
deixando além os alcantis, abrasados dos mortórios
e o granito atiçando a cinza à borda da cachoeira,
a torrente cairá do malva ao azul esverdeado a espuma.
E na modorra que o dia traz por sob a fiada de árvores,
que de longe tomam a silhueta evasiva das queimadas,
dizes-me ser por isto que tudo o que vem -- vem da memória,
e como nela, tal afluente ignorando seus regatos,
a nossa direcção alternará com as sombras nos lameiros.
















A Ordem do Mundo
Não percam os retratos de Karsh, n' O Século Prodigioso
Hemingway

Sexta-feira, Março 30, 2007

O Vale do Riff - The Rolling Stones



Pedagogia democrática

Fartei-me de ler hoje, nos jornais e nos blogues, que este repúdio pelo outdoor é contraproducente, etecetera e tal. José Manuel Fernandes, no Público, escreve que o "homem da barbicha" (o dirigente do grupúsculo) está a ser promovido com o alarido; e diz que os que discordam do racismo e da xenofobia devem fazer pedagogia nos lugares públicos, lá onde está o povo que até aceita muito bem este tipo de mensagem. Estou a imaginar...
A questão é esta: visibilidade conseguiu-a ele, e não foi pouca, pela sua habilidade e pela conivência ou estupidez burocrática da Câmara de Lisboa; não se pode pedir que ao insulto gravíssimo se reaja com falinhas mansas ou burocratez de magistrado.
E depois, as sociedades abertas e liberais não podem tolerar organizações políticas que a ponham em causa, sob pena de se suicidarem: aconteceu na Alemanha nos anos 30, aconteceu no final do século na Argélia.

Estamos conversados

Para a PGR, um cartaz cuja mensagem é: já basta de estrangeiros, o nacionalismo (!?) é a solução, ilustrado com um avião de recambio, não é, só por si, atentatório e ofensivo, nem constitui, só por si, um ilícito criminal, e mais isto e mais aquilo, naquela língua de trapos e conversa murcha de mangas de alpaca. Estamos conversadíssimos. Só que eu não acredito que aquele insulto se aguente por lá muito tempo (muitas horas?).

Quinta-feira, Março 29, 2007

Hoje há palhaços

Faz-me confusão ver o Blair de peitinho feito a tratar do problema dos soldados britânicos no Irão. Aquilo não está a jogar lá muito bem. Aguardemos o que vem aí.

À boa atenção dos serviços de limpeza da CML

Mas é possível uma coisa daquelas em pleno Marquês? Não há para aí uma brigada do lixo da CML que varra aquela porcaria? Ou o estado democrático se dá ao respeito e elimina aquela dejecção xenófoba e racista duma entidade que dá pelo nome de PNR, ou perdeu-se a noção de decência. Espero bem que as autoridades não obriguem os milhares de lisboetas estrangeiros que têm de passar por ali a confrontar-se com aquela ameaça. Nem mais um dia, sequer. Seria uma infâmia e uma vergonha para todos nós.

O Vale do Riff - AC/DC


Quarta-feira, Março 28, 2007

Défi à Ric Hochet
Tibet (desenhos) e A. P. Duchâteau (texto)

és um adolescente retardado / faltou-te sempre a quarta do bom senso
Fernando Assis Pacheco

O Vale do Riff - Janis Joplin

Maybe


Terça-feira, Março 27, 2007

Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte

Leio Salazar -- Agora, na Hora da Sua Morte, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (Parceria A. M. Pereira) e deparo-me com a melhor BD portuguesa que alguma vez me passou pelas mãos.
Quando se trata de banda desenhada de inspiração histórica, a tradição nacional tem sido a de cair num didactismo a causar sempre grandes entraves à fluência narrativa. Este livro de Cotrim e Rocha é algo completamente diferente: é um ensaio sobre a personagem Salazar na sua circunstância de governante solitário e todo-poderoso.
A visão é crítica, naturalmente, mas sem proclamações nem vociferações; pelo contrário, a obra é atravessada por uma densa melancolia -- no fundo a melancolia de um país em luto permanente.
Atmosfera angustiosa, portanto, em que o magistral tratamento de imagem de Miguel Rocha serve na perfeição a narrativa de João Paulo Cotrim, que fez a opção pelos momentos-chave do percurso do ditador e as ideias-força da sua actuação política.
Este Salazar, agora na hora do seu ressurgimento mediático, sendo uma obra maior dos quadradinhos portugueses (ou da nona arte, se preferirem), acaba por extravasá-la, tornando-se, pelo seu altíssimo nível, uma referência bibliográfica na interpretação do salazarismo.

O Vale do Riff - Clifford Brown

Lady Be Good / Memories Of You

foto: Francis Wolff

Segunda-feira, Março 26, 2007

Antologia Improvável #211 - José Emílio-Nelson (2)

NO ÚLTIMO RESTAURO

No azulejo vasto há um monge
De perfil pétreo, desdenho eu,
Que relê obstinado o enigma
Audacioso de um Santo do século sexto.
Decifra na miniatura ali desenhada
E que suspensa numa nuvem nos parece.
O monge casto contempla a virtude e
O abismo que se descreve numa súmula
De copista puro.

No último restauro a limpidez
Foi ofuscada por empastados
E cresceu a plumagem da pena
Até então adelgaçada e mais fendida.
A sua mão está quebrada pela argamassa
Que a divide em quadrados de azul.
O monge que decifra nas trevas
O seu refúgio, redige no século sexto.
Descubro, espiando, que há um monge, satânico,
Que redige as trevas.


Absorção da Luz / A Alegria do Mal

O Vale do Riff - Keith Jarrett feat. G. Peacock & J. DeJohnette

Robert Crumb, Mr. Natural

Domingo, Março 25, 2007

50 anos

Há 50 anos, os pais fundadores do que é hoje a União Europeia haviam já assistido, durante a sua vida, a três guerras de grandes proporções, todas envolvendo a França e a Alemanha. As duas últimas, tornadas mundiais, atingiram níveis de destruição e morte que continuam a assombrar-nos.
Ao começar pela colaboração económica, Robert Schumann, Jean Monet e os restantes dirigentes europeus tiveram a inteligência de pegar no básico das trocas comerciais e das alfândegas, deixando margem para, a pouco e pouco, se forjar uma cada vez maior interdependência, cimentada pelo património cultural comum e pela opção política essencial da democracia.
O parlamento europeu, a moeda única, o espaço aberto foram passos da maior importância para essa integração, que eu pretendo que seja uma cada vez maior união. É verdade que nem tudo tem corrido bem. Recentemente, o comportamento divergente em relação à antiga Iugoslávia revestiu-se de uma enorme gravidade; a ainda mais próxima integração, eminentemente política, da Bulgária e da Roménia, sem que estas estejam ainda preparadas para tal, levantam as maiores preocupações sobre a liderança da própria União. Mas não devemos deitar fora o bebé com a água do banho. A ideia de uma Europa unida por objectivos e desígnios comuns é demasiado importante, por tudo o que já foi adquirido.
As bodas de ouro comemoradas em Berlim, no centro político que há três gerações apenas programou e dirigiu a destruição da Europa, é dum relevante alcance simbólico e permite-nos manter viva a esperança na continuação do projecto.

Esta semana n'O Vale do Riff


2

Hoje o Abencerragem faz 2 anos.

Correspondências #85 - Agostinho da Silva a Manuel Rodrigues Lapa

21 Maio 33

Meu caro Rodrigues Lapa
Li há dias a sua conferência e tencionava enviar-lhe já pela sua coragem e pela sua justa derisão [?] de pensamento um grande abraço; apresso-me a fazê-lo porque soube ontem que a Faculdade de Letras tinha reünido em conselho e, pela sanção q. lhe aplicou, provado que V. a tinha ferido em ponto vital. Espero que nenhum dos nossos amigos terá colaborado nessa infâmia e, se não estivéssemos em Portugal, ousaria também esperar que apoiassem pùblicamente o seu protesto, com tôda a autoridade que lhe daria a sua posição de mestre.
V. regressa ao serviço do Liceu? Se eu lhe puder ser útil disponha inteiramente do
Agostinho da Silva


Correspondência de Rodrigues Lapa
(edição de M. A. Marques, A. P. Figueira Santos, N. Rosmaninho, A. Breda Carvalho e R. Godinho)

Acordes nocturnos

The Beatles, Abbey Road

Sábado, Março 24, 2007

como pode alguém tão arrimado ao vulgar / ter o desplante de sugerir emoções / que lhe são desconhecidas?
José Alberto Oliveira

«Grandes Portugueses»

Se eu quiser com o meu voto exaltar a decência que um ser humano por vezes pode revelar,
terei de votar nesta figura improvável.

Sexta-feira, Março 23, 2007

estampa C

Fernando Botero, Natureza Morta com Violino
Colecção particular

Caracteres móveis - Albert Camus

Mesmo do lugar dos réus, é sempre interessante ouvir falar de nós próprios.


O Estrangeiro
(tradução de António Quadros)

Quinta-feira, Março 22, 2007

Antologia Improvável #210 - Eugénio de Andrade (2)

NOITE TRANSFIGURADA

Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
-- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
-- ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que repiramos,
nítida no ângulo das esquinas
-- ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.


As Mãos e os Frutos

Quarta-feira, Março 21, 2007

O Vale do Riff - Jimmy Rushing & Orquestra de Count Basie


O mercado enjoa-me, a sonae também. Mais enjoativos, só os comentadores do mercado com os seus óculos reptilíneos.

Terça-feira, Março 20, 2007

Em Bagdade, todas as manhãs

As famílias já não precisam de despedir-se dos pais, todas as manhãs.
As famílias deixaram de ter pais, todas as manhãs.
As famílias perderam-se das famílias, todas as manhãs de Bagdade.

Caracteres móveis - Kropotkin

É preciso ter visto o pôr do sol à volta do trabalho. É preciso ter sido camponês com o camponês para recolher-lhe o esplendor nos olhos.
A Conquista do Pão
(tradução de Manuel Ribeiro)


Desenho de António Alves

O Vale do Riff - Mahalia Jackson


Segunda-feira, Março 19, 2007

Antologia Improvável #209 - Ana Luísa Amaral (3)

ETIMOLOGIAS

Sei o teu carro de cor:
a forma leve dos bancos,
a angústia de cada vidro,
a cor de cada junção

Sei de cor a tua mão
atravessada por dentro
do carro que sei de cor:
cada traço repetido
em impressão digital,
a forma de cada dedo
por dentro da tua mão

A sintaxe repetida
do carro que sei de cor
(etimologicamente:
por dentro do coração)


Epopeias / Poesia Reunida -- 1990-2005
Foto: Graça Sarsfield

O Vale do Riff - Elton John

(ou enquanto o tag estiver broken, terá de ser assim)

Domingo, Março 18, 2007

estampa XCIX

Rufino Tamayo, Auto-Retrato
Museu de Arte Moderna, Cidade do México

Correspondências #84 - Jaime Brasil a Ferreira de Castro

Lisboa, 10 de Março de 1936
Meu caro Ferreira de Castro:
Sei que o Julião Quintinha já chegou, mas ainda não lhe falei. Como ele, porém, está em Lisboa, é fácil preveni-lo do dia da reunião. Ficou assente que esta, para discussão dos Estatutos, se realizaria na sexta-feira, 13, em minha casa, às 18 horas. Poderá V. vir nesse dia e a essa hora? Oxalá. Se não puder, mande-me as duas linhas combinadas.
Imagine que está na forja a organização do Grémio corporativo dos proprietários de jornais, com objectivos nada tranquilizadores, pois, segundo me disse um ornamento do Sindicato Nacional, as empresas vão estabelecer acordos sobre coisas de publicidade, horários e contratos colectivos de trabalho e, o que é mais grave, limpeza de pessoal. Imagine se não seria magnífico os jornalistas terem representação pessoal nesse grémio. Só a sua presença evitaria muita vilania patronal.
Parece-me que se houver uma única probabilidade, contra 99, de se fazer alguma coisa, devemos empenhar todos os nossos esforços para fazer triunfar a ideia do jornal de jornalistas, pois, amanhã, pode ser tarde.
Você, caro Castro, está um tanto afastado do ofício, mas isso não fará com que se desinteresse da sorte dos camaradas e lhes negue o seu apoio. Continuo a considerar que o seu nome seria uma garantia de êxito, na direcção do jornal, se ele vier a publicar-se -- e só virá se houver meios materiais para isso --.
Cá o espero na sexta, para conversarmos ainda sobre este ponto.
Camarada e amº
sempre mto aftº
Jaime Brasil



Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro
(edição de Ricardo António Alves)

Acordes diurnos


Falemos do que importa o poema / não serve para o curto relato / do dia
Gastão Cruz

Sábado, Março 17, 2007

...e a Europa vê.

Parece que Israel não vai dialogar com o novo governo de unidade nacional da Palestina.
Os Estados Unidos, atolados no Iraque, provavelmente já nem têm força para impor nada ao maior aliado do Médio Oriente, principalmente com eleições presidenciais à vista (e partindo do princípio que tal passasse pelas cabeças daquela administração).
O Irão continua o caminho para o nuclear. Talvez os sectores que em Israel advogam uma posição de força se resolvam a agir, quem sabe se com um ataque nuclear preventivo. Os resultados seriam espantosos.
O Afeganistão vai ser mais um atoleiro, desta vez para a Nato. As consequências disso não serão boas para a Nato -- para nós, portanto.
A Europa, minada pelos ideólogos islâmicos, em França, no Reino Unido, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, em Espanha, vê (Israel a dizer que não).

Caracteres móveis - La Rochefoucauld

Aquilo a que os homens chamam amizade, não é mais que uma sociedade, uma administração de interesses recíprocos e uma proveitosa troca de serviços; enfim, nada mais que um comércio com o qual o amor-próprio tem sempre qualquer coisa a ganhar.


Máximas
(tradução de Cristina Proença)

Acordes nocturnos


Tsvangirai



Quando vi Morgan Tsavngirai sair do hospital, após o espancamento a que foi sujeito pelos agentes de Mugabe, não pude deixar de sentir um profundo asco por este velho crápula agarradíssimo ao mando.
Mugabe ascendeu ao poder por uma justíssima causa, a de acabar com o domínio branco e com a segregação na antiga Rodésia. Mas percebia-se, já na luta armada, o autoritarismo do homem.
Tsvangirai, antigo mineiro e dirigente sindical, líder do MDC, tem mantido uma pertinaz oposição ao repugnante ditador, que utiliza os mais baixos instintos humanos, como sejam o racismo e a cupidez, para compensar uma política interna desastrosa. E Tsvangirai fá-lo em nome da liberdade. Espero que triunfe, e seja digno desse triunfo, como está a sê-lo agora, magnificamente, neste combate desigual.

Quinta-feira, Março 15, 2007

Antologia Improvável #208 - Alberto de Serpa

CÁ E LÁ

Senhor, lá longe há homens que se matam sem saberem porquê!
Lá longe, o céu tem nuvens que a maldade dos homens lá pôs!
Lá longe, há cidades que sobem para ti em chamas!
Lá longe, defazem-se nos campos cadáveres e frutos!
Lá longe, vão pelas estradas fugitivos curvados!
Lá longe, crianças conhecem, antes da vida, a morte!
Lá longe, não há lembrança nem sonho!

Aos meus ouvidos chegam os lamentos inúteis dos agonizantes.
Os meus olhos fitam o sol mais forte e não se fecham.
Na geada fria da manhã há fogo.
O vento traz-me o cheiro nauseante dos corpos apodrecidos.
Meus passos doem-me como se a carne pousasse sobre pedras afiadas.
E nunca me senti tão pai de todas as crianças que choram.
Onde, o meu sonho e a minha memória?

A Tua companhia, Senhor, mata todas as distâncias,
E lá longe é aqui na minha alma...

Drama -- Poemas da Paz e da Guerra


(da esq. p.ª dir.) João Alves, Sant'Ana Dionísio, Carlos Sanches,
José Régio, Jorge de Sena, Alfredo Pereira Gomes, Adolfo Casais Monteiro
e Alberto de Serpa
Café Palladium, Porto, Outubro de 1941

Acordes nocturnos



Quarta-feira, Março 14, 2007

máxima

tudo a dizer, nada a dizer

estampa XCVIII

Otto Mueller, Duas Irmãs
Museu de Artes de St. Louis

a gaita

...é que não consigo pôr a música!

Terça-feira, Março 13, 2007

Caracteres móveis - Epicteto

Não foste convidado para determinado banquete? É porque não pagaste ao anfitrião o preço que cobrava pela entrada. O preço era o elogio, a dedicação. Paga-lhe então o preço devido se é do teu interesse. Mas se queres ambos, receber uma coisa e não gastar a outra, então és insaciável e ignorante. Nada ganhaste em vez desse jantar? Ganhaste de facto: o não ter que adular o homem que não desejas adular, o não ter que aturar os seus porteiros.

A Arte de Viver
[Manual de Epicteto]
(tradução de Carlos A. Martins de Jesus)

O Vale do Riff - Pink Floyd, «Comfortably Numb»

Segunda-feira, Março 12, 2007

Antologia Improvável #207 - António Ramos Rosa (4)

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração



Viagem Através duma Nebulosa

O Vale do Riff - Neil Young, «Heart of Gold»

Domingo, Março 11, 2007

Rosinski (desenhos) e Van Hamme (texto)
Thorgal -- O País Qâ

Esta semana n'O Vale do Riff



Correspondências #83 - Fernando Pessoa a João Gaspar Simões

26 de Junho de 1929.
Meu Querido Camarada:
Venho agradecer-lhe o seu livro Temas e não saber como agradecer-lhe o estudo, com que nele me honra.
Esta carta, ou arremedo de carta, é o prefácio incaracterístico a outra, que conto não demorar muito em escrever-lhe, em a qual tratarei mais extensamente do seu livro, no conjunto crítico que representa.
Escreverei, por ora, só do coração, e para assinalar o quanto me comoveu o estudo em que me analisa. Sou, como é de ver, incompetente, pelo desconhecimento íntimo que cada um, por lúcido que seja, tem de si mesmo, para medir, com metro objectivo, qual seja a porção de justeza abstracta com que concluiu a meu respeito. O que é certo é que me circum-navegou com uma atenção vigilante, e que muitos pormenores do seu estudo, eu mesmo (sem reserva de equação pessoal) os reconheço por fotográficos. É sobre o honroso conceito de valia que não poderei falar decentemente.
Comoveu-me, digo, o seu estudo porque me trata como realidade espiritual, e, por assim dizer, reconhece a minha existência como nação independente.
Até à próxima carta, que farei por escrever com o cérebro! Esta, como lhe disse, deflagra do coração, no abraço reconhecido que lhe envia o
camarada muito dedicado
Fernando Pessoa



Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões

Sábado, Março 10, 2007

Criar mais vida -- eis a missão da vida.
Francisco Costa

«Grandes Portugueses»

Se eu fosse goês, talvez votasse nele.

Sexta-feira, Março 09, 2007

Figuras de estilo - Manuel Alegre

(Zanguei-me com toda a gente, não me deixes agora, é em momentos assim que um homem precisa do seu cão.)

Cão como Nós

O Vale do Riff - Joe Jackson, «Is She Real Going Out With Him?»

Diário de um Escândalo: a vida como ela é

Já se sabe, Judi Dench é uma actriz de encher um ecrã. Não por acaso, um papel minúsculo chegou-lhe para ganhar um oscar (Isabel I, em A Paixão de Shakespeare). Cate Blanchett é também muito mais que uma beleza. Em Elizabeth (céus, que personagem!) fiquei completamente rendido ao seu encanto e ao seu talento.
Neste Notes on a Scandal não vem nenhuma surpresa: os predadores e os incautos, os puros e os perversos, os ocasionalmente irresponsáveis ou ligeiramente desmiolados e os poços de ressentimento e maldade. Duas grandes actrizes, e a vida como ela é.

Quinta-feira, Março 08, 2007

Da pedagogia

Condescendentes
com os descendentes.
Terrível destino / o de quem é nocturno à luz solar.
Rui Knopfli

O Vale do Riff - The Moody Blues, «Question»

estampa XCVII

Pieter Brueghel, o Velho, Dança de Camponeses
Museu de História da Arte, Viena

Quarta-feira, Março 07, 2007

Antologia Improvável #206 - Rui Ferreira Bastos

WINDOWS 95

Castiga o vento a palmeira,
que ronda a minha janela.
Antes esta, que aquela,
cerrada dentro de ti.

O vento fá-la dançar,
gingando à volta dela
e, não subindo a janela,
também não chega aqui.

Ó vento, larga a palmeira!
Mais veloz que o pensamento,
corre, voa, vai por ela,
tentar chegar à janela,
que eu bem a vejo daqui.

O vento sopra, teimoso,
a palmeira está de partida.
Quem vai abrir a janela,
que se fecha à minha vida?

Oeiras 95

Voz(es)

O Vale do Riff - Van Morrison, «It's All Over Now Baby Blue»

Terça-feira, Março 06, 2007

O «Churchill» de Karsh, ou o apogeu da vontade

Em Dezembro de 1941, após um discurso no parlamento canadiano, Churchill posou para o grande fotógrafo arménio Yosuf Karsh. O resultado foi esta imagem, um dos ícones mais poderosos alguma vez saídos duma objectiva. Aqui está personificada a resolução em todo a sua majestade, por quem, uns meses antes dissera aos britânicos que nada tinha para oferecer senão sangue, trabalho suor e lágrimas, e cujo programa de governo era assim apresentado:
«Perguntais vós, qual é a nossa política? Responderei que é fazer a guerra, no mar, na terra e no ar; com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus nos conceda; fazer a guerra contra uma tirania monstruosa, sem precedentes no catálogo dos crimes humanos. É essa a nossa política.»*
O discurso do velho primeiro-ministro inglês continuava na fotografia de Karsh.
*In Martin Gilbert, Continuem a Moer-lhes o Juízo -- A Liderança de Guerra de Churchill
(tradução de José Miguel Silva)

O Vale do Riff - Billie Holiday, «Fine And Mellow»

Bernet, Snake -- Double Paire
(argumento de Abuli)

Segunda-feira, Março 05, 2007

A Casa de Salazar

Esta bizarria em torno do projectado Centro de Estudos do Estado Novo não tem ponta por onde se lhe pegue. Dando por boas as justificações do presidente da Câmara Muncipal de Santa Comba Dão, pretende-se estudar o período e não glorificar a pessoa do ditador. Parece-me bastante sensato. O que seria criminoso, crime de lesa-património, era deixar o imóvel apodrecer. Há quem goste do Botas e há quem o deteste. Eu compreendo a repulsa dos resistentes, dos antigos presos, dos torturados, de todos quantos sentiram a humilhação de viver numa sociedade policiada, do medo da delação; já não percebo tão bem que à custa da indignação e dum certo tocar a reunir se acabe por promover o que se quer combater. Salazar governou Portugal por quarenta anos; se a História só perpetuasse os heróis e os santos e não os homens de carne e osso, poucas figuras sobrariam. Cabe ao município de Santa Comba Dão -- ao preservar o seu património histórico -- não permitir que esse mesmo património se anule e menorize, resvalando para uma espécie de santuário. Está na sua mão e está ao seu alcance.

O Vale do Riff - Kenny Clarke & Francy Boland Big Band, «Sax No End»

Domingo, Março 04, 2007

estampa XCVI

El Greco, Vista de Toledo sob a Tempestade
The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

António Sérgio


Correspondências #82 - António Sérgio a Castelo Branco Chaves

[1924]
Meu caro Amigo:
Pensando no caso, acho que é melhor que seja o meu Amigo quem escreva ao Sardinha. Peço-lhe que enuncie as seguintes verdades:
Primeira. Não quero, não quererei nunca atacar o Sardinha. Pretendo defender o o prestígio da secção crítica da «Lusitânia», que o Sardinha atacou, mandando para a revista um artigo que é um desmentido, de lés a lés, do meu artigo na «Lusitânia» sobre o Murias. O Sardinha, se fosse discreto, publicava aquilo na «Nação Portuguesa».
(Aqui para nós, e só para nós: o facto é tanto mais estranhável quanto fui eu que concebi e fundei a «Lusitânia». O Afonso e o Sardinha entrariam para o elenco redactorial da revista porque o Afonso mo pediu. Para ver quanto o acto do Sardinha foi pouco generoso, suponha a hipótese de eu sair vencido na polémica. Eis um homem que entra a pedido numa revista criada por mim, para, uma vez lá, minar o prestígio literário de quem gentilmente o recebeu.) Em resumo: o atacante (sem nenhum necessidade) é o Sardinha. Eu defendo-me, e vou fazê-lo no tom mais amável e amistoso.
Segunda. Não manifestei o desejo, por mim, que o artigo não fosse publicado. Não me obriguem ao ridículo de fazer notar ao Sardinha que não tenho medo da crítica dele. Pelo contrário. Logo disse que, pessoalmente, estimava a publicação do artigo. Para a unidade e prestígio da «Lusitânia», porém, e para evitar os cancans do respeitável público, achei melhor que o artigo do Sardinha fosse publicado na «Nação», e a minha resposta na «Seara». Evitar luta dentro da «Lusitânia». A «Lusitânia» deveria ser reservada para a expressão daquilo que nos é comum; a «Nação» e a «Seara» para a amistosa discussão das divergências. Este meu modo de ver obteve até hoje o assentimento de todas as pessoas que o conhecem, excepto... não sei se realmente há alguma excepção, porque ninguém até hoje, por palavras, mo contestou claramente, depois de eu o explicar com minúcia.
Ora aí está. Não sou inimigo de ninguém, não quero atacar ninguém. Defendo e tenho defendido Ideias que julgo verdaddeiras e úteis a Portugal. Posso achar más certas ideias do Sardinha, ou do amigo do Sardinha, o Sr. Murias, mas sendo e continuando a ser amigo do Sardinha e dos seus amigos. Tenho mostrado bem que não me importo de desagradar e cabe por isso dizer que tenho para com o Sardinha a melhor boa vontade deste mundo, sem que possam duvidar da minha franqueza. Não cuido precisar do Sardinha para coisa nenhuma, não cuido que a inimizade do Sardinha me possa prejudicar, pessoal e literariamente: sou portanto absolutamente sincero quando digo que quero ser amigo do Sardinha, que não tenho o menor desejo de o atacar ou de lhe causar o mais pequenino prejuízo no seu prestígio de historiador. E isto não é virtude; é o reconhecimento intelectual de que há espaço para toda a gente neste mundo, que enfim de contas nos encontramos todos com todos, e não só com os nossos contemporâneos, e que tanta razão tenho para temer que me faça sombra o Sardinha como que me faça sombra o Camões. De mais, não me considero homem de letras: sou um homem que, tendo meia dúzia de convicções, usa da letra redonda como o melhor meio de as divulgar entre os seus compatriotas. Ao próprio Fidelino, que me pretendeu insultar, não me seria, eu só desejo que se emende, e que passe a escrever com mais acerto. Ser inferior a um génio chamado Sardinha, ou chamado Fidelino, não me seria mais doloroso do que ser inferior a um génio chamado Espinosa ou chamado Platão. E por ser verdade o escrevi.
Et nunc et semper
A. Sérgio
Cartas de António Sérgio a Castelo Branco Chaves: 192541955
(edição de Luísa Ducla Soares)

Castelo Branco Chaves


Foto de Rodrigo Dias

Sábado, Março 03, 2007

Acordes nocturnos


Antologia Improvável #205 - Cristino Cortes

TEMPUS FUGIT (II)

Areia pelos dedos, imperceptível, assim
O tempo passa e no seu imparável passar
Não há questão ou problema -- antes o perguntar
Do feito para mais lindo deixar o seu jardim...

Não a pergunta, claro, mas a resposta possível
Por mais frequente atinge e aflige uma alma
Sensível: parece, bem nítida, uma fuga, algo
Por onde a força se esvai e o resultado é sofrível

Sem saber como, facto é, sempre o ano começa
Em Janeiro e mal damos conta já o Verão
Lá foi, a ampulheta escorreu-nos pela mão
E quantas vezes da obra feita nem vaga promessa!...

Que ao menos na memória um poema nos balize
Esta humana angústia enobreça e sinalize.

Cronologia e Outros Poemas

Ela é linda


Naide Gomes

numa estante

Quando eu era pequeno, passava de vez em quando pelo escritório de casa e demorava-me nas prateleiras das biografias. Lá estavam as grandes figuras, do Beethoven de Emil Ludwig ao Disraeli de André Maurois, passando por um diabólico Átila, o Huno, cujo nome do autor se me varreu. Havia, porém, um volume que me chamava a atenção, logo pelas letras impressas na lombada, dum vermelho vivo sobre o branco sujo do papel e pela circunstância de ser dos poucos, ou mesmo o único naquela secção, cujo nome eu podia ler sem dificuldade: tratava-se de Leonardo da Vinci e o Seu Tempo, numa boa edição da Portugália, publicada em Lisboa, no ano de 1959. O seu autor era Jaime Brasil, e começava desta forma: «Assim como há pessoas com sorte e outras toda a vida malfadadas, certas cidades parece terem surgido sob um signo feliz.»
Continua aqui.

Sexta-feira, Março 02, 2007

Acordes nocturnos


esoterismos

a homenagem (...?) a Mira Amaral.

Assino por baixo

a croónica de Jacinto Lucas Pires.

O Vale do Riff - Bud Powell, «Get Happy»

estampa XCV

George Scharf, Perto da Igreja de St. Martin
Museu Britânico, Londres

Quinta-feira, Março 01, 2007

O Vale do Riff - Coleman Hawkins, «Body and Soul»