Thursday, October 8, 2009

Herta Mueller - Nobel da Literatura 2009


herta_mueller

Fotografia: REUTERS 2009

I am very surprised and still can not believe it" - disse Mueller, segundo o seu editor na Alemanha. "I can't say anything more at the moment".

A escritora alemã, de origem romena Herta Müller ou Herta Mueller é a vencedora do "Prémio Nobel de Literatura 2009", segundo o anúncio da Real Academia Sueca, hoje 08 Outubro 2009.



Herta Müller nasceu na Roménia em 1953, numa região de minoria de língua alemã. Poeta, romancista e ensaista, a sua obra é marcada pelas duras condições de vida na Roménia sob o regime de Ceausescu.

Sapo Livros

A nomeação é da responsabilidade do Nobel Committie at the Swedish Academy e poderá ser consultado aqui

A escolha foi justificada pela forma como Mueller retratata "a paisagem dos desaspossados".

Segundo Peter Englund, representante da Academia, "a escritora tem uma história forte para contar".

AP – FILE/ Herta Mueller

Nobel da Literatura 2009

"who, with the concentration of poetry and the frankness of prose, depicts the landscape of the dispossessed"

Nobelprize.org

Müller estreou-se com a colectânea de contos "Niederungen" (1982), censurada no seu país. Dois anos mais tarde publicou uma versão não-censurada deste livro na Alemanha e, no mesmo ano, "Druckender Tango", na Roménia.

Da autora estão publicados em português os romances "O Homem é um Grande Faisão sobre a Terra", edição da Cotovia, e "A Terra das Ameixas Verdes", da Difel.

Infelizmente nenhum se encontra em catálogo, quando tentei pesquisar. Ao consultar Literatura Estrangeira, por autor na Difel, não me apareceu sequer como opção o nome de Herta Mueller!


Se passarmos o olhar pela listagem dos laureados Nobel a Literatura... de 1901 a 2008, no sítio web da Nobel Academy, facilmente se concluirá que laureados "no feminino" são raros.

A primeira laureada foi Selma Largelöf em 1909

"in appreciation of the lofty idealism, vivid imagination and spiritual perception that characterize her writings"

E a penúltima foi Doris Lessing em 2007

"that epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny"

No ano em que a UNESCO escolheu o tema "Gender Equality Policies in Media Organizations” é interessante saber que o Nobel da Literatura é de novo uma laureada.

Já referi humildemente, e considero-me uma boa leitora, que não conheço Herta Mueller. Como quase sempre, editores e livreiros são apanhados tão desprevenidos quanto nós, público leitor.

Esta tarde, depois da pesquisa online, dirigi-me a uma das livrarias mais reputadas da cidade. Perguntei ingenuamente se tinham alguma obra da autora.

Uma senhora com ar muito empertigado, respondeu-me com alguma indelicadeza que não. E, continuou muito segura, corrigindo-me, que só existia uma obra da autora, editada em língua portuguesa.

Educadamente e, com um sorriso tímido mas convicto, argumentei que havia dois. Depois, agradeci e saí, não sem me deter em algumas mesas de exposição.


Lembrei então um livreiro que gosto de seguir no seu blog Pó dos Livros, quando tenho algum tempo mais disponível. Refere ele que nem sempre os livreiros conhecem tudo...

Gosto da sinceridade!


G.S.

Fragmentos literários

08.10.2009

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Thursday, October 1, 2009

Dia Mundial da Música



Giuseppe Cacace/AFP 2008


La música es la voluoptosidad de la imaginación

Eugène Delacroix, pintor [1798-1863]



A música expulsa o ódio dos que vivem sem amor. Dá paz aos que não têm descanso e consola os que choram.

Os que se perderam encontram novos caminhos e os que tudo rejeitam reencontram confiança e esperança.

Pablo Casals, virtuoso violoncelo, maestro [1876-1973]




G.S.

Fragmentos Culturais


Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir, Claude Debussy aqui

1.10.2009

Friday, September 11, 2009

Jorge de Sena... o regresso !




Manuel Balce Ceneta file/AP 2007

http://news.yahoo.com/photos


«a Humanidade tem que estar presente na compreensão da própria e pessoal humanidade, com a qual lhe é dado compreender a dos outros...».

Jorge de Sena


Dos Estados Unidos, o corpo de Jorge de Sena voltou a sua "ditosa Pátria".


Hoje não é um dia triste, por fim, tantos anos depois, a vontade de seu marido pôde ser cumprida e, embora saibamos que a separação, ele aqui, a Mécia em Santa Bárbara, será dor sobre dor, a satisfação do dever cumprido acabará convertendo-se em serena alegria, a que queremos viver consigo, que tanto ama por haver amado tanto. O seu companheiro de toda a vida, o homem com quem dançou uma tarde e a quem disse que não dançava com desconhecidos, sem saber que os escritores se dão a conhecer imediatamente, porque manejam as palavras e as introduzem no nosso coração para sempre, esse homem, querida Mécia, voltou à terra que sentia com desespero, e agora, todos os que sabemos o que Portugal era para ele respiramos mais fundo, como se partilhássemos um verso ou um afã, ou talvez esse desejo de transformar que os poetas semeiam.[...]

Pilar del Río
, Carta a Mécia, excerto

http://blog.josesaramago.org


Trinta anos depois da sua morte, Jorge de Sena descansa em seu país, esta Pátria que tanto amou e que tanto o ignorou. Esta Pátria que não o chamou em vida, o maior anseio do autor. Uma Pátria cuja língua e cultura sempre cantou e defendeu, até morrer.

A trasladação dos restos mortais do escritor Jorge de Sena para Portugal é um acto "de reparação e de reconciliação", embora o escritor "não precise de glorificações póstumas", disse hoje o ensaísta Eduardo Lourenço.

Lusa


Colóquio, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988



É efectivamente um dos vultos maiores da cultura portuguesa do século XX. A sua obra tão eclética estende-se desde a poesia, à prosa, ao drama, ao ensaio, à investigação, à história da cultura.

Não deveria ter tardado tanto esta homenagem ! Merecia que o país lha fizesse em vida, já que morreu em 1978. Mas não! Sena não teve esse afago que por direito lhe seria tão grato!

Foi então que a Fundação Saramago lhe prestou uma pública homenagem, em Julho de 2008. A propósito desse importante evento escrevi aqui


Na cerimónia de hoje, Eduardo Lourenço foi categórico ao dizer que este é o "regresso do indesejado", apropriando-se do título de uma obra de Sena para recordar a condição de exilado político do escritor.

Lusa


Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena, esteve ausente por questões de saúde, mas duas filhas, netos e vários familiares estiveram presentes.

A cerimónia de homenagem teve lugar na Basílica da Estrela, a actriz Eunice Muñoz disse o poema "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" de Jorge de Sena, numa cerimónia que contou com dois momentos musicais de Bach. Poucos devem conhecer os seus textos sobre a música. Leia-se a "Arte da Música" entre outros.




Diário e recordações da vida literária
Espólio Jorge de Sena
http://www.bnportugal.pt


O espólio pessoal de Jorge de Sena está agora depositado na Biblioteca Nacional doado por sua família. Decorreu uma Mostra de 18 de Junho a 11 de Setembro 2009.
Um tempo bem breve para uma obra tão rica e tão desconhecida para quase todos nós!


A Sociedade Portuguesa de Autores juntar-se-à a estas homenagens, com a atribuição da Medalha de Honra a um representante da família no dia 14 de Setembro, no auditório Frederico de Freitas, na sua sede.

fonte: Expresso.pt



Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'



G.S.

Fragmentos Culturais
11.09.2009

Wednesday, September 2, 2009

Duplo Amor




http://www.twoloversmovie.com


Admirably Bold. There's somthing grand about the film's sincerity and the intensity of its emotions.


A.O. Scott
, NY Times



Para além de Serralves, e outras paisagens, também o cinema me ocupa alguns fins de tarde.

Não foram muitos os filmes de qualidade em exibição. E por isso, facilmente se dá conta quando aparece um filme de autor.
Raros nesta época do ano.

Duplo Amor, que fez parte da selecção do "Festival de Cannes de 2008", foi um dos poucos filmes a que pude assistir neste final de Agosto.

Two Lovers é o quarto filme de James Gray que aos 24 anos ganhou o "Leão de Prata" em Veneza em 1994 com o seu primeiro filme Viver e Morrer em Little Odessa.


Duplo Amor, com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, e Vanessa Shaw é um filme sobre o estado de se estar apaixonado, que é inevitavelmente ridículo, já escrevia Pessoa nas suas Cartas de Amor - mas é desse ridículo que nasce um 'pathos', diz-nos o realizador James Gray.

Um clássico romance passado na insular Brighton Beach, em Brooklyn. A personagem principal tenta a fuga aos condicionamentos familiares, tentação essa contrariada pela força das circunstâncias e a força dos valores.

Os filmes de James Gray condensam uma temática desenvolvida com rigor: a família e a força dos laços de sangue, as comunidades de origem emigrante e as suas tradições.

Há neste último, traços biográficos. Um retrato de uma cultura muito específica e que acaba por apresentar uma visão pessoal do realizador.

Numa entrevista, o realizador não a renega:


É totalmente pessoal. É a minha origem. Sou neto de russos que emigraram para a América. Cresci em ambientes parecidos com os dos meus filmes, conheço muitos dos lugares onde filmo como a palma da minha mão. Tenho um relação profunda com estas comunidades fechadas, onde o espírito familiar se confunde com a preservação de uma identidade cultural e conduz a uma espécie de insularidade. É o mundo de onde venho.

James Gray


Há quem considere Duplo Amor uma interpretação do livro "Noites Brancas" de Dostoievski, mas Gray assegura que embora tenha feito alusão à obra do escritor russo, o filme apenas apresenta algumas similaridades com a história:

Terá sido uma inspiração longínqua, mas o argumento tem na melhor das hipóteses algumas similaridades com a história. Se falei de Dostoievski, foi mais por questões relacionadas com a psicologia das personagens, e por Dostoievski escrever com a noção de que a paixão, o estado de se estar apaixonado, é inevitavelmente ridículo. Mas que é justamente desse ridículo que nasce um "pathos".


James Gray

Gray reconhece sim uma proximidade a "Noites Brancas" de Luchino Visconti e aponta-o como guião emocional, na relação com o espaço (Visconti faz do seu filme uma longa deambulação nocturna por Veneza), e sobretudo na filmagem da 'noção do ridículo', mostrando, numa visão afectuosa, a história de um homem desorientado pela paixão.

Acho que posso dizer que é uma expressão mais pura do meu cinema... Como cineasta o que me interessa perseguir e trabalhar é uma autenticidade emocional...
É o filme que está mais próximo do que eu imaginava e queria que os meus filmes fossem no tempo em que era só um aspirante a cineasta.

James Gray

fonte: ipsilon.publico.pt


Ter que escolher entre a bondade e lealdade Sandra e a paixão intensa e carnal que sente por Michelle é o grande dilema moral da personagem masculina.

As três interpretações são excelentes! De modo algum, Vanessa Show deve ser ofuscada por Gwyneth Paltrow. Duas personagens femininas muito bem definidas.


Gwyneth Paltrow/ Joaquin Phoenix

Fotografia: John Clifford
http://www.twoloversmovie.com


Também Isabella Rossellini me agradou muitíssimo! Suponho que é a primeira vez que consegui identificá-la verdadeiramente com a sua personagem. E como está parecida com sua mãe, Ingrid Bergman!

Quanto a
Joaquin Phoenix, é efectivamente um actor que consegue alternar os vários estados, numa amálgama de sentires.

Uma verdadeira revelação na 'cena' da pista de dança, na discoteca! Depois de passar quase todo o filme, como uma personagem tímida, introvertida, quase difusa, eis que surge exuberante. A personalidade bipolar bem caracterizada.

Phoenix é
irmão de River Phoenix um dos actores mais promissores que morreu dramaticamente aos vinte e três anos.


Há quem considere Joaquin Phoenix um excelente actor! Mas, eu não consegui identificar-me com a sua interpretação, embora reconheça um valor profundo na fragilidade da personagem, nas inseguranças e falsas expectativas, na dificuldade em ser sincero com a família e com a mulher que o ama, na tentação de se deixar conduzir pela cegueira da paixão por uma mulher que apenas o absorve, quando fica só.

Mas talvez seja mesmo isso que lhe foi pedido por
Gray.

Joaquin Phoenix/ Vanessa Show
http://www.twoloversmovie.com


Interessante! Li várias críticas e sugestões! Todas escritas por homens. Muita simpatia por Leonard. A personagem masculina.

Mas será que as mulheres sentem essa simpatia do mesmo modo?! Será que não se sentirão estereotipadas em demasia?!
Uma loira, outra morena, uma desinibida, pronta a ultrapassar todos os limites, outra introvertida, serena, passiva, dedicada!?

Uma relação a três, baseada na ocultação... para suavizar o conceito.

Pois é! A cena final não me convenceu! E suponho que não terá agradado a muitas pessoas! É como que um jogo em falso!

A sensação que tive é que o filme apresenta uma visão muito compreensiva do universo masculino.

Bom! Não se deixem influenciar!

Uma banda sonora linda! A anotar....


Beau, profond et bouleversant.

Libération



G.S.

Fragmentos Culturais
02.08.2009



Em jeito de glosa: Há algum tempo, O Sabor Da Palavra premiou este espaço com o selo Blog Frescura.

A Gonçalo Cardoso, agradeço sensibilizada tal atribuição!

Wednesday, August 26, 2009

Edward Kennedy





Edward 'Teddy' Kennedy
AP /Bill Sikes 2009



Edward Kennedy

REUTERS/Brian Snyder/Files 2008


A morte do senador americano Edward 'Ted' Kennedy, vítima de um tumor cerebral aos 77 anos, encerra uma saga que dominou a política dos Estados Unidos desde os anos 60. 'Teddy' foi o único dos irmãos homens do clã Kennedy que não morreu violentamente. O irmão mais velho, Joseph, piloto, morreu durante a Segunda Guerra Mundial num acidente aéreo.


fonte: Sapo/AFP



John, Robert e Edward Kennedy

AP/ File (undated)


Nascido no privilégio e na riqueza, Kennedy tornou-se numa voz dos jovens e velhos, pobres, minorias e trabalhores durante o quase meio século que passou no Senado. Ao longo dos anos, liderou bem-sucedidos esforços na melhoria das escolas, reforço dos direitos cívicos, aumento do salário mínimo, ilegalização de discriminações e alargamento do acesso a cuidados de saúde.

Há muito a fazer”, disse Kennedy à Reuters numa entrevista de 2006 em que lhe foi pedido para explicar o que até os críticos chamam os seus esforços incessantes em nome dos oprimidos. “Acima de tudo é a injustiça que continuo a ver e a oportunidade de ter algum impacto sobre isso”, acrescentou.

fonte:
Público


O Senado preta-lhe homenagem aqui



AP /Jacquelyn Martin 2009

http://news,yahoo.com/photos


Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janella. [...]


Alberto Caeiro
, 'O Guardador de Rebanhos', 08 Março 1914


G.S.


Fragmentos Culturais
26.08.2009

Wednesday, August 19, 2009

Fim de tarde em Serralves




Parque de Serralves

http://www.serralves.com

Serralves é uma referência singular no património da paisagem em Portugal, sintetizando e simbolizando uma aprendizagem e um conhecimento das condições de transformação do território, no espaço e no tempo, num contexto cultural: Portugal e os séculos XIX e XX.

De volta à cidade, seduziu-me a ideia de um final de tarde cultural, num ambiente bem paradisíaco: Serralves!

Meu santuário de serenos prazeres! Ler, aspirar o silêncio, encher meus olhos daqueles tons de verde matizados que tanto suavizam alguns dos dias do ano mais stressantes.

Procuro Serralves para me por em paz com a cidade barulhenta, confusa e cada vez mais bárbara.

Mas não só! Junto outro aspecto que muito me atrai! A arte! Digamos que fruo no mesmo espaço de duas contemplações estéticas!
A arte da paisagem e a arte dos espaços por onde perpassa sempre uma aragem contemporânea da arte que se vai recriando a nível mundial.

Nem sempre estou em consonância com o que vejo. Mas, pelo menos, aprecio as tendências actuais e discirno entre as provocações e o que me agrada profundamente!

Um 'banho de arte' é sempre um banho de arte! É como partir para um país em busca de um 'banho de língua'.
Regressa-se sempre mais enriquecido.

Bem, mas estava a discorrer que fugi dos lugares buliçosos onde as pessoas se concentram, para plena agonia de uma pacata cidadã, e dirigi-me a Serralves em busca da serenidade e com um programa previamente estudado: duas exposições!

Serralves - A Colecção
Daniel Buren e outras Publicações




Serralves 2009 - a Colecção

http://www.serralves.com


Esta exposição da Colecção da Fundação de Serralves apresenta um balanço do trabalho desenvolvido com o acervo ao longo desta última década. Ocupando todo o Museu e o Parque, esta exposição apresenta obras maiores, representativas quer do núcleo histórico da Colecção (abrangente das décadas de 60 e de 70) quer das constelações de artistas identificáveis no acervo desde a década de 80 até à actualidade.

Fundação de Serralves


Devo dizer que esta exposição me atraía pela visibilidade dada a algumas obras que até então não eram conhecidas do público. Esperava portanto poder admirar algumas das novidades do acervo do Centro de Arte Contemporânea.

Eram mais ou menos dezassete horas e quarenta minutos quando aparquei perto da entrada. Peguei num dos livros que sempre me acompanham e dirigi-me com tranquilidade à Recepção.

Dois colaboradores de Serralves, vestidos de negro discreto, comodamente sentados, olhavam as poucas pessoas que entravam. Aliás, apenas um jovem casal de língua inglesa e eu acabávamos de passar o limiar da porta. Estranho!
Um deles, solícito, levantou-se para acolher o par de turistas, por sinal bem interessado, enquanto o outro, permaneceu sentado, já que tinha diante de si uma 'turista' nacional!




Daniel Buren e outras Publicações

Tanto nas suas intervenções destinadas a um espaço específico como nos seus livros, Daniel Buren cria obras in situ. Nos seus trabalhos usa tiras coloridas de 8,7 centímetros de largura, unidade a que chama a sua “ferramenta”. Os seus livros, obras completamente independentes, podem conter textos ou “fotografias-recordações”. [...] A recente aquisição pelo museu de Du vélum au volume e Passages, duas das suas obras/publicações mais importantes, tornou a colecção da Biblioteca Serralves uma das mais completas no que toca a livros de Daniel Buren.

Fundação de Serralves


Livros! E cá estou eu de volta desses objectos de culto que são para mim os livros! Esse constante encantamento que me acompanha!
Ora, como estão a ver, o meu final de tarde cultural era promissor! Já antevia com agrado novas paisagens no meu universo estético!


Pedi então um ingresso ao colaborador que permanecia bem sentado. Este olhou para mim com aquele ar que todos conhecemos e respondeu-me secamente que as exposições se encontravam encerradas.
Perguntei qual o motivo. Pior a emenda. Aí disse, com o tal ar de superior provincianismo, que as mesmas encerravam às dezassete horas e que se bem reparara já eram dezoito horas.

Atónita olhei-o e olhei em volta... será que me tinha enganado no espaço?! Será que me encontrava numa daquelas instituições de serviços aos utentes?!


Como se a minha incredulidade tivesse a ver com a não compreensão da sua complexa mensagem, agastado, propunha-se repeti-la!! Cortei com um agradecimento gracioso.

O casal inglês e eu entreolhámo-nos, sem compreender muito bem ! Um museu que se quer contemporâneo e onde se busca arte contemporânea, em horário não contemporâneo?!

Lembrei um passeio, ao princípio da noite, depois de três dias de intenso trabalho em Roma, quando parti à descoberta de algumas das artérias mais interessantes da cidade, nas poucas horas que me restavam, antes do voo de regresso.
Em plena Via Condotti, junto à belíssima escadaria espanhola - Scalinata della Trinità dei Monti - entre lojas e cafés, os espaços de arte estavam abertos ao público! E assim se mantinham, quando abandonei a cidade.


Bom! Mas voltemos a Serralves. O casal viu-se na parca escolha de um apressado passeio pelo Parque que, por ser um dos mais belos sítios da cidade, é para ser visitado com tempo e tranquilidade. Eu subi à agradável esplanada que parece poisada sobre a paisagem, no primeiro piso, disposta a saborear os últimos raios de sol da tarde, lendo um pouco. Felizmente que pegara num livro!

Mas, para má fortuna, o local estava cheio e barulhento! É óbvio! Voltei ao interior, e escolhi um espacinho bem colado ao verde que se desfruta da enorme janela rectangular, rasgada sobre o verde do Parque, situada no Restaurante. Pedi um café e reabri o livro. Entre a paisagem natural e a as páginas que percorria, meu olhar passeou-se sereno, naquele final de tarde que se abatia lentamente sobre Serralves.
Lindíssimo o entardecer!

Permaneci assim alguns momentos, até que desci para passar pela livraria. Um espaço sempre bonito porque coberto de livros!
Aí se podem folhear algumas das principais publicações de Serralves e outras edições que tanto agradam aos que gostam destas coisas ligadas à arte e aos livros.




Livraria em Serralves

http://www.serralves.com


Vazia! Aprestava-me a manusear com gestos de cuidadoso culto alguns livros quando fui informada que todos os espaços encerravam às dezanove horas! Dezanove horas? Hora comercial?!

Sem comentar, saí e dirigi-me para o portão. Não sem antes pegar no 'Jornal Serralves' para, finalmente, fruir da minha tarde cultural, lendo-o!
Logo na página dois estava escrito:

No ano em que se comemoram os 20 anos da criação da Fundação de Serralves (em 1989) os 10 anos da inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (em 1999), o Museu apresenta a sua Colecção[...]

transcrição
Serralves
, número 23, Jul/Set 2009, página 2, 1º parágrafo (início)

Será este o melhor caminho para os celebrar? Questionei-me...


G.S.

Fragmentos Culturais
19.08.2009

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


Thursday, August 6, 2009

Saint-Exupéry, 65 anos depois da sua morte





Pour ce qui est de l’avenir, il ne s’agit pas de le prévoir, mais de le rendre possible.


Saint-Exupéry

Amanhã, dia 7 de Agosto, os céus de Marselha vão encher-se de aviões. Simbólica maneira de a França recordar o escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry, 65 anos depois do desaparecimento do seu avião.


Antoine de Saint-Exupéry

A 31 de Julho de 1944, os radares da Resistência perderam o rasto de um dos seus aviões Lightning P38 no Mediterrâneo. Cumpria uma missão de reconhecimento entre Grenoble e Annecy. Pilotava-o Saint-Exupéry. Durante anos, desconheceu-se tudo sobre este desaparecimento. Recentemente um antigo piloto alemão assumiu-se como autor dos disparos que abateram o avião em que seguia Saint-Exupéry.

As investigações levadas a cabo não conseguiram comprovar nada. Apenas se sabe que Saint-Exupéry terá desaparecido no mar quando o seu avião caiu no Mediterrâneo.


"Saint Exupery". Acrílico sobre tela.
Jorge Fin. 2003
Max Estrella, Galeria de Arte, Madrid


Certo é que depois de ter descolado nessa manhã de Julho, Saint-Exupéry desapareceu na imensidão desse azul que ele tanto amava, numa derradeira missão sem regresso. Não se sabe ao certo o local da queda.

Ainda hoje permanece o mistério que adensou mais o mito.

N'espère rien de l'homme s'il travaille pour sa propre vie et non pour son éternité.

Saint-Exupéry


Publicou o seu primeiro conto, "L'Aviateur" em 1926. "Courrier Sud", depois adaptado ao cinema, (Saint-Exupéry dobrou as cenas de voo) sai 2 anos mais tarde. Em 1931 publica o romance, "Vol de Nuit" com prefácio de André Gide, a que é atribuído o prémio Femina. Um pouco à semelhança da sua vida, "Voo Nocturno" mostra-nos um homem em que a coragem era tão natural que dela pouco caso fazia. Em 1939, esboça "Le Petit Prince" e publica "Terre des Hommes". Passou um mês em Lisboa, no ano seguinte.

Em 1942 sai "Pilote de Guerre" que rapidamente se torna um best-seller. E em 1943 escreve e publica "Lettre à un Otage" e "Le Petit Prince".

Em 1948 é publicado postumamente o seu romance "Citadelle". A sua escrita continua a encantar gerações.

"Saint-Exupéry soube transmitir-nos as grandezas dos espaços aéreos e dos silenciosos desertos, as sensações do piloto na carlinga do avião, a pequenez do homem e a sua capacidade de se superar frente ao perigo, perante o infinito ou nas mais duras circunstâncias, como por exemplo as dos náufragos em terra inóspita, despojados de tudo."

Urbano Tavares Rodrigues

As comemorações tendo por tema o piloto-escritor, que é sem dúvida um dos maiores fenómenos editoriais do Ocidente, sobretudo pela sua obra " Le Petit Prince", começaram em Paris, há mais de um mês.

De 27 a 29 de Junho último, mais de 250 estudiosos procedentes de 20 países reuniram-se no imponente prédio histórico do Collège des Bernardins, recentemente restaurado, a fim de discutir a modernidade de Antoine de Saint-Exupéry. Organizado pela Succession Saint-Exupéry, o colóquio propiciou contacto entre pessoas e instituições que realizam trabalhos relativos ao autor e à sua obra. Entre estes, encontrava-se Umberto Eco.

Venus de Russie, du Japon, de Corée, d’Afrique, ou d’Amérique, ils ont mis en évidence l’universalité du message de l’écrivain humaniste.

No dia 29, dia do aniversário do autor, foi oficialmente lançada a Fondation Antoine de Saint-Exupéry pour la Jeunesse.

A esse propósito, O Nouvel Observateur dedica-lhe um artigo intitulado Saint-Exupéry à l'honneur a ler aqui

Também amanhã, e no quadro de um conjunto de homenagens ao escritor que se prolongará até 2013, será inaugurada em Marselha uma exposição intitulada Saint-Exupéry - Invitation au voyage

A França lembrará assim um homem cujo desaparecimento tem provocado as mais fantasiosas conjecturas. Saint-Exupéry (1900-1944) morreu, deixando uma obra literária em que avultam os títulos já assinalados. Outras obras póstumas que poderão encontrar na colecção Folio da Gallimard:

Lettres de jeunesse
(1953)
Carnets (1953)
Lettres à sa mère
(1955)
Écrits de guerre 1939-1944 (1982)
Manon, danseuse
(2007)
Lettres à l'inconnue (2008)


Impossível não visitar o sítio web oficial aqui





Continua a ser um dos meus livros de cabeceira...





G.S.

Fragmentos Culturais
06.08.2009

Fontes: DN Artes
Wook