setembro 24, 2009
Curtas
A exposição Inside [Art and Science] inaugura hoje às 18.00 horas, na Cordoaria (Lisboa). Lá estarei com o meu "O Cavalo e as Formigas". Serão também editados um catálogo e um pequeno livro apenas com os textos (um é meu, os outros são do Leonel Moura e do Henrique Garcia Pereira).
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Madama Butterfly não é uma das óperas que eu levaria para uma ilha deserta e os trejeitos da Angela Georghiu irritam-me (as suas Mimis, que podem ser vistas no youtube, são um forte argumento em favor da censura). Mas se o Jorge Calado (que também não é um "admirador incondicional de Angela Georghiu") diz, na última edição do Expresso, que a nova gravação editada pela EMI é essencial, então é porque...é mesmo.
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Tenho assistido com grande pesar à queda de Espanha. Infelizmente, não há fim à vista pois Zapatero tem mais três anos para destruir um país que parecia, ainda há pouco tempo, ter-se libertado da maldição mediterrânica. O povo português, por outro lado, tem muita sorte: há eleições no próximo domingo e um fim possível para quatro anos miseráveis. Esperemos que esta grande oportunidade não seja desperdiçada (claro que o poço nunca tem fundo e há cenários sempre piores do que o anterior: imagine-se o Bloco de Esquerda no governo!).
Carlos Miguel Fernandes
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setembro 21, 2009
Fotografia em Budapeste

Passamos metade da vida distraídos. Vou a Budapeste desde 1997 e nunca reparei na Vintage Gallery, apesar de ter antes passado, e por várias vezes, na Magyar utca e no parque Karoly, a morada deste espaço dedicada à fotografia húngara, mesmo no centro da cidade. Na passada terça-feira visitei a galeria ao fim da tarde, vi a exposição de Lucien Hervé (1910-2007) — lá estavam as fotografias das obras de Le Corbusier (1887-1965), com quem o fotógrafo húngaro, nascido László Elkán, colaborou, de 1949 a 1965 — e falei com o director, Attila Pocze, que me ofereceu um catálogo de um surpreendente trabalho de Laszlo Káldor (1905-1963), exposto na galeria em 2002. Logo a seguir rumei ao Ludwig Múzeum, o que me custou uma longa jornada em três transportes diferentes, graças às obras da linha de eléctrico que percorre a marginal de Peste. Objectivo: a exposição de Robert Capa (até 11 de Outubro). Lá chegado, abatido por um longo dia e sem tempo para juntar a colecção permanente à visita, preferi a esplanada do museu, a dois passos do Danúbio.


No dia seguinte estive na Nessim Galéria, sita na Paulay utca, num dos meus bairros favoritos de Budapeste (entre a ópera e a sinagoga) e onde mais uma vez tive a sorte de pernoitar. O simpático director, Mihály Surányi, recebeu-nos com entusiasmo, falou-nos das fotografias do checo Ladislav Postupa (n.1929), que estão nas paredes da galeria desde 15 de Setembro, e apresentou-nos os trabalhos de alguns dos artistas representados pela casa. De dois deles, Ivo Přeček (n.1935) e Minyo Szert (n.1955), Mihály ofereceu-me os catálogos das suas últimas exposições (e tive o prazer de conhecer Szert, pois o fotógrafo estava na galeria nessa altura, um bom hábito que nem todos os artistas seguem). Talvez tenham nascido ali os alicerces de uma colaboração futura.


A etapa seguinte (e última) era a Casa da Fotografia Húngara. Sem uma exposição permanente, e com apenas uma mostra de fotografia astronómica (Space Imprints — Celestial Bodies and Phenomena), foi uma desilusão. Salva-se o edifício, construído em 1894 para o fotógrafo Manó Mai (1855-1917), com uma fachada revivalista e própria de outras paragens, e um estúdio de luz natural no último andar. Após uma rápida visita à interessante livraria, saí da Casa, sentei-me numa esplanada próxima, e preparei-me para desfrutar das últimas horas em Budapeste enquanto observava, invejoso, as pessoas a entrarem no Teatro de Ópera para assistir a Fidelio de Beethoven. Talvez um dia tenha o meu ano em Budapeste. Até lá, tenho que continuar com estas curtas visitas para manter viva uma longa relação.

Carlos Miguel Fernandes
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setembro 12, 2009
Progresso
Estou em Madrid. Às 14.20 tenho um voo para Budapeste e ao fim da tarde espero estar no Castro com uma caneca de Pilsner Urquell e meia dúzia de cevapcici à frente (sim, uma mistura de República Checa com Sérvia no coração da capital da Hungria). Se o Castro já não existir, vou logo para o Bhoeme, um dos poucos bares no centro da cidade que transportaram até ao presente o ambiente decadente e trágico da Budapeste comunista. Se o Bhoeme já tiver sido tragado pela moderna Beograd Rakpart, vou ao Central Kávéház (Café Central) comer o fígado de ganso. Se entretanto transformaram o Central num banco ou em coisa parecida vou à ponte dos leões, olho uma última vez para o castelo, e atiro-me ao Danúbio. Fica isto como nota de suicídio.
P.S. O voo está atrasado. Podia estar na Taberna del Mozárabe, ali para os lados da Gran Via, a comer as melhores almôndegas do mundo, e estou no aeroporto a comer umas almôndegas medíocres e frias. Mas pelo menos a noite passada, embora curta, deu para matar saudades das ruas vibrantes de Madrid.
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setembro 04, 2009
Pomposo, mecânico e desumano
Logo após a fundação do Segundo Reich e a proclamação de Guilherme I da Prússia como Kaiser, em 1871, Otto I escreveu uma carta ao seu irmão Luís II – rei da Baviera, a quem devemos a tri(+1)logia do Anel, de Wagner – na qual comentava assim as cerimónias que assinalaram o evento:
Não consigo dizer-te, Luís, quão infinitamente desgostoso me senti durante aquela cerimónia, quanto cada fibra do meu ser se revoltou contra tudo aquilo que presenciei. Foi tudo tão frio, tão orgulhoso, tão sumptuoso, tão ostentatório e pomposo e mecânico e desumano. Senti-me oprimido e completamente abatido naquele salão.Carlos Miguel Fernandes
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agosto 27, 2009
Outros Mundos
A morte não é, como no Ocidente, essa coisa imunda e terrível. Aqui come-se, as pessoas sorriem, dão as mãos umas às outras fazendo comentários judiciosos sobre a libertação do espírito e até há fotógrafos de serviço cobrindo a cerimónia. Os participantes receberão a sua foto. Aqui também há álbuns de fotografias sobre cerimónias fúnebres. A morte não é nem um começo nem um fim, é uma necessidade biológica e espiritual, dizia um médico meu amigo. "Quando partimos não sabemos se voltamos. Se voltamos, isso quer dizer que ainda não estamos preparados para a espiritualidade pura, ou seja, para o nada".
Miguel Castelo-Branco, no Combustões
Publicado por CMF às 12:57 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)
agosto 17, 2009
Miserável
Entreguei uma tese de doutoramento na secção de pós-graduação do Instituto Superior Técnico no dia 23 de Abril deste ano. Passaram quase quatro meses e o júri ainda não foi notificado. Quatro meses para se fazer uma reunião, e tratar de alguma papelada. Quatro, para já!
Conheço muito bem o ensino superior português, como estudante, investigador e professor, e posso resumi-lo numa palavra: miserável. Por isso, já não me surpreendem estas manifestações de incompetência e desconsideração (passaram seis meses entre a entrega da minha tese de mestrado e a sua discussão, e essa espera teve até consequências financeiras). No entanto, não consigo deixar de sentir, e cada vez mais, um enorme desprezo por este sistema que asfixia qualquer ambição, e dentro do qual mérito é uma palavra desconhecida. Culpados há muitos, mas não podemos deixar de apontar o dedo àquele que foi, com um pequeno intervalo, o rosto do ensino superior nos últimos catorze anos, o ministro Mariano Gago. Menorizar este facto ou dourar a realidade é apenas mais um sintoma da desonestidade intelectual que por aí abunda em ambiente pré-eleitoral.
Carlos M. Fernandes
Publicado por CMF às 09:18 PM | Comentários (5) | TrackBack (0)
julho 28, 2009
Arte e Ciência
Embora ainda esteja em construção, e talvez ainda tenha alguns erros, já está disponível a página da exposição Inside [Art and Science], na qual estou envolvido, e em vários "papéis". Inaugura no dia 24 de Setembro, na Cordoaria, em Lisboa, e para além das obras de 22 artistas contará também com um mini-ciclo de conferências, uma delas de Marco Dorigo, o criador do paradigma de optimização por colónias de formigas, e agora investigador na área da inteligência de enxame aplicada à robótica. Em princípio irei a Lisboa para a inauguração, até porque na mesma altura a P4Photography apresenta isto, a primeira exposição da próxima temporada, da qual serei o programador (principal).
Manoel J. Florenço - Out of the Box.
The History of Photography – more than any other art − is a work in progress. The very own nature of the medium and its worldwide expansion flooded the planet with an inconceivable amount of photographic images. The offensive started in the studios of the portraitists of the 1840s and 1850s, went through the emergence of photography as an art and it was completed with the democratization of the process. Photography has always been business, art and leisure. Even in nowadays, forgotten specimens can still be found on wooden boxes in dusty attics or underground stores of old commercial studios. (Recently, a bag has been found that maybe will fill some holes in both Robert Capa’s biography and the History of the Spanish Civil War.)
Vernacular photography − the new hype in photo collecting − is the accumulated result of Photography’s increasing popularity amongst 20th century middle-class families, eager of recording every second of their lives, making links with the past and the future; it is also the outcome of passionate amateurs’ activity, directed to common things, everyday life or bucolic landscapes. Although far from being a professional or an exhibition-oriented photographer, Manoel J. Florenço made an extensive set of photos that are hardly classifiable within the vernacular category. In fact, Florenço was born in 1884 and his body of work was mainly produced before the appearance of those small and portable cameras that continued George Eastman’s revolution and provided half the world with the means to keep a record of even the most banal of the activities. The snapshot is the foundation of vernacular photography while Florenço used a large-format camera with 18x24cm sized glass plates. On the other hand, a careful look at his work discloses his enthusiasm for distinct themes, switching from countryside landscapes to portraiture, passing through naval scenes and Lisbon street views, apparently with no strict rules or obsessive attitude. Florenço’s images may lack the formal sophistication of some his contemporary fellow photographers, but they have that distinctive freshness and spontaneity, even naiveté, only found in an amateur’s work.
P4Photography is proud to announce that the first (to the extent of our knowledge) exhibition of Florenço’s photos will be held at the gallery in September 2009, jointly with a series of editions that we hope will raise the public’s interest in the legacy of Manoel J. Florenço.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às 08:36 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)